sexta-feira, 8 de julho de 2011

CARTOON OLÍMPICO


Da autoria da física Cláudia Cardoso, este é o cartoon das t-shirts dos participantes portugueses nas Olimpíadas Internacionais de Física, que se realizam para a semana na Tailândia. Sabemos que sabem. Resta desejar boa sorte aos nossos olímpicos!

A NOSTALGIA DAS CAMPAINHAS DAS PORTAS MAIS AS ATENTAS PORTEIRAS


Dado o grande êxito da última crónica sobre cafés às cores, não hesitámos em pedir à escritora Cristina Carvalho mais uma das suas prosas. Respondeu-nos muito amavelmente, na volta do correio, com o texto que se segue. Desfrutem:

A verdade é que tenho nostalgia de ver aquelas lambadas que os miúdos levavam das porteiras dos prédios ali em Campo d’Ourique e noutros bairros de Lisboa. Elas saltavam das cadeiras do átrio da entrada onde passavam o dia todo sentadas a fazer croché, orelhas atentas ao menor ruído inusitado, olhos espertos e capazes de vislumbrar um pequenino rato na curva dum degrau e a vassoura atrás da porta era um assustador instrumento de dissuasão que conseguia dispersar as intenções de qualquer atrevido que ousasse perturbar o ritmo da vida duma escada decente.

Conheciam toda, mas toda a gente que passava, quem saía, quem entrava, a que horas saía a pessoa do segundo esquerdo e a que horas entrava a viúva do rés-do-chão, o-raio-dos-miúdos-mal-educados lá de cima, a estúpida que sacode o pano do pó para a rua, a sopeira que deixa cair as molas da roupa no saguão, os magalas das sopeiras, as desavergonhadas das sopeiras que cantam o dia todo e não desenvolvem, umas entram, outras saem e não param naquela casa, algum defeito há-de haver! qual o dia do mês em que vinham os homens: o do gás, o da electricidade, o guarda-noturno, o limpa chaminés, o da mercearia, o da frutaria, o da leitaria, o simpático, o jeitoso, o bem cheiroso, o mal cheiroso, o antipático, o do cabelo oleoso, o que pisca os olhos, o que elas gostam e o que elas não gostam.

E aí vêm as férias do Natal mais as da Páscoa e as Férias Grandes que têm direito a iniciais maiúsculas como se de época santa se tratasse – oh miúdos, se vos apanho!! saí-me daqui das redondezas, não vos quero ver tão depressa e vou fazer queixa ao teu pai e tão depressa não vais passar aqui na rua, quanto mais à minha porta…

Todas estas ameaças eram mordiscadas logo de manhã pelas Santas Porteiras das Latas de Solarine Coração bem apertadas na mão esquerda, trapos de limpeza na mão direita e um bafejar, um hálito de limpeza no espelho de cobre que marcava os botões das campainhas da porta.

Era verão e as manhãs mornas. Era verão e as manhãs longas. E por ser verão de manhãs mornas e longas, a vida esticava-se ao comprido pelas ruas, e pelos passeios, a vida como um grande gato mole, a vida parada de cor acinzentada apesar do brilho do sol, apesar dos homens e das mulheres, apesar das crianças, apesar das férias e dos piropos dos rapazes e das raparigas frenéticas num pulsar doido de sexos e espreitadelas pelas esquinas ainda furtivas. Nessas manhãs longas e mornas, os miúdos estão de férias, a escola acabou, a marcha da aprendizagem inquieta da obediência cega sem direito a comentários nem refrões, por agora, tinha chegado ao fim. Os miúdos estavam de férias. Brincavam na rua o dia todo, de manhã à noite e o que fazer? o que fazer todo o dia?

CAMPAINHAS…

Todas doiradas, apetitosas, botõezinhos a brilhar e eles a passar como um vento, como uma cauda de ventania, um suspiro, um relâmpago, qualquer coisa muito ágil, verdadeiras línguas de calor e fogo, zááááas e zzzzttttttt e zzzzzttttttttt e zás zás mais zás, zás, zás, as suas mãozinhas espalmavam-se contra o espelho de todas as campainhas de todas as portas de todos os prédios de todas as ruas de todas as limpezas de todas as porteiras do mundo inteiro mais os gritos e os-ais-e-os-uis-que-te-apanho-meu-malandro e deixaste aqui dedadas, sujaste-me a porta toda, vais apanhar ai vais, vais! olhávassoura, olhávassoura e grita e grita e corre, corre, vai o verão vem o outono, vem a escola, vão os gritos, alegria que esmorece, tudo desaparece, quase tudo sem se ver, quase tudo sem se ouvir…

Era esta a nostalgia de que vos falava. Das mãozinhas nas campainhas das portas. Quando as porteiras os corriam à vassourada, depois de todas as cabeças de todas as donas de casa espreitarem às janelas, umas mais altas, outras mais baixas, umas curiosas, outras furiosas.

Era esta a nostalgia de que vos falava, esta das campainhadas. Hoje isto já não é possível, já nem há miúdos dispostos a carregar nos sinais luminosos, muito complicados e secretos dos painéis eletrónicos e computorizados que existem nas paredes dos prédios e onde uma pessoa tem de memorizar vários códigos secos e onde uma pessoa tem de ser extremamente hábil e inteligente para perceber por onde é que se começa, que botão tocar ao de leve, com a polpa da cabeça do dedo, dum certo dedo, em primeiro lugar para que dê acesso a uma informação que por sua vez acende uma luzinha de presença que vai indicar qual o próximo botãozito que se deve acionar de seguida até chegar ao apito final. Aqui sim! Zumbido, silvo, apito, qualquer coisa e a porta, com um estalido, abre-se finalmente depois de termos sido filmados de alto a baixo por uma câmara oculta sabe-se lá onde e por quem!

E as porteiras tal como as verdadeiras campainhas, aquelas porteiras que se eternizavam em cima duma almofadinha numa cadeira de madeira que rodava, rodava, rodava todo o dia numa azáfama preguiçosa, desapareceram para nunca mais serem vistas.

São as profundezas da vida. Misteriosas. Inequívocas.

Cristina Carvalho

Notícias da Guerra

Destacamos, como fizemos noutras ocasiões, a crónica de J.L. Pio Abreu saída no "Destak" de hoje (na foto, simulação em 2008 de uma execução chinesa feita em França pela Amnistia Internacional, como protesto contra a pena de morte naquele país):

"A Moody’s acabou de nos lançar mais um torpedo. Acertou em cheio no Bolsa de Valores que se afundou de repente. Os piratas internacionais preparam-se para apanhar os destroços. O País, já paralisado pela barragem de fogo que, em Março, as grandes máquinas de guerra – Fitch, Standard & Poors e Moody’s – dispararam em sincronia, pode ficar sem reacção.

Assim vai a guerra mundial. A frente de Wall Street, contando com a estupidez e a cumplicidade dos políticos europeus, acabou de submeter a Grécia. Irlanda e Portugal estão debaixo de fogo e já se preparam para atacar a Espanha, Itália e Bélgica. A guerra, no século XXI, não precisa de armas pesadas. Ela baseia-se em informação. E as máquinas de guerra são as Agências de Rating.

Para o cidadão comum, soa estranho que estas agências privadas, depois dos reconhecidos erros e graves prejuízos que causaram à economia, bem como dos conflitos de interesses que evidenciam e dos processos judiciais que correm contra si, continuem na frente da encarniçada batalha contra a Europa. Mas soa ainda mais estranho que elas sejam pagas pelas instituições que atacam ou protegem. Para que tudo fosse mais transparente, os Estados e instituições europeias deviam divulgar quanto pagam a estas três agências.

Conta-se que quando um sentenciado chinês é executado, o Estado manda à sua família a factura da bala que o fuzilou. Na Europa, somos todos nós, contribuintes, que pagamos as máquinas de guerra que nos estão a destruir."

José Luís Pio de Abreu

Dois novos livros da colecção “Classica Digitalia - Vária”

Informação recebida no De Rerum Natura.

O Conselho Editorial dos Classica Digitalia, do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, tem o gosto de anunciar dois novos livros da colecção “Vária”.

– Série Monografias- Weberson Fernandes Grizoste, A dimensão anti-épica de Virgílio e o indianismo de Gonçalves Dias (Coimbra, Classica Digitalia /CECH, 2011). 209 p. PVP: 15 € / Estudantes: 12 €

– Joana Guimarães, Suícidio Mítico – Uma luz sobre a Antiguidade Clássica (Coimbra, Classica Digitalia /CECH, 2011). 215 p.Hiperligação: PVP: 18 € / Estudantes: 14 €.

Todos os livros são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço directo é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso.

Nuno Crato e o Exame de Acesso à Docência

“Perdemos com a revolução e a contra-revolução. Perdemos também com três décadas de facilidade e demagogia” (António Barreto, sociólogo e professor universitário).

Depois de ter publicado vários artigos de opinião em vários jornais e em cerca de uma dezena de posts neste blogue em defesa de uma Prova de Acesso à Carreira Docente (o primeiro datado de 15.Fev.2008), era minha intenção não perder mais tempo com os seus detractores. Mas faço-o por serem alguns deles verdadeiros demagogos que continuam a defender a continuação do ingresso na carreira docente através de concursos que tenham como condição única a nota do diploma de licenciatura (agora mestrado), quer seja outorgado por universidades públicas ou privadas, escolas superiores de educação públicas ou privadas, tratando de igual forma quem muito se esforçou em estudo sério ou quem nada ou pouco se avigorou na obtenção de um curso de duvidosa qualidade.

Aliás esta posição de descarado e injusto facilitismo tem sido, também, fortemente apoiada por um certo movimento sindical. Assim, a Fenprof, através de um seu comunicado (31/10/2009), “exigiu a extinção da espúria prova de ingresso na profissão docente e respeito pelas qualificações dos docentes e pela autonomia das escolas na verificação das condições para o exercício da profissão”. Ou seja e em síntese, verificada pela simples e discutível classificação do diploma de curso.

Como prova da falta desta prova de acesso, anos atrás, passou um programa da RTP, “O Elo mais Fraco”, com a participação de nove jovens professoras, que me mereceu o seguinte artigo de opinião, de que transcrevo um excerto (Público, 03/02/2003):

“Com dificuldade, concebo que um programa em que a tensão nervosa possa faz das suas possa justificar, por si só, aquilo que na gíria académica se dá o nome de ‘brancas’, como o esquecimento, como aconteceu, do conhecidíssimo ‘Teorema de Pitágoras’. Todavia, já não concebo certas respostas erradas, não dadas ou hesitadas, ante perguntas triviais do âmbito da disciplina que se ministra! E isto porque, ainda que a contragosto, possa admitir que os professores demonstrem um certo défice de cultura geral desde que contabilizem para si conhecimentos sólidos sobre a matéria que é suposto estarem habilitados a ensinarem. Só na conjugação de pouca cultura geral e escassos conhecimentos científicos pode ser encontrada justificação para o facto de, em uma das rondas de perguntas, essas concorrentes terem obtido a pontuação de zero pontos, e serem penalizadas no fim do concurso com a mais fraca prestação, relativamente a participantes que as precederem e com as mais diversas profissões tidas como muito menos exigentes no que tange a diplomas escolares”.

Não sei, nem isso vem muito ao caso, se as referidas professoras eram formadas pelo politécnico ou pela universidade. Mas o que eu me atrevo a apostar, dobrado contra singelo, é que sob o ponto de vista de conhecimentos da Língua Portuguesa, grande parte de professoras diplomadas pelas antigas Escolas do Magistério Primário teriam tido um melhor desempenho. E isto já para não falar das professoras licenciadas do antigo liceu (nome excomungado pelo 25 de Abril), muitas delas ainda exercendo o magistério nas agora escolas secundárias com a competência cientifica de profundas conhecedoras da matéria que leccionam.

Numa espécie de prova de fogo, com a nomeação de Nuno Crato para ministro da Educação, dono de uma personalidade forte, cuja voz se tem manifestado, sem tibiezas e desde sempre, com muita determinação pela criação de um prova de acesso à docência, fica-nos a certeza de que esta prova será uma das primeiras prioridades do seu mandato. Mais se consubstancia esta certeza pela nomeação de João Casanova Ferreira para secretário de Estado com a difícil incumbência do “espinhoso ‘dossiê, da avaliação docente e pelos processos de recrutamento, selecção, carreiras e formação de professores” (Público, 07/07/2011).

Eça, figura incontornável da literatura portuguesa, cítico impiedoso dos costumes da época, escreveu: “Para ensinar há uma condição a satisfazer: saber”. Ora, é na demonstração de um saber maior comparativamente com outros saberes menores que a prova de acesso à docência mais do que justifica a sua plena existência. Exige-a mesmo!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

UMA VEDETA HOLOGRAMÁTICA



Agora que chegou a época dos festivais de Verão não resisto a colocar aqui um clip de um concerto de uma vedeta pop japonesa, que dá pelo nome de Hatsune Miku, que não passa de um holograma. Não apenas a voz é sintética como o corpo também é. A Lady Gaga que se cuide!

MEMÓRIAS DE RÓMULO


Num testemunho gravado no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, em Coimbra, falo do livro "Memórias" de Rómulo de Carvalho, saído no ano passado com a chancela da Fundação Gulbenkian: aqui.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

MARÇAL GRILO E A ORDEM DOS PROFESSORES


“Atingir o ideal é compreender o real” (Jean Jaurès, 1859-1914).

Na noite de ontem assisti a uma entrevista televisiva do antigo ministro da Educação do XIII Governo Constitucional, Marçal Grilo, que, de uma forma um tanto evasiva, quiçá, por (como ele próprio confessou) ser amigo dos actuais governantes da Educação, ministro e secretários de Estado, pouco adiantou sobre a maneira de melhorar este importante sector da vida portuguesa, com a polémica excepção de defender os contratos de associação do Estado com os colégios privados.

Sendo eu combatente sem quartel da criação de uma Ordem dos Professores, mas ainda sem ver a rendição dos seus opositores – embora tendo eu perdido o élan inicial por algumas das recentes ordens profissionais se terem “democratizado”, na assunção de uma espécie de “Novas Oportunidades”, colocando em pé de igualdade profissional (em direitos mas não em deveres) licenciados universitários e indivíduos com pouco mais do que a 4.ª classe do antigo ensino primário -, ocorreu-me à memória a defesa pública de Marçal Grilo das ordens profissionais em notícia do extinto semanário O Independente (Julho de 1997): “A estratégia de Marçal Grilo passa por colocar as ordens profissionais na linha de fogo às loucuras do mundo académico”.

Como não podia deixar de ser, aplaudi com as mãos ambas esta estratégia embora a tivesse como insólita porque, através de uma comissão nomeada para fazer a acreditação de cursos destinados à leccionação, o Estado chamava a si uma competência estabelecida para profissões de interesse público. Refiro-me ao direito de os licenciados, sem qualquer impedimento arbitrário e, por isso, de duvidosa intenção, criarem uma associação profissional pública, ao abrigo do próprio Direito Administrativo “com o fim de, por devolução de deveres do Estado, regular e disciplinar o exercício da respectiva actividade profissional (Curso de Direito Administrativo, Diogo Freitas do Amaral). Aliás, a própria Encíclica Rerum Novare, pela pena do Papa Leão XIII, defende essa doutrina: “Se os cidadãos são livres para se associarem devem sê-lo igualmente para se dotarem com os estatutos e regulamentos que lhes pareçam mais apropriados ao fim a que se miram”.

Entretanto, uns tantos professores, possivelmente, influenciados pela passividade do Ministério da Educação e intoxicados por uma insidiosa campanha sindical, como que diabolizam a criação de uma Ordem dos Professores. Et pour cause, num laxismo de competências, devido à ausência de uma Ordem dos Professores, foi, entretanto, autorizada a criação e funcionamento de escolas superiores de educação privadas para formação de professores, que logo se dispuseram a ministrar cursos complementares de formação acelerada que atribuíram, enquanto o diabo esfrega um olho, licenciaturas a indivíduos habilitados com cursos médios equiparados a bacharel para prosseguimento de estudos, tout court. Uma medida desastrosa até porque deu azo a que, devido à progressiva escassez de professores do 1º. ciclo do básico (antigos professores do ensino primário), as primeiras letras passassem a ser entregues, ainda que a título provisório, a presidentes de Junta.

Aqui chegado, surgem-me duas perguntas:

1.ª - A estratégia do então ministro Marçal Grilo passava “por colocar as ordens profissionais na linha de fogo às loucuras do mundo académico”, com a estranhíssima e inexplicável excepção de uma Ordem dos Professores. Porquê?
2.ª - Aos médicos e engenheiros, v. g., é-lhes reconhecida autoridade para determinarem o perfil da formação exigida para o respectivo exercício profissional, sendo inexplicavelmente passado um atestado de menoridade aos professores ao ser criada uma comissão para efectuar a respectiva acreditação (Público, 23/01/97). Porquê?

Por outro lado, é bem conhecida intoxicação da Fenprof contra a criação de uma Ordem dos Professores que só pode encontrar razão de ser no seu receio em perder um elevado número de associados que mantêm bem lubrificada a pesada máquina sindical a funcionar com a dispensa de docentes que, numa espécie de profissionalização, se eternizam nas respectivas direcções com sobrecarga para o erário público por onde continuam a ser pagos.

Entretanto, a duplicidade de critérios, ou simples opiniões, de Marçal Grilo em colocar as “ordens profissionais na linha de fogo às loucuras do mundo académico”, mas deixando de fora idêntica e louvável medida no que respeita aos professores, contribuiu para que fosse retardada a respectiva criação. Segundo sou levado também a pensar, esta oposição institucional do Ministério da Educação encontrou respaldo no facto de não querer abdicar da pesada e asfixiante tutela que vem exercendo sobre a numerosa classe docente, tornando-a presa fácil e obediente de normativos que a atingem, por vezes, na sua dignidade profissional, dificultando-lhe a capacidade de ser dona e senhora do seu próprio destino.

E isto é tanto mais grave na medida em que, na União Europeia, o comboio do desenvolvimento económico e social é posto em marcha pela locomotiva da Educação, nele só viajando indivíduos bem preparados académica e profissionalmente. Os outros ficarão na estação ou simples apeadeiros, com o diploma da sua ignorância, pedindo contas, mais cedo ou mais tarde, aos governantes responsáveis por esta situação. Mas, seja como for, no que respeita à criação de uma Ordem dos Professores, a exemplo de Vergílio Ferreira, “tenho esperança, esperança de que amanhã é que é”!

2Cyborgs Num Quarto Vazio


Informação recebida do Teatro Academico de Gil Vicente, em Coimbra:

Dias 21, 22, 23 de Julho [Estreia Absoluta]
21h30
2Cyborgs Num Quarto Vazio
Discussão e Ideias: Alexandre Lemos, Costanza Givone, Joana Cardoso, João de Almeida, Laetitia Morais, Lígia Anjos, Mário Montenegro, Ricardo Trindade, Rui Simão, Pedro Augusto.
Direcção Artística e Encenação: Alexandre Lemos
Intérpretes: Costanza Givone e Ricardo Trindade
Figurinos e Adereços: Joana Cardoso
Penteados: Ilídio Design
Iluminação: Rui Simão
Vídeo: Laetitia Morais
Banda Sonora: Pedro Augusto
Registo vídeo: João de Almeida
Fotografia: Francisca Moreira
Produção Executiva: Lígia Anjos

Há hoje entre nós cyborgs tão perfeitos que a sua humanidade já não se distingue do complexo tecnológico que os mantém ligados. Treinados meticulosamente para sobreviver ao vazio em que habitamos e mantidos em quartos onde o abismo humano serve de paisagem a um tempo indefinido e onde só restam os vestígios da ausência de emoções e objectos. Lugares onde as instruções de funcionamento são muitas vezes substituídas por delírios binários.

Preço normal_10,00 €
Preço estudante, profissionais das artes e ciências_8,00 €

AS PEÚGAS DE EINSTEIN

Informação recebida da Barraca, em Lisboa, sobre a peça de teatro "As peúgas de Einstein", em últimas representações (clicar para ler).

Produzir águas com gás em casa?!


Informação recebida da Fábrica Ciência Viva em Aveiro:

Em mais uma iniciativa «Café, Livros e Ciência», resultante da parceria entre a Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro, o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho e o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, Isabel Malaquias apresentará a obra «Description of a glass-apparatus for making the best mineral waters», de João Jacinto de Magalhães. A sessão culminará com a apresentação da peça de teatro «Questão de ar», uma nova produção da Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro. A sessão está marcada para dia 7 de Julho, às 18h30, na Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro. A entrada é livre.

"Um décimo da lucidez do homem"

Embora nem sempre concordando gosto de ler, pela forma sempre engraçada com que as expressa, as opiniões de Alberto Gonçalves no Diário de Notícias ao domingo e na Sábado às quintas-feiras. Eis o que ele disse na sua última crónica no Diário de Notícias sobre o desempenho do novo ministro da Educação na Assembleia da República:

"Foi um prazer assistir ao discurso de estreia parlamentar de Nuno Crato. Falta saber se a educação, nos sentidos oficial e lato, será algum dia permeável a um décimo da lucidez do homem. E falta sobretudo saber se o homem é o símbolo de um novo tipo de governo ou o excêntrico de serviço no governo que temos."

ZARATRUSTA PELA ORQUESTRA TESLA

Actuação da Orquestra Tesla em Agosto passado na Croácia, tocando o tema de "Assim falava Zaratrusta" do compositor alemão Richard Strauss. Esta orquestra, formada por cientistas da Case Western Reserve University, nos Estados Unidos, utiliza um par de bobinas de Tesla. Uma corrente alternada é usada para gerar relâmpagos em cada bobina. Cada relâmpago tem uma certa frequência, que corresponde a uma nota musical tocada num teclado.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O regresso de Hipólito

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Integrado no XIII Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico, o regresso do "Hipólito" de Eurípides, no espaço da Cooperativa Bonifrates, na Casa da Cultura de Coimbra, no próximo dia 8 de Julho (sexta-feira), às 21h30. Será um prazer contar com a vossa presença.

Reservas: por telefone, para a Bonifrates (239 716 095)
Bilheteira: 5 euros (bilhete normal) // 3,5 euros (estudantes e clubes de amigos).

Sinopse: Hipólito e Fedra nunca trocam uma palavra. Tal como Afrodite e Ártemis, no plano divino, se situam em esferas reciprocamente impenetráveis, Fedra e Hipólito, no plano humano, vivem um desencontro predeterminado de que ambos têm plena consciência: a tragédia de Fedra é que a aceitação voluntária dessa consciência (ou compreensão racional) de nada vale contra a loucura involuntária de, contra o mundo e contra si mesma, estar apaixonada pelo enteado. Por sua vez, e bem ao gosto do paralelismo antagónico típico destas primeiras peças conservadas de Eurípides, é aquilo que aparentemente falta a Fedra – a castidade – que destroy Hipólito. Como ele próprio diz da madrasta morta, “foi casta sem que nela houvesse castidade; e eu, que a tenho, não obtive dela o melhor proveito” (vv. 1034-1035) (Frederico Lourenço).

FICHA TÉCNICA
Frederico Lourenço (tradução)
Carlos Jesus (encenação, cenografia e selecção musical)
Claúdio Castro Filho (direcção de actores)
Leonor Barata (apoio ao movimento: protocolo com “O Teatrão”)
Chayanna Ferreira (desenho de luzes)
Rosário Moura, Dila Pato (guarda-roupa)
Cláudia Cravo, Marta Gama (sonoplastia)
Vitor Teixeira (maquilhagem)
Margarida Teodoro, Cláudia Morais
e Virgílio Raposo (imagem publicitária)
Beiracarp (execução do cenário)
Corpo Organizado (educação postural)

Elenco
Ricardo Mocito (Hipólito)
Ângela Leão (Fedra)
Carlos Jesus (Teseu)
Andrea Seiça (Ama)
Margarida Cardoso (Afrodite, Ártemis)
José Luís Brandão, Ricardo Acácio (Mensageiro, Servo)
Lia Nunes (Corifeu)
Ana Seiça Carvalho (Coro)
Tânia Cardoso (Coro)
Elisabete Cação (Coro)

Sobre avaliação

O post Tudo se teria evitado, gerou alguns comentários inteligentes, que merecem uma resposta em conjunto. Eu sei que há explicadores e colégios que ensinam para a boa nota, e que procuram ensinar os truques necessários para fintar a avaliação. Mas isso resulta do facto de as avaliações continuarem a não estar ao mesmo nível de preocupação do ensino e da aprendizagem, ou melhor provocarem outro tipo de preocupação, quando deviam provocar uma atenção do mesmo género. E também de continuar a ser vista como um aspecto secundário e posterior, e não devia ser. Ou melhor, quando não se investe bem nas avaliações, no aspeto formativo e instrutivo delas facilmente se põem ao serviço das boas notas, ou preocupadas só com as boas notas, o que deturpa as coisas.

Por outro lado, é fácil pô-las a ir ao encontro dos erros e das deficiências do ensino e da aprendizagem, utilizando-os em seu proveito. É óbvio que se eu tiro muito boa nota porque o explicador adivinhou as áreas em que ia incidir o exame, ou foi fácil adivinhar os temas, ou o modo como os temas seriam testados na avaliação; ou se me ensinou a melhor forma de responder, desprezando o resto da informação, necessária para a boa formação, isso só quer dizer que os professores fazem pontos em que só a informação considerada mais importante é avaliada, ou que incidem demasiado em certos aspetos, ou que verificam somente um número reduzido de competências, ou que não ligam grande importância à questão dos objetivos e a acham despicienda, ou nem sequer a percebem, etc. O que é um erro. Não só porque os alunos descobrem isso rapidamente e adaptam-se aos modos de perguntar, aos “temas”, mas também porque a matéria “mais importante”, se as coisas estiverem bem feitas e tiverem como objetivo uma boa formação, é um conceito sem grande significado. O menos importante é quase sempre necessário para que o mais importante se reconheça de facto como mais importante, isto é, adquira solidez, fundamento e funcionalidade intelectual e científica, que é o que interessa. Não quer dizer que não haja alguma hierarquia nos assuntos, mas que não se devem queimar etapas nem competências nem conhecimentos, porque todos são necessários e a avaliação deve dar conta disso.

Em termos de avaliação deve haver coerência entre aquilo que se ensina e se quer que os alunos aprendam e aquilo que se avalia. E coerência quer dizer sintonia de conhecimentos, de operações mentais, de relacionações, de solicitação e dinamização de conhecimentos, de compreensão de problemas e de estratégias na abordagem dos assuntos e na formulação das respostas, enfim de competências a obter. Para as quais são indispensáveis os conhecimentos, que devem ser avaliados com exigência adequada e rigor. Mas não pode a avaliação reduzir-se a isso, porque a formação é muito mais complexa e engloba todos estes aspetos; considerar só os conhecimentos e sobretudo os aspectos que permitem obter boas notas, desprezando o resto, é uma porta aberta para a fraude ou a formação enviesada e, por isso, falseada. Preparar exclusivamente para a avaliação é falsear a formação.

Mas a avaliação tem quase sempre formas de fugir a estes truques, e deve fazê-lo porque estes implicam quase sempre formas de aprisionar e de empobrecer a formação. Ora, para que isto não se verifique são necessários professores com muito boa formação ao nível da avaliação, com consciência tanto dos seus perigos como das suas enormes potencialidades, e, portanto, preocupados em utilizar modalidades de avaliação variadas, o mais possível contínuas e formativas. E portanto com testes bem feitos; isto é, sem truques, nem rasteiras, nem demasiado fáceis nem excessivamente difíceis, mas suficientemente discriminativos, isto é, capazes de distinguir entre alunos maus, médios, bons e excelentes e classificá-los em conformidade. Por exemplo, diz-se muito mal dos “testes americanos”. Mas isto não tem muita razão de ser. Se eu quiser avaliar, por exemplo, a capacidade de expor ideias, de discorrer, de argumentar, de redigir, é óbvio que o teste de escolha múltipla não avalia esses competências.

Mas para conhecimentos, capacidade de raciocinar, distinguir entre vários aspetos, discriminar, escolher entre opções certas e erradas com grau de dificuldade adequado, e se o teste estiver bem feito ele é (ou pode ser) mais discriminativo do que uma pergunta de resposta aberta. Neste tipo de respostas, como todos os professores sabem, alguns alunos dizem por vezes tais coisas, e de tal maneira, que, a certa altura das correções, se torna difícil avaliar com rigor o que lá está. É uma tarefa de grande complexidade, para a qual raramente se tem o tempo, a competência e a disponibilidade mental necessárias. O que a torna sujeita a muitos perigos.

Acresce que há motivos políticos e sociais que, por vezes, são introduzidos no sistema corrompendo os objetivos científicos e pedagógicos. Se eu quiser melhorar os resultados escolares ou reduzir a taxa de insucesso, faço testes fáceis e é evidente que obtenho melhores resultados. Mas isso degrada o sistema, introduz muita gente no mercado com competências e conhecimentos abaixo do que os diplomas dizem, o que é um fator de confusão e de desordem social e económica. Mas a decisão é política, e face às grandes percentagens de abandono ou de repetência, a tentação é grande. A educação e a investigação educacional não podem ser responsabilizadas por isto. Não se diga que isto é culpa das ciências da educação e da investigação que se faz, porque é acrescentar um obscurantismo a outros que por aí andam. Se se estudar, um pouco que seja, a investigação feita sobre a avaliação, podemos apreciar o progresso extraordinário que se obteve a este nível, e os recursos de que hoje os professores podem dispor para avaliar com rigor e para usar a avaliação como um auxiliar precioso para a formação dos alunos. Simplesmente isto requer recursos científicos e de tempo que não há, tendo que recorrer a formas mais elementares e mais fáceis, e, portanto, mais fáceis de boicotar.

A investigação já nos dá recursos, mas não temos todos os meios para a aplicar. Põe-se um problema algo parecido com o dos transplantes, de fígado, por exemplo. Segundo parece os conhecimentos e as técnicas têm evoluído muito, já se podem fazer com uma boa expectativa de sucesso, mas é uma operação altamente complexa, difícil e perigosa. Sendo assim, que se deve fazer? Pratica-se somente quando há todas as condições, para se reduzir ao máximo o perigo e potenciar o sucesso, ou, à falta de meios humanos, científicos ou económicos, fazemos os transplantes com o que há e seja o que Deus quiser? Ninguém hoje aceitaria esta segunda alternativa, não é verdade? Pois é esta que se aceita e se pratica em geral na educação. Com a agravante de que, muitas vezes, os que têm que fazer o trabalho têm um conhecimento apenas rudimentar das técnicas e dos conhecimentos que nelas estão implicados.

João Boavida

O Ajudante de Mentiroso


Com o prazer habitual que nos proporcionam os textos de Eugénio Lisboa, ora se publica mais este sobre o livro do académico brasileiro Lêdo Ivo com idêntico título ao do post.

Notável poeta e ficcionista, Lêdo Ivo é também, quanto a mim, um dos ensaístas mais perceptivos, inteligentes, corajosos e sedutores que nos deu, até hoje, o Brasil. E olhem que o elogio é de tomo, referindo-se a um país que nos ofereceu, nesse sector, gente do gabarito de Machado de Assis, Álvaro Lins, Lúcia Miguel Pereira, Alceu Amoroso Lima, Sérgio Milliet, Otto Maria Carpeaux, Antonio Candido, Wilson Martins, Eduardo Portela, para só citar alguns dos nomes mais aparatosos. Grandes poetas que são também grandes ensaístas, há-os: T. S. Eliot, Paul Valéry, Baudelaire, Shelley, Edgar Poe (talvez, como poeta, não exageradamente grande, mas, ainda assim, bastante interessante...), Octavio Paz, Wordsworth, Pessoa, Régio, Jorge de Sena, Mourão-Ferreira. Mas não abundam por aí além. A linguagem poética pode parecer distante da linguagem prospectiva e tentativamente clarificante que é a mais própria do ensaio. Disse parecer, não disse ser. Vem tudo isto a propósito de um livro que há pouco recebi, enviado pelo autor – e meu amigo – Lêdo Ivo: Ajudante de Mentiroso, que reúne quarenta e quatro curtos textos ensaísticos, se incluirmos a saborosa introdução “Guardar o que está perdido”.

Por mais de uma vez, no decorrer da sua escrita de grande ensaísta, Lêdo Ivo alude ao ensaísmo anglo-saxónico como modelo que é aconselhável e saudável seguir. Para dar só dois exemplos: no belo texto de homenagem ao poeta de Libertinagem, intitulado “Lembrança de Manuel Bandeira”, observa: “Ele escrevia como os ensaístas ingleses: numa prosa coloquial que bem merecia a atenção dos exigentes e intolerantes alunos de mestrado do Professor Antonio Candido”; noutra passagem do ensaio intitulado “A Prosa Reencontrada” [de José Lins do Rego] e incluído no livro que aqui nos traz – Ajudante de Mentiroso - , observa que o grande romancista de Pedra Bonita “foi também um homem de movimento, um viajante que percorria terras e via as diferenças e singularidades do mundo à maneira de um Montaigne ou um Stendhal – como se a viagem fosse uma conversação.” Esta alusão ao mestre francês não deixa de ter significado incisivo, porquanto foi ele o pai do ensaio de Bacon e de todo o grande ensaísmo anglo-saxónico, caracterizado por uma conversa altamente civilizada mas informal. Na verdade, um pouco mais adiante e no mesmo texto consagrado a Lins do Rego, Lêdo Ivo observa: “Mas na verdade o ensaio é um gênero leve, fronteiriço entre a literatura e o jornalismo, daí a sua origem ou lugar inicial: o jornal ou a revista em que eram publicados anteriormente.” E acrescenta: “A grande lição do ensaio ocidental é o da literatura em língua inglesa, com os seus ensaístas informais, que escrevem sobre ruas tortas, cemitérios, cidades, viagens, cenas cotidianas, sonhos. E esse tipo de ensaio praticado pelos ingleses, se por um lado se distancia inapelavelmente do eruditismo predatório que grassa entre nós, por outro se aproxima da nossa crônica de jornal.” E resume assim a sua declaração de interesses: “Um bom ensaísta é um cronista culto que sabe escrever.” Por isso, saudando o grande ficcionista de Fogo Morto, diz: “Grande leitor e admirador da literatura inglesa (...), José Lins do Rego ostenta em seu ensaísmo e em sua cronística o desembaraço, a lepidez e a argúcia presentes no informal essay dos ingleses – na lição que vem de Bacon, Addison, Charles Lamb e Hazlitt e continua num Robert Louis Stevenson, num Chesterton ou num Hilaire Belloc.”

Quem leia, com o prazer com que eu os tenho lido, os vários e bem recheados volumes de prosa ensaística do autor de Confissões de um Poeta, concluirá, sem dificuldade, que Lêdo Ivo, ao caracterizar o ensaio de Lins do Rego, na esteira do melhor ensaísmo inglês, mais não faz do que tirar uma expressiva fotografia ao seu próprio modo de estar no ensaio. Conversa informal, culta, civilizada, “fronteiriça entre a literatura e o jornalismo”, erudita mas não maculada de “eruditismo predatório”, primando “pela sedutora diversidade de seus temas” (como diz de Lins do Rego, noutra passagem de um texto incluído no livro Poesia Observada) – eis algumas das características que eminentemente se denunciam na prosa elegante mas cheia de energia e desenvoltura e, repito, coragem, de livros como A Ética da Aventura, Teoria e Celebração, Confissões de um Poeta, O Navio Adormecido no Bosque, Poesia Observada, ou este recentíssimo Ajudante de Mentiroso, para não falar de outros livros seus que não conheço e que, estou certo, não desmentirão o que digo destes (O Universo Poético de Raul Pompéia, O Preto no Branco, Modernismo e Modernidade, A República da Desilusão, entre outros). Duas outras tónicas (e tónicos) gostaria de desvelar nos textos de perscrutação ensaística do autor de As Imaginações: a fidelidade e o afecto.

Lêdo Ivo gosta visivelmente dos autores que recorda e celebra, lê-os com lucidez e aponta-os à nossa admiração com gosto, com amizade que não esconde, estimandeo ter para com eles uma dívida que não lhe pesa. Por outras palavras, a grandeza deles não lhe faz sombra. A lucidez e inteligência crítica de Lêdo Ivo não necessitam de ser mesquinhas para se afirmarem. Ou, dizendo ainda de outro modo, a inteligência não tem que estar do lado da negação. Isto, pelo que diz respeito ao afecto. A segunda tónica a que gostaria de aludir é a da fidelidade: o autor de A Ética da Aventura tem dificuldade em abandonar pelo caminho autores e livros que, de algum modo, contribuíram para sua formação, para o seu crescimento e para a sua felicidade. Por mais de uma vez, ao longo dos anos, o autor, em passagens particularmente comoventes, tenta saldar a sua dívida com a colecção Terramarear que, na sua infância, devorou. Na Ética da Aventura, rende-lhe eloquente homenagem e volta agora a fazê-lo, no livro que acaba de publicar. Não resisto a tirar dele esta passagem: “A descoberta de uma colecção, a Colecção Terramarear, consolidou para sempre um desejo que era uma vocação. O vento da aventura soprava em mim, rival do vento alagoano. As letras e palavras dos romances surpreendentes se convertiam em ondas que fustigavam os cascos dos navios, em ilhas que guardavam tesouros, em portos que abrigavam por um momento as desilusões e os cansaços. Criança, salteou-me a alegria de desenterrar tesouros em ilhas afortunadas. Experimentei a angústia de aninhar-me num escaler para escapar dos naufrágios.”

O mais curioso é que Lêdo Ivo não alude a estas leituras de infância como a experiências importantes de uma certa fase da sua vida, que recorda com saudade, mas que ficaram pelo caminho como coisa ultrapassada por ulteriores leituras mais adultas. Pelo contrário, a Colecção Terramarear não ficou para trás, diz ele, antes “consolidou para sempre um desejo que era uma vocação.” Na fidelidade do seu afecto e no complexo poliedro de ideias e emoções que hoje preside ao seu ideário e imaginário criativos, os fantoches da juvenil colecção ombreiam, de igual para igual, com os de Conrad, Stevenson e Melville: olhos nos olhos, sem vergonha. Sublinho isto com admiração, quase com estranheza, certamente com inveja. É que também eu tendo para esta fidelidade e para este afecto votados àqueles que alguma vez me emocionaram e a quem fiquei devendo alguns instantes de grande intensidade. Mas já tenho deixado cair pelo caminho, com melancolia, alguns que não resistiram muito bem ao amadurecer e à exigência crescente do avaliar. Nisto, julgo que Lêdo Ivo é um caso único, um caso extremo, que requer estudo: um estudo desprevenido, disponível, apto a abrir, quiçá, novos horizontes.

Num belo prefácio à sua antologia Essays of Yesterday, H. A. Treble e G. H. Vallins, recordam que o ensaio, tal como o conhecemos modernamente, surge, na sua força iluminadora, na transição da Idade Média para o Renascimento: “Os homens”, observam Treble e Vallins, “estavam a abandonar a falsa segurança da ignorância pela mais perigosa aventura da procura da verdade.” A segurança tinha-se abonado num protocolo rígido e intolerante de autoridades, homílias e lendas; a busca (tentativa) da verdade pedia menos protocolo, menos rigidez e mais claridade – o tal animus liber, de que tanto se falou então. É um pouco também isto que terão pretendido significar os dois prefaciadores dos Essays of Yesterday, ao escreverem: “Os ensaios curtos, directos, quase lacónicos de Bacon e a obra mais humana de Cowley estavam já, no começo do século dezassete, a influenciar, pelo seu simples vigor de pensamento e de linguagem, a cada vez mais alargada literatura geral em prosa.” São ensaios assim, curtos, directos, (francos, sem medo das “heresias” com que afronta os clichés académicos), recheados de um “simples vigor de pensamento e de linguagem”, os que constituem o miolo do saboroso Ajudante de Mentiroso, agora vindo à luz da nossa leitura.

Na imagem: retrato de Lêdo Ivo.

A CULTURA INTEGRAL DO INDIVÍDUO - INÍCIO E FIM DO MUNDO


Informação recebida no blogue (clicar para ver melhor)

HUMOR - ESCOLA

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A VIDA NO UNIVERSO

(imagem cedida por Carlos Oliveira)

Numa altura que a capacidade da Humanidade, em observar o Universo longínquo, tem permitido encontrar planetas com características análogas às do nosso planeta, efectuei uma entrevista a Carlos Oliveira, astrónomo e comunicador de ciência português que lecciona um curso inovador de Astrobiologia na Universidade do Texas (Estados Unidos da América).

Entrevista publicada no Diário de Coimbra.

António Piedade - De que é trata a astrobiologia?
Carlos Oliveira- É o estudo da vida no Universo. Por todo o Universo, incluindo na Terra, e por todo o tempo (passado, presente e futuro). Donde vimos? Para onde vamos? Estaremos sozinhos? Que condições deverão existir para a vida tal como a conhecemos? Que tipo de vida pode existir sob certas condições? São estas algumas das perguntas que a astrobiologia faz.

António Piedade - Quem é que utilizou pela 1ª vez o termo astrobiologia?
Carlos Oliveira - A astrobiologia é uma ciência que funciona como um "guarda-chuva" de ciências. Pode-se argumentar que desde sempre as pessoas imaginaram vida pelo Universo... a que chamaram deuses. Pode-se pensar que Anaxagoras, há 2500 anos atrás, falou na panspermia - de que a vida na Terra veio do espaço. No entanto, ao longo dos séculos, a argumentação a sustentar a astrobiologia era religiosa. No Renascimento, a ideia de vida pelo Universo recebeu novo impulso, com a injecção de novas ideias por Giordano Bruno e outros. No entanto, continuou tudo muito religioso e somente baseado em opiniões.
Em 1860, Kirchhoff e Bunsen, com a espectroscopia, deram um dos primeiros passos científicos para o estudo da astrobiologia. Mesmo assim, continuou tudo a funcionar muito por analogia, e não porque se detectava alguma coisa.
Em 1941, L. J. Lafleur usou pela 1ª vez o termo astrobiologia num artigo científico, mas isto em nada desenvolveu a astrobiologia. É somente nomenclatura.
Em 1995 foram oficialmente detectados os primeiros planetas extrasolares, dando um novo impulso à astrobiologia.
Em 1998, foi criado o NAI - NASA Astrobiology Institute - que trabalha com muitos cientistas espalhados pelo mundo, sob o "guarda-chuva" da astrobiologia. Este também foi um passo extraordinário para não só tornar a astrobiologia numa ciência, mas sobretudo para a desenvolver enormemente já que todos trabalham com esse fim.

António Piedade - Quais são, na tua opinião, as principais descobertas na astrobiologia com impacto sobre o conhecimento que temos de como a vida surgiu e evoluiu?
Carlos Oliveira - Actualmente são, sem dúvida, as constantes descobertas de planetas extrasolares, as descobertas de extremófilos na Terra, e as descobertas de material orgânico nos meteoritos.

António Piedade - Quais são os principais “desafios fronteira” da astrobiologia actual?
Carlos Oliveira - Penso que serão as áreas que respondi na pergunta anterior.
Planetas extra-solares e microbiologia são duas das áreas mais fortes da astrobiologia actualmente, e que têm mais hipótese de ter grandes repercussões no futuro. Por exemplo, descobrir vida num outro local do Universo levará a uma revolução do pensamento humano. Claro que essa descoberta será muito provavelmente de vida simples, mas mesmo assim já trará enormes consequências para o nosso conhecimento. E novas perguntas começarão a surgir: será vida como a nossa? Será que teve a mesma origem? Serão saborosos? Terão deuses? Que tipo de inteligência terão? Só funcionam por instinto? Poderemos vender-lhes micro-ondas? E muitas outras perguntas do mesmo género. (algumas perguntas são meio a brincar e meio a sério: na Terra, comemos muita da vida que existe, por isso o mesmo se deverá passar no exterior; na Terra comparamos a inteligência dos outros à nossa; na Terra, regemo-nos pelo capitalismo e pelo comércio; na Terra, tentamos converter os outros aos nossos deuses; na Terra, temos a mesma origem para a vida - o antepassado comum; na Terra encontramos vida tal como a conhecemos; etc.)

António Piedade - Que satélites, sondas, telescópios estão dedicados à astrobiologia?
Carlos Oliveira - Existem vários. Fora os satélites de radioastronomia do SETI, temos claro os telescópios que podem detectar e até visualizar planetas. E nesse caso, existem vários telescópios/missões que nos ajudam: Hubble, CoRoT, Espresso, HATnet, OGLE, Super-WASP, XO, etc., e claro a fabulosa missão Kepler. Estes todos estão "virados para fora", mas há telescópios, sobretudo da NASA, virados "para dentro", ou seja, apontados à Terra, e que estudam a dinâmica de ecossistemas terrestres. E o ambiente terrestre é importante, já que é essencial para a vida na Terra (vida na Terra também é vida no Universo, logo, estudar a vida na Terra é uma das funções da astrobiologia).

Café às cores


Com a amável autorização da autora, reproduzimos a última crónica da escritora Cristina Carvalho no sítio Literatura PNet:

Desde que se democratizou o consumo do cafezinho nas nossas próprias casas, quem não tiver uma maquineta de tirar bicas, daquelas que engolem cápsulas de várias cores – cada cor seu paladar como os “rajás fresquinhos” – não tem nada! Você pode não ter mais nada, mas uma maquineta de tirar cafés, tem, com toda a certeza. Tem-na na sala, naquela mesita baixa ao pé da televisão, tem-na na cozinha ao lado do micro-ondas, até a tem no vestíbulo da entrada se já não tiver cabimento em mais lado nenhum. Tem-na.

Começa porque a máquina é bastante cara. Mas isso não tem, realmente, grande importância. Faz parte daquelas aquisições que o vão fazer sobressair no seu estado social, mais não seja porque é yesssss! Máquina de café mais o estojozinho ou sem estojo, uma coleção de cápsulas brilhantes e eficazes. Um problema: que fazer com as cápsulas usadas? Fora? Lixo? E o ambiente… Mas já inventaram um capsulão, a verdade é essa! E desde que o capsulão apareceu no bairro, é tudo muito melhor, muito mais limpo. Mais o preço das cápsulas e a estafa, a demora inacreditável, a espera submissa na asséptica loja onde ali e só ali – a não ser que um cristão tenha internet e faça a encomenda – se pode comprar o aveludado cafezinho.

Tudo isto se desculpa porque oferecer a um amigo, uma visita ou o próprio tomar este aromático líquido, é compensador.

Não é de todo desagradável estar em pé numa daquelas lojas lindas, educadas tempos e tempos sem fim! Esperar longos minutos com uma senha na mão e observar demoradamente os empregados tão aromáticos como o próprio café e parece que quase não falam, parece que os seus pezinhos deslizam sobre nuvens de algodão doce quando saem por detrás do balcão e gentilmente nos estendem os braços e nos entregam o saco com o que acabámos de comprar. Atendimento altamente! Nada tem já a ver com aquelas lojas de café que existiam no Martim Moniz ou na Praça da Figueira onde homens enormes, gordíssimos, de batas brancas manchadas com riscos e sombras acastanhadas que eram a mancha desenhadas por vestígios de pó de café, suportavam o peso duma existência inteira dedicada à delicada composição dos lotes de café. E uma pessoa saía com um pacote de papel pardo na mão, atado por um cordel, nas extremidades.

Hoje, nestas novas lojas, há ar condicionado e um balcão para provas de café e altas colunas coloridas onde estão inequivocamente arrumadas milhares e milhares de cápsulas que apresentam as tais cores variadas conforme o nome e a proveniência e há esperas e sorrisos e desejos e vinganças e encontros e desencontros, tudo num certo espaçar de tempo com determinada ideia: eu não sou qualquer um. Eu gasto deste café. E mesmo que se esteja ali vinte, vinte e cinco, trinta minutos ou mais à espera de ser atendido, não existe um esgar, um azedume, qualquer tom de impaciência nessa espera desgastada. Há uma sobranceria qualquer, uma ideia, uma máscara, um enfeitar, um regozijo, satisfação, enlevo, um gozo premeditado, um prazer que se imagina por se receber mão na mão, olhos nos olhos, o impulso quase triste de se caminhar na direção da porta de saída ostentando um saquito ufano recheado de caixinhas multicores cheias de pó de café comprimido e burguesote.

E finalmente, quem sabe, ó céus! ó enlevo máximo! ó sublime visão de categoria, de grande categoria: à nossa espera, ali encostado rente ao passeio a fervilhar de gente cheia de saquitos de cápsulas, para cá e para lá, rua acima, rua abaixo, um automóvel cor de prata e lá dentro, óóóóó!!! John Malcovitch empoado, sentado, de sorriso cândido, John com asas, John sem asas, John nas nuvens mais o seu amigo, o Clooney, aquele rapaz que tresanda a café do bom, do requintado, o George nas alturas a subir uma escadaria celeste, degraus de algodão, fato branco, luminoso, imaculado.

Ah se todos os Johns e todos os Malcovitch’s e todos os Georges e todos os Clooneys do mundo inteiro soubessem o sacrifício que um mortal passa para beber e ter acesso a uma só cápsula, uma só indestrutível cápsula de café…

Cristina Carvalho

O PICO DO PICO


Republico, com a devida vénia, uma fantástica fotografia da ilha do pico nos Açores, o ponto mais alto de Portugal, que me foi enviada pelo eminente vulcanologista açoriano Victor Hugo Forjaz, com a seguinte legenda, da sua autoria:

"Em primeiro plano observa-se um degrau, levemente inclinado, seguido de uma quebrada, quase vertical. Trata-se da primeira fase de crescimento da montanha do pico (240 mil anos?)

Mais acima, observa-se a actual cratera, redondinha mas com alguns bordos derrubados ora por pressao do lago de lava hawaiano ora por deslocamentos de falhas.

Encontra-se bem visível o piquinho do pico, pequeno cone de "lavas em tripas" (bowells lavas) que prencheram o lago da cratera. Estas lavas, muito fluidas, basálticas, derramaram-se até ao mar (lavas do tipo hawaiiano)."

SOBRE O NOVO MINISTRO DA EDUCAÇÃO E CIÊNCIA

Declarações que fiz ao Jornal de Letras / Educação e que foram publicadas no último número:

"Será um grande maquinista da máquina monstruosa que (ainda) é o Ministério da Educação. Trata-se de um mecanismo muito perro, mas Nuno Crato tem a consciência de que, do outro lado, estão pessoas, professores e alunos, e é para eles que fundamentalmente vai trabalhar".

O IRS, OS MÉDICOS E OS DOENTES

“Como a doença amplia as dimensões internas do homem!” (Charles Lamb, 1775-1834).

Em resposta ao recente comentário de Pinto de Sá (2 de Julho; 09:41) ao meu post, “O Memorando da Troika, a Doença e o IRS”, começo por lamentar que este importante tema social tenha passado quase despercebido (com excepção honrosa do comentário supra citado) sendo, assim, desperdiçada uma oportunidade de a discutir amplamente, uma vez que envolve o bem precioso de qualquer cidadão, hoje com saúde, amanhã eventualmente doente.

Bem sei que quando se é jovem, com uma saúde de ferro, sem dificuldades de natureza económica, o futuro, como se dizia na escola de antigamente, se apresenta “risonho e franco”. Quanto à velhice, a questão não se chega a pôr mesmo com o correr vertiginoso da passagem do tempo por haver sempre o recurso ao argumento de Baruch Spinoza: “Velhos são os que têm mais quinze anos do que nós”. Mas, já no caso do sexo feminino, a questão de um corpo sadio e belo, mas que a doença degrada inexoravelmente, assume importância o desabafo gracioso de Ninon de Lenclos, célebre escritora e beleza francesa, falecida em vésperas de perfazer 90 anos de idade: “Se Deus teve a infeliz ideia de infligir rugas às mulheres, pois ao menos devia ter-se lembrado de as ter colocado nas plantas dos pés”.

Portanto, não posso deixar de me congratular com o facto de o tema ter sido perspectivado e escalpelizado por Pinto de Sá, sob o ponto de vista de uma medicina transformada num negócio que tenha por fim o lucro fácil sem olhar aos meios usados para o alcançar. Assim acontece nos dias de hoje, embora esta crítica possa levar à injustiça de generalizações sempre perigosas. De facto, pertence ao reino da ficção a figura simpática, e desinteressada de bens terrenos, do médico João Semana, personagem do livro de Júlio Dinis, “As Pupilas do Senhor Reitor”. E, em exemplo da vida real, o grande humanista Albert Schweitzer (Prémio Nobel da Paz, 1952) , em deliberado abandono do conforto da civilização, entregou-se a uma medicina de missão, dedicando-se a doentes no deserto de Lambaréné (antiga África Equatorial Francesa), onde estabeleceu uma leprosaria para tratamento de uma terrível doença que desfigurava e dizimava inúmeros gentios.

São estes exemplos de dádiva ao semelhante que dificilmente encontram exemplo nos dias egoístas do nosso tempo, seja na medicina, na advocacia, na engenharia ou em muitos outros ramos de actividade profissional. Apresenta, no seu comentário, Pinto de Sá o caso passado com o seu sogro numa clínica privada (abordarei este assunto lá mais para diante), apresentando eu, por meu lado, o exemplo do meu sogro, médico-cirurgião, que se dedicou à sua profissão, mister duro, sem horários fixos e em desempenho de horas pouco alegres porque em contacto constante com a doença e com a morte (e a certeza de se tornar sua personagem futura.) Sem fazer fortuna, -lo com a honradez de quem viveu em conforto económico como paga da sua “hablidade de mãos” ao serviço de um cérebro dedicado a muitos e árduos estudos e anos esforçados de prática.

Comungo plenamente do seu comentário quando escreve: “Tal corte de deduções fiscais nas despesas de saúde é sem dúvida doloroso, especialmente para os pobres reformados”. O exemplo por si apresentado é sintomático e seria dramático na actualidade em que as respectivas e exorbitantes despesas de saúde seriam excluídas para efeitos de descontos do IRS, deixando-as de fora como um luxo de quem adquire um Mercedes topo de gama em vez de se contentar com um carro utilitário de pouca cilindrada. Mas, o pior disto tudo é a realidade da pessoa doente que se preocupa em melhorar, à outrance, o seu estado patológico ou apenas em tentar evitar que ele se agrave. Como é uso no dizer do povo, “vão-se os anéis mas fiquem os dedos” Ora, as contas a pagar são os anéis que mudam de dono… ficando os seus antigos proprietários sem eles e, em casos extremos, sem os dedos.

Obviamente, em minha opinião (embora se saiba que as opiniões valem o que valem), e ao contrário do que escreveu, meu caro Pinto de Sá, não partilho do seu optimismo de que esta medida restritiva de descontos para efeitos do IRS reduzirá a procura da medicina privada que terá sempre doentes/clientela por os hospitais públicos não estarem capacitados para dar resposta atempada a casos de graves doenças em que os dias correm vertiginosos nas folhas do calendário e muito mais rápidos na esperança da respectiva cura. São estas situações demonstrativas de que a saúde pode ser uma prática humanizada e não um negócio que sirva de pretexto para debitar extras próprios de salão de beleza, como o exemplo passado com o seu sogro numa clínica privada, e por si relatado com cáustica ironia: “Faziam-lhe a barba, punham-lhe uma loção na cara para ele ficar rosado e de pele brilhante, com aspecto de novo, e cobravam milhares”.

Mas não se pretenda ver nesta minha crítica à descida do plafond para despesas com cuidados médicos ou aquisição de medicamentos uma injusta e impiedosa discordância para com a medida tomada pelo actual Governo, pressionado pelo FMI, na tentativa hercúlea de tapar os buracos, ou mesmo crateras, de um Orçamento de Estado herdado da anterior e ruinosa gestão do Partido Socialista.

Apenas não encontro, isso sim, como solução válida esta medida, para mais associada a um imposto extraordinário e, como tal, a título excepcional (e todos nós sabemos como as excepções correm o risco de se tornarem em regra) que retira aos trabalhadores dependentes cerca de 50% do subsídio de Natal, deixando, em contrapartida, de fora desta medida “rendimentos de capitais de 80 milhões de euros”, com a discordância de fiscalistas como Vasco Valdez, que foi secretário de Estado dos Assuntos Fiscais nos Governos de Cavaco Silva e Durão Barroso (Público, 02/07/2011). Em contrapartida, são diminuídos os benefícios fiscais que deviam continuar a merecer a atenção dos poderes públicos para não abandonar os cidadãos nas garras de doenças graves crónicas ou mesmo na iminência de uma morte que o instinto de sobrevivência do homem rejeita a todo o custo. Mesmo que para isso tenha que ficar pobre como Job, engrossando a lista de novos-pobres que o espectro horrendo do desemprego criou nestes últimos, recentes e tristes tempos tornando-nos, a nós portugueses, num povo desiludido, triste e doente. Irremediavelmente abatido!

Na imagem: Esculápio, deus da Medicina da Mitologia greco-romana.

Quando a morte é bela e explosiva

A supernova de 1054 registada pelos primeiros índios norte americanos

Deixo, aqui, a minha crónica semanal no jornal i.

Se na crónica da semana passada viajámos até ao futuro, convido-o hoje a imaginar precisamente este 4 de Julho mas do ano de 1054. Na distante China, os astrólogos do Palácio Real dedicavam-se ao estudo do rendilhado mapa de constelações na tentativa de desvendar os insondáveis destinos da nação. Nada de "biscoitos da sorte" ou cartas astrológicas personalizadas, não, que a astrologia chinesa era apenas voltada para futuros colectivos. E, repita-se, rendilhada: enquanto no Ocidente se contavam 88 constelações, a China encontrou 283 padrões criativos nos céus! Nesse 4 de Julho assistiram a um dos maiores espectáculos celestes de todos os tempos: na constelação do Touro, um portentoso ponto brilhante no céu, que rivalizou em brilho com o Sol e a Lua, denunciava o início do término da vida de uma estrela de enorme massa. Os astrólogos chineses registaram com temor e admiração esse evento e os primeiros índios da América do Norte registaram também, nas rochas, o fenómeno. Curiosamente, na Europa da Idade Média não se encontra uma única nota, um único desenho. Durante 23 dias, esse marco foi visível à luz do dia. Por mais de dois anos foi uma forte lanterna da abóbada celeste nocturna. Hoje, 957 anos depois e naquele local, uma enorme miscelânea de filamentos gasosos coloridos transformou um fim num cenário glorioso e belo - a Nebulosa do Caranguejo. A morte, no cosmos, não é necessariamente feia e triste!

domingo, 3 de julho de 2011

O recordista de tornados no mundo!



A temporada de tornados deste ano nos Estados Unidos foi a mais mortal da história do país causando danos materiais de até US$ 12,5 bilhões e cerca de 500 pessoas mortas.Veja na figura abaixo o mapa dos tornados nos EUA de 1950 a 2010!Click na figura para ampliar detalhes!



Vale a pena ver o video da matéria produzida sobre tornados :
clicar aqui para ver a matéria!

XMEN: O INÍCIO



Já está nos cinemas portugueses o filme "XMen: O início", ficção científica baseada em mutantes. Começa na Polónia, na Segunda Guerra Mundial, e termina com a crise dos mísseis em Cuba, no início dos anos 60. Pelo meio muita acção e alguns clichés sobre a ciência e os cientistas...

CONTRA OS RITUAIS BÁRBAROS


A habitual coluna de fim de semana de Robert Park, transcrita de What's New:

"RITUAL SLAUGHTER: DUTCH BAN OUTRAGES JEWS AND MUSLIMS.

Kosher and halal rules for the preparation of meat, require the throat to be slit while the animal is fully conscious. Holland has long been considered the most culturally tolerant country in Europe and perhaps in the world, but ritual slaughter does seem barbaric, and on Tuesday, the Netherlands Parliament passed a bill proposed by an animal-rights group banning ritual slaughter of animals. Laws prohibiting cruelty to animals as well as cruel religious practices, including polygamy, female genital mutilation, and the burning of witches are enforced in every civilized society. According to the Netherlands chief Rabbi, however, "Those who survived the war (WWII) remember that the very first law made by the Germans in Holland was the banning of schechita." The Muslims, meanwhile, are certain that the law is aimed at them. In any case, both groups are free to practice vegetarianism and would be healthier for it."

Robert Park

sábado, 2 de julho de 2011

O Memorando da Troika, a Doença e o IRS


“O Estado é um ogre filantrópico” (Octávio Paz, 1914-1973).

De quando em vez, somos colhidos por “novidades” que nada anunciam de novo. Ou seja, são uma espécie de fatos velhos virados do avesso que tempos de crise, ainda mesmo em meados do século passado, faziam passar por novos.

Por andar, de há muito, nas bocas do mundo, assim sucede com um estudo - apresentado hoje pela Visa Europe e pela A.T Kearne, intitulado “A economia paralela em Portugal representa quase 20% do PIB” (ou seja, 33 milhões de euros anuais) - de que se transcrevem pedaços de prosa:

Os sectores mais afectados são a venda de automóveis, restaurantes e bares, táxis, lojas com serviços não especializados e cantinas e serviços de catering. De acordo com o estudo, o valor está dentro da média europeia, representando no total 2,1 biliões de euros. No conjunto europeu, os países do leste são aqueles em que a economia subterrânea tem maior peso. Exemplo da Bulgária, em que o peso é de 33% do PIB. No sul da Europa, a Grécia tem os piores valores, com 25% e pela positiva, destaca-se a Suíça que tem uma economia fantasma de apenas 8% do PIB "(“Diário Económico”, Paula Cravina de Sousa, 30. Set. 2011).
Aqui chegado, não posso deixar de formular duas perguntas. Em Portugal, são só estes os fugitivos detectados no referido estudo? Que é feito dos outros? Ou há moralidade…

Este polémico tema social, está longe de só agora me despertar atenção crítica por me ter merecido três posts neste blogue. De um deles, “Os velhos, os doentes e os reformados que paguem a crise” ( 18/03/2010), transcrevo passagens:
“Recupero do meu post 'Francisco Louçã, o pregador' (10/09/2009), os parágrafos iniciais:

O recente debate televisivo entre José Sócrates e Francisco Louçã (RTP1, 8/09/2009) fez-me recuar aos tempos da minha juventude. Mais precisamente aos saudosos filmes de 'cowboys' em que aparecia a personagem de um pregador que, na praça pública, tentava convencer os ouvintes da bem-aventurança que aguardava as suas almas no paraíso que ele defendia com a convicção da sua inabalável fé.

Neste caso, o pregador da coboiada nacional que passou nos ecrãs televisivos foi personificado por Francisco Louçã, o festejado líder do Bloco de Esquerda, quando no referido debate defendeu que as despesas com a saúde - consequentemente, as consultas médicas em consultórios privados - deixassem de contar para efeitos de desconto no IRS’.

Esta tomada de posição pública de Francisco Louçã, perante o olhar e audição atentos dos telespectadores, obrigou-me a escalpelizar, com paciência de Job, as cento e doze páginas do 'Programa Eleitoral do Bloco de Esquerda' para me deparar, na respectiva página 22, com a seguinte medida: 'Diminuição das deduções com seguros e despesas de saúde para os escalões mais elevados'.

Surge-nos agora o Partido Socialista, em medida draconiana, a fazer-se defensor desta ideologia do Bloco de Esquerda quando, no respectivo 'Plano de Estabilização e Crescimento', defende um tecto de dedução de despesas com a saúde em função do escalão de IRS. Aliás, o Partido Socialista demonstra até 'mais coragem polític´' que o Bloco de Esquerda, por não se limitar à diminuição das deduções em seguros de saúde. Ou seja, o PS propõe, pura e simplesmente a sua abolição”.

Para espanto meu, se possível, ainda maior, surge agora o Governo recentemente empossado, apesar de no respectivo “ Programa Eleitoral” não constar esta medida, a ir recuperá-la ao baú das medidas aparentemente por si criticáveis quando era oposição ao estabelecimento de um tecto para as despesas com a saúde para efeitos de IRS. Facto me faz recordar Pessoa: “Dizem? /Esquecem. /Não dizem? /Disseram”.

Mas porque o assunto é demasiado sério, detenhamo-nos nos prós e contras que subjazem a esta medida, ainda que mesmo inscrita no exigente e doloroso Memorando da Tróika.

Por norma, os médicos são o cepo das marradas dos que se queixam desse cancro social que é a fuga aos impostos. Mas nem sempre em acusação justificada por pertenceram a uma classe profissional que mais recibos passa por poder ser descontada parte das consultas comparticipadas, por exemplo, pela ADSE, para efeitos de IRS.

Sem atender aos respectivos prejuízos em complicados e complexos cálculos matemáticos, ainda que só em simples contas de merceeiro que numa mesma gaveta deposita o dinheiro que entra e o dinheiro que sai, discuto um tecto máximo de descontos para IRS a recair em velhos e doentes, por vezes, com patologias crónicas e dores insuportáveis, a exigiram contas pesadas de farmácia, como se a velhice fosse um crime e a doença pudesse ser erradicada ao sabor do freguês. Para alem de imoral e injusta, esta medida carece de bom senso, de princípios humanitários e de massa cinzenta por parte dos respectivos responsáveis por levar a que se poupe na farelo para se gastar na farinha. Ou seja, o Estado poupa no IRS dos doentes da classe média (sempre ela a pagar a crise) e é perdulário no que respeita aos impostos deixados de pagar pela classe médica. Até comove ter quem zele, com tanto desvelo, pelos doentes e pelos velhos...

Aliás nada digno de espanto e muito menos de coragem política. Se o poder reivindicativo dos reformados pouco pesa (quando se não tem em conta a sua massa eleitoral), menos pesa a fragilidade dos que sofrem em silêncio, em adaptação de “Os Lusíadas” (Canto I) e desculpa minha ao vate pelo arrojo, tentando adiar a lei da morte que só poupa aqueles que por obras valorosas dela se vão libertando. Como escreveu Jean-Baptiste Colbert, no século XVII: “O acto de tributar é idêntico ao depenar de um ganso, procurando obter o máximo de penas com a menor gritaria”.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

OS COFRES VAZIOS


Minha crónica no "Público" de hoje:

Não é novidade nenhuma, entre nós, que um governo deixe a outro os cofres vazios. Ficou famosa a frase de Durão Barroso sobre o “país de tanga”, depois de, em 2002, ter tomado posse dos cofres em boa medida esvaziados pelos governos anteriores. E não se pense que a transmissão do continente sem o conteúdo se deve à diferença de família política dos chefes de governo cessante e entrante. Já em 1821, nos últimos dias do Brasil colonial, a transmissão do poder de uma para outra pessoa da mesma família biológica – o rei D. João VI e o seu filho D. Pedro, futuro Imperador – tinha sido feita deixando os cofres vazios. Os cofres, tanto em Portugal como nas antigas colónias, têm uma forte tradição de esvaziamento rápido.

Se há quase uma década o país estava de tanga, hoje bem pode dizer-se que está nu. E o espectáculo não é nada edificante. Portugal ocupa um lugar de topo no ranking da CMA Datavision, que mede a probabilidade de falência das nações: nesta altura a nossa está próxima dos 50 por cento. Uma das consolações que nos restam é a de verificar que o primeiro lugar, destacado, permanece ocupado pela Grécia. Se Portugal vai nu, a Grécia vai nua e anoréxica. Mais do que nós, os gregos, para já não falar dos irlandeses, cujo risco de incumprimento não difere muito do nosso, ajudaram a esvaziar os cofres da Europa. Durão Barroso não fala ainda da “Europa de tanga”, mas está a propôr um novo IVA europeu e um novo imposto sobre transacções financeiras, que permitam aumentar os proventos da Comissão a que tem presidido. Longe vão os tempos, no ano 2000, quando, embalada pela Cimeira de Lisboa organizada por Guterres, a Europa aspirava a ser, no prazo de uma década, “a economia do conhecimento mais competitiva e mais dinâmica do mundo, capaz de um crescimento económico duradouro acompanhado de uma melhoria quantitativa e qualitativa do emprego e de maior coesão social”. Não o quer dar, nem emprestar, mas, ainda que o quisesse, a Europa, a crescer pouco, não tem muito mais dinheiro para enviar nem aos gregos nem a nós. Devemos a Mário Soares o rasgo de nos ter feito entrar na União Europeia, mas foi infeliz a sua afirmação recente de que “o que estão a fazer à Grécia é uma vergonha, porque a Grécia é a pátria e a inventora da democracia, da ciência e da cultura". Sócrates, o grego, não é um passaporte para a impunidade e a vergonha é a dos seus descendentes. Por esse argumento, a Europa deveria pagar uma pensão vitalícia a Portugal só porque chegámos outrora à Índia e ao Brasil.

A crise financeira que se vive por estes dias nos dois países à beira do default não tem uma solução simples e rápida. Mesmo que os euros abundassem, e dando de barato que os seus donos os queriam distribuir do mesmo modo generoso com que o fizeram até agora, ela não se resolve apenas transferindo mais e mais numerário, pois, como mostram os exemplos grego e português, dinheiro que entra facilmente sai também facilmente (em inglês, “easy coming, easy going”). Os problemas das economias dos países periféricos são antigos e estruturais, pelo que não se dissolvem com sucessivos banhos de euros. É preciso, em Portugal, uma nova forma de estar na vida, uma atitude activa e empreendedora, que nos permita sair num prazo razoável da dependência externa. É necessário que o país do “quero lá saber”, do “deixa estar” e do “logo se vê” dê lugar a um país com vontade e força. É mister que saibamos buscar e conservar a determinação com que noutros lados se constrói o futuro (e com que nós próprios, na diáspora, o construímos).

A milenar sabedoria chinesa diz que crise é também oportunidade. Ter os cofres vazios pode até ser benfazejo se servir para que nos metamos em brios e os enchamos à custa do nosso esforço em vez de esperar que outros o façam por especial favor. Está aí um novo governo. Terá ânimo para isso? Teremos nós ânimo para isso? Como disse o Padre António Vieira: “Os bens que mais nascem do ânimo que da fortuna melhor se asseguram, porque aqueles guardam-se no peito e estes cansam nos ombros.”

A IMORTAL HENRIETTA


Minha crónica publicada hoje no "Sol":

O livro A Vida Imortal de Henrietta Lacks, da autoria da jornalista Rebecca Skloot, agora em edição portuguesa da Casa das Letras, tornou-se um dos maiores êxitos do ano passado nos Estados Unidos, ao ocupar semanas a fio a lista de best-sellers do New York Times, ao receber vários prémios e ao ser logo traduzido para várias línguas. Vai até chegar aos ecrãs, pois Oprah Winfrey, a famosa vedeta de televisão, comprou os respectivos direitos para fazer um filme.

Alguns consideram a ciência fria e impessoal, mas este é, em contraste com essa ideia feita, um livro de ciência cheio de calor humano. A história pode resumir-se em poucas linhas: Henrietta Lacks foi uma mulher negra, mãe de cinco filhos (o primeiro dado à luz aos 14 anos), descendente de escravos e por isso pobre, que trabalhava nas plantações de tabaco da Virgínia, a quem, aos 30 anos, foi diagnosticado, no Hospital de John Hopkins, em Baltimore (na “ala de cor”, pois o racismo imperava na época), um cancro do colo do útero. “Tenho um nó dentro de mim”, tinha sido o seu auto-diagnóstico. O tumor teve um crescimento anormalmente rápido e necessariamente fatal, apesar dos tratamentos com radiação. Henrietta faleceu a 4 de Outubro de 1951. Mas, hoje, muitas das suas células continuam vivas em laboratórios de todo o mundo. Com efeito, uma biópsia permitiu retirar um conjunto de células que, ao contrário de outras amostras experimentadas antes, proliferaram num meio de cultura apropriado. Essa estirpe celular, que ficou conhecida por HeLa, do nome da doente, desencadeou um sem-número de experiências e descobertas científicas, por exemplo o desenvolvimento da vacina contra a poliomelite. E os produtos dessas descobertas foram comercializados a bom dinheiro, pois permitiam salvar vidas. Quer dizer, o tumor de Henrietta foi uma maldição para ela mas uma bênção para a ciência.

Acontece, porém, que a extracção das suas células não foi autorizada e que nem ela nem a sua família foram recompensadas em nenhum dos fabulosos contratos realizados à custa do seu material biológico.Uma das filhas que, conduzida pela autora do livro, visitou frigoríficos de um hospital onde se conservam células HeLa, lamentava-se de não ter um seguro de saúde que lhe permitisse pagar medicamentos de que necessitava, feitos com a ajuda dos tecidos da mãe. O problema ainda é actual: independentemente das questões raciais, bem retratadas no livro, uma parte de qualquer um de nós pode ser usada, sem autorização nem compensação, para benefício não só da ciência, o que seria o menos, mas também de alguma indústria multimilionária que nela assenta. Os problemas éticos, que se avolumaram na década em que Henrietta morreu, continuam tão vivos como as células que ela nos deixou.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...