segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Fisiologistas do Exercício (5)

De mal ficaria com a minha consciência se não dedicasse, neste penúltimo texto sobre “Fisiologistas do Exercício” (5), a minha atenção aos pesos e halteres (musculação) em que abordei uma Educação Física arreigada à Ginástica Sueca e a uma prática desportiva em ambiente escolar, em contraste valorativo, a uma anterior ginástica respiratória  em que os alunos deitados de costas em bancos suecos inspiravam-expiravam (depreciativamente, denominada ginástica de fole) como se a amplitude da caixa torácica estivesse padronizada quer o aluno fosse atlético ou raquítico, alto ou baixo, gordo ou magro, ministrada, muitas vezes, por médicos que nada deviam a proporções atléticas, vestidos de sobretudo no inverno,  que se punham à porta do ginásio, como quem chama uma clientela avessa em obedecer, dizendo batendo palmas :“Meninos, vamos a entrar!”, obtendo como resposta para ficarmos como o senhor doutor mais vale não fazermos ginástica”.

Uma vez, e isto não é ficção, um contínuo veio chamar o professor para ir ao telefone. Assim aconteceu! Tendo nós, alunos, sido deixados de costas em bancos suecos em que inspirávamos-expirávamos ao comando do mestre, quer fossemos atléticos ou de constituição franzina, gordos ou magros, altos ou baixos, aproveitávamos a ocasião para nos pendurarmos nos espaldares, subir às cordas ou iniciarmo-nos nos colchões na luta-grego-romana, modalidade atlética com cimentada tradição no clube.

Deixámos  um colega postado à porta do ginásio para espreitar o regresso do docente que nos tinha “abandonado” em posição inspiratória, quais rãs inchadas. Entrando ele no ginásio, regressado do telefonema passados, para aí uns dez minutos, olhando para nós na posição em que nos tinha deixado, diz: “Podem expirar, meus senhores”! E assim, foram batidos por nós vários recordes de apneia forçada de pescadores de pérolas do Pacífico Sul, só que não homologados!

Entretanto, minha falecida Mãe, inscreveu-me no Ginásio Clube Português, onde comecei  por frequentar uma exigente classe de ginástica educativa ministrada por um competente professor de nacionalidade sueca. Finda as aulas, dirigia-me para instalações dos Pesos e Halteres, onde me iniciei na prática do Culturismo, sendo paixão à primeira vista e para o resto da vida!

No último ano do meu curso do INEF, sabendo de antemão ser tido como renegado da ginástica e dos desportos por me desviar um pouco dos seus percursos, influenciado, sei-o hoje, pela cítica do Dr. Hans Krauss, professor de Medina Física da Universidade de Nova York: “São poucos os professores de Educação Física que demonstram respeito pelos músculos; ao invés de cuidar para que os jovens cresçam com músculos firmes e flexíveis, a maioria deles preocupam-se, apenas em treinar para que vençam campeonatos”.

Por a procura da verdade ter o seu preço, tanto mais elevado quanto menor é o número daqueles que a procuram, incidi a  atenção sobre a minha experiência e conhecimentos de Fisiologia (cadeira da minha preferência curricular), no intuito de dar projecção racional ao culturismo porque, segundo  J. Bronowsky,  os processos da ciência são característicos da acção humana, por se moverem pela indissolúvel união do facto empírico e do pensamento racional”. 

Assim, Instituto Nacional de Educação Física, (1956) um finalista, propõe-se apresentar como dissertação de final de curso um tema escaldante, explosivo mesmo: “Pesos e Halteres, alguns aspectos anátomo-fisiológicos”. Expõe, com o entusiasmo, dos seus vinte e poucos anos, o seu intento ao director do INEF, Doutor Mário Gonçalves Viana, que o escuta atenta e compreensivo, mas que lhe pergunta de chofre: ”Pretende o Curso para o exercer como meio de vida profissional ou tem  em vista outra actividade qualquer?

Respondendo afirmativamente  à primeira alternativa, deu-me ele o seguinte conselho: “Se assim é, se pretende, na verdade, obter a Carta de Curso, desista da sua intenção, porquanto os obstáculos que irá encontrar são quase intransponíveis numa casa tradicional como o INEF. Assim, viu-se ele coagido a desistir.

Esse finalista era eu, que aqui confesso a derrota sofrida - perder uma batalha não é perder a guerra - embora prometendo a mim próprio prosseguir na minha teimosia que sabia, de antemão, não me  trazer glória ou aplauso dos meus pares. Unicamente a satisfação de um dever cumprido na obrigação de explicar a um dos alunos da minha classe de culturismo que me apareceu num dos treinos com o livro de Cooper, acabado de publicar, receoso com os malefícios que esta forma de treinamento poderia provocar no sistema cardiovascular dos seus praticantes.

Assim, meses depois, proferi a conferência “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper", no Salão Nobre da Sociedade de Estudos de Moçambique, repleta de assistência por se tratar de um tema polémico que me colocava na posição atrevida de contestar Cooper, médico, responsável pela exigentíssima preparação física dos astronautas americanos, e “superstar” na crista da onda de uma moda que punha a correr nos passeios de Copacabana, logo apelidada de “coopermania, milhares de brasileiros numa terra em que o culto do Corpo atingia verdadeiro modismo pela frequência das suas praias durante o ano todo, como acontecia em Lourenço Marques!

A apresentação da minha conferência foi feita pelo Engenheiro  Manuel Pedro Romano, na altura vice-presidente e presidente da Secção de Ciências da Sociedade de Estudos, cargos em que eu viria a ser investido na eleição seguinte. Nessa apresentação, proferiu ele as seguintes palavras:
“O conferencista desta noite, o Dr. Rui Baptista. é um distinto professor de Educação Física que exerce nesta Sociedade de Estudos o cargo de vice-presidente da Secção de Ciências.
O Dr. Rui Baptista nasceu em Luanda em 1931, formou-se pelo INEF em 1956, vindo para Lourenço Marques, no ano seguinte, onde é professor efectivo de Educação Física na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque;  exerceu as funções de inspector de Educação Física da Mocidade Portuguesa; pratica pesos e halteres há vinte e cinco anos, tendo a seu cargo - vai para catorze anos - uma classe da especialidade no Clube Ferroviário de Moçambique; presidiu à Comissão Administrativa de Halterofilia da Associação Provincial de Desportos de Moçambique; participou oficialmente no Congresso Mundial de Educação Física, em Estrasburgo; além disso, tem colaboração variada e extensa na imprensa moçambicana e da Metrópole.
Acerca das suas notáveis qualidades de professor, investigado e orador, vamos ser elucidado pela conferência que se vai seguir e onde esperamos volte a manifestar as qualidades que nos levaram a formular-lhe este convite”.
No próximo e último artigo  desta série sobre "Fisiologistas do Exercício", debruçar-me-ei, com mais demoradamente, sobre o meu livro ”Os pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper”, aqui referido “à vol d’oiseau”! E porque como é uso dizer-se, ninguém é profeta na sua terra, livro que mereceu a atenção do meio académico brasileiro, através do Professor José Maria Santarem, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

2 comentários:

  1. “Deixando as insuficiências próprias ao tipo de avaliação, nas análises dos resultados, noto o cansaço provocado pela repetição ad nauseam, ou por perda momentânea de memória, de uma ideia com 40 anos: as escolas fazem a diferença.”

    O que verdadeiramente faz a diferença é o conhecimento!
    Nas escolas portuguesas; ouve-se, frequentemente, em plenas reuniões dos conselhos de turma:
    - Ó colegas, é bem melhor que os nossos alunos adolescentes se divirtam na escola, com atitudes e comportamentos estúpidos próprios da idade, não ligando patavina à matéria dada, do que andem lá fora, na rua, metidos em negócios de droga.
    Quer dizer, frequentar a escola não é visto como um meio de elevação da pessoa. Frequentar a escola é, antes de mais, cumprir uma obrigação legal, para inglês ver. Neste contexto absurdo, a sabedoria é um apêndice flexível, facilmente descartável!

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  2. Obrigado pelo seu comentário. No respeitante às drogas, todas as moedas têm o seu verso e anverso. Assim, a Educação Física pode ser uma forma de combate estrénuo ao consumo de drogas ou o inverso quando, através do Desporto, para uma melhor "performance" se utiliza de drogas. Agora, nunca por nunca, comportamentos e atitudes estúpidos devem ser avocados nesse combate como se combater o fogo, que devora a juventude das drogas, fosse combatido em não ligar "patavina à matéria dada". Não se apagam fogos, como sói dizer-se, com gasolina. Com bem crítica, "a SABEDORIA não pode ser um apêndice flexível facilmente descartável". Nunca por nunca ser!

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