domingo, 13 de outubro de 2013

A compaixão

Eis uma notícia do dia de hoje, 13 de Outubro do ano de 2013:
"(...) existem várias denúncias de casos de doentes com cancro e com VIH/sida que não são aceites nas unidades hospitalares fora da sua área de residência. Estas denúncias são feitas tanto por associações de doentes como pelos próprios hospitais, que afirmam fazê-lo porque não recebem para atender doentes de outras áreas. Os doentes com VIH/sida são o caso mais preocupante, visto que procuram hospitais fora da sua área de residência, principalmente doentes das localidades mais pequenas, para manter o anonimato (...) [a], presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, diz que não há nada na lei que impeça o tratamento de doentes fora da área de residência mas razões financeiras podem definir as escolhas dos hospitais, obrigando-os mesmo a rejeitar doentes." 
Detenho-me em particular no final da última frase: "mas razões financeiras podem definir as escolhas dos hospitais, obrigando-os mesmo a rejeitar doentes".

Decomponho-a na minha cabeça...
- Razões financeiras podem definir as escolhas dos hospitais.
- Obrigando-os (os hospitais) a rejeitar doentes.

Do que decorre o seguinte pensamento:
- Os hospitais não decidem, quem decide as pessoas que lá trabalham com o propósito de atender... doentes!
- Essas pessoas que decidem podem/devem rejeitar docentes? Se elas foram preparadas para atender doentes e se os hospitais foram concebidos para atender doentes... há algo aqui que falha, que não está certo...

O que não está certo é o regresso a uma barbárie que o século XIX recusou abertamente, com base em conhecimento que vinham de trás, recusa que o século XX consolidou. Uma barbárie que se considerava ultrapassada em favor daquilo que Jacques Barzun designou por compaixão. Mas, devíamos saber que as conquistas humanas pela humanidade não constituem garantia, não o consciencializámos e aligeirámos a sua afirmação. Isso bastou para que o monstro da insensibilidade despertasse e se entranhasse em cada um de nós. Se assim não fosse, como poderíamos compreender que, por razões financeiras, se recuse a entrada de um doente num hospital público, que, como contribuintes, pagamos, precisamente para que todos os doentes possam entrar!?

Numa passagem do livro Da alvorada à decadência, (Gradiva, pp. 754-755), Barzun explica a matriz deste século, que ainda vai na segunda década.
"A compaixão era o sinal das pessoas justas e verdadeiramente humanas; compassivo era o mais alto elogio que podia fazer-se aos vivos e aos mortos. Qualquer vítima merece piedade e auxílio (...) e qualquer pessoa podia converte-se numa vítima de um momento para o outro (...) Toda a população estava realmente disposta a ajudar os aflitos, tanto no próprio país como no estrangeiro. Além de entidades bem conhecidas como a Cruz Vermelha, dezenas de organizações percorriam o mundo, instruíndo curando, salvando mulheres da prostituição e crianças do trabalho clandestino e da fome, resgatando os injustamente condenados, albergando e alimentando os refugiados, denunciando a tirania e angariando fundos para estes e outras causas caritativas. O seculo XX dava seguimento à tradição do século XIX, mas desligando-a do sectarismo e, dada a participação dos governos, ampliando imensamente a quantidade e variedade das ajudas (...) A extensão da assistência adequada por parte das vítimas era um extensão lógica da doutrina dos Direitos Humanos, que tinha sido consagrada num tratado internacional e não se via limitada por qualquer definição. Os direitos eram continuamente ampliados. Este incessante esforço de auxílio e permissividade era um espectáculo desconhecido até então em qualquer civilização".

2 comentários:

  1. Como médico não posso senão estar totalmente de acordo com as considerações que faz. O regresso à barbárie através da escravidão dos critérios economicistas e do enclausuramento da sociedade num egoismo feroz é uma realidade. Mas acredito que os que praticam a minha profissão com dignidade são a maioria e tentam resistir, dia a dia, a tal retrocesso.
    Daniel de Sousa

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  2. Julgava que a deontologia profissional proibisse e penalizasse tais atitudes, caso viessem a existir. Mas afinal os hospitais - as pessoas que nele decidem - podem ser impiedosas que não infringem o normativo. Podem recusar doentes que não é crime; ao contrário, talvez se lhes aconselhe tal procedimento.
    Que é do nosso estado social que tanto tempo levou a construir e quem governa vai dizendo, não, não vamos preservá-lo. Mas todos os dias há uma amputação.
    Gente mais sem palavra e sem vergonha, Nem precisariam ser compassivos, bastava que fossem justos.

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