segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

ORTA E AMATO, EXPOENTES DA MEDICINA DO SÉCULO XVI

Meu artigo acabado de sair no "As Artes entre as Letras":

  Na Medicina e na Botânica, então profundamente ligadas, sobressaem no século XVI Garcia de Orta e Amato Lusitano, os dois muito tempo longe da metrópole, um emigrado na Índia e o outro na Europa. Têm em comum a prática cuidadosa da Medicina e a análise de plantas com propriedades medicinais, como a raiz da China, que poderia curar a sífilis (Orta sofria desse mal). E os dois têm também em comum terem deixado escritos rigorosos baseados em experiência empírica.

Orta deixou uma única obra impressa, os Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia (1563), que tem a particularidade de ter sido escrita em português. Os Colóquios, um diálogo entre o autor e uma personagem ficcional, estão divididos em cerca de 60 capítulos descrevendo um número aproximadamente igual de drogas orientais, de origem vegetal, como o aloés, a cânfora, o ópio, os tamarindos, etc. Nesta obra surge a primeira descrição precisa das características, origem e propriedades terapêuticas de muitas plantas medicinais. Nos é também descrita pela primeira vez a sintomatologia de certas doenças raras e respectivos métodos terapêuticos, como a colera asiática. A divulgação internacional do livro deveu‑se ao botânico belga Charles de l’Écluse, que editou em Antuérpia um resumo em latim, sob o título Aromatum et Simplicium aliquot medicamentoru… (1567). Os Colóquios foram também divulgado em castelhano no livro Tractado de las drogas y medicinas de las Indias Orientales (1578), publicado em Burgos numa edição ilustrada pelo médico português, nascido no Norte de África, Cristóvão da Costa.

Orta e Amato estavam bastante actualizados, conhecendo as novidades do mundo moderno. Por exemplo, Garcia de Orta alardeou a sua auto‑confiança científica no Colóquio dos Simples, n.º 9:

“Não me ponhais medo com Dioscórides nem Galeno, porque não hei de dizer senão a verdade, e o que sei.”

Os dois criticaram o seu contemporâneo Vesálio. Orta escreveu, no Colóquio dos Simples:

“E destouta raiz da China dizem Vesalio e Laguna muitos males dizendo que é podre e sem virtude esta raiz da China e que custa muito dinheiro, e não tenho que ver com que custe muito ou que custe pouco, nem que seja cara ou barata, antes me parece bem o que diz Mateolo Senense, que basta para esta raiz ser boa mesinha, tomá-la o Imperador Carlos V e aproveitar-lhe.”

 E Amato escreveu ainda sobre a raiz da China, numa das Centúrias:

“Sobre ela me agrada falar aqui, visto que ate agora, que eu saiba, pouco ou nada foi dito e tanto mais que Andre Vesálio, há poucos dias, publicou um livrinho a que pôs o título “Da raiz dos Chinas”, no qual (poderia dizê-lo sem hostilidade pessoal) nada se encontra, alem do titulo, que diga respeito a raiz dos Chinas […] É Vesálio um insigne anatómico, muito sabedor e bastante versado na lingua latina...“

E noutro passo:

 “É isto que nos e os medicos profissionais muitas vezes percebemos. Eis porque Vesalio melhor teria feito neste assunto se tivesse encolhido a sua lingua virulenta em vez de aplicá-la, imbuido de falsas razoes de Averrois contra Galeno.”

 De seu nome original João Rodrigues, natural de Castelo Branco, formou‑se nas Universidades de Salamanca e de Siguenza, nas cercanias de Madrid, mas abandonou o País em 1534, no mesmo ano em que Orta o fez. Viveu primeiro na Bélgica, onde publicou a sua primeira obra: um comentário aos trabalhos de Dioscórides, Index Dioscorides (1536), sobre plantas medicinais. Mas foi depois para Itália, onde exerceu medicina em diversos locais, tendo sido médico pessoal de figuras notáveis. Publicou em Veneza In Dioscorides Anabarzaei de Medica materia Librum quinque (1553), um tratado muito completo sobre plantas de uso medicinal, onde são bem patentes os seus profundos conhecimentos nessa área. Ensinou e praticou anatomia na Universidade de Ferrara, no norte de Itália, onde chegou em 1541. Deve‑se‑lhe a descoberta da veia ázigos, em colaboração com o anatomista italiano Giambattista Canano, e das válvulas venosas, embora a prioridade não tenha sido logo reconhecida. Essa inovação contribuiu para a descoberta do sistema de circulação sanguíneo e do papel do coração, como uma bomba, por Harvey.

A obra mais notável de Amato foi Centúrias de Curas Medicianis (no original em latim Curationium Medicinalium Centuria), publicada entre 1531 e 1561, e que conheceu mais de 50 traduções em diferentes línguas. A primeira Centúria foi dedicada a Cosme de Médici, fundador da dinastia dos Médici. O cuidado com que apresenta as suas observações médicas é extremo, revelando‑se nisso muito moderno. Por exemplo, escreveu:

“Nesta nossa profissão, como muito bem sabem quantos a exercem, podem acontecer milagres e até se diz que a Medicina tem muito de Divino, mas temos que estar sempre atentos a todos os pormenores e aos mais pequenos sinais.”

Orta e Amato têm ainda em comum, para além das suas observações de botânica médica, o facto de ambos terem sido judeus obrigados a abandonar o reino. Tiveram, porém, destinos muito diferentes. Orta, que foi um médico reconhecido em Goa, não sofreu perseguições pela Inquisição em vida, mas apenas em morto. Com efeito, o Tribunal da Inquisição, que teve em Goa um dos seus principais centros, organizou um auto‑de‑fé em que condenou Orta quando ele já estava morto há 15 anos, tendo ordenado que se queimassem os ossos. Por sua vez Amato viu a sua obra ser muito censurada (as Centúrias caíram no Index Librorum Prohibitorum, a lista, criada em 1559, dos livros proibidos pela Igreja Católica) e teve de deambular por Itália (Veneza, Ancona e Ragusa) e, finalmente, de abandonar esse país, por razões em boa medida de ordem religiosa.

Nota: Este e textos anteriores aqui publicados são adaptações de trechos do meu livro “História da Ciência em Portugal”, Lisboa: Arranha Céus, que está a sair.

1 comentário:

  1. Não tivesse sido a estupidez da inquisição e a falta de visão dos governantes e este país logo nos descobrimentos teria tido ( e teve, mas sem continuidade) um arranque científico que deixaria o resto do mundo muito lá atrás.
    Era cá que se concentrava o saber fazer reunido da civilização clássica, refinado pela erudição árabe e posto em prática pela audácia germânica.
    Quando o conhecimento continuou a evoluir e a acelerar começamos a ficar para trás a cada passo, nunca as províncias unidas teriam levantado cabeça e se tornado a potência ameaçadora ao nosso império se a racionalidade organizativa, construtiva e cientifica aqui tivesse permanecido ao invés de ignorância e estupidez de doutos ignorantes da igreja que tudo percebiam e de nada sabiam!

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