sábado, 6 de novembro de 2010

OS LIVROS DE RÓMULO DE CARVALHO


Aproxima-se - é já a 24 de Novembro - outro aniversário de nascimento de Rómulo de Carvalho, o patrono do Dia Nacional da Cultura Científica. Recupero, por isso, um texto meu sobre os seus livros, que tanto admiro, saído no meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005):

Para além da sua obra poética e de ficção (da pena de António Gedeão), Rómulo de Carvalho deixou-nos uma vasta e variada bibliografia ensaística, que inclui livros de divulgação científica, obras de história da ciência e manuais escolares. A primeira categoria engloba os livros da colecção “Ciência para Gente Nova” e os dois tomos de “Física para o Povo”, inicialmente editados pela falecida editora Atlântida, de Coimbra, e alguns dos quais foram reeditados pela editora Relógio d’Água, de Lisboa, na sua colecção “Ciência”. Inclui ainda os finos “Cadernos de Iniciação Científica” da Sá da Costa, que entretanto foram também reeditados pela Relógio d’Água num único volume. A segunda abrange um vasto número de títulos à volta da prática científica no Portugal do século XVIII, de que merecem destaque os três pequenos livros de resenha publicados pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa “A Física Experimental em Portugal no Século XVIII”, “Astronomia em Portugal no século XVIII” e “A História Natural em Portugal no Século XVIII” (Rómulo escolheu para grande tema de estudo a ciência setecentista já que a ciência dos Descobrimentos tinha sido foco da atenção de outros autores e a ciência em Portugal do século XIX pouco mais foi do que inexistente). Merecem ainda referência especial a “História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra”, publicado pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, e os dois grandes volumes, um publicado nos últimos anos de vida e outro mesmo póstumo, “Actividades Científicas em Portugal no Século XVIII” (colecção de memórias da Academia de Ciências de Lisboa) e “Colectânea de Estudos Históricos” (estudos vários de história da ciência), ambos do prelo da Universidade de Évora. Por último, de entre os manuais escolares, quase todos em co-autoria e de qualidade não uniforme, merecem destaque os volumes “Ciências da Natureza” para o ciclo preparatório do ensino secundário. Como ensaios não classificáveis no esquema apresentado mas de grande fôlego refiram-se dois, relativamente tardios e ambas editados pelo Serviço de Educação da Fundação Calouste Gulbenkian, “História do Ensino em Portugal” e “O Texto Poético como Documento Social”. É obra!

Vejamos com mais pormenor cada um desses compartimentos bibliográficos.

- Livros de divulgação científica

Rómulo de Carvalho fez divulgação científica - e da melhor! - quando entre nós quase não havia divulgação científica. Embora as suas aulas, conta quem foi seu aluno, tenham ficado inolvidáveis, os livros aumentaram de maneira extraordinária o raio de acção do Professor. Houve quem quis ser cientista para saber os mistérios da física moderna que não apareciam nos manuais de física de antanho (ainda hoje quase não aparecem...) Para além de ter examinado alguns instrumentos baseados na ciência clássica, como o balão, Rómulo levantou a ponta do véu do pequeno átomo e do pequeníssimo núcleo no seu seio nos livros “História do Átomo”, “História da Radioactividade”, “História dos Isótopos” e “História da Energia Nuclear” da colecção “Ciência para Gente Nova”. É nítido logo a partir do título o valor pedagógico da história: a ciência é uma construção humana e aprende-se melhor se se conhecer o modo como ela se desenvolve. Nos livros do Mestre é claro ainda o primado da observação e da experiência: as coisas são como são porque alguém viu e experimentou, e nós, se formos suficientemente curiosos e hábeis, também podemos ver e experimentar. A linguagem, apesar de algo clássica, é sugestiva e motivadora, o que só se consegue por uma mistura da retórica e da imaginação que não está ao alcance dos escritores menores. Por isso, esses livros conservam a frescura inicial e, se o leitor os encontrar numa feira do livro de ocasião, considere-se feliz por os poder levar consigo para sua leitura privada.

A atitude experimental, que é inimiga da especulação gratuita e do preconceito falacioso, transparece também nos dois tomos de “Física para o Povo” a propósito dos fenómenos da física clássica (os dois tomos foram fundidos num só, na moderna edição da Relógio d’Água, intitulada “A Física no Dia-a-Dia”, com prefácio de José Mariano Gago e patrocínio do Instituto Camões e do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro). Trata-se de uma prosa didáctica, escrita a pensar directamente no cidadão comum, a quem o autor gentilmente trata por “meu caro amigo”. Elucidativo sobre a omnipresença da ciência nas nossas vidas é o modo como são colocadas questões e dadas respostas sobre os mais fenómenos do nosso quotidiano. A Física não é uma actividade exótica mas tão só a tentativa de descrever e explicar o mundo onde vivemos. A “Física para o Povo” é um conjunto de aulas particulares, explicações, só para o “caro amigo”, o leitor que não quer ficar alheio ao mundo que o rodeia.

Finalmente, os “Cadernos de Iniciação Científica”, da Sá da Costa, que se destinam em primeira linha a jovens (a nova edição, da Relógio d’Água, junta todos os cadernos num só, prático, volume), “pretendem ser um meio de informação atraente, pela simplicidade da linguagem e pela apresentação gráfica, de conceitos fundamentais das ciências físicas” (do texto de apresentação da colecção). São, com os manuais escolares, os mais ilustrados dos livros de Rómulo, mas estes livrinhos, ao invés dos manuais, não querem seguir programas mas sim contar histórias, discutir ideias e prazentear leitores.

- Livros de história da ciência

Desde muito cedo Rómulo de Carvalho se interessou pela história da ciência em Portugal, nomeadamente o século XVIII. Os seus três livros da colecção Biblioteca Breve do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa são inescapáveis a qualquer estudante que se queira iniciar na época iluminista em Portugal. Em Coimbra, trabalhou na catalogação do Gabinete de Física, hoje Museu de Física, e escreveu várias memórias sobre peças desse rico acervo. E deixou um volume notável “História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra”, onde, em mais de sete centenas de páginas de aspecto austero e salpicadas de gravuras antigas, se descrevem os preciosos instrumentos científicos da colecção do Museu de Física. Essa colecção, que hoje pode ser visitada “in situ remonta ao Colégio dos Nobres, em Lisboa. Foi Rómulo de Carvalho quem nos contou a “História do Colégio dos Nobres”, num volume da editora Atlântida muito anterior à “História do Gabinete...”. O actual catálogo do Museu (“O Engenho e a Arte”), que no essencial retoma o catálogo (“Les Mécanismes du Génie”) da exposição da Europália na Bélgica, seria impossível sem o trabalho meticuloso e paciente que Rómulo de Carvalho realizou no belo edifício pombalino quando ele ainda estava fechado à curiosidade e à admiração de todos. Também o Museu Maynense da Academia das Ciências deve muito (quase tudo) a Rómulo de Carvalho, que foi seu director. Dedicou a esse Museu e à Academia boa parte dos seus derradeiros anos, como é certificado pelo volume “Actividade Científica em Portugal no Século XVIII”, publicado em Évora por ocasião do doutoramento “honoris causa” concedido justamente pela universidade local. É especialmente útil para os estudiosos a bibliografia muito completa sobre a história da ciência em Portugal, que se encontra nesse volume.

- Manuais escolares

O lema dos compêndios “Ciências da Natureza”, que têm capas do conhecido “designerSebastião Rodrigues, vem logo na Introdução: “Atrás do aprender vem o saber, e o saber é uma riqueza que por mais que se use nunca se gasta”. O melhor elogio que se pode fazer a estes livros é que, por vezes, não parecem manuais escolares. Com efeito, se noutros manuais de Rómulo de Carvalho a sua prosa mais característica se encontra abafada, aqui ela solta-se, trazendo para o universo da escola a indagação e a curiosidade que muitas vezes estão apartadas dele por motivos inexplicáveis. Há quem testemunhe que Rómulo era um professor austero, difícil, autoritário. Estes compêndios mostram o contrário. Há um poeta escondido dentro do professor, e, se o rigor era seu apanágio, ele não aparecia dissociado do encantamento e da sedução que é uma marca dos verdadeiros poetas.

- Outros livros de ensaio

A História do Ensino em Portugal”, com o subtítulo “Desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano”, é uma obra verdadeiramente enciclopédica, contendo informação factual cuja “secura” é contrabalançada amiúde pelo comentário e opinião. O livro é obrigatório para todos os que se interessam pelo ensino em Portugal. O ensino de hoje é, afinal, resultado de um passado feito de mil incidentes e circunstâncias que não podem ser ignorados se o queremos compreender e, acima de tudo, modificar. Rómulo de Carvalho não foi apenas um dos nossos maiores pedagogos mas também um dos maiores estudiosos da nossa pedagogia.

O “Texto Poético como Documento Social”, ensaio sobre a poesia como arma de documento e crítica, termina, tal como “A História do Ensino em Portugal”, com a revolução de 25 de Abril de 1974. Apesar de lhe ter sobrevivido 23 anos, Rómulo de Carvalho foi, por natural formação, um homem marcado pelo tempo anterior, um homem com uma revolta intelectual algo contida que apenas extravasava em textos poéticos de clara revolta social. Em “O Texto Poético...” procurou dissecar esse poder oculto da poesia que é o poder de transformar o mundo.

O macaco e os eco-criminosos

Não podendo, obviamente, deixar de reconhecer a necessidade absoluta de se tomarem todas as medidas que estão ao nosso alcance para se defender o ambiente, também não posso deixar de assinalar que nem todos os meios justificam este fim. Ainda que por cá não tenhamos chegado a manifestos exageros como o que revela um pequeno filme que deu brado em Inglaterra, temos outros que eu apelidaria de… bastante antipáticos.

Ficou, com certeza, na memória de muita gente um anúncio que passou durante algum tempo na televisão e cujo objectivo era sensibilizar o público para a separação do lixo caseiro. A cena era simples: num ambiente de laboratório, sujeitos de bata branca, quais cientistas, treinavam um macaco nessa tarefa. Rapidamente “o aprendiz” a executava exemplarmente… ao contrário dos humanos. O slogan reforçava o que se deduzia das imagens e do texto.

É certo devemos separar o lixo, mas neste anúncio, ao contrário de se envolverem as pessoas, depreciavam-se, amesquinhavam-se… Justificar-se-á?

Passa, agora, também na televisão, um programa intitulado Desafio Verde cujo objectivo é mais vasto: educar a população para preservar o nosso planeta. Propósito nobre, mas, mais uma vez, a estratégia é lamentável: a jovem apresentadora questiona, com um ar entre o inquisidor e o reprovador, crianças, jovens e adultos (alguns dos quais com idade para serem pais ou avós) sobre as suas criminosas faltas ambientais.

E que faltas são essas? Uma dona de casa que toma banho de imersão "quentinho" e que nos fins-de-semana assa febras em carvão para o almoço de família, e uma outra que usa a máquina de secar roupa mesmo quando está bom tempo, uma criança que deixa a torneira aberta enquanto lava os dentes… A mensagem é simples: “todos somos eco-criminosos".

É certo que devemos poupar água e energia, mas este programa, ao contrário de envolver as pessoas, aponta-lhe as faltas sem qualquer cerimónia, melhor: acusa-as de prática de crimes. Isso mesmo: crimes. Justificar-se-á?

Não... Assim não se vai lá!

Liga...

Tente o leitor resolver o seguinte exercício de um manual de Língua Portuguesa para o 3.º ano de escolaridade:
Trata-se dum tipo de exercício em que as crianças (de oito anos) devem estabelecer a ligação entre um item da primeira coluna e um item da segunda coluna.

Na apresentação deste exercício, em concreto, não consta qualquer indicação de que pode haver três ligações dessa ordem e uma ligação entre os quatro itens da primeira coluna (pinheiros, sobreiros, eucaliptos e castanheiros) e um só item da segunda coluna (madeira).

Assim, as crianças, deduzem, como hoje vi deduzirem, que só o pinheiro dá madeira.

Mas também podiam deduzir que um produto directo do eucalipto era a pasta de papel...

GALILEU PERTO DE JÚPITER


Destaque para a coluna "What's New" do físico Robert Park:

"RELICS: SUPERSTITION HITCHHIKES ON A MISSION TO JUPITER.

I was appalled to read in this week's Nature that the Juno mission to study how Jupiter's powerful magnetic field is generated, will carry a fragment of bone from Galileo’s earthly remains. Do the instigators of this foolishness imagine that relics of scientific martyrs, like bones of saints, will somehow confer protection on the spacecraft in the harrowing Jovian environment? To compound my irritation, the information was in a Nature editorial applauding the plan as, "a gesture that would add emotional energy to the mission and remind the public that science is fundamentally a human endeavor." All too human, it would seem; belief in miraculous cures wrought by fragments of the remains of saints has persisted for 2000 years. The editor’s confusion of metaphor and fact continues to the end. "The Juno mission will skim just 4,800 kilometres above Jupiter. Galileo just might enjoy a closer look." "

Robert Park

Na figura: uma "relíquia científica" - o dedo de Galileu, no Museu da Ciência de Florença.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O gabarola

Destaque para a crónica semanal do médico J.L.Pio de Abreu no "Destak":

O gabarola é uma figura típica da nossa cultura. Treina-se em miúdo, contando que more no primeiro andar ou mais acima.

Se tiver estas condições, o miúdo gabarola não perde a oportunidade de provocar uma rixa à frente da sua porta. Enquanto a guerra é só de garganta, não há problema. O gabarola tem a língua afiada e até pode impressionar. Mas se chegasse a vias de facto, ele não teria hipótese.

Então, quando as coisas aquecem, o nosso gabarola foge para casa e vai para a janela. Aí, defendido dos murros dos outros, alteia o desafio:

«É pá, vem cá acima que eu te digo, faço-te num oito, seu fdp, vê lá se consegues, parto-te os cornos.»

Esbraceja e dá murros no ar, enquanto os outros assistem ao espectáculo. Quem já o conhece ri-se, mas os novatos da refrega podem bater palmas.

E os alvos do seu verbo indignam-se, impotentes.

Quando for grande, o gabarola continuará a provocar rixas e a fugir para a janela. Há janelas de sobra neste mundo do espectáculo.

E como a cena é forte, ele vai ter plateia e comentadores que o promovam. Os ressentidos contra a vida e contra os chefes começam a adulá-lo. E o nosso gabarola treina-se cada vez mais na sua gabarolice.

O tempo está para os gabarolas. Sabem tudo, vencem batalhas virtuais, têm as soluções. Em tempos difíceis tornam-se os heróis da insatisfação. Mas não descem ao terreno, não chegam a vias de facto nem sujam as mãos. O seu mester é só de garganta, o que não quer dizer que não façam mal.

J. L. Pio de Abreu

SEXO E PODER


Minha crónica no "Público" de hoje:

O jornal El País de 24 de Outubro, com base no recente Relatório da Economia Mundial do FMI, divulgou a nossa posição no ranking mundial do crescimento económico (medido em percentagem de aumento do PIB) na década passada. Em 180 nações, o nosso lugar é o antepenúltimo (com 6,5 por cento), só ficando atrás de nós a Itália (2,4 por cento) e o Haiti (-2,4 por cento, o único que decresce). Um artigo intitulado "A década perdida de Itália e Portugal" informava que a dívida pública portuguesa ronda os 80 por cento do PIB ao passo que a de Itália se aproxima dos 130 por cento.

Piores que nós parecem, portanto, estar, a avaliar por esses indicadores, os italianos. Mas estarão preocupados com isso? Bem, o assunto em Itália, por estes dias, não é a economia, mas sim a vida sexual do primeiro-ministro Sílvio Berlusconi. Funciona como uma cortina para tapar a crise. Já tinha havido uma sua relação mal esclarecida com uma menor de Nápoles, que lhe custou o divórcio (a esposa censurou os “pais que oferecem as suas virgens ao imperador”). E já tinha havido uma relação bem esclarecida, esclarecida até demais, com uma prostituta de luxo de Bari, a quem Il Cavaliere não se coibiu de recomendar técnicas sexuais. Mas agora foi anunciado o caso de uma menor de origem marroquina, Karima El Mahroug, refugiada na Sicília, que, tendo rumado ao Norte em busca da fama que só a televisão e a moda podem dar, acabou por entrar na rede que alimentava as casas do chefe de governo de Itália e por participar em festas que a própria designou como bunga-bunga referindo-se a orgias rituais africanas. Pelos escritos dos autores clássicos sabemos que Nero e Calígula terão cometido os seus excessos. Pelos jornais de hoje sabemos que Berlusconi os quer ultrapassar.

O escândalo que enche as bocas do mundo mostra que a mistura de sexo e poder é, em certas proporções, explosiva. Ora vejamos.A marroquina, de nome artístico Ruby, viu-se em apuros financeiros, apesar de ter sido paga com dinheiro e jóias pelas suas visitas à casa de Berlusconi em Milão, e terá roubado uma companheira brasileira. Tudo não passava de um mero caso de polícia, que estava a ser tratado na esquadra, quando um telefonema do próprio primeiro-ministro exigiu a libertação da detida, alegando que ela era sobrinha do presidente egípcio Mubarak. A jovem, apesar de estar em situação ilegal, não tardou em ser libertada, tendo sido entregue a uma pessoa de confiança de Berlusconi. A justiça procura agora averiguar os factos. Instado pela imprensa a esclarecer, o chefe do governo italiano não esteve com papas na língua ao comentar: “É melhor gostar de mulheres bonitas do que ser gay”. E admitiu ter ajudado a garota. Não é preciso saber muito de história para reconhecer que, no que respeita aos costumes, há um recuo relativamente aos antigos imperadores, que tanto gostavam de mulheres como de rapazes bonitos. Mas ressalta a retórica política: Berlusconi já tinha dito que quem não era por ele era contra Itália, agora diz que quem não é por ele é homosexual.

Portugal tem, na economia, óbvias parecenças com Itália. Tem-nas decerto, além da estagnação do PIB e do crescimento da dívida, nas assimetrias regionais (em Portugal a diferença é entre o Litoral e o Interior e não tanto entre o Norte e o Sul, para já não falar do desmesurado centralismo da capital) e na corrupção ao mais alto nível (um deputado do PS revelou que o chefe de gabinete do secretário-geral do partido lhe ofereceu um cargo bem remunerado numa empresa pública a troco da desistência numa eleição partidária!). Mas na mistura de sexo e poder não conseguimos competir. O Presidente do Governo Regional da Madeira, talvez o político nacional mais parecido com Berlusconi, desfila mascarado no Carnaval, mas não faz, que se saiba, festas bunga-bunga. É certo que há escabrosas histórias sexuais no futebol nacional, mas o Presidente do Porto, a quem não faltam semelhanças com o Presidente do Milão (Berlusconi, para quem não saiba), não tem a mesma ambição política. A nossa situação é má, mas podia ser pior...

Na imagem: Ruby Rubacuore (Ruby Roubacorações), alias Karima El Mahroug.

FRACTAIS POR TODO O LADO


Minha crónica saída hoje no jornal "Sol", revista "Tabu" (na imagem, conjunto de Mandelbrot com ampliações sucessivas de pormenores):

Quando este ano chegar ao fim e se fizerem as costumadas listas de obituários aparecerá em todas elas um dos nomes mais brilhantes da ciência contemporânea, o matemático franco-americano (nascido na Polónia, de uma família judaica) Benoît Mandelbrot. Ele foi o criador, a meio dos anos 70, do neologismo fractal, construído a partir da palavra latina fractus, que significa fracturado, partido.

Os objectos fractais são não apenas partidos, mas infinitamente partidos, isto é, partidos em todas as escalas, de modo que se possam caracterizar pela propriedade de invariância de escala: o seu aspecto é semelhante qualquer que seja a escala a que os observemos. A Natureza é abundante em objectos desse tipo: por exemplo, a acidentada costa da Grã-Bretanha, formada por numerosos cabos e baías, é fractal, tal como o é a fronteira terrestre de Portugal, desenhada na sua maior parte pelos cursos sinuosos de rios. Estes dois exemplos aparecem no artigo publicado por Mandelbrot em 1967 na revista Science com o sugestivo título: “Quando mede a costa da Grã-Bretanha?”. A resposta certa é: depende do tamanho da régua uma vez que, quanto mais pequena for a régua, maior será o comprimento da costa.

A palavra fractal entrou com todas as honras na língua portuguesa na capa do livro de Mandelbrot “Objectos Fractais”, saído em 1991 na Gradiva (tradução minha e de José Luís Malaquias Lima). Terminei o prefácio que escrevi com uma paráfrase de Álvaro de Campos: “O Conjunto de Mandelbrot é tão belo como a Vénus de Milo / E há cada vez mais gente a dar por isso”. Referia-me ao conjunto matemático extremamente complexo, apesar de obtido por um processo iterativo muito simples, que aparecia na capa da obra. O seu desenho exige o recurso a um computador, razão por que não pôde ser visualizado satisfatoriamente antes do advento das modernas máquinas de cálculo.

Além dos objectos fractais omnipresentes na Natureza e dos objectos fractais do mundo ideal da matemática, há ainda outros que surgem em resultado da actividade humana: Mandelbrot, no final dos anos 50, interessou-se pela evolução dos preços, cujos gráficos haveria mais tarde de reconhecer como figuras fractais. As suas ideias eram bastante estranhas e tardaram a entranhar-se nas escolas de Economia. Anos volvidos, o seu livro “O (Mau) Comportamento dos Mercados”, escrito em co-autoria com Richard Hudson, saído na Gradiva em 2006 (em boa tradução de Miguel Marques), celebra o casamento dos fractais com a Economia. A tese aí defendida é que o acaso se manifesta nos mercados de uma forma mais irregular do que se pensava. Hoje, com a turbulência dos mercados financeiros, bem pode dizer-se que o “pai dos fractais” morreu após ter assistido ao triunfo das suas ideias.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Teodoro de Almeida (1722-1804)


Nova ficha de um membro português da Royal Society, enviada pela Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a propósito da exposição que vai inaugurar a 15 de Novembro:

Teodoro de Almeida (1722-1804)

Físico e pedagogo. Foi eleito membro da Royal Society em 9 de Março de 1758.

Nasceu em Lisboa e, em 1735, ingressou na Congregação do Oratório. Tornou-se um grande divulgador de temas científicos através de escritos e de conferências sobre Filosofia Experimental. Vítima da perseguição de Pombal às elites jesuítas e oratorianas, em 1768 exilou-se em França, onde continuou a sua acção pedagógica. Regressou a Portugal em 1778, após o afastamento do Marquês e colaborou com o Duque de Lafões e com o abade Correia da Serra na fundação da Academia das Ciências de Lisboa. Foi o autor da Oração de Abertura proferida a 4 de Julho de 1780.

A sua publicação principal Recreação filosófica, ou Dialogo sobre a filosofia natural para instrucção de pessoas curiosas que não frequentarão as aulas (Lisboa, 1753-1800), constituída por dez volumes, é uma notável obra didáctica de carácter enciclopédico. Escrita em estilo dialogante, à maneira da época, nos primeiros seis volumes trata da Filosofia Natural, no sétimo medita sobre a Lógica, e nos últimos três sobre Ética e Moral. Além das Cartas fisico-mathematicas de Theodozio a Eugenio (Lisboa, 1784-1798), obra em três volumes que complementa a Recreação Filosófica, deixou vários outros escritos sobre espiritualidade.

Teve uma única contribuição nas Philosophical Transactions publicada em 1757. Trata-se da observação, em conjunto com o astrónomo Baptista Chevalier, do eclipse da Lua do dia 4 de Fevereiro de 1757, feita na Congregação do Oratório, usando o método de Soares de Barros e um tubo óptico de 2,9 metros.

Bibliografia:

- ALMEIDA, Teodoro de (1722-1804) - Recreação filosófica, ou Dialogo sobre a filosofia natural para instrucção de pessoas curiosas que não frequentarão as aulas. Lisboa : Na Officina de Miguel Rodrigues : Régia Oficina Typographica, 1753-1800. 10 vol. Autor identificado em obra de referência.UCBG S.P.-G-1-25/32

- ALMEIDA, Teodoro de (1722-1804) ; CHEVALIER, João Baptista (1722-1801) - Eclipsis Lunae die 4ª Februarii, ann. 1757… Philosophical Transactions. London. 50 (1757) 376-377. UCBG A-48-2

- ALMEIDA, Teodoro de (1722-1804) - Cartas fisico-mathematicas de Theodozio a Eugenio : para servir de complemento à Recreação Philosofica... Lisboa : offic. de Antonio Rodrigues Galhardo, 1784-1798. 3 vol. UCBG RB-15-18/19

- ALMEIDA, Teodoro de (1722-1804) - O feliz independente do mundo e da fortuna ou Arte de viver contente em quaesquer trabalhos da vida. Lisboa : Na Regia Officina Typografica : Antonio Rodrigues Galhardo, 1786. 3 vol. UCBG 094.5 ALM

O GOVERNO ABANDONA A BIBLIOTECA ON-LINE B-ON?

O governo português quer deixar de pagar a factura da b-on para passarem a ser as instituições universitárias a suportá-la. A concretizar-se essa medida governativa será um dos mais fortes rombos à investigação científica em Portugal.

Circula uma petição on-line: aqui.

Actualização: a UMIC confirmou que deixará de ser, como até agora, responsável pelo pagamento da b-on, passando essa função para a Direcção Geral do Ensino Superior, organismo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior que tutela as depauperadas Universidades portuguesas: aqui.

Apresentação da Ciência dos Nossos Avós

Hoje, em Coimbra, pelas 18h00, é apresentado o livro "Ciência a Brincar - 10" (Bizâncio) que trata a ciência no tempo dos nossos avós. Clicar no cartaz para o ver melhor.

ÚLTIMOS DIAS DE BARTOLOMEU DE GUSMÃO


O fim de Bartolomeu de Gusmão foi, infelizmente, tão trágico como o do seu primeiros primeiro balão, que teve vida breve ao arder em 1709 no Paço Real. A 18 de Novembro de 1724, quase a completar 39 anos, o inventor luso-brasileiro morreu, de doença e inanição, na cidade de Toledo, Espanha, numa apressada fuga da Inquisição, que tinha passado pela travessia a pé da fronteira portuguesa sob nome falso.

Essa perseguição nada teve a ver com as suas invenções (fez outras além da bomba hidráulica, na sua juventude brasileira, e da "Passarola", na sua juventude portuguesa, como, já na meia idade, um dispositivo para drenar água dos barcos, que registou em 1713 na Holanda, durante uma longa viagem que empreendeu pela Europa Central e do Norte). Nem tinha a ver com uma eventual paixão por uma amante real tal como já foi com fértil imaginação aventado (de facto, D. João V, além de ter sido chamado O Magnânimo, ficou também conhecido por O Freirático por ter mantido relações com várias freiras, entre as quais a Madre Paula, do Mosteiro de Odivelas, a quem terá oferecido uma banheira de ouro).

Sabemos hoje por documentos guardados em arquivos de Madrid – designadamente o testemunho dado à Inquisição por Frei João Álvares de Santa Maria, o irmão mais novo de Gusmão que o acompanhou na fuga - que pendia uma acusação de prática de judaísmo, um libelo assaz perigoso numa época em que o rei se comprazia em assistir a autos-de-fé. Essa suspeita era aliás justificada, pois tudo indica que Gusmão, na fase final da sua vida, terá abandonado a religião católica em que tinha sido educado para aderir ao judaísmo. Note-se que, apesar de ter estudado num Colégio dos Jesuítas no Brasil, o "Padre Voador" nunca concluiu os estudos necessários para ingressar na Companhia de Jesus, pelo que não pode ser considerado um padre jesuíta, mas antes um padre secular. Pelo depoimento do irmão carmelita se depreende que as ideias utópicas do Quinto Império português lhe assaltavam a mente nos dias finais da sua vida...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

BALAS DE PAPEL SOBRE OS POLÍTICOS


O nosso leitor João Boaventura, sempre atento às pérolas da imprensa antiga que se encontram na Net, mandou-nos este excerto do nº 3 do periódico "Balas... de Papel", da autoria de Gualdino Gomes e Carlos Sertório, de Janeiro de 1892, que descreve o modo como eram vistos os políticos no tempo da monarquia constitucional. O subtítulo da publicação satírica é uma citação de Camilo Castelo Branco: "…palavras contra a péssima ordem das coisas sublunares". A grafia foi actualizada.
"Íamos na plataforma de um americano do Rossio pela Pampulha, no dia 16 de Janeiro do corrente ano, quando ouvimos um delicioso diálogo travado na rampa de Santos entre um deputado engenheiro – e engenhoso -, muito dado aos apartes na câmara dos seus congéneres, e um conselheiro de barba rala e negro como um tição, diálogo que valia muitas libras e uma rica lata de marmelo.

O conselheiro de barba rala, ingenuamente, dizia:

- Mas por que não fazem um ministro de gente séria ?

- O que chama vossa excelência gente séria? – perguntava o outro, como um selvagem perguntaria a Pedro Álvares Cabral o que era um casamento eclesiástico.

- Digo – volvia o conselheiro de barba rala -, por que se não chama para ministro da guerra um general impoluto, para a justiça um juiz honradíssimo, para a marinha um vice-almirante enérgico?

- Isso era a maior de todas as desgraças, meu caro conselheiro! Homens que tomem pastas a seu cargo não devem ser apenas técnicos, e nunca devem ser intransigentes! A trica política é necessária; e os ministros precisam de saber e poder harmonizar as leis com os homens e os homens com as leis!

Ora aqui os têm como eles são! Sabem os leitores o que é harmonizar as leis com os homens e os homens com as leis? É fazer essas poucas vergonhas de todos os dias, é deixar roubar, quando o ladrão consiga operar com esperteza.

O marquês de Valada viu bem, mas tarde. Em crise de ladrões andamos nós há muito, e continuaremos provavelmente a estar, e as palavras do engenheiro deputado, de beiço grosso e olho piteireiro, dão a medida da consciência dos políticos, como devem ser, e mostram que os políticos fazem como os salteadores dos montados: quem se alistar há de provar que já fez uma morte!"
In Balas… de papel, n.º 3, 20 de Janeiro 1892

Na figura: um americano (carro de tracção animal).

Rememos contra a maré

Novo texto de João Boavida, antes publicado no diário As Beiras.

Por acaso coincidiram, em poucos dias, em jornais de Coimbra ou da Academia, vários trabalhos onde o denominador comum é a praxe, as festas académicas e aquilo em que estão a cair. Afinal já muita gente começou a verificar que as coisas não estão bem. O problema não é só de Coimbra, mas esta academia tem especiais responsabilidades, não só porque foi ela que começou mas também porque encarna, no imaginário nacional, a própria ideia de universidade e de estudante, e isso pesa muito. A tradição – que nem sempre se recomendou - não pode, apesar disso, estar nas mãos de uns tantos que, acabados de chegar e já de partida, imberbes facial e intelectualmente, vêm aqui fazer o seu desmame mediante comportamentos inaceitáveis sob a capa protetora da impunidade praxística.

O problema não se resolve proibindo as ditas cenas – o que terá de acontecer se as coisas continuarem a descer deste modo. Mas não será a melhor maneira, porque não faltariam saudosistas a ficar cegos, mesmo face aos mais condenáveis praxismos, e logo viriam os demagogos do costume a gritar contra a repressão – assim farão até a anti-repressão se transformar em repressão. Além disso, os políticos de terceira não deixariam de meter o bedelho para aproveitar.

Ouvindo, na Sé Nova, há dias, excertos do Messias, de Haendel, pela Orquestra Clássica do Centro (na imagem) e pelo Orfeão Académico de Coimbra, não pude deixar de pensar nas distâncias que podem separar manifestações de uma mesma cultura - neste caso a chamada cultura coimbrã - e no muito que ela pode fazer para puxar pelo nível geral da academia, e nem sempre faz. Com efeito, a receção ao caloiro podia ser uma excelente ocasião para a Universidade de Coimbra e a cidade mostrarem a sua excelência, ou, pelo menos, os muitos furos que estão acima da média portuguesa e fazer disso factor educativo e distintivo. Muitos estudantes, talvez a maioria, entram e saem com grande desconhecimento de tudo o que diz respeito à Universidade e à cidade. Têm uma ideia elementar da sua história, do seu património monumental e simbólico, passam de raspão pelas múltiplas actividades da Associação Académica e muitas vezes, em termos culturais, saem tão pobres como lá entraram. Por outro lado, para os acabados de chegar, sabendo do estado de indigência cultural de muitos, era uma boa oportunidade para criar formas de receção que os despertassem culturalmente. Mediante concertos, visitas guiadas aos monumentos, conferências, representações teatrais, em sala ou ao ar livre, festas variadas, enfim, modalidades múltiplas - já inventadas e a inventar - de contato com a Universidade e a cidade e na base dos seus melhores trunfos. Seria uma boa oportunidade de os iniciar na vida académica e no espírito universitário que, apesar dos setecentos e tal anos que tem dentro de si, está ainda em formação.

Perante a beleza da interpretação conjunta da Orquestra Clássica do Centro (com nove anos de vida) e do Orfeão Académico de Coimbra (com cento e trinta) percebemos como Coimbra e a Universidade se vão conservando e renovando, apesar de tudo. Depois, considerando, neste quadro inspirador, as actuais formas de receção aos caloiros, percebemos que algo deverá ser feito.
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A Associação Académica precisa de abandonar os discursos gastos e as campanhas débeis e sem chama, e perceber que lhe compete ver mais largo e mais alto. Tem pela frente um trabalho muito mais estimulante, rico, valioso e útil: organizar e promover formas de inserção e receção aos caloiros que os valorizem e os tornem exigentes para o resto da vida, porque exemplos de degradação temos até demais. A partir daqui ela própria se revalorizará. É de uma revolução cultural que se trata. Só a Associação Académica de Coimbra, pela sua idade, nome e pergaminhos, está à altura de a iniciar.

POST NÚMERO 5000

Este é o post número 5000 do blogue De Rerum Natura, que tem três anos e picos. Começa a ser um bom arquivo e recomendamos ao leitor a caixa de pesquisa para ler posts antigos que, na sua maioria, não perderam a actualidade. Não vamos ficar por aqui.

DECO: acercas das ecobolas

"Lavar só com água é tão eficaz como lavar com as ecobolas, produto novo que promete muito, mas cumpre pouco."

AINDA as ecobolas: esclarecimento da Quercus

Para maior visibilidade, reproduzimos aqui o esclarecimento prestado por Francisco Ferreira acerca da posição da Quercus em relação às ecobolas:

Aqui segue um esclarecimento que a Quercus tem vindo a transmitr a muitas das pessoas que nos têm contactado:

A “Ecobola” é disponibilizada no mercado português através de várias marcas, nomeadamente:

Nestes links podem ser consultados os preços, que regra geral situam-se à volta dos 30 Euros. Na ausência dessa informação, deverá contactar directamente a marca.

Em Portugal, estas marcas podem ser encontradas em alguns revendedores, como o AKI, o supermercado BRIO ou a loja online PIXMANIA, sendo que em alguns o preço pode ser mais reduzido (mas julgamos que nunca tão baixo como referiu).

Na sequência do feedback positivo por parte de alguns utilizadores e da possibilidade de ser uma alternativa à utilização de detergente em algumas lavagens, a Quercus realizou um Minuto Verde (RTP1) sobre a Ecobola, no sentido, não de a promover, mas de a dar a conhecer aos consumidores como possível solução. Temos também conhecimento da referência à Ecobola no programa Desafio Verde, do qual somos parceiros, embora não tenhamos estado ligados a essa recomendação específica.

A Quercus recomenda vivamente a consulta de informação/estudos realizados recentemente por parte de algumas entidades como a DECO em Portugal e a sua equivalente espanhola OCU (Organización de Consumidores y Usuarios), que consideram a “tecnologia” por detrás da Ecobola não tão eficaz como consta nas embalagens.


Francisco Ferreira

Dez grandes estadistas atenienses

O livro Dez grandes estadistas atenienses, recentemente publicado pelas Edições 70, da autoria de José Ribeiro Ferreira e Delfim Leão resulta da confluência de investigação desenvolvida, ao longo de quase duas décadas, sobre matérias relacionadas com a história da Grécia antiga.

O volume cobre, sobretudo, o período compreendido entre a segunda metade do século VII e o último quartel do século V a.C., facultando uma abordagem diacrónica da evolução político-constitucional de Atenas, através da análise da obra de dez grandes estadistas. Além da discussão crítica da bibliografia específica mais significativa, a análise privilegia o uso das fontes antigas como principal fio condutor da exposição, pois é dessas mesmas fontes literárias (frequentemente conjugadas com os dados fornecidos pela arqueologia, epigrafia enumismática) que resulta o conhecimento em primeira mão do que hoje se sabe sobre a antiguidade clássica. Ao elaborar esta análise de dois séculos e meio da história político-constitucional de Atenas, os autores guiaram-se pelo objectivo deencontrar o equilíbrio entre uma forma de exposição que possa ser simultaneamente útil a especialistas em antiguidade clássica, a estudantesde nível avançado e ainda ao público em geral.

O MISTÉRIO DAS LIVRARIAS PORTUGUESAS


Motivado por ter visto o filme "Mistérios de Lisboa" andei por várias livrarias (incluindo as maiores: FNACs, Bertrands, Almedinas, etc.) à procura do livro homónimo de Camilo Castelo Branco. Havia nalgumas a edição recente da Relógio d'Água, com prefácio do realizador Raúl Ruiz e a actriz Maria João Bastos na capa. Mas, tirando o caso do "Amor de Perdição" (livro ontem abordado na Biblioteca Joanina), não há - repito, não há - praticamente obras de Camilo à venda... Há uma falta grave na edição corrente dos grandes autores da língua portuguesa. Ou então nas livrarias, que só têm "bestas céleres" (como dizia o Alexandre O'Neill). Valem-nos as bibliotecas...

O LATIM NAS ESCOLAS PORTUGUESAS

A propósito do post recente sobre o Latim nas escolas alemãs:

Um dos alunos de uma turma do 9.o ano que visitou recentemente o núcleo da exposição "Ver a República" na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra perguntou - e parecia ser uma dúvida genuína - se o Latim era um país...

Prefácio do tradutor de "Objectos Fractais"


Dado o recente falecimento de Benoît Mandelbrot, autor do livro "Objectos Fractais" (Gradiva, 1991), recupero o meu prefácio dessa obra, já com duas edições em português:

Quando, em Junho de 1990, o matemático francês Benoît Mandelbrot esteve em Lisboa para presidir à "Fractal 90", uma reunião científica sobre os objectos que lhe devem a paternidade - os objectos fractais -, manifestou o desejo de ver publicada em português a 3.ª edição, datada de 1989, do seu livro francês Les Objects Fractals. A Gradiva acolheu logo com grande entusiasmo a ideia de editar o livro que agora sai do prelo.

Esta edição portuguesa inclui, tal como a do original francês que lhe serviu de base, um Panorama Geral da Linguagem Fractal, que é um texto de síntese e de comentário sobre o lugar e e o significado dos fractais no quadro das ciências contemporâneas. Porém, e por especial deferência do autor, o presente texto do Panorama aparece bastante modificado e acrescentado. A bibliografia foi actualizada com referência a alguns trabalhos que, num fluxo crescente, têm vindo a ser publicados nos últimos anos. A fim de ajudar leigos que eventualmente queiram saber mais, incluem-se listas separadas de de livros recentes de divulgação, que de algum modo colocam a ênfase nos fractais, assim como de livros sobre computadores e gráficos, que discutem o caos e os fractais e, finalmente, livros para os mais novos. O primeiro e hoje já um texto histórico, Objectos Fractais, foi expurgado (pelo menos assim se crê...) de pequenas gralhas presentes no original. Os tradutores pretendem agradecer ao autor o interesse com que acompanhou esta edição e a amabilidade com que sempre respondeu às dúvidas que um trabalhoi de tradução naturalmente suscita.

A palavra "fractal" é um neologismo introduzido por B. Mandelbrot que entretanto já entrou nas mais diversas línguas. Surge, com este livro e de forma oficial, na língua portuguesa. Embora, na comunidade científica nacional, o número de utentes da geometria fractal seja ainda escasso, o número de pessoas, estudantes, cientistas ou simples leigos que a descobrem e por ela se entusiasmam cresce dia a dia. O pintor Lima de Freitas, por exemplo, encontra nessa geometria a inspiração para algumas das suas últimas obras, julgando ver na arte manuelina reminiscências da "fractalidade" (outro neologismo!).

Mandelbrot oferece-nos, com os fractais, uma maneira nova não só de usar a matemática, como de ver e conhecer o mundo, natural ou artificial. Mostra-nos como esse instrumento moderno que é o computador abre fronteiras que são exploradas com esse velho aparelho que é o olho humano. Nos tempos manuelinos, a abertura de novas fronteiras não se fez sem "velhos do Restelo". Ainda hoje os há, nomeadamente entre os (poucos) matemáticos que tinham de todo abdicado da visualização como elemento de descoberta. O físicos, químicos, biólogos e geólogos, dispostos a aprender a forma das nuvens, doa agregados coloidais, dos fetos arbóreos ou das falhas tectónicas, incluíram rapidamente a geometria fractal na sua caixa de ferramentas. Os leigos, por sua vez, dificilmente deixarão de ser percorridos por sentimentos estéticos quando contemplam objectos artificiais que mais parecem naturais ou vice-versa. Com os fractais, ganham, uns, intuições inéditas, outros, descrições diferentes e, outros ainda, emoções particulares.

Com todos estes ganhos, é certamente bem-vinda a edição portuguesa dois "Objectos Fractais". Parafraseando Fernando Pessoa / Álvaro de Campos:

"O conjunto de Mandelbrot é tão belo como a Vénus de Milo.
E há cada vez mais gente a dar por isso"´. "

Nova Orleães, Julho de 1991

Carlos Fiolhais

João Baptista Chevalier (1722-1801)


Nova ficha biográfica sobre um membro português da Royal Society de Londres recebido da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que prepara uma exposição sobre essa e outros membros dessa associação, a abrir a 15 de Novembro:

João Baptista Chevalier (1722-1801)

Astrónomo. Foi eleito membro da Royal Society em 23 de Maio de 1754.

Padre da Congregação do Oratório de S. Filipe de Nery, nasceu em Lisboa, filho de um francês radicado em Portugal e sobrinho, por parte da mãe, do filósofo e escritor português Luís António Verney (1713-1792), que foi “estrangeirado” em Itália. Dedicou-se ao estudo da Física e da Astronomia mas, como outros oratorianos, também ele foi vítima da política anti-clerical pombalina, vendo-se forçado a deixar o país, em 1761. Depois de uma permanência de dois anos em Paris, estabeleceu-se em Bruxelas, onde foi eleito membro da Academia Imperial e Real das Ciências e Belas Letras e foi bibliotecário da Biblioteca Real de Bruxelas. Chegou a presidir a essa Academia. Nos últimos anos da sua vida esteve em Praga e Viena.

Entre 1752 e 1760 desenvolveu em Portugal uma intensa actividade científica no domínio da Astronomia. Efectuou notáveis observações astronómicas no Observatório da Casa das Necessidades e tornou-se correspondente do astrónomo francês Delisle (1688-1768). Este astrónomo fomentava as relações científicas internacionais, promovendo observações astronómicas simultâneas em várias partes do mundo, particularmente dos eclipses da Lua e dos satélites de Júpiter, para determinar as longitudes dos lugares. Na correspondência que enviava para Delisle, Chevalier incluiu também observações realizadas por jesuítas no Colégio de Santo Antão. Pelos seus valiosos contributos, foi admitido como sócio correspondente na Academia das Ciências de Paris.

Colaborou cientificamente com a Royal Society. Nove das suas observações, uma das quais realizadas em colaboração com Teodoro de Almeida, foram publicadas nas Philosophical Transactions, entre 1754 e 1758.

Artigos publicados nas Philosophical Transactions da Royal Society:

- Observationes Eclipsium Satellitum Jovis habitae Ulissipone in Regali Collegio Beatissimae Virginis à necessitatibus… anno 1753. Philosophical Transactions. London. 48 (1754) 546.
- Observatio Solis defectus Ulissipone habita, in Aede Beatissimae Virginis à necessitatibus… die 26ª Octobris 1753, idem, 546-548.
- An account of some astronomical observations taken at Lisbon... in the year 1753, idem, 548-550.
- Observationes Eclipsium Satellitum Jovis habitae Ulissipone in Regio Collegio Beatissimae Virginis à Necessitatibus... anno 1754. idem, 49 (1755) 48.
- Observatio Eclipsis Lunae die 27 Martii, ann. 1755. habita Ulissipone in Domo Patrum Congregationis Oratorii... idem, 50 (1757) 374-375.
- Eclipsis Lunae die 4ª Februarii, ann. 1757 habita Ulissipone... idem, 376-377.
- Observationes Eclipsum Satellitum Jovis Ulissipone habitae… idem, 377.
- Observationes Eclipisum Satellitum Jovis Ulissipone habitae… anno 1757, idem, 378.
- Observatio Eclipsis Lunae Die 30 Julii 1757. habita Olissipone... idem, 50 : 2 (1758) 769-771.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

RESUMO DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA PORTUGUESA


Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra (na imagem, o matemático e astrónomo Clavius, um dos cientistas mais eminentes que esteve em Portugal):

Lançamento de livro na quarta-feira, 3 de Novembro, às 18h00, em Coimbra

Chama-se Breve História da Ciência em Portugal e é a mais recente obra da autoria de Carlos Fiolhais, Professor Catedrático no Departamento de Física da Universidade de Coimbra (UC) e director da Biblioteca Geral da UC, e de Décio Martins, Professor de Física do mesmo departamento e responsável pelas colecções de Física do Museu de Ciência. O livro é uma co-edição da Imprensa da UC e da Gradiva Publicações e tem apresentação marcada para o dia 3 de Novembro, às 18h00, no Gabinete de Física do Museu da Ciência da UC.

“Investigar a história da ciência é a única forma de trazer à luz aspectos da História de Portugal que expliquem melhor quem somos e para onde devemos ir
”. É com essas palavras que Carlos Fiolhais e Décio Martins justificam a publicação de Breve História da Ciência em Portugal.

Os autores explicam que a obra permite ao leitor “fazer uma viagem no tempo, conhecendo episódios que marcaram a actividade científica nacional desde a época dos Descobrimentos Portugueses até aos dias de hoje”. Acrescentam ainda que o livro “destina-se a todo o público interessado na história da ciência em Portugal, um tema que ainda não tinha sido divulgado no nosso país de forma resumida e acessível ao público não especializado”.

Em Breve História da Ciência em Portugal, o leitor pode encontrar, entre outras, a história de Cristophorus Clavius, um dos mais notáveis matemáticos e astrónomos do final do século XVI e início do século XVII. “Cristophorus Clavius foi um jesuíta que estudou em Coimbra e um dos principais autores do Calendário Gregoriano, o calendário utilizado nos países ocidentais. Depois de concluir os seus estudos em Coimbra, foi para Roma, tornando-se amigo de Galileu”, explicam os físicos.

A apresentação desta Breve História da Ciência estará a cargo de Fernando Catroga, Professor Catedrático da Faculdade de Letras da UC. A sessão incluirá uma visita guiada às colecções expostas no Gabinete de Física da UC, orientada pelos autores do livro. A entrada é livre.

Poema do alegre desespero


Na sequência do texto anterior, reproduzo o Poema do alegre desespero, de António Gedeão, publicado em 1967 no livro Linhas de Força (Coimbra: Atlântida).

Sendo Rómulo de Carvalho professor, percebia claramente que o conhecimento tem valor, e estava consciente de que a função de quem ensina é transmiti-lo, fazendo-o renascer, fazendo-o servir... para que a herança da Humanidade possa ser preservada, revista, acrescentada.

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de um certo Fernão Barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludos
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerxes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

"Lembrem-se de nós."

Heródoto põe as breves palavras que servem de título ao presente texto na boca de Leónidas para traduzir a última vontade deste rei de Esparta quando percebeu que o seu dever para com a Grécia, como soberano e soldado, o conduziria inevitavelmente à morte, o mesmo acontecendo com os trezentos guerreiros que comandava, na batalha em que enfrentava o poderoso exército de Xerxes, rei da Pérsia.

Passados cerca de vinte e seis séculos, a última vontade de Leónidas permanece no pensamento de muitos como um lema de coragem, é certo; mas, mais subtilmente, também ecoa como um pedido simples, quase inocente…

Um pedido que, por ser tão facilmente concretizável, não pode deixar de ser desproporcionado ao que Leónidas conseguiu no misterioso desfiladeiro das Termópilas: a possibilidade de a cultura ocidental se manter e evoluir. Devemos estar bem conscientes de que se a sua decisão e técnica fossem outras, toda a ciência e arte que emerge do modo de pensar grego e, afinal, o determina seria diferente. “Lembrem-se de nós”, foi tudo o que o herói (nos) pediu.

Isto a propósito da extrema necessidade e urgência de os sistemas educativos europeus, até por um imperativo ético, voltarem a integrar, valorizando, a História, a Literatura, a Matemática, a Filosofia fundacionais.

GRANDES ERROS: Ecobolas

Deparei-me com esta reportagem, em que uma apresentadora identificada como pertencendo à Quercus promove as vantagens das ecobolas, classificadas como uma novidade científica que permite lavar a roupa (e a loiça, segundo o site) sem detergente.



Neste video é alegado, entre outras coisas, que as ecobolas "separam o oxigénio e o hidrogénio da água": a hidrólise da água na máquina de lavar!

No site das bolas verdes há todo um chorrilho de disparates, como que "cerâmicas Alcalinas mantêm o pH próximo de 10". Portanto, de alguma maneira reduzem a concentração de iões hidrónio (H3o+) muito abaixo do nível de auto-dissociação da água, e fazem-no nada menos do que 1000 vezes (lavagens). Basta pensar no volume da água de 1000 lavagens (por mais ecológico que seja o programa) e na quantidade de base que teria que se adicionar para que o pH subisse para 10 (e o pH é uma escala logarítmica, ou seja cada alteração de uma unidade implica uma mudança de um factor de 10 na concentração) para perceber que essas ecobolas devem ser armas de destruição maciça.

O que mais me preocupa é o facto de a Quercus (sem dúvida uma associação bastante meritória) ficar associada a isto. Parabéns às ecobolas, conseguiram uma validação de peso!! A defesa do ambiente é necessária, mas as mensagens ambientais devem ter precisão e racionalidade, sob pena de caírem no descrédito.

Só mais uma coisa: experimente pegar num prato não muito sujo (e que não esteja no purgatório há três dias) e passá-lo por água sem detergente. É espantoso o que a água consegue fazer, mesmo sem as cerâmicas kung fu.

Uma mentalidade fora da realidade

Texto de João Boavida na sequência de outro antes publicado no De Rerum Natura: A universidade nas mãos dos putos.

Certas formas de recepção aos caloiros fazem estragos logo à entrada. Essas formas denotam uma tradição que se compraz em desacreditar o estudo, os professores e o trabalho, desviando para outras lides mesmo os alunos que vinham com bons hábitos do Secundário. É uma mentalidade fora da realidade, que já passou o prazo de validade mas, como os seus promotores o não percebem, continua a sua acção corrosiva.

É óbvio que a Europa está em crise, ou pior, em decadência – vejam-se as greves em França e os motivos por que se fizeram – mas a esta decadência vem juntar-se a desgraçada mistura portuguesa de incultura e da alegre valorização dela.

O que pode esperar um país que partiu tão tarde para a formação da população, com o resto da Europa muito à frente, e que mantém, nas suas tradições académicas, formas de iniciação que desvalorizam o estudo e o trabalho, mais: que as festas contínuas transformam em transtorno?

São hábitos que vêm do tempo em que os universitários eram uma minoria, e a preparação académica, mesmo quando medíocre, dava para as necessidades de um país atrasado, pouco exigente e sem concorrência externa. Hoje, porém, tudo está a mudar.

Com a globalização de economias, conhecimentos, trabalhadores e especialistas, mais a emergência de populações que lutam também por uma vida decente, o formigueiro dos que estudam e trabalham a sério procurando promover-se é imenso por todo o lado.

Ou seja, a preparação dos portugueses é cada vez mais necessária, não só para fazer progredir o país, mas também para garantir profissionais competentes, que se aguentem perante os problemas e a concorrência dos estrangeiros.

Pois bem, as nossas associações académicas ainda não perceberam isso e têm sobre os processos de integração, alienante, dos caloiros, um olhar complacente que não ajuda em nada. É tempo de receber os novos alunos doutra maneira.
João Boavida

Uma nota

Nota ao texto de Maria José Prata, recentemente publicado no De Rerum Natura.

Enquanto uns países, percebendo que certos princípios educativos, apesar de atractivos, conduzem necessária e rapidamente à deterioração das aprendizagens fundamentais; outros países, não obstante todas as evidências no mesmo sentido, insistem nesses princípios.

Enquanto uns países reconsideram as suas políticas e medidas educativas, filtrando aquelas que a história e a investigação em pedagogia indicam como seguras na aquisição de conhecimento e no desenvolvimento da cognição; outros países insistem em políticas e medidas educativas que se desviam desse propósito.

Vejo Portugal cada vez mais alicerçado neste segundo grupo.

A questão que ponho, e que vejo (ainda) muita gente pôr, é a seguinte: se alguma mudança o futuro próximo trouxesse quanto ao rumo da educação, chegaria a tempo de inverter a situação a que chegámos?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

José Francisco Correia da Serra (1751-1823)


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra relativa à exposição "Membros portugueses da Royal Society" a inaugurar a 15 de Novembro na Biblioteca Joanina:

José Francisco Correia da Serra (1751-1823)

Naturalista e diplomata. Foi eleito membro da Royal Society em 3 de Março de 1796.

Figura de relevo do Iluminismo português, nasceu em Serpa e estudou em Roma onde se tornou presbítero. De volta ao país, fundou, com o Duque de Lafões, a Academia Real das Ciências de Lisboa e desempenhou o cargo de Secretário da instituição nos seus primeiros anos de actividade, prestando um notável contributo para o desenvolvimento e promoção da investigação científica. Com regressos intermitentes a Portugal, entre 1786 e 1821 esteve emigrado em França, Inglaterra e Estados Unidos, onde contactou com alguns dos mais famosos cientistas da sua época, como por exemplo o geógrafo e naturalista alemão von Humboldt (1769-1859), o botânico suíço Candolle (1778-1841) ou o médico e botânico francês Jussieu (1748-1836). Manteve sempre ligações com o seu país natal, correspondendo-se, entre outros, com Avelar Brotero (1744-1828). Nos Estados Unidos da América desempenhou funções diplomáticas em Washington, conviveu com o presidente Thomas Jefferson (1743-1826), de quem se tornou amigo, e cursou na American Philosophical Society em Filadélfia. Embora estivesse também interessado em Zoologia e Geologia, a sua área de investigação mais fecunda foi a Botânica. Membro de várias academias e sociedades científicas, publicou nas mais prestigiadas publicações europeias e americanas do seu tempo, em especial sobre a classificação sistemática das espécies vegetais, em que introduziu o conceito de simetria, e desenvolveu estudos em Carpologia, um dos ramos da botânica então criados.

Em 1796 e 1799 contribuiu nas Philosóphical Transactions com duas comunicações, uma sobre os órgãos reprodutores das algas a outra sobre vegetação submarina na Costa Este da Inglaterra, concluindo assim a colaboração dos portugueses do século XVIII nessa publicação da RSL.

Principais trabalhos publicados:

- On the Fructification of the submersed algae. Philosophical Transactions. London. 86 (1796) 494-505.
- On two genera of plants belonging to the natural family of the Aurantia. Transactions of the Linnean Society of London. 5 (1799) 218-226.
- On a submarine Forest, on the East Coast of England. Philosophical Transactions. London. 89 (1799) 145-156.
- On the Doryanthes, a new Genus of Plants from New Holland next akin to the Agave. Transactions of the Linnean Society of London. 6 (1800) p. 211-213.
- De l’état des sciences et des lettres parmi les Portugais pendant la seconde moitié du siècle dernier. Archives Littéraires de l’Europe. Paris. 1 (1804) 63-77, 269-290.
- Observations sur la Famille des Oranges et sur les Limites qui la Circonscrivent.. Annales du Muséum d´Histoire Naturelle. Paris. 6 (1805) 376-387.
- Observations Carpologiques. Annales du Muséum d´Histoire Naturelle. Paris. 8 (1806) 59-68.
e Suite des Observations Carpologiques, id., 389-400.
- Vues Carpologiques. Annales du Muséum d´Histoire Naturelle. Paris. 9 (1807) 283-293, e Suite des Observations Carpologiques, id., 283-288.
- Vues Carpologiques, Article II. Annales du Muséum d´Histoire Naturelle. Paris. 10 (1807) 151-156 e Suite des Observations Carpologiques, id., 157-162.
- Sur la germination du Nélumbo. Annales du Muséum d´Histoire Naturelle. Paris. 14 (1809) 74-81.
- Sur la valeur du Périsperme considéré comme caractère d’affinité des plantes. Annales du Muséum d´Histoire Naturelle. Paris. 118 (1811).
- General consideration upon the past and future state of Europe. American Review of History and Politics. Philadelphia. 4 (1812) 354-366.
- Reduction of all genera of plants contained in the Catalogus plantarum Americae Septentrionalis, of the late Dr. Muhlenberg, to the natural families of Mr. Jussieu´s system : for the use of the gentlemen who attended the course of elementary and philosophical botany in Philadelphia in 1815. Philadelphia : [American Philosophical Society?], 1815.
- Observations and Conjectures on the Formation and Nature of the Soil of Kentuky. Philosophical Transactions of the American Philosophical Society. Philadelphia. 1 (1818) 174-180.

MISTÉRIOS DE LISBOA



Já está em exibição nas salas portuguesas o filme de Raúl Ruiz baseado na obra homónima de Camilo Castelo Branco.

DIAS FÉRTEIS


Nova crónica do bioquímico António Piedade, saída no "Diário de Coimbra":

Sabe qual é, durante o ciclo menstrual, o período fértil? Isto é, os dias em que a probabilidade de ocorrer fertilização de um oócito por um espermatozóide e eventualmente engravidar, é maior?

Se não sabe e é mulher, então pertence ao de grupo de 59% de mulheres portuguesas, com idade compreendida entre os 20 e 44 anos, residentes em Portugal continental que também o não sabe. É impressionante o desconhecimento que a maior parte da população feminina portuguesa em idade fértil tem sobre o que acontece, mais ou menos mensalmente, no seu corpo e que pode alterar maternamente a sua vida!

Um inquérito pessoal, realizado entre 3 e 13 de Setembro deste ano, a 502 mulheres com idades compreendidas entre os 20 e os 44 anos, distribuídas proporcionalmente por sete regiões de Portugal continental, elaborado pela empresa GFK Metris, revelou que cerca de 60% da população feminina portuguesa não sabe quais os dias em que pode engravidar durante o ciclo menstrual.

Falta de educação sexual? Não tiveram Biologia no 12º Ano de escolaridade? Não sabem contar? Não há tempo, interesse para perceber o que acontece com o corpo? Falta de apoio e informação acessível pelos programas de Planeamento Familiar? Quebra de continuidade na transmissão familiar de conhecimentos sobre a menarca, reprodução e menopausa? A cultura da pílula, medicamento muito útil em muitos casos específicos mas que muita gente não sabe sequer utilizar apropriadamente, não pode ser desculpa para não saber. E o estudo, não tendo este objectivo, não responde a estas e outras questões possíveis. Contudo, os resultados revelam que 70% das inquiridas ficariam preocupadas se não conseguissem engravidar num espaço de três meses!

Este estudo sobre “Gravidez e Planeamento em Portugal” foi realizado por aquela empresa de estudos de mercados a pedido da empresa Clearblue, que comercializa equipamentos de diagnóstico de gravidez e fertilidade, e apresentado no passado dia 19 de Outubro na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.

Os resultados apresentados indicam ainda que só 19% das mulheres inquiridas sabem quando é que está a ocorrer a ovulação num dos seus dois ovários, enquanto que 39% declararam que não sabem de todo identificar este momento, no qual um folículo maduro "expulsa" um oócito II (célula que dará origem ao embrião, se fecundada por um espermatozóide) para o espaço compreendido entre o ovário e vizinha a trompa de falópio.

Outro dado espantoso obtido por este estudo, indica que 69% das mulheres consultadas não se recorda qual o dia exacto em que tiveram o último período! Falta de memória ou uma desatenção ao que se passa com o seu corpo em relação aos ciclos hormonais próprios? Indiferença pela regularidade?

Antes de finalizar, e a propósito, recorde-se o que os dias mais férteis para engravidar, ou seja para a cópula com propósito reprodutivo, durante um ciclo menstrual, são os dois que antecedem o dia da ovulação e este próprio, o qual ocorre em média entre o 13º e o 15º dias do ciclo a contar do dia do início da última menstruação (período conhecido por ciclo ovárico), podendo estes valores variar entre mulheres de forma normal.

Acrescente-se que o oócito II, uma vez fora do ovário, consegue manter-se viável e fecundável entre 12 a 24 horas após a ovulação. No que diz respeito aos espermatozóides, estes sobrevivem entre 24 a 48 horas no ambiente uterino e das trompas de Falópio. Após a ejaculação na vagina, os espermatozóides “sobem” até ao colo do útero, transpõem o canal cervical, entram no útero e percorrem a parede uterina até alcançarem a trompa de Falópio, local onde ocorrerá a fertilização. Esta “viagem” pode ter a duração de uma hora. Feitas as contas, só os espermatozóides que estejam nas trompas até 48 horas antes da ovulação é que terão a oportunidade de lutar pela fecundação. E o oócito II ovulado terá até um dia de vida de esperança de vir a ser fecundado por um espermatozóide que por ali ainda esteja paciente e viável.

António Piedade

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