terça-feira, 2 de agosto de 2016

As "promessas" da lei de Bases do Sistema Educativo e a escola actual

      A Lei de Bases do Sistema Educativo, publicada há 30 anos (Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro), apresentou-se como um texto fundamental para tornar claro o tipo de escola que se pretendia, as reformas do sistema educativo, que se sentiam necessárias e urgentes, definindo as bases para uma educação igual para todos, uma escola onde todos tivessem as mesmas oportunidades.
      Três décadas depois o que encontramos? Teremos, realmente, uma escola que dá a todos as mesmas oportunidades? Terão sido feitas as reformas necessárias e, essencialmente, as reformas adequadas? Estarão as nossas escolas a desempenhar o seu papel, o papel que lhes compete, o de ENSINAR?
      O Jornal de Letras, na edição número 1195, de 20 de Julho a 2 de Agosto de 2016, dedica o seu suplemento "Educação" a esta efeméride.
      Do artigo do prof. Joaquim  Azevedo, intitulado "A Escola justa não virá por milagre", destaco dois parágrafos significativos:
      "As promessas da LBSE, de uma educação multidimensional, humanista e antropologicamente fundada estão a ceder o seu lugar, há vários anos, à lógica dominante de uma escola de consumo, para consumidores letrados, bons utilizadores das TIC, sem axiologia definida e sem vértebra interior.
      Onde é que as crianças e os jovens de hoje desenvolvem a criatividade, motor da humanização, o pensamento crítico, essencial à compreensão deste mundo multifacetado, multipolar e complexo, a cooperação, em vez da competição, a solidariedade, essa pagela cada vez mais retirada do espaço público e remetida para uns quantos privados e do terceiro setor, a autonomia, a persistência, a capacidade de assumir e assegurar compromissos, nesta "modernidade líquida" (Bauman)? Porque é que as artes, a filosofia, as humanidades tombam permanentemente como cursos e opções, desde o início da escolaridade até ao fim da universidade? Onde vão estas novas gerações poder cultivar o "fascinante esplendor do inútil" (Steiner)? O reducionismo axiológico e antropológico a que estamos a condenar a educação escolar vai acabar por asfixiar e matar as suas promessas de aprendizagem e desenvolvimento humano. A educação escolar será dentro de outros 30 anos, um imenso parqueamento de entretenimento e consumo, a domesticação à moda do século XXI."

1 comentário:

  1. Ao ler este texto não pude deixar de pensar, dramaticamente, que as ideologias têm uma função determinante na organização social e económico-política.
    E que, sem esta organização, o mundo colapsaria (?) rapidamente (?), tal é o “peso” do fator humanidade na equação.
    Não podemos isolar o humanismo personalista das restantes realizações humanas que têm contribuído para resolver problemas do homem.
    Mas, aparentemente, nem todos trabalham para resolver problemas do homem.
    Incrivelmente, muitas pessoas, mesmo nos sistemas civilizacionais que, assumidamente, se baseiam na pessoa, são tratadas, afinal, como sendo o problema, não um problema de ordem teórica, mas de ordem prática, do tipo “excrescência”… E há quem tenha pesadelos com "máquinas trituradoras".

    Só por si, de nada nos valeriam todas as ciências e tecnologias se o mundo colapsasse.

    No fim, só o humanismo poderia socorrer-nos: a solidariedade (é coisa e de pobres e desgraçados, os ricos não precisam disso até serem pobres), amor (é coisa misteriosa que o dinheiro não compra), música (é coisa de alienados dançantes), religião (é coisa de analfabetos que só têm defeitos), filosofia (amor pela sabedoria), história (é coisa que não serve para construir nada, até ao momento em que é preciso perceber por que é que tudo foi destruído), memória (quem a não tem não tem nada, não faz nada, mas não deixa de ser pessoa…)...
    E, ainda mais importante, pessoas.
    E pessoas com ciência, obviamente.

    Sem pessoas, não há problema nenhum para resolver.

    Acabem com as pessoas e acabam-se os problemas todos.

    Acabem com o humanismo, promovam a máquina, o robot, levem-nos ao mercado e deixem de produzir pessoas e verão todos os problemas resolvidos, de termodinâmica, de física de partículas, de matemática, de genética, de evolução, de filosofia, de ciência, de artes. Maravilhoso mercado (químicos, farmacêuticos, traficantes, físicos, mecânicos, banqueiros, traficantes, militares, terroristas, informáticos…) que trabalha a pensar no homem e no bem do homem, à escala global, ecológica, inteligente.
    Mas faltaria o maravilhoso humano, a indispensável ideologia, sistema de crenças, sobre o Homem como o valor que deve restar mesmo que todos os outros fracassem.
    Historicamente, por ex. Esparta e Atenas, URSS e Capitalismo, são exemplos de sistemas ideológicos que apostaram mais ou menos na pessoa humana como “produto” ou “mercadoria”, meio ou fim da atividade económico-política e social. É ostensivo, nos tempos de hoje, a redução da pessoa a valor económico. Tudo se rege cada vez mais pelo critério da economia. A racionalidade parece exigir que assim seja. Valor, nos tempos atuais, está praticamente reduzido a valor pecuniário, mais do que a valor económico, ou seja, o que não tiver valor pecuniário, mesmo que tenha valor económico, que requer reconhecimento e tutela, não passa de uma idiotice, não serve para quem só vê mercadoria.
    Atenas derrotada pelas armas veio a ser vencedora pela memória. A URSS derrotada pelas próprias contradições DOS DÍNAMOS e pelos inimigos “humanistas”, parece estar, fatalmente, a sobreviver através da MÁQUINA GLOBAL a que todos os humanismos se curvam.
    Vai ser preciso organizar um sistema de democracia global, em que o primado do poder não sejam as MÁQUINAS do dinheiro, nem já a lei, mas a pessoa humana…Se houver pessoas que acreditem nisto.

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