
Minha crónica do "Público" de hoje:
É impossível separar o trigo do diesel uma vez que, para cultivar cereais, são precisos combustíveis. Assim como são precisos combustíveis para transportar os cereais e transformá-los em alimentos.
Ora, os preços dos cereais aumentaram muito no último ano (muitíssimo nos últimos meses!), pelo que os alimentos estão, pelo planeta fora, a faltar. Nos Estados Unidos o diesel nas bombas subiu, no último ano, de 129 por cento. Mas isso não chega para explicar o aumento do preço do trigo, que no mesmo país, ascendeu 90 por cento só no último mês. O preço do trigo nunca esteve tão alto. As reservas de trigo nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, estiveram tão baixas. O mesmo ou algo semelhante se passa com outros cereais. E passa-se em todo o mundo e não só na América. Começa a haver a ameaça de fome generalizada, que já tem originado rebeliões populares, no Bangladesh, no Egipto, na Indonésia, etc. No Haiti até já caiu o governo por causa do preço da comida. A globalização faz com que uma borboleta que bata as asas no Brasil cause uma tempestade no Texas, para usar a imagem de Edward Lorenz, o teórico do caos.
Que outros factores inflenciam a subida vertiginosa dos preços dos cereais? Há um aumento da procura, o que tem a ver com a subida dos padrões de vida, nomeadamente em países como a China e a Índia. E há questões climáticas, como, por exemplo, uma seca prolongada num país grande exportador de cereais como a Austrália. Claro que também há especulação. Mas há um factor essencial que está a ser cada vez mais discutido: a redução das áreas cultivadas para fins alimentares em benefício dos biocombustíveis. Deixou-se de se plantar trigo para se plantar soja, que dá biodiesel, para misturar no diesel, ou para se plantar milho, que dá bioetanol, para misturar na gasolina. As novas plantações de soja e de milho não são para abastecer os supermercados, mas sim para fazerem andar os carros e os camiões. Quer dizer: o trigo e o diesel estão mais ligados do que poderia parecer.
Tem havido uma enorme pressão internacional para incorporar produtos de origem vegetal nos combustíveis. A União Europeia fixou para 2020 a incorporação de dez por cento de produtos de origem vegetal nos combustíveis para transporte. Portugal, como “bom aluno”, apesar de estar bastante atrasado, quer antecipar essa meta para 2010. A Galp, além de ter participação no petróleo do Brasil, tem participação em grandes plantações nesse país e em África (as empresas mais sujas querem limpar a imagem, aparecendo com o look de empresas verdes). O argumento é que a emissão de dióxido de carbono devida à queima dos combustíveis pelos veículos seria compensada pela absorção de dióxido de carbono que as plantas fazem quando crescem. Mas saber-se-á isso de ciência certa?
Não. A revista Science publicou em Fevereiro passado dois estudos que contestam esse pressuposto. Acontece que a produção agrícola para criar biocombustíveis, feitas bem as contas, produz dióxido de carbono que, juntamente com o que surge com a queima do combustível “bioaditivado”, é muito mais do que o que é absorvido pelas plantas. E há mais críticas aos biocombustíveis. Para atingir as metas impostas será preciso reconverter extensas áreas de solos, com graves prejuízos ambientais. Além disso, o norte-americano David Pimentel, professor de Ecologia na Universidade de Cornell (de origem portuguesa), tem defendido desde há muitos anos que os biocombustíveis nem sequer são energeticamente eficientes, isto é, gasta-se mais energia a fazê-los do que se obtém no final à custa deles.
A continuar assim, a Terra poderá estar à beira do abismo. Mas, em vez de dar o proverbial passo em frente, pode ainda recuar. Organismos mundiais como as Nações Unidas estão a lançar um forte SOS. O governo britânico já vai de marcha atrás e a União Europeia irá provavelmente rever os seus planos. E há males que vêm por bem: o “bom aluno” Portugal ainda bem que se atrasou no trabalho de casa, pois esse trabalho agora vai ser outro.
Mas as causas não se esgotam no que disse.
ResponderEliminarAliás os biocombustíveis não são, ainda, a principal causa do aumento de preços.
Na sua análise falta o factor mais importante. Os inúmeros anos que os preços dos cereais estiveram nos mínimos absolutos. Isto fez com que a área cultivada mundial diminuisse gradualmente.
A agricultura não é uma linha de montagem automóvel que arranca com o premir de um botão ou que aumenta a produção com um simples rodar de um potenciómetro.
Enquanto que as produções diminuiam, também diminuiam os stocks.
A estratégia dos Bio Combustiveis, pensada pelo movimentos ecologistas, encontrou eco no políticos que viram nela a hipótese de resolver dois problemas.
O abandono da agricultura;
Diminuir a chantagem árabe sobre o ocidente.
Nessa altura parecia ser uma boa ideia, pois não havia problemas de fome no mundo e além disso, sempre se aumentava a popularidade junto dos ecologistas.
Como aliás atrás disse, a agricultura não é uma linha de montagem, vai demorar a arrancar, pelo que os próximos 4 anos vão ser dificeis.
Já reparou que esta questão dos Biocombustiveis só começou no dia seguinte a Bush ter anunciado a sua estratégia?
Antes era tudo rosas, apartir daí passou a ser tudo negro.
Nem todos os combustíveis são iguais. É certo que produzir bioalcool a partir do milho é muito pouco eficiente, mas a partir da cana de açúcar já é outra coisa.
ResponderEliminarPor outro lado a planta mais usada para elaborar biodiesel é a soja, e a soja precisa de climas quentes. Porém o trigo pode ser cultivado em climas bastante mais frios do que a soja.
Na minha humilde opinião os biocombustíveis jogam um papel pouco importante, na actual carestia dos produtos agrícolas. Entre outras coisas porque até o momento há mais projectos que realidades.
Vários erros, graves para um cientista:
ResponderEliminar- dizer que os biocombustíveis são um factor essencial na presente crise alimentar; isso está desmentido por diversos estudos, relatórios e declarações, nomeadamente de altos responsáveis da UE. Uma boa análise é a recentemente publicada na The Economist, "The new face of hunger".
- dizer que se reduziu a área cultivada de trigo para se semear soja; não é verdade - veja-se o relatório da FAO nº 2, Abril 2008 "Crop prospects and food situation".
- dizer que não está provado que os biocombustíveis reduzam a emissão de CO2; isto então está provadíssimo! Vejam-se os estudos sobre o assunto da Agência Internacional de Energia (OCDE) e a proposta de Directiva apresentada em Janeiro deste ano pela Comissão Europeia ao Parlamento, com a quantificação da redução de emissão de CO2 para diversos biocombustíveis.
É uma enorme irresponsabilidade lançar dúvidas sobre a única alternativa ao petróleo, imediata e ambientalmente correcta, que são os biocombustíveis.
Só para referir que não é verdade que esteja "provadíssimo" que os biocombustíveis reduzam as emissões de CO2. O referido estudo da OCDE omite ou, pelo menos, não apresenta claramente os dados relativos às quantidades de CO2 emitidas para a atmosfera em consequência das queimadas em regiões arborizadas, justamente para indução de plantas convertíveis em combustível. O estudo não faz a comparação entre os "ganhos" e "perdas", já para não falar na acumulação de Nitrogéno (NO) especialmente a apartir das plantações de cana-de-açúcar.
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