quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Livros com Química: O Conde de Monte Cristo de Alexande Dumas


Nos textos que tenho aqui publicado sobre as relações entre a química e a literatura tenho evitado as referências (mais ou menos óbvias) a livros em que a química está ligada a venenos. Uma nova leitura ao Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas, livro datado de 1844, fez-me mudar de ideias. Não só existem neste livro aspectos detalhados e muito positivos sobre a química, como as questões levantadas pelos venenos referidos são muito mais interessante do que pareceria à primeira vista.

Na Prisão de If, Edmond Dantès conhece o abade Faria de origem italiana, notável personagem inspirada numa outra real e com o mesmo nome mas de origem portuguesa, segundo um notável estudo do Professor Egas Moniz. Faria mostra a Dantès, o qual depois de escapar da prisão assume o nome de conde de Monte Cristo, como conseguiu na prisão, com os seus conhecimentos de química, obter folhas em quantidade para escrever a partir de uma camisa, fazer velas a partir de gordura dos alimentos e fabricar tinta a partir da fuligem. Ao longo de toda a história, o Conde de Monte Cristo apresenta-se como químico amador que tem um remédio maravilhoso (que nunca sabemos bem o que é), o qual em pequena quantidade cura mas em grande quantidade mata.

Há muitos outros aspectos químicos que podem ser explorados neste livro, mas aqui vou referir apenas a brucina, um veneno muito presente no livro, o qual sabemos hoje ser obtido das mesmas espécies de árvores de onde se obtém a estricnina. Umas décadas antes da publicação do livro, a brucina tornou-se tristemente famosa devido a uma fraude com consequências trágicas, contada em detalhe por John Buckingham em Bitter Nemesis: The Intimate History of Strychnine, de 2007. Um elixir amargo similar ao de casca de chichona (que contém quinina), mas sem as propriedades curativas deste, o qual era obtido a partir da casca de uma árvore denominada angostura, causou várias mortes por altura de 1800. A causa dessas mortes foi associada a uma suposta falsa angustura que durante muito tempo não se soube de onde provinha. Quando se pensou ter identificado essa árvore como sendo uma Brucea, Pelletier e Caventou, que haviam já identificado a estricnina nas árvores do género Strychnos, analisaram a casca dessa árvore e encontraram uma substância muito similar à estricnica que denominaram brucina. De facto, embora os dois compostos parecessem de ter vindo de árvores diferentes, só em 1937 se confirmou que Pelletier e Caventou tinham analisado partes diferentes do mesmo tipo de árvore do género Strychnos. Além disso, a estricnina obtida por estes químicos continha brucina como mais tarde se verificou. Muito medicamentos da altura, supostamente de estricnina, continham também brucina, sendo a dosagem assim, durante bastante tempo, um problema delicado e perigoso.

Não sabemos se Alexande Dumas estaria informado dos últimos desenvolvimentos sobre a origem da brucina, pois no livro ainda refere a sua origem a partir da falsa Angustura. Em qualquer dos casos, a novidade e os aspectos misteriosos da origem deste veneno, assim como as suas propriedades e os testes com ácidos que confirmam a sua presença, devem tê-lo fascinado e por isso preferiu dar-lhe mais importância do que à estricnina, a qual é mais venenosa do que a brucina. De facto, além de menos tóxica, a brucina é detectável de forma mais fácil do que a estricnina por reacção com ácidos fortes, sob a acção dos quais origina compostos com uma forte cor vermelha, um aspecto referido por Alexandre Dumas no livro. Em qualquer dos casos, os sintomas são idênticos e facilmente identificáveis, sendo só vagamente semelhantes aos do tétano.

Jock Murray no artigo Medicine in Alexandre Dumas père's The Count of Monte Cristo, de 2002, cita as memórias de Alexandre Dumas para apontar como fonte das informações sobre química e medicina presentes neste livro um jovem médico, o Dr. Thibaud. Além dos apsectos médicos, Murray comenta ainda ser surpreendente que um livro referido como sendo de literatura juvenil contenha, entre outras coisas, uma envenenadora em série, dois infanticídios, assassinatos e mortes em abundância, três suicídios, cenas de tortura e execução, drogas e fantasias sexuais envolvendo drogas, travestismo e lesbianismo, aspectos que terão sido suavizados nas traduções inglesas. Encontramos, no entanto, níveis de violência da mesma ordem noutros livros de literatura juvenil do século XIX, por exemplo nos de Emilio Salgari, o que, em qualquer dos casos, não agradava nada aos moralistas da altura.

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