domingo, 2 de fevereiro de 2014

A Formação de Professores e a Capital do Camboja


Artigo de Guilherme Valente no último "Expresso": 

Sou um espectador regular do concurso da RTP «Quem quer ser milionário». Conhece-se o modelo: uma pergunta, quatro respostas à escolha, é só colocar a cruzinha. No amontoado de respostas ignorantes do costume, verifica-se a recorrência de algo novo e estranho, que uma observação atenta obriga a considerar ser de outra natureza.

 Dois exemplos. Um que testemunhei, outro registado por Joel Neto (DN 16/01/2014).

A pergunta era: «Das quatro cidades indicadas, qual é a capital do Cambodja?». O concorrente, mestre num qualquer curso, não sabia. «Mas pense», encorajava-o Manuela Moura Guedes. «Resposta: «Não sei porque... nunca estive no Camboja».

No caso referido por Joel Neto, foi pedido à concorrente que escolhesse entre quatro cidades indicadas a que ficou ligada a uma batalha marcante I Grande Guerra. Pensou e... nada. «Então não se lembra, a I Guerra Mundial...» Resposta: «Não sei, porque não vivi nesse tempo». Como observou Joel Neto, o que tornou a participação especialmente confrangedora não foi não saber a resposta a uma pergunta fácil, mas não saber por não ter vivido nesse tempo. Pinguins na Antárctida? Nunca lá fui! Não escreveu um ícone pós-moderno que Ramsés não poderia ter morrido de tuberculose por a doença ainda não ter sido "construída" nesse tempo?

Não se trata apenas, portanto, de manifestações de uma ignorância que, sempre ultrapassada, já não surpreenderia. Trata-se agora de algo específico, cuja recorrência indicia um fenómeno novo, uma qualquer espécie de alteração «sináptica», "memética", que perdurará para lá da memória dos gurus que a inspiraram e do poder da cegueira que a impõe. Passou-se a conhecer apenas aquilo em que se mexe, o que se viu, o que se fez, o lugar onde se esteve, é o tal conhecimento construído pelo aluno. Isto é, o princípio de Arquimedes, a teoria da relatividade, a Madame Bovary, não existem. E, se existem, porque não hão-de existir também tapetes voadores? Desvio cognitivo com lógica forte e forte probabilidade devemos considerar ser induzido pelas concepçãoes educatiovas construtivistas impostas na escola durante mais de trinta anos. Tal escola só poderia secar a memória, tolher a imaginação, fechar o horizonte.

Sabe-se o que a experiência restrita de Summer Hill produziu: adultos sem autonomia, indiferentes, irresponsáveis. Começa a revelar-se agora o que estas concepções educativas podem produzir quanto impostas durante tanto tempo à totalidade das escolas de um país inteiro. Quarenta anos de ditadura com outros tantos de eduquês por cima.

Mas mais: não se informou nem se ensinou a pensar e, por isso, também não se aprendeu a sentir, porque é a inteligência, informada e crítica, que pode refrear os impulsos egoistas e induzir a solidariedade. São essas as concepções educativas, cultivadas nos cursos de formação de docentes, que esses novos professores transportam para o ensino básico e secundário, cujos alunos, por sua vez assim formatados, entram e se profissionalizam depois nesses mesmos cursos.

Não devia o ministro ter já rompido esse círculo vicioso, promovido a reformulação dessa formação? E não é imperiosa a selecção de candidatos à docênccia saídos desses cursos?

Por causa da crítica a essas instituições, que, afinal, perece não ter chegado a fazer, não é o ministro que deve pedir desculpa a presidentes e directores, são eles (e os governos todos) que devem pedir desculpa ao País.

Guilherme Valente

4 comentários:

  1. Caro Guilherme Valente
    Concordo consigo em muitas das críticas que tem feito ao “facilitismo” e ao psitacismo que, pretendendo suportar teoricamente esse facilitismo, tem tido forte influência nos discursos sobre educação. Esse papaguear acabou, como sabemos, por ficar conhecido por “eduquês” graças a uma reacção negativa ao seu uso (e abuso) por parte do ex-ministro Marçal Grilo.
    Mas a identificação do eduquês, de significado vago e muito abrangente, com “o” construtivismo, como se este fosse uma conceito único parece-me algo forçado e nada rigoroso. De facto, o construtivismo não designa uma tendência unificada de pensamento sobre a aprendizagem, apresentando uma diversidade de tipos e formas muito grande. Não há pois apenas um mas vários construtivismos. Infelizmente, ideias apenas defendidas por correntes mais radicais são tomadas como representativas do construtivismo em geral, encorajando algumas críticas fáceis.
    Com efeito, depois de teoria dominante na educação a partir dos anos 70, com a difusão da obra de Piaget, assistiu-se a partir do final dos anos oitenta a vários desenvolvimentos sob o grande chapéu construtivista. Entre estes tomou alguma preponderância o auto-designado construtivismo radical de Ernst Von Glasersfeld que defende que “o conhecimento, independentemente de como é definido, está nas cabeças de pessoas, e que o sujeito pensante não tem nenhuma alternativa senão construir o que sabe baseando-se na sua própria experiência”.
    Contudo, na pesquisa em educação em ciências, tem havido nos últimos anos um aumento gradual da influência da teoria sócio-histórica (ou sócio-cultural) iniciada por Lev S. Vygotsky (1896-1934). Para Vygotsky , a educação é uma poderosa força de orientação da evolução da criança em idade escolar, que determinará o destino de todo o seu desenvolvimento mental. O trabalho de Vygotsky centra-se por isso na demonstração do carácter histórico e social da mente humana e na possibilidade e no modo como poderemos intervir no seu desenvolvimento.

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  2. Muito obrigado, meu Amigo, pelas suas úteis considerações. O construtivismo a que
    me refiro é aquele que se tornou moda -- particularmente à sua versão redutora e
    acrítica, assente na indigência filosófica arrepiante do costume entre nós --
    moda e flagelo na sua mistura explosiva com teorias da permissividade loucas,
    nomeadamente as ideias (de uma louca? ) Françoise Dolto. E irão regressar em força,
    estou certo, porque casam bem com tudo o resto.

    Com simpatia,

    Guilherme Valente

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  3. Referiu Summer Hill... Mas e quanto à Escola da Ponte? As pessoas ligadas às Ciências da Educação têm geralmente uma enorme facilidade de acesso aos meios de comunicação. Se nessa escola se formassem alunos bem sucedidos na universidade, no trabalho e na vida ouviríamos falar deles todas as semanas.

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  4. Dr Guilherme Valente não resisti em fazer um comentário a meu modo ao seu artigo. Alinho e associo algumas ideias onde nada é estático mas tudo se relaciona. Ou não estamos na era dos hiperlinks?
    Coloco comentário ao seu artigo de opinião no meu blog em http://zoomsocial.blogs.sapo.pt/

    Manuel Rodrigues

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