terça-feira, 15 de julho de 2008

Do Caos à Ordem dos Professores

Novo post convidado de Rui Baptista, o nosso colaborador habitual para as questões do ensino:

“As ideias, em Portugal, são meros instrumentos
de paixões sectárias” (António Sérgio)

A necessidade da criação de uma Ordem dos Professores era, até há pouco, apenas sussurrada entre uns tantos elementos da classe docente. Nos dias de hoje, em que os professores passaram a ter audição na Internet avolumam-se os comentários favoráveis à respectiva criação.

A própria Fenprof não pode deixar de se debruçar, ainda que um tanto pela rama e penso que forçada pelas circunstâncias, sobre esta tema: “A questão da criação de uma ordem dos professores surge ciclicamente, normalmente quando a profissão e os professores atravessam momentos cruciais e de dificuldades acrescidas. Historicamente assistiu-se à criação do movimento Pró-Ordem, hoje reduzido a um pequeno sindicato e, mais recentemente, a Associação Nacional dos Professores (ANP), também de reduzida dimensões, retomou essa ideia” (20.Junho.2008).

A história deve ser feita de factos e não de omissões. Ao contrário do que faz a Fenprof, justifica-se que sejam destacadas todas as acções desenvolvidas na criação de uma Ordem dos Professores. Em particular, carece de ser devidamente registada a saga do Sindicado Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) no propósito da criação da Ordem dos Professores de que me tornei o rosto vísivel, através de dezenas de artigos de opinião em jornais e publicados posteriormente sob a forma de livro com o título deste post: Do Caos à Ordem dos Professores, edição do SNPL, 2004. Mas, propositadamente ou não, a Fenprof omitiu a persistente acção desenvolvida pelo SNPL (estranhamente, seu “compagnon de route” na Plataforma Sindical) em prol da criação da Ordem. Esta questão, que só a ambos diz respeito (demiti-me, em 14 de Abril deste ano, do cargo no SNPL que exerci desde 1992), merece, porém, uma brevíssima sinopse, para memória futura, de algumas das acções desenvolvidas neste contexto:

  1. Em 17 de Julho de 92, promoveu o SNPL uma conferência de imprensa sobre a criação de uma Ordem dos Professores.
  2. Em 20 de Junho de 96, foi entregue pelo SNPL, na Assembleia da República (AR), uma Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores.
  3. Em 25 de Fevereiro de 2004, apresentou o SNPL na AR, uma petição para a criação da Ordem dos Professores com 7857 assinaturas.
  4. Finalmente, em 2 de Dezembro de 2005, foi debatida na AR essa petição que não foi aprovada.

Para esta decisão, a razão apresentada pelo deputado do Partido Socialista João Bernardo, seu relator e, simultaneamente, vice-secretário de um organismo sindical (Sindep), foi a de estar na forja uma lei-quadro que passaria a regular a competência das futuras ordens profissionais. Esta lei-quadro viria a conhecer a luz do dia com a publicação Lei 6/2008, de 13 de Fevereiro, sendo no respectivo articulado, retirada às futuras ordens profissionais a possibilidade de controlarem o acesso à profissão, com o pretexto de ser tida como única exigência o reconhecimento oficial dos cursos de licenciatura. Todavia, passando, por outro lado, a competir ao Ministério da Educação o exame de acesso à profissão docente é caso para dizer que “não bate a bota com a perdigota”.

Define o n.º 2 do artigo 2.º da lei em apreço que “a constituição de associações públicas profissionais é excepcional e visa a satisfação de necessidades específicas podendo apenas ter lugar em casos em que a regulação profissional envolver um interesse público de especial relevo que o Estado não deve prosseguir por si próprio”. Daqui emergem duas perguntas: Envolvendo a profissão docente um interesse público de relevo, será de aceitar, como tem sucedido em alguns casos, que a formação dos professores continue a ser havida como tenda de feirante de vestuário de contrafacção? Não deverão os professores ter a legitimidade de se constituírem numa associação de direito público com voz activa e qualificada nas decisões a tomar no âmbito da política educativa nacional que implique a defesa de interesses colectivos da profissão, excepto em matéria sindical? Aliás, este princípio encontra-se salvaguardado pelo artigo 267 da Constituição Portuguesa que impede às associações públicas o exercício de funções próprias de acções sindicais.

Com resultados que posicionam Portugal em lugares desastrosos no sucesso educativo no quadro da União Europeia, a criação de uma Ordem dos Professores está longe de ser uma questão de lana caprina. Nem o mais optimista dos optimistas poderá dizer que o sistema educativo se recomenda e está de boa saúde apesar de um tossicar cavernoso, um estado febril, uma astenia que nada de bom prenunciam.

Ora, a prossecução de medidas terapêuticas, que não se compadecem com uma simples aspirina para diminuir temporariamente uma sintomatologia dolorosa, deixando que a doença progrida até um estado comatoso, passa por uma Ordem com poderes de autoridade pública para que a “profissão de professor” deixe de ser um mero exercício profissional em procura desesperada de identidade e titulação próprias. Este statu quo pressupõe a defesa, em tribuna própria, dos interesses da educação e a salvaguarda do prestígio de um estrato profissional que Fernando Savater, catedrático de Ética da Universidade do País Basco, considera como “a corporação mais necessária, mais esforçada e generosa, mais civilizadora de quantos trabalham para satisfazer as exigências de um Estado democrático”.

Em princípio doutrinário arrevesado, que faz letra morta das competências lato sensu das ordens profissionais, surge, ainda, a Fenprof a defender que “o campo de intervenção de uma ordem restringe-se ao plano das questões éticas e deontológicas que não são, para já, questões centrais das preocupações dos professores”. E, para fundamentar aquilo que julga (mas não é) um arrabalde das preocupações dos professores, logo, acrescenta: ”Os Sindicatos dos Professores têm sido e continuarão a ser espaços de análise e discussão das questões da Ética e Deontologia da profissão”. Ou seja, transcendendo fronteiras próprias, delimitadas por questões de carreira, salariais e horários de trabalho, a Fenprof confessa publicamente uma usurpação de poderes bem denunciada por Eugénio Lisboa: “Para tudo isto os sindicatos têm dado uma mãozinha, não raro intervindo, com desenvoltura, em áreas que não são, nem da sua vocação nem da sua competência” (Jornal de Letras, n.º 964, 2007).

A exemplo das ordens profissionais de médicos, advogados e engenheiros, por exemplo, só através de idêntica medida serão os professores capazes de se auto-regularem rejeitando, desta forma, a submissão a uma asfixiante tutela estatal que parece querer perpetuar na docência coetânea a canga dos antigos escravos gregos ao serviço da ilustração dos filhos dos senhores de Roma.

A árvore da vida


The affinities of all the beings of the same class have sometimes been represented by a great tree...

As buds give rise by growth to fresh buds, and these if vigorous, branch out and overtop on all sides many a feebler branch, so by generation I believe it has been with the great Tree of Life, which fills with its dead and broken branches the crust of the earth, and covers the surface with its ever branching and beautiful ramifications.
Charles Darwin

The Tree of Life é um projecto online que reúne excelentes informações sobre filogenia e a base da «árvore da vida». No projecto, especialistas e amadores de todo o mundo colaboram na elaboração de cladogramas para todos os grupos de seres vivos:

«The Tree of Life Web Project» is a collection of information about biodiversity compiled collaboratively by hundreds of expert and amateur contributors. Its goal is to contain a page with pictures, text, and other information for every species and for each group of organisms, living or extinct. Connections between Tree of Life web pages follow phylogenetic branching patterns between groups of organisms, so visitors can browse the hierarchy of life and learn about phylogeny and evolution as well as the characteristics of individual groups.»

The Tree of Life é igualmente o nome de um filme que estreará para o ano, protagonizado entre outros por Brad Pitt e Sean Penn. Por enquanto, uma pesquisa por «The tree of Life» devolve em primeiro lugar o projecto, mas Jonathan Eisen, que escreve no blog associado, teme que em breve isso deixe de acontecer. Eisen receia que a página esteja assim em perigo de extinção no Google, já que o motor de busca mais utilizado lista em primeiro lugar as páginas com mais hiperligações e é provável que à medida que o filme progride começe a merecer cada vez mais links. Assim, Eisen pede a todos os biólogos que liguem o projecto nas suas páginas de forma a que «The Tree of Life» permaneça no Google como um termo de biologia evolucionária e não como uma curiosidade cinematográfica.

O De Rerum Natura já acrescentou a página aos seus links e tentaremos hiperligar a página mais vezes no futuro. Seria excelente que a ciência conseguisse bater Hollywood, pelo menos no número de ligações para «The Tree of Life». Assim, não só quem procurar informações científicas as encontrará rapidamente como, eventualmente, alguém que pesquise no Google informações sobre o filme ao deparar em primeiro lugar com este projecto de ciência decida ver o que bateu Brad Pitt em links e aprenda algo sobre biologia.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A maldade humana


Vale a pena ler

Autores: Vários
Título: A maldade humana: fatalidade ou educação?
Editora: Almedina (Coimbra)
Data: 2008


O livro em destaque chama-nos à atenção, em primeiro lugar, pela magnífica capa da autoria de Ana Boavida: é uma capa que nos conduz ao título (que, num toque de originalidade, consta na lombada e na contracapa) e, a seguir, às suas trezentas e muitas páginas. Pelo menos foi o percurso que eu fiz quando explorei esta obra que reúne algumas das comunicações apresentadas num congresso sobre o tema A maldade humana: fatalidade ou educação, que o Centro de Psicopedagogia da Universidade de Coimbra levou a cabo no ano de 2007.

Sendo difícil imaginar a face da Maldade, esta imagem, pela solidez e despojamento em que assenta e pelo embate que a sua estranheza provoca, permite espreitar essa característica tão profundamente humana e, ao mesmo tempo, tão desconhecida, ao ponto de causar espanto quando se insinua ou se manifesta.

Quanto ao conteúdo do livro: são quinze capítulos assinados por especialistas nacionais e estrangeiros de diversas áreas disciplinares, desde a psicologia, biologia, neurociências, passando pela pedagogia e pela ética. Alguns concentram-se numa reflexão de cariz teórico, outros apresentam e discutem estudos empíricos realizados em diferentes contextos: escolares, familiares, judiciais, sociais, etc.

Para deixar ao leitor uma ideia mais concreta desse conteúdo, escolhi duas passagens de dois capítulos distintos que problematizam de modo particularmente interessante o subtítulo Fatalidade ou Educação: um intitula-se A "normalização da maldade": uma nova perspectiva acerca das raízes psicológicas do ódio colectivo, e foi escrito por Stephen Reicher, da Universidade de St. Andrews, Escócia e S. Alexander Haslam, da Universidade de Exeter, Inglaterra; outro intitula-se Prevenção da delinquência e do comportamento anti-social e foi escrito por David P. Farrington, do Instituto de Criminologia da Universidade de Cambridge, Inglaterra.

“A haver um fenómeno que seja emblemático do século XX, será o da mecanização do assassino em massa. As máquinas que no início do século pareciam assegurar o progresso crescente da espécie humana, no final pareceram simplesmente tornar mais eficiente a nossa capacidade para agravar a profundidade da depravação. Para alguns, esse tipo de assassinato foi a prova de que o atavismo da humanidade era, simultaneamente, mais poderoso e mais saliente do que aquilo que os optimistas poderiam inicialmente supor. Para outros, essas matanças demonstravam os perigos contidos no âmago da própria modernidade (…) Qualquer que seja a posição de cada um de nós relativamente a esse assunto, a verdade é que nenhuma avaliação ponderada da condição humana poderá escamotear o fenómeno da matança, em si mesmo” (Reicher & Haslam, página 31).

“Os estudos de elevada qualidade de avaliação de programas mostram que muitos são eficazes na redução da delinquência e do comportamento anti-social (…). É tempo de desenvolver e amplificar uma estratégia nacional, baseada nas provas empíricas já disponíveis, para a redução do crime e dos problemas sociais a ele associados, incluindo a avaliação rigorosa da situação vivida em cada país (…). Do mesmo modo que a prevenção primária tem sido eficaz na melhoria dos povos, esta pode vir a ser igualmente bem sucedida na redução da delinquência e do comportamento anti-social em todos os países” (Farrington, 353-354).

Se a primeira passagem direcciona-nos o olhar para o passado, numa tentativa de compreendermos a maldade no presente; a segunda direcciona-nos o olhar para o futuro, como modo de a prevenirmos e/ou reduzirmos.

É deste duplo olhar que precisamos na educação pois, apesar de termos perdido a ilusão iluminista de que ela faz desaparecer todos os males do mundo - como fizeram notar em Portugal, Adolfo Coelho ou Guerra Junqueiro -, quem tem responsabilidades educativas não pode deixar de acreditar que ela contribui para resolver ou minorar alguns deles.

O pós-modernismo no seu esplendor

Há uns tempos folheava o Wall Street Journal e deparei com uma notícia que achei representar o pós-modernismo no seu esplendor. O artigo «Dartmouth's 'Hostile' Environment» conta-nos a história de uma professora de Darmouth, uma universidade Ivy League, que tentou processar os alunos porque, segundo alegou, o anti-intelectualismo dos caloiros que leccionava violou os seus direitos civis. O processo não foi para a frente porque era tão rídículo que nenhum advogado o aceitou mas vale a pena olhar para os detalhes da história.

Priya Venkatesan Hays, a docente em causa, escreveu para um jornal de Darmouth um artigo que levanta o véu sobre o que provocou o comportamento dos alunos que causou «intellectual distress» a Priya e motivou a sua saída de Dartmouth. O «Yin, meet yang» é um chorrilho de disparates pós-modernos que lembra o famoso «Transgredir as fronteiras: em direcção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica» de Sokal, só que, contrariamente ao Sokal Hoax, este embuste foi escrito a «sério»:

«In graduate school, I was inculcated in the tenets of a field known as science studies, which teaches that scientific knowledge has suspect access to truth and that science is motivated by politics and human interest. This is known as social constructivism and is the reigning mantra in science studies, which considers historical and sociological understandings of science. From the vantage point of social constructivism, scientific facts are not discovered but rather created within a social framework. In other words, scientific facts do not correspond to a natural reality but conform to a social construct.

...

In many ways, social constructivism has been reframed as postmodernism, since both movements question the scientific realm's theory of truth—that is, that scientific facts mirror an external reality which does indeed exist. However, this reframing is unnecessary, since clear distinctions exist between social constructivism and postmodernism. Through my experience in the laboratory, I have found that postmodernism offers a constructive critique of science in ways that social constructivism cannot, due to postmodernism's emphasis on openly addressing the presupposed moral aims of science. In other words, I find that while an individual ethic of motivation exists, and indeed guides the conduct of laboratory routine, I have also observed that a moral framework—one in which the social implications of science and technology are addressed—is clearly absent in scientific settings. Yet I believe such a framework is necessary. Postmodernism maintains that it is within the rhetorical apparatus of science—how scientists talk about their work—that these moral aims of science may be accomplished.»

O artigo, embora numa linguagem mais «contida», continua as teses ocas que Priya Venkatesan desenvolveu no livro «Molecular biology in Narrative form», o mesmo título da sua tese de doutoramento. Este comentário ao livro na Amazon resume bem o livro: «Happily, the content of the text seems to be some remarkably well-disguised trippy-hippy post-modernist anti-establishment pseudo-feminist rant taken directly from protest speeches from the sixties.».

Aparentemente, as aulas de Priya resumiam-se a variações sobre a sua tese e esperava não só que os alunos aceitassem sicofantemente os disparates que debitava como nas avaliações a classificassem como a sumidade que ela se considera ser. Mas os estudantes não acharam piada nenhuma aos dislates pós-modernos com que Priya recheava as aulas nem ao facto de ela não admitir que meros alunos manifestassem as suas opiniões nas aulas e escreveram-no nas avaliações. De acordo com um dos alunos:

«Aside from the fact that I learnt nothing of value in this class besides the repeated use of the word "postmodernism" in all contexts (whether appropriate or not) and the fact that Professor Venkatesan is the most confusing/nonsensical lecturer ever, the main problem with this class is the personal attacks launched in class.

Almost every member of the class was personally attacked in some form in the class by either intimidation or ignoring your questions/comments/concerns. If you decide to take this class, prepare to NOT be allowed to express your own opinions in class because you have "yet to obtain your Ph.D/masters/bachelors degree". We were forced to write an in-class essay on "respect" (and how we lacked it) because we expressed our views on controversial topics and some did not agree with the views of "established scholars" who have their degrees.»

A professora não gostou das avaliações (confidenciais) feitas pelos alunos e no email em que os avisava que os ia processar por discriminação, informou-os igualmente que iria publicar os comentários no livro que pretende escrever sobre o caso.

Os estudantes contaram ao jornalista do WSJ a sua versão dos factos, nomeadamente que os problemas nas aulas da senhora se deviam às prelecções incompreensíveis e às explosões que se seguiam às intervenções cépticas dos alunos depois de afirmações totalmente imbecis. Priya retorquiu que a discussão de ideias pretendida pelos alunos era na realidade «intolerância» e que os alunos questionavam «o meu conhecimento de forma muito pouco apropriada».

Depois de uns meses de tensão ... e de Lyotard (tanto que um dos alunos se lhe referia como o «moron»), o ponto de ruptura surgiu quando a docente resolveu falar de «ecofeminismo», uma patetada pós-moderna que afirma que o avanço científico é sexista e só beneficia os «patriarcas» - uma tese muito querida a algumas correntes pós-modernas que pretendem, por exemplo, que o pénis é equivalente à raiz quadrada de (-1), E=mc2 é uma equação sexista, o nome Big Bang é sexista e o Principia Mathematica de Newton é um manual de violação - Sandra Harding no «The Science Question in Feminism».

Este disparate total foi a gota de água para pelo menos um dos alunos que, de acordo com a docente, usou argumentos «irracionais» para a refutar no que classificou de diatribe aplaudida pelos restantes colegas. Os alunos não se converteram às palermices pós-modernas mesmo depois de a senhoraVenkatesan os ter informado que o seu comportamento era «demagogia fascista» e ... « intolerância de ideias e intolerância da liberdade de expressão»! Para além da óbvia ironia e contrasenso da acusação, acho sempre curioso confirmar ser com acusações congéneres que pós-modernos e os seus primos eduqueses rematam discussões em que as suas teses absurdas não são aceites.

A maioria dos professores que conheço ficaria deliciada se os seus estudantes refutassem o que estava a ser dito e iniciassem um debate sobre um tema abordado na aula. Aliás, esse deve ser o espírito de uma universidade que todos nós tentamos (a maioria das vezes infrutiferamente) despertar nos alunos. Os alunos em causa mostram-nos que o pensamento crítico na nova geração não está morto apesar da onda de imbecilização que permitiu que uma Universidade como Dartmouth considerasse que uma pessoa como Venkatesan tinha capacidades para ministrar aulas a caloiros.

Infelizmente demasiados departamentos alimentam o gibberish destes pseudo-intelectuais pós-modernos. Foi um excelente sinal que os alunos de Priya contestassem o lixo pseudo-intelectual com que esta os tentou doutrinar e reagissem como ilustrado pelo comentário de um dos alunos de Darmouth «Anyone who is an acolyte of the postmodernist theory is mentally ill, by definition: either terminally stupid, or sociopathic. Or both».

O pós-modernismo anda em Portugal de mãos dadas com o eduquês e, como já referiu o Carlos, «O pós-modernismo é uma verdadeira praga intelectual que aflige a pedagogia no nosso país (como em outros, mas nós temos piores defesas: não desenvolvemos anticorpos em tempo útil) e que tem consequências terríveis sobre a qualidade de ensino que se pratica.» Não sei assim se seria possível nas nossas salas de aulas uma reacção saudável como a que se verificou em Dartmouth...

domingo, 13 de julho de 2008

GRANDES ERROS: "A MAIOR METAMORFOSE DE TODOS OS TEMPOS"


No passado dia 6 de Julho, pelas 22h13m, o Mosteiro de Alcobaça tinha à sua frente mais de 16 mil pessoas para assistirem à “maior metamorfose de todos os tempos” prometida pelo mágico Luís de Matos. Este tinha um contrato com a Câmara de Alcobaça, no qual se propunha efectuar um espectáculo de magia “absolutamente surpreendente e inesquecível” caso o Mosteiro de Alcobaça fosse eleito uma das 7 Maravilhas de Portugal. A prestação do mágico estava orçada em 180 mil euros.

A expectativa era grande. Falava-se até que o mosteiro "iria desaparecer". Mas a grande montanha pariu um pequeno rato. Luís de Matos limitou-se a repetir um número antigo, criado pelo mágico Houdini, em que se liberta de uma camisa de forças pendurado pelos pés. O número, que obviamente não tem nada a ver com o mosteiro, demorou poucos minutos. E poucos minutos demorou o aplauso, porque a este logo se seguiu uma monumental vaia quando a multidão se apercebeu que o espectáculo tinha já terminado. Por Alcobaça e não só toda a gente ficou indignada.

Que há aqui de errado? Segundo o próprio Luís de Matos em carta posterior enviada ao Presidente da Câmara: “o erro não está naquilo a que assistiram mas sim naquilo que lhes foi transmitido que aconteceria e em que, ingenuamente, acreditaram”. Sim, tem razão, mas foi ele que alimentou as falsas expectativas, já que a frase da “maior metamorfose de todos os tempos”, que está no cartaz, é dele. O mágico Luís de Matos, que não cumpriu o anunciado e que por isso causou a “maior metamorfose de todos os tempos” na sua imagem, agora queixa-se?

Mas o erro é também, claro, do Presidente da Câmara, que esbanjou o dinheiro dos contribuintes numa altura que devia ser de contenção orçamental. Terá o orçamento da Câmara sofrido a “maior metamorfose de todos os tempos”?

sábado, 12 de julho de 2008

A controvérsia da hóstia

Em 1298, devido a uma acusação de profanação da hóstia, toda a população judaica de Röttingen foi queimada. Os massacres dos judeus continuaram por toda a Alemanha e também na Áustria. De acordo com as estimativas, 100.000 pessoas foram assassinadas e cerca de 140 comunidades judaicas foram dizimadas, incluindo as comunidades de Wurzburgo, Ratisbona, Nuremberga, Augsburgo e Heilbronn. Este foi apenas um incidente entre muitos outros análogos...

A comunidade científica da blogosfera norte-americana, especialmente PZ Myers no Pharyngula, tem-se agitado nos últimos dias com as consequências do caso da hóstia. O caso, inicialmente com reminiscências medievais, foi despoletado por um estudante na Universidade da Flórida Central . Webster Cook participou numa missa no campus da universidade no dia 29 de Junho. Depois de receber a hóstia, Cook, que fora à missa com um amigo não católico, em vez de a consumir imediatamente decidiu mostrá-la ao amigo que continuava sentado e nunca vira uma. Ainda não tinha dado três passos, quando foi agarrado e uma senhora lhe tentou abrir a mão à força. O jovem não gostou da violência e intimidação física que se seguiu e resolveu levar a hóstia para casa e devolvê-la apenas depois de receber um pedido de desculpas da igreja pelo sucedido.

Caiu o Carmo e a Trindade na comunidade católica norte-americana com este «crime de ódio» como nunca se viu, o jovem foi repetidamente ameaçado de morte, recebeu uma quantidade assombrosa de «hate mail», mesmo depois de se ter assustado com as proporções que o incidente assumiu e ter devolvido a hóstia «raptada» (sem pedido de desculpas).

Bill Donohue, o presidente da Liga Católica, não se conformou com a devolução do «refém» e organizou imediatamente uma campanha nacional contra o estudante que tinha cometido algo tão abominável, exigindo consequências para o acto que incluem a expulsão de Cook da Universidade.

O incidente indignou PZ Myers que escreveu um post denunciando a inanidade da reacção católica em relação á profanação de uma «bolacha». O problema é que no final Myers, provavelmente sem saber que para um católico a hóstia é mesmo uma pessoa e a sua profanação é, como confirmou o presidente da Liga Católica, o acto mais vil e criminoso que existe, pediu para lhe enviarem pelo menos uma hóstia para profanar. Como consequência, para além das expectáveis ameaças de morte e afins, decorre neste momento uma campanha católica exigindo a demissão de Myers da Universidade. Para além disso, a segurança na Convenção Republicana que decorrerá em Twin Cities no Minnesota será reforçada - para garantir a segurança das hóstias, certamente.

No post que originou a controvérsia, PZ Myers sugeria que um leitor roubasse uma hóstia, o que para mim é completamente errado. Aliás, mesmo que especificasse que pretendia adquirir na internet a(s) hóstia(s) para profanação, o acto seria no mínimo infantil e gratuito.

Carl Sagan escreveu, «The suppression of uncomfortable ideas may be common in religion or in politics, but it is not the path to knowledge, and there's no place for it in the endeavor of science.» Para mim, esta máxima de Sagan aplica-se também a pessoas, isto é não suprimo ideias desconfortáveis em relação a pessoas que admiro. Assim, PZ Myers continua a ser um dos meus bloggers de ciência favoritos, partilho a sua indignação em relação às ameaças de morte dirigidas ao estudante (que por sua vez demonstrou uma certa falta de bom senso mas tem a desculpa da idade), acho descabida a reacção da comunidade católica em toda a história mas considero a resposta de Myers um verdadeiro tiro no pé.

Alguns seguidores de religiões fazem destas uma identidade tribal o que se traduz em considerarem a religião não uma prática mas uma causa para a qual vale tudo de forma a assegurar a dominância da tribo. Para mim, os últimos parágrafos de Myers no post em causa aproximam-se perigosamente do comportamento tribal que critica.

O EXEMPLO DO BIOCANT

Minha crónica no "Sol" de hoje:

O estado da nação não é, de facto, o melhor. Não é, em geral, o que poderia e deveria ser. Mas há excepções, bons exemplos que merecem ser mais bem conhecidos e emulados.

O Biocant em Cantanhede é o primeiro parque português de biotecnologia. Deve-se à visão da Câmara Municipal de Cantanhede (basta ir a Cantanhede, muito perto de Coimbra, para verificar que nem todo o poder autárquico é mau) e das Universidades de Coimbra e de Aveiro, em particular o Centro de Neurociências de Coimbra, que foi o primeiro laboratório associado português. Dois amplos e modernos edifícios servem de sede e de complexo de laboratórios do Biocant. Neles fervilha intensa actividade, possibilitada pela presença de mais de cem investigadores, empresários e outras pessoas, a maioria dos quais bastante jovens. Está a começar a construção de mais dois edifícios nas imediações, um dos quais para o Centro de Neurociências. Ali constrói-se o futuro.

Entre as empresas que aí funcionam é justo destacar a Crioestaminal, que está agora a fazer cinco anos, e que é a primeira empresa portuguesa no isolamento e preservação de células estaminais do sangue do cordão umbilical. A preservação dessas células poderá servir para o tratamento de certas doenças da criança ou dos seus familiares. Muitas famílias têm-se socorrido da Crioestaminal, que começou por usar sistemas criogénicos na Bélgica mas que agora usa modernas infraestruturas em Cantanhede. Além dessa empresa, que está a alargar a sua actividade a outras áreas, outras estão “aninhadas” no BioCant e prometem ter um êxito semelhante.

Um dos aspectos mais interessantes do Biocant é o facto de ser diariamente visitado por crianças e jovens das escolas. O Centro de Ciência Júnior, com o apoio da Agência Ciência Viva e a supervisão de duas doutoradas em biologia, é um belo espaço transparente que comunica às mentes curiosas alguns dos segredos da genética.

O Biocant promete crescer. Se mais exemplos como o do Biocant também crescessem pelo país fora decerto que a nação estaria em melhor estado.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

OUTRA VEZ MILAGRE

Depois do milagre das notas de Matemática no 12º ano, o milagre das notas de Matemática no 9º ano. A pergentagem de negativas baixou de 73% para 45%. Afinal razão tinha a Sociedade Portuguesa de Matemática quando afirmou que "em todos os casos os conceitos avaliados são simples e testados com exemplos demasiado elementares". Ontem em Coimbra foi o dia da festa da Rainha Santa, que terá transformado pão em rosas. O Ministério da Educação merece também ser canonizado: transforma, de repente, negativas em positivas.

Ideologia

Algumas pessoas pensam que tudo é ideologia, ou que todo o ensino é ideológico. Esta ideia foi dada como óbvia por alguns comentadores na sequência do meu post "E os Perigos do Ensino Privado?", como o Jorge e o Pedro. esta ideia é dificilmente defensável, e é impossível defender que é óbvia. Pode parecer óbvia porque é um lugar-comum, mas como muitos lugares-comuns, revela-se pouco plausível quando se pensa um pouco. Vejamos porquê.

A ideia de que tudo é ideologia enfrenta, para começar, uma dificuldade óbvia. Se dizer que tudo é ideologia é dizer que tudo é mera expressão dos interesses de classe ou expressão de opções injustificáveis, então também a ideia de que tudo é ideologia é ideológica, e como tal injustificável e um mero artigo de fé. O que significa que quem discorda da ideia de que tudo é ideologia pode limitar-se a concordar com quem afirma tal coisa, para de seguida negar tranquilamente tudo o que essa pessoa disser, precisamente por ser ideológico, ou negar todos os métodos de discussão de ideias que ela propuser, por serem todos ideológicos, ou todos os sistemas de ensino que ela propuser, por serem todos ideológicos. Em conclusão, a ideia de que tudo é ideologia é obviamente incoerente. É como gritar “GRITAR É IMPOSSÍVEL!”: o próprio acto de gritar pressupõe a negação do que se está a afirmar aos gritos.

Pensa-se por vezes erradamente que este tipo de posição auto-refutante é “paradoxal”. Mas isto é confundir dois conceitos cruciais: auto-refutação e paradoxo. Um paradoxo não é uma afirmação auto-refutante. Uma afirmação auto-refutante é uma afirmação necessariamente falsa. Um paradoxo é um argumento aparentemente válido com premissas aparentemente verdadeiras que conduz a uma conclusão aparentemente falsa. O paradoxo é que nenhum argumento válido com premissas verdadeiras tem conclusão falsa e por isso algo tem de estar errado, mas não se consegue ver o que é. Quando temos um paradoxo, algo está errado nas nossas premissas ou no nosso raciocínio, e o desafio é perceber o que raio está errado. Quando temos uma afirmação auto-refutante não temos qualquer paradoxo: temos apenas a certeza de que a afirmação é falsa porque se refuta sozinha. Confundir os dois conceitos é uma psicofoda.

Mas o aspecto mais importante é a incompreensão que esta posição trai da natureza da racionalidade e da argumentação. Quando se pensa que tudo é ideológico pensa-se que a argumentação e a racionalidade são elas mesmas ideológicas porque se baseiam sempre em pressupostos que queremos proteger da livre discussão. Pensa-se que a argumentação e a racionalidade é uma questão de adoptar como artigos de fé certos axiomas e a partir daí pensar de maneira mais ou menos automática nas consequências desses artigos de fé. Isto é um disparate, e dos grandes. Talvez o melhor antídoto que conheço a esta concepção verdadeiramente palerma e infelizmente comum da racionalidade e da argumentação seja esta passagem do livro Sobre a Liberdade (1859), de John Stuart Mill, que toda a gente deveria ler:

"Há uma grande diferença entre presumir que uma opinião é verdadeira porque não foi refutada em qualquer das oportunidades que houve para a contestar, e pressupor a sua verdade para impedir a sua refutação. O que nos dá justificação para presumir a verdade da nossa opinião para efeitos de acção é uma liberdade completa para a contradizer e provar a sua falsidade; e sob nenhumas outras condições pode um ser com faculdades humanas ter qualquer garantia racional de ter razão." (p. 55)

"Se não fosse permitido que até mesmo a filosofia newtoniana fosse questionada, as pessoas não sentiriam uma tão completa certeza da sua verdade como agora sentem. As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento. Se o desafio não é aceite, ou se é aceite e a tentativa é gorada, estaremos, ainda assim, longe da certeza; mas teremos feito o melhor que a condição presente da razão humana permite; nada teremos negligenciado que pudesse dar à verdade a hipótese de vir ter connosco: se o conjunto de crenças for mantido em aberto, podemos esperar que, se houver uma verdade melhor, será encontrada quando a mente humana estiver preparada para a aceitar; e, entretanto, podemos ter a certeza de estarmos tão próximos da verdade quanto possível, na altura presente. Esta é a quantidade máxima de certeza alcançável por um ser falível, e a única maneira de a alcançar." (pp. 57-58)

A racionalidade não é um “jogo” entre outros, no qual partimos de certas regras, admitidas como artigo de fé. A racionalidade é a abertura completa para discutir tudo, incluindo as regras da discussão. É por isso que se pode distinguir claramente um ensino ideológico, por exemplo, de um ensino não ideológico. Um ensino ideológico transmite, por exemplo, a ideia de que devemos ser ecologicamente responsáveis, respeitadores das diferenças culturais, ou cidadãos participativos. E, como dizia Orwell, o problema disto não é realmente o que está a ser dito: “O inimigo é o espírito de gramofone, quer concordemos quer não com o disco que está a tocar nesse momento.” Em contraste, um ensino que não seja ideológico permite a discussão de tudo, e impede o espírito de gramofone, que é a repetição acrítica de ideias — como a ideia de que todo o ensino é ideológico.

Por que razão as pessoas têm tanta dificuldade em compreender a racionalidade e a argumentação? Talvez, em parte, porque foram vítimas de um ensino autoritário e ideológico; foram psicofodidas desde muito cedo para aceitar certas ideias como intocáveis; erigiram nas suas mentes zonas de intocabilidade que não podem ser postas em causa. E é neste aspecto que Orwell viu bem a psicofoda ideológica: tanto faz ensinar ciência ou da astrologia, o problema é ensinar ideologicamente, acriticamente. A grande diferença entre uma e outra não se nota quando ambas são transmitidas ideologicamente, acriticamente. Mas nota-se quando estamos abertos à discussão: ao passo que uma resiste à tentativa de refutação, a outra cai às primeiras discussões livres. E é isto que distingue um ensino ideológico de um que não o é; é isto que distingue uma posição ideológica de uma que não o é. Uma, está permanentemente aberta à crítica, ao passo que a outra ergue zonas de intocabilidade, artigos de fé que não podem ser postos em causa.

Na ciência e na filosofia e nas artes TUDO pode ser posto em causa. Só na religião e na ideologia há zonas de intocabilidade, porque é da protecção cuidadosa dessas zonas que depende a sobrevivência da religião e da ideologia. Daí que todas as ideologias e todas as religiões tenham tendência para declarar que há coisas que escapam à argumentação, à racionalidade, à discussão aberta e pública: porque sabem que essa é a única maneira de proteger uma coutada de ideias que, se forem expostas à discussão aberta, se revelam menos plausíveis do que as suas concorrentes.

A melhor razão que qualquer um de nós tem para aceitar os resultados da ciência é simultaneamente a melhor razão que temos para não aceitar as revelações religiosas e as doutrinações ideológicas: é que umas são convites permanentes a toda a humanidade para as refutar, ao passo que outras apenas convidam os eleitos a aceitá-las, ao mesmo tempo que lançam o anátema sobre os que as rejeitam.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Universidade de Coimbra e Google celebram acordo


Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra torna-se na primeira biblioteca portuguesa a juntar-se ao Google Pesquisa de Livros

(Informação recebida da Universidade de Coimbra e do Google)

Coimbra, 10 Julho 2008 - A Biblioteca Geral de Universidade de Coimbra junta-se a partir de hoje ao Google Pesquisa de Livros para disponibilizar ‘on-line’ centenas de livros e revistas académicos. Pelo meio-dia, na Biblioteca Joanina, o Senhor Reitor da Universidade e o responsável pela Google em Portugal formalizam e anunciam o Acordo (“Agreement”) estabelecido no âmbito do Google Partner Program [acto adiado por conveniência de agenda].

Monografias, separatas e publicações periódicas de grande interesse histórico-cultural e grande prestígio como os “Acta Universitatis Conimbrigensis” e a “Revista da Universidade de Coimbra” vão agora estar acessíveis ‘on-line’ através do Google Pesquisa de Livros, uma ferramenta que permite a pesquisa da totalidade dos livros armazenados na base de dados digital da Google. Em cada resultado da pesquisa no Google Pesquisa de Livros, um interface fácil permite ao utilizador não só consultar diversas páginas do livro como ter “links” para a página da editora e lojas virtuais de venda de publicações.

Este é um momento importante para as bibliotecas e para o sector livreiro português, sendo um primeiro passo de outros que se pretendem ainda maiores para levar literatura em língua portuguesa aos utilizadores da Internet em qualquer parte do mundo.

Afirma Carlos Fiolhais, Director da Universidade de Coimbra: "A Biblioteca Geral de Universidade de Coimbra está muito satisfeita em juntar-se ao Google Pesquisa de Livros, uma plataforma ‘on-line’ que permitirá uma maior exposição dos nossos livros e revistas a utilizadores do todo o mundo. Acreditamos que esta plataforma da Google permitirá apresentar os nossos livros a públicos a que até agora não tínhamos acesso. Embora isso não seja o mais relevante, esperamos que esta parceria possa também representar um acréscimo nas vendas. Esperamos sobretudo aumentar o impacte cultural da Biblioteca e da Universidade. É com grande satisfação que participamos no esforço da Google para reunir o conhecimento global e torná-lo mais acessível a todos e queremos no futuro colaborar ainda mais”.

Por outro lado, explica, Luis Collado, responsável pelas parcerias estratégicas da Google em Portugal: "A parceria com a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra representa um importante passo para o Google Pesquisa de Livros em Portugal. É uma honra para a Google poder trabalhar com a mais antiga Universidade portuguesa permitindo o acesso a mais livros em português aos utilizadores portugueses e de todo o mundo”.

Para mais informações sobre o Google Pesquisa de Livros: books.google.pt

Sobre a Biblioteca Geral de Universidade de Coimbra

A sua origem remonta pelo menos a 1512, sendo um dos seus marcos a construção em 1717 da Biblioteca Joanina, uma jóia do barroco mundial. Alberga alguns dos maiores tesouros da bibliografia portuguesa e mundial. Com mais de um milhão de volumes, é a segunda Biblioteca do país e a primeira biblioteca universitária.

Sobre Google Pesquisa de Livros
O Google Pesquisa de Livros permite aos editores promoverem os seus livros no Google e aos leitores tomarem conhecimento dos respectivos conteúdos. O Google digitaliza os títulos das editoras envolvidos no acordo, permitindo aos utilizadores a consulta dos livros que tenham correspondência com os tópicos de pesquisa dos utilizadores. Quando um utilizador efectua uma pesquisa, é levado para uma página de Internet onde consta uma imagem digitalizada de uma página relevante do livro.

Cada página contém ainda links que permitem aos utilizadores a compra do livro através de lojas virtuais. Nas pesquisas, os utilizadores poderão também visualizar anúncios do Google Adwords devidamente escolhidos. Os editores receberão uma parcela das receitas geradas a partir dos anúncios exibidos.

Crónicas do Cavaleiro da Pérola Redonda

É curioso o Carlos ter dedicado a JC das Neves o seu último post. De facto, durante meses, noutro blog em que participei, a análise da prosa semanal no Diário de Notícias do referido personagem proporcionou-me a escrita de posts muito semelhantes.

Segunda-feira continua um dia em que, com um frémito de antecipação, saboreio o meu momento zen semanal. Por vezes João César das Neves desilude-me e tenho apenas uma pausa Kit Kat, nomeadamente quando a sua opinação de segunda não é contaminada com elucubrações delirantes e absurdas sobre religião e/ou ciência.

Os frequentes circunlóquios de êxtase místico do spin doctor do DN seriam hilariantes não fora dar-se o caso de algumas pessoas os confundirem com a realidade ou com opinação séria. O artigo do Carlos revelou-me que, aparentemente, o mesmo se passa com os seus sermões de economia (até aqui pensava serem um exercício de dissonância cognitiva). O problema é que os mais incautos acreditam mesmo nos delírios que enchem a sua coluna semanal. O facto de ele ser uma figura mediática na área de Economia (e, infelizmente, não só) funciona como um argumento de autoridade que engana mesmo os mais inesperados, como o presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, que engoliu sem espinhas os relatórios da fictícia Fundação.

Algumas das crónicas do cavaleiro da pérola redonda são apenas muito divertidas. Por exemplo, aquela em que preleccionou sobre os malefícios de «Erigir um mundo de ficção como orientação para a vida, que muitos consideram alienação ou manipulação de massas». Claro que o fazedor de opinião não se referia à ficção que elegeu para orientar as suas opinações, mas sim à dos trekkies, esquecendo que os fãs do Star Trek sabem ser o alvo do seu inofensivo passatempo uma «mentira, um mundo de ficção em que realmente não acreditam».

Outras crónicas deixam-nos conclusões surpreendentes, como seja ficarmos a saber que ideologias e omeletes ou teocracia e democracia são a mesmissima coisa. Mas é a sua posição anti-ciência, quasi neoludita em alguns pontos como pude confirmar numa conversa em família sobre «o Cristo universitário» que debitou no Técnico, que me parece mais preocupante.

O motivo das diatribes anti-ciência do fazedor de opinião tem a ver com o facto de JCN depositar na ciência e no conhecimento científico o ónus da perda de poder da Igreja Católica, como nos explica n' «O alarme do palhaço de Kierkegaard». Nesta opinação, JCN, muito magoado com os media nacionais por não terem anunciado com as devidas pompa e circunstância as preparações para o «Congresso Internacional para a Nova Evangelização», lançou-se na construção de um cenário completamente obtuso - embora para JC das Neves «nem é bizarro»-, assente num suponhamos «que dentro de décadas toda a gente pense que a ciência é uma actividade sinistra, enganadora, perigosa».

Neste cenário, «O uso de tecnologias por terroristas, os infindáveis debates académicos, as dúvidas sobre teorias estabelecidas» fará com «que aquilo que agora é tomado como sólido e básico, referência fundamental da vida contemporânea, venha daqui a uns anos a ser atacado, desprezado e vilipendiado». Claro que é completamente idiota pensar que «a confiança absoluta que temos no conhecimento científico» seja minada porque daqui a pouco tempo os displays de plasma ou LCD’s, ou os processadores vendidos como a última palavra da tecnologia e avanço científico, serão substituídos por displays flexíveis e processadores mais rápidos! Ou porque doenças hoje consideradas incuráveis deixarão de o ser!

Mas aparentemente os «infindáveis debates» científicos, baralham o «presciente» JC que prefere coisas mais dogmáticas que não obriguem a dar uso aos neurónios e, por exemplo, devotou outro artigo a bater em António Damásio porque o cientista considera as religiões criações dos homens.

Para contestar Damásio, JCN argumentou com o facto de metade da população mundial acreditar numa das três religiões do livro e, se lhe juntar os crentes das outras religiões, apenas 20% não são crentes. E concluiu em êxtase místico: «Mostrar com toda a certeza científica, que 80% da Humanidade está errada seria um feito sublime na história do conhecimento». Nem se lembrou de que esse feito foi cometido por Galileu, por Einstein e por tantos outros cientistas para quase 100% da Humanidade, embora o primeiro sofresse em consequência os dissabores conhecidos.

Ou talvez se tenha lembrado, já que o fazedor de opinião do Diário de Notícias fez um dos seus ataques mais inanos à ciência quando terminava o ano Internacional da Física, que celebrava o centenário do Annus Mirabilis de Einstein. Aparentemente o professor estava um pouco baralhado quando debitou a opinação porque não só Einstein não «concebeu em 1905, quase de raiz, a mecânica quântica» como praticamente até à sua morte manteve um conflito permanente com a mecânica quântica - cuja expressão mais conhecida é o artigo que escreveu em 1935 com Podolsky e Rosen, que propunha demonstrar a grande inconsistência da MQ.

Como em muitos outros artigos, JC das Neves tentou incutir nos leitores a dúvida sobre a bondade do conhecimento científico, lançando-se em efabulações sobre a vontade de Einstein em «desaprender» ciência, supostamente por causa da bomba atómica. Teria sido útil ao spin doctor do DN ler qualquer coisinha sobre Einstein, nomeadamente a resposta de Einstein a um historiador que o interrogava exactamente sobre isso:

«Sugere que em 1905 eu devia ter previsto a possível construção de bombas atómicas. Tal era impossível, dado que a possibilidade da reacção em cadeia dependia da existência de dados empíricos que não podiam ter sido antecipados em 1905… E mesmo que tal conhecimento estivesse disponível, teria sido ridículo tentar esconder uma conclusão particular da teoria da relatividade restrita. Uma vez que a teoria existia, a conclusão existia».

Imediatamente antes do final apoteótico (ou apopléctico?) do referido artigo, que carpe ter a ciência substituido a religião nas respostas às questões da humanidade e sugere que a ciência é mortal (!?) para o homem, J. C. das Neves tem um lapso de lucidez. Não obstante ter indicado o «culpado» errado, a sua análise do problema dos tempos modernos está certa: esta nova fase místico-religiosa traduz-se no crescimento do «desprezo pela atitude racional e avança o misticismo e a magia, prosperam os charlatães e a mixordice intelectual». Mas diria que as suas opinações são parte do problema e não da solução, ou antes, são mixordices intelectuais que, se forem lidas como prosa séria e não anedótica, propiciam «uma cultura em que o 'wishful thinking' é mais importante que a verdade, uma sociedade em que tudo o que se diga três vezes é verdade e não se olha para os factos».

quarta-feira, 9 de julho de 2008

"Como Resolver Problemas Matemáticos"


Como post convidado e agradecendo a autorização ao autor e editores, publicamos o prefácio de João Filipe Queiró, professor de Matemática da Universidade de Coimbra, ao interessante livro que foi há pouco lançado no Encontro Nacional da Sociedade Portuguesa de Matemática: "Como resolver problemas matemáticos - Uma perspectiva pessoal", de Terence Tao, Sociedade Portuguesa de Matemática e Texto Editores, 2008 (na imagem Terence Tao):

Em 22 de Agosto de 2006, em Madrid, o Rei de Espanha entregou a medalha Fields ao matemático australiano Terence Tao, no primeiro dia do 25º Congresso Internacional de Matemática. Para a maioria dos leitores este será um prémio obscuro. Outros terão ouvido dizer que é algo como o prémio Nobel da Matemática. Na verdade, a medalha Fields é muito mais difícil de obter do que o prémio Nobel. Em primeiro lugar, é atribuída nos Congressos Internacionais de Matemática, e estes realizam-se apenas de quatro em quatro anos. Em segundo lugar, só pode ser candidato à medalha Fields num Congresso quem não tiver completado 40 anos até ao fim do ano anterior ao da realização do Congresso. Ou seja: a medalha Fields, destinada a reconhecer trabalhos matemáticos excepcionais, é um prémio para pessoas relativamente jovens. Por exemplo, Andrew Wiles, que nos anos 90 demonstrou o “Último Teorema de Fermat”, recebeu muitos prémios, mas não a medalha Fields, por causa da idade.

Os premiados com a medalha Fields são escolhidos por comissões nomeadas pela União Matemática Internacional. Os nomes dos membros dessas comissões, desde que a medalha foi atribuída pela primeira vez, formam uma lista que é um verdadeiro who’s who da Matemática mundial no século XX.

As primeiras duas medalhas Fields foram entregues em 1936, no Congresso de Oslo. As duas seguintes em 1950, em Paris. A partir de 1966, o número máximo de medalhas a atribuir em cada Congresso subiu para quatro e, desde então, o número de premiados tem variado entre dois e quatro (o total é de 48 em 70 anos). Em Madrid foram quatro: além de Terence Tao, Andrei Okounkov, Wendelin Werner e Grigori Perelman. Na altura, os media de todo o mundo encheram-se de notícias sobre um dos medalhados, Grigori Perelman, não tanto pelas contribuições científicas como pelas suas características pessoais, algo excêntricas, que culminaram na recusa da medalha.

Nas semanas anteriores ao Congresso de Madrid, Perelman era uma aposta óbvia para a medalha, por ter provado a famosa conjectura de Poincaré. Mas também a medalha de Tao era mais do que esperada, pelos resultados espectaculares em várias áreas que tinha obtido nos anos anteriores. A um colega que – apostando ele próprio em Perelman e Tao – me desafiou para uma opinião respondi que seriam dadas quatro medalhas: uma a Perelman e três a Tao. A razão era simples: Tao era autor não de um mas de vários trabalhos matemáticos excepcionais, alguns dos quais resolvendo problemas antigos e difíceis.

A citação oficial que acompanhou a atribuição da sua medalha explicita algumas dessas contribuições. A primeira, e a mais famosa, é um trabalho sobre números primos. Há muito tempo que se observou que a sucessão dos números primos contém progressões aritméticas – isto é, sequências em que a diferença entre cada número e o seguinte é constante – de vários comprimentos. Por exemplo, 3, 5, 7 é uma progressão aritmética de comprimento três. Outra é 3, 7, 11. É muito difícil encontrar progressões aritméticas nos primos, e a maior que actualmente se conhece tem comprimento 24. O que Tao provou, em colaboração com Ben Green, foi que, na sucessão dos números primos, existem progressões aritméticas de qualquer comprimento (a demonstração não é construtiva, isto é, não exibe explicitamente tais progressões).

A segunda contribuição referida refere-se a trabalhos de Tao sobre o problema de Kakeya, outra questão famosa que começa com uma pergunta muito simples: se num plano fizermos uma agulha rodar 180º (continuamente e admitindo translações), qual é a menor área possível percorrida pela agulha? Este problema está resolvido há 80 anos (faça o leitor algumas experiências, e depois informe-se sobre a solução, que é muito surpreendente.) Tao investigou profundamente a generalização do problema para n dimensões, que tem ligações com importantes áreas da Matemática.

A terceira e a quarta contribuições de Tao mencionadas na citação oficial são trabalhos mais próximos da Física, respectivamente sobre relatividade geral e versões não lineares da equação de Schrödinger.

No fim da citação é referido outro trabalho notável de Tao: em colaboração com Allen Knutson, ele resolveu completamente, usando técnicas combinatórias, o problema da descrição dos valores próprios possíveis da soma de duas matrizes simétricas quando se conhecem os respectivos valores próprios. Este trabalho, conjugando resultados anteriores de Andrei Zelevinsky e Alexander Klyachko, permitiu responder afirmativamente a uma conjectura que Alfred Horn fizera em 1962.

Com dois colegas de Coimbra, passei bastante tempo, nos anos 90, a pensar na conjectura de Horn. Tendo feito alguns progressos, e tendo sabido da importante contribuição de Klyachko, decidimos organizar um encontro em Coimbra sobre o assunto, no Verão de 1999. Já a organização estava em andamento quando soubemos, em finais de 1998, dos resultados espectaculares de Knutson e Tao. Logo os convidámos a vir participar no encontro. Ainda me lembro da mensagem que enviei a Tao, que começava com “Dear Professor Tao”. Não sabia então que, do outro lado do correio electrónico, em Los Angeles, estava um jovem de 23 anos, doutorado aos 20. Ele acabou por me dizer que não podia vir, mas estiveram no encontro Zelevinsky, Klyachko e Knutson, os outros protagonistas do assalto final à conjectura de Horn.

Tao tem mais trabalhos de grande impacto. Uma investigação cujas consequências poderão um dia chegar às mãos do leitor é a que realizou, em colaboração com Emmanuel Candès, sobre técnicas de compressão de imagens ou, mais geralmente, sobre a substituição inteligente – com uma nova técnica a que chamaram compressed sensing – de enormes colecções de dados por conjuntos mais pequenos contendo o essencial da informação. Uma aplicação possível – em relação à qual o próprio Tao é um pouco céptico – será à concepção de máquinas fotográficas digitais com um processamento das imagens mais eficiente.

Sobre Terence Tao já muito foi escrito, em particular sobre a sua extraordinária capacidade para resolver problemas difíceis em áreas muito diversas, normalmente em colaboração com especialistas nessas áreas. A citação da medalha Fields fala mesmo de “um engenho do outro mundo” e de “um ponto de vista surpreendentemente natural que deixa outros matemáticos a perguntar: porque é que ninguém se lembrou daquilo antes?”. A página de Tao na Internet é um prodígio de criatividade e transmissão de ideias novas, que vale a pena consultar (incluindo um blog matemático mantido com regularidade, tanto em posts como em respostas a comentários e perguntas): por alguma razão já lhe chamaram o “Mozart da Matemática”.

Há muitos clichés sobre os grandes matemáticos e a sua vida. Mas mesmo quem, como eu, não conhece Tao pessoalmente, facilmente se apercebe, por entrevistas e testemunhos, de que se trata de uma pessoa com uma vida normal, consciente dos seus talentos invulgares mas usando-os naturalmente – ele próprio gosta de insistir que o essencial em Matemática é o trabalho – e relacionando-se com maturidade e sem excentricidades com o mundo à sua volta.

Só depois do convite frustrado a Tao me apercebi de que se tratava da mesma pessoa que ficara famosa muito antes, em 1988, ao ganhar uma medalha de ouro nas Olimpíadas Internacionais de Matemática – uma competição extremamente exigente pensada para jovens no fim do Ensino Secundário – com 13 anos de idade e na sua terceira participação (em 1986, ainda antes de completar 11 anos, ganhara uma medalha de bronze, e em 1987 uma de prata).

Tanto Tao como os seus dois irmãos foram crianças e jovens excepcionalmente brilhantes e precoces, tendo sido acompanhados pelos melhores especialistas mundiais nesses casos. Terence, em particular, teve um percurso escolar delineado com cuidado pelos seus pais (uma professora de Matemática e um pediatra emigrados de Hong Kong para a Austrália) que lhe permitiu um progresso acelerado na disciplina de Matemática.

Aos 15 anos, já depois das suas três participações nas Olimpíadas Internacionais de Matemática, escreveu o livro que o leitor tem nas mãos. Nele coligiu vários problemas de Matemática, que organizou tematicamente em quatro capítulos, mais um com exemplos diversos (nomeadamente de combinatória). Antes dos quatro capítulos principais – sobre teoria dos números, álgebra e análise, geometria euclidiana, e geometria analítica – há um interessante capítulo sobre “Estratégias de resolução de problemas”, onde o autor analisa, com exemplos, vários princípios e regras gerais para abordar e resolver problemas de Matemática: compreender o problema, compreender os dados e o objectivo, escolher símbolos adequados, escrever o que se sabe, modificar o problema, ir provando alguma coisa, etc.

Numa entrevista que deu em 2006, Tao afirmou: “Quando eu era criança, tinha uma ideia romântica da Matemática, a ideia de que os problemas difíceis eram resolvidos em momentos ‘Eureka’ de inspiração.” Depois, acrescentou: “Hoje, comigo, é sempre assim: ‘Vamos tentar esta ideia. Isso leva-me a algum progresso, ou então não funciona. Agora tentemos aquilo. Oh, há aqui um pequeno atalho.’ Trabalhamos durante tempo suficiente e, a certa altura, conseguimos progredir num problema difícil entrando pela porta das traseiras. No final, o que normalmente acontece é: ‘Olha, resolvi o problema.’” É este tipo de atitude e de estratégia que está presente logo no primeiro capítulo do livro.

Os problemas que Tao analisa ao longo desta obra são do tipo dos que se encontram nas Olimpíadas de Matemática: são elementares no que se refere ao nível dos conhecimentos matemáticos necessários, mas exigem reflexão e engenho para a sua resolução. Com grande clareza, Tao explica como resolver os problemas seleccionados, discute estratégias, exemplifica truques comuns. Depois inclui, como exercícios, problemas que o leitor pode e deve experimentar por si mesmo.

O público para um livro destes é formado por quaisquer pessoas, em particular jovens, que gostem de Matemática e estejam dispostas a fazer algum esforço mental. Essas pessoas achá-lo-ão interessante, útil e formativo.

Esqueça o leitor que o autor deste livro tinha 15 anos quando o escreveu. A idade não é importante para a Matemática. Esqueça também tudo o que sabe sobre o passado de “criança-prodígio” do autor. Os raciocínios podem ser os os mesmos para todos. Concentre-se apenas na Matemática.

A excelente tradução de “Como resolver problemas matemáticos” deve-se a Paulo Ventura Araújo, matemático da Universidade do Porto, que é autor de um bom “Curso de Geometria”.

Fala-se muito na crise do ensino da Matemática em Portugal, mas de vez em quando convém prestarmos atenção às coisas positivas. Entre elas está decerto o facto de muitos jovens portugueses gostarem de Matemática. Para esses jovens, poucos livros serão melhor escolha do que este. Leiam-no, acompanhem o jovem autor nos seus desafiantes problemas, nos seus engenhosos raciocínios, nas suas inesperadas soluções. Dificilmente poderiam estar em melhor companhia.

João Filipe Queiró

GRANDES ERROS: FONTES INVENTADAS

Esta vem a propósito do estado da nação. A 28 de Maio de 2007 o conhecido professor de Economia da Universidade Católica João César das Neves escreveu uma crónica no "Diário de Notícias", intitulada "A Caminho do Sucesso no Meio do Disparate" em que voltava, tal como em crónicas anteriores, a referir uma tal Fundação Richard Zwentzerg. Começava assim o seu escrito sobre o estado da nação:

"A Fundação Richard Zwentzerg nasceu em 1999 para estudar o atraso e subdesenvolvimento no mundo mas, logo no início da actividade, ficou fascinada com o caso de Portugal. É famoso o seu relatório de Março de 2000, O País Que não Devia Ser Desenvolvido - O Sucesso Inesperado dos Incríveis Erros Económicos Portugueses. Aí se dizia: 'Portugal fez tudo errado, mas correu tudo bem. Os disparates cometidos na sua História são enormes. Só comparáveis com o sucesso que tiveram. Nenhum outro povo do mundo conseguiu construir... e destruir tantos impérios em tantas épocas e regiões. Hoje é um país rico, mais rico que 85% da população mundial. Mas conseguiu isso violando todas as regras do desenvolvimento.'

A instituição publicou uma pequena colecção de estudos documentando a nossa realidade, até que a actual crise económica criou novo desafio. Estaria Portugal afinal sujeito às regras gerais? Iria pagar finalmente o preço dos seus muitos erros? Para responder acaba de surgir um novo estudo sobre o nosso país, após um silêncio de quase quatro anos (o anterior é de 2003 e, como todos, só é acessível no DN)." (
O resto está aqui).

Só acessível no DN? Esta frase desfaz qualquer equívoco. A dita Fundação é pura e simples invenção e o articulista quer caucionar as suas opiniões, às quais tem obviamente direito, com uma chancela internacional de prestígio. Uma rápida pesquisa na Net confirma que a Fundação é mesmo inexistente: sempre que é referida lá vem o nome do colunista seu inventor. O incrível é o número de sítios, portugueses e até brasileiros, que têm propalado os relatórios virtuais desta Fundação virtual como sendo autênticos. Comentam-nos e tudo, como se fossem a sério. Na leitura da Internet o espírito crítico fica demasiadas vezes de fora!

Podia pôr mas não ponho em causa as opiniões veiculadas. Mas ponho em causa o modo como são veiculadas. Poder-se-á dizer que o "truque" tem graça. A princípio achei graça. Mas depois, pensando bem, achei que não tinha grande piada porque se tratava e trata pura e simplesmente de enganar pessoas incautas, o que me parece errado. Esta história, não sei porquê, fez-me lembrar a das pipocas aquecidas com telemóveis, em que toda a gente acreditou pois estava na Internet...

Biocombustíveis e aumento de preços


Um relatório confidencial do Banco Mundial conclui que os biocombustíveis são responsáveis por 75% do aumento dos preços dos alimentos a que temos assistido a uma escala global.

No relatório a que o Guardian teve acesso, foi feita uma análise exaustiva por um especialista do BM que indica sem sombra de dúvidas a ligação entre biocombustíveis e o aumento exponencial do preço dos cereais. Segundo o economista do BM, as razões para este aumento assentam no desvio de cada vez mais terra e cereal para a produção de biocombustíveis e na especulação financeira provocada por esta nova utilização dos cereais. O relatório menoriza as razões apontadas por alguns responsáveis políticos, nomeadamente G. W. Bush, para o aumento dos preços, como sejam o aumento do consumo em países em desenvolvimento, na China e na Índia, ou problemas nas colheitas devido a factores ambientais, a seca na Austrália, por exemplo.

E de facto, nos últimos tempos o Banco Mundial tem sido fértil em avisos sobre os riscos dos biocombustíveis, nomeadamente no encontro do G8 que decorre no Japão, onde o tema figura proeminente na agenda. Também o Inter-Governmental Panel on Climate Change (IPCC) se tem debruçado sobre estes riscos, nomeadamente nos sues efeitos a nível de alterações climáticas em consequência da desflorestação decorrente da produção massiva de etanol e óleo de palma.

De acordo com o Guardian, o relatório, que está pronto desde Abril, não foi publicado para não embaraçar o presidente norte-americano e não colocar pressão sobre o seu governo, que pretende incorporar 10% de biocombustíveis na gasolina e gasóleo até 2020. De igual forma, o relatório pressionaria os governos europeus já que é igualmente meta da UE ter em 2020 10% do combustível obtido de fontes renováveis.

Espera-se para breve o relatório britânico sobre o impacto dos biocombustíveis, o Gallagher Report que, novamente de acordo com o Guardian, obrigará os países desenvolvidos a repensar as respectivas políticas em relação aos biocombustíveis de primeira geração. Podemos apenas esperar que com todos estes avisos os responsáveis mundiais despertem para os efeitos dramáticos, há muito previstos, destas políticas. E esperemos que esta consciencialização permita remediar pelo menos os efeitos do que a FAO (a agência da ONU para a alimentação) chamou «o tsunami silencioso» que empurrou para a fome mais de 100 milhões de pessoas.

Posts sobre o tema no De Rerum Natura:

Biocombustíveis e Sustentabilidade
Ecologia e biocombustíveis
Biocombustíveis podem agravar aquecimento global
Ler os outros: Um futuro menos verde do que se pensa
Biocombustíveis e o aumento do preço dos cereais
SEPARAR O TRIGO DO DIESEL

Adenda: O relatório Gallagher sobre biocombustíveis já está disponível (formato pdf) assim como um relatório do International Institute for Environment and Development, (formato pdf). Ambos os relatórios são muito críticos do que Jeremy Hobbs, director executivo da Oxfam International, apelida de queima de alimentos nos motores de carros.

terça-feira, 8 de julho de 2008

E os perigos do ensino privado?

Jorge Carreira Maia faz uma boa crítica à minha crónica de hoje no Público. Invoca Condorcet (1743–1794), que foi um dos defensores do ensino universal. Como John Stuart Mill (1806–1873) e outros filósofos que defenderam o ensino universal, Condorcet estava perfeitamente ciente dos perigos do controlo estatal do ensino e por isso distinguia cuidadosamente educação de instrução. A instrução seria o ensino de conteúdos e competências sem carga ideológica, ou com o mínimo possível de carga ideológica; no caso da história, por exemplo, seria o ensino tão objectivo quanto possível da história, e não de uma leitura ideológica da história. A educação, pelo contrário, competiria exclusivamente à família e não ao estado, precisamente porque envolve muito mais além dos conteúdos e competências independentes de opções pessoais, ideológicas, religiosas ou partidárias.

A distinção de Condorcet (que Mill também faz no livro Sobre a Liberdade, que toda a gente devia estudar cuidadosamente) é sistematicamente violada por todos os estados e sempre o foi. É como ter o monopólio da imprensa, ou um quase monopólio, e ter a esperança de que o estado use esse poder de modo sábio e prudente. Isso é pura e simplesmente impossível.

No séc. XVIII, e até ao séc. XIX, defender o ensino controlado pelo estado era a única maneira de conseguir efectivar o ensino universal. É hoje difícil ter consciência de que a generalidade das pessoas bem pensantes, até ao séc. XX — o que incluía os funcionários do estado — considerava a ideia de ensino universal um completo disparate: os pobres ignorantes eram pobres e ignorantes por serem estúpidos, pelo que tentar ensinar-lhes física e história era visto como absolutamente ridículo; era como tentar ensinar um cão a compor sinfonias.

Historicamente conseguiu-se conquistar o ensino universal por diversas razões, e nem todas angélicas: os industriais precisavam de empregados instruídos, e sem essa necessidade talvez o ensino universal fosse ainda hoje uma miragem. Na verdade, ainda hoje quase todas as pessoas que se manifestam publicamente sobre o ensino mostram que a sua preocupação central é com o efeito económico negativo da falta de qualidade do ensino; não mostram qualquer preocupação, geralmente, com o facto de o ensino em si ser a actividade de pôr os seres humanos em contacto com o conhecimento, que tem valor em si, independentemente de ter valor instrumental (que também tem).

Na verdade, é esta instrumentalização do ensino que mostra que o sonho de Condorcet é impossível: se o estado detiver o monopólio do ensino, irá inevitavelmente instrumentalizá-lo. As opções curriculares, os conteúdos e as competências eleitos como centrais não o serão em função das reais necessidades e vontades das pessoas, mas em função de visões políticas discutíveis, geralmente mal pensadas e fantasiosas. Usando os conceitos de Condorcet, os governantes usam o estado para controlar a instrução, transformando-a em educação: para moldar a sociedade do futuro, controlando as mentalidades — uma gloriosa psicofoda.

O objectivo do meu artigo é chamar a atenção para o facto de que hoje o ensino universal é um dado adquirido. E por isso não precisa já de ser público; pode ser privado. Outra coisa é saber como fazer isso. Os intelectuais portugueses têm uma desconfiança instintiva do sector privado, em parte talvez porque são eles mesmos funcionários públicos e têm dificuldade em conceber que se possa viver do ensino e da investigação, dos livros e da cultura, sem ser com as esmolas do estado. Esta desconfiança limita-se a trair o facto de o nosso país ser tão centralista que quase toda a gente que trabalha na "indústria do conhecimento" (para usar a única terminologia que algumas bestas compreendem) trabalha à sombra do estado. Mas pensar que esta é a única forma de organização social é tão provinciano como pensar que sem o monopólio dos jornais por parte do estado ninguém estará interessado em fazer e financiar jornalismo de qualidade.

Na verdade, a qualidade do ensino é geralmente inversamente proporcional ao controlo estatal exercido sobre o mesmo. Algumas das melhores universidades do mundo são instituições privadas norte-americanas; as universidades alemãs, que serviram de modelo à criação das universidades norte-americanas nos anos trinta, quarenta e cinquenta do séc. XX, eram públicas mas absolutamente autónomas em relação ao poder político. As universidades britânicas são todas públicas, mas até muito recentemente eram como as alemãs eram: tinham completa autonomia. Hoje, vivem afogadas em controlos burocráticos, pelo que a sua qualidade irá inevitavelmente cair. A autonomia universitária é tanto mais impossível quanto mais dinheiro o estado investe nelas; enquanto o ensino universitário era uma coutada de ricos, o estado não tinha qualquer interesse no controlo das mentalidades porque aquelas pessoas em qualquer caso já tinham a mentalidade que o estado queria que elas tivessem. Mas quando o ensino se universaliza, o estado não pode já correr o risco de ter pessoas a pensar autonomamente e ainda por cima instruídas.

Finalmente, note-se que do facto de o ensino ser privado não se segue que visa o lucro. Pode visar o lucro, mas não tem de o visar. Podem ser cooperativas de professores, que visam exclusivamente gerar o dinheiro necessário para se sustentarem.

Em todo o caso, os jornais privados visam o lucro, mas nem por isso são todos de péssima qualidade e muitos são de muito melhor qualidade do que seriam se fossem públicos. Quando uma instituição de ensino visa o lucro, significa apenas que há um conjunto de investidores por detrás da instituição que querem dividendos. Mas se forem investidores inteligentes sabem que a melhor maneira de garantir dividendos é deixar o ensino entregue a quem sabe ensinar: os professores. Tal como os investidores dos jornais sabem que têm de deixar o jornalismo aos jornalistas.

Haverá boas e más escolas, se forem todas privadas? Sim. Mas também há boas e más escolas sendo todas ou quase todas públicas. E não há qualquer razão para pensar que as piores escolas privadas serão piores do que as piores escolas públicas, ao passo que há todas as razões para pensar que a média da qualidade das escolas, se forem todas independentes do estado, será muitíssimo superior ao que acontece hoje, em que todas as escolas são ideologicamente controladas pelo estado. Que razões são essas? O simples facto de se introduzir dinamismo e liberdade no ensino; diferentes escolas farão diferentes apostas, as mais bem-sucedidas serão copiadas, as outras desaparecem, porque as pessoas tentam escolher o melhor para os seus filhos.

A CRIATURA


Há quem lhe chame o "monstro", mas pode também ser o "rinoceronte". Início da crónica de Helena Matos no "Público" de hoje:

"O Ministério da Educação está prestes a tornar-se no rinoceronte dos nossos tempos. Só lhe falta arranjar um Dürer que o retrate ou um Fellini que o conte. O rinoceronte, um animal algures entre o fantástico e o pestilento, foi um dos animais que D. Manuel entendeu enviar ao Papa para que, no exotismo da criatura, Leão X visse as óbvias razões que levavam o monarca português a dizer-se Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia. Séculos mais tarde, um rinoceronte foi também o ser vivo que Fellini escolheu para albergar nas entranhas daquele navio, alegoria dum mundo agonizante e cobarde. E agora só o rinoceronte, com aquele ar encarapaçado de quem graças a um erro veio das profundezas do tempo, é capaz de dar conta da estranha criatura que se alberga nas entranhas da 5 de Outubro. A criatura, tal como os rinocerontes de D. Manuel e de Fellini, sobrevive mesmo quando tudo o mais vai ao fundo."

"Um diploma para todos… é um diploma para ninguém"


O texto do Desidério Erros e mentira política, toca num problema fundamental da educação escolar na contemporaneidade: o valor do conhecimento.

Os discursos em torno dos exames não fogem a este problema. Quando discutimos a sua pertinência, as suas funções e técnicas, estamos, explicita ou implicitamente, a atribuir (ou a recusar) valor intrínseco e/ou instrumental aos conhecimentos que a escola tem por missão veicular.

A este propósito lembrei-me do livro de François de Closets, A felicidade de aprender e como ela é destruída (Lisboa: Terramar), publicado entre nós em 2003, do qual retiro a seguinte passagem (páginas 297-298):

"Nos últimos cinquenta anos, a educação em França tem sido uma prioridade nacional. Tem estado no centro de um debate permanente, marcado aqui e além, por confrontos apaixonados. Foi objecto de múltiplas reformas (quase sempre abortadas). Beneficiou de orçamentos gigantescos e cada vez maiores.

Como foi possível que um tal investimento, acompanhado de um empenhamento tão constante, redundasse na perda total da felicidade de aprender, uma perda que foi crescendo à medida que a instrução se foi difundido. Como foi possível que a cultura se fosse fossilizando à medida que a escolaridade aumentava e se ia generalizando? Estas questões não servem de balanço. Limitam-se a apontar a dedo o passivo de todo um sistema. Porque há, é preciso dizê-lo, um activo. Os cidadãos frequentam durante mais tempo a escola, acumulam uma abundante caterva de diplomas. São contrapartidas apreciáveis. Simplesmente, não é isso o que mais importa. O que importa é que foi feita, ao nível da educação uma aposta utilitária, para não dizer utilitarista, com o objectivo de fornecer às nossas crianças instrumentos para enfrentar o mundo em crise, porque esse é o estado do mundo que lhe vamos deixar. É legítimo, pois, que nos perguntemos se a opção que fizemos foi a mais acertada (…).

De reforma em reforma, procurou-se obstinadamente dar corpo a um sonho democrático e cultural – que todas as crianças dispusessem de iguais oportunidades para se instruir e cultivar (…). Mas (…) a ambição cultural foi abafada pela pressão social. Milhões e milhões de actos individuais foram deslocando o sistema até o fazerem coincidir com o seu pólo utilitarista, transformando o saber num instrumento, e não numa finalidade (…).

Viu-se na escola um remédio contra a crise e, postos perante a alternativa – sucesso ou desemprego –, fizeram a pior das escolhas (…). O que sobra quando tudo o mais tiver sido esquecido não é a cultura, é o diploma. Podemos lamentar uma tal aposta, não podemos contestá-la… desde que as premissas de que parte sejam exactas, a saber, que o sucesso na vida depende do sucesso escolar. Se admitirmos essa premissa, temos de admitir a principal das suas consequências – o abandono da educação em proveito exclusivo da competição.

Em contrapartida, se essa premissa (que tomamos por uma evidência) se revelasse ser, uma vez mais, um erro (na ocorrência, o erro mais partilhado por toda a gente), se os diplomas, por hipótese, não passassem de remédios ilusórios, neste caso, a opção tomada teria sido uma gigantesca farsa, uma sinistra floresta de enganos. Temos, assim, de desfazer essa última dúvida. Temos de saber se valeu a pena termos queimado a cultura num gigantesco auto-de-fé, se a fogueira ateada era o necessário (embora sacrílego) contra fogo.

No centro do debate, encontra-se, pois, o diploma-rei. Comportamo-nos como seus leais súbditos, apesar de nem sempre nos aperceberemos do papel central, ditatorial que desempenha na nossa sociedade. E a questão-chave reside justamente nessa centralidade. O diploma é uma necessidade incontornável dos tempos modernos, ou é tão-só uma quimera (…)?"

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Exames e mentira política

Quase todos os observadores portugueses parecem convencidos de que os exames nacionais são uma mentira política. Há três tipos de indícios de que os actuais exames são realmente uma mentira política: a obsessão dos altos responsáveis do Ministério da Educação pelo que chamam “sucesso escolar” (que para eles quer dizer apenas “transitar de ano” e não “dominar os conteúdos relevantes”); resultados estatisticamente muito desviantes relativamente a anos anteriores; e perguntas de pacotilha, tão evidentemente fáceis que estudantes médios do 9.º ano respondem correctamente a perguntas de exames do 11.º ano.

O que importa esclarecer é a razão de ser desta mentira política. É importante recordar que os exames são um legado do ex-ministro David Justino, que se bateu corajosamente por eles, contra os técnicos do seu próprio ministério. Surpreendentemente para os actuais dirigentes ministeriais, a sociedade não só acolheu a ideia de David Justino de que era necessário reintroduzir os exames, como condenou a primeira tentativa da actual equipa ministerial para cancelar os exames (acabaram por cancelar apenas um exame, o de filosofia, e por desvalorizar os exames do 9.º ano, atribuindo-lhe um peso irrelevante — o que significa que os alunos podem reprovar nos exames, mas transitar de ano).

Assim, por diferentes razões, a actual equipa ministerial convive mal com os exames; sabe que não pode eliminá-los, mas não quer realmente os exames. Por isso, procura tanto quanto possível retirar aos exames o papel que tanto o ex-ministro David Justino como a sociedade portuguesa querem que os exames tenham: o papel de estimular os professores a dar melhores aulas, e de estimular estudantes e famílias a dar mais atenção e importância ao estudo. Os exames são instrumentos cruciais para estimular a excelência educativa.

As razões que a ministra e os dirigentes do ministério têm contra os exames não coincidem contudo com as razões que os técnicos do ministério também têm contra os exames.

Para a ministra e os dirigentes do ministério, os exames são uma pedra no sapato na mentira política que andam há anos a tentar efectivar: fingir sucesso escolar através de estatísticas fantasiosas, impor o facilitismo para que os estudantes culturalmente mais pobres tenham “sucesso”. (Claro que o resultado disto é a discriminação social, pois são precisamente os estudantes culturalmente mais pobres que precisam de ensino de alta qualidade, e não os outros, que se safam seja o ensino como for.)

Para os técnicos do ministério, contudo, as razões são outras: são puramente ideológicas. Alimentados no leite de teorias pedagógicas cientificamente falsas e baseadas em pura confusão conceptual, estes técnicos querem uma Escola Nova, na qual se brinque todo o tempo, porque pensam que o ensino tradicional é opressor. Estes técnicos não encaram o conhecimento como um fim em si, mas meramente como um instrumento político para mudar a sociedade, transmitindo os ideais sociais que eles decidiram que as crianças e jovens têm de absorver sem pensar muito. A matemática em si, por exemplo, não tem para estes técnicos qualquer valor intrínseco; serve apenas ou para oprimir os estudantes (na escola tradicional) ou para libertar a sociedade (na Escola Nova), transformando-a em instrumento para a construção de uma sociedade nova. Quando se encara a escola deste modo, os exames são uma ameaça constante, porque os partidários da Escola Nova não se atrevem a tornar público o tipo de tolices ideológicas que querem que os estudantes decorem, sabendo que a sociedade não as aprovaria. Mas sem exames, os professores podem ensinar fantasias em vez de química, e ninguém vai saber realmente o que se passa, porque tudo se faz à porta fechada.

Sem esta infeliz coincidência, não seria possível aos dirigentes ministeriais impor a sua mentira política ao país, pois não são eles que controlam directamente o grau de dificuldade dos exames, por exemplo. Também os técnicos ministeriais que supervisionam directamente os exames não poderiam boicotá-los tão abertamente caso os dirigentes ministeriais fossem favoráveis aos exames. Infelizmente, uns e outros podem transformar os exames numa mentira política, porque uns e outros odeiam os exames, por razões diferentes.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...