quinta-feira, 29 de março de 2018

Uma molécula é uma molécula



Artigo de opinião do David Marçal e  meu no Público de hoje, encerrando a polémica com Leonor Nazaré,  curadora de arte da Fundação Gulbenkian (na imagem, configuração isomérica da insulina, uma imagem científica que tem o seu lado artístico):

Leonor Nazaré (LN), em resposta ao nosso artigo “Ainda as terapias alternativas: um cachimbo é um cachimbo“ insiste em estafados clichés anti-ciência. Acusa-nos de termos “prescindido de distinguir moléculas naturais de moléculas sintetizadas em laboratório”. Essa dicotomia que LN acredita existir é totalmente falsa. Uma molécula de água da cascata do Niágara é indistinguível de outra da água que sai do tubo de escape dos automóveis, como um dos gases de combustão: é constituída por dois átomos de hidrogénio ligados a um de oxigénio, numa estrutura bem conhecida. Uma molécula é uma molécula. Podem-se fazer em laboratório ou numa unidade industrial substâncias químicas, todas elas constituídas por moléculas, que também existem na Natureza. Por exemplo, é possível modificar geneticamente bactérias para produzirem insulina. Essa insulina é igualzinha à produzida pelo pâncreas humano: uma proteína feita de aminoácidos, cada um deles constituído por átomos de carbono, oxigénio, azoto e hidrogénio, unidos por ligações químicas. Para os receptores nas células dos diabéticos, a insulina produzida por organismos geneticamente modificados serve perfeitamente. Mas ficamos na dúvida se para LN serve.

Como corolário desta ideia da superioridade natural vem o argumento tautológico: as substâncias químicas são más por serem químicas e os produtos naturais são bons por serem naturais. De facto, não há uma particular virtude no facto de uma substância existir na Natureza. O colesterol, a penicilina, a morfina, a cocaína, cicuta e a tetrodotoxina (o veneno neurotóxico do peixe-balão) são todos produtos naturais. E um produto natural não é necessariamente seguro, isto é, a Natureza não é só paz e amor. Os remédios alternativos à base de plantas apresentam riscos sérios. Falámos já do natural mas perigoso ácido aristolóquico, usado na medicina tradicional chinesa. Mas damos outros exemplos no nosso livro “A Ciência e os seus Inimigos” (Gradiva, 2017). A origem natural ou sintética de um produto não é um bom critério para avaliar a sua eficácia terapêutica e a sua segurança. E essa avaliação tende a ser problemática nos ditos remédios uma vez que, muitas vezes, os consumidores ignoram o que está lá dentro. Num estudo saído na revista BMC Medicine foram usadas técnicas de identificação por ADN para determinar as espécies presentes em remédios alternativos à base de plantas. Mais de 59 por cento dos remédios continham espécies não listadas no rótulo. Um problema são as interacções prejudiciais com outros medicamentos que estejam a ser tomados. O Observatório de Interações Planta-Medicamento, da Universidade de Coimbra, compila e divulga essas interacções.

LN afirma ainda que "A naturofobia decorre da cisão progressiva que a partir do século XVII levou o Homem a pensar na Natureza como se não fizesse parte dela e não fosse, também ele, Natureza." É precisamente ao contrário: desde o século XVII, com a Revolução Científica, que se passou a perceber cada vez mais que o homem faz parte da Natureza, ultrapassando a visão teológica, prevalecente até então, que separava Homem e Natureza. Hoje sabemos que o código genético - a linguagem dos genes - é universal, pois todos os seres vivos o partilham. É precisamente isso que permite introduzir numa bactéria o gene da insulina humana, que é compreendido pela maquinaria de produção de proteínas das bactérias. Essa ubiquidade do código genético é uma prova da origem comum dos seres vivos: descendemos todos de uma célula primordial. Além disso, albergamos inúmeras bactérias no nosso corpo (especialmente nos intestinos), que desempenham papéis relevantes nos nossos sistemas digestivo e imunitário. Somos desde a nossa mais remota origem parte da Natureza e a ciência tem revelado de forma cada vez mais nítida como estamos unidos a ela. Não se percebe, portanto, a que cisão com a Natureza se refere LN.

Não vale a pena continuar uma discussão quando uma das partes ignora os factos científicos e é insensível a argumentos racionais. Terminamos por onde começámos: não faz nenhum sentido que o Estado, por via legislativa, valide terapias que não funcionam. Esse caminho está em contraciclo com o de outros países. O Serviço Nacional de Saúde em Londres vai deixar de financiar remédios homeopáticos a partir de Abril, tal como já acontece, em geral, no Reino Unido. É altura de também nós deixarmos de financiar as terapias alternativas, acabando com a absurda isenção de IVA de que beneficiam. Num momento em que o país enfrenta um inusitado surto de sarampo e se reafirma a necessidade da vacinação, lembramos um relatório de 2012 do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças, segundo o qual os utilizadores de medicinas alternativas têm taxas de vacinação mais baixas do que o resto da população. O apoio estatal a medicinas alternativas pode ter consequências dramáticas.

6 comentários:

  1. Não se pode culpabilizar que as pessoas confiem mais na Natureza do que na visão humana transitória sobre essa Natureza. A falsa de ideia de progresso está cada vez mais colocada em causa, e é a própria ciência consensual que foge a isso, há muita evidência a contrariar severamente a posição oficial (dita científica)... Porque de facto, a ciência está muitas vezes a tentar vender-nos uma subversão da natureza (natureza à qual todos confiamos instintivamente). É inegável que o sonho da ciência é vender-nos a imortalidade, passo-a-passo, e nada pior do que isso nos gera maior desconfiança. As implicações éticas de um mal natural serão sempre diversas de um mal criado propositadamente ou não por intervenção humana, trata-se de uma questão espiritual, fora do âmbito da ciência. Obrigar alguém a alguma coisa com base na ciência é a maior das fraudes, só comparável com qualquer outra vulgar e arbitrária opção teocrática.

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  2. É bom que a dita "Ciência" não esqueça o seu lado Humano, para não cairmos nos erros da "pouco-Santa Inquisição", que, na óptica dela, possuía a Verdade Absoluta sobre tudo.
    Séculos e Milénios de superstições deixam as suas marcas na maneira de pensar.
    Mais importante para a Ciência vale é ficar-se pela apresentação de factos de forma clara e precisa (com mui paciência), e libertar de ditos cientistas, devidamente Formados e que afirmou coisas como chumbo da gasolina, flúor, amianto com "provas só cientificamente manipuladas".

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  3. Em ciência tudo é resultado das explicações de um número finito de fenómenos. Para desvendar um espaço em branco num quadro de explicações é preciso "queimar as pestanas" e investir dinheiro (ver o caso de Einstein, tantos no "quase" e só a dele foi AVANTE;ou agora na física do muito pequeno e do muito grande o que ainda estamos para entender nas próximas gerações...).
    Nunca posso postular a culpa da ciência pela parcialidade de quem estuda e do objecto de estudo (por exemplo a escravatura, ou a democracia de Atenas, enquanto passado com consequências para humanos que foram desqualificados apenas pelo bem sabido auto-convencimento e o pendor interesseiro de quem sabe aproveitar as fraquezas humanas ou dito de outra forma a arte de roubar).
    Há assuntos que lidos e relidos e vividos em ambiente social não são garante de nada. Há autores que invocam argumentos de autoridade, porque sem eles perderiam o pé e sem retórica expõem-se aos maiores ridículos.
    A magia do contacto existe caso contrário não existiriam nem génios, nem aplicações da ciência. Mas duvido que a maioria consiga descrever verbalmente essas epifanias. Agora será que posso trocar a sensibilização para a descoberta, pela forma como é demonstrada num artigo, experiência ou instrumento? Não é especulador quem quer, mas quem afinal demonstrou estar certo e aí só a Natureza sem ilusões de qualquer tipo, o pode deslindar.

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  4. Esta discussão parece cada vez mais quixotesca, sem faltar o D. Quixote e o Sancho Pança.
    Esgrimem-se "argumentos" de metaciência e de metasaúde, quando já há muito se reconhece que a saúde é um caso de "Ciências Complexas".
    Qualquer um se pode intitular cientista, mas não médico, engenheiro, advogado ou pedreiro, profissões regulamentadas.
    Isto já não é futebol, é clubismo.
    Que deus (!) nos proteja!

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  5. Um respigo da legenda da imagem da crónica: "uma imagem científica que tem o seu lado artístico".
    Como diz a outra, isto anda tudo ligado.

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  6. Se todo o conhecimento científico fosse público, não estaríamos aqui sempre com estas discussões descontextualizadas. Infelizmente, em nome do Poder e dos senhores da Guerra, quase tudo o que podia alimentar a paz/harmonia na humanidade e a confiança no método científico permanecem fechados em "black projects", "Deep State programs", longe do interesse público.

    Alguém acha que os carros eléctricos da Tesla são o último grito da tecnologia? O nosso mundo está infestado de um obsoletismo sistemático, ao qual a ciência do consenso não é poupada, pelo contrário, é usada para sustentar este estado de mentira. Qualquer cientista digno desse nome tem de ser consciente disso, de outro modo, é automaticamente uma fraude, e nem poderia ser de outra maneira.

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