domingo, 8 de janeiro de 2012

Porque a educação não é priorizada no Brasil?



Os números que todos precisamos conhecer e discutir!

Saúde 3,98%
Educação 3,18%
Ciência e Tecnologia 0,43%
Cultura 0,09%
Segurança Pública 0,43%

Por que não se fala mais na realização de uma auditoria da dívida?

Em 1931 Getúlio Vargas determinou a realização de uma auditoria da dívida externa brasileira, que provou que somente 40% da dívida estava documentada por contratos, dentre outros aspectos graves, como ausência de contabilização e de controle das remessas ao exterior, o que permitiu, na época, grande redução tanto do estoque como do fluxo de pagamentos, abrindo espaço para a criação de direitos sociais. Após isso no Brasil a Constituição Federal prevê a realização dessa auditoria. que até hoje não foi cumprida.

Qual a situação salarial da classe política no Brasil?

Levantamento da ONG Transparência Brasil sobre os orçamentos da União, dos estados e municípios revela que o Senado é a Casa Legislativa que tem o orçamento mais confortável por legislador: seus R$ 2,7 bilhões anuais correspondem a R$ 33,4 milhões para cada um dos 81 senadores. Na Câmara dos Deputados, a razão é de R$ 6,6 milhões para cada um dos 513 deputados federais, segundo a ONG. Dentre as Assembléias Legislativas, o maior orçamento por legislador é o da Câmara Legislativa do Distrito Federal: equivale a R$ 9,8 milhões para cada um dos 24 deputados distritais. O mais exíguo é o de Tocantins: pouco mais de R$ 2 milhões para cada um dos 24 deputados. Nas Câmaras Municipais, a mais rica é a do Rio: seu orçamento equivale a R$ 5,9 milhões para cada um dos 50 vereadores. No outro extremo, em Rio Branco (AC), a provisão para 2007 equivale a R$ 715,3 mil para cada um dos 14 vereadores.

Porque não se resolve o problema da educação,saúde e segurança no Brasil?

Falta de prioridade da classe política já que eles utilizam os melhores hospitais (Hospital Sírio Libanês), seus filhos têm acesso ás melhores escolas e podem pagar uma segurança particular. Todos esses serviços naturalmente privados e de excelente qualidade.

Já para o povo...

SOBRE A FERTILIDADE HUMANA


Destaque semanal para a coluna "What's new" do físico Robert Park:

"FERTILITY RATE: IT’S PROPORTIONAL TO HUMAN IGNORANCE.

World population reached 7 billion in November 2011 and is on track to a disastrous 9 billion by mid-century. This is generally taken to be evidence of a powerful reproductive instinct. There is, to be sure, a nurturing instinct, but who thinks about that during foreplay? The Pill will one day be recognized as the most important invention of the 20th century; it permits us to plan our most essential function: reproduction.

Unfortunately, industry wants more consumers, generals want bigger armies, priests want their souls. Fertility in developed nations, however, including all of Europe, is at or below the replacement rate, usually taken to be 2.1. This is not the result of some policy consensus; it's simply that access to the Pill now empowers women to develop to their full potential. The lowest fertility rate is in China, where the current economic miracle refutes the belief that a low fertility rate is bad for business. The highest fertility rate of any country is 7.0 in Afghanistan, where the Sunni Muslim Taliban forbade girls to learn to read.

REPUBLICAN FERTILITY: IS IT PROPORTIONAL TO POLITICAL SUCCESS?

In Rick Santorum’s marriage, fertility follows the appalling rate of Afghanistan. A father of seven and a Catholic, Santorum described contraception as "a license to do things in a sexual realm that is counter to how things are supposed to be." Uh, what sexual things is he talking about and how should they be? With five children of his own, Mitt Romney, barely edged out Santorum in the Iowa Republican Caucus but trails him slightly in fertility, five being closer to that of Rwanda. The presumptive Democratic presidential candidate has two children."

Robert Park

Educação, corporativismo e gestão


Novo artigo do físico Armando Vieira:

A educação em Portugal parece viver em crise permanente. Muitas são as causas e muitas as receitas propostas. Na minha opinião o problema central da educação é essencialmente um problema de gestão, sobretudo de gestão do seu principal activo: os recursos humanos.

Em qualquer empresa, o factor crítico de sucesso está indexado aos talentos que consegue captar. Reter os melhores funcionários e criar uma atmosfera onde as suas capacidades possam ser aproveitadas ao máximo é o que muitas vezes dita a diferença entre a sobrevivência ou a morte. No ensino o factor humano é ainda mais crítico. Nenhum computador ou livro pode substituir o entusiasmo e a energia de um professor que sabe motivar os seus alunos e lhes pôr um brilho nos olhos.

As máquinas são importantes mas meramente reactivas. Um bom professor é activo e incita a curiosidade, estimula a dúvida e faz acordar o desejo de saber mais. Pelo contrário, um mau professor pode ter o efeito perverso contrário de matar essa curiosidade ou mesmo ditar o abandono escolar, até de alunos brilhantes. Os maus professores são um activo tóxico numa escola e, mesmo em pequeno número, se não forem removidos, acabarão por destruir o esforço da equipa.

O princípio de premiar e reter os bons professores e dispensar os maus parece uma verdade insofismável de boa gestão de recursos humanos. Porém ele não se aplica às escolas. Não se aplica ao nível do recrutamento dos melhores, quer sobretudo a nível da dispensa dos piores. Uma vez contratado, um mau docente pode ficar o resto da sua vida a leccionar sem que ninguém o possa impedir.

Eu pergunto: que tipo de qualidade pode uma empresa esperar atingir se, depois de contratar alguém, não o puder despedir? Já que não se pode despedir, a contratação acaba por ser o factor crítico que devia obedecer a critérios exigentes e rigorosos. Porém, não é isso que acontece. No caso do ensino secundário a contratação é um mero processo administrativo gerido por uma monstruosa máquina burocrática e a progressão salarial é feita por antiguidade. Ou seja, independentemente do seu esforço, aos olhos da administração, para um professor ser bom basta ser velho. No caso do ensino superior o processo é melhor mas também com imensas deficiências, como já referi em artigos anteriores.

Não é de espantar que nas escolas a meritocracia tenha sido substituída pela burocracia. As escolas estão na mão de burocratas que mantêm o ensino aprisionado num denso e ineficiente labirinto de interesses corporativos. Os sindicatos preocupam-se em defender os “interesses dos professores” sem nunca questionar a sua qualidade ou do serviço prestado. Os administradores, directores ou responsáveis sectoriais agem mais como comissários do ex-regime soviético do que como gestores de uma empresa moderna.

Não tenho dúvidas que, se as escolas fossem uma empresa, estariam há muito falidas. Mas é claro que não são, nem o devem ser. Mas o facto de não estarem obrigadas a critérios de lucro não significa que não devam ser eficientes na gestão do dinheiro público e na formação das próximas gerações. Para isso acontecer muita coisa tem de ser mudada. A mais simples e eficaz é as escolas terem o poder e a autonomia de seleccionarem os seus professores e, sobretudo, pôr na rua os maus professores ao mesmo tempo que recompensam os melhores. É lamentável que estejamos a formar talentos de grande qualidade e que, quase sempre, os melhores acabem por partir para o estrangeiro.

Existem milhares de ideias, projectos, tecnologia e pessoas competentes que querem lutar por modernizar a educação e elevar os standards de qualidade dos alunos. Infelizmente, enquanto não mudarmos radicalmente a organização das escolas, dando-lhes mais autonomia para que sejam geridas de uma forma moderna e eficiente, todos esses esforços de pouco valerão.

Armando Vieira

A Revisão Curricular e a Ordem dos Professores

“Trata-se de reflexão, e a irreflexão parece-me uma das principais características do nosso tempo” (Hannah Arendt, 1906-1975).

A recente notícia da audição do ministro Nuno Crato aos directores das escolas dos ensinos básico e secundário sobre a revisão curricular destes graus de ensino parece ter criado um certo receio entre os docentes relativamente às consequências boas ou nefastas dessa medida há muito reclamada e para a qual não foram consultados, quiçá, por ser sabido que “cada cabeça, cada sentença”.

Mas eu temo (e tenho razões de sobra para temer) que os sindicatos dos professores queiram, uma vez mais, meter a colherada em assunto que não lhes diz respeito por intervirem, não poucas vezes, “com desenvoltura,em áreas que não são nem da sua vocação nem da sua competência” (EugénioLisboa). E, desta forma, possa ser transformada a revisão curricular numa verdadeira Torre de Babel sujeita a interesses partidários, proveitos de capelinhas ou conveniências meramente pessoais. Ora com diz a sabedoria popular, “gato escaldado de água fria tem medo”. Haja em vista a Lei de Bases do Sistema Educativo, discutida e acordada entre o ministro Roberto Carneiro e 30 sindicatos e organizações afins, génese de um clima de gritante injustiça em que passaram a ser igualados docentes desiguais como se “a única salvação do que é diferente não fosse ser diferente até ao fim, com todo o valor e todo o vigor” (Agostinho da Silva).

Mas será assim tão difícil compreender (e, principalmente, acatar pelos seus dirigentes) que aos sindicatos compete, apenas, a indiscutível importância na discussão de objectivos meramente laborais, v.g., horários de trabalho e remunerações, não deixando (e bem) nas mãos do patronato a decisão unilateral dessas condições, nesta espécie de terra de ninguém, tomada de assalto por um sindicalismo agressivo, metendo a foice em seara alheia, com a estranha complacência e não menor passividade docente, não tem havido terreno fértil para uma outra alternativa, como seja a criação de uma Ordem dos Professores, mesmo depois da existência de quase incontáveis ordens profissionais que, hoje, não obedecem, nem de perto, nem de longe, a um exigente critério estatutário anterior ou mera tradição relativamente aquelas criadas antes da Constituição Portuguesa de 33 (Ordem dos Advogados), durante o Estado Novo (com parcimónia) e depois de 25 de Abril, agora sim, em movimento uniformemente acelerado, algumas delas, em resposta a exigências, mais ou menos descabidas, dos seus futuros usufrutuários. Ou seja, sem rei nem roque!

Uma das razões possíveis para este statu quo parece-me residir no facto de o primeiro movimento para a criação de uma Ordem dos Professores ter surgido pela vontade da Associação Nacional dos Professores do Ensino Básico (maioritariamente constituída por professores do 1.º ciclo do básico), prosseguida com verdadeira “obra feita” por parte do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, através, inclusivamente, da apresentação por si de uma moção discutida em Plenário da Assembleia da República (com os votos a favor da bancada do CDS/PP, indecisão de outras bancadas e repúdio declarado do Bloco de Esquerda).

E, assim, nesta luta de perspectivas diferentes de valorização de uma classe que não existe verdadeiramente sendo apenas um mero exercício profissional (os licenciados em Medicina só são médicos mediante a inscrição na respectiva ordem profissional) não se encontra um interlocutor para, a uma só voz, dar parecer sobre a revisão curricular dos ensinos básico esecundário. Mas esta discussão, como diria Eça, não se deve preocupar com “minudências”. Mas mais do que "minudências", trata-se, isso sim, da criação de uma associação de direito público em que o Estado delegue funções, como sejam: definir o perfil do professor , atribuir o respectivo título profissional inexistente, ou atribuído ao desbarato, zelar pela qualidade das escolas que formam os docentes, regulamentar a respectiva actividade, dar pareceres científicos e pedagógicos que ao exercício docente digam respeito e, last but not least, atribuir aassunção da responsabilidade de actos próprios de uma profissão de interesse público com incidência no cumprimento de uma necessária e desejável deontologia profissional. Não compreender isto é não aceitar que, como escreveu Fernando Savater, responsável pela cátedra de Ética da Universidade do País Basco, a “profissão docente é a corporação mais necessária, mais esforçada e generosa, mais civilizadora de quantos trabalham para satisfazer as exigências de um Estado democrático” .

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

«A Última Fronteira»


Não foi por esquecimento, mas sim por alguma timidez que não referi nesta nossa bela casa virtual que desde Outubro que mantenho uma pequena rubrica semanal aos sábados no programa da RTP1 Bom Dia Portugal; como não podia deixar de ser, são aproximadamente 10 minutos em que tento, com alguma insistência e enorme prazer, levar toda nossa população para outras paragens onde a palavra crise não entra, ou seja, para o Cosmos!

Na semana passada foi assim (a partir do minuto 43) e amanhã, a partir das 10:40h, começamos e acabamos com música! Pelo caminho, vamos até à Lua, regressamos ao asteróide Vesta e vamos ver o que de misterioso se passou há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante de nós!

DERIVA CONTINENTAL



Faz hoje, 6 de janeiro, exactamente cem anos que o geofísico alemão Alfred Lothar Wegener (1880-1930) apresentou, numa reunião da Associação Geológica Alemã, ocorrida no Museu Senckenberg, em Frankfurt, a sua teoria da deriva continental e a sua ideia da existência em eras geológicas muito recuadas de um supercontinente, a que chamou “pangea” (a partir do grego pan + gea, que significa “toda a terra”) rodeado por um único oceano, designado por "pantalassa" (do grego, pan + talasso, que significa "todos os mares").


O seu livro “A Origem dos Continentes e Oceanos” foi publicado em 1915. Mas foi com a terceira edição em 1922, traduzida em várias línguas, que as suas ideias sobre a evolução da crusta continental e oceânica ficaram melhor conhecidas. A sua obra é a rocha fundadora da tectónica de placas, que só viria a ser confirmada e melhor compreendida depois de detectada a expansão do fundo dos oceanos na década de 1960.


O impacto das ideias de Wegener, que se vieram a confirmar experimentalmente cinco décadas após a sua formulação, com a mudança de paradigma que elas produziram, é comparável na geologia à revolução que a teoria heliocêntrica de Copérnico causou na astronomia no século XVI.

António Piedade

Um sonho para 2012: A Valorização do Professor!

O desafio é mais do que uma questão de números. A qualidade dos professores e do ensino é também essencial para se atingirem bons resultados de aprendizagem. Isto implica um sistema de ensino que atraia, que retenha um corpo docente bem-formado, motivado, efetivo e equilibrado.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

No descomeço era o verbo

Um poema gentilmente enviado por Maisa Lins, professora de Artes no Brasil.

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é a voz do poeta, que é a voz de fazer
nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.

De Manoel de Barros, in Livro das Ignorãças (1994).

Apontamentos para a compreensão da polémica António Sérgio (1883-1969) vs. Abel Salazar (1889-1946) - II


Conclusão do post de António Mota de Aguiar sobre a polémica entre os dois grandes vultos da cultura portuguesa (na foto Abel Salazar):

O que distingue as posições destes dois homens na sociedade portuguesa de então é que António Sérgio se posiciona como filósofo criacionista e Abel Salazar como agnóstico, neo-positivista, defensor da ciência contra a metafísica.

Já dissemos aqui que António Sérgio foi um homem insubmisso e livre, mas Abel Salazar não o foi menos. Abel Salazar defendeu sempre com firmeza férrea as suas teorias, estruturando o seu ideário "em princípios abertos, em afirmações condicionais, em obstáculos epistemológicos que o revelam como um intelectual de acentuado pendor crítico…" (Norberto Ferreira da Cunha, Génese e Evolução do Ideário de Abel Salazar, Imprensa Nacional Casa da Moeda)

António Sérgio privilegiou o ensaio como forma de comunicação o que, como aqui já escrevi, dificulta a sistematização do seu pensamento. Daí que a obra de António Sérgio, em matérias filosóficas e científicas, ofereça grande discordância.

Magalhães Vilhena, que estudou a obra de Sérgio, atribui um carácter "ideal" à génese do ideário filosófico de António Sérgio, salientando que "o misticismo presente no idealismo sergiano aponta para fontes distintas das científicas".

De resto, várias vezes António Sérgio afirmou que as "ideias-relações-formas-estruturas" existiam fora do espaço e do tempo, o que revela o aspecto criacionista no seu pensamento.

Transcrevo a seguir este pequeno trecho das Cartas de Problemática, § 2, 5.ª Carta (a meio) que António Sérgio nos legou como seu pensamento:

"… o pensamento unitivo do verdadeiro místico (o que afirma a Unidade e a adesão à Unidade, ou aquele íntimo «amor intelectual de Deus», à feição de um Espinosa)…O essencial da filosofia, como a tenho eu entendido, é uma reflexão sobre as actividades espirituais do homem, designando por «espiritual» o pensar des-subjectivado, o pensar des-individualizado, o que tende pois para o absoluto, - tomando consciência de uma des-egocentrização da física que me parece acompanhar uma des-sensibilização da matemática." (…)

Num outro trabalho seu (Considerações sobre o Problema da Cultura), Sérgio diz-nos que:

"O mundo externo, tal como é dado pelas sensações, (…) não existe fora do sujeito pensante"

Carlos Leone (in O Essencial sobre António Sérgio) sintetizou a filosofia de Sérgio em quatro pontos. Saliento aqui o segundo:

"O conhecimento que temos do mundo exterior e, por maioria da razão, do próprio domínio da consciência é uma construção ou representação mental, isto é, todo o conhecimento é actividade mental, ainda que nem toda essa actividade seja consciente ao sujeito."

Nascidos em berços distintos, percorreram caminhos na vida diferentes um do outro, optando por filosofias também diferentes. Enquanto Sérgio se afirmou como criacionista, rebuscando no seu cérebro esquemas intelectuais que postulou como teorias filosóficas, Abel Salazar aderiu ao neo-positivismo, ultrapassando-o mesmo, ao veicular a falência da metafísica. Esta falência constituiria um golpe mortal no pensamento filosófico de Sérgio, um golpe que este não podia aceitar, já que toda a sua filosofia ficaria em causa.

Na década de 40 do século XIX Auguste Comte propôs o positivismo, doutrina filosófica marcada pelo optimismo de que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia iria desembocar numa sociedade de bem-estar generalizada. A doutrina positivista combateu as concepções idealistas e espiritualistas da Natureza, afirmando-se anti-teológica e anti-metafísica. Foi durante estas décadas que se assistiu em Portugal à implantação progressiva da corrente republicana que, adoptando em larga medida com o positivismo, se tornou na corrente filosófica mais influente no seio da intelectualidade portuguesa. Diga-se contudo, que António Sérgio não pertenceu a este movimento, nem tão pouco era afecto à República. “Para mim a Monarquia vale a Republica”, escreveu ele a Raul Proença. Até ao fim da década de 1910 Sérgio manteve uma vida republicana apagada.

No século XX, o positivismo evoluiu para o neo-positivismo fundado pelo Círculo de Viena. Como pilares de importância capital nas reflexões desta corrente filosófica, destacam-se a Teoria da Relatividade, a Mecânica Quântica e a Lógica Matemática. Não é pelo fato de Abel Salazar defender o neo-positivismo que os dois homens estiveram em desacordo, uma vez que o criacionista Leonardo Coimbra foi um importante relativista, defensor portanto de um dos pilares do neo-positivismo.

Tiro como ilação que o que profundamente separa os dois homens não é a problemática da divulgação da ciência, nem tão pouco o neo-positivismo, mas a crença ou não na metafísica. Para Sérgio havia a esperança do advir de um Deus redentor, para Abel Salazar havia… o desconhecido. É claro que, nas primeiras décadas do século XX, estas duas maneiras de ver a existência humana – tão extremadas como eram – implicavam posições sócio-políticas bem acentuadas e bem diferentes, que se alicerçaram nos berços tão diferenciados em que cada um deles nasceu.

António Mota de Aguiar

ONDE ESTÁS HOJE “CURIOSIDADE”?


A nave espacial "Centauro" que transporta o robô “Curiosity” – o robô-cientista high-tech -, lançada no passado dia 26 de Novembro de 2011, do Cabo Canaveral, na Florida (USA), com destino ao planeta Marte, continua a sua paciente viagem sideral a uma velocidade de cerca de 12 mil km/h em relação à Terra.




Hoje, dia 5 de Janeiro de 2011, as câmaras fotográficas, extensões dos nossos olhos para as janelas do espaço, mostram-nos o planeta Terra a cerca de 11 829 mil km de distância.


Voltadas as câmaras teleobjectivas para o seu destino, previsto para o dia 6 de Agosto de 2012, Marte é visto a 143 108 mil km.


A nave Centauro já percorreu 110 milhões da sua trajectória de 567 milhões de km até se separar do módulo estéril em que "Curiosity" está envolto. Este robô todo-o-terreno e dotado com a mais sofisticada tecnologia analítica alguma vez enviada para o espaço pelo engenho humano, há-de poisar no solo da Cratera Gale na superfície de Marte, a 6 de Agosto de 2012, data prevista para a sua “marteagem”.

Pode acompanhar este produto maior da engenharia e ciência humanas diariamente neste local.

Nota: todas as imagens são o produto da mais pura simulação e as imagens gráficas geradas por computador.

António Piedade

COIMBRA NO NEW YORK TIMES: A CIDADE DOS VAMPIROS


Ler aqui, sem deixar escapar a reportagem fotográfica.

No caminho do çuçeço; episódio de episódios:


Continua a novela educativa "No caminho do çuçeço" de António Mouzinho, agora com um "episódio de episódios":

7.º dia — a ÇINOPÇE

Andei seis sessões (poupem-me: não é çeções!) a escrevinhar vantajosamente sobre assuntos que é evidente que desconheço, mas com um formato que conheço: em episódios.

O 1.º episódio falava de «izames»; seguiram-se «os responsáveis», «os projetos educativos», «avaliações», «programas» e «manuais». Sem ordem aparente, ao sabor dos humores e da generosa paciência dos responsáveis do De Rerum Natura.

Haverá algum sumo a extrair de todo este arrazoado? Receio bem que não.

Tenho, no entanto, uma tradição de sinopses na família — muito mais ativa em mim que as sinapses, com toda a probabilidade — que me conduz a concluir.

Ensaiemos a conclusão:

Que dizer de um sistema de ensino que, movimentado por programas de contornos indecisos, é entregue por uma legislação retorta e heterónima a responsáveis que o são em doses homeopáticas, manietados por projetos educativos feitos em piloto automático por processadores de texto zen, apoiados em manuais instáveis vertiginosos e — permanentemente — em atitude de recusa de ir ao médico avaliar a tensão ou mesmo avaliar o que for?

Bem: que é um sistema de ensino que não tem juízo.

Há bons momentos nisto tudo? Claro que há. Sem cinismo, também encontramos sensatez em programas; e responsabilidade e competência em professores; intenções corretas nos documentos das escolas e nos manuais de consulta; alunos preparados para as provas finais e boas práticas de reflexão nos resultados.

Mas é essa a impressão geral? Não é: a impressão geral é a de uma Educação à deriva, a de um sistema que faz vítimas, embora tenha bons momentos.

Para os nossos filhos — uma questão de sorte.

Estamos a viver um momento particular da trajetória do país: estamos por tudo… na medida em que estamos a refletir sobre tudo. Significa isto que talvez seja a altura de pegar pelo começo e reformular o sistema, metodicamente, lentamente, a partir do ensino básico, com programas neutros, sólidos, exigentes, abordando conhecimentos concretos, válidos para iniciar a formação de quaisquer meninos em qualquer parte do Mundo. E exames eficazes, que estabeleçam a veracidade da construção.

Sem outras ambições que não seja fazer um trabalho escorreito para cidadãos que vão tomar conta disto daqui a 20, 30, 40 e mais anos.

Só depois de afinar programas e exames nacionais — uns e outros — poderemos tolerar a autonomia das escolas na formação (as privadas, entenda-se, que nas públicas a autonomia não poderá, em caso algum, colidir com o âmbito nacional). Só então poderemos achar interessantes os currículos alternativos. Há sopa, há um prato, há fruta? O resto, então, é opcional.

A autonomia das escolas é um projeto interessante, se não deixarmos ir o sapateiro além do chinelo: os órgãos de gestão não são génios da lâmpada; não se lhes atribua funções demiúrgicas… mas apenas políticas, de gestão. Querem pôr-se a inventar? Que o façam em casa, ao fim de semana, e utilizem a repartição adequada para patentear: o Instituto Nacional da Propriedade Industrial. E vendam, e sejam felizes.

Será necessário reforçar a escola dotando-a de um corpo de docentes geralmente robusto, dedicado, competente, pouco dado a confusões formativas, nada dado a confusões científicas. Acarinhado, protegido, prestigiado de uma forma que hoje é já difícil de conceber, embora se revele cada vez mais inadiável.

As escolas de formação de professores andam aí; demasiadas vezes, a passar a mensagem errada: a pedagogia primeiro, depois o saber.

Querem que vos diga?: o saber primeiro. Está nas faculdades, e nos institutos. É aí que devem ser recrutados os docentes, e desacreditadas todas as falácias que põem raparigas e rapazes em desespero, todos os anos, à porta do ministério da Educação, revoltados: são professores, e estão no desemprego. Ora, muitos não são — ainda — professores. E estão, de facto, desempregados, transviados por uma formação que, sem provas adequadas, os iludiu e vulnerabilizou. É gente, de certeza, capaz. E é pena; é muita pena e um enorme, um imenso, desperdício.

Agora:

Ninguém avaliou a sua apetência pelo proselitismo. Ninguém examinou o seu gosto por uma determinada classe de idades de formandos. Ninguém asseverou o seu à vontade e bom humor com uma turma normal, e qualidades iguais com uma outra turma — de patifes. Ninguém fez questão de garantir que o futuro professor tem um robusto prazer em fazer isso mesmo que é… ensinar. Teríamos então professor. Seguramente; à confiança!

Que fez a escola de formação? Mistério… Temos professor? Como as coisas estão, depende: só o futuro o dirá. E há futuro? Não se sabe.

A coisa está má, e há que revê-la. Isso somente é possível com melhores leis. É aí que entram os políticos que designámos. É aí que entra a República.

(Retirando-me pela esquerda alta: se isto não é sinopse, queiram desculpar!)

António Mouzinho

INSPECÇÃO SANITÁRIA NA CASERNA


Mais um conto recebido do Prof. Galopim de Carvalho. Este fala do uso sanitário do DDT, um assunto que David Marçal abordou num dos seus textos no livro "Darwin aos Tiros":

De vez em quando, sem qualquer aviso, mandavam-se reunir os homens nas casernas, tal com vieram ao mundo. Começando no primeiro e assim sempre até ao último, dezenas de recrutas eram rápida mas cientificamente observados, o suficiente para detectar o inimigo, geralmente parasitas e blenorragias.

- Este ano o Phthirius pubis, de Lineu, atacou mais cedo e em força. – Comentava o tenente-médico, numa linguagem propositadamente erudita e bem-humorada que gostava de usar nestas ocasiões. Bem anafado de carnes e banhas, enfiado numa bata mal vestida e desabotoada, este clínico, um simpático bonacheirão para quem o conhecia de perto, punha na voz um volume e um timbre que deixava aterrados os pobres soldados. O cabo-enfermeiro que o acompanhava nestas inspecções também se divertia com o espectáculo.

Dirigindo-se a um dos magalas, de pernas peludas, bem afastadas, deixando ver a vermelhidão da zona pélvica, o nosso tenente-médico exclamava num tom de voz que enchia a caserna:

- Estás cheio de chatos, sacana de merda! Tens-te coçado que nem um sarnoso e não dizias nada, meu bandido. Porque é que não foste já à enfermaria tratar essa merda?
Olhando depois para o peito do rapaz, continuou:

- Com essa lã a chegar-te ao pescoço, estás aqui estás todo inçado dessa bicheza, meu grande sacana. Cabeça e tudo, meu piolhoso. Sai lá daqui e vai já tomar banho. Esfregas-te bem, da cabeça aos pés, com muito sabão. Tiras a espuma com água a correr com força e voltas a fazer o mesmo várias vezes. E não tornes a vestir a mesma roupa! A seguir vais à enfermaria, ao nosso sargento Simões, para que te dê um pacotinho de DDT. Diz-lhe que fui eu que mandei. Espalhas o pó por todo o lado onde haja pentelho e depois vais lavar essa roupa, que é para aprenderes a ser mais asseado, meu grande bandido. Levas a roupa da tua cama à lavandaria e pedes que te dêem lençóis lavados.

E, dirigindo-se à caserna, acrescentou bem alto para que todos ouvissem:

- Quem andar com comichão nos tomates, que venha para aqui, já! – E, após rápida confirmação da praga em mais uns tantos, gritou:

- Vai tudo para o banho e depois fazem o mesmo que aqui o … qual é teu número, bandido?

- 124, meu tenente.

- Fazem tudo o que o 124 fizer. Identifiquem-se aqui ao nosso cabo e amanhã quero vê-los lá no posto.

Ser apanhado com uma venérea dava direito a castigo. Todos os soldados sabiam que, depois de irem às meninas e logo que chegados ao quartel, deviam pedir, na enfermaria, uma bisnaga com a pomada própria para aquelas ocasiões.

Das primeiras vezes, o graduado de serviço ensinava-os a usar este desinfectante.

- Depois de urinares metes esta ponta na uretra - e mostrava a extremidade afilada da embalagem.

- Uré… quê, meu sargento?

- Uretra, sim, grande burro. Sabes tudo, menos aquilo que devias saber. Uretra é esse buraco aí por onde mijas. Em seguida apertas a bisnaga para a pomada entrar lá bem para o fundo da gaita. Depois arregaças-lhe a cabeça e, com o resto, besuntas tudo por dentro e por fora. E é assim todas as vezes que deres uma martelada! Não te esqueças!

O número do soldado ficava registado a fim de comprovar o cumprimento da respectiva medida profilática, bem expressa no regulamento do quartel. Esse registo despenalizava-o no caso de, apesar do cuidado, ter contraído a venérea.

Ao observar um outro soldado, o nosso tenente-médico que, todos sabíamos, agia como um pai da soldadesca, exclamou:

- Estás com um escarepe, meu desgraçado! Claro que não puseste a pomada da ordem. Qual é o teu número, bandido?

- 203, meu tenente.

- Estás lixado, rapaz. Vais apanhar um porradão que te acaba com a tesão, meu bandido.

E, dirigindo-se uma vez mais à caserna, gritou:

- Digam lá todos comigo, em voz que se oiça. «O 203 vai apanhar uma porrada por não ter posto a pomada». – E repetia o verso até a rapaziada o saber de cor. Voltando-se depois para o soldado infectado:

- Vais ser castigado, rapaz. Tenho muita pena mas é para aprenderes e para exemplo dos teus camaradas. Quando eu acabar a inspecção, vais ter comigo ao posto para começarmos a tratar essa merda.

A, Galopim de Carvalho

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ESTREIA: AQUECIMENTO ESCLARECIDO (é hoje!)


Hoje, estreia do espectáculo AQUECIMENTO ESCLARECIDO.

As datas e locais das primeiras apresentações são estas:

- 4 de Janeiro de 2012 Casa da Cerca, Almada (18h30)
- 5 de Janeiro de 2012, Teatro da Trindade, Lisboa (17h30)
- 6 de Janeiro de 2012, Jardim Botânico da Universidade do Porto (16h30)
- 7 de Janeiro de 2012, Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (15h)

Duração aproximada de 35 minutos, seguido de um debate entre público, artistas e especialistas em questões climáticas.

Apontamentos para a compreensão da polémica António Sérgio (1883-1969) vs. Abel Salazar (1889-1946) - I


Novo post do historiador António Mota de Aguiar (na figura António Sérgio):

António Sérgio foi um pensador polemista por natureza e avezo a sistematizações, tendo ao longo da vida mantido polémicas com vários intelectuais do seu tempo: na década de 1910 polemiza com Jaime Cortesão e Teixeira Pascoaes a respeito de matérias de identidade nacional; na década de 1920 polemiza com António Sardinha do Integralismo Lusitano em torno da interpretação da História de Portugal e com Cabral de Moncada a respeito do pensamento político português; na década de 1930 será com Casais Monteiro e João Gaspar Simões do grupo literário "Presença." Ainda na década de 1930 com Abel Salazar sobre divulgação da ciência e com Leonardo Coimbra sobre educação. As suas últimas polémicas foram com Bento Jesus Caraça e António José Saraiva.

António Sérgio tinha da polémica uma concepção elevada no debate das ideias, dizia ele que: "A polémica é necessária ao progredir científico, ao avançar da cultura." Contudo, na defesa das suas teses, Sérgio não teve sempre razão, sobretudo em matérias de ciência, uma vez que a sua formação científica não era muito profunda, por isso se discorda tanto das suas teses, e se compreende algum apagamento a que chegou hoje o seu nome.

Isso não impede que Sérgio tenha sido um dos grandes animadores culturais da primeira metade do século XX, de pensamento insubmisso e livre, lutou contra as ideias totalitárias do Estado Novo, sendo várias vezes preso.

António Sérgio nasceu em Damão em 1883, tinha origem indiana por parte da mãe, além de uma ascendência nobiliárquica por parte do avô, o almirante Sérgio de Sousa, ajudante-de-campo do rei D. Luís e governador-geral do Estado da Índia. Seu pai fora vice-almirante e Governador do Distrito de Damão. O jovem António Sérgio é, portanto, oriundo de uma família fidalga do liberalismo português quando ainda com 2 meses de idade o trazem para Lisboa. Com a idade de 6 anos acompanha o pai para Angola onde este ocupará o lugar de governador do distrito do Congo.

Com 11 anos ingressa no Real Colégio Militar e, aos 18 anos, entra para a armada, onde terminou o curso da Escola Naval. Em 1905 parte para Macau, no ano seguinte está em Newcastle. Em 1907 é promovido a segundo-tenente e colocado na Estação Naval de Cabo Verde.

António Sérgio não foi afecto à Monarquia, mas tão pouco via na República a solução dos problemas de Portugal, porém, quando em 1910 se implanta a República, dá um giro à sua vida e liga-se às correntes republicanas intelectuais do seu tempo, pondo em evidência o seu perfil de pedagogo, que manterá até ao fim da vida.

Até ao princípio da década de 1930 participará nas principais revistas literárias de então: Serões, Águia, Seara Nova, e participa no movimento Renascença Portuguesa, ao lado de intelectuais do seu tempo, afirmando-se "aristocrata" e "socialista",

Nestes 20 anos seguintes à implantação da República Sérgio viajará muito: viverá no Brasil, visita várias cidades da Europa, faz estadias prolongadas por razões de saúde na Suíça e em Nice e constrói o seu sistema de análise crítica da História de Portugal e da Europa. Ligado aos movimentos culturais da capital, fortalece nesses 20 anos os seus principais ideais filosóficos.
É principalmente neste período que construirá o seu sistema filosófico-científico e as suas teses económicas, ao qual o seu nome ficou associado como cooperativista.

Quando começa a década de 1930 António Sérgio tem 47 anos, sendo seis anos mais velho que Abel Salazar. Porém, o seu percurso humano, existencial, é completamente distinto daquele efectuado por Abel Salazar.

Ao contrário de António Sérgio, filho de monárquicos, o pai de Abel Salazar foi um homem afecto aos problemas da 'res-publica'. No ano lectivo de 1881-1882, foi, por razões profissionais, enviado para o Porto, tendo deixado Abel Salazar e seu irmão Camilo em Guimarães, entregues aos cuidados da avó e da tia. No ano lectivo de 1899-1900, com dez anos de idade, ingressou no Seminário-liceu de Guimarães de onde guardou deste tempo amargas e perduráveis recordações, pela obscura e intransigente educação religiosa ministrada neste estabelecimento.
Provavelmente, a sua infância e adolescência foram influenciadas por estes anos de seminário e concorreram para a sua posterior "instabilidade emocional." Acrescente-se ainda uma união conjugal infeliz, que o terá atormentado ao longo da vida.

Ao contrário de Sérgio, que como já dissemos, não fora afecto à Monarquia, mas que também não via na República a solução milagrosa dos problemas nacionais, e que na correspondência com Raul Proença escreveu várias vezes que “para mim a Monarquia vale a República”, e que colocava os seus ideias de progresso para Portugal numa solução que estaria para lá dos dois sistemas jurídico-políticos, Abel Salazar ainda jovem aderiu ao ideal republicano e via na República o passo necessário para o progresso de Portugal. Nas primeiras décadas do século XX, são duas concepções diferentes de ver a História de Portugal.

Em 1915, quando terminou o curso universitário, Abel Salazar enveredou pela carreira de investigador científico na área de histologia e, no ano seguinte, é nomeado pela Faculdade de Medicina do Porto para reger esta cadeira. Pouco tempo depois, com 30 anos, é nomeado Professor Catedrático de Histologia e Embriologia da mesma Faculdade, fundando algum tempo depois o mesmo Instituto. Começaria por estes anos a sua carreira de investigador científico que o tornariam internacionalmente conhecido.

Em 1927 Abel Salazar sofreu um esgotamento, motivado por várias causas: excesso de trabalho, conflitos com os colegas na universidade, pela doença grave que sofria a mãe, e por excesso de tabaco, esgotamento também facilitado pela sua "instabilidade emocional". Retira-se então para uma casa de repouso (no fundo, uma casa para alienados mentais), durante cerca de 4 anos.
Em 1931, quando regressa, encontra o seu gabinete desmantelado. É por essa altura que começa a sua intervenção como filósofo neo-positivista, através de conferências de divulgação científica e, a partir de 1935, escrevendo em vários periódicos: O Trabalho, A Voz da Justiça, O Diabo, O Sol Nascente, a Seara Nova, Pensamento, etc., e em muitos jornais da província, como A Ideia Livre de Anadia. Neste último, iniciou uma série de artigos sobre A Falência da Metafísica, cuja síntese iniciei neste blogue em Maio de 2011.

Nestes artigos Abel Salazar defendia, por um lado, a irredutível incompatibilidade entre a ciência e a metafísica, a irreversível decadência histórica da metafísica e sua carência de sentido e, por outro lado, a visão do mundo e da vida que o empirismo lógico da Escola de Viena veiculava.

É também por esta altura que começa a ser seriamente perseguido pela ditadura fascista que, nos anos 1930 redobrava de vigor, quer pela implementação da Constituição de 1933, quer pela força que o fascismo e o estalinismo ganhavam e exerciam tragicamente no mundo inteiro.

Neste sentido, também António Sérgio fora (e seria) perseguido pela ditadura, e algumas vezes preso. Como opositores da ditadura, ambos contribuíram, cada um à sua maneira, para o seu posterior derrube. Ambos pertenceram a movimentos de esquerda opositores ao regime político de então, ambos cobriam o espaço político não comunista, embora certamente fossem de famílias políticas diferentes. Não foi, portanto, por razões políticas que se desentenderam.

As breves biografias que acima tracei destes dois homens, mostram bem que tiveram percursos de vida bem diferentes um do outro, o que ajuda a compreender as posições que tomaram quando da polémica que viriam a ter sobre a divulgação da ciência. Diga-se, contudo, que, se não fosse pelo tom exaltado que esta polémica suscitou, seria apenas uma polémica mais para a História da cultura portuguesa.

(Continua)

António Mota de Aguiar

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

História da Cartografia Ibérica


Informação recebida dos organizadores do workshop História da Cartografia Ibérica:

O Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT), em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal, organiza um workshop com o título História da Cartografia Ibérica: velhas cartas, novos caminhos. O propósito desta iniciativa é reunir investigadores actualmente envolvidos no estudo da Cartografia portuguesa e espanhola antiga, e identificar projectos em curso, com especial enfoque nas novas linhas e metodologias de investigação.

A iniciativa integra-se num projecto de investigação lançado em 2010 pelo CIUHCT, cujo primeiro acto público foi o workshop ‘Estudo da Cartografia Portuguesa Antiga: Diagnóstico e Perspectivas Futuras’, realizado em Março de 2011. Entendeu o CIUHCT, tendo em conta o assinalável êxito daquele encontro, que o seu âmbito deveria ser alargado à dimensão ibérica.

O encontro realiza-se em 29 e 30 de Março de 2012, na Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa. São oradores convidados Mª Luisa Martín-Merás Verdejo, Ramón Pujades i Bataller e João Carlos Garcia.

As propostas de comunicação devem ser enviadas para os endereços indicados no fim desta mensagem, até 31 de Janeiro de 2012, na forma de um resumo (até 300 palavras) e de uma pequena nota biográfica (até 150 palavras).

As propostas serão avaliadas por uma comissão científica e os resultados divulgados até 21 de Fevereiro de 2012. Dependendo da participação, prevê-se que seja atribuído um período de 20 minutos a cada comunicação.

A Comissão organizadora

Henrique Leitão: leitao.henrique@gmail.com
Joaquim Alves Gaspar: alvesgaspar@netcabo.pt
Antonio Sanchez Martinez: antosanmar@gmail.com

A Península Ibérica vista da Estação Espacial Internacional


Uma imagem da Península Ibérica, captada durante a noite pela Estação Espacial Internacional (ISS), no início do mês de dezembro, foi há dias colocada online pela NASA na categoria de «Imagem do dia».

As luzes de Portugal e Espanha definem a Península Ibérica nesta fotografia da ISS. Diferentes áreas metropolitanas dos dois países são visíveis e marcadas por zonas iluminadas, sendo estas relativamente grandes e brilhantes, tais como Madrid ou Lisboa. A cidade de Sevilha, visível a norte do estreito de Gibraltar, é uma das maiores cidades espanholas.

A agência norte-americana partilha na sua página oficial imagens, histórias e descobertas sobre o clima e meio ambiente, baseadas em investigações. Para além de Portugal e Espanha, a agência ainda põe em evidência o estreito de Gibraltar, França e o norte de África.

A Península Ibérica é a mais ocidental das três grandes penínsulas do sul da Europa, sendo as outras a Península Itálica e os Balcãs. É formada pelos territórios de Portugal, Espanha, Gibraltar, Andorra e uma pequena fração do território de França. Tem aproximadamente 590 mil quilómetros quadrados e é banhada pelo Oceano Atlântico e pelo Mar Mediterrâneo.

NOVOS LIVROS SOBRE HISTÓRIA DE ARTE E ARQUEOLOGIA


Informação recebida da Clássica Digitália:

O Conselho Editorial dos Classica Digitalia – braço editorial do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC – tem o gosto de anunciar dois livros de uma nova série, publicada em parceria com a Imprensa da Universidade de Coimbra. Trata-se da série CLASSICA INSTRVMENTA, dedicada a monografias de História de Arte e de Arqueologia.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço directo é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso.

NOVIDADES EDITORIAIS

Colecção “Varia” — Série CLASSICA INSTRVMENTA
- Rui Morais, A colecção de vasos gregos do Museu de Farmácia (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011) 77 p. (a cores). Prefácio de Maria Helena da Rocha Pereira.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/75
PVP: 17 € / Estudantes: 13 €

- Rui Morais, A colecção de lucernas romanas do Museu de Évora (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011) 85 p. (a cores).
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/76
PVP: 17 € / Estudantes: 13 €

NOVOS LIVROS DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA



















Dois livros recentemente publicados pelo Centro Interuniversitário de História da Ciência e da Técnica:


- Neither Physics nor Chemistry. A history of quantum chemistry de Kostas Gavroglu e Ana Simões. Saber mais aqui.

- Percursos na História do Livro Médico, editado por Palmira Fontes da Costa e Adelino Cardoso e Saber mais aqui.

ALVES REDOL (1911 - 2011), CENTENÁRIO DO NASCIMENTO


Informação recebida da Hemeroteca de Lisboa:

Completaram-se em 2011 cem anos sobre a data de nascimento de Alves Redol. Trata-se de um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, cujas obras ultrapassam o período temporal das suas vidas e que continuam tão vivas como quando surgiram. Por isso continuam as reedições dos seus livros, e alguns deles fazem até parte dos currículos escolares. Recordemos os romances Gaibéus e Barranco de Cegos, o livro para a juventude Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, e os livros para as crianças A vida da Sementinha e Uma Flor Chamada Maria, entre outras obras não menos importantes.

Associando-se a estas comemorações, a Hemeroteca Municipal de Lisboa colocou na sua biblioteca digital um jornal pouco conhecido do grande público: o Goal. Semanário Ribatejano de Desporto, Literatura e Arte, dirigido por Alves Redol, e publicado em Vila Franca de Xira, em 1933 (acessível aqui). Divulgamos agora mais um conjunto de conteúdos digitais relacionados com autor (biografia, entrevistas, contribuições na imprensa, obras de e sobre Alves Redol existentes na Rede Municipal de Bibliotecas de Lisboa, para além de uma exposição virtual cedida pelo Museu do Neo-Realismo) - um contributo para revisitarmos a vida e obra de um melhores escritores do neo-realismo português, aqui.

Salário de Professor Universitário no Brasil

Quanto recebe no Brasil um professor universitário com doutorado em regime de 40 horas com dedicação exclusiva (universidades federais) comparado ao salário de um deputado federal? Já na USP(a melhor universidade da America Latina) um Professor Doutor MS-3 em R.D.I.D.P. (Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa) recebe R$8.211,02 mensais (Validade: A partir de Maio/2011). Bem para os professores do ensino médio e fundamental acho melhor não falar de salários porque seria lamentável e ultrajante!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

No caminho do çuçeço: 6.º episódio — manuais


Ano Novo, Continaução da novela do Ano Passado. Prossegue a novela educativa- "No caminho do çuçeço" da autoria de António Mouzinho:

O que é que explica que toda uma família adie, interrompa, estupore, envenene férias longamente previstas e programadas, numa romaria desesperada às livrarias mais conhecidas, em buscas frenéticas?

Os manuais escolares dos filhos.

Cai um torpedo imprevisto no nosso bairro, lá longe? — Logo se vê no regresso.

Esgotou-se o manual de Português? — «Telefona para A Linha Torta (livraria habitual), diz que és meu filho e que amanhã estamos acampados à porta a partir das 6 da manhã, com vuvuzelas, e que vamos buscar o «Primeiro Estranha-se — I» (manual de Português para o 10.º ano de escolaridade) com o livro de desafios «Depois Entranha-se — I», e que sabemos que o livro do aluno está compreendido no preço, e que vamos todos, interrompemos as férias e 300 km são 300 km, e eles que se livrem, que somos clientes há 50 e tal anos!»

«Se se armarem em estúpidos, exige o Sr. Camilo Castelo Branco ao telefone, que é gerente de loja e amigo do teu avô, o Visconde de Atouguia, e faz-lhe sempre favores!»

Em 1966-67 fiz um ano de secundário em Paris. Não havia ditadura, apesar das frescuras da CGT sobre Pompidou, e os manuais não eram livros únicos. No entanto, ao entrar na Gibert para comprar os meus, tive a seguinte surpresa: boa parte dos livros era usada, em estado impecável, e vendida a preços módicos. As escolas mantinham-nos a rodar anos, porque não tinham razão de peso para mudá-los. Os autores e as editoras achavam mais sensato fazer um bom livro, uma coisa duradoura, do que estar a inventar em cada biénio, com pretextos saloios. Alunos que poupavam os livros, mantendo-os em bom estado, podiam vendê-los à livraria no final do curso, com um pequeno proveito. Tudo isto estava mais ou menos tabelado.

Ainda hoje consulto ocasionalmente as duas seletas literárias que de lá trouxe; ou o livro de Geografia; o de História, claro. Menos, o de Matemática. Mas já usei muito, mais cá do que lá...

Que tremendismo nos deu que, país de pobres, temos um lote incomensurável de manuais escolares — produtos caros — em permanente metamorfose, durando o mesmo que borboletas? Que loucura é esta que nos põe a produzir doses industriais de livrinhos, muitas vezes medíocres, fabricados em cima do joelho, sem possibilidade de revisão competente, utilizando todas as tramoias publicitárias, pequenas negociatas, grandes negociatas e empurrões de venda para serem colocados nas escolas? Escolhidos na brasa por professores meio distraídos com coisas prementes, no final do ano letivo?

Eu respondo, não se incomodem: mais uma vez, uma básica incompetência da decisão política; da legislação aplicável. Aliada, é claro, aos mais retorcidos esquemas editoriais.

Uma seleta literária decente poderá querer incluir um Valter Hugo Mãe, desconhecido há poucos anos e notável escritor? Poderá. Mas não há seletas literárias, de forma que o problema nem se põe.

Há ondas (e surfistas...).

Há pressa em fazer umas massas, há ignorantes espertíssimos a produzir a ideia que tudo muda depressa, que os professores estão numa voragem de velhas noções, numa urgência de novas noções, e que o conhecimento de ontem não vale um chavo, e o de anteontem é tão velho, tão velho, que já justifica nova edição dos manuais de História.

Em que resulta o ensino por conteúdos? Em manuais estáveis. E o ensino por competências? Como ninguém sabe o que isso é (mesmo aqueles que sabem lindamente: basta ler os textos que urdem...) dá todos os manuais que alguém queira cozinhar: com batatinhas, com picante, a murro, de escabeche, escalados, à Gomes de Sá, com ovo a cavalo, com CD, com livro do aluno, com livro negro, com livro de atas, agora com oferta de lápis n.º 2, logo com oferta de um conjunto de lápis 1, 2 e 3, com patentes intenções e, no entanto, incompetentes.

E efémeros: daí a três dias, tudo mudou!

Mas mudou algum coisa na Ciência? Na Literatura? No Fabrico de Doce de Abóbora? Nem por isso. Somente, algo mudou nas escolas portuguesas: os manuais!

Os pais olham, olheirentos e mudos, para a estante do filho de 18 anos que entrou no Técnico a fazer «aeroespacial»: toda aquela folharada não vai servir para o miúdo Manuel, que é o irmão mais novo e que, com 15 anos, entrou no 10.º de Ciências.

Nenhum manual servirá para o Manuel.

A mesmíssima escola mudou de ideias relativamente ao seu entendimento das Matemáticas (a Teoria dos Números anda enjoada com a crise bolseira), e da Física (Einstein anda a ser posto em causa); em Química perceberam que os núcleos andam caprichosos, Deus também, e o conhecimento de há três anos valeu o que valeu; mesmo em Desporto o recorde de velocidade dos 100 m em recinto coberto foi arrasado por um atleta de Chicago em 2/1000 de segundo, o que coloca tudo sob nova perspectiva. Da Geometria Descritiva nem se fala: o inventor, o matemático Gaspard Monge, não percebeu, quase no século 19, as vantagens de pôr as abcissas a crescer para a esquerda. Precipitou-se, com aquela precipitação própria do século das luzes: aquela coisa da guilhotina a baixar, a baixar, sempre atual, sempre em movimento, e Napoleão a subir, a subir. Encandeou-se, o miserável!

Ai o Conhecimento não muda à velocidade que a Pedagogia exige? Não faz mal: mudem-se os manuais de dois em dois anos em todas as escolas portuguesas — e vamoláver, cá e «lá fora», se o Conhecimento acompanha ou não acompanha!

(Mesmo que tenha seguido os seis episódios semanais, não perca o próximo compacto dominical do folhetim «No caminho do çuçeço»: «A Çinopçe»)

António Mouzinho

A QUÍMICA DO CHAMPANHE

domingo, 1 de janeiro de 2012

O FIM DO MUNDO SEGUNDO BUESCU


Respostas de Jorge Buescu (JB) a Christiana Alves Martins (CAM) para o Expresso a propósito de um artigo sobre o fim do mundo.

XA;- Porque as pessoas têm a necessidade de fixar uma data para o chamado fim do mundo? Que mecanismo psicológico justifica isto? Para que surjam estas teses, as teorias científicas são adulteradas?

JB- Provavelmente uma mistura de sentimentos, entre os quais um desejo de sentir que vivem numa época ou altura “escolhidas”. Curiosamente, a evolução da Ciência desde Galileu até à moderna cosmologia tem-nos revelado exactamente o oposto: vivemos num local e numa época típicos, num pequeno ponto azul pertencente a um entre milhares de milhões de sistemas solares, que está numa entre milhares de milhões de galáxias, num gigantesco Universo que tem mais de dez mil milhões de anos. Não ocupamos posição especial nem no espaço nem no tempo.

Nenhuma teoria científica tem de ser alterada para acolher estas ideias delirantes, que não passam de crenças baseadas em pseudociências ou superstições sem qualquer fundamento científico. Hoje, depois de Galileu, Newton e Einstein, compreendemos muito bem como funciona o Universo e podemos prever com precisão o que vai acontecer no nosso sistema solar nos próximos milhões de anos. E não se prevê nenhum apocalipse astronómico.

CAM- É possível, do ponto de vista astronómico que civilizações antigas, como a maia, sem o devido instrumental, possam fazer cálculos elaborados que prevejam acontecimentos com antecedência de tantos anos? Tinham acesso a instrumentos matemáticos suficientes para assegurar algum rigor nos resultados?

JB- Sim, é possível. As civilizações grega, egípcia e chinesa dispunham de observações astronómicas bastante precisas dos planetas visíveis e das estrelas há mais de dois mil anos. O Almagesto, obra em que Ptolomeu descreve os movimentos do sistema solar então conhecido, prevendo matematicamente com grande precisão o seu futuro, as posições planetárias, os eclipses, etc., tem cerca de 2000 anos e foi a obra de referência de astronomia durante 1500 anos.

CAM- Das seguintes teses, quais as que, do seu conhecimento e do ponto de vista científico, têm alguma credibilidade? Profecia hindu (2012 como fim de um ciclo, com base em ciclos), profecia maia (idem, com base em um calendário específico), choque com um asteróide (ou um cometa ou o planeta Nibiru ou X), inversão dos pólos da Terra (guinada magnética que provocaria sismos violentos), explosão de raios gama (causaria danos no núcleo das células, desenvolvendo cancros), índios hopi (fim d um ciclo), código da Bíblia (o sol transformará o planeta num mar de chamas), tempestades solares (erupções do sol atingirão o seu auge em 2012), profecias de Nostradamus (cataclismos no solstício de inverno)?

JB- Nenhuma. Todas elas (excepto duas que destacarei) têm em comum o facto de se basearem em pseudociências, superstições ou crendices recuperadas por uma certa mentalidade New Age, colidem directamente com o conhecimento científico e não merecem qualquer credibilidade. Eu já sobrevivi a nove “profecias do fim do Mundo”, as últimas das quais de Nostradamus, que o previa para 1999; do Código da Bíblia, que fez furor em 1997 e previa um holocausto nuclear para 2006; e do televangelista Harold Camping, em Novembro de 2011. E tenciono sobreviver às de 2012 e seguintes.

Os únicos fenómenos citados com alguma realidade física são os ciclos solares e a inversão dos pólos magnéticos da Terra. Os primeiros correspondem a um ciclo de cerca de onze anos e temos desde sempre coexistido pacificamente com eles. A inversão dos pólos magnéticos é um fenómeno cientificamente menos bem compreendido; corresponde a tempos menos regulares, que podem ir até cerca de um milhão de anos. Mas não há qualquer indicação nem de efeitos apocalípticos nem que um deles ocorra em 2012.

CAM- O nosso calendário - o calendário gregoriano - é arbitrário?

JB- O calendário gregoriano é tudo menos arbitrário, sendo um prodígio de sofisticação astronómica e matemática. É o produto de 1500 anos de evolução do conhecimento científico que civilizações mais primitivas não poderiam possuir. Foi elaborado durante anos no século XVI por uma comissão de astrónomos e matemáticos liderada pelo alemão Cristóvão Clávio, que foi estudante em Coimbra. Permite prever eclipses e fenómenos astronómicos ao minuto. Por outro lado, o problema que resolve tem tudo a ver com a situação do ser humano no planeta Terra: concilia de forma precisa a duração do dia solar, que rege os ritmos humanos, com a do ano terrestre, que rege fenómenos que nos afectam directamente, como estações do ano, sementeiras e colheitas. E fá-lo com um rigor matemático impressionante, tendo uma precisão de cerca de uma parte num milhão. É uma obra admirável e nada tem de arbitrário ou artificial (a não ser irrelevâncias como a marcação do ano zero ou o nome dos planetas).

CAM- Tem conhecimento de que, desde 2008, existe um «cofre do fim do mundo», com sementes de valor alimentício?

JB- É um exemplo extremo da ideia de “bancos de sementes”, que tentam preservar a fonte da biodiversidade alimentar.

CA;- Conhece um programa chamado «Time Wave Zero», que faz cálculos que permitem previsões?

JB- Não conhecia o programa. É um bom exemplo de uma crença pseudo-científica: utiliza interpretações ad hoc de ideias não-científicas com milhares de anos para fazer “previsões” sobre acontecimentos já ocorridos. O seu nome (“Zero”) é igual à sua credibilidade.

CAM- Se as previsões são possíveis em ciências, porque não se previu o grande tsunami no último grande terramoto no Japão?

JB- O facto de ser possível fazer previsões e de posteriormente as testar com a realidade é a pedra angular da Ciência Moderna. Contudo, embora regidos pelas mesmas leis físicas básicas, sistemas diferentes têm graus de complexidade muito diferentes. As mesmas leis de Newton que permitem prever o movimento dos planetas aplicam-se a sistemas como a atmosfera ou os oceanos. No entanto, estes últimos são física e matematicamente muitíssimo mais complexos e a nossa capacidade de previsão muito mais limitada. Embora conheçamos perfeitamente as leis que regem os fenómenos, é a complexidade dos sistemas físicos que nos impede de prever um terramoto ou tsunami. Mas têm sido feitos avanços técnicos significativos a nível da recolha de dados, por exemplo, com sensores submarinos, e talvez num futuro próximo seja possível uma previsão eficaz.

CAM- Já agora, conhece o Movimento de Extinção Voluntária (VEHMT), que prevê o fim da reprodução humana?

JB- Não conhecia. É uma ideia delirante, e parece-me muito bem que os autores se proponham a auto-extinção voluntária. Pessoalmente não tenciono aderir.

A CORAGEM DE AFIRMAR

Na dúvida de um presságio venturoso para a aldeia global em que o nosso mundo se tornou que nos fique, ao menos, a alvorada de iniciarmos o Novo Ano de 2012 com um texto crítico de Eugénio Lisboa, um humanista multifacetado do nosso tempo, engenheiro, ensaísta, poeta, crítico literário, etc., para nos alegrar o espírito por parte de quem, como escreveu Guilherme d’ Oliveira Martins, “é um justo que procura dizer o que pensa e o que sente, mesmo que não seja compreendido no curto prazo ou surpreenda pela rispidez da crítica” (“Eugénio Lisboa: Vário, Intrépido e Fecundo”, Opera Omnia, 2011, p.152). Um vez mais, Eugénio Lisboa honra o De Rerum Natura com o polémico texto por si enviado (saído por estes dias no Jornal de Letras) e que abaixo se reproduz com o prazer e o proveito que sempre em nós desperta:

"Eça de Queirós alude, algures, ao vezo muito meridional da afirmação forte, recortada e muito sensacional – aquilo a que chamava a “coragem de afirmar”. Os corajosos desta espécie não buscam a verdade: procuram o efeito. Afirmações simplistas, gostosas, apocalípticas, tranchantes – eis o pelouro favorecido por estes teólogos do apocalipse mundano. Quase todos, profetas do “gloom” e da “redução”.

Chegou-me agora às mãos, com algum atraso, um exemplo, de antologia, desta muito lusitana coragem de afirmar. Numa crónica de tonalidades proféticas, António Lobo Antunes, escritor nunca assaz laureado (continua a faltar-lhe o Nobel, hélas!), lamenta-se das erosões que a posteridade poderá infligir-lhe à obra, hoje tão aplaudida, comemorada, premiada e dicionarizada. Dele, António, e dela, a obra, “ficará uma casa de palavras, sem a minha cara dentro”, observa, como quem chora no nosso ombro. “A gente pensa que escreve para a eternidade mas pouquíssimas obras sobrevivem aos seus supostos autores”, acrescenta ele, como quem busca consolo à sua, na efemeridade dos outros. Eu não percebo muito bem aquela dos “supostos”, mas, sendo Lobo Antunes um ourives da palavra, aquilo deve querer dizer qualquer coisa. Adiante.

Para mostrar como a posteridade pode ser adversa à glória de tanto autor acarinhado em vida, Lobo Antunes passa aos exemplos “sensacionais”. E, neste ponto, não está com meias medidas – trata-se de atordoar, com pancada vigorosa, o lepidóptero lisboeta & outros. “Por exemplo”, diz ele, “dos milhares de escritores franceses do século XX quantos resistem ainda? Dois: Céline e Proust. Tudo o mais desapareceu ou está desaparecendo inelutavelmente”, diz, melancolicamente, o autor de "Os Cus de Judas". Fica-se de olho enviesado e espírito idem, perante tal furor profético – a quente! É nestas coisas que se vê o metal de que o homem (António) é feito: não ter medo de afirmar! Comprometer-se, irremediavelmente, com a imprevisível e gozona posteridade! É d’homem! Mais cauteloso, mais cobarde, eu, gaguejando, agarro-me antes, pifiamente, à magra sabedoria do Ionesco, que acautelava: ”Só conseguimos prever coisas depois de elas terem acontecido.” Espírito muito diferente do autor da "Cantora Careca", Winston Churchill navegava, contudo, nas mesmas águas, quando avisava: “Eu evitei sempre profetizar com antecipação, porque é de muito melhor políticaprofetizar depois de o acontecimento já ter tido lugar.” Gente sensata, sem dúvida, mas não destemida, como o António dos Cus (de Judas). Este profetiza que se salvarão não quatro, ou mesmo três escritores franceses do século XX, mas apenas, avaramente, forretamente, uns escanzelados dois – e, mesmo esses... (ele não explicita a dúvida, mas ela está lá, no cariz apocalíptico do seu discurso).

A história literária mostra que autores que parecem morrer,literariamente, nos anos que se sucedem à sua morte física, ressuscitam (literariamente), alguns anos mais tarde. E com redobrado vigor. Um exemplo: Stefan Zweig foi muito popular em vida (embora os “high-brows” lhe fizessem boquinhas). Depois de morto, fez a normal travessia do deserto, mas, mais recentemente, ressuscitou (e com que força), para o povo e para os “high-brows”. Profetizar o aniquilamento definitivo de alguém é, pois, aventura escorregadia. Mas o António não se deixa amedrontar: gigantes como Valéry, Claudel, Gide, Colette, Montherlant, Giono, Camus, Aragon, Mauriac, Cocteau, René Char, acha ele que se vão extinguir para todo o sempre? Acha! Re-acha! E, então, que há-de ser dos tão amados Pagnol, Larbaud, Giraudoux, sempre reeditados, lidos, relidos, reencenados (os do teatro)? Tudo para a fossa! Bastaria a Lobo Antunes andar pelas cidades, pelas livrarias, pelos catálogos, pela Internet, pelos teatros, pelas revistas de literatura, pelo mundo, para verificar que eles não estão mortos nem esquecidos. Se andar pela Provence (mas também por Paris), verá reedições aos baldes dos livros encantadores, brilhantes e profundos, de Pagnol e Giono. Martin du Gard? As reedições sucedem-se e a Gallimard dá-se ao luxo de publicar, nos Cahiers de la NRF, volumes sucessivos de inéditos do grande escritor, além de lhe editar a volumosa correspondência, em grosso volume, após grosso volume – talvez a mais interessante, estimulante e importante correspondência literária, desde Flaubert! Lobo Antunes acha mesmo que Le Petit Prince vai desaparecer? Olhe que tem a posteridade tão garantida como o Candide de Voltaire... Ou o admirável Topaze, de Pagnol? Ou as peças brilhantes de Anouilh? Ai de nós, ele acha!

Quanto ao teatro, António é ainda mais severo – não restringe o apocalipse ao século XX francês, pergunta, destrutivo: “após a morte de Shakespeare, quantos dramaturgos continuam a ser representados?” E responde: “Ibsen, Strindberg, Checov e é quase tudo.” Fica-se aterrado! Que ceifa! Na América, safa-se apenas Tennessee Williamse vivó velho! O’Neill, Miller, Wilder, Hellman, Albee, Saroyan, vai tudo para a fossa. E, no entanto, bastaria a Lobo Antunes passear-se por Londres, Paris, Nova Iorque, Madrid, Lisboa (que diabo, Lisboa!), para ver que O’Neill (de quem "Long Day’s Journey into Night", constantemente reencenada, é, talvez, a maior peça do teatro americano doséculo XX, e "Strange Interlude", "Emperor Jones", "Mourning Becomes Electra" são monumentos imperecíveis do teatro de sempre), George Bernard Shaw, Oscar Wilde, Noel Coward, Pirandello são todos autores de repertório permanente em teatros de Londres e outras grandes cidades do teatro (e são todos francamente posteriores ao Cisne de Strafford). E também Miller,Wilder, Hellman (adaptada ao cinema e com DVDs à venda pelas FNACs de Lisboa) e Albee não cessam de ser reencenados (de Albee, ainda recentemente, pudemos ver duas soberbas produções em Lisboa: "Marriage Play", no Trindade, e, de novo, essa prodigiosa peça que é "Who’s Afraid of Virginia Woolf", de que vimos reencenações em Londres, assim como de "A Delicate Balance", com bela interpretação de Paul Scofield). De Miller, são reencenadas com frequência, "Death of a Salesman", "All My Sons", "A View from theBridge" e "The Crucible" (todas adaptadas ao cinema e algumas mais do que uma vez...).

Lobo Antunes fala, em suma, do que não conhece – e fala com força. Não voltarei a isto. O sage Samuel Johnson avisava: “Eu não conversaria nunca com um homem que escreveu mais do que leu.” Os escritores, mesmo os bons e até os inteligentes, costumam ser implacáveis uns para com os outros. Voltaire falava de Shakespeare, dizendo: “esta enorme porcaria”. Antunes diz: “estes pobres futuros esquecidos”. Quis despejar todo o século XX (e não só), aos baldes. Profetizou a terra queimada. Como, de caminho, se mete com Chesterton, devolvo-lhe Chesterton, em boa e maldosa medida: ”O profeta e o charlatão”, dizia o criador do Padre Brown, “são igualmente admirados, durante uma geração, e admirados pelas más razões.” Pode ser que as sombrias profecias de Antunes achem razões para ser acolhidas, por algum tempo: pouco tempo e más razões."

Eugénio Lisboa

"CÁLCULO" DE CARL DJERASSI - O LIVRO


Minha apresentação do livro "Cálculo" de Carl Djerassi (saído há pouco na Imprensa da Universidade de Coimbra) gravado em vídeo no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho: aqui.

Na imagem, o autor em Coimbra, no Anfiteatro do Laboratorio Chimico, na apresentação do seu livro.

CONCERTO DE ANO NOVO EM VIENA



Foi assim em 2010. Será assim em 2012.

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...