terça-feira, 26 de outubro de 2010

"Eu nunca gostei do conceito de multiculturalismo"

Mesmo sem darmos conta, assentamos o nosso modo de pensar e os discursos que dele derivam em muitos lugares-comuns. Um dos lugares-comuns mais fortes nas sociedades ocidentais contemporâneas é, sem dúvida, o multiculturalismo.

Nessa medida, não podia deixar de ser transposto para o plano da educação formal e, como tal, um pouco por toda a Europa e América integrou-se o seu tratamento nos planos de estudo dos diversos níveis e áreas de escolaridade. Esperava-se, assim, obter uma melhor convivência entre pessoas de contextos diferentes, sociais, étnicos ou outros. Porém, grupos restritos ou alargados, formados a partir dos mais diversos critérios identitários, não param de afirmar as suas especificidades, e isto por oposição uns aos outros.

Não era isso que se previa que acontecesse quando se afirmava a necessidade de aceitar a diferença, de respeitar a diferença... O problema talvez esteja exactamente aí: na afirmação da "diferença" entre grupos, entre pessoas; "diferença" que tem sido incontestavelmente posta à frente da "igualdade".

Penso que está mais do que na altura de iniciarmos um debate sobre este assunto ainda que, pelo facto de estarmos a tratar de um lugar-comum, ele se afigure particularmente difícil. Mais: quem o enuncia, arrisca-se a ser politicamente incorrecto, a ferir susceptibilidades...

No programa Um certo olhar, da Antena 2 da Rádio, do passado dia 24 de Outubro, Maria João Seixas, na linha de pensamento de Karl Popper e de Fernando Savater, enunciou exemplarmente os contornos a imprimir a esse debate. Porque importa continuá-lo, deixo, de seguida, alguns extractos do que, nesse programa, foi dito de mais válido para o domínio da educação:

Maria João Seixas: "Eu nunca gostei do conceito de multiculturalismo, nunca. Porque acho que é falacioso. Eu acho que as nossas crianças, as crianças de cada um dos países europesus e do mundo deviam ser educadas com raízes na história do seu próprio país e com o desejo de virem a tornar-se cidadãos do mundo. E, nessa cidadania do mundo, se ela for naturalmente absorvida, há a porta aberta e as janelas abertas para a diferença, para as diferenças culturais, de cor de pele...

Luís Caetano: Mas não é isso que se pode chamar multiculturalismo?

Maria João Seixas: Não é bem. O multiculturalismo na última década (...) assumiu-se como uma bandeira e como um saco em que deviam caber partes de todos os sacos. Não tem de ser um saco onde cabem as partes de todos os sacos, não tem de ser assim (...).

Luísa Schmidt: Quando não se interage, quando não se comunica não há possibilidade de integração isso é que é uma questão importante aqui. É a humanização das relações."

Jacob de Castro Sarmento (1691? - 1762)


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra relativa à exposição, a inaugurar a 15 de Novembro na Biblioteca Joanina, sobre membros portugueses da Sociedade Real de Londres (na figura livro recém-publicado sobre esse notável judeu português):

Jacob de Castro Sarmento (1691? - 1762)

Médico. Foi eleito membro da Royal Society em 5 de Fevereiro de 1730.

De origem judaica, nasceu em Bragança. Formou-se em Artes na Universidade de Évora e em Medicina na Universidade de Coimbra. Para fugir à Inquisição estabeleceu-se em Londres, em 1721. Tornou-se membro do Colégio Real dos Médicos de Londres e obteve o grau de Doutor pela Universidade de Aberdeen, na Escócia.

Em Londres conviveu com os médicos Sequeira Samuda e Ribeiro Sanches e relacionou-se com altos dirigentes políticos portugueses em missão diplomática na capital britânica, tais como Marco António de Azevedo Coutinho e Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal. Manteve sempre relações com Portugal, exercendo uma forte influência sobre a cultura e a ciência portuguesa, ao divulgar as ideias mais modernas.

Ofereceu à Universidade de Coimbra, para uso nas aulas de medicina, um microscópio datado de 1731 e construído por Edmond Culpeper (1670-1738), que pertence hoje ao Museu da Ciência da UC.

Com a sua obra Teórica verdadeira das marés… (Londres, 1737) contribuiu para a difusão da filosofia newtoniana em Portugal. Na primeira parte do seu livro Matéria médica… (Londres, 1735), tratou do estudo químico das águas, usando as técnicas então mais recentes nessa área. Realçou as qualidades terapêuticas das águas minerais e fez uma tentativa de classificação sistemática dos medicamentos de origem mineral. Na segunda parte, publicada em 1758, classificou os medicamentos de origem vegetal e animal. No Apêndice ao que se acha escrito na Matéria Médica… (Londres, 1753) analisou as águas minerais das Caldas da Rainha. Notabilizou-se também na actividade comercial, exportando para Portugal a famosa “Água de Inglaterra”, um remédio à base de quinina utilizado para tratar o paludismo. Anos antes, na sua obra Dissertatio in novam, tutam, ac utilem methodum inoculationis… variolarum… (Londres, 1722) tinha estudado e divulgado os novos métodos de inoculação da varíola. Elaborou um plano pormenorizado para a criação de um horto botânico em Coimbra (1731), com a proposta, feita à Academia Real de História, do envio de sementes do Chelsea Physic Garden para esse horto.

Colaborou nas Philosophical Transactions com um artigo original, publicado em 1731, em que relata a descrição das minas de ouro e diamantes da região do “Serro do Frio” no Brasil, com a apresentação de observações astronómicas que recebeu de Portugal, enviadas por Carbone, Sachetti Barbosa e Chevalier, e de várias comunicações recebidas de cientistas estrangeiros.

Principais obras publicadas:

- Dissertatio in novam, tutam, ac utilem methodum inoculationis, seu transplantationis variolarum, Thessaliae, Constantinopoli, et Venetiis primò inventam, nunc que hac in Civitate… cum criticis notis in varios autores de hoc morbo scribentes. Editio secunda. Londini : [s.n.], 1722. [6], 40 p.

- Siderohydrologia, ou discurso pratico das aguas mineraes espadanas, ou chalybeadas, em que se mostra sua natureza, composição... Londres : [s.n.], 1726.

- A letter from Jacob de Castro Sarmento, M. D. and F. R. S. to Cromwell Mortimer, M. D. Secr. R. S. concerning diamonds lately found in Brazil
. Philosophical Transactions. London. 37 : 421 (1731) 199-201.

- [Projecto de] Bibliotheca Botânica [e Jardim Botânico] [Visual gráfico]. E. Oakley, archit. ; B. Cole, sculp. [S.l : s.n.], 1731. 73,8x54 cm. Projecto, não executado, de Jardim Botânico e Biblioteca Botânica para a Universidade de Coimbra, dedicado a Francisco Carneiro de Figueiroa, Reitor da Universidade. Com a legenda: "... Ichonographiam hanc ad Hortum Botanicum erigendum in Scientiae Naturalis et Medicinae Facultatis augmentum...". No canto superior direito, fig. alegórica "In Horto Proficiam".

- Specimen da primeira parte da Materia-medica historico-physico-mechanica, em que se tracta dos fossiles, e de todos os metaes, saes, pedras, terras, enxofres… e se mostram as propriedades e usos humanos dos ditos corpos, d'onde se acham, de que modo se alcançam ou purificam… Londres : [s.n.], 1731.

- Materia medica physico-historico-mechanica : Reyno mineral, Parte I, a que se ajuntam, os principaes remedios do prezente estado da Materia Medica; como sangria, sanguesugas, ventosas sarjadas, emeticos, purgantes, vesicatorios, diureticos, sudoriforos, ptyalismicos, opiados, quina quina [sic], e, em especial, as minhas Agoas de Inglaterra como tambem, huma Dissertaçam latina sobre a Inoculaçam das Bexigas. Londres : [s.n.], 1735. [2], 16, liii, 538 [i.e. 529], [22]; [2], IV, 43 p.

- Theorica verdadeira das marés, conforme a philosophia do incomparavel cavalhero Isaac Newton. Londres : [s.n.], 1737. XV, [8], 136 p.

- Relação de alguns experimentos e observações feitas sobre as medicinas de mad. Stephens, para dissolver a pedra… Ajunta-se um compendio historico de todos os factos desde a origem d’este descobrimento…
Londres : [s.n.], 1742.

- Tratado das operações de cirurgia, com as figuras e descripção dos instrumentos de que n'ella se faz uso, e uma introducção sobre a natureza e methodo de tractar as feridas, abcessos e chagas composto por Mr. Sharp, traduzido em português, e seguido da Materia-cirurgica. Londres : [s.n.], 1746.

- Appendix ao que se acha escrito na Materia Medica, do Dr. J. de Castro Sarmento, sobre a natureza, contentos, effeytos, e uso pratico, em forma de bebida, e banhos, das agoas das Caldas da Rainha… A que se ajunta o novo Methodo de fazer uso da agoa do mar, na cura de muitas enfermidades chronicas, em especial nos achaques das glandulas. Londres : [s.n.], 1753. 179 p.

- Do uso, e abuso das minhas Agoas de Inglaterra, ou Directorio, e instruccam, para se saber seguramente, quando se deve, ou não, usar dellas, assim nas enfermedidades agudas como em algumas chronicas e em casos propriamente de cirurgia. Londres : em caza de Guilherme Strahan, 1756. 288 p.

- Materia medica physico-historico-mechanica : Reyno mineral, Parte I, a que se ajuntam, os principaes remedios do prezente estado da materia medica… Ediçam nova, corrigida, e repurgada, a que se accrescentam por continuaçam desta obra, para fazela completa, os reynos vegetal, e animal, Parte II. Londres : em caza de Guilherme Strahan, 1758. 14, LI, [1], 580, [22], 6 p.

Notícias do Inimigo Público abrem ciclo de reflexão sobre media


Informação recebida da Livraria Almedina de Coimbra:

David Marçal, autor de humor científico no suplemento do Público, é o primeiro convidado da iniciativa promovida pela Almedina Estádio Cidade de Coimbra. No dia Dia 28 de Outubro, às 21 horas.

De onde surgem as notícias falsas do Inimigo Público? Como se processa a desconstrução satírica das notícias? David Marçal levanta o véu sobre os mistérios da criação noticiosa humorística, na próxima 5.ª-feira, à noite, na livraria Almedina Estádio. A sessão, intitulada “As Notícias Falsas do Inimigo Público”, decorre no âmbito do ciclo de tertúlias “O Discurso dos Media”, que se vai prolongar até Dezembro. A entrada é livre.

Uma das primeiras “revelações” do convidado da livraria Almedina diz respeito aos critérios de selecção das notícias. “O que conta é a importância na actualidade noticiosa, os interesses e gosto dos autores”, adianta David Marçal. “Claro que há notícias que são mais satirizáveis do que outras: é muito difícil fazer humor sobre humor e é muito apetecível tudo o que contenha uma incongruência implícita”, acrescenta ainda.

“No caso da ciência, um critério importante é conseguir encontrar uma maneira de ligar um tema de ciência com outro assunto da actualidade”, revela David Marçal, autor de centenas de textos de sátira científica, desde o início da sua colaboração com o suplemento Inimigo Público, em 2003. “No caso das más notícias, o humor poderá funcionar como um escape”, acredita o jovem escritor, recordando que a aceitação do Inimigo Público pelo público em geral tem sido boa, como comprova a longevidade do suplemento (7 anos).

Licenciado em Química Aplicada e doutorado em Bioquímica, David Marçal irá também falar do ciclo noticioso em ciência. O antigo jornalista de ciência não esquece que, para divulgar um artigo científico, “há uma necessidade de adaptação do discurso, porque o formalismo necessário da linguagem científica pura e dura não é acessível à maioria das pessoas. Mas o percurso é longo e pode-se perder muita coisa na tradução!”, alerta David Marçal.

O Ambiente, a pseudociência e a importância da cultura científica como imperativo de cidadania são outros dos temas abordados por David Marçal, durante a primeira sessão do ciclo “O Discurso dos Media”.

A livraria Almedina propõe, com esta iniciativa, uma abordagem original à temática da comunicação. Com exemplos práticos e partilha de experiência, o ciclo de tertúlias vai focar as estratégias de comunicação empresarial (11 de Novembro), os desafios levantados pela comunicação nas redes sociais (25 de Novembro) e, ainda, no dia 9 de Dezembro, as emoções no discurso mediático. As sessões têm sempre início às 21 horas e são gratuitas.

Sobre David Marçal

Nascido em 1976, em Lisboa. Licenciado em Química Aplicada e doutorado em Bioquímica, fez investigação nos contextos académico e industrial. Foi, por um curto período, jornalista de ciência do Público e autor de temas científicos para crianças na revistakulto”. Desde 2003 é autor de humor científico no suplemento satírico Inimigo Público, tendo escrito centenas de textos de sátira científica. Actualmente, desenvolve um projecto de comunicação de ciência recorrendo ao teatro e ao humor, tendo criado vários espectáculos nesse âmbito: é coordenador dos Cientistas de Pé (um grupo de stand up comedy com cientistas), co-autor do espectáculo de Teatro Fórum "De que falamos quando falamos de cientistas" levado à cena no Teatro Nacional D. Maria II, autor dos monólogos satíricos "Stupid Design" e "Método do Bosão de Higgs", ambos criados para o Museu de Ciência da Universidade de Coimbra. Foi vencedor do "Prémio Químicos Jovens / Gradiva 2010" da Sociedade Portuguesa de Química, e do "Prémio Ideias Verdes 2010", promovido pela Fundação Luso e pelo Jornal Expresso.

Executam-se trabalhos - Novas Oportunidades

Por diversas vezes tem-se aqui, no De Rerum Natura, falado na fraude nos trabalhos académicos, com destaque para o ensino superior, nível de ensino onde o assunto parece causar mais estranheza. Mas, onde ela está, neste momento, mais presente é, tanto quanto sei, nas Iniciativa Novas Oportunidades, havendo quem, assumindo as mais elevadas responsabilidades na Agência Nacional para a Qualificação, a justifique!

Assim sendo, a conotação negativa que poderia ter esse "pagar-a-alguém-para-fazer-um-trabalho-que-dá-acesso-a-um-diploma", atenua-se, dilui-se, desaparece. E a prática torna-se corrente, normal...

Uma prova foi-nos enviada, em comentário, pelo nosso leitor João Boaventura, a quem agradecemos. Trata-se de um anúncio na Internet que mais claro não poderia ser (os sublinhados, aspectos espantosamente reveladores, são meus):
Executam-se trabalhos - Novas Oportunidades

Localização: Porto, Portugal
Data de publicação: Outubro 6
Professores com experiência de 2 anos na área, executam trabalhos para alunos das novas oportunidades.
Se não tiver tempo de concluir o seu trabalho, nós fazemos por si.
Para mais informações contacte....
Não se omite nem nome pessoal, nem número de telefone, nem endereço electrónico. Tudo de "cara destapada", portanto...

A atrevida ignorância

A espantosa entrevista do responsável pelas Novas Oportunidades, que a Helena já aqui comentou (também aqui e aqui), só veio confirmar o que já se sabia: a ignorância é muito atrevida!

Portugal no antepenúltimo lugar


O jornal "El País" de domingo passado elucida, mostrando números do recente Relatório da Economia Mundial do FMI, qual é o nosso lugar no ranking das nações no que respeita ao crescimento económico (medido em percentagem de aumento do PIB) na década passada, entre 2000 e 2010. Em 180 nações, o nosso lugar é o antepenúltimo (com 6,47%), apenas ficando atrás de nós a Itália (2,43%) e o Haiti (-2,39%, é o único que não cresce). A Espanha está no lugar 144 com 22,43% de crescimento, o que não é nada mau, melhor do que os Estados Unidos e a Alemanha, por exemplo. Do outro lado da lista, entre as economias que mais cresceram encontram-se, entre outros, Angola (5.º lugar, 181,87%) e China (6º lugar, 170,86%).

As previsões para os próximos cinco anos são sombrias: Portugal, continuando com a sua economia estagnada, será o país que menos crescerá (com 4,1%, ainda menos do que na primeira década). O Haiti não sei. Ma a Itália (6,5%) e a Espanha (9,1%) farão melhor do que nós, para já não falar da China, que continuará a crescer muito: 57%, mais de 10% ao ano.

O artigo "A década perdida de Itália e Portugal" de Alicia González, que comenta esses números, pode ser lido aqui, traduzido do "El País".

São conhecidos os responsáveis pelos sucessivos governos na década passada. Mas não o são os da próxima meia década. Conseguirão eles mostrar que as previsões do FMI estão erradas? Oxalá que sim, mas receio bem que não.

Biblioteca Joanina mostra microscópio mais antigo de Portugal


Transcrevemos notícia do jornal "As Beiras" (ligeiramente editada):

O microscópio mais antigo do país, oferecido pelo médico Jacob de Castro Sarmento à Universidade de Coimbra (UC), vai estar patente numa exposição na Biblioteca Joanina, no âmbito da abertura do piso intermédio deste monumento emblemático.

O instrumento foi doado no início do século XVIII pelo médico (formado pela UC), que era membro da Royal Society of London, e será exibido no âmbito de uma exposição, a inaugurar a 15 de novembro, sobre os sócios portugueses dessa academia científica.

O diretor da Biblioteca Geral da UC (BGUC), Carlos Fiolhais, disse hoje à agência Lusa que com a abertura, a 1 de novembro, do piso intermédio da Joanina, os turistas passam a ter acesso por inteiro a este “ex-librisdo Paço das Escolas.

Atualmente os turistas podem visitar o piso nobre da Biblioteca Joanina, “um dos sítios mais procurados da UC pelos turistas e talvez mesmo do país”, segundo o catedrático, estando também acessível o piso inferior, a antiga Prisão Académica, que tem acolhido várias exposições.

A exposição sobre os sócios portugueses da Sociedade Real de Londres, a academia cientifica mais antiga do mundo ainda em funcionamento, vai permitir conhecer melhor 25 membros nacionais desta instituição, à qual pertenceram por mérito próprio, e que são na sua maioria do tempo da construção e abertura da Biblioteca Joanina – explicou Carlos Fiolhais.

O original dos Estatutos da UC devidos ao Marquês de Pombal vai estar também exposto na mostra, em que vão igualmente ser focados aspetos da vida de João Jacinto de Magalhães, outro português membro da Royal Society of London, cientista que patrocinou um prémio científico ainda atribuído atualmente por uma sociedade americana.

“É um encontro com a história, a Biblioteca Joanina é um sítio emblemático da nossa história”, vincou o diretor da BGUC.

Esta exposição vai estar patente até Fevereiro e compreende, no dia 10 de dezembro, um colóquio com convidados da Sociedade Real de Londres.

Preenchido com livros antigos, o piso intermédio dos três da Joanina que, a partir do próximo dia 1 também poderá ser apreciado pelos turistas, vai ser animado com exposições periódicas mostrando, por exemplo, edições do rico espólio da UC – segundo Isabel Gomes, responsável pela gestão do circuito turístico do Paço das Escolas.

Além dos vários espaços da Universidade já disponíveis para os turistas, esta responsável adiantou à Lusa que a Torre da UC deverá também abrir ainda este ano ao público para visitas regulares.

Para “mostrar toda a beleza e potencial histórico” do espaço, estão também previstos para 2011 um plano de concertos e uma exposição de fotografia, na Prisão Académica, sobre a Biblioteca e o Paço das Escolas, entre outros eventos destinados a dinamizar o circuito turístico da UC.

“A Universidade de Coimbra é, provavelmente, o espaço mais visitado em Coimbra e um dos mais visitados na região Centro. Convém que a satisfação de quem nos visita seja aumentada”, disse esta responsável, que estima que cerca de meio milhão de pessoas aceda anualmente ao Paço das Escolas.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O autarca com o sexto ano e o jovem com o secundário

Esta é terceira e última nota que aqui deixo à esclarecedora entrevista de Bárbara Wong ao director da Agência Nacional para a Qualificação.

Há um princípio pelo qual essa Agência se pauta e que, em sequência, orienta todas as acções que desenvolve. Esse princípio é que as aquisições académicas, profissionais e pessoais podem reverter-se umas nas outras, no final, equivalendo-se. Responde o referido director à pergunta feita:
"Um adulto pode chegar com o 6.º ano e sair, em poucos meses, com o 12.º?
Pode acontecer. Há uma ruptura com a lógica de disciplinas, das metodologias de ensino e aprendizagem para uma lógica mais abrangente de evidenciar o que o adulto sabe e integrar a sua experiência. Um autarca com o 6.º ano não tem experiência e competências que lhe permita terminar o secundário? Não tem mais do que um jovem de 18 anos que conclui o secundário? Não vou preocupar-me com o tempo que as pessoas levam a adquirir um certificado."
Estamos perante um princípio que, mais do que duvidoso, é errado, absolutamente errado. Os três tipos de aquisições em causa são de natureza diferente, apelam a capacidades diferentes e têm modos diferentes de expressão.

Detendo-me apenas nas aquisições académicas, não posso deixar de reconhecer que algumas delas poderão ser transpostas para o domínio profissional e até para o domínio pessoal, acrescentando que, quando essas aquisições decorrem de escolhas acertadas, é mesmo desejável que isso aconteça.

Mas devo salientar que elas têm uma identidade própria e um modo de apropriação também próprio. É essa identidade e esse modo de apropriação que constituem a razão de existir da escola e, decorrentemente, do ensino e da aprendizagem formal.

Quando sugerimos que o meio profissional e a nossa vida quotidiana nos permitem aceder ao mesmo a que a escola nos permite aceder, ou até a mais do que a escola nos permite aceder, é a própria escola que, afinal, consentimos em dispensar.

Os diplomas correspondem às competências


Nenhum conhecimento digno de crédito da área das ciência da educação ou estratégia docimológica (estudo da avaliação) nos permite afirmar com toda a certeza, sem qualquer margem para dúvidas, que os resultados académicos obtidos pelos alunos e, em sequência, os diplomas que recebem, correspondem directa, linear e integralmente ao que se pretendia que aprendessem.

Quem estudou minimanente estes assuntos saberá que certas linhas de investigação pedagógica têm, desde o início do século XX, trabalhado de maneira exemplar no assunto, o que se tem traduzido em princípios e técnicas de avaliação que, uma vez usadas correctamente, permitem obter uma maior aproximação entre o que se se pretende ensinar e o que os alunos revelam do que aprenderam.

Assim, não se pode afirmar que: "Os alunos quando obtêm um diploma, esse corresponde às competências que têm. Existem referenciais que estabelecem as áreas de competências que têm que ser possuídas e toda a avaliação de conhecimentos e os júris de certificação garantem que as pessoas possuem essas competências (...) as competências certificadas correspondem às possuídas".

Porém, esta afirmação peremptória foi feita por alguém que, além de ter ao que parece formação pedagógica, assume responsabilidades educativas assaz relevantes a nível nacional. Trata-se de uma afirmação tanto mais estranha quanto é certo que o conceito de competência é vagamente definido e diversamente entendido, mesmo pelos seus mentores.

Mais baralhados ficamos quando esse alguém declara que, afinal, nem valoriza sobremaneira os diplomas escolares. Pelo menos é o que se depreende quando numa postura dubitativa refere: "Há um factor social muito forte que tem a ver com o valor dos diplomas escolares. São muito valorizados."

Para se perceber melhor do que falo, leia-se a recente entrevista de Bárbara Wong a Luís Capucha aqui.

"Críticas, mentiras e afirmações de quem não quer mentir mas fala do que não sabe"

Sigo uma recente entrevista de Bárbara Wong a Luís Capucha, director da Agência Nacional para a Qualificação, criada para acolher a Iniciativa Novas Oportunidades (INO) e o ensino profissional e artístico especializado”. Devo dizer que encontro nessa entrevista indícios muito preocupantes de total ausência de atitude científica, que sistematicamente tem vindo ao de cima por parte de quem tem responsabilidades na educação formal. Dou os seguintes exemplos:

1. Em vez de se encararem as críticas ou, pelo menos, algumas delas como uma possibilidade de análise e de correcção de eventuais erros, descredibiliza-se, menoriza-se, acusa-se, calunia-se quem as faz.
À pergunta de Wong "a opinião publicada tem colocado reservas à INO. Muitos dizem que esta só serve para dar diplomas. É assim?” o senhor acima referido responde: "Surgem críticas, mentiras e afirmações de quem não quer mentir mas fala do que não sabe".

Quem critica só pode, pois, ser mentiroso. E se não for mentiroso será ignorante!

Mais adiante, respondendo a outra pergunta - "Porque é que não se fez antes esta mudança?" - acrescenta: "A democratização de acesso implica verdadeira abertura social e de mobilidade, o que cria pressão junto de determinadas elites que não deixaram de reagir. Há uma democratização mal tolerada do acesso aos diplomas escolares".

Quem critica é, portanto, necessariamente, preconceituoso e anti-democrata...

2. Em vez de se esclarecem dúvidas que se colocam a quem está de fora, mas que legitimamente quer conhecer e compreender, recorre-se a arrazoados a redundâncias que nada esclarecem, antes confundem... ainda mais.
À pergunta de Wong “uma das críticas é que os adultos não aprendem disciplinas formais”, o mesmo senhor responde: “Desminto. Há regras a cumprir que têm a ver com o cumprimento dos procedimentos necessários.
Se “há regras a cumprir”, que regras são essas que não podem ser claramente referidas?... Se "têm a ver com o cumprimento dos procedimentos necessários”, que procedimentos são esses, que não podem ser enunciados?

3.
Em vez de se sistematizarem racional e objectivamente argumentos, recorre-se a crenças, a convicções individuais ou colectivas (não, isso não é filosofia da educação!).
À pergunta de Wong "Nessa velocidade não se perde qualidade?", o dito senhor responde: "O primeiro pilar da qualidade é a quantidade. Digo-o com toda a convicção. Sabemos que alunos de determinadas vias de ensino aprendem a fazer exames e a tirar notas, mas não sabemos se sabem alguma coisa quando acabam."
4. Em vez de se recorrer a conhecimento pedagógico sólido e aos meios que faculta ao ensino, à formação, à aprendizagem... recorre-se a sensiblidades de mercado e a opiniões que, acresce, serem opiniões em causa própria.
À insistência de Wong na pergunta "no processo de RVCC, as pessoas são avaliadas pelo que sabem e não pelo que aprenderam. Concorda?", o senhor em causa responde: "Há dois grandes indicadores que mostram que as pessoas saem mais capacitadas, preparadas para os desafios: a adesão das empresas à INO e os testemunhos das pessoas".

How low can you go?

Já disse várias vezes que isto de viver sem objectivos e metas a atingir, sem ter uma estratégia de médio e longo prazo, só podia dar no que está à vista.

Esta entrevista ao Público de Stéphane Garelli, professor da famosa escola de negócios Suíça IMD, deve ser lida com atenção.
"Quando Portugal se juntou à União Europeia, a estratégia foi "somos o país mais low cost da Europa, nenhuma empresa fabricará mais barato do que em Portugal" e as empresas vieram. Mas depois apareceram a República Checa e a Hungria e a Polónia. Este foi provavelmente o maior erro: não ter usado aquela pequena janela de oportunidade para fazer qualquer outra coisa do que ter apenas a ambição de ser low cost. É importante ter uma estratégia. Têm de saber para onde vão e definir algo em que possam ser bons, que tenha a ver convosco, com aquilo em que vocês são bons."
"Não tem receio que Portugal entre em default?
Não. O pior que poderá acontecer é um reescalonamento da dívida, mas não penso que possa haver incumprimento. Porque se houver default, o risco para toda a Zona Euro será enorme. E mesmo quando se diz que a Alemanha está a fazer imposições é preciso ter em conta que a Alemanha vive das exportações e para as ter precisa de clientes, que também estão em Portugal.

O aumento de impostos era inevitável? Havia alguma outra coisa que o Governo pudesse ter feito?
No meu país fizemos uma coisa que pode dar uma ou duas ideias. Há alguns anos criámos uma lei que definia que nenhum gasto deve ser aprovado sem que ao mesmo tempo seja votada a criação de receitas. Não se pode ir ao Parlamento dizer que vamos gastar x ou y sem ao mesmo tempo definir como vamos levantar o dinheiro. Este foi provavelmente uma boa ferramenta para obrigar o Governo a ser cauteloso e é uma coisa que talvez se pudesse tentar em Portugal."

Mexia vs Mickey

Esta notícia sobre a pseudo-empresa EDP (sim porque uma instituição que tem monopólio e não se sujeita à concorrência é empresa só no papel) leva-me a fazer três perguntas simples.

Pergunta 1: Quando é que eu, contribuinte e cidadão nacional, posso escolher a empresa que me fornece electricidade?

Pergunta 2: Será que esta "perda" da EDP não se vai reflectir nas facturas daqueles que não podem "FUGIR" à EDP, isto é, nas facturas de todos nós?

Pergunta 3: Se o Dr. Mexia fosse substituído na administração da EDP pelo Rato Mickey a preto-e-branco, os resultados da EDP seriam diferentes?

Alguém me pode responder?

"e ali lhes deitaram a sua água de baptismo..."


Excerto do livro "Grácia Nasi. A judia portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino", de Esther Mucznik (Esfera dos Livros) sobre o baptismo obrigatório de judeus no tempo do rei D. Manuel I:

"Numa sexta-feira, a 19 de Março de 1497, muito antes de findar o prazo para a saída, estipulado para Outubro, foi dada ordem de baptismo compulsivo de todas as crianças de 4 a 14 anos no domingo seguinte, dia de Páscoa judaica. Seguindo a táctica de atingir os pais através dos filhos, estes seriam retirados aos seus progenitores para serem educados na fé cristã.

As crianças foram assim arrancadas aos pais em verdadeira cenários de horror: "Os pais, levados ao desespero, vagavam como dementes, as mães resistiam como leoas. Muitos preferiam matar os seus filhos com as suas próprias mãos; sufocavam-nos no último abraço ou atiravam-nos em poços ou rios, suicidando-se em seguida." Condoídos, muitos cristãos escondiam crianças judias para poupar os pais a tal sofrimento. "Os próprios cristãos", escreve um autor anónimo, "movendo-se a piedade, e em face dos bramidos e choros que os tristes pais e amorosas mães faziam por aqueles pedaços das suas entranhas que, à força, viam arrancar deles sem esperança de mais poder lograr, escondiam e salvavam crianças." Fernando Coutinho, líder do partido clerical que no Conselho Real se opusera à expulsão, e mais tarde bispo de Silves escreverá uns anos mais tarde: "Vi com os meus próprios olhos como muitos foram arrastados pelos cabelos até à pia baptismal, como um pai, com a cabeça encoberta, sob dores e lamentações, acompanhou o seu filho e, de joelhos, clamou ao Todo-Poderoso que fosse testemunha de pai e filho, unidos como professos da lei mosaica, desejarem morrer como mártires do judaísmo. Vi actos ainda mais pavorosos, verdadeiramente incríveis, que lhes foram infligidos." "

A visita de Chávez


Leio num despacho da Lusa as declarações do presidente venezuelano Hugo Rafael Chávez à chegada a Portugal:

"Estou muito contente por estar em Portugal. Estamos à procura de oportunidades em todo o mundo e viemos aqui a pedido do meu amigo José Sócrates, um bom homem. Num momento difícil para Portugal, viemos dar-lhe as duas mãos".

Não veio o FMI, mas sim Chávez. Não seria melhor o FMI?

TORPOR

Só me ocorre uma palavra para descrever a não reacção da população portuguesa perante o assalto fiscal que está anunciado (os dois principais partidos estão praticamente só a negociar o IVA do leite achocolatado) para já não falar dos cortes salariais, em princípio só para os funcionários públicos: Torpor.

Consulto o Dicionário Houaiss para saber se é mesmo a palavra certa:

"1- sentimento de mal-estar caracterizado pela diminuição da sensibilidade e do movimento, entorpecimento, estupor, insensibilidade.

2- indiferença ou apatia moral , indolência, prostação

3. (MED.) ausência de reacção a estímulos de intensidade normal.

ETIM: lat torpor/óris entorpecimento, inércia, languidez, preguiça."

E é.

domingo, 24 de outubro de 2010

A AVALIAÇÃO EXTERNA DAS NOVAS OPORTUNIDADES


“Reivindicar direitos sem proclamar obrigações é querer o impossível, é jogar às utopias ou às catástrofes” (Raymond Polin, filósofo francês, autor da obra “La compréhension des valeurs”).

Mesmo num país em que a tolerância tem a elasticidade das conveniências dos seus corifeus, muito me admiraria que um estudo encomendado pelos próprios interessados para dar um determinado resultado o contrariasse.

Por outro lado, que interesse teriam os beneficiários das Novas Oportunidades em dizer mal de uma formação que transveste ignorantes em sábios, enquanto o diabo do oportunismo esfrega um olho? Ou, dito de outra maneira, em morder a mão que lhes deu um presente, ainda que envenenado, por saberem no íntimo das suas consciências que foram joguetes de uma viciada estatística para aumentar o número de portugueses prontos a tomarem de assalto as universidades, tirando, por vezes, como foi denunciado recentemente nos media, o lugar a estudantes do ensino regular?

O comentário de João Boaventura ao post de Helena Damião, Auto-estima, segurança e extroversão (23/10/2010) é uma crítica mordaz, que não dá lugar a dúvidas, a este deplorável status quo. Quanto a mim - com o peso da responsabilidade de ter tecido, naquilo que tenho como dever de cidadania, vários textos críticos sobre esta temática -, as Novas Oportunidades são um insulto de uma sociedade medíocre que mais não pretende do que ampliar essa mediocridade aos seus cidadãos e cidadãs para não sofrer o peso da solidão.

Nada disto seria, assim, tão grave, como é, se não servisse de mau exemplo para os nossos jovens do ensino secundário, que desperdiçam energias em ingentes tarefas escolares num percurso de três anos lectivos de sangue, suor e lágrimas para obterem um diploma que, sabemos agora, mais não vale do que os cinco réis de mel coado de uma equivalência a seis meses de Novos Oportunismos. Ora, um Estado que despende balúrdios com escolas estatais de ensino secundário para fazerem o mesmo que as Novas Oportunidades (com formadores mal pagos e vítimas de instabilidade contratual) deverá ser responsabilizado pelo mau uso que faz dos dinheiros públicos, dos nossos impostos. Impostos que muito se irão agravar no próximo ano de grande sacrifício para as famílias portuguesas, que passarão a ser prejudicadas no IRS por tectos mais baixos no que respeita a despesas do âmbito da educação dos seus filhos.

Todo este circo pode ser sintetizada neste excerto de um texto de Mario Perniola, professor de Estética da Universidade “Tor Vergata" de Roma. Escreveu ele:

”Os fautores da tradição, que apelam para os valores, para o classicismo, para o canôn, são postos fora do jogo por esses funâmbulos, esses equilibristas, esses acrobatas, que também querem ser eternizados no bronze e no mármore. E quem diz que o não conseguem? Há sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as tolices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida”.
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Ora, como nos ensina a sabedoria popular, "nas costas dos outros lemos as nossas". Não será altura, portanto, de meditarmos, os responsáveis e todos nós, sobre os funestos efeitos de uma pretensa "obra democrática e progressista" que nos querem impingir à viva força,e que mais não é do que querer fazer passar gato por lebre? Refiro-me, é óbvio, às Novas Oportunidades!

sábado, 23 de outubro de 2010

Auto-estima, segurança e extroversão

A leitura de um artigo de Bárbara Wong, publicado no jornal Público de ontem, dia 22 de Outubro, permitiu-me saber que a Iniciativa Novas Oportunidades foi recentemente objecto de avaliação externa, realizada por uma equipa da Universidade Católica Portuguesa, coordenada pelo ex-Ministro da Educação Roberto Carneiro.

Os dados dignos de atenção (e de um questionamento profundo) são vários e, ao que percebi, todos positivos, ao ponto de se ter sublinhado a necessidade de se continuar a apostar no alargamento do programa e de os peritos internacionais convidados pela Agência Nacional para a Qualificação terem declarado as “Novas Oportunidades”uma boa prática, um exemplo a seguir por outros países”.

Destaca o artigo que as pessoas que passaram por esse contexto (que não sei como designar se educativo, se formativo...) referiram, no inquérito que lhes foi distribuído, que ele teve um impacto na melhoria da sua vida profissional, no seu salário e regalias laborais, no seu nível de literacia e de inclusão, no uso que passaram a fazer das novas tecnologias, no alargamento de “competências pessoais e sociais, cívicas e culturais”, na vontade que lhe despertou para prosseguirem estudos.

Aqui devo notar que, tratando-se de um inquérito, ele apura percepções, concepções, representações que as pessoas, na sua subjectividade e tendo em conta a lógica de passagem referem... Mas não apura o que efectivamente acontece.

De entre todos os dados acima referidos há um que me preocupa de modo particular e que já tinha visto invocado por diversas vezes: a evidência de sentimentos de "auto-estima", de "segurança" e de "extroversão” por parte dessas pessoas.

Ora, tanto quanto sei, estas são categorias psicológicas e não pedagógicas, que, nessa medida, requerem métodos próprios de medição (que os há devidamente validados), aplicados por técnicos especializados em psicologia. Assim, não podem ser identificadas com segurança através de respostas a itens dipersos num inquérito que, presumo, pretendia medir estas e várias outras categorias pedagógicas e profissionais.

A música, sim, a música…

Espreitei pela janela que a internet faculta à Casa Fernado Pessoa. Nessa casa há um Banco de Poesia. Desse fededigno e já extenso Banco recolhi o seguinte poema de Álvaro de Campos:

A música, sim, a música…

A música, sim, a música…
Piano banal do outro andar…
A música em todo o caso, a música...
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda criatura humana,
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor…
A música… Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal
Mas é música…

Ah, quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas!
A música…
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música…
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.

Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música…!

Fernando Pessoa, 19 de Julho de 1934 .
In Poesia, Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002.

"Apesar de tudo era importante que os alunos convivessem com os professores”

Não entenda o leitor que o propósito deste texto é defender os responsáveis por políticas e medidas educativas nem os especialistas em ciências da educação ou em pedagogia. Não são, aliás as pessoas que se defendem, se questionam ou se combatem, mas as ideias que veiculam.

Porém, depois de ter lido duas entrevistas ao Professor António Câmara (aqui e aqui) e das quais Norberto Pires disponibilizou aqui extractos, não pude deixar de pensar, que se tivesse sido um político ou um pedagogo a fazer tais afirmações, o impacto nos leitores teria sido diferente.

Independentemente da pessoa que faz tais afirmações, elas não podem deixar de requer ponderação, mesmo quadro do ensino universitário, que me parece ser aquele em que o entrevistado se situa.

O primeiro aspecto a ponderar é o facto de o Professor António Câmara se referir a um nicho intelectual e empresarial português. Nesse nicho concreto, é bem possível que “a maior parte das pessoas (seja) dez vezes melhor a matemática que qualquer americano que trabalhe na Google”. Mas esta afirmação não pode ser generalizada para a "literacia matemática" que resultados de provas internacionais indicam, de modo recorrente, que, em média, nos distanciamos muito, dos países com melhores resultados.

O segundo aspecto a ponderar é que as considerações que o Professor António Câmara faz sobre o ensino, incidem no nível superior. Neste patamar algumas afirmações são verdadeiras: os alunos, por serem adultos e por, supostamente, serem autónomos e terem interesses próprios que querem seguir, poderão aprender noutros contextos que não o de sala de aula. Isto é o que acontece nas nossas universidades quando se fazem trabalhos de mestrado, doutoramento ou outros, em que em ambiente de seminário, ou tutorial se exploram ideias, se seguem pistas, se analisam dados… Como se perceberá, estas estratégias não tiram o mérito a outras mais vocacionadas para a transmissão de informação a grandes grupos, como, por exemplo, a conferência, a aula magistral, etc.

O terceiro aspecto a ponderar é que se a sala de aula pode não ser o espaço privilegiado para desenvolver as primeiras estratégias, já o é para desenvolver as segundas. Por outro lado, temos de ponderar de sala de aula falamos - sala de aula com ou sem equipamentos especiais, por exemplo -, sendo que algumas aulas ou encontros entre professores e alunos não dispensa a sala de aula.

O quarto aspecto a ponderar é a cnjectura de que a ausência dos estudantes universitários nas aulas não se deve ao facto de “serem mandriões”, mas ao facto de não encontrarem “oferta” para o que “procuram”. Ora, se todos os alunos quando chegam ao ensino superior soubessem exactamente o que queriam, estariam ao nível de todos os professores, superando, evidentemente cada um. Os primeiros passos nesse ensino, até tendo em conta certos “públicos” pouco interessando no conhecimento que muitas universidades, no presente, recebem, terá de ser, suponho, mais guiado, mais estruturado, do que nos passos seguintes. E isto para que os alunos em geral, e não apenas umas quantas excepções, adquiram saberes fundamentais, organizem ideias… e possam vir a reunir-se, produtivamente, com professores debatendo essas ideias.

O quinto aspecto a ponderar, decorrente do anterior, é que, mesmo na universidade, o professor não pode deixar de ter uma função importante de ensino, que é do domínio do formal, e não só nem principalmente de convivência, que é do domínio do informal. Assim, discordo do Professor António Câmara quando subscreve as seguintes palavras do presidente da Universidade Virginia Tech, Charles W. Steger: “apesar de tudo era importante que os alunos convivessem com os professores.”

Um sexto e último aspecto a ponderar é que as tecnologias e a arquitectura pela importância que lhe temos atribuído em termos de aquisição e expressão de informação podem substituir os professores. Na verdade, trata-se de crenças (que não colhem confirmação pedagógica), a primeira mais antiga, a segunda mais moderna e assumida muito debatida últimamente em Portugal pela mão da empresa Parque Escolar.

IMAGENS EM CIÊNCIA


A propósito do recente falecimento do matemático Benoît Mandelbrot, craidor de imagens como a de cima (conjunto de Mandelbrot) recupero um texto meu do livro "A Coisa Mais Preciosa que Temos" (Gradiva):

Algumas imagens ficaram lendárias na ciência. A física atómica começou em 1896 quando o alemão Wilhelm Roentgen, o primeiro prémio Nobel da Física, descobriu inadvertidamente os raios X, ao reparar que uma placa fotográfica ficava impressionada mesmo que não tivesse sido exposta a radiação visível. Uma imagem que ficou famosa foi a da própria mão de Roentgen vista aos raios X (que, em alemão, são conhecidos por “Roentgenstrahlung”, raios de Roentgen). A própria física nuclear começou mais ou menos na mesma altura também com uma imagem casual: o francês Henri Becquerel deixou embrulhado numa película fotográfica um pedaço de minério de urânio e a película, quando revelada, mostrou evidência da radioactividade natural do urânio. O núcleo atómico surgiu desta maneira inusitada.

Lembremos ainda, do outro lado da escala do mundo, as primeiras imagens de astronomia recolhidas pela luneta do italiano Galileo Galileo e desenhadas pela mão deste no século XVII: as crateras da Lua, a face manchada do Sol, as luas de Júpiter. Quão longe se estava mas quão perto se ficou das imagens recolhidas hoje pelo telescópio Hubble, que olha, por cima da atmosfera, para tudo quanto é sítio! A astronomia já existia antes do telescópio, mas a astronomia moderna é inimaginável sem o telescópio e as imagens que este prodigiosa e prodigamente fornece.

Nas ciências da vida, ocorreu uma revolução profunda quando apareceram imagens de pequenos e estranhos microorganismos no primeiro microscópio manejado no século XVIII pelo holandês Anton van Leeuwenhoek. Onde não havia nada passou a haver um jardim zoológico de criaturas nunca antes imaginadas. A realidade microscópica era mais estranha do que a mais delirante ficção.

As novas imagens criadoras de ciências novas foram possibilitadas por instrumentos como os telescópios e microscópios, que trouxeram realidades distantes para o alcance da nossa vista e da nossa compreensão. Ao mostrarem a realidade reduzida ou ampliada criaram uma nova realidade. Questões científicas novas surgiram em catadupa, entroncando nas que já existiam e sendo resolvidas de modo semelhante. E também surgiram questões filosóficas inéditas, como a de saber se as luas de Júpiter ou os micróbios numa gotícula estavam lá antes de terem sido vistos...

Se é certo que outrora e hoje não há imagens sem ciência (basta pensar na fotografia, no telescópio ou no microscópio), não é menos certo que não há ciência sem imagens. Com efeito, as concepções do mundo que os cientistas desenvolvem baseiam-se, mais do que em palavras, equações e outras cifras mais ou menos abstractas, em imagens bem concretas. Um praticante das ciências exactas e naturais necessitará do rigor do formalismo matemático para fixar melhor o seu pensamento e demonstrar as suas intuições imediatas, mas as suas ideias desenvolvem-se por via de regra com base em imagens bem nítidas. As previsões dos cientistas exigem previamente visões.

Estas imagens ou visões prévias são obviamente de dois tipos – imagens exteriores e imagens interiores – conforme se formem num suporte material, como uma película fotográfica, ou forem simplesmente projectadas na mente. Podemos falar de imagens reais, no primeiro caso, ou de imagens virtuais, no segundo.

As imagens exteriores necessitam de instrumentos adequados, por exemplo as imagens fotográficas exigem câmaras para serem captadas. Os físicos, por exemplo, recolhem imagens desse tipo na exploração que empreendem do mundo. O mesmo se passa com os médicos, para quem a imagiologia é hoje uma arma indispensável ao diagnóstico mais elementar. Em qualquer desses casos e em muitos outros, é preciso ver para crer, é necessário ver para saber.

Mas os matemáticos e os físicos vivem profissionalmente das suas imagens interiores, das imagens que formam nos seus cérebros. O mais famoso dos físicos teóricos, Albert Einstein, disse um dia que chegou à sua teoria da relatividade restrita imaginando como seria o mundo visto a partir de um raio de luz, isto é, se ele próprio fosse “a cavalo” num fotão ou grão de luz. Imagens mentais estão presentes mesmo nos raciocínios mais abstractos, por exemplo quando os físicos pensam em partículas como “cordas num espaço-tempo a 11 dimensões” ou “quarks coloridos e com charme”. Imagens deste tipo ganham realidade no mundo material quando são rabiscadas nas costas de um envelope para o próprio as ver melhor ou riscadas num quadro negro para transmitir um argumento a um colega.

Hoje em dia existem, porém, outras imagens para além das exteriores e interiores. São obtidas por uma terceira via, que surgiu entre a ciência experimental e a ciência teórica tradicionais. São as imagens produzidas pelo computador. São, por um lado, imagens exteriores: têm um suporte físico que é o ecrã do monitor ou o papel da impressora. Mas, por outro lado, reproduzem uma realidade imaginada, mental, seguramente do domínio do imaterial. De resto, os computadores criaram também, tal como o telescópio e o microscópio, uma ciência nova: as ciências da complexidade. Poder-se-ia chamar ao computador o “complexoscópio”... Ficaram ao alcance da ciência, ao nosso alcance, realidades que pareciam antes demasiado complicadas para nós e, por isso, demasiado afastadas de nós. Por exemplo, as belas imagens fractais criadas pelo matemático francês de origem polaca Benoît Mandelbrot baseiam-se no computador e seriam inviáveis sem esse instrumento. Ao apareceram, deram origem a uma matemática e a uma física novas ou, melhor, renovadas.

O computador permite definir melhor imagens interiores e projectá-las para o exterior (a arte de programação confere vida a modelos do mundo real ou de mundos fictícios). A simulação permite compreender o mundo na medida em que ele é imitado por uma máquina que controlamos. Por outro lado, permite tratar imagens exteriores e, com isso, proporcionar ou refazer imagens interiores. O real e o virtual aparecem inextrincavelmente ligados.

As imagens artificiais do computador podem ser mais ou menos realistas. Porém, o computador moderno permite um tipo de imagens radicalmente realistas, no sentido em que podem enganar os nossos sentidos. Na realidade virtual, que é disso que estamos a falar, mundos de imaginação são transmitidos ao cérebro como coisas concretas, por intermédio do capacete e luva de dados. O imaginador “entra” na coisa imaginada. O virtual torna-se real porque é percebido e vivido como tal (questões filosóficas muito interessantes brotam deste paradoxo...) Se olharmos para a história, vemos, em momentos cruciais, a ciência renovar-se a partir de imagens surpreendentes. Com as novas imagens da realidade virtual, a ciência estará a renovar-se mais uma vez. Sempre baseada em imagens, a nova ciência é a continuação da velha por outros meios.

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...