Uma das nossas leitoras deixou um pedido na caixa de comentários do post em que se falava do novo documentário de Dawkins sobre as irracionalidades New Age. A Maria gostaria que abordássemos «A mensagem da água» do senhor Masaru Emoto, um graduado em Relações Internacionais da Universidade Municipal de Yokohama transformado em doutor em medicina alternativa, por correspondência e pela módica quantia de 850 dólares (a preços de 2007), por uma obscura pseudo-universidade de banha da cobra em Calcutá.
Como em todos os misticismos irracionais New Age, convém arranjar uma palavra para designar esta nova coisa, e o pseudo-doutor inventou o fenómeno Hado - e as concomitantes curas Hado -, sobre as quais há inúmeros seminários em que qualquer um pode ser elucidado, por uns irrelevantes 30 ou 35 dólares, sobre o poder curativo de águas expostas a palavras «bonitas»:
Hado cria palavras
As palavras são vibrações da natureza
Assim palavras bonitas criam naturezas bonitas
E palavras feias criam naturezas feias
Esta é a raíz do Universo
Como convém aos que impingem palermices New Age, o «doutor» Emoto debita mensagens de paz, amor, tranquilidade e preocupação com a natureza. De facto, é apenas a sua imensa «bondade» e preocupações humanitárias que o movem numa cruzada em favor das reservas hídricas e contra a poluição das águas e não os livros e demais bugigangas que aproveita para vender a preços astronómicos, como esta garrafa de água «Indigo». Por apenas 35 dólares, o senhor Emoto «oferece» aos cientificamente ignorantes consumidores 227,28 mililitros de água «geometricamente perfeita», «um concentrado estruturado hexagonalmente altamente carregado» (o que disparate quer que isto seja).
Se há algo que me irrita são charlatães que exploram a ingenuidade e ignorância alheias como modo de vida, especialmente quando esses ditos charlatães recorrem a pseudo-ciência para vender idiotices aos mais incautos, categoria na qual se inclui o pseudo-doutor Emoto que faz uso de um diploma que lhe saiu na farinha Amparo para debitar barbaridades como ciência. Nomeadamente afirma que «inventou» a teoria, na realidade uma verdade de La Palice, de que «quando a molécula de água cristaliza a água pura torna-se um cristal puro. Mas água contaminada pode não cristalizar em cristais tão bonitos como a água pura».
Mais patetadas do dito senhor, apresentado como cientista, são reproduzidas em inúmeras páginas da internet como sendo a confirmação de um facto, por exemplo, que há «evidência efectiva de que as energias vibracionais humanas, pensamentos, palavras, ideias e músicas, afectam a estrutura molecular da água».
Como é óbvio, a estrutura molecular da água, H2O quer esteja no estado gasoso, líquido, sólido amorfo ou cristalino, não é alterada muito menos por inexistentes «energias vibracionais humanas». O que varia nos estados físicos em que a água se apresenta é a proximidade e posição relativa das moléculas de água, por sua vez determinadas pelas forças intermoleculares, isto é, as interacções que se estabelecem entre moléculas e que no caso da água são únicas. Embora a morfologia ou hábito dos cristais de água seja muito diversa e dependente das condições em que os cristais crescem, a sua estrutura cristalina é sempre a mesma, determinada em parte pelas ligações de hidrogénio estabelecidas pela água, não é influencida por patetadas místicas como a banha da cobra deste senhor pretende.
Existem 12 estruturas cristalinas diferentes mais dois estados amorfos (sem estrutura, normalmente designados por vidros) para o gelo. Nas condições de pressão e temperatura vigentes no nosso planeta, o gelo existente na Terra aparece numa estrutura hexagonal (isto é, a tal estrutura que o senhor Emoto vende a 154 dólares o litro) denominada gelo Ih, em que cada molécula de água se liga a quatro outras por ligações de hidrogénio resultando numa estrutura mais aberta e menos densa que na água líquida (à temperatura de 4ºC, aquela em que a densidade da água é maior, 1g/cm3, cada molécula de água estabelece em média 3.4 ligações de hidrogénio, embora exista alguma controvérsia em relação à estrutura da água líquida).
De facto, a molécula de água, uma molécula pequenissima, apresenta propriedades completamente anómalas, com muitas características que lhe são únicas, devido exactamente à sua estrutura molecular. Algumas dessas propriedades únicas são conferidas pelas referidas ligações de hidrogénio e por uma das constantes dieléctricas mais elevadas apresentadas por um líquido.
O físico francês Charles Augustin de Coulomb (1736 - 1806) investigou a força que existe entre duas partículas carregadas e a lei com o seu nome diz-nos que a interacção entre duas partículas com carga é directamente proporcional ao produto das cargas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que as separa. Mas essa força depende ainda do meio no qual as partículas estão imersas: a interacção coulômbica é muito maior se as partículas estiverem no ar do que se elas estiverem na água sendo inversamente proporcional à constante dieléctrica do meio.
Isto é, a água, uma substância que apresenta um momento dipolar de 1,85 D - os átomos e moléculas são constítuidos por partículas com carga, electrões e protões, e no caso da água os centro das cargas positivas (situado entre os dois átomos de hidrogénio) e o negativas (no oxigénio) não coincidem - é um bom solvente para compostos iónicos, como o sal de cozinha, uma vez que estabiliza por interacções ião-dipolo os iões constituintes e e «diminui» a atracção entre eles.
A estrutura da água é assim alterada quando esta solvata sais iónicos e propriedades físicas como a temperatura de fusão ou tensão superficial são alteradas em relação à água pura. Assim, não é de espantar que algumas das amostras de água «feia» referidas por Emoto não solidifiquem (à temperatura de -5ºC a que «trabalha») uma vez que têm grandes quantidades de sais dissolvidos. Suponho que todos saibam que, por exemplo, se deita sal de cozinha nas estradas nas latitudes menos amenas exactamente para evitar a formação de gelo já que o sal baixa a temperatura de fusão da água. Ou que se adiciona etilenoglicol e outros anti-congelantes (agora o abaixamento crioscópico tem a ver com ligações de hidrogénio e não interacções ião-dipolo) aos radiadores para evitar que a água de refrigeração congele.
As imagens que ele refere como sendo de cristais da «mesma» água após rezas, «audição» de músicas sortidas ou restante mumbo-jumbo são claramente imagens de cristais obtidos a partir de vapor de água, não de água líquida. Por exemplo, o cristal perfeito obtido depois de submeter a «orações» água da represa Fujiwara é impossível de obter a partir de água no estado líquido, isto é, Emoto teve de evaporar a água, isto é, purificá-la por destilação, para obter estes cristais.

Sobre a estrutura dos cristais de água, esta página de um grupo do Caltech explica de forma simples as diferentes morfologias encontradas que dependem das condições em que os cristais crescem. A página trata essencialmente da morfologia de cristais obtidos a partir de vapor de água, os mais espectaculares e aqueles que Emoto afirma serem de água líquida sujeita a «terapia» Hado.
Na realidade, como este diagrama mostra claramente, a maioria se não todos os cristais «bonitos» do vendedor de banha da cobra, supostamente obtidos de águas «santas» ou submetidas ao mumbo-jumbo Hado, foram na realidade obtidos a partir de vapor de água (ou seja, água praticamente pura, qualquer que seja a sua origem, mesmo água do esgoto) sendo a sua morfologia dependente da temperatura, grau de saturação em vapor de água, velocidade de arrefecimento, etc..
Por sua vez, os cristais expostos a «vibrações» ou «palavras» negativas parecem na sua maioria obtidos a partir de finas camadas de água líquida que pode ter ou não diversas impurezas dissolvidas. Com impurezas dissolvidas que baixem a temperatura de fusão da água para um valor inferior ao que utiliza, -5ºC, a amostra simplesmente não solidifica. Nos restantes casos, obtêm-se sólidos com a mesma estrutura cristalina, Ih, mas com hábitos diferentes devido a vários factores como a presença de impurezas que podem ou não ficar retidas nos cristais, a velocidade de arrefecimento, etc.. Suponho que muitos saibam que se pode «beber» o gelo que flutua no oceano porque durante o processo de solificação as impurezas, como o cloreto de sódio, são «empurradas» pelos cristais em crescimento dando origem às placas que abundam nos tais cristais «feios» do aldrabão! Mesmo água Elgstat (água tão pura quanto possível) pode dar origem a cristais puros mas feios consoante as condições físicas em que se procede à sua cristalização.
Para os interessados em explorar as maravilhas naturais dos cristais de neve, nesta página são indicados vários livros científicos com imagens simplesmente fabulosas que permitirão apreciar no seu esplendor real a total aldrabice em que assenta a mina de ouro do senhor Masaru Emoto, que até hoje não reclamou o milhão de dólares que James Randi lhe oferece se ele conseguir reproduzir ao vivo os dislates que tão abundantemente debita.












