segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

SEM CONTEMPORIZAR COM A DESTRUIÇÃO DA ESCOLA PÚBLICA

“Haja ou não frutos, pelo sonho é que nós vamos. Basta a fé que nós temos. Basta a esperança naquilo que talvez nós teremos” (Sebastião da Gama, 1924-1952).

A republicação do meu post, Suspeitas sobre os colégios do grupo GPS (11/02/2014), no blogue Geopedrados, do Colega Fernando Oliveira Martins, leva a interrogar-me, de quando em vez, se valerá a pena defender questões que já não dizem directamente respeito à minha situação de aposentado, mas que me dão, por outro lado, o direito de continuar a defender, sem benefício pessoal, causas de que me ocupei durante 12 anos como presidente da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados. Ou seja, lavrar o meu veemente protesto contra a destruição sistemática, pedra por pedra, do multissecular edifício da Escola Pública ao serviço valioso de gerações escolares passadas, actuais e futuras.

Mas talvez seja sina minha, ou destino cruel, de que me não consigo (nem quero) libertar. Remonta ele a idos de 1972, altura em que um grande amigo e biólogo, Augusto Cabral, na apresentação de um dos meus livros, "Sem Contemporizar" (1972), escreveu:

“Mas, para além de tudo, existe a pessoa, o indivíduo, como elemento de uma classe e de uma sociedade e o que realmente conta são os aspectos positivos e válidos e o que também poderei afirmar, sem desmentido seja a de quem for, é que Rui Baptista é um homem que tirou um curso, não para ter um canudo e à sombra deste se instar acomodaticiamente numa secretária à espera do fim do mês, mas sim para, tão-somente, exercer uma profissão que desempenha com honestidade e incontroverso êxito. Não é de admirar, pois, que tenha defendido, desde que o conheço (e já lã vão um ror de anos), a sua posição em particular e da sua classe em geral. Defesa essa em que tem sido intransigente, mesmo quando fica sozinho e luta até ao último alento: até quando lhe falta o apoio daqueles que sobre estes assuntos se deveriam pronunciar, e o não fazem., limitando-se a colher os benefícios, quando os há, da luta que ele tem travado”. 

Por isso, sempre com muito apreço li os comentários publicados (o do colega Oliveira Martins e outros) ao meu post supracitado por constituírem um arrimo precioso numa altura em que a docência não constitui um corpus devidamente organizado, ao contrário de outras profissões de igual ou menor exigência académica, organizados numa Ordem Profissional. Contenta-se ela com um aglomerado de docentes proletarizados e pulverizado em mais de uma dezena de sindicatos docentes de diversas tendências políticas), como se a sublime função docente se pudesse circunscrever a meras questões de natureza laboral: vencimentos e horários de trabalho, por exemplo.

O prezado colega Oliveira Martins, com os seus comentários, a anteriores textos meus, tem dado, de há muitos anos para cá. um auxílio precioso e constante a um combate sem tréguas a uma situação em que, como diria Pessoa, o exercício docente é uma arrabalde de uma profissão que exigia ser devidamente dignificada com o título profissional de Professor, devidamente tipificado em deveres e direitos. Em conselho de Santo Agostinho: “Nunca estejas satisfeito com o que és, se queres conseguir aquilo que não és”!

12 comentários:

  1. Então um belo dia disse a minha vovó:minha professora de religião é de São Pedro de Alcântara da família França?! Vovó sorriu e estava a concluir que era gente boa.

    ResponderEliminar
  2. Nunca estejas satisfeito17 de fevereiro de 2014 às 11:00

    O Augusto Cabral é, de facto, um sonhador, coitado. O que vale é que há sempre espaço para sonhar. E isso é fé. E a fé é sonho. E é pelo sonho que se vai. E ir é o que importa. E tudo é tão bonito.



    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Terei imenso prazer em responder a este comentário se o seu autor for mais explícito na respectiva intenção e significado...

      Eliminar
    2. Os sonhos são feitos de má matéria e cores irreais e o preço que por eles se paga raramente compensa sendo que o sonho, depois de sonhado, esvai-se no real outra vez igual a si próprio, com a agravante da irreversibilidade.
      Não sei o que é isso de “conseguir aquilo que não és”, espaço indeterminado, demasiado amplo para ser caminhado, com uma sinalética requintadamente simbólica onde os passos vendados seguem um guião escrito por Ninguém, entidade virtual onde Todo-o-Mundo participa. Esta forma de ativação do boneco parece-me um pouco satânica, não acha Professor? Animar um ser com a nossa solicitude intrusiva ao mesmo tempo que se lhe cose a boca para satisfazer o encanto de ver obra realizada ou uma necessidade básica pessoal tem qualquer coisa de profundamente inautêntico e sádico.
      Mas claro que isto são tudo falsas perceções.

      Eliminar
    3. Como disse Aristóteles, "a esperança é o sonho do homem acordado. " "Conseguir aquilo que se não é" será apenas um pesadelo de um sonho inatingível? Em palavras suas, "espaço indeterminado, demasiado amplo para ser caminhado com passos vendados seguindo um guião escrito por Ninguém"?

      Nem eu próprio sei se aqui terão cabimento as palavras de Santo Agostinho sobre as insondáveis questões sobre a Fé (para uns como letra minúscula): "Para os que creem nenhuma explicação é necessária; para os que não creem nenhuma explicação é possível"!

      Eliminar
  3. O PERIGO DAS BOAS IDEIAS
    Quando não surgem temas merecedores de escândalo, que possam fornecer títulos de caixa alta, socorre-se ao conselho, famoso e sensato, apesar de parecer uma anedota, de que à falta de cão deve-se caçar com gato; ou pelo menos tentar.

    Um dos temas que estão na prateleira de cima, esperando a sua vez de voltar a descer, é o de entregar a gestão das escolas públicas, tanto no âmbito económico como no curricular, às autarquias. E a ideia, que parece muito sensata, baseia-se em que as necessidades educativas dos cidadãos de qualquer concelho - pelo menos aqueles que estejam mais afastados do centro de poder central – serão conhecidas e avaliadas com mais sensatez pelos seus eleitos.

    Assim, num olhar etéreo, parece indiscutível que quem conhece cada casa é quem mora nela. A seguir surge a realidade, complexa e mais cheia de escolhos do que se previa.

    Uma entrega total, ou quase, da gestão escolar, desde o jardim-de-infância até o fim da escolaridade obrigatória, é provável que não fosse totalmente funcional. A não ser que a preparação intelectual dos decisores lhes permitisse não naufragar no mar das opções, muito contraditórias.

    Também convêm recordar que a noção da carne ser fraca, e do ceder às tentações de toda ordem, não se pode admitir que seja uma exclusividade dos membros do clero. Deixando de lado as quedas de índole erótica que sempre se associam à ideia das fraquezas, e desviando para o lado da corrupção económica e partidária, não tardariam a surgir suspeitas nos favoritismos nas escolhas, fossem do pessoas docente e de apoio que se contratassem “digitalmente”, mesmo que através de concursos públicos já decididos previamente, como, também quanto às verbas despendidas na manutenção, obras novas e consumos de funcionamento.

    Num patamar mais elevado, podemos garantir que, em qualquer município em que se deleguem estas capacidades de gestão total, pode sentir-se a dúvida de existirem as pessoas capacitadas, com visão não só local mas também nacional, assim como terem a percepção pragmática de como encarar o futuro, que ninguém conhece convictamente. Sem desmerecer aos autarcas em geral, nem em particular, podemos pensar que é muito arriscado deixar que o rebanho seja conduzido por um pastor, por muito conhecedor que ele seja dos pastos, dos trilhos e do clima local, sem uma supervisão idónea.

    Dando crédito ao que nos apresentam nos jornais - o que já de por si é pouco credível - parece que o ministro da educação, seguindo o esquema traçado pelo governo, decidiu fazer o ensaio com um concelho determinado. È provável que, vendo como as coisas se desenvolvam, trate de corrigir o tiro a posteriori; tal como faziam os artilheiros quando só dispunham dos conhecimentos de balística.

    Será que alguém calculou as probabilidades de as coisas evoluírem bem ou mal? E se for um falhanço, quem será mais prejudicado? Os autarcas? Certamente que não, pois que Eles fizeram “o melhor que puderam e souberam”. Os governantes? Tampouco, pois limitaram-se a dar seguimento a pedidos emanados “unanimemente” da cidadania, da qual eles são os representantes e mandatários eleitos democraticamente. Os docentes? Impossível, pois que todos eles foram escolhidos pela autarquia como sendo la creme de la creme: Melhores não havia! Os programas? Como se pode pensar tal coisa; na sua preparação colaboraram as cabeças mais evoluídas do concelho!

    A culpa será do clima. Da chuva. Dos alunos, e, em última análise dos pais, que não os souberam educar (mas isto nunca será afirmado em público) Ou então, como será de esperar, da oposição, que sempre está dedicada a meter paus nas rodas da carroça de quem está no poleiro.


    Uma situação muito melindrosa, se vista de fora.
    Publicada por Albert Virella

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Entregar as escolas às autarquias se for um falhanço é uma "situação muito melindrosa, se vista de fora". "Se vista de fora" e de dentro quanto a mim.

      Em linguagem de caserna parece-me ser uma espécie de sacudir a água do capote, endossando a responsabilidade do possível falhanço às autarquias que se debatem com falta de dinheiro para as simples despesas correntes.

      A César o que é de César e a Deus o que é de Deus, como sói dizer-se! A Educação é um assunto demasiado sério para estar sujeita ao simples cadinho de experiências com crianças pondo em jogo o seu próprio futuro em nome de cabeças pensantes que, por vezes, se sentem orgulhosas por julgarem ter descoberto a pólvora que os fará lançar foguetes e apanharem as respectivas canas...

      Eliminar
    2. Professor Rui Baptista;

      Entregar as escolas às autarquias seria uma enorme catástrofe.

      Repare que eu conheço muito bem a dinâmica e funcionamento de uma autarquia, por lá andei seis anos. O poder autárquico é vergonhoso, é uma gestão muito ultrapassada, gasta-se milhões e milhões em coisas inúteis que muitas vezes são apenas caprichos, teimosias e vaidades.
      Nem quero por isso imaginar o que seria, no ensino, o desastre, resultante da intromissão, pela influencia, por exemplo, de um presidente de uma junta de freguesia no ensino (sim, porque nas respectivas freguesias eles são "donos" dos votos e como tal...).

      Cumprimentos cordiais,

      Eliminar
    3. Caro Engenheiro Ildefonso Dias: Obrigado pelo seu comentário que se reporta a uma vivência por si vivida,que conclui, em palavras suas: "Entregar as escolas à autarquias seria uma enorme catástrofe".

      Cumprimentos amistosos.

      Eliminar
    4. Na 2.ª linha do meu comentário anterior, substituir vivência por experiência.

      Eliminar
  4. Caro Amigo Rui Baptista: agradeço a atenção dispensada neste post, que não mereço, pois apenas faço o que posso, e é bem pouco, pela Escola Pública, pela Docência e pelos seus atores principais, os Professores. Partilhamos muitos pontos de vista, pese embora o facto de eu ser muito mais novo (sou um jovem de 46 anos...), de não ter a "experiência de saber feito" que dá muitos mais anos de trabalho e muitos mais dados recolhidos, e de não estar ao eu nível (sou um simples professor, embora com experiência em formação de professores e com uma passagem muito gratificante no Ensino Superior). Não sou contra os Sindicatos (embora, não me revendo nos atuais, não seja sindicalizado) nem sou contra o Ensino não público (o meu filho estudou num Jardim Escola João de Deus dos 3 aos 10 anos, embora eu pagasse na íntegra os custos de tal opção, embora muitos colegas seus, com menos possibilidades, fossem apoiados pelo Estado, e aceito que assim há justiça na escolha de escola). Tenho agora o meu filho numa Escola Pública e acho estas muito melhores para preparar um aluno para a vida real e para o acesso ao Ensino Superior - conheço algumas das escolas do grupo GPS que citou no seu artigo e dá-me a volta ao estômago aquilo que lá se faz, o que estado lhes dá e aquilo que eles fazem com o (nosso) dinheiro, bem como a promiscuidade entre políticos/decisores e os seus dirigentes (ou onde terminam uns e começam outros). Acho que algo vai podre no reino da Dinamarca quando não há dinheiro para pagar abaixo do salário mínimo uma tarefeira para apoiar crianças com deficiência profunda, como acontece na minha Escola, e há dinheiro para apoiar a aquisição de Mercedes, autocarros e aulas de equitação em colégios com filhos de gente rica - mas um dia destes as pessoas irão aperceber-se disso. Finalmente, queria agradecer-lhe o facto de continuar a lutar pela criação de uma Ordem dos Professores - o acesso à profissão e as questões éticas são fundamentais para termos uma classe dignificada, que volte a ter o prestígio que no passado teve e que merece, tal como noutros países, ter. O seu esforço é também o meu e enquanto puder estarei consigo nesta luta, até que esta frutifique. Obrigado pelo seu esforço e pelas suas palavras amáveis - o amigo Fernando Oliveira Martins e o blog de geólogos formados em Coimbra entre 85 e 90, os Geopedrados, estarão sempre na primeira linha da luta consigo...!

    ResponderEliminar
  5. Meu bom amigo e prezado colega: A companhia honrosa da sua pessoa, e dos Geopedrados, compensam-me da luta que venho desenvolvendo por uma dignificação do Ensino. Que melhor recompensa podia eu desejar? Peço-lhe que aceite o meu abraço fraterno..

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.