sábado, 11 de agosto de 2007

Message in a bottle

Uma das nossas leitoras deixou um pedido na caixa de comentários do post em que se falava do novo documentário de Dawkins sobre as irracionalidades New Age. A Maria gostaria que abordássemos «A mensagem da água» do senhor Masaru Emoto, um graduado em Relações Internacionais da Universidade Municipal de Yokohama transformado em doutor em medicina alternativa, por correspondência e pela módica quantia de 850 dólares (a preços de 2007), por uma obscura pseudo-universidade de banha da cobra em Calcutá.

Como em todos os misticismos irracionais New Age, convém arranjar uma palavra para designar esta nova coisa, e o pseudo-doutor inventou o fenómeno Hado - e as concomitantes curas Hado -, sobre as quais há inúmeros seminários em que qualquer um pode ser elucidado, por uns irrelevantes 30 ou 35 dólares, sobre o poder curativo de águas expostas a palavras «bonitas»:

Hado cria palavras
As palavras são vibrações da natureza
Assim palavras bonitas criam naturezas bonitas
E palavras feias criam naturezas feias
Esta é a raíz do Universo

Como convém aos que impingem palermices New Age, o «doutor» Emoto debita mensagens de paz, amor, tranquilidade e preocupação com a natureza. De facto, é apenas a sua imensa «bondade» e preocupações humanitárias que o movem numa cruzada em favor das reservas hídricas e contra a poluição das águas e não os livros e demais bugigangas que aproveita para vender a preços astronómicos, como esta garrafa de água «Indigo». Por apenas 35 dólares, o senhor Emoto «oferece» aos cientificamente ignorantes consumidores 227,28 mililitros de água «geometricamente perfeita», «um concentrado estruturado hexagonalmente altamente carregado» (o que disparate quer que isto seja).

Se há algo que me irrita são charlatães que exploram a ingenuidade e ignorância alheias como modo de vida, especialmente quando esses ditos charlatães recorrem a pseudo-ciência para vender idiotices aos mais incautos, categoria na qual se inclui o pseudo-doutor Emoto que faz uso de um diploma que lhe saiu na farinha Amparo para debitar barbaridades como ciência. Nomeadamente afirma que «inventou» a teoria, na realidade uma verdade de La Palice, de que «quando a molécula de água cristaliza a água pura torna-se um cristal puro. Mas água contaminada pode não cristalizar em cristais tão bonitos como a água pura».

Mais patetadas do dito senhor, apresentado como cientista, são reproduzidas em inúmeras páginas da internet como sendo a confirmação de um facto, por exemplo, que há «evidência efectiva de que as energias vibracionais humanas, pensamentos, palavras, ideias e músicas, afectam a estrutura molecular da água».

Como é óbvio, a estrutura molecular da água, H2O quer esteja no estado gasoso, líquido, sólido amorfo ou cristalino, não é alterada muito menos por inexistentes «energias vibracionais humanas». O que varia nos estados físicos em que a água se apresenta é a proximidade e posição relativa das moléculas de água, por sua vez determinadas pelas forças intermoleculares, isto é, as interacções que se estabelecem entre moléculas e que no caso da água são únicas. Embora a morfologia ou hábito dos cristais de água seja muito diversa e dependente das condições em que os cristais crescem, a sua estrutura cristalina é sempre a mesma, determinada em parte pelas ligações de hidrogénio estabelecidas pela água, não é influencida por patetadas místicas como a banha da cobra deste senhor pretende.

Existem 12 estruturas cristalinas diferentes mais dois estados amorfos (sem estrutura, normalmente designados por vidros) para o gelo. Nas condições de pressão e temperatura vigentes no nosso planeta, o gelo existente na Terra aparece numa estrutura hexagonal (isto é, a tal estrutura que o senhor Emoto vende a 154 dólares o litro) denominada gelo Ih, em que cada molécula de água se liga a quatro outras por ligações de hidrogénio resultando numa estrutura mais aberta e menos densa que na água líquida (à temperatura de 4ºC, aquela em que a densidade da água é maior, 1g/cm3, cada molécula de água estabelece em média 3.4 ligações de hidrogénio, embora exista alguma controvérsia em relação à estrutura da água líquida).

De facto, a molécula de água, uma molécula pequenissima, apresenta propriedades completamente anómalas, com muitas características que lhe são únicas, devido exactamente à sua estrutura molecular. Algumas dessas propriedades únicas são conferidas pelas referidas ligações de hidrogénio e por uma das constantes dieléctricas mais elevadas apresentadas por um líquido.

O físico francês Charles Augustin de Coulomb (1736 - 1806) investigou a força que existe entre duas partículas carregadas e a lei com o seu nome diz-nos que a interacção entre duas partículas com carga é directamente proporcional ao produto das cargas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que as separa. Mas essa força depende ainda do meio no qual as partículas estão imersas: a interacção coulômbica é muito maior se as partículas estiverem no ar do que se elas estiverem na água sendo inversamente proporcional à constante dieléctrica do meio.

Isto é, a água, uma substância que apresenta um momento dipolar de 1,85 D - os átomos e moléculas são constítuidos por partículas com carga, electrões e protões, e no caso da água os centro das cargas positivas (situado entre os dois átomos de hidrogénio) e o negativas (no oxigénio) não coincidem - é um bom solvente para compostos iónicos, como o sal de cozinha, uma vez que estabiliza por interacções ião-dipolo os iões constituintes e e «diminui» a atracção entre eles.

A estrutura da água é assim alterada quando esta solvata sais iónicos e propriedades físicas como a temperatura de fusão ou tensão superficial são alteradas em relação à água pura. Assim, não é de espantar que algumas das amostras de água «feia» referidas por Emoto não solidifiquem (à temperatura de -5ºC a que «trabalha») uma vez que têm grandes quantidades de sais dissolvidos. Suponho que todos saibam que, por exemplo, se deita sal de cozinha nas estradas nas latitudes menos amenas exactamente para evitar a formação de gelo já que o sal baixa a temperatura de fusão da água. Ou que se adiciona etilenoglicol e outros anti-congelantes (agora o abaixamento crioscópico tem a ver com ligações de hidrogénio e não interacções ião-dipolo) aos radiadores para evitar que a água de refrigeração congele.

As imagens que ele refere como sendo de cristais da «mesma» água após rezas, «audição» de músicas sortidas ou restante mumbo-jumbo são claramente imagens de cristais obtidos a partir de vapor de água, não de água líquida. Por exemplo, o cristal perfeito obtido depois de submeter a «orações» água da represa Fujiwara é impossível de obter a partir de água no estado líquido, isto é, Emoto teve de evaporar a água, isto é, purificá-la por destilação, para obter estes cristais.

Sobre a estrutura dos cristais de água, esta página de um grupo do Caltech explica de forma simples as diferentes morfologias encontradas que dependem das condições em que os cristais crescem. A página trata essencialmente da morfologia de cristais obtidos a partir de vapor de água, os mais espectaculares e aqueles que Emoto afirma serem de água líquida sujeita a «terapia» Hado.

Na realidade, como este diagrama mostra claramente, a maioria se não todos os cristais «bonitos» do vendedor de banha da cobra, supostamente obtidos de águas «santas» ou submetidas ao mumbo-jumbo Hado, foram na realidade obtidos a partir de vapor de água (ou seja, água praticamente pura, qualquer que seja a sua origem, mesmo água do esgoto) sendo a sua morfologia dependente da temperatura, grau de saturação em vapor de água, velocidade de arrefecimento, etc..


Por sua vez, os cristais expostos a «vibrações» ou «palavras» negativas parecem na sua maioria obtidos a partir de finas camadas de água líquida que pode ter ou não diversas impurezas dissolvidas. Com impurezas dissolvidas que baixem a temperatura de fusão da água para um valor inferior ao que utiliza, -5ºC, a amostra simplesmente não solidifica. Nos restantes casos, obtêm-se sólidos com a mesma estrutura cristalina, Ih, mas com hábitos diferentes devido a vários factores como a presença de impurezas que podem ou não ficar retidas nos cristais, a velocidade de arrefecimento, etc.. Suponho que muitos saibam que se pode «beber» o gelo que flutua no oceano porque durante o processo de solificação as impurezas, como o cloreto de sódio, são «empurradas» pelos cristais em crescimento dando origem às placas que abundam nos tais cristais «feios» do aldrabão! Mesmo água Elgstat (água tão pura quanto possível) pode dar origem a cristais puros mas feios consoante as condições físicas em que se procede à sua cristalização.

Para os interessados em explorar as maravilhas naturais dos cristais de neve, nesta página são indicados vários livros científicos com imagens simplesmente fabulosas que permitirão apreciar no seu esplendor real a total aldrabice em que assenta a mina de ouro do senhor Masaru Emoto, que até hoje não reclamou o milhão de dólares que James Randi lhe oferece se ele conseguir reproduzir ao vivo os dislates que tão abundantemente debita.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

OS FILHOS DE SANCHES


Texto publicado no meu livro “Curiosidade Apaixonada” (Gradiva, 2005), ao qual Rui Baptista se refere no texto anterior (agradeço a referência, claro), acrescentado de notas bibliográficas.

A expressão “Filhos de Rousseau” deu o título a um livro de Maria Filomena Mónica sobre a situação calamitosa da educação em Portugal (Relógio d’Água, 1997). Filhos de Rousseau são os adeptos modernos (ou, como alguns deles preferem chamar-se, pós-modernos) das ideias do suíço Jean Jacques Rousseau, o autor do mito do bom selvagem. Escreveu Mónica, com indiscutível clareza:

“As crianças eram seres sem pecado, original que a sociedade corrompia através das suas normas. Rousseau rejeitava as ideias de Locke, para quem as crianças deviam ser gradualmente introduzidas no mundo da racionalidade. Levada à sua conclusão lógica, a doutrina de Rousseau acaba no totalitarismo. Os homens tinham de ser felizes, mesmo que a isso tivessem de ser forçados. Já que não se podiam manter selvaticamente bons, entre as florestas primitivas, competia à escola conduzi-los até si mesmos. Ora, quem melhor do que os professores para os encaminhar até à Luz? Rousseau introduziu a ideia de que a criança era um botão de rosa. Ao professor competeria estrumar a alma infantil. Foi assim que a Pedagogia substituiu o Saber”.
A educação está, portanto, roída entre nós pela doença do rousseauismo serôdio. Mas, se isso nos serve de algum consolo, não é apenas entre nós: o fenómeno grassa a nível mundial. Nós somos mais frágeis do que outros porque não possuímos os anti-corpos que outros têm. De resto, e como uma desgraça nunca vem só, não se trata apenas de um problema com a educação mas também de um problema com a ciência. Por exemplo, o biólogo norte-americano Edward Wilson, no seu livro “Consilience- The Unity of Knowledge” (Knopf, 1998; um dos grandes ensaios contemporâneos que ainda não foi traduzido em Portugal) faz uma profissão de fé no saber humano e na possibilidade de unir no futuro os vários saberes dispersos. Mas, logo no primeiro capítulo, acusa Rousseau de estar na base da “cohabitação da ideologia igualitária e da coerção totalitária”, aquilo que designa por “praga dos últimos séculos”. O genebrino, ao defender o naturalismo, teria abandonado as ideias de racionalidade de progresso. Para Wilson, tal como para a socióloga portuguesa, Rousseau foi o mais claro antecessor de Robespierre, que espalhou o terror por conta de uma suposta felicidade social (incidentalmente dando assim razão à resposta de um aluno que, quando o professor lhe perguntou quem tinham sido os três percursores da Revolução Francesa, afirmou: ”Foram Jean, Jacques e Rousseaux!”).

Rousseau teve, porém, opositores de monta, que também estiveram na origem da Revolução Francesa. Falamos, por exemplo, de Voltaire e Diderot, que acreditavam firmemente no poder da razão humana, na sua expressão através dos livros e na unidade do conhecimento. Por isso foi escrita a “Enciclopédie”. Wilson defende a actualidade nos dias de hoje desse sonho iluminista (o título “consiliência” significa precisamente a “união das ciências”), em contraste perfeito com as ideias românticas, relativistas ou pós-modernas que ignoram ou desprezam o valor da ciência.

Como chegaram as ideias de Rousseau a Portugal? E que impacte tiveram? Um estudo de Fernando Augusto Machado ilumina esta questão. Depois de algumas resistências iniciais (pois como não haveria uma sociedade fortemente hierarquizada e bastante influenciada pela igreja de resistir à ideia de igualdade entre os homens?) essas ideias acabaram por ser bem recebidas por pré-românticos e românticos de todos os matizes. Entre os últimos pontifica Almeida Garrett. E, como que dando razão à expressão “filhos de Rousseau”, não se esquece de referir a admiração que pedagogos portugueses como António Sérgio e Delfim Santos nutriram pelo autor de “Émile”. Mas Machado não se esquece também de referir a oposição a Rousseau. Nomeadamente, informa-nos que, em 1755, o “Emile” provocou uma “brutal reacção em Voltaire, que o denunciou com um insulto ao género humano e um elogio da animalidade, insinuando mesmo ao autor um convite ao exercício da quadrupedia”. E refere também o caso do estrangeirado português António Ribeiro Sanches.

Machado publicou também um outro livro, dedicado integralmente a Ribeiro Sanches. Sanches, que estudou na Universidade de Coimbra e depois se doutorou em Salamanca, viu-se obrigado, em virtude da sua origem judaica, a emigrar primeiro para a Holanda e depois para a Rússia e para a França. Na Rússia, onde esteve 16 anos, chegou a médico da corte. Foi um defensor das reformas introduzidas por Pombal na educação, nomeadamente a laicização das escolas. Atribuiu à influência da igreja a causa da decadência nacional. E afirmou que a educação é a chave da transformação social e económica. Advogou uma escola pública e aberta, embora duvidasse da igualdade completa entre os estudantes (defendeu uma educação especial para as elites). Para ele:

“Os mais excelentes monarcas que celebra a história sagrada e profana foram aqueles que tomaram a educação dos seus povos à sua conta; fundando escolas públicas, para ali adquirirem ali os hábitos da virtude, e as ciências de que precisavam os seus estados”.

No bom espírito das luzes, defendeu também a ciência e a experimentação:

“É necessário exercitarem-se as mãos e os olhos na investigação das partes do corpo humano, tanto como na leitura que trata das mesmas partes: este estudo obriga o médico a observar, a trabalhar, e a indagar; e é o mais poderoso para adquirir aquele génio filosófico tão necessário nesta ciência”.

E que pensava Sanches sobre Rousseau? Pois, pura e simplesmente, que era “doido”. Acusou-o de excesso de especulação e de falta de espírito prático. Sobre o livro “Émile” escreveu, em 1763, que “é um livro impraticável, cheio de paradoxos contrários à construção do estado civil e que sapa todas as leis fundamentais.”

Mas, infelizmente, Sanches não estava cá nem fez escola entre nós. Se o tivesse feito não teríamos hoje nas nossas escolas tantos “filhos de Rousseau”. Teríamos antes “filhos de Sanches” e não estaríamos tão mal.


LIVROS PARA SABER MAIS

- Fernando Augusto Machado, “Rousseau em Portugal”, Campo das Letras, 2000

O autor obteve, com esta tese, o doutoramento em 1999 na Universidade do Minho em História da Filosofia e Cultura Portuguesa. É professor nesta Universidade, integrando o Departamento de de Filosofoa e Cultura do Instituto de Letras e Ciências Humanas. O volumoso livro (713 páginas) debruça-se sobre a recepção em Portugal das ideias de Jean Jacques Rousseau. O subtítulo elucida o período que está em questão: “da clandestinidade setecentista à legalidade vintista”. Nomes como Teodoro de Almeida, Filinto Elísio, Bocage, Marquesa de Alorna e Almeida Garrett foram de uma maneira ou de outra prosélitos da obra de Rousseau.

- Fernando Augusto Machado, “Educação e Cidadania na Ilustração Portuguesa. Ribeiro Sanches”, Campo das Letras, 2001

O médico natural de Penamacor António Ribeiro Sanches foi um opositor ferrenho das teses de Rousseau. Se Rousseau pode ser considerado um pré-romântico, Ribeiro Sanches assume-se decididamente com um racionalista, contemporâneo e solidário com Voltaire, Diderot e outros grandes iluministas. Este livro aborda algumas das ideias de Ribeiro Sanches sobre a educação, concluindo com a transcrição e tradução na íntegra de um manuscrito, que se encontra no Arquivo Distrital de Braga, com recomendações para a educação dos fidalgos russos. Pormenor interessante: Machado pesquisou abundantemente em fontes russas, o que lhe foi facilitado pelo facto de a esposa, a quem dedica o livro, ter essa nacionalidade. A edição foi patrocinada pela Câmara Municipal da Guarda, para assinalar os 300 anos que ocorreram em 1999 da morte do médico português.

A resistência do “eduquês” aos exames nacionais


Nova contribuição de Rui Baptista:

“(…) num país onde a inteligência é um capital inútil e onde oúnico capital deveras produtivo é a falta de vergonha e de escrúpulos – o diagnóstico impõe-se ‘per se’”.
Manuel Laranjeira (“O Norte”, 1908)

Só por absurdo, pode passar pela cabeça de alguém conceber um treinador de atletismo a adestrar um atleta para uma maratona olímpica sem que o resultado dos treinos seja sujeito à avaliação de uma cronometragem rigorosa. Pois é precisamente isto que acontece no nosso sistema educativo em que o aluno, por vezes, sai mal preparado por não terem sido avaliadas, em exames nacionais, as suas “performances” que atestem os conhecimentos adquiridos nos diversos e sucessivos patamares até ao 9.º ano de escolaridade. Desta forma, e a partir daí, é o aluno lançado nas pistas da exigente competição do ensino secundário (ante-câmara de acesso ao ensino superior) em que corre o risco de cortar a linha da meta nos últimos lugares com os bofes do desânimo a saltarem-lhe da boca para fora. Outras vezes, nem sequer termina a prova, desistindo a meio e engrossando, assim, as percentagens do insucesso escolar.

Ter a decantada avaliação contínua isenta de qualquer crítica passando-lhe um cheque em branco em assunto tão sério, transforma a educação num embuste de proporções nacionais que pode servir para denegrir os que devem ser honrados e honrar os que devem ser denegridos.

Debrucemo-nos sobre a velha questão dos conteúdos científicos e pedagógicos do ensino. Como é possível, por exemplo, formar um professor para o 2.º ciclo do ensino básico, em escolas superiores de educação, para ministrar, simultaneamente, matemática e ciências da natureza e exigir-se a um outro, do mesmo grau de ensinança, uma formação universitária específica para cada uma destas disciplinas? O facto de naquelas escolas haver uma excessiva preocupação com uma formação pedagógica, divorciada de uma forte componente científica da matéria a ensinar, faz com que este “modus faciendi” se possa tornar num perigosíssimo meio de inculcar no aluno a asneira científica, qual lapa incrustada na rocha para sempre.

Segundo Filomena Mónica, esta prevalência pedagógica, sobre o conhecimento científico, remonta às teorias de Rousseau que “introduziu a ideia de que a criança era um botão de rosa, competindo ao professor estrumar a alma infantil: foi assim que a Pedagogia substituiu o Saber”. Mas para além destas duas “ferramentas”, de natureza pedagógica, uma, e científica, outra, deve ser tomado em linha de conta o papel da empatia na relação professor/aluno.

“Last but not least”, retornemos à velha, mas sempre actual, questão dos exames nacionais em guerra aberta com o “eduquês” (que deu o título a um “best-seller” de Nuno Crato), definido por Desidério Murcho, em feliz chiste, como “sinónimo de conversa de tias de Cascais à hora do chá”. Parafraseando o conceito de democracia de Churchill, os exames podem ser a pior forma de avaliação, mas ainda não se descobriu outra melhor em turmas grandes com alunos indisciplinados. Assim, o cerne da questão não reside nos exames propriamente ditos, mas na forma como são elaborados em vassalagem a programas demasiado extensos e, “ipso facto”, nem sempre cumpridos, com enunciados repletos de respostas do tipo totobola, ainda mesmo na interpretação de textos linguísticos, e erros de forma e conteúdo científicos por parte de equipas encarregadas da respectiva elaboração que se abrigam de intempéries de responsabilidade no alpendre tutelar do próprio Ministério da Educação.

De caminho, reporto-me a um caso de que fui testemunha e bem atesta a alergia dos cábulas pelos exames. Durante o período de transição de Moçambique para a Independência, realizaram-se várias sessões de esclarecimento nas escolas. Numa delas, na antiga Lourenço Marques, levada a efeito por professores da ex-União Soviética, os alunos queixaram-se de um sistema de ensino que, na sua opinião, contemplava um exagerado número de provas de exame, culpando, com isso, um sistema de ensino opressor classificado de fascista. Os soviéticos quiseram saber o montante de provas de exames até ao ingresso no ensino superior. Em resposta, os alunos enumeraram o respectivo rol. Aí, retorquiram: “No nosso sistema de ensino, a avaliação inclui um maior número de exames”. E concluíram: “Por isso é que caminhamos na vanguarda da exploração espacial!”

Num sistema educativo permissivo em que a entrega ao estudo chega a ser responsabilizada por traumas da infância e da adolescência, em que a memória é associada à estupidez, em que a cabulice se fez rainha e o hedonismo socrático se fez rei, vivem os responsáveis por este verdadeiro reino do caos em sobressalto constante pelo perigo de aparecer um coro de gente inconformada que grite que o rei vai nu! Aliás, de há muito, dizem-no, os muitos “rankings” internacionais que vieram desassossegar a felicidade de uma academia que julgava poder continuar a viver num mar de rosas sem os espinhos dos exames.

Nesta hora de uma quase apatia geral, surge a férrea determinação de Carlos Fiolhais em contrariar este “statu quo”, expressa no prefácio de um dos seus livros: “Ousei, no volume anterior, atirar-me, de caneta em riste, a uma das nossas maiores fragilidades: a fragilidade que é patente no nosso défice de ciência e de educação. Supondo que ela não saiu suficientemente ferida, ataco-a de novo”. Os defensores de uma ciência e de uma educação fortalecidas agradecem!

Primatólogo preso gera campanha













A 14 de Julho fazia-se referência num post da Palmira à prisão de um primatólogo holandês, entretanto naturalizado brasileiro, pelo seu próprio governo. Marc van Roosmalen, que passou mais de 20 anos a investigar na floresta amazónica, tendo descoberto várias novas espécies de mamíferos, entre as quais sete de primatas, incluindo um Género novo (Callibella) - a última vez que um primatólogo descobriu um género novo aconteceu no Séc. XIX -, foi alvo de um processo judicial pelo governo brasileiro e condenado a 15 anos e 9 meses de prisão, uma pena absolutamente exagerada para um tipo de crime que, além do mais, ele provavelmente não cometeu.

A Nature desta semana noticia o facto e informa que os cientistas brasileiros estão a considerar passar a formas mais veementes de luta, através de desobediência civil e outras formas de luta, contra a prisão do primatólogo e contra o que consideram ser as restrições governamentais impostas aos cientistas. Nas palavras de Leandro Salles, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, “De acordo com as leis actuais, os investigadores são tratados como criminosos potenciais”.

Escudando-se numa legislação que supostamente visa combater a pirataria biológica, o governo federal acusou e considerou culpado van Roosmalen de: 1. manter sem licença primatas numa instalação de recuperação sua em Manaus – licença cuja renovação pediu, sem resposta das autoridades -; 2. leiloar a atribuição de nomes de primatas novos descobertos junto de patrocinadores ricos – o que serve para obter recursos para a sua protecção, os quais não consegue obter do governo; 3. ter vendido materiais pertencentes ao seu patrão anterior, o Instituto Nacional da Investigação Amazónica (INIA) – tudo crimes de grande peso, como se depreende.

Na opinião de Philip Fearnside do INIA, o Brasil tem perdido imenso financiamento e importância intelectual devido às tentativas governamentais de proteger a biodiversidade da interferência internacional. Entenda-se: as tentativas do governo de impedir que investigadores estrangeiros tomem conhecimento do que está a ser feito em termos de política ambiental na Amazónia. Porque a destruição a que se tem assistido na área da maior floresta do mundo não é bonita de se ver.

Convenhamos que não é muito o que o Brasil tem feito para proteger a sua biodiversidade. As atitudes proteccionistas, nacionalistas, que muitos estados têm assumido nos últimos anos, constituem parte do problema da preservação da biodiversidade. Sob a capa da luta contra a bio-pirataria e de defesa da sua integridade nacional, os estados estão a criar mecanismos para lidar com as vozes indesejáveis, que denunciam as verdadeiras práticas internas de destruição de alguns dos mais importantes habitats do mundo.

Actualmente, a principal causa da perda de diversidade biológica é a destruição de habitat. As florestas tropicais albergam a maior diversidade por Km2 do mundo. E são o habitat sujeito à mais acelerada destruição, por acção directa humana, no momento presente: cerca de um campo de futebol por segundo!

O que leva um governo a colocar na prisão, por razões obscuras, um dos cientistas vivos que mais contribuiu para a descoberta de novas espécies de mamíferos no mundo?

O intenso trabalho de van Roosmalen em defesa da floresta amazónica foi mesmo alvo de um artigo na Time, em 2000. Na altura, afirmava ser fundamental lutar pela sua preservação. De outro modo “the rain forest will be destroyed before we even know what plants and animals are out there”.

Escravos da Superstição: os Inimigos da razão


O prefácio da novissima The New Encyclopedia of Unbelief em que o Carlos colaborou ficou a cargo de um dos mais proeminentes ateístas da actualidade, Richard Dawkins, que tem feito correr rios de tinta com o seu último livro, «A ilusão de Deus».

Este livro esteve na base de um documentário do Channel 4, «The root of all evil?» (A raiz de todos os males?), escrito e apresentado por Richard Dawkins e exibido pela primeira vez em Janeiro de 2006. O documentário foi apresentado em dois episódios de 45 minutos, «The god delusion» (A ilusão de Deus) e «The virus of faith» (O vírus da fé). No final do documentário e quasi como resumo do mesmo, Richard Dawkins cita Steven Weinberg, Nobel da Física em 1979:

«A religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem religião teremos boas pessoas fazendo coisas boas e más pessoas fazendo coisas más. Mas é preciso a religião para que pessoas boas façam coisas más. (Religion is an insult to human dignity. With or without it you would have good people doing good things and evil people doing evil things. But for good people to do evil things, that takes religion)».

A apreciação do último livro de Dawkins por James Watson, laureado em conjunto com Francis Crick e Maurice Walkins com o Nobel da Medicina pela descoberta da estrutura do ADN, diz tudo sobre o documentário, cujo mote segue o do livro: «A irracionalidade religiosa tem muitas vezes colocado sérios obstáculos para o melhoramento da humanidade. Para que nos possamos efectivamente opôr a ela, o mundo necessita igualmente de racionalistas ardentes que não tenham medo de enfrentar e desafiar crenças aceites há muito tempo. Richard Dawkins destaca-se assim através da inteligência incisiva de 'The God Delusion?'»

O título dado ao documentário não era o preferido por Dawkins, mas foi mantido pela emissora para criar controvérsia. Também para manter acesa a chama da controvérsia, a nova série de Dawkins para o Channel 4, que começa a ser exibida segunda-feira, intitula-se «Escravos da superstição: os Inimigos da Razão» e trata das patetadas New Age que infestam o Reino Unido e não só. Nomeadamente, como nos é dito na sinopse do documentário:

«Há duas formas de olhar o mundo - através da fé e superstição ou através do rigor da lógica, observação e evidência, por outras palavras, através da razão. A razão e o respeito pelas evidências são preciosas, a fonte do progresso humano e a nossa salvaguarda contra fundamentalistas e aquleles que lucram pela detrupação da verdade.

No entanto, hoje, a sociedade parece em fuga da razão. Sistemas de crenças aparentemente inócuos mas completamente irracionais, da astrologia ao misticismo New Age, da clarividência às medicinas alternativas, estão em franca expansão.

Richard Dawkins confronta o que vê como uma epidemia de pensamento irracional e supersticioso».

Pelo que consegui ler sobre a série, que espero esteja disponível rapidamente no Youtube, esta é simplesmente imperdível. Dawkins «consulta» vários vendedores de banha da cobra, com especial incidência naqueles que mais o irritam: os que conspurcam a ciência misturando termos científicos no mumbo-jumbo que vendem aos mais crédulos, seja o inenarrável Deepak Chopra e as suas curas «quânticas», a mulher de Glastonbury que afirmou ter alterado o ADN de Dawkins para a sua estrutura atlante original por inserção «dos triângulos desaparecidos» ou os homeopatas.

Como química sou especialmente sensível à irritação de Dawkins em relação à irracionalidade que dá pelo nome de homeopatia, que vende água ao preço de medicamentos, irritação que no caso britânico é agravada pelo facto de os «tratamentos» homeopáticos serem subvencionados pelo sistema de saúde - que com o seu directório para as medicinas alternativas e complementares promove outras banhas da cobra -, nomeadamente o NHS contribuiu com 10 milhões de libras para a recente remodelação do «hospital» Royal London Homeopathic.

Mesmo antes de ir para o ar, os «Inimigos da razão» já mereceu os expectáveis e sempre presentes ataques pessoais a Dawkins e ao seu «cientifismo». O mais bizarro desses ataques foi desferido por uma colunista do Daily Mail, Melanie Phillips, num artigo intitulado «Arrogância, dogma e porquê a ciência - não a fé - é a nova inimiga da razão».

As visões da autora sobre ciência são ainda mais bizarras e incluem a defesa apaixonada do ensino do criacionismo nas aulas de ciências. Num artigo de opinião de 2002, publicado igualmente no Daily Mail, Melanie Philips denuncia como «intolerância em relação à religião» e «cientifismo» a pretensão «secular», que pensaria pacífica, de se considerar que nas aulas de ciências se devem abordar apenas questões de ciência. Certamente que os curricula do agrado da autora serão na linha dos seguidos por uma escola baptista de San Antonio, Texas, onde os alunos aprendem que foi Deus o inventor da consistência dos princípios matemáticos e estudam a história dos Estados Unidos «com um filtro bíblico».

Neste artigo, Melanie Philips escreve que esta «doutrina extremamente dúbia» de pensar que em ciência só se devem levantar questões passíveis de resposta pela ciência é considerada por muitos cientistas (os neo-criacionistas do Discovery Institute) como anti-ciência. Percebemos o que quer dizer no artigo completamente estapafúrdio a «bater» no grande inimigo da razão no (ir)raciocínio da autora: a ciência que, com as suas explicações assentes em factos não na fé, levou ao colapso da crença na literalidade da «Bíblia que fornece uma imagem de um Criador racional e de um Universo ordenado» e como consequência proporcionou a crença nas banhas da cobra New Age.

De facto, Philips termina o artigo explicando que «os argumentos científicos acerca da ausência de evidência» das pretensões criacionistas assentam «na base totalmente perversa de que os argumentos [criacionistas] não estão de acordo com as regras da ciência que exigem que uma teoria seja suportada por evidências.

Como resultado desta arrogância, o Ocidente - o cadinho da razão - está a regredir para uma era pré-moderna de obscurantismo, de dogmas e de caça secular às bruxas».

Assim, na opinião da iluminada autora, esta mania insuportável e irracional da ciência de insistir em que qualquer teoria deve ser suportada em factos é, sem se perceber como, a verdadeira culpada pelo florescimento das irracionalidades New Age - assentes não em factos mas na fé em charlatanices sortidas! Recomendo sobre o tema os posts do Desidério sobre fé e razão.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

A DESCRENÇA EM DEUS NA LITERATURA PORTUGUESA

Tradução em português da minha entrada, com o título de cima, incluída, a convite do editor, na “The New Encyclopedia of Unbelief”, Prometheus Books, Tom Flynn (edição) e Richard Dawkins (prefácio). Esta enciclopédia de 800 páginas sucede à "The Encyclopedia of Unbelief" (Prometheus Books, 1985), editada por Gordon Stein, que entretanto faleceu. O seu lançamento está anunciado para Agosto.

Embora a palavra descrença tenha um sentido mais amplo, encaramo-la aqui como descrença religiosa: falaremos de descrença em Deus. Sendo o sentimento religioso em Portugal muito antigo e bastante forte (ele expressa-se pela larga adesão à Igreja Católica) e encontrando-se esse sentimento reflectido na literatura portuguesa desde os seus primórdios, apresentamos aqui um resumo do modo como a descrença surgiu e permaneceu na literatura portuguesa ao longo dos séculos XIX e XX.

No século XIX, o Romantismo português, como na Europa em geral, caracterizou-se por um retorno à religiosidade, num movimento de reacção ao racionalismo que tinha caracterizado o século das luzes. Alguns autores românticos exaltaram os valores morais do Cristianismo, enquanto outros preferiram o lado estético e sentimental da religião. Contudo, esse fervor religioso não impediu os primeiros escritores e talvez os maiores escritores românticos portugueses, Almeida Garrett (1799-1854) e Alexandre Herculano (1810-1877), de manifestarem a sua independência em relação ao pensamento da Igreja Católica como instituição e de porem em causa o poder da Igreja. Sendo ambos católicos mas ao mesmo tempo liberais, contribuíram para a secularização da cultura e para a separação do Estado e da Igreja: Garrett, mais mundano, defendeu a modernização dos costumes, desligando-se de qualquer forma de conservadorismo católico, e denunciou abertamente a corrupção do clero e a aliança deste com o poder conservador (ver o romance histórico O Arco de Sant’Ana). Por seu lado, Herculano defendeu publicamente o casamento civil e questionou a historicidade de certas posições doutrinárias oficiais (nomeadamente, o dogma da Imaculada Conceição e o milagre de Ourique, segundo o qual no início da nacionalidade uma grande batalha contra os mouros tinha sido ganha por intervenção divina); no seu romance Eurico o Presbítero (que, na sua época, foi um autêntico “best-seller”), criticou o celibato como condição obrigatória do magistério espiritual. Um outro escritor romântico católico bastante conhecido foi Camilo Castelo Branco (1825-1890), autor de Amor de Perdição: teve uma vida pouco de acordo com a doutrina católica e envolveu-se em várias polémicas com a Igreja.

A literatura da segunda metade do século XIX foi profundamente influenciada pelas correntes positivistas então emergentes e, por isso mesmo, declarou-se adepta da razão científica, iconoclasta e jacobina. As figuras mais marcantes desta geração, conhecida como a “geração de 70” e que provocou uma polémica contra os românticos em 1865 empreenderam uma intensa campanha anti-clerical, em textos literários e ensaísticos de grande divulgação: os romances realistas daquele que é provavelmente e ainda hoje o maior prosador da língua portuguesa Eça de Queirós (1845-1900) - O Crime do Padre Amaro e A Relíquia - , os poemas satíricos de Guerra Junqueiro (1850-1923) - A Velhice do Padre Eterno - , e as crónicas de Ramalho Ortigão (1836-1915) e de Fialho de Almeida (1857-1911) são os exemplos mais marcantes. Mas houve outros, como Antero de Quental (1842-1891), o poeta e filósofo que, nas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, incluiu a influência nefasta da Igreja, e Oliveira Martins (1845-1894), o historiador autor de Portugal Contemporâneo. Todos eles defendiam uma sociedade laica e progressista, em que a razão, a ciência, a moral social substituíssem completamente os dogmas e a pedagogia religiosa. Não punham em causa a figura histórica de Jesus Cristo nem a sua lição evangélica, mas consideravam obsoleta e alienante e a influência da religião católica em geral e muito em particular do clero na vida social e política.

Na história da literatura portuguesa, como de resto na história da literatura em geral, é nítida a alternância de correntes estéticas e filosóficas. Assim, o forte movimento positivista teve a sua reacção dialéctica nos anos seguintes: nas correntes neo-românticas "fin-de-siècle", observa-se um certo retorno aos valores religiosos, à espiritualidade mística e às tradições da cultura nacional.

O século XX haveria de trazer a modernidade. Os poetas do chamado “Primeiro Modernismo”, nos anos 10 e 20 do século XX, que inclui grandes poetas portugueses como Fernando Pessoa (1888-1935), autor de uma única obra publicada em vida, o poema esotérico-patriótico Mensagem, e Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), autor de A Confissão de Lúcio, são relativamente indiferentes em matéria de religião. Contudo, o “Segundo Modernismo”, nos anos 30 e 40, que inclui prosadores e poetas como José Régio (1901-1969), autor de Poemas de Deus e do Diabo, e Miguel Torga (1907-1995), autor de Contos da Montanha, traz um deísmo humanista que tem de novo a marca de alguma contestação clerical, embora não tão exacerbada como nos realistas do final do século XIX.

Fernando Pessoa, atendendo à sua originalidade e à dimensão que a sua fama atingiu a nível mundial, merece uma referência especial. Em Pessoa reúne-se uma série de heterónimos, como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alexander Search, etc., com personalidades e estilos completamente distintos. Por exemplo, Alberto Caeiro é um guardador de rebanhos, contemplativo e neoclássico, enquanto Álvaro de Campos é um engenheiro naval, sensacional e moderno. Os dois têm uma posição céptica perante Deus e a religião. Caeiro admira a Natureza em vez de Deus e Campos admira os feitos da ciência e a técnica. Escreveu Caeiro:

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...


E escreveu Campos:

E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

Do ponto de vista de crença pessoal, Fernando Pessoa era dado ao esoterismo: em particular, cultivava a crença na astrologia.

Nos escritores que se seguiram, no que toca ao tema da descrença religiosa, dois nomes merecem particular atenção, Vergílio Ferreira (1916-1996) e José Saramago (nascido em 1922).

Vergílio-Ferreira, não muito conhecido fora de Portugal (tem só traduções para castelhano e francês), é o autor de Manhã Submersa, Aparição e Para Sempre. É um escritor filósofo, simpatizantes das ideias existencialistas de Jean-Paul Sartre, e que se declara ateu depois de uma experiência algo traumatizante durante a infância num seminário católico (que ele aliás retrata no seu livro Manhã Submersa). Os seus personagens, fiéis ao autor, declaram a morte de Deus: apenas há o homem, com as suas angústias, muito em particular a angústia da morte. Escreveu Ferreira:

Ninguém pode ser em vez de nós – nem Deus.

O único substituto de Deus poderá, quando muito e segundo ele, ser a arte.

Por seu lado, José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998 (é, até hoje, o único português laureado com o prémio Nobel da literatura) é o autor de Memorial do Convento (sobre a construção de um grande mosteiro barroco, onde uma das personagens, Blimunda, tem poderes mágicos e, com o maneta Baltazar e um padre procurado pela Inquisição, acabam por fugir num balão), O Ano da Morte de Ricardo Reis (sobre o regresso de Ricardo Reis à cidade de Lisboa depois da sua morte), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (um relato da vida de Jesus na primeira pessoa, no conteúdo e no estilo contrário à tradição bíblica), Ensaio sobre a Cegueira, etc. Saramago declara-se descrente em Deus e a sua descrença estende-se muito além do domínio religioso. Pode até dizer-se que é um pessimista radical, uma vez que pensa que o homem é o pior inimigo de si próprio. É também conhecida a sua posição céptica sobre as possibilidades da ciência e da tecnologia contribuírem para o bem-estar da humanidade. As suas posições laicas estão bem patentes no romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que quando saiu causou bastante polémica em Portugal. O seu pensamento contrário a qualquer Deus encontra-se bem marcado no texto “Factor Deus”, que publicou na imprensa mundial pouco depois dos acontecimentos das Torres Gémeas, em Nova Iorque, em 2001:

Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel.

Para Saramago, a crença em Deus não só não é a solução para os problemas do homem como pode ser a fonte dos maiores males.

BIBLIOGRAFIA SELECCIONADA
(Apenas obras com tradução em língua inglesa)

Queirós, Eça, Crime of Father Amaro: scenes from the religious life; translated and with an introduction by Margaret Jull Costa, New Directions Publishing Corporation, 2003.

Pessoa, Fernando, The keeper of sheep / by Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) ; translated by Edwin Honig and Susan M. Brown, New York, N.Y.: Sheep Meadow Press, 1986.

Pessoa, Fernando, Selected poems by Fernando Pessoa, including poems by his heteronyms: Alberto Caeiro, Ricardo Reis [and] Alvaro de Campos, as well as some of his English sonnets and selections from his letters. Translated by Edwin Honig. With an introd. by Octavio Paz, Chicago, Swallow Press, 1971.

Pessoa, Fernando, Selected poems. Edited and translated by Peter Rickard, Austin, University of Texas Press, 1972.

Torga, Miguel, Tales from the Mountains, translated by Ivana Carlsen, QED Press, 1991.
Saramago, José, Baltasar and Blimunda ; translated from the Portuguese by Giovanni Pontiero, San Diego : Harcourt Brace & Co., 1998.

Saramago, José, The year of the death of Ricardo Reis ; translated by Giovanni Pontiero, San Diego : Harcourt Brace Jovanovich, c1991.

Saramago, José, The Gospel according to Jesus Christ ; translated from the Portuguese by Giovanni Pontiero, New York : Harcourt Brace & Co., c1994.

Saramago, José, Blindness : a novel ; translated from the Portuguese by Giovanni Pontiero, London : Harvill Press, 1997.

Saramago, José, The factor God, translated by George Monteiro, http://www.plcs.umassd.edu/plcs7texts/monteiro.doc

EFICÁCIA DA PUNIÇÃO CORPORAL NA EDUCAÇÃO ESCOLAR?


Foi notícia recente nos jornais, que o Conselho da Europa pretende pôr fim aos castigos corporais, preparando-se para lançar proximamente uma campanha generalizada de sensibilização dirigida aos educadores e à sociedade em geral. O comissário dos Direitos Humanos desta organização esclareceu que, dos 47 países que lhe estão afectos, apenas 16 proíbem este tipo de castigo em casa e na escola e assinalou que nada justifica o “castigo razoável” ou o “correctivo lícito” (Guimarães, 2007). Aqui deixo uma pequena contribuição proporcionada pela investigação em pedagogia para o debate que se aproxima.

Intimamente ligados à escola, os castigos corporais têm encontrado uma dupla justificação no quadro desta instituição: por um lado, assinalariam erros cometidos pelos alunos no plano da aquisição de conhecimentos e, por outro lado, corrigiriam comportamentos tidos por indesejáveis, sob o ponto de vista moral e social. Se a primeira justificação foi, progressivamente, perdendo argumentos a seu favor, podendo considerar-se ultrapassada; a segunda constitui um ponto de confronto que tem ocupado um lugar de destaque, tanto nos meios académicos, como nos meios educativos, como, ainda, na opinião pública.

A recusa da utilização da punição corporal «para ajudar os alunos a aprender» deve-se em, grande medida, à aceitação, por parte de legisladores e práticos, de dados empíricos proporcionados tanto pela investigação de teor behaviorista como cognitivista sobre os processos de aprendizagem, que têm assinalado a inoperância desta estratégia e, em certos casos, os seus efeitos contraproducentes. Do mesmo modo tende-se a recusar a punição corporal «para ajudar os alunos a comportarem-se». Esta tendência não têm sido, contudo, acolhida de igual modo pelas diversas entidades educativas e, assim, não obstante o esclarecimento científico disponível, o castigo corporal mantém os seus fiéis defensores e os seus não menos fiéis opositores. Enquanto uns o apontam, se não como estratégia a utilizar indiscriminadamente em qualquer problema comportamental, pelo menos como estratégia a utilizar em situações de indisciplina ou de violência; os outros repudiam-na mesmo nessas circunstâncias, por mais graves que sejam.

Na verdade, os que consideram a punição corporal, invariavelmente, como uma actuação desadequada e abusiva baseiam, em grande medida, a sua opinião em estudos realizados em torno da violência familiar, que sugerem uma estreita e perigosa ligação entre a violência exercida sobre as crianças e a violência que elas exercerão sobre outrem no futuro. Alegam também que, numa sociedade humanista, a escola deve defender e implementar certos princípios, entre os quais se contam a protecção dos mais jovens e a ilegitimidade de deter a violência com violência. Assentes nesta posição empírico-ideológica, têm emergido, um pouco por todo o mundo, movimentos sociais guiados pela intenção de eliminar a punição corporal na escola. Pode dizer-se que o seu impacto junto dos poderes políticos e legislativos tem dado resultados positivos, uma vez que diversos países, estados e regiões (por exemplo, Europa, Israel, Canadá, Japão, Irlanda, Porto Rico, Nova Zelândia, alguns estados dos Estados Unidos e algumas regiões da Austrália) têm vindo a interditar formalmente não só as escolas públicas como também as escolas privadas — estas, em geral, um pouco depois daquelas —, de aplicar qualquer coacção física sobre os alunos.

Contudo, nos últimos anos, apoiando-se sobretudo nas informações disponíveis sobre o número e a gravidade dos comportamentos anti-sociais destes sujeitos, que parece ser crescente em todos os níveis de escolaridade, grupos de pais, professores e directores, voltaram a exigir a legitimação desta ancestral medida “pedagógica”, alegando que o seu uso e/ou a ameaça do seu uso é fundamental para fazer face aos referidos comportamentos. Estes três grupos de parceiros educativos, muitos dos quais ligados a escolas privadas situadas em locais onde já havia sido proibida a punição corporal, quando questionados sobre as suas razões, apresentam genericamente tal prática como um instrumento que suporta a autoridade da própria instituição escolar, permitindo manter um clima relacional favorável à aprendizagem. Numa análise mais detalhada, pode perceber-se que, para além de não lhe reconhecerem efeitos nocivos, consideram-na preferível a outras práticas que decorrem da mesma intenção de controlar comportamentos — por exemplo, a humilhação pública — e imputam-lhe diversas funções, nomeadamente, apoio ao trabalho docente, promoção da auto-disciplina, desmotivadora de comportamentos problemáticos e, ainda, único modo de controlar certas situações-limite.
Como se pode perceber, tais grupos, descuidam ou desvalorizam o conhecimento científico sobre esta questão, fazendo notar que são eles quem melhor conhece as crianças pelas quais são responsáveis e são eles também que sabem o que é preferível para a sua educação. Deste modo, não reconhecem ao estado nem aos tribunais legitimidade para decidir acerca dum pelouro que consideram da sua estrita competência.

A discussão em torno da punição corporal não se esgota, no entanto, nas considerações feitas até aqui. De facto, existindo, desde os anos de 1970, trabalho empírico relevante que procura esclarecer a real eficácia da punição corporal ao nível da modificação comportamental no enquadramento escolar, deve ser igualmente considerado.

Em geral, os autores que empreenderam estudos desse teor consideram que punição corporal significa inflingir dor ou restringir movimentos a um aluno de modo intencional, decorrente de ofensa verbal ou comportamental por ele(s) cometida (v.g. Hyman & Wise, 1979; Hyman, 1990). Não se trata, portanto, de uma reacção espontânea de auto-protecção por parte do educador, nem de protecção de outrem ou de protecção da propriedade da escola, casos em que o uso da força ode ser admitido e considerado legítimo, trata-se de um acto previamente estabelecido que se exerce deliberadamente e que tem subjacente um determinado intuito de correcção. Nesta linha, Delagrage (2001) distingue castigos corporais de maus-tratos, porquanto estes são aplicados de maneira intensiva, sistemática e aleatória por alguém que tira satisfação pessoal desse comportamento.

Assinalamos que qualquer trabalho empírico sobre práticas efectivas de punição levanta dificuldades assinaláveis, não porque essas práticas, mesmo quando proibidas, ocorram raramente e sejam inconsequentes — na verdade os estudos apontam-nas como bastante frequentes e muitas delas, dada a sua severidade, implicam intervenção médica —, mas porque envolve delicadas e complexas questões éticas metodológicas e institucionais. De facto, estamos perante um tema sobre o qual nos planos pedagógico e social se exerce uma forte censura e que vários sistemas educativos proíbem. Estas razões tornam-no, pelo menos para os professores, num «assunto tabu», podendo depreender-se que seja tema de reflexão apenas em círculos muito restritos e com a necessária prudência. Assim, por muitos cuidados que o investigador ponha na apresentação da investigação a estes profissionais, para fazerem face à desejabilidade social, certamente omitirão algumas das suas práticas “mais condenáveis” e enviesarão outras. Por outro lado, não é possível empreender estudos experimentais que permitam estabelecer relações seguras de causa-efeito, dada a impossibilidade de manipulação dos sujeitos que ensinam e dos que aprendem em função das necessidades deste tipo de investigação.

Com estas limitações presentes, os investigadores têm optado por realizar estudos correlacionais, de carácter transversal e longitudinal, que se debruçam sobre casos concretos de punição corporal. Os resultados de tais estudos, levados a cabo sobretudo nos Estados Unidos, revelam, no entanto, aspectos muito curiosos dos quais passamos a referir os que nos parecem mais relevantes.
Apurou-se que, ao contrário do que os defensores da punição corporal alegam, esta não surge quando o professor ou a escola esgota todos os outros recursos disciplinadores face a comportamento muito violentos; pelo contrário, surge muitas vezes como a primeira resposta a comportamentos com reduzido grau de violência, como falar sem autorização na aula.
Interessante é constatar que a punição corporal não é utilizada com a mesma frequência em todas as escolas: as que mais a aplicam recorrem também mais a outros castigos como a suspensão e a admoestação. De notar que muitas das escolas que apresentam um clima fortemente punitivo seguem uma forte orientação religiosa ou estão implantadas em regiões com tradições de violência social.
Parece também que a punição corporal não é igualmente aplicada a todos os alunos que apresentam problemas de comportamento: os alvos privilegiados são os mais desfavorecidos sob o ponto de vista económico e cultural e os provenientes de minorias étnicas, provavelmente porque ambos os grupos são vistos como menos capazes de fazer afirmar os seus direitos. Por outro lado, não se aplica primordialmente a alunos perigosos mas àqueles que não intimidam os educadores ou seja, que não podem, por razões de ordem física, enfrentar quem os pune, assim, não é de estranhar que esta prática seja mais frequente nos primeiros níveis de escolaridade.
No que respeita ao perfil dos educadores mais punitivos, verificou-se que, quando comparados com os seus pares, para além de serem menos experientes, revelavam-se mais autoritários, dogmáticos, impulsivos e, mesmo, neuróticos.

Na sua globalidade, a análise dos resultados das investigações sobre os efeitos da punição corporal permite concluir que esta estratégia, pode produzir, no plano imediato, em alguns casos, conformismo por parte dos alunos e controlo da situação problemática por parte dos educadores, mas a médio e a longo prazo, para além de se revelar ineficaz ao nível da correcção comportamental, desencadeia outros problemas não menos graves. De facto, tem-se verificado que esta medida, quando utilizada com frequência e durante um longo período de tempo pode potencializar uma escalada de violência não só entre quem pune e quem é punido, mas também em relação a terceiros, chegando a formas de vandalismo e de delinquência; pode afectar a memória e a concentração dos alunos, prejudicando seriamente as suas aprendizagens cognitivas; pode originar queixas psico-somáticos, nomeadamente distúrbios do sono, fobia à escola, depressão e síndrome pós-traumático; pode, ainda, afectar a auto-estima e fazer emergir sentimentos negativos face ao outro, como sejam o ódio, o medo, a revolta.

Devemos, ainda, dar conta de investigações que pretenderam verificar a evolução dos comportamentos perturbadores no caso da punição corporal ser eliminada na escola. Os resultados obtidos esclarecem que tais comportamentos não aumentaram em frequência nem em gravidade, o que reforça a hipótese da ineficácia desta estratégia e corrobora a ideia de que a sua ausência não incentiva a indisciplina ou a violência.

Face aos dados empíricos, os diversos autores que se debruçam sobre a problemática em questão assinalam que a intervenção sobre os comportamentos desadequados dos alunos terá necessariamente de passar pelo abandono da punição corporal e, em alternativa, investir em procedimentos mais estruturantes que contribuam para a própria qualidade das escolas. Entre esses procedimentos são frequentemente referidos, a análise de conflitos, a implementação de regras sociais e responsabilização face às mesmas, a valorização dos alunos como pessoas e como aprendizes, a dinamização de actividades extra-curriculares, o envolvimento de encarregados de educação, a mediação através de pares/pares-tutores.

Referências bibliográficas:
Delagrage, G. (2001). Pourquoi punir?. Sauvegarde de L`enfant. Vol 56, nº 1, 46-52.
Goldstein, A. P. & Conoley, J. C. (Eds) (1997). School violence intervention. New York: The Guilford Press.
Guimarães, M. J. (2007). Conselho da Europa quer fim de palmadas às crianças. Jornal Público. Ano XVIII, n.º 6337, 12.
Hay, C. (1998). Parental sanctions and delinquent behavior: toward clarification of braithwaite`s theory of reintegrative shaming. Theoretical criminolog. Vol 2, n.º 4, 419-443.
Hyman, I. A. & James, H. W. (Eds.) (1990). Corporal punishment in American Education. Philadelphia: Temple University Press.
Hyman, I. A. (1990). Reading, writing, and the Hickory Stick. Lexington Mass.: D. C. Heath.
Lawrence, R. (1998). School crime and juvenile justice. Oxford: Oxford University Press.
Wright, D. (1972). The punishment of children: a review of experimental studies. Jornal of Moral Education. Vol 1, nº 3, 221-229.

Golfinho extinto pela acção humana









De acordo com um estudo de uma equipa internacional publicado terça-feira na Royal Society Biology Letters, o golfinho branco do rio Yangtze também conhecido por baiji ou Pei C'hi, está muito provavelmente extinto.

«Este resultado significa que o baiji parece estar extinto», declarou Wang Ding, o especialista nesta espécie que coordenou a expedição que percorreu 1669 quilómetros do rio, entre a cidade de Yichang (perto da barragem das Três Gargantas) e Xangai.

Por sua vez, Samuel Turvey da Sociedade Zoológica de Londres informou que
«Mesmo que ainda exista algum espécime, não o conseguimos encontrar e não podemos fazer nada para impedir a sua extinção» e resumiu em duas frases a perda irreparável esta extinção representa:

«A perda de uma espécie tão única e carismática é uma tragédia chocante. O golfinho do rio Yangtze era uma mamífero notável que se separou das restantes espécies há mais de 20 milhões de anos. Esta extinção representa o desaparecimento de um ramo completo na árvore da evolução e mostra que ainda não tomámos plena consciência do nosso papel enquanto guardiões do planeta»


De facto, o Lipotes vexillifer era o único sobrevivente dos Lipotidae, uma família que se pensa ter separado dos restantes mamíferos marinhos entre 40-20 milhões de anos atrás. Em termos evolucionários era um cetáceo único, um verdadeiro fóssil tão bem adaptado ao seu habitat que se pensa ter permanecido praticamente inalterado desde o Mioceno.

Na década de 1950, viviam milhares de golfinhos no rio Yangtzé e nos seus afluentes, protegidos durante séculos pela superstição dos pescadores que os consideravam quase semi-deuses e contavam lendas de reencarnações de princesas afogadas por amor. Contudo, a revolução cultural de Mao Tse Tung, que pôs fim a muitas superstições, terminou igualmente a protecção desta espécie que passou a ser pescada massivamente. Embora com contribuição não despicienda da referida barragem das Três Gargantas e da industrialização da China, que transformou o habitat deste golfinho único numa verdadeira auto-estrada nas imediações da qual se estima viver cerca de 10% da população mundial, a pesca intensiva, e ilegal desde 1949, terá sido a causa principal da extinção considerada a primeira de um mamífero nos últimos cinquenta anos. Mas assim de repente lembro-me pelo menos da foca-monge-do-Caribe (Monachus tropicalis), considerada oficialmente extinta em 1996 pela IUCN. Esta foca foi o primeiro mamífero do Novo Mundo com que os europeus entraram em contacto, na costa de Santo Domingo em 1494, e a sua reacção a este elegante mamífero extinto por depredação humana foi premonitória: como é relatado no diário da segunda viagem de Cristovão Colombo, este ordenou à tripulação que matasse oito focas.

Ironicamente a extinção do baiji é confirmada no ano devotado à sua preservação. De facto, 2007 foi declarado «Ano Internacional do Golfinho» numa iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Ambiente/Convenção sobre Espécies Migratórias juntamente com o ACCOBAMS - «Agreement on the Conservation of Cetaceans of the Black Sea, Mediterranean Sea and contiguous Atlantic Area» e o ASCOBANS - «Agreement on the Conservation of Small Cetaceans of the Baltic and North Seas».

Esperemos que o «Ano do Golfinho» não veja a extinção no mesmo local de outro cetáceo único, o jiangzhu ou porco do rio, o Neophocaena phocaeniodes que os especialistas prevêem desaparecer na próxima década, provavelmente acompanhado de muitas das 16 119 espécies na lista vermelha da IUCN, The World Conservation Union, entre animais e plantas - que incluem espécies tão emblemáticas como o urso polar (Ursus maritimus) e o hipopótamo (Hippopotamus amphibius).

Contra a polícia da palavra

"Se todos os seres humanos, menos um, tivessem uma opinião, e apenas uma pessoa tivesse a opinião contrária, os restantes seres humanos teriam tanta justificação para silenciar essa pessoa como essa pessoa teria justificação para silenciar os restantes seres humanos, se tivesse poder para tal. Caso uma opinião constituísse um bem pessoal sem qualquer valor excepto para quem a tem, e se ser impedido de usufruir desse bem constituísse apenas um dano privado, faria alguma diferença se o dano estava a ser infligido apenas sobre algumas pessoas, ou sobre muitas. Mas o mal particular em silenciar a expressão de uma opinião é que constitui um roubo à humanidade; à posteridade, bem como à geração actual; àqueles que discordam da opinião, mais ainda do que àqueles que a sustentam. Se a opinião for correcta, ficarão privados da oportunidade de trocar erro por verdade; se estiver errada, perdem uma impressão mais clara e viva da verdade, produzida pela sua confrontação com o erro — o que constitui um benefício quase igualmente grande." (John Stuart Mill, Sobre a Liberdade, 1859, trad. de Pedro Madeira, Edições 70, p. 51.)

Polícia da Palavra

The Language Police: How Pressure Groups Restrict What Students Learn
Diane Ravitch
New York: Alfred A. Knopf, 2003

Um trecho do livro de Diane Ravitch sobre escolas recomendado pelo Desidério, nomeadamente aquele que lê «Uma sociedade que tolera o anti-intelectualismo em suas escolas favorece ao surgimento de uma cultura idiotizada que cultua celebridades e sentimentalismos em vez de conhecimento e sabedoria», despertou-me a curiosidade sobre esta historiadora da educação que trabalhou com governos republicanos (Bush pai) e democratas (Bill Clinton).

Depois de alguma investigação, comprei o «Polícia da Linguagem» que recomendo vivamente. O livro conta como décadas de submissão às estridentes exigências de grupos de pressão sortidos, sobretudo dos extremos do espectro político, intimidaram as autoridades escolares a banir dos curricula e as editoras a censurar dos seus manuais todos os textos passíveis do epíteto «ofensivo» por parte de qualquer minoria organizada.

Nas palavras da autora: «Decidi escrever este livro como uma forma de resolver um mistério. Depois de muitos anos a estudar a história da educação e a escrever sobre políticas de educação, descobri algumas coisas que me chocaram. Quase por acidente, tropeçei num protocolo elaborado e bem estabelecido de censura «beneficiente», adoptada sem fanfarras por editoras de livros didácticos, estados e pelo governo federal. (...) Não tinha percebido que os materiais educativos eram governados por um conjunto intrincado de regras que excluem linguagem e tópicos que possam ser considerados controversos ou ofensivos. Parte desta censura é trivial, parte é absurda e parte é de tirar o fôlego pelo seu poder de imbecilizar (to dumb down no original) o que as crianças aprendem na escola.

Inicialmente estas práticas começaram com a intenção de identificar e excluir qualquer declaração consciente ou implicita de preconceitos em relação a negros (African Americans no original), outras minorias raciais ou étnicas e mulheres. Estes esforços eram completamente razoáveis e justificados. Contudo, o que começou com propósitos louváveis evoluiu para uma política de censura surpreendemente abrangente e crescentemente bizarra que ultrapassou largamente os propósitos originais e actualmente excisa de testes e manuais escolares palavras, imagens, passagens e ideias que nenhuma pessoa razoável consideraria preconceituosas na acepção habitual da palavra».

Esta censura traduz-se na «bowdlerização» dos clássicos que não são simplesmente banidos. A bowdlerização, termo usado por Ravitch e que tem origem em Thomas Bowdler que na edição em 1818 da obra de Shakespeare expurgou «tudo que o pudesse causar justa ofensa à mente religiosa e virtuosa», não segue um conjunto de regras único porque nos EUA não há um ministério da educação centralizado. O ensino americano é regulado por «school boards», conselhos de educação locais cujos membros são escolhidos por eleições gerais. O «school board» elabora directivas que garantem que os manuais escolares ou exames não são «ofensivos» para os grupos de pressão mais activos no respectivo estado. Muitas vezes os próprios membros dos boards fazem parte de grupos de pressão.

Por exemplo, o presidente do Conselho de Educação do Kansas, o religious right Steve Abrams que aprovou em 2005 a introdução do neo-criacionismo nos curricula de ciências do estado e rejeitou ser a ciência uma explicação natural de fenómenos observáveis - aprovando a redefinição de ciência proposta pelo templo do neo-criacionismo, o Discovery Institute - considerou que alguns directores de escolas do seu estado, curiosamente os mesmos que se recusaram a vender religião por ciência, promoviam «pornografia como literatura». Recordando que as minhas aulas de Português mais memoráveis, com um daqueles professores que nos marcam, passaram pela dissecação literária do «1900» de Bernardo Bertolucci, tenho alguma dificuldade em perceber como alguém minimamente razoável pode considerar que, por exemplo, o relato de uma epidemia de Ebola é pornográfico, não obstante o título The Hot Zone (A zona quente).

Segundo Diane Ravitch, os culpados por este deprimente estado do ensino não são apenas os fundamentalistas cristãos de direita, essencialmente preocupados em banir tópicos (e livros) considerados imorais ou atentórios dos valores cristãos - como sejam os satânicos livros de Harry Potter - ou que sugiram que o Universo não foi criado como vem na Bíblia - em muitos estados são proibidos livros que sequer falem em dinossáurios porque sugerem a execrada evolução. A esquerda pós-moderna, com as tentativas já referidas pela Helena de «articular os processos educativos com uma sociedade marcada pela pluralidade radical de modelos, de opções de vida individuais e grupais», que se traduz num controle apertado de linguagem e imagens, tem uma quota parte muito significativa desta absurda «purificação» de textos literários. Pessoalmente tenho dificuldade em decidir qual é mais perniciosa, se a censura moral e religiosa, que espartilha a liberdade de pensamento, ou esta censura de palavras e de conceitos que não mutila a liberdade de pensamento porque nem sequer permite que esta se desenvolva.

Assim, todas as editoras de livros didácticos têm equipas de censores com directivas próprias que analisam minuciosamente os conteúdos, de forma a evitar qualquer espécie de controvérsia. As directivas são formuladas através de uma «combinação do fundamentalismo religioso de direita e do politicamente correcto de esquerda» informa-nos Ravitch. Estes grupos «pretendem criar uma nova sociedade, completamente inofensiva para todos; para lá chegar, é preciso uma boa dose de censura».

Mesmo a Grande Maçã não está imune a esta caça às bruxas, pelo menos no que a enunciados de exames diz respeito, como descobriu em 2002 Jeanne Heifetz. Aparentemente, o departamento de educação nova-iorquino considera(va) perfeitamente meritório mutilar as obras do Nobel Isaac Bashevis Singer ou as de Anton Chekhov para que nenhum aluno se sinta desconfortável com os textos sobre os quais incide a avaliação. Considerando que todas as passagens são «purgadas» de tudo o que possa «ofender» alguém, incluindo, para além das expectáveis «imoralidades» como nudez ou sexo, qualquer menção a raça, religião ou etnicidade, não percebo porque razão não baniram completamente toda a obra de Singer.

No livro, a autora exemplifica este processo censório de conteúdos considerados controversos, ofensivos, discriminatórios ou simplesmente perturbadores para os cérebros das crianças e adolescentes norte-americanos, com experiências próprias, a maioria hilariante não fora ser tão deprimente. Nas 32 páginas do Apêndice 1, com o sugestivo título «A glossary of banned words, usages, stereotypes, and topics», somos mimoseados com uma lista rídicula de temas a evitar, livros banidos e palavras proibidas, nas quais se incluem Deus e Diabo - expulsas em virtude de poderem ser discriminatórias ou ofensivas para os não cristãos. Na minha qualidade de não cristã, mais concretamente de ateísta, considero ofensiva a censura e não as palavras censuradas e concordo em pleno com Ravitch quando esta compara a limitação linguística, com a qual se pretende criar uma sociedade asséptica e inofensiva, ao newspeak de Orwell: «Não vês que o objectivo do Newspeak é cercear a liberdade de pensamento?»

No Index Librorum Prohibitorum das escolas norte-americanas, que inclui Huckleberry Finn de Mark Twain; Não matem a cotovia de Harper Lee; Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley; Adeus às Armas de Ernest Hemingway; O Diário de Anne Frank, As vinhas da Ira de John Steinbeck, Voando Sobre um Ninho de Cucos de Ken Kesey para além dos livros de Harry Potter, é absolutamente irónico encontrar o clássico de Ray Bradbury, o intemporal Fahrenheit 451. Para os poucos que não tenham lido o livro ou visto a fabulosa adaptação para a tela de François Truffaut (e a sua primeira realização a cores), Fahrenheit 451, a temperatura de combustão dos livros, é uma crónica anunciada do mistério que Ravitch desvenda magistralmente neste livro indispensável.

Bradbury, que daqui a 15 dias completará 87 anos, imagina uma América democrática em que as pessoa se voltaram contra os livros porque todos os livros ofendiam alguma «minoria». De início, as editoras apenas excisavam as passagens ofensivas, praxis com que foram reduzindo os livros a pouco mais que uma colecção de notas de rodapé. Quando praticamente ninguém lia livros, o estado passou a empregar bombeiros para queimar livros.

Em simultâneo com esta transição gradual para a não leitura imposta pelo politicamente correcto, ocorre a transição de um regime democrático para um sistema totalitário, completamente controlado pela «Família». O sucesso desta transição sem sobressaltos deve-se, especialmente, ao cuidado que a «Família» tem com a educação. Nas escolas, as crianças aprendem a não questionar, a não ler e aprendem sobretudo que livros são para queimar. Como consequência, impera uma paz social de plástico em que as pessoas vivem uma felicidade movida a comprimidos e dominada pela televisão, a «Família» virtual.

No livro e no filme seguimos o percurso de Montag, um bombeiro que, como todos os bombeiros da história, tem como missão queimar livros, e perseguir, prender e executar as pessoas encontradas na posse de livros - aliás a única manifestação de repressão nesta sociedade apática e ignorante.


Montag começa a pensar autonomamente após ser questionado por uma jovem da resistência sobre se alguma vez lera um dos milhões de livros que incinerara. Montag aprende a ler, começa a roubar livros transformando-se num intelectual, isto é, num marginal.

Cada vez que ligo a televisão, as telenovelas, concursos imbecis e imbecilizantes, big-brothers e quejandos, Maya's e demais vendedores de banha da cobra, fazem-me pensar na sociedade retratada em Fahrenheit 451. A diferença essencial é que não é necessário queimar livros, estes colectam pó nas prateleiras das livrarias, com excepções que são muitas vezes instrumentos que cumprem a mesma função dos «bombeiros» do mundo de Bradbury: a construção de um mundo «ideal» onde ser acéfalo e ignorante constitui a mais prezada virtude...

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

MERECEMOS ESTAS PAISAGENS?


Post convidado que antes foi publicado no Diário “As Beiras”. De acordo com a época do ano, João Boavida convida-nos à leitura e à viagem.

Ir de Coimbra a Vila Real, pela IP3 e A24, numa manhã de Primavera, é uma daquelas coisas que nos reconcilia com o melhor de Portugal. É mais ou menos assim que se começam muitas crónicas, na linha dessas admiráveis Viagens na minha terra, por exemplo. E, sendo assim, toma-se hoje em dia um automóvel e lá vou eu, lá vou eu, a caminho de Viseu. Quem diz Viseu diz Castro Daire e todo aquele planalto agreste, com o Mezio ao longe, aquela terra áspera de O homem da nave, de Aquilino. E, já agora, quem resiste a outros desvios aquilinianos? Vila Nova de Paiva, de famosas trutas, no rio, e perdizes na encosta, Moimenta da Beira, do jogo do pau pelas romarias; e quando já perto de Lamego (e quem não se lembra logo das camilianas Noites de Lamego?) se começa a sentir a doçura dos vinhedos em socalcos, é quando a estrada adquire toda a sua pujança e se sucedem os magníficos viadutos, (obras de arte, como dizem os engenheiros).
Neste roteiro a gente não sabe o que mais apreciar: se a beleza dos montes, ao longe, a que João de Araújo Correia chamou, também em título, montes pintados, se o verde fresco e ainda comedido das vinhas, que se arredondam por cumeadas e vales, se a velocidade que a beleza técnica da auto-estrada nos proporciona, cortando o vento e o ar luminoso e leve através de uma natureza magnífica.
O Alto Douro é na verdade um reino maravilhoso, como dizia o Torga, noutro título. Nestes lugares os títulos aparecem sem esforço; os lugares de beleza multiplicam-se, vão surgindo ao longo das estradas, e desdobram-se depois quando, já a pé, se percorrem os caminhos, descendo, subindo, parando a cada instante para espraiar a vista e recuperar do que a subida e a beleza nos provoca.
Portugal merece este Alto Douro Ignoto, como lhe chamou Santana Dionísio? Por certo que sim, esta paisagem foi criada por séculos de sofrimento e de trabalhos infindáveis, sacrifícios sem nome dos nossos antepassados dominando as serras, abrindo os socalcos, fazendo os muros, plantando a vinha, cavando, podando, sachando, sulfatando, cuidando dia a dia das uvas, colhendo os cachos ao som do acordeão e do bandolim, na vindima (outra vez Torga), carregando os poceiros encostas acima, descansando nas poisas, pisando o mosto nos lagares, fermentando-o nos balseiros, guardando-o nos cascos, engarrafando-o, gastando gerações a envelhecê-lo, enquanto construíam, com as suas mãos, uma das mais admiráveis paisagens da Terra, síntese, talvez única, do esforço humano e da grandiosidade da Natureza.
Mas, oh meu País das Uvas (Fialho de Almeida, e já que estamos em maré de títulos), será que hoje mereces estas paisagens, e estes vinhedos do Douro? Talvez não, porque vi o produtor de um Ceirós excelente, (reserva de 1998), Quinta do Bucheiro, a vender o seu belíssimo vinho, a granel, para um enorme camião cisterna espanhol. Que o apresentará, por certo, em garrafa, ganhando assim fama de qualidade o vinho espanhol, pela qualidade bem portuguesa dos nossos vinhos do Douro. Merecemos, hoje, estas paisagens? Talvez não, porque enquanto estes vinhedos magníficos, que são um drama e uma glória da nossa cultura, têm de vender o seu oiro para o estrangeiro, como se fosse latão, por todo o lado o português que emerge nos restaurantes, todo pimpão e modernaço, acompanha o arroz de pato, o bacalhau assado, ou o simples frango de churrasco com a coca-cola e o suco de maracaxaba. Merecemos estas paisagens, estes vinhedos?

Imagem retirada de:
http://www.conselldemallorca.net/mediambient/terrisc/coimbra02g.jpg

TURISMO CIENTÍFICO 5


O Alentejo é também um local de turismo científico. A mais recente atracção é o espantoso Fluviário de Mora, onde se pode admirar uma variada fauna fluvial. Mas há o Centro Ciência Viva de Estremoz, dedicado ao mármore (está em execução um modelo gigante do sistema solar que chegará até Évora Monte). Para Grândola, nas antigas minas do Lousal, também está previsto um centro Ciência Viva, dedicado à exploração mineira.

Depois há curiosidades enormes em vários sítios da vasta planície alentejana: em Serpa (terra do naturalista Abade Correia da Serra) há um Museu do Relógio, em Campo Maior há um novíssimo Museu do Café (além de uma adega de Siza Vieira), em Cuba há o Insectozoo dedicado aos insectos sociais, em Alter do Chão há uma antiga Coudelaria, com os cavalos lusitanos, que se soube modernizar, em Portalegre há um bem conseguido Museu da Tapeçaria, e em Mértola há todo um conjunto histórico, com tecnologias milenares.

Évora é incontornável: para além do casario histórico, veja os azulejos científicos da velha Universidade e, nos arredores, o cromeleque dos Almendres. Quem, no Alentejo, preferir a proximidade do mar, não perca as selvagens falésias do Cabo Sardão, encimadas por um farol, em Odemira.

Tudo isto e ainda mais encontra-se no livro "Turismo Científico em Portugal", recentemente saído na Assírio e Alvim.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

CONHECIMENTO E EDUCAÇÃO NA PÓS-MODERNIDADE

A tradição metafísica ocidental oferece, no dizer de Searle (1999), um conjunto de princípios básicos que nos permitem sustentar o valor e a verdade do conhecimento contra as tentativas pós-modernas de os desvalorizar, e mesmo, de os negar.

Assim, é necessário sustentar que a realidade existe independentemente das representações humanas, contra a perspectiva de que tudo são representações da realidade e como tal, a realidade é sempre e só a realidade apreendida e/ou construída pelo sujeito.
É preciso também reconhecer que a linguagem possibilita a comunicação ao nível do significado e não apenas ao nível do significante, isto é, o que se comunica tem por norma uma relação com objectos e estados de coisas cuja existência é independente da linguagem e até do emissor e do receptor da mesma.
É preciso reclamar, ainda, que a aquilo que designamos por verdade procura traduzir com precisão as representações: “as afirmações procuram descrever como são as coisas no mundo, cuja existência é independente da afirmação, e a afirmação será verdadeira ou falsa em função delas no mundo serem realmente como ela diz que são”(Searle, 1999, 10).

Deste conjunto de princípios, o referido autor retira uma conclusão, a nosso ver, fundamental para inferir o valor do conhecimento: “os padrões intelectuais (…) são critérios de excelência e realização intelectuais objectiva e inter-subjectivamente válidos” (Searle, 1999, 15).
Não nos cumpre, nesta reflexão, discutir todos os aspectos implicados nesta conclusão, mas não podemos deixar de afirmar que negar a verdade do valor intrínseco do conhecimento produz um conjunto de consequências educativas susbstanciais, de entre as quais destacamos as seguintes (v.g. Castillo, 1992; Dennett, 1993; Lipovetsky, 1988; Nozick, 1981; Searle, 1999):
- a educação formal tende a tornar-se medíocre e, de algum modo, paradoxal, porque tudo vale e nada vale; porque tudo é verdade e nada é verdade;
- o valor do conhecimento não se afere segundo citérios gnoseológicos e de verificabilidade, suscitadora de argumentação e de provas, mas obedece a critérios de ordem emocional e vivencial;
- deixa de se considerar o valor intrínseco do conhecimento para sobrevalorizar o seu valor instrumental, ou seja, só se ensina e só se aprende o que tem utilidade imediata e interesse para e no quotidiano dos sujeitos;
- o conhecimento com características universalizantes e abstracto é desvalorizado face a conhecimentos regionais e concretos, relativos ao contexto social, cultural, étnico dos sujeitos;
- a complexidade torna-se o paradigma educativo fundamental, com a inerente opacidade de linguagem, de âmbitos e de finalidades;
- é elogiada a espontaneidade supostamente criadora, não directiva, ao ritmo do bem-estar dos alunos, com o risco da dispersão em detrimento da concentração, do temporário em vez do voluntário;
- a intencionalidade educativa desloca-se para a periferia da vocação escolar e, sobretudo, põe-se ao serviço das dinâmicas sociais culturais e económicas;
- opera-se uma transferência do domínio das ideias, da razão, da objectividade para o das experiências significativas, com o consequente discurso parcial e despretensioso assente numa matriz intimista, narcisista, subjectivista;
- a apresentação dos conteúdos, para serem aceites e reconhecidos, têm de se apresentar de forma inovadora, mediática, agradável e significativa para os alunos, confundindo-se, assim, o pensamento com o lúdico;
- a escola vê-se obrigada a inter-agir com as tendências e modos de organização social vigentes, ganhando sentido em função das respostas que encontra face às exigências da economia e do mercado de trabalho;
- a pedagogia é eminentemente inter e multicultural, numa tentativa de articular os processos educativos com uma sociedade marcada pela pluralidade radical de modelos, de opções de vida individuais e grupais;
- as metodologias são de matriz sócio-construtivista, etnológica, regionalista, não sendo determinadas pela investigação disponível sobre a validade das mesmas, nem pelo educador, mas pelo educando enquadrado sempre no seu contexto social, cultural e geográfico.

Neste panorama, cria-se um círculo vicioso entre o conhecimento e a educação, que empobrece tanto um como outro, pois o conhecimento:
- deixa de ser um conhecimento a longo prazo, para o futuro, para ser um conhecimento imediato, para as questões e problemas do presente;
- aparece fragmentado, desarticulado e pouco sistemático, porque não se centra na procura dos fundamentos mas na tecnologia e na praxis e, ainda, porque se centra na mudança e na inovação e, como tal, é variado, multifocal e polissémico;
- centra-se nos educandos e na individualidade de cada, nos seus gostos e interesses, perdendo o seu carácter totalizante e inserindo-se apenas e só na esfera do pessoal;
- não precisa de ser fundamentado, basta que seja reconhecido como útil e empático, não se aceitando o pensamento como da ordem da razão mas, antes, da ordem da emoção.

João Manuel Ribeiro e Helena Damião

Imagens - Pablo Picasso

Referências Bibliográficas

- Searle, J. R. (1999). Racionalidade e realismo. Disputatio, 7, 3-25.
- Castillo, E. G. (1992). Postmodernidad: valores y educación. Filosofía de la educación hoy - axilogía y educación. In: Actas del Congreso Internacional de Filosofía de la Educación (pp. 349-371). Madrid: UNED.
- Dennett, D. C. (1993). Fé na Verdade. Disputatio, 3, 1-19.
- Lipovetsky, G. (1988). A era do vazio. Ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa: Relógio d’Água.
- Nozick, R. (1981). Philosophical Explanations. London: Clarendon Press.

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...