segunda-feira, 16 de junho de 2008

A CIÊNCIA DOS SUPERHERÓIS


Está nas telas do cinema outra adaptação de "The Incredible Hulk" (de Louis Leterrier, 2008). Ainda não vi, mas é uma boa ocasião para reproduzir a minha crítica à versão anterior (de Ang Lee, 2003), que se encontra no meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva, 2005). Lembro, a propósito de superheróis, que o Superhomem fez há pouco 70 anos, não parecendo ter envelhecido...

Esteve nos cinemas “Hulk”, ou melhor “The Incredible Hulk”, um filme de um superherói que se seguiu a um filme de um outro superherói, “SpiderMan”, ou melhor “The Amazing Spiderman”. Tanto um filme como outro iniciaram-se nas histórias aos quadradinhos norte-americanas, os “comic-books”. Tanto “Hulk” como “Spiderman” aparecerem em 1962: o segundo, talvez mais conhecido, foi criado por Stan Lee, tendo aparecido no nº 15 da revista “Amazing Fantasy”. Em 1977 estrearam-se os dois como séries de televisão na cadeia CBS (tinha havido um pouco antes a estreia do “Spiderman” na televisão embora em em desenhos animados). Em 2003, quando os dois superheróis já tinham 42 anos, chegaram finalmente ao cinema. As películas não são muito diferentes. Nas duas há um herói capaz de fazer coisas incríveis. E nas duas essas capacidades têm a ver com a ciência, ou melhor, com alguns “desvios” da ciência. Vale a pena por isso abordar a ciência dos superheróis.

“Hulk” e “Spiderman” têm um antepassado comum que de certo modo imitam: o “Superman”, criado em 1938 (o Superhomem é quase contemporâneo da primeira observação da cisão nuclear, que é de 1939), passado ao cinema em 1948 e à televisão em 1952. O Superhomem, famoso pelo seu fato azul com um S no peito e pela sua capa vermelha, veio de Krypton, um planeta maior do que a Terra e cuja gravidade é muito maior do que a da Terra. O pai lançou-o no espaço já que o seu planeta-natal ia explodir (devido ao desequilíbrio do seu núcleo de urânio). Adoptado por uma família terrestre, o Superhomem arranjou emprego num jornal e, quando é necessário, mostra os seus superpoderes: é mais rápido do que uma bala, tem uma força sobrehumana e uma penetrante visão de raios X. Recolhe directamente energia solar. Tem apenas uma debilidade: a criptonite, material radioactivo que resultou do seu planeta e que diminui os seus superpoderes. Como se vê, a história é de ficção científica, com mais ficção do que científica: a explosão de planetas, a radioactividade, a energia solar.

Na história original do “Hulk”, Bruce Banner trabalha num projecto de bomba nuclear numa base secreta de um deserto americano. Um dia, para salvar uma pessoa, é submetido a radioactividade intensa, e sofre uma tremenda transformação: fica verde, enorme e com uma força desmedida (os sportinguistas bem gostariam de ter um jogador desses...). Mas fica também com a mente um pouco débil, como é próprio de um monstro. Os temas científicos da história são, portanto, as mutações provocadas por radiação e a capacidade de mudar de cor, tal como o camaleão. É curioso que a versão cinematográfica tenha actualizado a matéria científica. A acção moderna passa-se em laboratórios de biologia – informando-nos que os perigos da ciência moderna têm porventura mais a ver com a biologia do que com a física– e a nanotecnologia surge como vedeta. A nanotecnologia, que consiste na manipulação à escala atómica e molecular, é um domínio onde a física, a química e a biologia se cruzam. Tem conhecido desenvolvimentos tão espectaculares que a palavra saltou já para os títulos de jornais. E até já há um conjunto organizado de inimigos da investigação e das aplicações nessa área: muitos deles passaram da oposição às manipulações genéticas e aos alimentos geneticamente modificados para a oposição à nanotecnologia. Em “Hulk” há pois uma mistura de física nuclear (radiação gama), biologia genética (mutações) e nanotecnologia (novas moléculas) que pode atemorizar...

Também no filme “Spiderman” é transmitido o medo da ciência. Um adolescente, Peter Parker, estava a assistir a uma demonstração no liceu quando é picado por uma aranha, exposta à radiação. O rapaz ganha poderes de aracnídeo, incluindo a capacidade de tecer teias, subir paredes e dar saltos entre os prédios. Tal como o Superhomem, o Homem-Aranha trabalha para um jornal (como fotógrafo), mas interrompe o seu trabalho quando é preciso combater o crime nas ruas de Nova Iorque. A ciência agora reside no fantástico cruzamento do homem com a aranha, que ocorre mais uma vez através de uma mistura da física nuclear com a biologia. De facto, a realidade tem-se aproximado da ficção e já se realizaram experiências de manipulação genética nas quais se conseguiu que cabras produzissem, com o seu leite, seda muito parecida com a que é tecida pelas aranhas.

Haverá razões, como estas histórias de superheróis insinuam, para se ter medo da ciência? Deve-se obviamente ter bastante cuidado... Mas tal não quer dizer que a ciência seja em si uma actividade perigosa. Tem perigos, que se devem obviamente prevenir e evitar, para o que é necessária uma permanente atenção por parte não só dos cientistas como da sociedade em geral. De resto, há perigos por todo o lado. Perigos há também na literatura, que muitos julgam inofensiva: só para dar um exemplo, o romântico alemão Johann Wolfgang Goethe pôs o seu jovem Werther a suicidar-se devido a um desgosto de amor. Tal acto teve consequências absolutamente imprevisíveis, nomeadamente o aumento em flecha do número de suicídios. Alguém pensará que Goethe era um perigoso assassino?

O leitor ou o espectador, nos livros aos quadradinhos ou na televisão e no cinema, das aventuras de “Superman”, “Hulk” ou “Spiderman” fará bem em não ter medo e em divertir-se com as histórias. Mas há talvez uma moral que pode tirar: Esses superheróis expressam o eterno desejo do homem de quebrar as barreiras que o tolhem. No mundo real, é a ciência, prolongada pela tecnologia, que permite que o homem se supere. No caso do “Superman” e do “Spiderman”, é bom não esquecer, os heróis, com os seus superpoderes, combatem o “mal”. E, na maioria das vezes, no mundo real, a ciência e a tecnologia também servem para diminuir o “mal”...

Roger Highfields, jornalista de ciência do “Daily Telegraph” e autor de um livro intitulado “A Ciência de Harry Potter” (Harry Potter é outro superherói moderno), apontou a relação profunda entre tecnologia e magia:

A tecnologia criada pelos feiticeiros de hoje faz os aviões voar, os computadores perceberem a fala, e mandar uma mensagem de um ponto para o outro do planeta. Mas ela é tão imperscrutável para a maior parte das pessoas que estas poderão pensar que se trata de produtos de magia. A bioquímica que está presente num teste doméstico de gravidez, o movimento dos electrões num chip de silício num computador caseiro e mesmo as instruções para manipular um gravador vídeo podem parecer magia”.

Algo semelhante disse o físico e autor de ficção científica Sir Arthur Clarke: “A tecnologia suficientemente desenvolvida é indistinguível de magia”. É verdade. Mas não esqueçamos que a magia moderna resulta da ciência e não de uma varinha de condão.

Contra as tolices ortográficas...

... o remédio é ler o novo blog http://emdefesadalinguaportuguesa.blogspot.com/

"DA CUNHA, MATEMÁTICO, POETA Y HEREJE"


Um salto à Feira do Livro de Madrid (ao lado da qual a Feira do Livro de Lisboa empalidece) permitiu-me encontrar, entre muitas obras interessantes, o livro com o título reproduzido em cima (Nivola, 2008).

Trata-se de uma biografia do matemático e escritor português do tempo das Luzes José Anastácio da Cunha (1744-1787). É seu autor Xenaro García Suárez, licenciado em Matemática pela Universidade de Santiago, doutor em Filosofia pela Universidade Complutense e professor de matemática no Instituto Álvaro Cunqueiro de Vigo, que já antes tinha feito uma edição crítica sobre os manuscritos matemáticos de Marx e um estudo sobre a obra matemática de Frei Martin Sarmiento (1695-1772), um sábio beneditino contemporâneo de Anastácio da Cunha (a página Wikipédia do português empalidece comparada com a do espanhol, nomeadamente do ponto de vista bibliográfico).

Anastácio da Cunha é relativamente bem conhecido entre nós, talvez mais nas comunidades de matemática e de história das ciências do que na comunidade de estudos literários. Tal não admira porque, juntamente com o Padre Monteiro da Rocha, Cunha é o nosso maior matemático do século XVIII. O Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra publicou, por altura do bicentenário da sua morte, uma edição facsimilada dos seus "Princípios Matemáticos", saído só postumamente (em 1790) e que conheceu duas traduções francesas logo no início do século XIX. Recentemente saiu um belo volume de facsimiles e comentários de documentos autógrafos encontrados no Arquivo de Braga: M. Elfrida Ralha, M. F. Estrada, M. do Céu Silva e A. Rodrigues (org.), José Anastácio da Cunha: O tempo, as ideias, a obra e… os inéditos, Arquivo Distrital de Braga/Centro de Matemática da Universidade do Minho/Centro de Matemática da Universidade do Porto, 2006. A "Obra Literária" de Cunha encontra-se facilmente (ed. M. L. Borralho e C. Marinho, Campo das Letras, 2 vols., 2001-2006); foi Fernando Pessoa quem disse que Cunha representa "a primeira luz do amanhecer da literatura portuguesa"). Mas julgo que está esgotado o romance de Aquilino Ribeiro, "Anastácio da Cunha: O Lente Penitenciado" (Bertrand, 1938), sobre os problemas que Cunha teve com a Inquisição.

O livro espanhol é o nº 35 de uma muito boa colecção de biografias matemáticas dirigida por António Pérez Sanz, professor do Centro Nacional de Informação e Comunicação Educativa do Ministério da Educação espanhol. Trata-se do primeiro matemático português a aparecer nesta colecção (espero que pelo menos Pedro Nunes venha também a aparecer!) e está muito bem numa colecção que começou com Arquimedes, Fermat e Newton (curiosamente não há ainda nenhum matemático espanhol...). Suárez soube de Anastácio da Cunha através de uma nota de pé de página de uma compilação do historiador de ciência I. Grattan-Guiness sobre cálculo infinitesimal (tradução espanhola, Alianza Editorial, 1984), em que atribuía prioridade ao matemático português relativamente à noção de diferencial de Cauchy. A partir daí estudou o assunto e passou a referir Cunha nas suas aulas. Escreve Suárez na apresentação do seu livro, o qual apesar de conter fórmulas é bastante acessível para quem tenha o mínimo de cultura científica:

"Em geral, a história da ciência portuguesa, incluindo a matemática, é completamente desconhecida em Espanha e, embora Portugal tenha também sofrido os rigores da tão conhecida entre nós intolerância eclesiástica, quando investida do poder temporal, houve, em determinados momentos, tentativas de incorporar o pensamento iluminado".

Eu diria que a história da ciência portuguesa é bastante desconhecida entre nós, pelo que não seria descabido traduzir este livro para português, aumentando o círculo dos seus leitores. E, principalmente, acrescentar-lhe outros livros, tanto eruditos como populares, escritos em português, sobre as vidas e obras dos nomes que foram maiores na nossa ciência.

Nota: A capa do livro usa o quadro "Condenado pela Inquisição", das colecções do Museu do Prado e que está reproduzido acima, do pintor espanhol Eugenio Lucas Velasquez (1817-1870). Mas há um erro: na capa, a imagem aparece invertida, com a esquerda e a direita trocadas. Só me apercebi disso quando encontrei o original...

domingo, 15 de junho de 2008

Cor, Controvérsia, ADN e Stephen Jay Gould



Henry Louis Gates Jr., que dirige o departamento de estudos afro-americanos da Universidade Harvard, entrevistou James Watson a propósito das declarações que este prestou ao Sunday Times em Outubro do ano passado. A entrevista pode ser lida na íntegra ou numa versão editada na página da revista de que é editor, «The Root». Esta, entre análises de notícias de uma perspectiva da comunidade negra, oferece aos seus leitores uma secção que lhes permite traçar a sua árvore genealógica através do AfricanDNA.com fundado por Gates, que, como confessa, sempre se sentiu fascinado com as suas raízes.

Gates foi o anfitrião de duas séries da PBS intituladas African American Lives, que analisaram a genealogia de afro-americanos célebres como Morgan Freeman, Chris Tucker, Whoopi Goldberg, Sarah Lawrence-Lightfoot e Oprah Winfrey. A árvore genealógica de Gates foi igualmente traçada e este descobriu atónito não passar de uma lenda familiar a história da origem da contribuição branca para a família. A análise do ADN de Gates, incluindo o ADN mitocondrial, revelou nunca ter ocorrido a violação da bisavó escrava que era contada. Na realidade, Gates descobriu que a sua componente «caucasiana» deriva da parte materna através de uma avó ashkenazim.

Achei interessante que alguém que procura tão afincadamente a «verdade» histórica no ADN, não obstante as consequências, tenha endereçado o que chamou «uma pergunta moral» a Watson, questionando se se deve evitar a investigação sobre uma possível origem genética da inteligência por isso poder confirmar «os piores pesadelos» de algumas pessoas, isto é, pode indicar que algumas comunidades são diferentes geneticamente em termos de inteligência.

Na realidade, «os piores pesadelos» de algumas pessoas já são veiculados há muito. O debate sobre as bases da inteligência é muito anterior ao advento da genética ou mesmo da ciência e tem tomado várias formas ao longo dos séculos como forma de justificação da discriminação das «raças» (ou sexo) inferiores.

Uma dessas formas é o «determinismo» biológico que emergiu nos Estados Unidos como uma resposta aos movimentos sociais dos anos sessenta. Em 1969, Arthur Jensen, professor em Stanford, argumentou que as diferenças de QI entre brancos e negros são geneticamente baseadas e inalteráveis. Dois anos depois, o psicólogo de Harvard Richard Herrnstein afirmou que o estatuto sócio-económico é uma função directa da inteligência herdada e que a «tendência para o desemprego» estaria tão determinada como a «tendência para ter maus dentes».

Em 1975, Edward Wilson publicou o livro «Sociobiology», cujos primeiros 26 capítulos tratam da organização social dos restantes animais e são unanimemente aplaudidos. Mas no 27º - e primeiro e único controverso - capítulo, Wilson estendeu as conclusões que a observação de outros animais lhe permitiram e extrapolou-as para os humanos argumentando que características como a agressão e a xenofobia são geneticamente baseadas. Como nota de curiosidade, num artigo publicado em 12 de Outubro de 1975 na New York Times Magazine, Wilson afirmou que «o preconceito genético é suficientemente intenso para causar uma divisão significativa do trabalho até mesmo nas mais livres e igualitárias sociedades futuras. Assim, até com uma educação idêntica e acesso igual a todas as profissões, é provável que os homens representem um papel desproporcionado na vida política, negócios e ciência».

Uns anos depois, a 10 de Abril de 1978, a revista Business Week apresentava um artigo intitulado «Uma defesa genética do mercado livre» em que se podia ler: «o interesse pessoal é a força motriz da economia porque está inserido nos genes de cada indivíduo. Sociobiologia significa que indivíduos não podem ser moldados para se ajustarem em sociedades socialistas sem uma tremenda perda de eficiência. Os bioeconomistas dizem que estão fadados ao fracasso os programas de governo que forçam os indivíduos a serem menos competitivos e egoístas do que eles são geneticamente programados».

Mas sem dúvida que o mais polémico e conhecido elemento nesta «guerra» de QI's é o livro de 1994 «The Bell Curve:Intelligence and Class Structure in American Life», escrito por Richard Herrnstein e Charles Murray.

O livro, descrito por como Stephen Jay Gould como «um manifesto da ideologia conservadora», foi rebatido noutro livro, «The Bell Curve Wars: Race, Intelligence, and the Future of America» em que participaram, entre outros, Gates e Gould.

Para quem leu «A Falsa Medida do Homem (The mismeasure of Man)» (publicado em 1981), a posição de Gould não é surpresa. De facto, Gould publicou uma edição revista do livro em 1996 de forma a mostrar o livro de Herrnstein e Murray como um livro elitista (no mau sentido) e «vazio em factos sérios ou argumentos novos». Os autores omitiram factos e usaram erroneamente métodos estatísticos para chegar às suas conclusões racistas num texto que pretendia a eliminação dos programas de providência social, nomeadamente dos programas de «welfare» para mães solteiras. Os autores da Curva de Bell consideravam que «os Estados Unidos têm já políticas que, de uma forma inadvertida, fazem engenharia social sobre a procriação, mas andam a escolher as mulheres erradas. Se se incentivasse mulheres com Q.I. elevado a procriar como se faz para as mulheres de Q.I. baixo, tais políticas seriam apropriadamente descritas como uma manipulação descarada da fertilidade».

Para Gould, o livro apresenta uma «visão apocaliptíca de uma sociedade com uma classe baixa em crescimento permanentemente amarrada ao pântano dos seus baixos QI's. Eles tomarão conta do centro das nossas cidades, continuarão a ter filhos ilegítimos (porque muitos são demasiado estúpidos para controlar a sua fertilidade), a cometer crimes e no fim exigirão uma espécie de estado prisão para os controlar (e para os manter fora dos nossos bairros de QI elevado)»

Segundo Gould, «A curva de Bell» é mais uma página na história de cientistas sociais conservadores que pretendem justificar as desigualdades sociais ou seja, pretendem arranjar uma justificativa genética para o status quo e a existência de privilégios de certos grupos de acordo com classe, raça ou sexo. Gould considerava que não havia nenhuma evidência científica para quaisquer destas pretensões e que as mudanças sociais ocorrem demasiado depressa para serem explicadas em termos biológicos.

Em oposição ao determinismo biológico, Gould enfatizou a enorme flexibilidade do comportamento humano:

«A característica central da nossa singularidade biológica também fornece a principal razão para duvidar que os nossos comportamentos são codificados directamente por genes específicos. Esta característica é, com certeza, o nosso grande cérebro... Aumentou marcadamente de tamanho durante a evolução humana... somou conexões neurais suficientes para converter um dispositivo programado, inflexível e bastante rígido, num órgão flexível, dotou-o de lógica suficiente e memória para substituir a aprendizagem não-programada por especificação directa como a base do comportamento social. Flexibilidade pode ser a mais importante característica da consciência humana.»

Para Gould, «Violência, sexismo e crueldades em geral são biológicas se as virmos como um subconjunto de um possível leque de comportamentos. Mas paz, igualdade e generosidade são tão biológicas quanto elas - e nós poderemos ver a sua influência aumentar se conseguirmos criar estruturas sociais que permitam o seu desenvolvimento».

Gould e o «The Mismeasure of Man» são talvez a melhor resposta à questão moral de Gates. E a lição de vida de Gould, o seu compromisso com a ciência, que deve ser uma ferramenta fundamental para a libertação e não para a opressão, deveria inspirar todos os que não só querem entender o mundo mas também contribuir para que este seja melhor.

sábado, 14 de junho de 2008

Charlatanices e pseudo-ciências: o aviso de Sagan

A ignorância afirma ou nega veementemente, a ciência duvida (Voltaire)

«Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história, e a sua base era em Alexandria. Apesar das grandes hipóteses de florescer, ela decaiu. A sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. O seu nome era Hipátia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto à ciência, e devido ao facto de Alexandria estar sob domínio romano, após o assassinato de Hipácia, em 415, essa biblioteca foi destruída. Milhares dos preciosos documentos dessa biblioteca foram em grande parte queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época».

Neste excerto do último episódio da série «Cosmos», Sagan adverte-nos para as consequências da espiral de que falei no último post. Sagan escreveu no seu manifesto contra as pseudociências, «O Mundo Infestado de Demónios: a ciência vista como uma vela na escuridão», «as consequências do analfabetismo científico são muito mais perigosas na nossa época do que em qualquer outro período anterior, devido aos perigos potenciais dos avanços tecnológicos na vida quotidiana, quando mal utilizados».

No capítulo 19, Não Existem Perguntas Imbecis, Sagan transcreve um artigo que publicou na revista Parade, em meados da década de 90, baseado numa análise das competências científicas dos alunos norte-americanos. Depois de analisar os resultados e as razões subjacentes à fraca prestação dos alunos do seu país, Sagan termina o capítulo explicando por que considera importantes os investimentos continuados em ciência e em educação de ciência. E estes motivos são tão diversos como uma escolha mais fundamentada dos candidatos nas próximas eleições ou aceitar esta e não aquela solução para proteger o planeta:

«A maioria das crianças norte-americanas não é estúpida. Parte da razão de não estudarem muito é que recebem poucos benefícios tangíveis quando o fazem. Hoje em dia, a competência (isto é, conhecer realmente o assunto) em capacidades verbais, matemática, ciência e história não aumenta o salário dos jovens nos primeiros oito anos depois da escola secundária - e muitos não se empregam na indústria, mas no sector de serviços.

A ciência, na minha opinião, é uma ferramenta absolutamente essencial para qualquer sociedade que tenha a esperança de sobreviver bem no próximo século com os seus valores fundamentais intactos - não apenas como é praticada pelos seus profissionais, mas a ciência compreendida e adoptada por toda a comunidade humana. E se os cientistas não realizarem essa tarefa, quem o fará?»

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Charlatanices e banhas da cobra: activação de ADN


O ADN é uma molécula polimérica que foi alvo de inúmeros posts no De Rerum Natura, quer do ponto de vista químico quer biológico. Os nossos leitores sabem que, de acordo com a sua funcionalidade, o ADN pode ser dividido em ADN codificante e não codificante. O ADN dito codificante é responsável pela síntese das proteínas que constituem todos os seres. O processo resume-se, basicamente, na transformação da linguagem codificada do ADN (sequência de nucleótidos) para a linguagem das proteínas (sequência de aminoácidos).

As regiões não codificantes do ADN, muitas vezes designadas «junk DNA», são segmentos que não codificam proteínas mas que podem ser muito importantes, por exemplo na regulação de genes, nomeadamente em eucariotas ou eucariontes. Por outro lado, existem nos vertebrados algumas zonas de ADN não codificante ultra-conservadas nos vertebrados (isto é, idênticas ou praticamente idênticas em muitas espécies) que parecem estar associadas à evolução e desenvolvimento dos vertebrados enquanto outras zonas podem ter tido um papel muito importante na evolução do Homem.

Assim, a designação «junk», que se pode traduzir como «lixo», é errónea. Como a maioria da população não segue a literatura científica, uma quantidade assustadora de charlatães dedica-se à tarefa de enriquecer à custa da ignorância alheia com dislates absolutamente arrepiantes que misturam patetadas New Age com uma linguagem pseudo-científica para enganar os mais incautos.

Um destes charlatães em concreto vende sessões de «activação» do junk DNA pela quantia «simbólica» de 100 dólares a sessão - com o aviso de que são necessárias pelo menos 4 sessões para atingir a perfeição perdida com a «queda», isto é, a «Original Divine Blueprint, o que o Homem já foi». O vendedor de banha da cobra refere ainda que Cristo, supostamente, teria em vez de uma dupla hélice uma dodeca hélice em que as 10 hélices extras seriam «etéreas», o que quer que ele pretenda com este disparate.

Mais concretamente podemos ler na sua publicidade enganosa que:

«A maioria das pessoas sabe que o ADN é o 'blueprint' da vida e está localizado em cada célula do corpo. Em adição à dupla hélice do ADN de cada cromossoma, existem 10 cadeias etéreas acessíves a cada ser humano, que estão no limbo desde o início da História.

Cada cadeia adicional permite ao indíviduo fazer maiores feitos humanos. Os cientistas reconhecem que actualmente apenas usamos 3% das nossas actuais duas cadeias de ADN. Assim, vivemos numa sociedade em que as pessoas estão doentes, infelizes, stressadas, fazem guerras, têm dificuldade em experienciar amor e estão totalmente desligadas do Universo. Muitas pessoas têm de meditar por muitos anos apenas para terem a chamada «experiência mística», tal é a desconexão que temos. Imagine o que é activar 100% do seu ADN das duas cadeias, MAIS 10 cadeias adicionais. Passará de usar 10% do seu cérebro [na realidade, 100% da massa encefálica trabalha vigorosamente] a um ser multidimensional com capacidades psiquicas, telepáticas e de manifestação (?) para lá de tudo o que sonhou. Mais, parará o seu processo de envelhecimento e começará de facto a rejuvenescer e a parecer e sentir-se MAIS NOVO».

Embora no meio de tanto disparate seja apenas um detalhe, é completamente falso o que realçei com negrito, isto é, que os cientistas reconheçam que só «usamos» 3% do ADN; os cientistas apenas reconhecem que há uma parte do nosso ADN de que não sabemos ainda a função embora os últimos tempos tenham sido férteis em descobertas excitantes sobre o papel do ADN não codificante.

A quantidade de tolices que o senhor debita por parágrafo suplanta até a necedade (ignorância ou estupidez crassa) da homeopateta que dissertou sobre «vibrações» youeeisticas. E não me refiro apenas à banha da cobra propriamente dita, a tal «bioregenesis» que supostamente «ordena» o junk ADN no «Angelic Human DNA Template», o Diamond Sun DNA Template, com as tais dodeca hélices, «que permitem 12 níveis de consciência e são construídas para transmutação de carbono em silício e eventualmente em luz líquida (?) pré-matéria».

A justificação de porque é tão urgente encher a conta bancária do aldrabão, que cura «telepaticamente», isto é, via internet, é impossível de adjectivar, como os nossos leitores podem apreciar neste pequeno excerto:

«Nós estamos no meio de um ciclo de ascensão, que é literalmente um «time continuum shift» [que não traduzo porque nem sequer imagino o que seja um «desvio do contínuo do tempo», será uma descontinuidade temporal?]. Até 2012, o planeta vai atravessar este «time continuum shift», o que só acontece uma vez em cada 25 556 anos (o chamado ciclo Euiago [para saber o que é mais este dislate New Age, os leitores podem divertir-se nesta página, nestoutra absolutamente delirante que afirma ser o nosso ADN um womhole ou consultar a página de um alucinado que elabora sobre a imbecilidade em que assenta esta tal ascensão).

O que está a acontecer é que as partículas que fazem o campo áurico (?) da Terra estão a acelerar num ritmo pulsante na preparação para este desvio da 3ª dimensão para a 4ª dimensão. Como as partículas que fazem o campo áurico da Terra estão a acelerar num ritmo pulsante e nós fazemos parte do campo áurico da Terra, as partículas que fazem parte do NOSSO campo áurico também têm de acelerar. Isto está a acontecer agora e até 2012. Isto significa que nós temos de ter pelo menos 4 cadeias de ADN activas se queremos dar o salto para a 4ª dimensão.

E isto é o porquê de a activação do ADN ser tão importante agora. Se tem bloqueios energéticos, - anexos áuricos, impressões kármicas,distorções de ADN ou selos energéticos não naturais - então não consegue acelerar as partículas e atingir as frequências necessárias para dar este «time continuum shift». E as frequências mais altas que chegam ao seu campo vão acelerar os processos de deterioração do corpo e muitos resultam em problemas físicos e desconforto. Muitas pessoas já notam estes sintomas e esta é a razão.»

Mas as coisas absurdas que este senhor debita a uma velocidade alucinante são perpetuadas em inúmeras outras páginas, uma pesquisa com «12 strand DNA» devolve cerca de 722 000 entradas e outra com «junk dna activation» quase um milhão de páginas, na sua maioria de outros charlatães que vendem sessões sortidas de «activação» de até 22 cadeias (!) de ADN, todas elas tão repletas de inanidades New Age como estes excertos.

Também no Brasil intrujões sortidos, por exemplo, Joysia, Engenheiro Chefe Geneticista a serviço do Conselho Nibiruano da Federação Galáctica, afirmam serem capazes de Recodificar, Reconectar e Activar o ADN dos que estejam dispostos a contribuir para a manutenção da conta bancária dos charlatães.

Achei especialmente divertido o site da Fraternidade Virtual Eu Sou Luz que pretende que a «activação do DNA subtil (Espiritual, Verdadeiro)» é possível com uma água «energizada», agora não com luz mas num processo de rezas em tudo análogo às tretas Hado do senhor Masaru Emoto, o doutor em medicina alternativa por uma obscura pseudo-universidade de banha da cobra em Calcutá que inspirou recentemente em Coimbra sessões de aspersão com água mágica.

Para os que pensam que estas patetadas são idiossincrasias de outras paragens, informo que nos dias 17 e 18 de Maio 2008 o Centro Terra Cristal Lisboa organizou um «workshop» para que convidou «seres da luz». Estes tais seres luminosos «proporcionam um trabalho profundo do coração actuando no DNA espiritual e efectuando a conexão e activação de várias fitas de DNA» aos incautos que desembolsaram a módica quantia de 170 euros (alojamento àparte) pela banha da cobra.

Tal como o Carlos, cito estes disparates «para que não se pense que estas coisas são "americanices" dos anos 80». Em relação à «activação» do ADN «etéreo» não há a publicidade massiva que mereceu a água «mágica» ou a venda de banha da cobra que vai acontecer já na próxima quarta-feira no Pavilhão Atlântico (e que me queriam impingir ontem no supermercado juntamente com o talão das compras). Todas estas coisas acontecem aqui e agora e não passam de fraudes congeminadas para enganar e explorar os mais incautos que urge desmascarar porque para além de fazerem mal à carteira fazem muito pior à sociedade como um todo.

De facto, o ressurgimento destes obscurantismos é uma manifestação de que algo está profundamente errado na nossa sociedade mas para além de sintoma é igualmente uma causa do que está errado. Vivemos tempos em que este tipo de patetices, aparentemente inócuas, na realidade são uma espiral descendente que se não for travada pode ter consequências desastrosas. O pior perigo destas charlatanices é o facto de que «envenenam» a mente, isto é, pretendem passar anti-ciência por ciência e apelam a que as pessoas deixem de pensar. São perigosas porque afirmam que o pensamento mágico é mais importante que o trabalho, a verdade, a razão e o respeito pelas evidências. E a razão e o respeito pelas evidências são a fonte do progresso da Humanidade - e a nossa salvaguarda contra todos os que lucram pela deturpação da verdade.

A FÍSICA DO FUTEBOL

Minha crónica no semanário "Sol" de hoje:

Anda por aí a febre do futebol. Embora continue a fazer correr rios de tinta, já pouco falta dizer sobre o desporto-rei. Porém, um dos aspectos que têm sido menos referidos é o seu lado científico.

Científico? Sim, o futebol é uma paixão, com grande dose de irracionalidade, mas tem um lado científico. Os movimentos da bola podem ser analisados aplicando as leis da física newtoniana. Os movimentos dos jogadores têm a ver com a biomedicina. Os equipamentos e a própria bola são resultado de tecnologias avançadas. E até a evolução das equipas em campo pode ser estudada com poderosos meios informáticos. Por exemplo, João Moutinho foi o português que mais correu no último jogo contra a Turquia, tendo percorrido 10,227 quilómetros.

O físico inglês Ken Bray tem-se especializado na ciência do futebol. Com um doutoramento em física quântica, é investigador convidado no grupo de Ciências do Desporto e Educação Física na Universidade de Bath. O seu livro “How to Score” (Granta Books, 2006) analisa, do ponto de vista científico, alguns dos principais jogos dos últimos anos. Um dos casos de estudo é a decisão por penáltis, favorável a nós por 6-5, no Portugal-Inglaterra do Euro-2004. Bray calculou a área da baliza que um guarda-redes pode cobrir, que é de 72 por cento. Quer isto dizer que chutos dirigidos para a área não coberta, nos dois extremos da baliza, são indefensáveis, porque pura e simplesmente o guarda-redes não consegue mergulhar até lá. Ora ganha quem sabe. Dos sete pontapés lusitanos um foi muito alto (Rui Costa) e outro entrou apesar de ir à figura do guarda-redes, enganado pelo “teatro” de Hélder Postiga. Todos os outros remates, incluindo o do golo final de Ricardo, foram com precisão para a área não coberta. Quanto aos ingleses, Beckam falhou e Hargreaves atirou sem hipótese de defesa, mas todos os outros cinco chutos foram para a zona coberta da baliza. Ricardo defendeu um e podia ter defendido mais. A física pode ser do inglês Newton, mas nesse dia nós é que a sabíamos toda...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

BOB O ORADOR


Com o título de cima, "O Sol" de sábado passado dedica algumas páginas da sua revista à Conferência que o auto-intitulado "filósofo" Bob Proctor (na foto) vai fazer na próxima quarta-feira, dia 18, no Pavilhão Atlântico de Lisboa. Bob Proctor vem ganhar uma grande pipa de massa e as pessoas que lá forem vão perder, além do seu tempo, algum dinheiro pois os bilhetes são caros (consta que há muitos bilhetes por vender e, por isso, muitos deles já estão a ser oferecidos). Eu, que já aqui escrevi sobre "O Segredo", penso o mesmo que o editor da revista: que se trata de uma intrujice. É um negócio baseado na intrujice, aproveitando-se da fraqueza de algumas pessoas.

Mas melhor do que eu os meus colegas de blogue Desidério e Palmira pronunciam-se nas páginas do "O Sol". Vou dar-lhes a palavra, tal como é apresentada pelo jornalista Luís Miranda:

"Desidério Murcho, filósofo, escritor e professor universitário, comenta que "se uma pessoa se intitulasse médico ou advogado sem o ser realmente, a sociedade não toleraria." Mas autoproclamar-se filósofo, como faz Bob, é admissível. Porquê? "Porque as consequências da trapaça não são tão graves". Desidério acredita que estamos perante "uma fraude", mas um logro que sempre existiu "e sempre existirá enquanto as pessoas não tiverem todas acesso a ensino de qualidade."

(...) "O Segredo não só não é ciência como é um facto anti-ciência", comenta Palmira Silva, do Departamento de Engnharia Química e Biológica do Instituto Superior Técnico, e uma das autoras do blogue de divulgação científica De Rerum Natura. Explica que a lei da atracção está associada a movimentos new age e new thought e não tem rigorosamente nada de científico. Os autores dessa lei apenas usam o "prestígio da ciência para vender o seu produto obscurantista", conclui. A professora lembra ainda que "em épocas de crise social e económica como a que atravessamos, este tipo de banha de cobra vende muito bem." "

Mestre Alves faz magia negra por Portugal


Está explicado o triunfo de Portugal na fase de grupos do Euro 2008... Transcrevemos artigo de Almiro Ferreira do "Jornal de Notícias" de 2 de Junho passado:

"Cruzes, canhoto! Ritual satânico de Mestre Alves invoca entidades demonícas e "bloqueia" os adversários da selecção portuguesa na fase de grupos do Euro-2008


Satanás! Satanás! Na invocação de entidades demoníacas, Mestre Alves ajoelha-se, ergue as mãos ao firmamento escuro da noite e conclui o ritual de magia negra às selecções adversárias de Portugal no Euro-2008.

O médium e vidente remata o feitiço ingurgitando, por um cálice satânico, um não menos diabólico cocktail de sangue de boi e de vinho - João Pires, se faz favor! - e encomendando aos astros todos as desgraças possíveis a turcos, checos e suíços. Cruzes, canhoto!

Praia da Aguçadoura, Póvoa de Varzim, meia-noite de sexta-feira. Em troca de uma pobre inocente galinha preta, sacrificada em oferenda a entes diabólicos, Mestre Alves garante ter influído nos sortilégios da bola e do Euro-2008. Encomendou todos os azares possíveis aos adversários de Portugal e assegura ter protegido os nossos rapazes do mau-olhado alheio. "A primeira fase já está passada. Mas vai ser difícil. O primeiro jogo, com a Turquia, será complicado e até pode acabar num empate, mas Portugal vai passar. Com este ritual, os nossos adversários estão bloqueados por energias negativas", garante Luís Ernesto Ferreira Alves, doutor em ciências do oculto, nascido há 46 anos, em Barcelos.

E o que pensará a UEFA destes favores do sobrenatural, em afronta ao sacrossanto Fair Play? Mestre Alves não quer saber do que Platini e seus pares sentirão, porque, na consulta aos astros, soube que também do outro lado fizeram o mesmo, no sentido oposto. Também por isso, e porque, neste domínio do oculto, desportivismo é só paleio, o exorcista, médium e vidente português também fez um ritual para Cristiano Ronaldo e companhia, mas de magia branca. Tudo para afastar o mau-olhado à nossa selecção e protegê-la das influências malvadas deste mundo do transcendente.

Acontece que Mestre Alves não identificou apenas forças malignas alheias. Também as verificou dentro da própria selecção portuguesa. Apontou para a Ursa Menor e observou: "Estão a ver aquela estrela [a polar] separada das outras quatro. Representa alguém, um dirigente ou empresários, que vai causar uma guerra grande".

Mas nada que assustasse este mago cósmico. Braços erguidos ao céu, Mestre Alves fez uma reza impronunciável - "Nem eu sei o que digo, são coisas que me saem" - e depressa conseguiu uma conjugação celestial desejada. "Viram. As estrelas já estão mais unidas. É disso que a selecção precisa", sentenciou."

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O prestígio perdido dos professores


Novo post sobre o nosso ensino de Rui Baptista (na foto, imagem de "Teacher's pet", com Doris Day):

“Perdemos com a revolução e a contra-revolução.(…) Perdemos também

com três décadas de facilidade e demagogia.”

António Barreto

Um estudo de João Ruivo, citado no “Público”, em 6 de Junho de 2008, alerta-nos para o facto de quase metade dos professores não voltarem a escolher esta profissão pela falta de prestígio e reconhecimento social. Passa novamente a merecer honras académicas um fenómeno social que desde há muito corre nas bocas do mundo e de que importa procurar razões.

Isto porque um outro estudo de Braga da Cruz (publicado em 1990) já nos tinha dado conta do facto dos professores do ensino primário, em reconhecimento público, ocuparem a 8.ª posição e o professor do ensino secundário a 14.ª, entre 20 profissões estudadas. Reminiscências do tempo em que o médico, o padre e os então chamados professores primários eram as pessoas mais prestigiadas nas aldeias?

Mas esta erosão do prestígio e reconhecimento das profissões não se confina a fronteiras docentes ou nacionais. Com fundamento no que se passa nos Estados Unidos, para João Lobo Antunes, médico neurocirugião e catedrático de Medicina, “apesar dos progressos maravilhosos da ciência médica, a verdade é que o respeito que a confiança que nós, neurocirurgiões, e os médicos em geral, merecemos do público leigo tem declinado substancialmente” (“Um modo de ser”, Gradiva, Lisboa, 1996, p. 43).

Seja como for, é altamente preocupante não ser, agora, unicamente “o público leigo”, mas os próprios usufrutuários da profissão docente a exprimirem este estado de desalento que contrasta com os hinos de louvor cantados pela professora universitária Clara Pinto Correia aos antigos professores do liceu (segundo ela, “mesmo que liceu seja uma palavra que já não se usa, dá jeito, no caso vertente, para simplificar o discurso”), quando escreveu: “A barbárie não anda longe. Nunca andou (…) Para evitar que assim seja temos nos professores do liceu a mais importante das nossas armas. Devíamos beijar-lhes as fímbrias do manto” (“Diário de Notícias”, 22 de Outubro de 1995).

Para o rasgar das fímbrias do manto julgo ter contribuído um Estatuto da Carreira Docente (do ensino não superior) que meteu no mesmo saco todos os docentes, do ensino infantil ao secundário, sem ter em devida conta as respectivas habilitações académicas, quer fossem a nível do ensino médio ou ensino superior. Aliás, princípio seguido pelos sindicatos dos professores da altura ao permitirem a inscrição de qualquer um que desse, ainda que esporadicamente, aulas sem qualquer espécie de habilitação que o creditasse ou mesmo enquanto estudante de um qualquer curso superior (ou nem isso).

Corria o ano de 1992. Em desacordo frontal com este “statu quo” foi criado o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados com os objectivos seguintes:

- “Defender os interesses específicos dos professores licenciados por universidades que eram, e continuam ainda a ser, postergados pela administração e ignorados pelos outros sindicatos e suas federações.

- Representar a ruptura com as orientações sindicais existentes, em oposição frontal à instituição de uma carreira única de professores, pois pretende revalorizar a profissão em todo o seu percurso, em consonância com os valores e as necessidades dos professores dos nossos dias” .

Numa verdadeira manta de retalhos de formações académicas, muitos outros se seguiram numa profusão de sindicatos de professores a puxarem a brasa à sua sardinha, que não encontra qualquer semelhança no associativismo sindical de mesteres nobilitados por ordens profissionais. Ainda que acompanhada de um repetitivo discurso de bondade, a união de 14 sindicatos dos professores numa plataforma comum apenas deve ser vista como a crisálida de uma espécie de unicidade sindical desajustada no tempo e sem lugar nas circunstâncias da nossa actual vivência democrática.

HUMOR - A ORDENAÇÃO DAS CIÊNCIAS

terça-feira, 10 de junho de 2008

Stephen Jay Gould: uma lição de vida


O Carlos já nos revelou que «Sagan e Feynman que me perdoem (ambos já falecidos, tal como Gould, de cancro), Hawking, Watson e Reeves (muito vivos os três) que não fiquem ofendidos, mas Stephen Jay Gould é, de todos eles, quem melhor prosa de divulgação escreveu». A mestria do grande comunicador em transformar qualquer assunto banal numa «lição» de ciência, que permite a quem o escute ou leia integrá-la nas suas vidas, pode ser apreciada na série de entrevistas que concedeu em 1984 (disponível no Youtube).

A actualidade e relevância do pensamento de Gould, que esta série com quasi um quarto de século demonstra claramente, foram ainda evidenciadas recentemente na Science News. Patrick Barry inicia a discussão do artigo «Historical contingency and the evolution of a key innovation in an experimental population of Escherichia coli», publicado online há uma semana nos «Proceedings of the National Academy of Sciences», afirmando que «Se Stephen Jay Gould fosse vivo, estaria a sorrir. Talvez até um sorriso de regozijo (gloating no original) .

O artigo do PNAS sugere, embora não de forma conclusiva, que Gould tinha razão no aceso debate que manteve, nomeadamente com Simon Conway Morris, em relação à sua convicção de que a vida da Terra evoluiu como evoluiu devido a contingências circunstanciais e de que se estes acasos tivessem sido outros a evolução teria sido diferente.

Este é o tema do livro «Vida maravilhosa — O acaso na evolução e a natureza da história», em que Gould compara a evolução a uma fita de vídeo que, depois de visualizada e rebobinada, quando posta a funcionar de novo teria um final diferente: «Existiriam tantas contingências, que não ocorreram da primeira vez, que o curso da história seria outro. Isso é verdade também para a história e a cultura humana; e na evolução é muito frequente».

Embora Gould não seja o «pai» do conceito de contingência histórica do processo evolucionário, certamente foi um de seus mais importantes entusiastas e divulgadores. Um dos exemplos que utilizou para explicar a sua perspectiva, o desaparecimento dos dinossáurios há cerca de 65 milhões de anos, entre o Cretáceo e o Terciário (transição K-T), é desenvolvido com muita clareza no último livro que publicou ainda em vida.

«Dinossáurios e mamíferos partilharam a Terra por 130 milhões de anos, o dobro do período de sucesso dos mamíferos que se seguiu e que levou à emergência do Homo sapiens entre as outras 4.000 outras espécies vivas da nossa classe Mammalia. [...] podemos conjecturar que, na ausência deste acidente cósmico, os dinossáurios ainda dominariam os habitats de grandes animais terrestres e os mamíferos ainda seriam criaturas das dimensões de ratos, vivendo nos interstícios ecológicos do mundo reptiliano. Neste episódio, mais vitalmente pessoal que qualquer outro, deveríamos literalmente agradecer à nossa estrela da sorte [...] que na vigência das novas regras do impacto K-T certas marcas da nossa incompetência ancestral – persistência de um pequeno tamanho no mundo dos dinossáurios, por exemplo – subitamente se tenham transformado em vantagens cruciais e fortuitas enquanto a fonte prévia de triunfo para os dinossauros [o seu grande tamanho] levou à sua tragédia.

Demócrito, um dos «pais» do atomismo juntamente com Epicuro, o filósofo que inspirou o «De Rerum Natura» de Lucrécio, dizia que «tudo no universo é fruto do acaso e da necessidade». Este artigo no PNAS parece indicar que as memórias de Gould e de Demócrito se regozijariam com a notícia.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

“AS NUVENS” E O FIM DOS DEUSES


Já aqui falei do teatro de Aristófanes e da sua relação com o teatro de Brecht. Desenvolvo agora o tema:

A arte retórica que discute o papel de Deus no mundo encontra-se no teatro grego, muitos séculos antes de “A Vida de Galileu” de Brecht. Para os gregos tratava-se obviamente não de discutir o papel de Deus mas sim dos deuses. Na comédia “As Nuvens” de Aristófanes (447 a.C. – 385 a.C., sendo as duas datas aproximadas), representada pela primeira vez no ano de 423 a.C. no Teatro de Dionísio, na Acrópole, em Atenas, surgem em cena algumas nuvens, portanto fenómenos atmosféricos, em substituição dos deuses tradicionais. Apesar de se tratar de uma comédia e não de uma tragédia, é notório algum paralelismo com o texto de Brecht. Este era aliás um grande conhecedor do teatro grego.

O livro de Aristófanes “Comédias I” [1] inclui uma excelente tradução portuguesa, assinada por Custódio Magueijo, professor da Universidade de Lisboa, da peça que aqui nos interessa. O volume tem uma introdução geral de Maria de Fátima Silva, professora da Universidade de Coimbra, que foi também responsável pela introdução, tradução e notas de duas outras das peças do livro, e é de resto autora de outras obras sobre Aristófanes [2]. A terceira e última peça incluída é precisamente “As Nuvens”. Tem introdução e notas do tradutor, que já antes tinha sido o autor de uma tradução da mesma peça publicada pela Editorial Inquérito saída em 1984 [3] (nas notas encontram-se notícias sobre a representação da peça em Portugal).

A acção de “As Nuvens” conta-se em poucas linhas. Um abastado proprietário rural, Estrepsíades, procura educar o seu filho, Fidípedes, que era o que hoje poderíamos chamar um “playboy”, delapidando os proventos do pai em cavalos caros e carros de corrida. O velho pretende que o filho aprenda com Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.), o “sofista” (os sofistas, entre os quais Protágoras e Górgias, eram mestres que viajavam em busca de discípulos, que lhes pagavam bem; de facto, só o Sócrates dos primeiros tempos é que poderá merecer essa designação), e, perante a resistência do filho, vai ele próprio ver como é essa escola, intitulada Frontistério ou Pensatório, e que constitui uma espécie de faculdade de todas as áreas. Estrepsíades não é bem sucedido no Pensatório, mas consegue que o filho lá entre. Sócrates apresenta então ao aluno duas personagens, o Raciocínio Justo e o Raciocínio Injusto, que retratam afinal os métodos pedagógicos antigo e moderno. Da luta entre os dois sai vencedor o Raciocínio Injusto (o que é afinal uma maneira de o conservador Aristófanes ridicularizar as novas pedagogias). O filho não só acaba por bater no pai como justifica essa sua acção usando tudo o que aprendeu com o Raciocínio Injusto. O pai, desesperado, acaba no final por incendiar o Pensatório. A peça é muito divertida, apesar de ser injusta para com Sócrates, que não surge particularmente bem retratado. Ele não passa, na pena de Aristófanes, de um mestre de retórica, que se faz pagar pelos seus serviços e que, mais do que defender a causa da ciência, se põe, como um mau advogado, ao serviço de qualquer causa. Este Sócrates não é lá muito amigo da verdade...

A peça, que hoje é um clássico entre os vários clássicos de Aristófanes, não conheceu grande sucesso na estreia. Ficou até em terceiro lugar nas Grandes Dionísiacas, a seguir a duas obras de autores menores cujos textos não chegaram até nós. O autor reescreveu depois a peça – o texto que hoje conhecemos resultou desse processo – não se inibindo, no meio do texto (a chamada parábase), de censurar os espectadores por causa da má recepção da peça...

Aristófanes manifesta-se na peça contra a ciência, necessariamente incipiente nessa época, e goza bastante com os astrónomos que a praticam. Por exemplo, encontramos este saboroso diálogo entre Estrepsíades e um discípulo da escola:

“Discípulo - Uma noite, estava ele a estudar a órbita da Lua e as suas revoluções, assim, de nariz espetado no ar e de boca aberta, quando um lagarto pintado cagou lá de cima do telhado.

Estrepsíades: Que gozo, um lagarto pintado cagar em cima destes.”

E, mais adiante:

“Estrepsíades - E porque diabo está o olho do cu virado para o céu?

Discípulo: Bem... esse... estuda Astronomia por sua conta.”

Quando Estrepsíades chega à fala com o próprio Sócrates, este repreendo-o quando o ouve jurar pelos deuses:

“Sócrates - Juras pelos deuses?!... Quais deuses?... Para já, deuses é moeda que não usamos cá na casa.

Estrepsíades - Então por quem é que vocês juram? Será porventura pelo pilim, como em Bizâncio?

Sócrates, desviando a conversa - Queres conhecer as coisas divinas, claramente, de ciência certa?

Estrepsíades- ... Se isso é possível...

Sócrates - Queres conviver e conversar com as Nuvens, as nossa divindades?

Estrepsíades – Claro que quero.”

O paralelismo com a “ausência de Deus” brechtiana é aqui claro, mas surge ainda mais claro num diálogo entre Estrepsíades e Sócrates, que é um magnífico exemplo do uso da retórica em palco:

“E Estrepsíades - Mas... Então e Zeus?... Vejamos pela Terra!... Então Zeus Olímpico não é deus?

Sócrates - Qual Zeus nem meio Zeus!... Não digas asneiras: Zeus... não existe!

E Estrepsíades - Que é que estás dizendo? Então quem é que chove? Sim, antes de mais nada, explica-me lá essa coisa.

Sócrates - São elas [as nuvens] que chovem, obviamente. E é isso mesmo que te vou demonstrar com provas irrefutáveis. Ora bem: onde é que já alguma vez viste chover sem haver nuvens? Em boa verdade, ele, Zeus, deveria chover com céu limpo, na ausência de nuvens.

Estrepsíades - Por Apolo! Com tal argumento provaste muito bem essa teoria... E eu que dantes cuidava que era mesmo Zeus a mijar por um regador!... Mas... Explica-me mais uma coisa: quem é que troveja, que até me põe todo a tremelicar?

Sócrates - São elas que, ao rebolarem-se, provocam, os trovões.

Estrepsíades - Mas como é isso, criatura tão desmedida?

Sócrates - Ao encherem-se abundantemente de água, são forçadas, por via disso, a deslocar-se. Ora, assim cheias de chuva, forçosamente ficam penduradas para baixo... Vai daí, mais pesadas, caem uma sobre as outras, rebentam e estalam.

Estrepsíades - E quem é que as força a mover-se? Não é Zeus?

Sócrates - Nada disso... É o Tornado etéreo.

Estrepsíades - O Tornado? Eis uma ideia que nunca me tinha passado pela cabeça, que Zeus não existe, e que agora, em vez dele, quem reina é o Tornado...

O Tornado é elevado à categoria de divindade e, por isso, é escrito com maiúscula. Mais à frente, Sócrates pergunta a Estrepsíades:

Sócrates - Ora bem: estás disposto, de agora em diante, a não aceitar qualquer outra divindade, que não sejam as nossas, ou seja o caos, as nuvens e a língua, essas e só estas?

Estrepsíades - A essas, pura e simplesmente, nem sequer lhes dirigiria a palavra, ainda que desse de caras com elas, nem lhes ofereceria sacrifícios, nem libações, nem incenso.”

Repare-se como a língua é também considerada uma divindade. Nesse tempo, muito antes da Revolução Científica, a retórica pura, exercida pelo domínio da língua, era um elemento essencial na ciência. Os destinatários do culto devem, para o personagem Sócrates, passar a ser outros. E para isso é preciso, sem grandes discussões, substituir a fé nos deuses pela fé na ciência. Sócrates intima Estrepsíades:

“Sócrates - Ora vejamos. Quando eu te mandar para a frente um conceito científico sobre coisas celestes, faz por abocanhá-lo imediatamente.

Estrepsíades - É o quê? Quer dizer que vou comer ciência assim como um cão a roer um osso?”

Mais tarde, Estrepsíades encontra-se com o seu filho Fidípedes e procura transmitir-lhe a lição que tinha aprendido com Sócrates:

“Estrepsíades – Tás vendo como é bom saber? Zeus - toma nota, Fidípedes – Zeus não existe!

Fidípedes - Então quem é que...?

Estrepsíades- Quem reina agora é o Tornado, depois de ter expulsado Zeus.

Filípedes - Eh lá! Tás doido ou quê?

Estrepsíades - Pois fica sabendo que é mesmo assim.

Filípedes - E quem é que diz tal coisa?

Estrepsíades - Sócrates... de Melos, mais o Querofonte, que percebe de saltadelas de pulgas [Querofonte é um amigo de Sócrates].”

Repare-se que a mentira faz parte da retórica ou “arte de convencer”: apesar de Sócrates ser natural de Atenas, Aristófanes liga-o à ilha de Melos, a terra do filósofo sofista Diágoras, um ateu confesso do século V a.C.que foi por isso forçado a abandonar a cidade de Atenas. Assim, transmite-se liminarmente a ideia de que Sócrates é ateu.

Foi assim que, pelo menos em palco, os deuses começaram a cair na Antiga Grécia. Muito antes de Galileu ter posto as estrelas a ocupar o lugar de Deus, já Sócrates punha os fenómenos meteorológicos naturais a ocupar o lugar dos deuses, colocando em particular o Tornado no lugar do maior de todos, o poderoso Zeus. A fúria de Zeus é substituída pela fúria do Tornado. Foi preciso esperar muito tempo para que, no Norte da Itália, aparecesse com Galileu a ciência experimental como uma nova maneira de ver o mundo e se passassem a submeter as convicções sobre o mundo ao rigoroso escrutínio da observação e da experimentação.

A avaliar por esta peça, Aristófanes não nutria grande respeito pela ciência, tentando como se viu nos exemplos dados ridicularizá-la, ao passo que Brecht foi um admirador confesso dela a ponto de ter dito: “não me é possível subsistir como artista sem me servir da ciência”. Mas ambos colocam em palco um mundo em que não há deuses. Aristófanes e Brecht são duas maneiras de fazer arte que, apesar das óbvias diferenças e da enorme distância temporal, têm evidentes afinidades.

REFERÊNCIAS

[1] Aristófanes, “Comédias I”, Biblioteca de Autores Clássicos, Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2006, Tradução do grego e notas de Maria de Fátima Sousa e Silva e Custódio Magueijo.

[2] Maria de Fátima Silva, “Ensaios sobre Aristófanes”, Lisboa: Livros Cotovia, 2007.

[3] Aristófanes, “As Nuvens”, Lisboa: Inquérito, 1984, prefácio, tradução e notas de Custódio Magueijo.

A universidade feudal do futuro

No Le Monde Diplomatique de Abril (edição portuguesa) vale a pena ler o artigo «A Universidade feudal do futuro» de Pierre Jourde, escritor e professor na Universidade de Grenoble.

Um pequeno excerto:

«É certo que Valérie Pécresse não ignora a grande tradição da fórmula oca e da palavra de ordem empolada. Mas vai muito mais longe: não satisfeita por não resolver os problemas reais, inventa problemas inexistentes, para proclamar alto e bom som que vai tratar de os resolver. Inversamente, certos males pareceram-lhe de tal modo benignos que, dando apenas ouvidos ao seu próprio entusiasmo, tomou as decisões que se impunham para os agravar.

(...)

A universidade terá mesmo necessidade de professores competentes? Ora aqui está um dos arcaísmos, a competência, que urge varrer com um gesto salutar. Até agora, a contratação de docentes obedecia a regras obsoletas: um grupo de professores, reunidos em comissão, elegia os seus colegas, após terem examinado dossiês e procedido a entrevistas. Só de pensar em tal coisa bocejamos de tédio. Além disso, esse sistema não tinha por base um clientelismo suficiente. Às vezes ainda acontecia que graças a esse sistema se contratassem professores unicamente com base nas suas competências científicas, e não necessariamente por ele ser o protegido de um mandarim local.

(...)

DEMOS AO ALUNO UM CONFORTO FOFINHO
Autonomia, pois sim, mas para os alunos nem pensar! Convém não exagerarmos. Mal põem os pés na universidade, os pobres coitados sentem-se perdidos. A autonomia é uma coisa de que nunca ouviram falar, não sabem o que é, não lha vamos impor. Têm 19 anos, são maiores de idade, votam, sabem conduzir um carro, viajar na Internet, ter relações amorosas, manifestar-se contra a lei Pécresse, mas ainda são muito pequeninos para serem autónomos na universidade. A ministra, na sua maternal sabedoria, decidiu que é necessário haver um adulto, «o professor referente», para proteger cada um desses pequerruchos, limpar-lhe as lágrimas, assoá-lo, mostrar-lhe com dedo amigo onde estão os horários. É uma medida coerente com a profissionalização, porque o bom profissional, como toda a gente sabe, é uma criatura tímida, dependente. E é coerente também com a geral filosofia da reforma. Porque, sabendo o aluno fazer um desenhinho, já se lhe pode dar um bombom, e bem assim a licenciatura.»

Na mesma revista, outro artigo para reflectir, agora uma análise nacional intitulada «O Processo de Bolonha e o futuro da universidade». No mesmo espírito, indica-se «The University in Ruins», o livro de Bill Readings, professor de Literatura Comparada na Universidade de Montréal.

domingo, 8 de junho de 2008

As cores da água

Uma das ideias mais populares sobre a cor da água é que esta é devida à reflexão da cor do céu. Mas esta explicação não justifica a imagem da Terra vista do espaço e o facto de continuarmos a ver azul a água numa piscina interior ou o mar em dias nublados em que o céu está branco ou acinzentado. Por outro lado, debaixo do mesmo céu azul, a cor da água tem tons diferentes consoante a profundidade, o que não pode ser explicado por reflexão.

Outras explicações dizem que as cores da água são devidas ao mesmo fenómeno de dispersão que nos faz ver o céu azul ou devido a impurezas dissolvidas, por exemplo iões Cu2+. Embora quer a dispersão quer a presença de impurezas sejam importantes, o factor determinante da cor da água tem a ver com mais uma anomalia desta.

A superfície da água reflecte muito pouca luz (cerca de 7%) o que ajuda a contribuir para o azul da água mas o mais relevante é o que acontece aos restantes 93% de luz incidente. Se existirem muitas partículas em suspensão ou bolhas de ar (como numa queda de água), a luz é dispersa em todas as direcções por partículas que não absorvam no visível ou pelas bolhas e nós vemos a água branca. Se as partículas absorverem radiação visível, nós vemos a cor dessas partículas (como acontece, por exemplo, no rio Colorado no fundo do Grand Canyon que lembra café com leite). Nalguns casos, podem existir de facto «corantes» na água, como fitoplâncton, que podem conferir em alguns casos colorações esverdeadas ou avermelhadas.

Mas o azul é intrínseco à água que é o único composto corado (com a excepção possível da amónia) devido a transições vibracionais que se deslocam para os limites do visível. Já vimos que uma espécie absorve radiação quando esta está em ressonância com essa espécie, isto é, a energia da radiação é igual à diferença de energia entre dois estados possíveis dessa espécie química. Mas estes estados não se restringem a estados electrónicos porque não é apenas a energia electrónica que está quantificada. As moléculas vibram, isto é, os átomos não estão quietinhos nas posições de equílibrio em que normalmente os representamos em figuras estáticas. Podemos decompor a vibração das moléculas como um todo nos chamados modos normais de vibração e essas vibrações (tal como as rotações, mas essa é outra história) estão quantificadas e podemos excitá-las fazendo incidir sobre as moléculas luz que esteja em ressonância com essas vibrações.

Para todas as moléculas, com excepção da água, essa radiação cai exclusivamente na gama dos infra-vermelhos. As características únicas da água fazem com que esta exiba igualmente transições vibracionais no vísivel. Se substituirmos o hidrogénio por deutério (um isótopo do hidrogénio, isto é, um hidrogénio com o dobro da massa) o espectro vibracional é deslocado para maiores comprimentos de onda e a água deuterada é incolor.

Assim, a água absorve radiação no vermelho embora absorva pouco e seja necessário uma grande quantidade de água para lhe vermos a cor (um pouco como um vidro que parece incolor se tiver uma espessura pequena mas é corado quando numa placa de espessura maior). A uma profundidade de cerca de 8 metros já praticamente toda a luz vermelha foi absorvida. Nós olhamos para e não através da água do mar e vêmo-la azul e por isso a dispersão da luz nas moléculas de água e em partículas em suspensão tem de facto um papel importante.

Mas se a água é azul, porque razão é branca a neve? Bem a neve é branca pela mesma razão que a água que cai nas cataratas do Niagara é branca, devido à dispersão da luz, no caso da neve devido não só a dispersão no ar retido no interior mas igualmente nas míriades de cristais com diferentes orientações que a constituem.


Quando temos uma massa de gelo muito grande, como aconteceu este ano no lago Huron, a cor azul da água no estado sólido vê-se muito claramente.

Agora que estão explicadas as cores da água falta ver o que acontece à água (ou qualquer outra espécie química) quando absorve luz do sol. Os estados excitados vibracionais têm tempos de vida muito curtos e o excesso de energia é libertado na forma de calor, isto é, as moléculas regressam muito rapidamente ao estado fundamental livrando-se do excesso de energia absorvida convertendo-a em energia térmica.

O mesmo acontece com os estados excitados electrónicos, excepto no caso de moléculas fotoluminescentes nas quais a molécula se liberta do excesso de energia emitindo luz. Por isso não é boa ideia estar ao sol vestido de preto porque o preto absorve toda a luz visível ( e normalmente os corantes utilizados para tingir a roupa de preto não são nem fluorescentes nem fosforescentes) e a radiação absorvida acaba na forma de calor.

Com esta explicação muito breve, espero que os nossos leitores percebam o meu espanto e indignação ao deparar na pesquisa com uma enorme quantidade de banhas da cobra New Age absolutamente rídiculas relacionadas com inventadas «virtudes» coloridas da água. Li estupefacta os dislates com que charlatães sortidos exploram a ignorância de alguns e a tontice New Age de outros vendendo-lhes água solarizada ou bugigangas sortidas que supostamente servem para «extrair e armazenar as frequências curativas (?) da cor» e «produzir» água mágica pondo-a ao sol dentro de frascos coloridos- o que serve apenas para aquecer a água, mais nada.

Dizer que «a água é capaz de extrair e armazenar energias subtis que têm efeitos mensuráveis (?) em sistemas vivos» é uma cretinice total e nem sequer é possível adjectivar coisas sem sentido como «Reich deduziu, então, que a energia sem massa, que sob certas condições, criava uma membrana e adquiria características de matéria viva, tinha uma origem única: o ar, era cósmica». Mas é um abuso que devia ser punido charlatães arrogarem-se a afirmar que a ciência comprova o (e outros) disparate que vendem aos mais incautos.

Se charlatães ou outrem quiserem vender as suas banhas da cobra como mágicas, abençoadas por duendes cor de rosa às pintinhas ou coisa no género, não tenho problemas, compra quem acredita em magia ou em duendes. Mas publicitar as suas tretas como «cientificamente» comprovadas, embrulhá-las num jargão pseudo-científico e apregoar benefícios absolutamente inexistentes deveria ser punível por lei. Aliás, já o é em Inglaterra onde desde há uns dias os vendedores de pseudo-ciência, tretas psíquicas, astrólogos, cartomantes e afins são obrigados a indicar que os seus obscurantismos New Age são «apenas para entretenimento» e «não estão provados experimentalmente».

Parece assim confirmar-se o que escrevi no início do ano, que cada vez mais membros das comunidades científica e judicial, em alguns pontos do globo, pelo menos, começam a assumir as suas responsabilidades sociais no combate ao obscurantismo e charlatanices. Claro que uma sólida educação científica é a forma mais eficaz de combater banhas da cobra mas pelo menos este tipo de regulamentação evita a proliferação de charlatanices assentes na apropriação do prestígio da ciência em vacuidades enganosas como homeopatetices, «curas quânticas», «curas taquiónicas» e quejandos.

Publicidade de “boas maneiras”


No meu dia, Dia da Criança, gostava que me levassem ao [nome de um centro comercial] para ver o espectáculo musical [designação do grupo musical].
Um beijinho,
[espaço para a criança escrever o seu nome]



Estas são as palavras de um bilhete com design agradável que me chegou às mãos, via escola, pouco tempo antes de 1 de Junho.

A estratégia que aqui está subjacente não é nova, já a descobri há alguns anos, mas parece-me que tem vindo a ganhar terreno e a tornar-se comum.

Refiro-me, muito concretamente, a certas ligações que empresas e marcas estabelecem com escolas: financiam projectos, obras, materiais, ou, simplesmente, propõem-se ilustrar, apoiar a leccionação de temáticas curriculares nas mais diversas áreas como a saúde, a cidadania, a cultura...

Sem ter feito qualquer investigação para perceber em profundidade as características e extensão de tais ligações, baseando-me apenas e só na constatação que o quotidiano permite, darei exemplos, que fui guardando, daquilo que refiro.

- Escolas do Ensino Básico promovem um concurso de desenho. O vencedor vê o trabalho impresso em sacos de supermercado com o seu nome e da instituição a que pertence.
- Uma escola decide transformar um dos seus ginásios em anfiteatro. As obras são patrocinadas por um Banco a troco da afixação de um enorme cartaz publicitário na parede mais exposta aos olhares de quem passa;
- Escolas implementam o cartão electrónico para controlo de entradas e saídas e de outros passos dos alunos com o apoio de fábricas da região. O logótipo dessas fábricas consta, naturalmente, nos ditos cartões.
- Escolas do 1.º ciclo do Ensino Básico recebem um escritor. Num cartaz, onde se destaca a editora, solicita-se aos meninos que comprem um livro.
- Jardins-de-Infância levam as crianças a um certo centro comercial, onde alunos de medicina ou enfermagem simulam uma consulta aos bonecos que os petizes levam e explicam os riscos de apanhar Sol. Trazem para casa amostras de um certo protector solar.
- Escolas do 1.º ciclo do Ensino Básico deixam entrar profissionais da saúde para elucidar as vantagens da higiene bocal. Trazem para casa amostras de pasta de dentes, elixir, e uma escova de uma certa marca.

Poderia dar outros exemplos, mas penso que estes são suficientes para tecer algumas considerações.

Em todos os casos, a coberto de um bem intencionado e abnegado apoio à educação, que vai ao encontro ao desenvolvimento da criatividade e à promoção da leitura, da segurança e bem-estar dos alunos, além de complementar o trabalho de educadores e professores, a publicidade infiltra-se num terreno fácil e fértil na obtenção de resultados em seu próprio proveito, à revelia das regras que, no geral, lhe são imposta por lei.

Por outro lado, as orientações da tutela para a educação vão no sentido de se estabelecerem ligações entre a escola e o meio envolvente, de se sensibilizarem as crianças e os jovens para os problemas do quotidiano, e para se envolverem em situações concretas, pressupondo-se que, assim, o seu interesse pelas aprendizagens aumenta e estas se tornam mais significativas.

Além disso, não tenho dado conta de que os pais ou encarregados de educação se queixem. Pelo contrário, o que ouvi foram elogios às práticas que descrevi.

Parece, então, estar tudo certo.
Mas não está, está tudo errado.

Sob o ponto de vista da publicidade, as crianças e os jovens são um público apetecível: além de ficarem a conhecer empresas e marcas, de que serão potenciais clientes durante os longos anos de vida que terão pela frente, levam para casa um conhecimento paralelo ao escolar e, portanto, com o mesmo peso ou um peso maior. Isto, claro, sem falar na persuasão que este público exerce sobre os adultos para comprar isto e aquilo, ou isto em vez daquilo.

Mas não é às empresas e marcas que se deve imputar, em primeiro plano, a responsabilidade da situação de que falo, mas sim às escolas.

A lógica das primeiras é sabida: imporem-se no mercado e terem lucros. Por isso, a publicidade a que recorrem foi, é e será interesseira. Sempre poderemos alegar que os meios não justificam os fins, mas não iremos longe com este argumento.

Já as escolas deveriam fazer jus ao que uma certa retórica indica: serem centros de aprendizagem crítica. Ou seja, o que se ensina, deveria ensinar-se livremente sem amarras políticas, religiosas ou… económicas. Logo, não tem sentido que a publicidade, pela sua própria natureza sectária, lá entre. E, no entanto, pelo que percebo, ganha cada vez mais espaço nos manuais escolares, nos muros das escolas, nos materiais escolares, nos projectos em que os alunos se envolvem.

Paradoxalmente, isto acontece ao mesmo tempo que circulam no sistema de ensino diversos programas de educação para o consumo consciente e para a gestão do pecúlio, que têm, geralmente, lugar na área curricular não disciplinar que se designa por Formação Cívica.

Vejo, ainda, um outro problema na intrusão a que me refiro: quando, empresas e marcas entram na escola e contactam directamente com crianças e jovens estão em vantagem, por exemplo, em relação a investigadores. Estes, para realizarem os seus estudos em ambiente escolar público com alunos menores, têm de submeter os seus pedidos e obter autorizações por escrito das seguintes entidades e pessoas: (1) Comissão Nacional de Protecção de Dados; (2) Direcção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular; (3) Agrupamento de Escolas ou Escola; (4) Professores (caso se justifique); e (5) Pais/encarregados de educação.

Devo, a terminar, esclarecer que não defendo uma escola fechada sobre si própria, mas a abertura ao mundo que a cerca tem de ser criteriosa: a porta não pode estar franqueada a tudo e a todos; por sua vez, os alunos, nessa qualidade, não podem ser conduzidos a qualquer lado.

Imagem retirada de:
http://farm3.static.flickr.com/2345/2384287748_3019ce575d.jpg

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