quarta-feira, 20 de março de 2024

MINHA ENTREVISTA AO CM SOBRE IA

 ENTREVISTA QUE DEI A FERNANDA CACHÃO, JORNALISTA DO  CM, SOBRE IA

Carlos Fiolhais, Março de 2024

1.     FC- Durante a última semana, quantos sistemas de IA fizeram parte do seu quotidiano e em que circunstâncias?

CF- Quando quero usar o meu telemóvel ele reconhece-me graças a tecnologia de IA. Quando pesquiso no Google, é considerada a minha actividade prévia. Um sistema anti-SPAM afasta o correio desejado. Quando vejo o Facebook, a IA escolheu, por mim, a minha selecção de posts. O mesmo quando consulto a Amazon: eles antecipam aquilo que eu quero comprar. Fraudes em compras electrónicas são impedidas por IA. Chego melhor de um sítio a outro usando a IA. Sistemas de IA permitem traduções mais rápidas, assim como correcções ortográficas. E isto sem falar do ChatGPT, que uso pouco, mas que pode dar jeito para uma primeira pesquisa sobre qualquer tema. Portanto, a IA já está há muito nas nossas vidas.

2.      FC- Quer explicar o que é um algoritmo e como é que ele impacta na IA?

CF- Um algoritmo é uma sequência de instruções para obter um determinado resultado. Não tem de ser num computador: por exemplo, uma receita de bacalhau à Gomes de Sá. Os programas de computadores são exemplos de algoritmos. A «aprendizagem automática» (machine learning) da IA usa algoritmos. A diferença entre os programas de IA e os tradicionais, é que os primeiros aprendem, isto é, mudam à medida que são usados. Os computadores estão nisso a imitar os seres humanos, embora de forma limitada. Para uma entrada, um certo algoritmo não dá sempre a mesma saída, porque é «plástico». Uma das questões discutidas hoje é a transparência dos algoritmos de IA. Alguns deles são «caixas negras», o que causa desconforto a muitos. Funcionam, mas ninguém sabe muito bem o que lá está dentro. À semelhança do que acontece no cérebro humano, assistimos a decisões automáticas sem conseguir indicar como foram geradas.

3.      FC- Quando lê sobre a multiplicidade de investidores, e sua proveniência, nas empresas de IA, como por exemplo a OpenAI, o que pensa?

 CM- As grandes empresas de IA são as cinco que dominam há anos o mundo informático e a economia mundial: a Microsoft, a Apple, a Amazon, a Alphabet (da Google), a Meta Platforms (do Facebook), todas elas no top 10 das maiores empresas.  Há ainda, nesse top, a empresa de hardware NVIDIA, que começou por fazer placas para jogos e agora está lançada na AI com enormes lucros. A OpenAI é nova, está a subir muito, mas pertence em boa parte à Microsoft. Há poucas empresas europeias competitivas em IA e algumas delas funcionam com capital americano (por exemplo, a francesa Mistral). A China é uma outra história, pois tem empresas com domínio ou supervisão estatal. Na IA como noutras áreas há um confronto entre os EUA e a China. As referidas empresas ocidentais, todas elas sedeadas na costa oeste americana, são mais poderosas do que a maioria dos países. Por exemplo, só seis países têm PIB superior ao valor da Microsoft. Nesta era de capitalismo global, há óbvias questões de soberania: o poder deixou de residir apenas nos Estados. Ora estes podem ser democráticos, mas as grandes empresas não são. Têm por meta o maior lucro e não o bem comum.  Os Estados, que devem defender o bem comum, estão a responder com atraso às inovações tecnológicas…

 FC- Faz sentido criar regras para monitorizar sistemas de IA?

CF- A regulação não só faz sentido, como é essencial. São as próprias empresas que a pedem para poderem jogar dentro das regras. O Presidente Biden assinou em 2023 uma ordem executiva sobre a segurança da IA, protegendo a privacidade e os direitos dos cidadãos. A União Europeia criou uma regulação baseada no tipo de risco. A UNESCO também fez recomendações éticas para a IA. O Papa apelou a que a IA sirva as causas da fraternidade e da paz.

FC - Quais são as principais questões éticas e legais que se colocam atualmente perante os sistemas de IA?

 CF- A tecnologia avança muito mais depressa do que a ética e o direito. Estes vêem-se obrigadas a correr atrás das inovações, por vezes a correr «atrás do prejuízo». A Europa tomou como prioridade a regulação, que é indispensável, aqui como noutros lados. Temos de prestar mais atenção às questões morais e legais, para alinhar os interesses económicos com os valores humanos. Uma coisa é o que se pode fazer e outra, muito diferente, é o que devemos fazer. Temos de evitar os maus usos da IA, proibindo mesmo alguns deles. Entre os perigos está o da quebra de privacidade. Aí, somos cúmplices porque damos os nossos dados em troca de uma suposta gratuitidade. Mas, para mim, o maior perigo é a intoxicação maciça com falsas notícias na Internet, o que não só mina a democracia como pode provocar conflitos. O problema da regulação não é novo: quando foram inventados os carros tivemos de criar códigos para evitar o caos nas estradas. Como é sabido, apesar de todas as normas, de vez em quando há asneiras. Espero que com a IA não haja grandes asneiras. E, se as houver, teremos de aprender com elas. Deverá também haver uma preocupação com a democratização do acesso para que a desigualdade já gritante entre ricos e pobres não cresça.

 FC- A IA é com certeza uma oportunidade de desenvolvimento nas mais variadas áreas. Como é que o país se deve posicionar? 

CF- A área de IA está em franco progresso, com aplicações como o ChatGPT. As máquinas criam textos, imagens e sons, semelhantes aos das criações humanas. A fronteira entre o real e o virtual está a esbater-se. Há possibilidades enormes e também cuidados a ter. Nesta área, poderíamos mobilizar investigadores para um centro interdisciplinar nacional. Aí teriam lugar pessoas da matemática, da física e da engenharia, mas também das ciências sociais e humanas e das artes. Muitos cientistas estão de costas uns para os outros e há aqui uma possibilidade de trabalho conjunto.

FC - "A inteligência artificial depende de milhões de microtrabalhadores pobres", disse, recentemente, ao Expresso o sociólogo Antólio Casilli, que defende que a IA não destrói o emprego, mas torna-o mais precário informal. Enquanto cientista como interpreta estes impactos da IA?

 CF- É difícil fazer previsões sobre o impacto da IA no emprego. Mas as grandes inovações sempre trouxeram mudanças nas profissões: umas acabaram e outras surgiram. No cômputo geral, não foi mau. Com as máquinas a vapor deixámos de ter necessidade da força animal ou humana. E as profissões passaram a exigir mais qualificações. Agora com a IA, tarefas repetitivas estão a ser feitas automaticamente, ainda que sejam de escritório. Ficarão as profissões mais criativas e que lidem mais com coisas humanas, como a alimentação ou a saúde. Talvez tenhamos menos tempo de trabalho, o que não é necessariamente mau. Casilli levanta um ponto relevante: há uma multidão de operadores humanos, mal pagos, que ajudam no treino de sistemas de IA: por exemplo, confirmam se uma imagem foi bem vista pela máquina. A economia é um domínio da política e, por isso, está para além da ciência e tecnologia. 

FC- Na próxima década, quais são as áreas em que a IA deverá ter maior impacto?

CF- O impacto é transversal a várias áreas. Existe grandes potencial na saúde, como diagnósticos automáticos, descoberta de novos fármacos e apoio psicológico. Os serviços de justiça podem ser mais rápidos e mais baratos. A educação vai ser afectada, com os professores, sempre imprescindíveis, a adaptarem-se. Já há e vai haver mais carros com condução autónoma. Serviços como banca, seguros, energia e outros serviços públicos podem ser mais automatizados. Em contraste, as áreas menos afectadas serão aquelas que envolvam mais criatividade humana, como as artes e a diversão.  As máquinas não são boas a fazer piadas…

FC- Como imagina a vida dos seus bisnetosCF- Haverá coisas que já começamos a ver hoje, como carros sem condutor, novos diagnósticos médicos e assistentes virtais, etc. A tecnologia continuará a evoluir rapidamente, mas o ser humano é mais lento. Aproveitemos essa lentidão a nosso favor, para fazermos boas escolhas. Os humanos devem fazer escolhas humanas.

FC- Se tivesse de aconselhar uma área profissional de futuro a um adolescente, o que lhe diria?


CF- Que vá atrás do seu sonho. 

OS IMPLANTES CEREBRAIS DE ELON MUSK

 Recente entrevista que dei a Luís Francisco do  Jornal de Negócios sobre os implantes cerebrais de Elon Musk:

LF- Como analisa o anúncio recente da implantação de um chip no cérebro de um paciente humano?
CF- No meu entender, é mais um acto de propaganda de Elon Musk, o excêntrico  empresário que tem o título de «homem mais rico do mundo». O indiscutível sucesso de alguns dos seus negócios, como a Tesla e a Space X criou-lhe uma fama, que ele usa, tentando reforçá-la, ao  fazer anúncios não justificados. Ele já nos habituou  a anúncios grandiosos  mas fantasiosos como a colonização de Marte  ou a construção de túneis para circulação ultrarápida de carros,

No caso da Neuralink o objectivo último é a  implantação de dispositivos no cérebro humano  que permitam controlo remoto sem fios. A telepatia no sentido normal de transmissão da mente não existe, mas a ideia dessa empresa é recolher um sinal do cérebro correspondente a uma decisão e transmiti-la, depois de conveniente processamento, por «bluetooth» para um computador. Podia ser uma maneira de tetraplégicos poderem poderem exercer alguma acção. Esta ideia não é nova  e até já teve algum êxito- por exemplo , o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que trabalha nos EUA, abriu o Mundial de Futebol de 2014 com um chuto dado por um paraplégico, que foi bastante discutido, dada a publicidade que o próprio procurou.  O anúncio recente de Musk  não permite, porém, saber o que foi feito de novo: não existe nenhum artigo científico com resultados.  Só se sabe que, recebida autorização de autoridades reguladoras, a Neurolink iniciou ensaios em humanos: foi colocado um implante cerebral a uma pessoa com deficiência física profunda e ela estaria  bem. E teria conseguido operar num computador sem usar um rato.

 Não se sabe praticamente mais nada: que tipo de sinal é recolhido, por exemplo, no cérebro. Aparentemente existem minúsculos eléctrodos que recolhem actividade eléctrica de grupos de neurónios, mas o problema consiste em conseguir relacionar esse sinal com a vontade do indivíduo. Fala-se no uso de técnicas de inteligência artificial (sabe-se que Musk ajudou a fundar a Open AI, do Chat GPT, para criar uma empresa rival, que ainda não produziu nada de muito visível).

A Neurolink tem tido grandes problemas de gestão: por exemplo do grupo de cientistas líderes iniciais já não resta quase nenhum. E há também fortes críticas da opinião pública: por exemplo, defensores dos animais colocaram processos por mau tratamento de porcos e macacos que serviram de cobaias antes dos humanos.

É preciso neste caso saber se estão a ser respeitadas normas éticas - os reguladores deviam ser exigentes - e saber se são usados os mecanismos normais na ciência para apurar a consistência e a novidade. Ninguém sabe o que há de novo ali,  O que há certamente é o reforço da fama de Musk. Ele já fez tantas afirmações anti-científicas (por exemplo, no caso da Covid-19) que não dou muito crédito ao que ele diz.
LF- Considera que, de alguma maneira, poderemos estar perante uma daquelas zonas cinzentas em que a ciência e a tecnologia podem colidir com a ética?
CF- Sim, claro que estamos numa dessas zonas cinzentas. Experiências biomédicas com humanos estão regulamentadas e é preciso saber se as normas estão a ser respeitadas: se há consentimento informado, se há princípio da precaução (serão  os riscos maiores do que os eventuais benefícios?), etc.  A ciência e a tecnologia têm de ser feitas em obediência a princípios éticos, que estão naturalmente para além da ciência. A ciência tem de se fazer com consciência e não penso que o «homem mais rico do mundo» seja um bom exemplo do uso da consciência. O modo como ele tem gerido os seus negócios (como mostra a recente aquisição do Twitter, agora X) não abona muito em seu favor. Autoritário e ganancioso, não parece ser uma pessoa em quem se possa confiar. Bem pelo contrário: parece ser capaz das maiores surpresas na sua ânsia de lucro e de fama (as duas coisas vão juntas!). Este tipo de experiências, se oferecem a possibilidade de benefícios para pessoas com graves deficiências, despertam também fantasmas sobre a relação entre os seres humanos e as máquinas.

Trata-se, com a implantação do «chip» no cérebro, de extrair informação automaticamente para melhorar a qualidade de vida de deficientes profundos. Mas o espectro é-nos trazido pela ficção científica: e se a informação for mal usada, permitindo conhecer o «eu» da pessoa em causa?; e se um «chip» puder funcionar  para colocar sinais no cérebro, em vez de o extrair?; e se a separação entre os seres humanos e as máquinas for diluída? O respeito pela nossa

Humanidade - o integral respeito por valores humanos como o da individualidade  e da liberdade - se não está já em causa agora pode bem vir a estar em causa. E devemos ter todos os cuidados e mais alguns com alguns «admiráveis mundos novos» que nos querem vender. As cautelas nunca fizeram mal, mas a falta de cautela já fez muito mal.

terça-feira, 19 de março de 2024

A RÚSSIA

 Por Eugénio Lisboa 
 A Rússia não pode ser entendida, apenas com a mente.
Fiodor Tiutchev

A Rússia é o maior país do planeta, cobrindo um nono da superfície terrestre, e o nono mais populoso, com cerca de 150 milhões de habitantes. A Rússia é imensa e tem uma história tumultuosa e fascinante. Não se pode ignorar a Rússia, porque ela está aí, com a sua grandeza física e com a sua riqueza material, científica e cultural. 
 
Mas eu, como muitos, comecei a conhecer a Rússia, não pela sua história ou dimensão, mas pela leitura dos seus grandes escritores do século XIX. Cada um começa por onde pode e pelo que lhe está mais à mão. Fora-me oferecida, por um generoso colega do meu pai, quando eu ainda andava no liceu, uma pequena biblioteca com cerca de cem títulos (estante incluída), entre os quais figurava um razoável acervo de novelas de autores de todo o mundo, excelentemente traduzidas. Faziam parte de uma preciosa colecção: as NOVELAS INQUÉRITO, da responsabilidade da inesquecível EDITORIAL INQUÉRITO, que tanto fez para divulgar, em Portugal, o melhor que havia na literatura de todo o mundo e de todos os tempos. Entre essas novelas, havia algumas de Dostoiewsky, de Tolstoi, de Turguenev, de Andreiev… 
 
Não era possível mergulhar nas NOITES BRANCAS ou n’A CONFISSÂO DE STVROGUINE, de Dostoiewsky, sem que um imenso desassossego se apoderasse de mim. Era um mundo estranho, altamente emotivo, mesmo convulsivo. Não se entrava nele apenas com a inteligência, como sugere o autor da epígrafe que escolhi. Inteligência e alta emotividade combinavam-se, num produto final altamente explosivo. Nenhuma experiência de leituras anteriormente feitas me preparara para isto. Sentia que o chão me fugia debaixo dos pés. 
 
Nietzsche considerava o autor de CRIME E CASTIGO o maior psicólogo que jamais existira e Freud clamava que só ele lhe ensinara alguma coisa sobre a psique humana. Mas não era um ensinamento sereno, de pedagogia confortável. Entrar naquele mundo subterrâneo era, para quem o empreendia, aventura de alto risco. Ele não se limitava a instruir-nos: transformava-nos. E essa transformação tinha uma multiplicidade de direcções possíveis. 
 
Se Dostoiewsky me abalou até às fundações, Tolstoi, com novelas como A MORTE DE IVAN ILITCH ou o romance RESSURREIÇÃO, que andou anos a escrever e reescrever, mostrou-me, como disse um grande crítico francês, que, literatura daquela era como se fosse a própria vida a falar… Turguenev, grande prosador e grande ficcionista, “apanhou-me” antes das NOVELAS INQUÉRITO, com uma admirável novela de amor indeciso e nunca consumado, ASSIA, magnífica introdução ao seu universo de ficcionista. 
 
Mas as NOVELAS INQUÉRITO iriam trazer-me mais Turguenev, que, depois, nunca mais cessei de ler, incluindo as belíssimas MEMÓRIAS DE UM CAÇADOR. Uma colecção de contos russos, da agora extinta Editora GLEBA, deu-me a conhecer outros notáveis escritores deste grande e singular país, como Korolenko, Andreiev, etc. 
 
Tcheckov foi-me, por essa altura, dado a conhecer, por uma admirável novela, UMA HISTÓRIA VULGAR, publicada numa colecção de livros de algibeira: é o relato dos dias finais de um professor universitário, que se vai despedindo da vida com o desencanto de quem perdeu todas as ilusões e sem mesmo grande respeito pelo que foi a sua vida de Professor… De Tcheckov, viria a adquirir a colecção completa dos seus inesquecíveis contos e a conhecer o seu original teatro, que vi, encenado em África e um pouco por todo o mundo (incluindo uma produção de AS TRÊS IRMÃS, encenada por Laurence Olivier, no OLD VIC). 
 
Pela vida fora, fui aprofundando as minhas leituras russas, com Gogol, de quem li sobretudo as obras curtas e de quem vi, em Londres, uma excepcional produção da sua peça, O INSPECTOR GERAL, com Pushkine, Lermontov ou Fiodor Sologub, cujo romance O DEMÓNIO MESQUINHO (na tradução portuguesa da INQUÉRITO, A LOUCURA DE PEREDONOV) é uma desapiedada incursão aos infernos da loucura. 
 
Esta Rússia esteve sempre comigo, faz parte do meu panteão privado, como faz a sua grande música, desde os mestres do século XIX até aos gigantes do século XX: Stravinsky, Prokofiev, Shostakovitch… 
 
É uma Rússia que nada tem a ver com os malfeitores que a têm governado e ainda a governam, da mesma maneira que Aquilino Ribeiro, José Régio, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena ou Sophia, Luís de Freitas Branco, Lopes Graça ou Emanuel Nunes, ou Paula Rego ou Vieira da Silva, nada têm a ver com um Estado Novo, que os oprimiu, mas não os produziu. 
 
Tcheckov é tanto o produto do czarismo, como Pasternak ou Mandelstam foram produtos do Stalinismo: eles existiram e produziram, APESAR ou CONTRA os regimes sob que viveram, mas não foram os felizes corolários de boas políticas culturais desses regimes. Muita grande cultura e ciência tem sido produzida CONTRA. 
 
Eu admiro e gosto da Rússia e por isso não posso ser contra ela, como já foi sugerido por quem sabe pouco do que fala. Mas, por isso mesmo que amo e admiro a Rússia, não posso aceitar quem a maltrata. Os actuais e frenéticos defensores de Putine é que, de certeza, não gostam da Rússia nem amam os seus verdadeiros valores. Por isso, não se importam com os maus tratos que os ditadores lhes infligem. A terra lhes não seja leve!

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 18 de março de 2024

MORREU O NUNO

Homenagem possível a um poeta acabado de partir.
Morreu o Nuno Júdice, coitado,
prematuramente, o que é injusto.
Com aquele seu ar desactivado,
de tímido e esquivo mangusto,

não era pessoa de grandes falas,
antes se recolhia ao silêncio,
deixando, sem muito custo, as galas
e brilhos, a quem fosse mais propêncio.

Os versos que deixa terão destino,
quase de certeza, muito incerto,
como acontece, no desatino,

de um futuro sempre encoberto.
Sublinhe-se a passagem de um poeta,
que foi, aqui, efémero cometa.
                                                                    Eugénio Lisboa

SOBRE A NECESSIDADE DA UTOPIA

Serve este texto para deixar um apontamento sobre a ideia de utopia, mas também para notar a grande possibilidade de se replicar ad infinitum um erro de autoria.

 

O entrevistador pergunta ao jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano "Ainda existe espaço para a utopia no mundo de hoje?"

"Sim", responde Galeano, "no sentido que lhe deu Fernando Birri, que injustamente se atribui a mim. Num dos meus livros citei essa frase dizendo que era dele (...). 
 
Estávamos em Cartagena das Índias, a belíssima cidade colombiana, e fizémos uma palestra juntos na universidade, um pouco ao estilo dos sobrinhos do Pato Donald, cada uma começa a frase e o outro terminava-a. 
No final um dos estudantes levantou-se e perguntou-lhe a ele, não a mim: «Para que serve a utopia?». Ele respondeu da melhor maneira, eu nunca ouvi uma resposta melhor: disse que fazia essa pergunta todos os dias: para que serve a utopia? Se é que a utopia serve para alguma coisa... 
Ele disse: «vejam bem a utopia está no horizonte e, se está no horizonte, eu nunca vou alcançá-la porque se caminho dez passos, a utopia vai distanciar-se dez passos, e se caminho vinte passos, a utopia vai colocar-se vinte passos mais além, ou seja, eu sei que jamais a alcançarei. Para que serve? Para isso: para caminhar»".

sexta-feira, 15 de março de 2024

Como Bola Colorida. A Terra, Património da Humanidade

Prefácio de Carlos Fiolhais ao livro de Galopim de Carvalho identificado em título.
 
"Merecia, há muito, uma reedição este livro, Como Bola Colorida. A Terra, Património da Humanidade, da autoria do Professor Galopim de Carvalho, publicado pela primeira vez na Âncora Editora em 2007. De facto, a expressão “há muito” não será a mais apropriada do ponto de vista de um geólogo, já que este lida com intervalos temporais de milhões de anos. Do ponto de vista da história da Terra, a edição e a reedição deste livro sobre as Ciências da Terra são praticamente simultâneas. Seja como for, a necessidade de reeditar esta obra diz bem do interesse que ela merecidamente continua a suscitar no público.

A expressão Coma Bola Colorida, uma citação de um famoso verso do poema “Pedra Filosofal” de António Gedeão, pseudónimo literário de Rómulo de Carvalho, o professor de Ciências Físico-Químicas que é o patrono da cultura científica em Portugal, refere-se ao nosso planeta, que tem belas cores: decerto o azul do mar e o verde da vida, mas também as cores das rochas, que podem ir dos tons claros do quartzo aos escuros do basalto, passando pelos cinzentos e rosa dos granitos e pelos tons vermelhos da algumas argilas (pois as há multicolores!). 
 
Mas uma criança que quisesse agarrar no nosso planeta teria de ter um tamanho gigantesco. Basta pensar que a bola onde vivemos tem cerca de 6400 quilómetros de raio, ao passo que uma bola de futebol adequada a uma criança terá cerca de 20 centímetros de raio. Um rapaz ou uma rapariga poderão ter entre um metro e um metro e meio. Feitas as devidas proporções, a altura da criança teria de ser à volta de 40 mil quilómetros, o que, parecendo muito, não é nada à escala do Sistema Solar: é um décimo da distância entre a Terra e a Lua.

Uma metáfora impressionar-nos-á tanto mais quanto mais fora da realidade estiver. E é indiscutivelmente uma bela metáfora aquela que Galopim de Carvalho escolheu, em 2006, para título do seu livro, publicado quando se comemoravam os cem anos do nascimento de Rómulo de Carvalho. A nossa “bola colorida” já deu 17 voltas ao Sol deste então. Estamos todos mais velhos. Mas na Terra não se nota muito. Só não está na mesma devido às modificações que lhe fizemos, das quais a mais grave será o aumento desmesurado dos gases de efeito de estufa, como o dióxido de carbono, na atmosfera. Mas, para quem tem 4,54 mil milhões de anos de idade, como é o caso do nosso astro, 17 anos não são nada, absolutamente nada. 
 
O livro mantém-se novo, tendo a revisão sido menor: naquilo que está bem não se deve mexer. Em particular, o prefácio de José Mariano Gago tem plena actualidade, pelo que se mantém rigorosamente na íntegra. Ao relê-lo, senti saudades do seu autor: faz-nos falta aqui neste nosso quinhão do planeta para avivar a luz da ciência. Foi ele que instituiu, em 1996, o Dia Nacional da Cultura Científica, precisamente no dia de aniversário de Rómulo de Carvalho, para prestar justa homenagem aquele que, além de professor e poeta, foi também um grande divulgador de ciência.
 
O geólogo Galopim de Carvalho, a quem um dia chamei “Mestre das Pedras e das Palavras” por ser tão exímio com as primeiras como com as segundas, é, na esteira de Rómulo, um grande divulgador de ciência. Com uma vivacidade que tem resistido ao passar dos anos (para ele os anos que sejam abaixo de um milhão não são relevantes!), tem-nos dado o melhor do seu saber e talento quando nos descreve a incrível variedade da Terra e nos conta o longuíssimo processo histórico que moldou o nosso lugar no espaço. Neste livro, que acresce a mais de três dezenas de outros seus títulos, Galopim traz-nos, num português de lei, uma síntese dos resultados mais importantes das Ciências da Terra: a estrutura, a dinâmica, a pluralidade de paisagens do nosso planeta, incluindo as pródigas marcas da vida que é quase tão antiga como ele. Galopim de Carvalho usa um recurso que Rómulo de Carvalho (por coincidência, partilham o mesmo apelido!) também usava desenvoltamente e que devia ser mais comum na divulgação da ciência entre nós: recorre à história da ciência. Mostra assim que a ciência é uma conquista humana, um conjunto de conhecimentos que foram duramente extraídos da Natureza pelos cérebros e mãos de diligentes seres humanos ao longo do tempo, uns na peugada dos outros, num empreendimento contínuo e a continuar. Mais importante que os conhecimentos, são os métodos para os obter. 
 
Sim, é contada em traços gerais a história da Terra, mas é também contada a história da tomada de consciência da historicidade geológica, que é muito recente. Com efeito, foi só no século XIX que os geólogos se aperceberam da enormidade da nossa história planetária, ultrapassando antigos preconceitos, alguns de raiz bíblica. Os geólogos que olharam para as modificações lentas e graduais da Terra foram-lhe dando uma idade aproximada que nada tinha a ver com as mitologias e que excedia mesmo largamente a que era estimada por físicos e químicos com base em considerações termodinâmicas. E era mais fiel a sua cronologia, justificada pela acumulação de observações de lagos e oceanos, vales e montanhas, estratos e fósseis, etc. do que a dos seus colegas físico-químicos, fundada em modelos matemáticos.

A Terra tem sido palco de um rol de acontecimentos, não raro surpreendentes: arrefecimento a partir de uma massa ígnea inicial, impacto com outro astro para originar a Lua, quedas de meteoroides, formação dos oceanos, surgimento dos primeiros organismos, início da fotossíntese e oxigenação da atmosfera, proliferação da vida com a «invenção» do sexo, extinções maciças por razões em parte misteriosas, movimentos de placas tectónicas e outros, sismos e vulcões, idades do gelo, e, nos nossos tempos, as transformações de responsabilidade humana que alguns julgam merecer um novo período geológico: o Antropoceno. Se hoje sabemos algumas coisas sobre estes fenómenos foi graças aos esforços de homens e mulheres cujos nomes vêm referidos neste livro. 
 
Mestre Galopim é o nosso guia nessa viagem nas páginas que se seguem, destacando naturalmente os sítios e eventos em Portugal, onde está ou de onde vem a maioria dos seus leitores. Ele preocupa-se com a fácil compreensão por parte de quem lê, nunca subestimando a inteligência dos leitores, uma regra básica na divulgação científica. Por exemplo, tem o cuidado de nos explicar, recorrendo a grãos de arroz e a badaladas de sinos, o que significa um milhão de anos, que afinal é uma «migalha» na história da Terra. Para nos acicatar a imaginação, fala de um bolo de aniversário para a Terra com 4540 milhões de velas. São, indiscutivelmente, muitas velas! Quando os dinossauros desapareceram, o bolo «só» tinha 4474 milhões de velas.

Se com José Mariano Gago a ciência entrou nas nossas casas, é preciso que ela entre mais e que fique bem instalada. Galopim de Carvalho é um exemplo inspirador de como é possível, com vista a tal desiderato, fazer bem-sucedida divulgação de ciência, num país em que largos sectores são avessos à ciência. São mutilíssimos livros como este que descrevem em linguagem simples o chão que pisamos, o seu início e as suas metamorfoses, as suas riquezas e misérias, os seus encantos e mistérios. 
 
Em meu nome e – seja-me permitido – em nome de todos os leitores expresso-lhe a minha, a nossa, gratidão, por tudo o que temos aprendido dele e com ele. Sei que a vida humana é um lampejo em comparação com o tempo da Terra, mas desejo que, no seu caso, esse lampejo se prolongue, prosseguindo a iluminação que tem espalhado. 
 
Desejo que o «Mestre das Pedras e das Palavras» continue a ajudar-nos a compreender o nosso planeta não só com a sua grande sabedoria, mas também com a sua enorme jovialidade e a sua extraordinária simpatia.

Coimbra, 15 de Dezembro de 2023

terça-feira, 12 de março de 2024

CONSIDERAÇÕES SOBRE O RESULTADO DAS ELEIÇÕES

Por Eugénio Lisboa 
 
O resultado destas eleições evidencia, sobretudo, uma dramática subida do CHEGA e, pior ainda, uma tendência a continuar a subir. A tão universalmente gabada queda da abstenção, infelizmente, quer dizer que os habituais abstencionistas que, desta vez, levantaram o rabinho do sofá, para irem votar, foi para irem votar no CHEGA. Havia, é claro desilusão e ressentimento, devido ao estado do país, mas isso, só por si, não explica tudo. A maioria das pessoas gosta de milagres e, milagres, foi o que Ventura, despudoradamente, lhes prometeu. As pessoas mais qualificadas da nossa sociedade, Professores universitários, juízes, médicos, altas patente do exército, por maior cultura profissional e geral que possuam, gostam de acreditar em milagres que, de repente, os tornem ricos e famosos. 
 
Viu-se isso, de forma calamitosa, com a “banqueira do povo”, D. Branca. Quando eu soube do que se estava a passar, fiz logo o diagnóstico, porque me lembrava de casos acontecidos, na minha vida empresarial, em que alguns gerentes de instalações da minha empresa foram despedidos por fazerem o que se chama “rolling the cash”. Era o que fazia a D. Branca e o que fez o americano Madoff. Mas os mais altamente qualificados cidadãos deste país precipitaram-se a depositar as suas poupanças nas mãos daquela “miracle worker” (fazedora de milagres). Muitos ficaram sem nada, quando a suspeita levou a uma corrida geral aos levantamentos. Fui altamente repreendido, ao não aderir àquela loucura, por pessoas que alegavam que senhores Professores universitários não tinham hesitado em pôr o seu dinheiro nas mãos da banqueira. Respondi-lhes sucintamente que, universitários ou não, esses senhores não sabiam fazer contas. André Ventura é a D. Branca da política portuguesa: oferece milagres a quem gosta de milagres e quem gosta de milagres é muita gente. O problema é que esses milagres não estão disponíveis.
 
Por outro lado, esta iliteracia política de muitos cidadãos deriva do baixíssimo grau de cultura e de educação cívica, com que hoje se sai das escolas e universidades. É assustador ver o que se passa nas redes sociais, que indicia um nível de boçalidade intelectual, que não é de bom augúrio para um futuro saudável do país.

Que, ao fim de oito anos de desgaste governamental do PS, com tudo quanto de negativo aconteceu, o PSD só tenha conseguido um número de deputados igual ao do PS, mostra a fragilidade do futuro governo e a relativa pouca fé dos eleitores no partido de Montenegro. Isto convocaria, a meu ver, um atitude de adultos da parte tanto do PSD como do PS: esquecerem-se de lutas partidárias e entenderem-se naquelas áreas essenciais ao bem estar do país. Se o não fizerem o descrédito nesta democracia aumentará e o ovo da serpente dará mais filhos.

Eis, em resumo muito resumido, o que penso da situação em que estamos.

Eugénio Lisboa

À ATENÇÃO DOS PROFESSORES DE GEOLOGIA E DEMAIS INTERESSADOS

Por A. Galopim de Carvalho
 
Limitando-me, por agora, aos textos de divulgação científica na área em que fui profissional, seja num livro, num artigo de jornal ou de revista, num blogue ou nesta minha página do Facebook, focando bases essenciais da geologia, com incidência mais aprofundada nos domínios em que trabalhei, o meu propósito, por diversas vezes declarado, como professor que fui e não deixei de ser, é escrever uma lição, em bom português, numa linguagem acessível ao cidadão comum, sem perda de rigor científico, com humildade e, sempre que possível, agradável de ler. Tudo isto envolvido num quadro onde, dizem-me os que me leem, transparece um sentimento de afectividade.

É esta comunicação, quase diária, aqui iniciada há uns oito anos com os meus leitores, hoje em número que ultrapassa os 35 000, que me encorajam a cumprir como "voluntário à distância", este que encaro como um dever de cidadania.

Em cumprimento do que penso ser um dever cívico de todo aquele que teve o privilégio de estudar a nível superior, pretendo, sobretudo, por esta via, aproximar-me dos professores e professoras que ensinam geologia nas nossas escolas, proporcionando-lhes informação científica actualizada, em estreita ligação a uma componente cultural indispensável a quem tem a nobre missão de ministrar conhecimentos e, ao mesmo tempo, formar cidadãos.

Igualmente em cumprimento do atrás citado dever cívico, procuro, também chegar ao público, em geral (divulgar é espalhar conhecimento entre o vulgo), qualquer que seja a sua posição no tecido sociocultural, facultando-lhe conhecimentos que não tiveram oportunidade de adquirir, aprofundar os que possuem e relembrar os que o tempo apagou ou distorceu.

Com a ressalva de raras excepções, o défice de cultura geológica (e não só) caracteriza a sociedade portuguesa a todos os níveis, dos governantes aos mais humildes cidadãos, dos industriais e comerciantes aos militares e funcionários públicos, dos artistas de todas as artes aos jornalistas, agentes de cultura, “opinion makers” e outros intelectuais, dos juristas e economistas aos jogadores de futebol.

Escrever neste domínio tem sido, pois, uma acção complementar das muitas palestras, lições ou, melhor dizendo, conversas que sempre fiz e que hoje ainda vou fazendo, mais espaçadamente, nas nossas escolas, dos jardins de infância às universidades, em Museus, Centros de Ciência, Bibliotecas Municipais e outras instituições, por todo o País. Acrescente-se que, por frutuosa experiência, em tempo de pandemia, estas conversas continuam, agora, a partir de casa, frente ao computador, utilizando a chamada via zoom.

Numa linguagem figurada, diria que, ao tornar público o que escrevo, seja divulgação, crónica, ficção, ensaio ou opinião, estou a abrir, a todos, a “biblioteca” onde guardo, praticamente intacto e bem catalogado o que estudei e tudo o que a experiência e a vida me ensinaram. Neste tudo, gosto de lembrar os meus difíceis tempos de escola e as minhas sempre interessadamente vividas experiências como aprendiz de muitas artes, numa sociedade ainda muito pouco industrializada e marcadamente artesanal, que foi a da minha infância e primeira adolescência na cidade de Évora. Neste tudo cabem, ainda, já mais crescidinho, as minhas incursões no mundo rural alentejano, sempre curioso na observação e, muitas vezes, experimentação nas múltiplas fainas e onde, no convívio como os camponeses fui, pela primeira vez, confrontado com o drama das desigualdades sociais.

Na imagem, a discordância angular da Praia do Telheiro, Vila do Bispo.
Entre os que podem ler estão também os meus pares, que sabem tanto, mais ou muito mais do que eu. Sei que, ao divulgar o que escrevo, corro o risco de errar num ponto ou noutro, numa ou noutra noção e induzir em erro o leitor menos preparado. Só não erram os que não falam, não escrevem nem fazem. É por isso que sempre aceitei e aceito a crítica e o apontar de eventuais erros ou falhas, situações que já tiveram lugar e que, sempre e oportunamente, corrigi e agradeci.
 
A. Galopim de Carvalho

segunda-feira, 11 de março de 2024

A EDUCAÇÃO, BEM COMUM, DIREITO INDIVIDUAL OU SERVIÇO PÚBLICO?

As orientações/recomendações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), principal agente na determinação de políticas educativas globais e nacionais, têm sido acolhidas por uma diversidade de países.
 
A principal orientação/recomendação desta organização transnacional, para o sector da educação, é que os alunos alcancem o "bem-estar". Um "bem-estar" académico, profissional e pessoal, que sendo, em primeira instância, individual, se replicado em cada um, assegurará o bem-estar social. No modelo de aprendizagem que veicula (ver imagem ao lado), a representação da ideia é clara.
 
Mas, esta noção está distante do que se entende por "bem comum", finalidade legítima da educação escolar numa linha de pensamento humanista.
 
A reflexão do filósofo Michael Sandel (ver aqui e aqui) sobre o assunto tem sido acompanhada por várias outras. Uma, das mais recentes que conheço e que destaco pela profundidade que denota, é a que se reúne num livro com o título La educación, ¿bien común, derecho individual o servicio público? 
 
Coordenam-na dois jovens professores de Educação/Pedagogia da Universidade Autónoma de Madrid, com trabalho na formação de professores. Os seus nomes são: Bianca Thoilliez Ruano e Jesús Manso Ayus. Os autores, de diversa formação, encontram-se e dialogam nessa área.

O livro é assim apresentado: 

Abordam-se os fundamentos teóricos do debate contemporâneo sobre a educação como "bem público" e "bem comum". Para tanto analisam-se estes dois conceitos e a sua relação com a condição da educação como “direito” e “serviço” num contexto de privatização e mercantilismo crescentes. Reivindica-se a educação como um "bem público e comum", afirmando-se as escolas como as instituições que mais capacidades têm para assegurar direitos e oportunidades para todos.

Deixo, ainda, nota do índice que, por certo, despertará o interesse de alguns leitores:

Presentación. Bianca Thoilliez Ruano, Jesús Manso Ayuso.
1. Lo común como fundamento de una noción de bien compartida: implicaciones educativas. Miriam Prieto Egido, Alberto Sánchez Rojo.
2. Enfoque pedagógico de lo político vs. enfoque político de lo pedagógico Fernando Gil Cantero
3. Bien común y radicalidad educativa. El disenso y la pluralidad educativa como formas de articular la educación pública. David Reyero.
4. El entramado ético-político del proyecto de la educación pública desde las aportaciones de Taylor. Tania Alonso Sainz
5. La educación ensimismada. Por qué una pedagogía orientada a la felicidad y la diversidad privatiza los bienes escolares. Bianca Thoilliez Ruano.
6. La escuela libre no directiva: ni pública ni comunitaria. Ana Irene Pérez Rueda
7. La educación escolar como razón de mercado. Mapeando las racionalidades de gobierno de la escuela pública. Mariano Narodowski, Maria Delfina Campetella.
8. La Nueva Gestión de lo Público en las políticas educativas españolas: desafíos en las definiciones de lo público y lo privado. Marta Moreno Hidalgo, Jesús Manso Ayuso
Epílogo: La escuela, un bien público y común, Esther Díaz Romanillos

 Maria Helena Damião

"Novo Liber Amicorum Mário Frota"

Novo Liber Amicorum Mário Frota - Sempre a Causa dos Direitos dos Consumidores, da autoria de Susana Oliveira e Rui Ataíde, com edição da Almedina, saído em 2023, é como o próprio nome revela, uma homenagem, uma nova homenagem, ao precioso trabalho do Professor Mário Frota no Direito do Consumo.

Consta na nota prévia o seguinte:

"Volvida uma década sobre o primeiro Liber Amicorum Mário Frota, chegou o momento de os amigos, colegas, pupilos, admiradores, colaboradores e seguidores prestarem nova homenagem ao eterno menino de Namibe que ao longo de mais de oito décadas de vida se tornou num dos maiores vultos do Direito do Consumo intra e extra muros. Apresentamos, pois, o Novo Liber Amicorum Mário Frota, porque, como sói dizer, citando Sócrates (leia-se), o filósofo: “Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”.


domingo, 10 de março de 2024

MENSAGEM AOS NOSSOS LEITORES

Estimados Leitores do De Rerum Natura.

Recordamos uma passagem do Manifesto deste blogue (que poderão ler na margem direita do ecrã):

O blog, que partilha o título com o poema de Lucrécio, fala de várias coisas do mundo, procurando expor a sua natureza. Parte da realidade do mundo (...) para discutir o empreendimento humano da descoberta do mundo (...) e as profundas implicações que essa descoberta tem para a nossa vida no mundo

E também o pedido que fazemos quanto aos comentários:

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.

Quando diversas pessoas pensam sobre as coisas do mundo encontram, muitas vezes, divergências, erros, falhas, equívocos, contradições, enfim... falta de acordo. Isso é fundamental para o evoluir do pensamento, daí que os blogues, por agilizarem a discussão sobre as coisas do mundo, tenham ganhado a importância que se lhes reconhece.

De nada adianta, neste propósito, a divulgação de textos ou comentários anónimos, que não passam de "bocas" capazes de tocar a ofensa pessoal. Nada justifica, num espaço público, a ofensa pessoal.

Assim, pedimos aos Leitores a melhor atenção para esta linha editorial, a qual, devemos dizer, tem sido, por regra, respeitada nos muitos anos que já tem o De Rerum Natura. As excepções (é de excepções que se trata) não podem, pelas razões que explicámos, ser acolhidas.

Muito obrigada
A equipa do De Rerum Natura

FOME DE SAÚDE

Cesáreo era um homem doente
e a doença isola uma pessoa.
Sentia-se anormal e impotente
e o cheiro da doença destoa!

Sonhava com saúde e cheiro bom,
que lhe dessem força e energia.
Queria a vida certa, como um dom,
que lhe trouxesse de novo a alegria!

Por isso, um dia, num verso imortal,
querendo a saúde, para madrinha,
disse que, aromática e normal,

era a mulher que mais lhe convinha.
Não a quis formosa ou sensual,
mas, tão só, aromática e normal.

Eugénio Lisboa
NOTA: Este poema é, se quiserem, uma modesta contribuição, para a busca do sentido profundo daqueles dois adjectivos (aromática e normal) que constituíam, para Cesáreo, a sedução máxima que uma mulher podia, para ele, ter, na situação em que se encontrava.

Nem todos os meios são legítimos, mesmo quando as intenções são as melhores

A visita que hoje fiz ao blogue Escola Portuguesa, deixou-me perceber a “existência” de uma tal “maria esperança portugal”, candidata virtual e fictícia (não real) da Federação Nacional da Educação às eleições que se aproximam. Recuperei, a partir desta fonte, informação sobre tal candidatura, anunciada em Dezembro passado (ver aqui, aqui, aqui e aqui) e vi o vídeo que a apresentava e do qual transcrevo o seguinte:

Imagem recortada daqui
"Como novidade e iniciativa arrojada e criativa, resolvemos até às eleições legislativas ter alguém que dê visibilidade às nossas propostas, àquilo que é uma acção em favor da educação. Esse alguém tem um nome, chama-se “maria esperança portugal”. É uma candidata virtual e fictícia que apresenta uma candidatura também ela virtual e fictícia. É alguém criado através dos meios de inteligência artificial.
É “maria” porque é um nome tipicamente português; é uma mulher, porque 80% dos trabalhadores do sector da educação são mulheres, é “maria” também porque é um nome terminado em “ia”, portanto, inteligência artificial; e é alguém que pretendemos que nos traga esperança, e, por isso mesmo, tem como apelido “esperança portugal” (...). Acreditamos que ao longo dos próximos dias vai ser muito útil, vai contribuir muito, através das suas propostas e acções para que a educação possa ser trazida para o debate (…).
A “maria esperança portugal”, à semelhança de qualquer candidato tem um site, materiais de campanha, cartazes, [etc.] espalhados pelo país, vai ter pendões e faixas colocados estrategicamente nas escolas porque é esse o seu espaço de intervenção, irá também realizar através dos diversos sindicatos da FNE reuniões com os trabalhadores que esses sindicatos representam (...). Queremos deixar bem claro que a “maria esperança portugal” não é nenhuma brincadeira, é sim um compromisso com a educação"

Aqui, o apresentador da candidatura dá a palavra à “candidata”, que não vai além de um limitado e muito comum conjunto de vacuidades associadas à educação, das quais o apresentador faz eco. Com um meio tecnológico tão avançado, esperar-se-ia ouvir algo diferente, algo nunca ouvido. Ainda assim, o Secretário-Geral da Internacional da Educação, disse, numa gravação em vídeo: 

"(...) estou entusiasmado por apoiar “maria esperança portugal” para “aumentar a consciencialização” acerca dos problemas relativos à educação em Portugal, as aspirações e exigências dos educadores, praticamente ausentes da campanha eleitoral. Ressalta a forma criativa como tal é apresentado."

E não passou deste assinalar de problemas. Numa última tentativa para encontrar alguma "inovação" no modo de os apresentar e discutir, abro este link, que é uma "entrevista" à dita "candidata" feita por uma entidade tão virtual e fictícia como ela. Nada de novo: tudo já dito e repetido centenas, milhares de vezes, em praticamente todas as circunstâncias, por praticamente toda a gente. Declarações em catadupa e atadas, umas à outras, com um nó cego, que me deixam sempre numa posição desconcertante: sim... pois... claro... ainda que... Declarações que não estão certas nem erradas, com as quais não é possível concordar nem discordar...

Deixei para o final a minha interpretação, nada favorável, acerca desta "forma criativa" de chamar a atenção para a "importância da educação":

- substituir-se um professor real, um professor-pessoa (como já se diz), por um simulacro de professor é retirar-lhe pertinência no debate em causa; 
- esconder-se quem fala sob o disfarce de uma imagem maquinal, é dizer que a imagem veicula aquilo para que foi programada;
- falta valor às palavras da imagem, falta sempre valor às palavras que não são assumidas por quem as quer dizer.

Nem todos os meios são legítimos, mesmo quando as intenções são as melhores - e, no caso, julgo que são. Sinceramente, faço votos para que esta iniciativa não se instale no debate sobre a educação escolar pública, que tão necessário se percebe ser.

Maria Helena Damião

sábado, 9 de março de 2024

Literatura e formação humana

Por João Boavida

Há dois dias, num depoimento sobre António Pedro de Vasconcelos, Maria Filomena Mónica, que era sua amiga desde os anos sessenta de gloriosa memória, veio recordar, entre outras coisas desse tempo, como os amigos costumavam encontrar-se nos cafés e nas casas uns dos outros, os muitos livros que liam, e como os discutiam, os trocavam, os louvavam ou criticavam. Era de facto um tempo de grandes leitores. 
 
Nem todos os jovens liam assim tanta literatura, é certo, mas a leitura de livros estava no centro e quem não se contentasse com uma formação de superfície ou somente técnica ou academicamente apressada tinha que usar «com mão diurna e noturna», segundo dizia Alexandre Herculano, as grandes obras da literatura universal. 
 
Talvez que, pensei depois, sem essas muitas leituras, e essa paixão literária, nunca António Pedro de Vasconcelos teria feito os filmes que tiveram tanto sucesso em Portugal e tão amados foram pelo público. Lembrei-me disto porque ao ler o artigo do Prof. Eugénio Lisboa, grande amante de Stendhal, fiquei a saber, segundo o mesmo depoimento, que A. P. de Vasconcelos era também um apaixonado de Stendhal.

Um dos aspetos que mais aflige na educação da juventude de hoje é a ausência de leitura – de boa leitura. Já não falo do amor dos livros que nunca chegarão a ter mas, pior do que isso, do desinteresse pelas grandes obras se não forem iniciados nelas nem criarem a apetência e a exigência necessárias. O que a médio e longo prazo é dramático porque a dimensão humana e a sua complexidade, profundidade, sensibilidade, enfim, o melhor que a natureza humana tem passa-lhes ao lado deixando-as pessoas mais pobres, mais superficiais e mais indefesas contra todos os agentes deformadores e alienantes que não parecem diminuir, antes pelo contrário.

Sem darem por isso estão a deitar fora a imensa riqueza que a cultura humana foi acumulando ao longo de milénios. Mas não só, também não usufruem o prazer que dá a leitura de uma grande obra. Acresce, e era sobre isto que incidia o artigo do Prof. Eugénio Lisboa, sempre literariamente muito rico, há obras que nos tocam de tal maneira que nos transformam, nos engrandecem, nos fazem subir patamares na compreensão do mundo e de nós mesmos e que, só por nós, nunca seríamos capazes de subir. Um bom romance pode ser muito mais formativo que muitos tratados, e fazer de um jovem, às vezes ainda estouvado e irrefletido, um ser maduro, consciente e mais centrado em relação ao mundo, aos problemas e às pessoas que o cercam; além de muito mais inteligente.

Penso que no atual ensino do Português há uma debilidade muito grande ao nível da formação e da capacidade de usufruição literárias. É provavelmente o maior problema de tudo isto. E se o aluno não tiver em casa – e geralmente não tem - quem possa compensar essa deficiência literária fica para toda a vida sem o gosto de ler e sem a consciência do que está a perder.

E o problema tende a agravar-se, não só pela falsa noção de modernidade e de capacidade com que as novas tecnologias enganam pais e filhos, mas também porque os professores mais jovens correm o perigo de já virem a sofrer do mesmo, incapazes, portanto, de criar nos alunos o gosto de ler, porque eles próprios não o têm e nem sequer têm consciência da falta que isso lhes faz.

Ao contrário do que possa pensar-se o problema podia resolver-se com uma certa facilidade. Bastava que a formação dos professores de português desse mais atenção à formação do gosto literário, à criação de exigências estéticas e passasse a avaliar os professores em função disso. Se a formação exigisse competências nesse domínio específico e criasse formas de avaliação que especificamente as avaliassem, em pouco tempo as coisas começavam a melhorar. Seria um contributo multiplicador para a formação dos jovens, a todos os níveis, mas não me parece que haja, na esfera política, quem compreenda isto.

João Boavida

quarta-feira, 6 de março de 2024

TER OU NÃO TER LIDO UM LIVRO

Por Eugénio Lisboa

Quando tinha os meus catorze ou quinze anos, li um livro que, para sempre, me marcou. Penso, às vezes, poder dizer que a minha vida teria sido diferente, se nunca tivesse lido esse livro: LE ROUGE ET LE NOIR, de Stendhal, numa magnífica tradução de José Marinho.

Tudo nele me fascinou: desde a criação da personagem de Madame de Rênal e toda uma paisagem de personagens de uma sociedade francesa pintada com mão de mestre, até ao estilo bem descascado, ágil, contundente, herdeiro feliz de Voltaire. E uma bela história de amor, de grande beleza trágica. Stendhal tinha horror às gorduras de muita prosa então em vigor e, para dar à sua veloz pontaria, naturalidade e sobriedade, forçava-se, todas as manhãs, a ler o Código Civil.

O livro “apanhou-me” totalmente e fez, para sempre, cair a caspa que sujava a prosa que eu, por essa altura, escrevia para a gaveta. De alguma literatura gótica, eu saltava, bruscamente, para aquela pena bem afiada. A morte de Madame Rênal, uma das cenas mais sublimes de qualquer literatura, ocupa literalmente uma linha de texto, desprezando qualquer ênfase. Stendhal era um mestre para ficar, embora ignorado no seu tempo, excepto para os olhos perspicazes de Balzac.

Outro livro que muito me marcou, quase pela mesma altura, foi o romance de Sienckiewicz, QUO VADIS? Num estilo sem pathos, quase neutro, nada “interveniente”, o romancista polaco pinta-nos magistralmente as grandezas e misérias do império romano.

Uma história de amor serve de fio condutor a um desvelar de loucura e crueldade, de uma dimensão nunca vista. Os inesquecíveis diálogos entre Nero e Petrónio, em que este arrisca a vida, manipulando magistralmente o imperador, deixam marca perpétua no leitor empolgado. A morte de Petrónio é um cúmulo de beleza discreta e um anúncio de um fim de mundo. Neste romance, que se lê com sofreguidão, o adolescente leitor depara-se, pela primeira vez, com a condição humana nos seus limites de crueldade, mas também de desenfastiada elegância. Não é possível ficar imune a esta tempestade que varreu o mundo.

Outro livro, de entre os vários que me fazem pensar que eu não seria o mesmo se os não tivesse lido, está a novela de Tolstoi, A MORTE DE IVAN ILITCH. Num texto de não muitas páginas, o grande ficcionista russo mergulha intrepidamente os seus instrumentos de sondagem, num dos momentos mais dilacerantes da vida humana: aquele em que o remorso por uma vida mal vivida se alia à aproximação da morte, que vai lentamente debilitando um corpo indefeso. Numa cena que é o cúmulo da observação e da arte de escrever, Tolstoi descreve-nos o pobre juiz, devorado por um cancro, abraçado ao mujik que lhe trata da higiene, como se desejando que a forte energia que dele dimana se lhe comunicasse por osmose: literalmente, um filho nos braços da mãe, que o aleita e lhe dá segurança. Esta novela de Tolstoi, apesar da sua pequena dimensão, não desmerece, na minha opinião, das grandes construções romanescas que lhe deram fama. 

Há livros que admiramos, mas há outros que nos transformam profundamente. Estes três não foram os únicos que me deixaram dedada profunda. Há outros, não muitos, de que falarei noutro dia, se para isso me sentir inclinado. 

Eugénio Lisboa

VITA BREVIS

A vida é uma fracção de segundo,
num universo que não dá por ela.
Quando se nasce, está-se moribundo,
se usarmos, da galáxia, a tabela.

Nascemos, crescemos e descobrimos,
e, no fim deste arco ascendente,
após termos enfrentado abismos,
fica rápido curso descendente.

A vida humana é só um momento,
bem cheio de barulho e de fúria,
como, em fim de colossal portento,

viu Macbeth, reduzido à penúria.
Vive-se (pouco) e logo se morre,
num universo que mal se percorre.
                                                                        Eugénio Lisboa

"O QUE HÁ A DIZER SOBRE EDUCAÇÃO E A FORMA COMO ESTAMOS NO MUNDO"

Por Maria Helena Damião e Isaltina Martins

O jornalismo contribui para o esclarecimento da sociedade, se e quando, face a temas relevantes, difíceis e polémicos, dá a conhecer perspectivas diversas que são elaboradas sobre eles. Pode ser um esclarecimento que suscite e, até, acentue dúvidas, mas, como sabemos, num registo filosófico e científico honesto, as dúvidas existem e, se existem, precisam de ser encaradas e ponderadas.  

O Diário de Notícias, pela mão do jornalista Jorge Andrade, pode ajudar-nos a repensar o sentido da educação e, por acréscimo, da função docente, através de duas entrevistas recentes: uma de que aqui demos conta; outra a António Damásio, cujo título é “Há a substituição da educação, do tempo pessoal e de reflexão, pela diversão e entretenimento”. O seu conteúdo é manifestamente dissonante, traduzindo a falta de consenso desse sentido, num momento em que se vê (de novo!) reequacionada pelo "solucionismo tecnológico", na expressão de Evgeny Morozov.

Imagens recortadas daqui
O contexto desta última entrevista foi o seguinte:

Na sequência do seu projecto “Futuros da Educação”, a UNESCO, além de disponibilizar relatórios e outros documentos, tem promovido debates e conferências que o apresentam e esclarecem. Trata-se de um projecto que se distancia em múltiplos aspectos do projecto "Futuro da Educação e Competência 2030", da OCDE. Em mais um ciclo de conferências, que tem lugar no Instituto de Educação de Lisboa (ver aqui), um dos convidados foi este neurobiólogo. A entrevista, de que deixamos abaixo algumas passagens, antecedeu a sua intervenção com o título The new science of consciousness.

Jorge Andrade nota, a iniciar a conversa, que António Damásio esclareceu não ser “especialista em educação", o que é um bom augúrio num tempo em que a tendência é qualquer um, independentemente da sua área de formação, fazer declarações, na forma de afirmações inabaláveis, sobre educação.

Afirmou há uns anos em entrevista que “se não houver educação maciça, os seres humanos vão matar-se uns aos outros”. Associou a carência de educação ao crescimento de movimentos anti-imigração, à ascensão de partidos neonazis de nacionalismo xenófobo. Face ao panorama atual, somos levados a crer que os sistemas educativos estão a falhar?
Em parte, a resposta é um sim. Os sistemas educativos não estão a responder aos desafios que enfrentamos. A situação inclui uma transformação profunda do dia a dia que se relaciona com diversos fatores, como a aceleração do ritmo de vida, a perda de influência de sistemas religiosos que, tradicionalmente, têm funcionado como moderadoras da agressividade e da violência, a transformação do entretenimento que, no presente, é muito mais violento do que no passado. O fator que possivelmente é o mais importante prende-se com a transformação imposta pelas redes sociais.

(...) Deparamo-nos atualmente com crianças e jovens absortos horas a fio nas redes sociais. De certa forma, estas redes entram na mente das crianças, monopolizam-lhes a atenção, formam-lhes juízos. É aí que encontra os perigos a que se refere?
Um dos fatores que contribui para o aumento da violência prende-se com a desregulação que resulta das redes sociais. Hoje, há a substituição da educação, do tempo pessoal e de reflexão, pela diversão e entretenimento. Há o confronto constante com a ação, por vezes violenta, como substituta da reflexão e da calma. Temos uma imagem permanente de violência e de ação, com a exibição de conflitos e incompatibilidades, em vez de propostas de soluções. Atualmente, há a exaustão frente ao conflito e a vulgarização do mesmo. É muito difícil as pessoas terem tempo para pensar soluções alternativas quando tudo aquilo que lhes é oferecido é violência e confronto.
Face ao exposto, de que tipo de educação precisamos? Ou, se preferir, de que modelo de escola precisamos?
Aquilo que antevejo (...) é uma educação que tenha um bom princípio do ponto de vista da realidade (...) termos uma ideia tão aproximada do real quanto possível, daquilo que é a componente física que nos rodeia e daquilo que somos do ponto de vista biológico e do ponto de vista humano nas interações com outros seres humanos. Claro que há o risco de uma educação fundada nesses elementos ser demasiado científica e, por isso, parecer menos humana. A única forma que vejo de compensar esta realidade é com aquilo que, de uma forma muito genérica, se descreve como artes e humanidades. Ser educado sem o respeito pela música, artes visuais, literatura, impõe um empobrecimento extraordinário (...). Um ser humano com gravidade e profundidade tem de apreciar o que são os outros seres humanos, os seus problemas e aquilo de que são capazes de conceber em matéria de invenção, de descoberta, de criação de objetos de arte (...). É essa reunião de elementos que, julgo, terá sido sempre o ideal educativo. Os ideais greco-romanos de educação podem ser perfeitamente adaptados ao momento atual, sem desmerecer nessa adaptação tudo aquilo que a técnica moderna nos oferece (...). Uma forma de elevação que não seja aquela que se vive na internet, nas redes sociais (...). Tudo funciona desta forma desligada e desequilibrada.
Tem estado a falar das redes sociais. Gostaria de o ouvir a propósito da Inteligência Artificial. Estaremos a sobrestimar a Inteligência Artificial?
(...) há uma IA que vem da nossa inteligência natural. A IA é inventada por seres humanos, mas está a assumir características muito particulares que se prendem em especial com o extraordinário êxito (...) dos denominados large language models (...). Transformaram-se em coisas muito populares, através de sistemas como o ChatGPT, que permitem, de uma forma muito poderosa, inventar histórias, responder a perguntas variadas e gerar imagens. Funcionam tanto verbalmente como do ponto de vista imagético e visual. Em si mesmo, carregam um problema, o de dar a impressão de que os sistemas artificiais são capazes de fazer todas estas coisas de uma forma única, nunca utilizada por seres humanos. Isso é falso.
Porquê?
O que acontece é que estes sistemas são, no fundo, baseados em sistemas humanos porque a informação e a descoberta da forma como se podem fazer estas operações que parecem abstratas é resolvida através de uma massiva análise de produtos humanos. Para construir estas respostas, a máquina recorre a milhares de milhões de textos inseridos na internet (...) e que a determinado ponto constroem frases simpaticamente compostas e que fazem sentido. A ideia de que aquilo que ali está é puramente artificial, é falsa (...).
Sim, mas são sistemas com a capacidade de aprendizagem e que dão neste momento os primeiros passos.
Há o problema do caminho futuro destes sistemas (...). No caso das vantagens, se forem bem controlados podem aumentar o poder prático da inteligência humana, o que não me parece que seja desfavorável, embora os problemas que estão ligados ao seu uso no que respeita ao desemprego sejam extraordinários (...). Há outro risco: à medida que a autonomia destes sistemas cresce, há a possibilidade de, chegados a um certo ponto, terem uma autonomia completa. Aí, em vez de estarem sob o controlo humano, benévolo e benevolente, estarão sob um controlo autónomo e farão o que entenderem. As opiniões estão muito divididas sobre se isso é um problema real ou um problema que traduz um cenário improvável (...).
Na palestra que vai proferir deter-se-á na questão da consciência versus consciousness, aquilo que na língua portuguesa podemos definir como a consciência da nossa existência interna e externa. São palavras que, per si, se revelam traiçoeiras.
(...). O problema é que na língua portuguesa dizemos “consciência” e estamos a referir-nos não só ao inglês consciousness como também a conscience (...). Conscience prende-se com aspetos puramente morais, relacionados com o comportamento humano, com valores corretos ou incorretos, com a verdade e a mentira. Já a consciência no sentido que nos traz a língua inglesa de consciousness, prende-se com o facto de sermos capazes de reconhecer aquilo que é a nossa própria identidade, o nosso self, e que isso nos faculta a entrada em todo o mundo mental e real que nos rodeia. A consciência, nesse sentido, o de consciousness, é essencial para sermos seres humanos com o sentido daquilo que está à sua volta e com a possibilidade de valorizar as coisas. Não se pode ter consciência no sentido moral sem se ter consciência do sentido do reconhecimento de nós mesmos. Na palestra vou afirmar que tudo aquilo que há a dizer sobre educação e a forma de como estamos no mundo, só faz sentido depois de sabermos que aqui estamos e que esta passagem se deve à consciousness.

A BOA FÉ DOS FILÓSOFOS

A clareza é a boa fé dos filósofos.
Vauvenargues

A clareza de escrita não é um dos valores mais prezados pela classe intelectual e não o é, em especial, por muitos universitários que refugiam a sua ignorância sob o véu de um estilo opaco, obscuro e contrafeito. Coisa de má fé, se tem razão o amável filósofo Vauvenargues, citado em epígrafe. Dizer coisas importantes com grande simplicidade, como fazem filósofos (Russell) ou cientistas (Jean Rostand, admirável pensador aforista, na linha dos grandes do passado), parece coisa de simplórios, aos convicto cultores do opaco.

As dissertações académicas costumam ter horror à clareza, como se esta não estivesse à altura da majestade do empreendimento: como se a clareza e a simplicidade da formulação fossem coisa de saloios. 
 
Nunca me esquecerei de um episódio passado com uma ex-aluna minha, da Universidade de Lourenço Marques. Já a viver em Lisboa, resolveu doutorar-se e, um dia, pediu-me que lesse e comentasse parte da dissertação que já tinha escrito. A certa altura, encrespei-me com certa passagem muito tortuosa e obscura e observei-lhe: “O que quer V. dizer com isto?” Ela imediatamente o esclareceu, o que me levou a perguntar-lhe: “Se V. o sabia dizer assim, por que o não disse?” ao que respondeu, meio enxofrada: “Também V. não tolera o mais pequeno teor de opacidade…” Respondi-lhe que a opacidade não era, em si, um valor. E que só se admitia, quando não houvesse alternativa. E o não haver alternativa tinha muito que se lhe dissesse. 
 
Wittgenstein era de opinião que, se um pensamento não conseguia ser exprimido de forma clara e simples, era por não estar ainda suficientemente amadurecido. O grande físico dinamarquês, Niels Bohr, era acutilantemente categórico: “Verdade e clareza são complementares.”

A clareza tem tido os seus campeões, desde Aristóteles (“A primeira qualidade do estilo é a clareza”), passando por Galileu (“Falar obscuramente, qualquer um sabe, com clareza, raríssimos”), por Leibnitz (“No mundo do espírito, busque clareza, no mundo material, busque utilidade”), por Voltaire, que frequentemente a exaltou e admiravelmente a praticou, por Anattole France, herdeiro refinado de Voltaire (“Um bom estilo, afinal, é como um raio de luz que entra pela minha janela no momento em que escrevo, e que deve a sua clareza à união das sete cores das quais é composto. O estilo simples é parecido com a claridade branca”), Jean Cocteau (“Escrever é batermo-nos com tinta, para nos fazermos entender”), até Camus (“Os que escrevem com clareza têm leitores, os que escrevem de maneira obscura têm comentadores”).

A clareza sempre me fascinou, desde a leitura de bons mestres que li na minha adolescência: Voltaire, Stendhal, Montaigne, António Vieira, António Sérgio, José Régio, entre outros. E passei a desconfiar de grossa batota, nos cultores do opaco e do obscuro. Algo me parecia torto, no espírito daqueles que escreviam torto. E nunca me arrependi. Tentei sempre ser claro com os meus alunos e com os meus leitores. Grandes cientistas são frequentemente belos escritores. Não perco um livro de ensaios de Peter Medawar, o fundador da imunologia, tal a elegância e claridade das suas formulações.

Jean Rostand, o investigador das rãs, é um admirável cultor da claridade da linguagem e um dos grandes pensadores aforistas da língua francesa. Dito isto, tenho más notícias para dar. A minha experiência com a publicação de textos, neste blog, tem-me tornado cada vez mais céptico, acerca dos benefícios ou vantagens da clareza. Procuro ser o mais claro possível, naquilo que escrevo. Mas noventa por cento dos meus comentadores vêem preto onde está branco e branco onde está preto. A luz que o texto emite não os afecta: não conseguem ler o que está no texto, porque olham apenas com os óculos da ignorância ou do preconceito ou mesmo da má fé. Para eles, a clareza é um desperdício. Se eu disser que Tolstoi foi um enorme escritor, mas um ser humano complexo e com grandes defeitos (coisa que qualquer biografia documenta e sobre a qual há milhares de páginas de comentário publicadas), acusam-me de estar a faltar à verdade ou de ser contra a Rússia…

Não há dúvida, para estes zarolhos, o branco é preto. Eis um debate interessante: quais os poderes da clareza, num universo em que a deseducação em massa impera? É isto que sai das escolas: a incapacidade de ler direitinho? A ignorância contente e atrevida? A má fé como instrumento de trabalho? A total falta de respeito pelo saber de quem sabe? A lisinha falta de civismo? Foi para isto que quisemos uma democracia esclarecida? Vale a pena meditar em tudo isto e dou-o, com humildade, aos pais dos alunos, aos professores e ao próximo ministro da educação.

Eugénio Lisboa

terça-feira, 5 de março de 2024

HAVERÁ ALGO DE MAIS NOBRE NA PROFISSÃO DOCENTE DO QUE ENSINAR OS ALUNOS?

Por Maria Helena Damião e Isaltina Martins
 
Uma das promessas (falaciosas) em que assenta a tentativa de imposição das antigas, novas e hipernovas tecnologias da informação na educação escolar é a de que elas libertam os professores da tarefa de ensino, podendo estes, por fim, realizar outras tarefas "criativas" e "edificantes". Isto significa, em concreto, que os professores poderão (e deverão) deixar de transmitir conhecimentos escolares e de estimular capacidades que os alunos, como seres humanos que são, têm em potência. Tornar-se-ão guias, orientadores... ou, numa linguagem mais "moderna", líderes, mentores, coachs...

Esta nota é a propósito de uma entrevista publicada no Diário de Notícias com o título “O uso de IA no ensino pode libertar os professores para as tarefas mais nobres da sua profissão”. O entrevistador foi o jornalista Jorge Andrade e o entrevistado um professor catedrático do Instituto Superior Técnico, no Instituto de Telecomunicações; o contexto foi a realização de uma conferência ("IA pode mudar processos de ensinar e de avaliar alunos?”) integrada num ciclo designado por "Da Inteligência Humana à Inteligência Artificial (IA)", realizado recentemente na Academia das Ciências de Lisboa. 

Reproduzimos abaixo algumas passagem da dita entrevista, respeitantes: 1) ao contexto económico que justifica o acolhimento das hipernovas tecnologias na educação escolar; 2) às concepções (muito discutíveis) de aprendizagem; e 3) às concepções (não menos discutíveis) de ensino, que foram aquelas que mais nos chamaram a atenção pela razão que acima enunciámos.

1)
"(...) o desenvolvimento da aprendizagem automática (AA) e da Inteligência Artificial (IA) está intimamente ligado a factores económicos. No final do século XX, o modelo de negócio dominante na Internet era o acesso a conteúdos pagos. Com a generalização explosiva da Internet e dos smartphones, a superabundância desvalorizou o acesso, transferindo enorme importância e valor para a procura e a recomendação. O modelo de negócio associado à procura passou para a publicidade direcionada a cada utilizador e para as redes sociais. Aí, o negócio gira em torno da captura e conversão da atenção humana em valor comercial. Essa competição pela atenção e informação acerca dos utilizadores impulsionou o desenvolvimento de tecnologias de IA/AA, com avultadíssimos investimentos em infraestruturas, recursos humanos e investigação. As empresas líderes nesse campo (...) disponibilizam ferramentas gratuitamente e recursos que antes eram restritos a especialistas. Esta cultura de abertura é-lhes benéfica pois ajuda a formar as grandes quantidades de especialistas, de que precisam, na utilização destes recursos, podendo ser visto como uma forma de soft power (...)"
2)
A IA tem o potencial de personalizar a aprendizagem, fornecer tutoria inteligente e criar uma experiência educacional mais adaptada, eficaz e acessível. Por exemplo, através da análise de dados de desempenho, ou do estilo de aprendizagem e pontos fortes e fracos dos alunos, um sistema de tutoria pode criar planos de aulas individualizados e adaptativos para cada aluno. Na educação, a IA/AA pode ser usada para desenvolver plataformas de aprendizagem online, aplicações de tutoria e ferramentas de avaliação automática. Embora a IA na educação ainda esteja em desenvolvimento, o seu potencial para revolucionar a forma como aprendemos e ensinamos é enorme. Há motivos para pensar que o futuro da educação será mais personalizado e acessível (...). A IA/AA permite levar à educação a personalização e adaptação do ensino às características, interesses e objectivos de cada estudante (...).

3)

Se os alunos se habituarem a recorrer a IA para obter respostas ou gerar conteúdos de modo acrítico, a sua capacidade de pensamento crítico e de formar opiniões independentes podem ser prejudicadas. Os professores precisam de garantir que estas técnicas são usadas para auxiliar a aprendizagem, não para a substituir. Um outro risco é a exacerbação de desigualdades. Nem todas as escolas ou alunos terão acesso igual a ferramentas avançadas de IA. Isso pode aumentar o desnível de desempenho entre alunos de diferentes origens socioculturais, se não se garantir o acesso equitativo a essas tecnologias. Se os dados usados para treinar os sistemas de IA educacionais forem enviesados ou insuficientemente abrangentes, por exemplo, contendo apenas certos subgrupos da população, estes sistemas podem perpetuar esses vieses (...). Finalmente, como em qualquer sistema que adquire grandes quantidades de dados dos utilizadores, há riscos de fugas ou de má utilização desses dados, pelo que é imperativo usar medidas de segurança e privacidade de dados (...).
A utilização de IA/AA no ensino não dispensa os professores, mas permitem-lhes focar naquilo que é o seu papel fundamental: o estímulo da curiosidade e do desejo de aprender. Para além das circunstâncias e revoluções tecnológicas do momento, a essência do ensino e aprendizagem está no estímulo do interesse e curiosidade por um conjunto coerente de matérias e na capacidade de orientar e ajudar a satisfazer essa curiosidade (...). Focando-se no estímulo da curiosidade, os professores incutem o gosto pela aprendizagem ao longo da vida, característica crucial num mundo em constante mudança, pois é fundamental para o crescimento pessoal e profissional (...).
O uso de ferramentas de IA no ensino pode libertar os professores para as tarefas mais nobres da sua profissão: motivação e aconselhamento académico; estabelecimento de relações empáticas com os estudantes, compreendendo as suas necessidades e dando apoio emocional; promoção de interação entre os estudantes e de um ambiente de diálogo e cooperação; ensinar os estudantes a questionar, argumentar e a considerar as implicações éticas do conhecimento. O que se pede aos professores, na minha opinião, é que tentem usar a IA para ganhar espaço e tempo para assumir estes papéis, que são e continuarão a ser fundamentais (...). Mas, mais importante, é o que se pede a quem tutela o ensino: que compreenda que estas são as responsabilidades mais importantes dos professores e que são decisivas, com ou sem IA, para a formação de futuros cidadãos bem formados, esclarecidos, responsáveis, solidários, capazes de aprender e de se desenvolver ao longo da vida. A IA não deve ser usada para simplesmente aumentar a “eficiência” do ensino, mas sim para valorizar o papel dos professores (...).

CONTINUE-SE COM A PLATAFORMIZAÇÃO DOS EXAMES NACIONAIS

Foi publicado o Relatório da Inspecção-Geral da Educação e Ciência, com o extenso título Averiguações às irregularidades dos Exames Nacionai...