sábado, 24 de janeiro de 2026

"Inteligência Artificial na Escola Portuguesa": Um guia a ter em conta

Em Dezembro do ano passado foi publicado pela Associação Nacional de Professores de Informática (ANPRI) o documento Inteligência Artificial na Escola Portuguesa: Guia para uma Integração Ética, Equitativa e Pedagógica (ver aqui e aqui). Apresentado como um apoio aos professores (do ensino básico e secundário) na "integração segura, ética e pedagógica das tecnologias de IA nas suas aulas", visa "garantir que estas tecnologias  sejam usadas de "forma crítica, segura e criativa". 
 
Parte-se, então, do principio que eles 1) as usarão; 2) que esse uso pode ser ético, seguro, crítico, criativo e pedagógico; 3) e que é possível garantir tudo isso.

Não fico, contudo, nada descansada no que respeita à declaração reproduzida em 2), sobretudo se aliada à afirmação reproduzida em 3). Se não sabemos bem o que é um "uso ético, seguro, crítico, criativo e pedagógico" desta tecnologia, como poderemos "garantir" que tal uso terá tal orientação e não outras (que, de resto, sabemos existirem)?  O raciocínio é válido para esta tecnologias e para todas as outras que têm sido postas ao serviço da educação, incluindo as mais clássicas, com destaque para os manuais escolares e o quadro de giz.
 
E menos descansada fico quando dou conta da insistência desse uso segundo uma "visão humanista", uma "abordagem humanista", "centrada no ser humano", na "proteção da ação humana" de "competências eminentemente humanas", de "valores humanísticos... Sim, claro, é neste quadro que temos de laborar, mas não posso deixar de notar que ele é tanto mais sublinhado, repetido, quanto mais empenho há em impor o seu contrário (que é, naturalmente, omitido).
 
Por outro lado, à medida que avanço na leitura agrava-se a sensação de déjà vu... melhor, da exaustão do déjà vuHá passagens, algumas retomadas de relatórios internacionais, sobretudo da Unesco, em que parece ter-se apenas, e só, substituído a designação de uma outra tecnologia pela designação desta. Por exemplo: "a IA não deve tornar-se mais um fator de desigualdade", ou "a implementação bem-sucedida da IA nas escolas não reside em escolher entre o otimismo tecnológico e o pessimismo ético", ou, ainda, "neste ecossistema, o professor assume o papel de ensinar com IA (...), integrando a tecnologia como ferramenta pedagógica que apoia a personalização e a criação".
 
Também não falta a velha promessa de Skinner (o entusiasta da "aprendizagem assistida por computador") e, antes dele, de Pressey (que, há um século, inventou a "máquina de ensinar") (ver, por exemplo, aqui) de transformação radical da educação por via das tecnologias. No caso, a IA permitirá (por fim!) "revolucionar a educação, fomentando oportunidades sem precedentes para a personalização do ensino, adaptando as experiências de aprendizagem às necessidades individuais de cada aluno." 
 
Passo por cima desta intenção de personalização, individualização do ensino para atender aos interesses, necessidades, especificidades próprias (o que, obviamente, escamoteia a função da escola pública que é trabalhar o conhecimento comum no sentido de conferir uma estrutura plural ao mundo, ainda que sem descuidar o ser que cada pessoa é e no que se pode tornar) e de outras boas intenções (em alguns sê-lo-ão mesmo), bem como das "orientações práticas e acionáveis, adaptadas às características e objetivos pedagógicos de cada nível do sistema educativo português", constantes no tópico 3, para me deter no "Apêndice A: Exemplos de Prompts para Professores".
 
Aqui inquieto-me mesmo. Nesse apêndice apresenta-se um exemplo de como o professor pode solicitar a máquina para lhe dar um "Planeamento de aula", "Recursos e avaliações" e "Apoio à prática docente". As instruções começam assim: 
"Atua como um professor experiente do 1.º ciclo do ensino básico português, especialista em metodologias ativas. Elabora um plano de aula...
"Gera 5 problemas de matemática de múltipla escolha sobre...
"Atua como um diretor de turma do 8.º ano. Escreve um e-mail formal, mas empático para...
 
O que o professor pede à máquina é que faça o seu trabalho! Um plano, uma planificação de aula (será que agora se diz "planeamento"?) é um esquema, necessariamente mental, onde regista as decisões que, depois de ponderar diversas alternativas, tomou para aquele "encontro" com aqueles alunos, naquelas circunstâncias particulares. Uma máquina não conhece aquele professor, não conhece aqueles alunos, não faz a mais pequena ideia do que é esse "encontro", pelo menos no sentido que Gusdorf lhe dá no seu livro Professores para quê?
 
O mesmo se pode dizer do "gerar problemas" ou "escrever um mail"... Um professor não conseguirá realizar também essas duas tarefas? Tarefas que, tal como a planificação, são criativas, expressam o que é como profissional. O professor (e só o professor) as pode realizar com a verdade do ser que é. E aqui estamos na ontologia, que nestas coisas das tecnologias (e das políticas) avançadas é um estorvo e, portanto, arruma-se a um canto para não ser notada.
 
No geral, o documento deixa passar a mensagem do "seguir para a frente". É uma atitude assente em pés de barro, porquanto não dispomos de saber educativo nem pedagógico suficientemente seguro para podermos ter (quase) a certeza de beneficiarmos os alunos ou, no limite, de não os prejudicarmos. Os estudos confiáveis sobre os efeitos dos "ecrãs e teclados" no desenvolvimento humano deveriam constituir um forte alerta, mas já nos esquecemos deles, seduzidos que estamos, mais uma vez, com as "graças" da máquina que faz tudo o que lhe pedimos, obedece sem reclamar e ainda agradece!
 
Não obstante as considerações que acima fiz, entendo que o Guia em causa deve ser lido e bem lido (de modo crítico, evidentemente) por professores e directores: há nele informações relevantes, nomeadamente quanto aos cuidados a ter no uso da IAGen, dos enviezamentos que lhe são comuns e do funcionamento da tecnologia.

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