sábado, 23 de maio de 2020

“EINSTEIN, EDDINGTON E O ECLIPSE,” UMA BD MUITO ORIGINAL



Tenho uma boa colecção de banda desenhada e ela ficou há semanas enriquecida com a  adição de uma obra muito original. Intitula-se  “Einstein, Eddington e o Eclipse  Impressões de Viagem,” são suas autoras Ana Simões e Ana Matilde Sousa e a editora é a Associação Chili com Carne, uma cooperativa de jovens artistas fundada em 1995.

 A maior originalidade está no tipo de obra: Não é uma mera banda desenhada, pois inclui um ensaio de história da ciência, de Ana Simões, estando tanto o texto da banda desenhada como o do ensaio em português e em inglês (o  que lhe amplia bastante o potencial público leitor). A banda desenhada, de Ana Matilde Sousa, está inserida entre o ensaio em português e a sua tradução em inglês: vai da p. 63 à 194 de um total de 247 páginas. O ensaio e a competente ilustração aos quadradinhos descrevem um dos eventos mais emblemáticos da ciência do século XX: o eclipse total do Sol que ocorreu a 29 de Maio de 1919, observado por uma expedição de astrónomos britânicos com uma equipa na ilha do Príncipe, no Golfo da Guiné, que nessa época era um território colonial português, e outra equipa no Sobral, Ceará, no Nordeste brasileiro, do outro lado do Atlântico. Essas observações permitiram confirmar a teoria da relatividade geral de Albert Einstein,  elevando-o ao patamar de Isaac Newton, um físico cuja mecânica só em parte se encaixava na mecânica relativista, falhando no domínio das grandes velocidades e dos campos gravitacionais muito intensos. Segundo Newton, os raios de luz de estrelas por detrás do Sol, encurvar-se-ia ao passarem perto da superfície do Sol de um certo valor, mas segundo Einstein o valor correcto deveria ser o dobro. Só com o Sol tapado se poderia observar tal encurvamento.

Foi com o apagamento do Sol observado pelos astrónomos ingleses – com o famoso Arthur Stanley Eddington na equipa do Príncipe - que Einstein ganhou as luzes da ribalta no mundo científico e não só. Como já alguém disse, o Príncipe foi o princípio de Princeton, a Universidade norte-americano onde Einstein haveria de ser professor. O Nobel seguir-se-ia logo em 1921, embora não tenha sido atribuído por aquela sua teoria. Mas logo depois do anúncio público dos resultados da expedição britânica, em Novembro de 1919, o físico suíço (nascido na Alemanha) ganhou um enorme reconhecimento mediático, que é exemplificado pela escolha da revista “Time” no ano 2000 como a “pessoa do século.” Quis a fortuna dos astros que um feito maior da Física do século XX tivesse sido verificado em terras de expressão portuguesa.  Einstein, quando visitou o Brasil em Março de 1925 (passando, embora despercebido, por Portugal), afirmou a um repórter brasileiro, esquecendo o Príncipe, talvez por simpatia para com o seu interlocutor: "O problema que a minha mente formulou foi respondido pelo luminoso céu do Brasil."

O livro tanto pode ser visto como um ensaio científico com um longo apêndice que mostra o texto integral de fontes históricas ilustrados com um estilo impressionista moderno (a palavra “impressões” do subtítulo foi bem agarrado pela artista) como pode ser visto como uma bela obra de arte, salpicada de cores fortes, que é complementada em prefácio e posfácio por uma explanação do “enredo.” Ana Matilde de Sousa apenas usa nos seus “balões” (de facto não são redondos, mas rectangulares, amarelados à laia de post-its) textos escritos pelos intervenientes, incluindo algumas cartas de Eddington à sua mãe. Por fezes não são precisas palavras, como no ápice que é a representação do eclipse nas páginas 160-161. Einstein, cujo nome abre o título, só aparece - e de costas – nas páginas  175 e 188. A capa, em tons azuis, negros e brancos é magnífica: uma tartaruga – elas vêm desovar às praias do arquipélago de S. Tomé e Príncipe – busca a claridade, como que uma lua que se interpõe diante do Sol.

A dupla das duas Anas contrasta pela idade, indicada na pormenorizada ficha técnica. Não é apenas um encontro de ciência e arte, mas um encontro de duas gerações. Enquanto Ana Simões é catedrática na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e, desde 2018, presidente da Sociedade Europeia de História das Ciências, a outra Ana é doutoranda na Faculdade de Belas artes da mesma Universidade, estando a estudar um tema do moderno design japonês.  A talentosa artista não é a primeira vez que ilustra obras de história da ciência: embora com distribuição restrita já tinha feito um livro para um público infanto-juvenil sobre o médico português Garcia de Orta, que foi distribuído pelas criança do Hospital Garcia de Orta (Ana Matilde de Sousa; Maria Paula Diogo e Palmira Fontes da Costa, consultoras científicas, “As Aventuras de Garcia de Orta”, Lisboa: Colibri, 2014).

Além da notável originalidade da junção de dois registos – um científico e outro artístico, neste caso  a história da ciência casa-se com a “nona arte”, que costumam andar apartados, - a obra é também original pela sua  rara qualidade. O ensaio, que foi pensado tendo em conta leitores desconhecedores da matéria, sendo claro,  é absolutamente rigoroso, indicando as fontes para os factos relatados (não tem notas de rodapé, mas sete páginas de notas finais). Na banda desenhada,  delimitada pelos registos epistolares ou diarísticos, a imaginação já voa, mas o registo não deixa de ser rigoroso: vê-se que a artista se procurou documentar sobre os cenários que descreve visualmente, tendo consultado o material fotográfico disponível. Fugindo ao realismo, faz-nos entrar na atmosfera da época.

 O volume é original pela qualidade da produção. A Chili com Carne, beneficiando dos patrocínios recebidos, esmerou-se. Não é só a capa, mas todo o miolo que atrai a vista e o tacto. O papel é bom,  assim como o design geral e a impressão. Eu já tinha alguns dos livros da colecção de viagens “Low Cccost”, assim mesmo com c triplo, da Chili com Carne (destaco os dois últimos “Deserto/Nuvem,” sobre a Cartuxa de Évora, e “Berlim, Cidade sem sombras”, respectivamente de  Francisco Sousa Lobo e de Tiago Baptista; pena que  que a editora no final, na p. 247, não tivesse indicado os nomes dos autores). O formato de obra em apreço é especial, maior do que as outras, o que valoriza sobremaneira as ilustrações.  Não me admirou nada que tivesse atribuído o Prémio de Melhor Publicação Nacional com Distribuição Comercial, uma das categorias dos Prémios Banda Desenhada 2019, atribuídos pelo site português “Bandas Desenhadas”. Bem merecido, mas a obra merece decerto uma distinção internacional. Bons olhos a vejam…

O livro saiu pela altura do centenário do eclipse, estando relacionado com uma exposição que Ana Simões organizou no Museu Nacional da História Natural e da Ciência, na Rua da Escola Politécnica, no centro de Lisboa. Vários livros saíram em todo o mundo por ocasião desta efeméride, não só porque o tema é aliciante, mas porque há sempre novas contribuições a dar: como irrompe uma prova de uma previsão científica? No caso a comunidade científica quis ter redundância (observações simultâneas no Príncipe e no Sobral, o que se revelou útil dado o surgimento de uma chuvada tropical no primeiro sítio à hora do eclipse que quase impediu o registo fotográfico), mas que confiança deve dar uma prova, baseada em observações singulares? Que papel desempenham as convicções dos protagonistas? No caso parece evidente que Eddington pendia à partida para o lado de Einstein. Há aqui aspectos humanos muitos curiosos, que aliás costumam estar presentes nos grandes momentos da história da ciência. Por exemplo, pode o preconceito conduzir a erros?

Ana Simões, que aborda tanto o Príncipe como o Sobral (a mesma expedição dividiu-se na ilha da Madeira), mas enfatiza o que se passou na ilha do Príncipe, uma vez que parte dos relatos de Eddington e este é tomado como personagem principal (era, de resto, o mais categorizado dos astrónomos expedicionários). Não se esquece de referir as ideias quakerianas de Eddington, que lhe valeram a não participação na Primeira Guerra Mundial, mas também o “cacau escravo” do Príncipe (isto é, o cultivo de cacau nas roças, aproveitando de modo  indigno mão de obra negra). Sobre a realidade colonial portuguesa, Eddington faz prudente silêncio: não quereria decerto desagradar aos seus hospedeiros. Há aspectos muito pitorescos: nas cartas à mãe, o astrónomo inglês fala das suas experiências gastronómicas na ilha da Madeira (incluindo a ingestão de bananas, uma dúzia ao dia, e de nêsperas, fruta que ele nunca tinha provado), da ida ao casino no Funchal para ver o jogo de roleta, que era ilegal, do jogo de ténis e da caça aos macacos na ilha do Príncipe, etc. Eddington escreveu à mãe, após o eclipse: “Mas a placa melhor que medi deu um resultado em concordância com Einstein e acho que consegui uma pequena confirmação de uma segunda placa.” Einstein, por seu vez,  também escreveu à mãe, todo contente, logo que soube da boa nova da confirmação da sua teoria:  “Boas notícias hoje… as expedições britânicas provaram de facto a deflecção da luz nas proximidades do Sol.” Assim se vê como as mães dos cientistas podem ser testemunhas relevantes: nos dois casos foram as duas as primeiras interlocutoras.

Einstein usava muita vez Deus como sinónimo de harmonia do Universo. Há quem diga que professava uma “!religião cósmica”, da qual ele seria o único fiel.  Ana Simões não o refere, mas Einstein terá respondido a uma doutoranda em Berlim,  Ilse Rosenthal-Schneider, quando ela lhe perguntou o que diria se os resultados das observações tivessem sido negativos:  “Nesse caso teria tido pena do Bom Deus. A teoria está correcta de qualquer modo.”

Ana Simões já escreveu vários artigos o evento que celebrizou Einstein. Em 2009, publicou um em que falava da participação portuguesa. Essa participação, como fica agora mais uma vez claro, não passou de uma assistência logística. Neste novo ensaio, a autora faz notar que  os expedicionários do Príncipe fazem agradecimentos mais pessoais que institucionais, como se as autoridades científicas portuguesas estivessem ausentes (há correspondência anterior, de preparação, mas não parece haver correspondência posterior, partilhando a experiência).  A mim sempre me preocupou o eclipse da ciência portuguesa que o eclipse solar de algum modo simboliza. Não só Einstein não foi reconhecido em Lisboa, mesmo após ter já recebido o Nobel, como, ao contrário do que aconteceu no Brasil, não houve cientistas portugueses que tenham acompanhado a expedição á colónia portuguesa. Eram muito poucos os cientistas nacionais na época, assim como eram muito poucas as suas publicações (basta consultar as bases de dados internacionais para perceber que a ciência portuguesa pedia meças às da maioria dos países europeus). Pelo contrário, no Brasil houve uma forte presença institucional. Os expedicionários britânicos no Sobral beneficiaram bastante da ajuda de um astrónomo de origem francesa, Henrique Morize, que era director do Observatório Nacional e Presidente da Academia das Ciências do Brasil (nascido em França, Morize, engenheiro de formação, naturalizou-se brasileiro aos 24 anos, após se ter fixado em terras de Vera Cruz). A professora de História da Ciência não elabora muito sobre o quadro científico português da época. A ciência estava relativamente apagada nesses tempos difíceis após o assassinato de Sidónio Pais (que era professor de Matemática em Coimbra e amigo de Egas Moniz, que chamou para cargos diplomáticos).

Uma nota final de elogio, para um tom que a historiadora assume: a de história global. Como se pode ver pelo mapa que vem na badana da capa, este foi um evento que teve lugar em três continentes. Lisboa e o Funchal estiveram no caminho entre a Inglaterra e os dois lados do Atlântico, o Príncipe e o Sobral. O papel português teve muito a ver com o seu posicionamento no globo. Não era a primeira vez que isso acontecia: no século XIX, quando a globalização se deu através do telégrafo eléctrico, a Madeira, Cabo Verde e os Açores foram importantes nós de tráfego de dados no Atlântico (como Ana Simões de resto refere; é bem conhecido, que Lord Kelvin andava a instalar cabos no Atlântico e 1873 quando encontrou no Funchal a que viria a ser Lady Kelvin). E, no século XX, foi a localização privilegiada dos Açores para a previsão meteorológica na Europa que permitiu à criação de uma Estação Meteorológica Internacional no Faial, em 1929, a pedido das instâncias meteorológicas europeias. Para já não falar do facto de ter sido pela Madeira que passaram as duas expedições pioneiras ao pólo Sul em 1910, as do inglês Robert Scott e do norueguês Roald Amundsen, este último vencedor. 

Portugal pode estar na periferia da Europa, mas em certas ocasiões foi central para a ciência mundial.
Em resumo.  Se o leitor não tiver este livro não saberá o que perde. Mas eu sei: perde conhecimento precioso do que é para muitos o evento mais notável da história da ciência no século e perde também uma obra de arte da BD nacional. Parabéns às duas Anas!

- Ana Simões e Ana Matilde Sousa, “Einstein, Eddington e o Eclipse  Impressões de Viagem”. Lisboa: Chili com Carne, 2019.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

AS EPIDEMIAS NA LITERATURA


Meu artigo no último As Artes entre as Letras (na figura uma edição do Decameron de 1602):

É longa e frutuosa a relação entre a literatura e as epidemias que nos têm assolado. Para ilustrar essa rica relação, pode-se começar pelo “Decameron”, um conjunto de contos do século XIV do italiano Giovanni Boccaccio (1313-1375), amigo de Petrarca. Um grupo de dez jovens, sete raparigas e três rapazes, abrigados da peste negra ou grande peste, nos arredores de Florença, em 1348, contam cem histórias durante dez dias. O livro foi escrito pouco depois, quando ainda não existia imprensa. Li-o adolescente, requisitado numa biblioteca municipal, e, apesar da antiguidade da narrativa, devo confessar que fiquei fascinado pelos relatos pícaros e eróticos. Os relatos da peste, que causou, na Europa e na Ásia, mais de 100 milhões de mortos e em Florença cerca de cem mil, são vivos e dão-nos conta da época: as pessoas dividem-se entre as que se refugiam na religiosidade e as que se refugiam no hedonismo. A obra haveria de ter duradoura influência na literatura ocidental, inspirando autores como Shakespeare, Molière e Voltaire. Há várias traduções em português (a que li, em versão reduzida, era da Inova), destaco a mais recente, da Relógio de Água, em dois volumes, com tradução e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues (saiu num só volume, há anos, no Círculo de Leitore).

Dando um enorme salto no tempo, mas continuando na língua italiana, destaco o romance “Os Noivos” do escritor romântico italiano Alessandro Manzoni (1785-1873), publicado no original em 1827, mas cuja acção se situa em 1628. Relata, no cenário da praga que atacou Milão por essa altura (a peste bubónica de 1629-1631, que matou um milhão de pessoas), o noivado de dois jovens, que acaba com o casamento e o reinício de vida em Bérgamo (curioso que também tenha sido nesta cidade a norte de Milão que a Covid-19 teve agora um surto maior). Tal como o “Decameron”, embora aqui o registo seja mais moral e piedoso, também esta é uma obra maior da literatura italiana. Há até quem diga que foi a mais lida em língua italiana, mas tenho de admitir que ainda não li. Acabo de a encomendar, numa tradução recente para português de José Colaço Barreiros, saída nas edições Paulinas, numa colecção dirigida por Tolentino de Mendonça. Tal como o “Decameron” também “Os Noivos” chegaram à ópera e ao cinema.

Na língua inglesa, forçoso é destacar o “Diário da peste de Londres” do inglês Daniel Defoe (1659-1731), o famoso autor do best-seller “Robinson Crusoe.” É uma novela, mas também uma crónica não ficcional que dá conta, com realismo, dos dias da grande praga de Londres de 1665, o último ataque da peste bubónica em Inglaterra, que matou cerca de cem mil pessoas (em Portugal atacaria no Porto em 1899, obrigando à transferência de Ricardo Jorge para Lisboa e vitimando Câmara Pestana). A publicação original é de 1722. A mais recente edição portuguesa, com tradução de João Gaspar Simões, foi publicada pela Bonecos Rebeldes, mas julgo estar esgotada, tal como outras edições anteriores.

Já no século XX, e em língua francesa, um clássico moderno é “A Peste” do francês Albert Camus (1913-1960), Prémio Nobel da Literatura em 1957, para alguns a obra maior do autor e um romance que tem sido muito procurado nestes tempos de pandemia. A primeira edição é de 1947. A tragédia da peste bubónica é situada no ano de 1940 na cidade de Oran, na Argélia, que Camus conhecia bem (lembro que o escritor nasceu na Argélia), mas o evento real inspirador do livro foi a epidemia de cólera que aí grassou em 1899. Os temas têm alcance universal, embora a abordagem e o estilo de Camus sejam muito próprios: a condição humana, a força do destino, o absurdo. A generosidade e a maldade, o heroísmo e a cobardia, a afirmação e a negação de Deus são abordados num livro, que chegou ao teatro e ao cinema. Há uma edição no mercado da Livros do Brasil, com tradução de Ersílio Cardoso.

Sobre a cólera, mas passando para a língua castelhana, não pode passar despercebido “O Amor nos tempos de cólera” do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), Prémio Nobel da Literatura em 1982 e mestre do realismo mágico sul-americano. O livro, publicado em 1985, pouco após a recepção do Nobel, conta uma história de amor, inspirada em recordações dos seus pais que ele próprio recolheu. O enredo passa-se no final do século XIX e início do século XX na Colômbia e o título resume bem o conteúdo: Uma história de amor num tempo atravessado não só pela violência dos homens como pela violência natural de uma epidemia de cólera. Não sendo o tema central, a doença está em pano de fundo. Há uma edição portuguesa da Dom Quixote, com tradução de Margarida Santiago. Foi feita um filme baseado a trama do livro, que inclui canções da colombiana Shakira.

Por último, em português, é inevitável referir o “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago (1922-2010), também Nobel da Literatura, em 1998, na esteira de Camus e García Márquez. Este “Ensaio”, publicado originalmente em 1995, é uma obra inteiramente ficcional: Saramago efabula uma epidemia que causa a falta de visão, com a notável excepção de uma mulher, a mulher de um médico oftalmologista, que também cegou. Um pouco na linha de Camus, o autor fala, ao narrar os esforços de sobrevivência de um grupo onde está a mulher, da existência humana num tom eivado de pessimismo. A impotência, o medo, o desespero são as marcas da tragédia que aqui é retratada. Encontra-se nas livrarias uma edição da editora Caminho. Tal como algumas das obras atrás referidas, este livro foi adaptado para o teatro e para a ópera. Além disso, o realizador brasileiro Fernando Meireles fez, em 2008, com base nele um filme que agradou ao autor.

Várias outras obras poderiam ser acrescentadas – por exemplo, “O Último Homem,” de Mary Shelley (não traduzido entre nós), a autora de “Frankenstein”, sobre uma imaginada peste apocalíptica, “Némesis,” de Philip Roth (Dom Quixote), sobre o surto de poliomielite que ocorreu em Newark em 1944, e “O Ano do Dilúvio” de Margaret Atwood (Bertrand), sobre uma distópica praga artificial. E espera-se por “Noites da Peste”, o novo romance do escritor turco Orhan Pamuk, Nobel de 2006, sobre a peste que assolou a Ásia em 1901, conforme ele próprio anunciou em artigo publicado há poucos dias originalmente no New York Times e depois em vários jornais de todo o mundo. As epidemias são uma fonte fértil de boa literatura

quinta-feira, 21 de maio de 2020

DA NÃO EVIDÊNCIA DE TUDO



Do meu muito estimado amigo Eugénio Lisboa, académico e crítico literário, publico mais este soneto:

É tão estranha a vida. É tão estranha a morte.

É estranho que seja tudo tão estranho

e tudo cause, em mim, um tal desnorte,

que o assombro seja, em mim, tamanho,


que fico detido, explorando o espanto

de coisa nenhuma ser evidente!

Resta-me, então, digo eu, o canto

que amacia o que não é transparente!


Viver é assim não compreender,

que é a melhor forma de descobrir.

Se há virtudes no não entender,


se é bom forçar a porta, insistir,

contudo, a um mistério decifrado,

outro logo se apresenta fechado!



Eugénio Lisboa

Congeminações de sempre, que a solidão da peste agudiza!

terça-feira, 19 de maio de 2020

"Só os bons professores podem mudar a vida de um estudante"

Numa comunicação gravada em vídeo para o El País (que pode ser ouvida e lida aqui), neste tempo de confinamento, o professor e escritor italiano Nuccio Ordine dá-nos conta de algumas reflexões sobre os temas que o preocupam, tais como a educação, a literatura, a arte, a saúde, o amor e o bem comum.

Pela importância de tais reflexões e porque elas deviam constituir uma preocupação para todos nós e, especialmente, para quem tem de tomar decisões sobre estas matérias, aqui deixamos, em tradução, alguns dos passos mais significativos:
Quero deixar aqui um grito de alarme. Inspiram-me terror os elogios que nestas semanas têm sido feitos ao virtual e ao ensino telemático. Esse é, para mim, um perigoso cavalo de Tróia que, aproveitando a pandemia, trata astutamente de derrubar os últimos baluartes da nossa intimidade e do ensino. Não falo, claro, da situação de emergência. 

Preocupa-me os que querem considerar o coronavírus como uma oportunidade para dar o tão esperado salto à frente. Afirmam que já não podemos voltar à educação tradicional ou que, teremos que imaginar uma didáctica híbrida, com algumas aulas presenciais e outras à distância.

No meio de tantas incertezas, eu fortaleci uma certeza: o contacto com os alunos na aula é o único que pode dar verdadeiro sentido ao ensino e à própria vida do docente.

Como poderei ler um texto clássico sem olhar nos olhos os meus estudantes, sem reconhecer nos seus rostos os gestos de desaprovação ou os gestos de cumplicidade?
Nenhuma plataforma digital, sublinho, nenhuma plataforma digital pode mudar a vida de um estudante. Só os bons professores podem fazê-lo.
 Por isso o preocupa a situação que observa no ensino:
Aos jovens não se lhes pede que estudem para melhorar, para fazer do conhecimento um instrumento de liberdade e de crítica, de compromisso civil. Não, pede-se-lhes que estudem para aprender um ofício e ganhar dinheiro. Perdeu-se a ideia da escola e da universidade como uma comunidade na qual se formam os futuros cidadãos que poderão exercer a sua profissão com uma forte convicção ética e um profundo sentido da solidariedade humana e do bem comum.
Estamos a esquecer que, sem a vida comunitária, sem os rituais que regulam os encontros entre professores e alunos nas aulas, não pode haver nem transmissão de saber, nem formação autêntica.

Os estudantes não são recipientes para encher de noções. São seres humanos que necessitam, como os professores, de dialogar, interagir e reconhecer-se na experiência vital de estar juntos para aprender.

Agora temos de medir eficazmente a diferença entre emergência e normalidade.

Seria inimaginável, claro, viver sem internet ou sem telefones, mas a tecnologia, como um fármaco, pode curar ou pode intoxicar. Depende das doses.
E sobre o papel da arte e da literatura lembra:
A literatura pode ensinar-nos muitas coisas sobre as consequências das enfermidades e das pandemias. Estou a ler o segundo livro da Eneida que me fez pensar na situação que estamos a viver, porque ali encontramos a cena de Eneias carregando o seu pai Anquises sobre os ombros. É um gesto fundador, porque Eneias, com o seu pai e o seu filho Ascânio, funda a civilização romana. Fundar uma civilização significa levar os antepassados sobre os ombros. 

A literatura pode ensinar-te valores imortais.
O futuro não se pode construir sem o passado.
A literatura ajuda-nos também a reflectir sobre as nossas prioridades em tempos de pandemia.
E recorda-nos o que afirmava Albert Camus:

Em tempo de pandemias, é mais fácil compreender que um mundo construído sobre a indiferença, a injustiça social e as profundas desigualdades é um mundo sem futuro. 
Ou 
... nas profundas palavras de Milan Kundera “ a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Ética no Quotidiano

Recebemos através da editora Gradiva informação sobre o livro. Ética no Quotidiano, da autoria de Dave Robinson (aqui). Nele surge uma reflexão sobre as decisões políticas em tempo de pandemia. As questões que abaixo se enunciam têm estado presentes no nosso quotidiano desde que ela se iniciou e hão-de continuar a persegui-nos nos próximos meses ou anos. Pensar nelas é, de resto, um exercício que nos servirá no futuro em situações análogas que, por certo, passaremos. Uma delas, mais grave do que esta, é, sem dúvida, a  sustentabilidade do planeta, que tem estado suspensa, esquecida, negligenciada... mas lembremo-nos que ela não é adiável...  
Jeremy Bentham inventou o utilitarismo como método para ajudar governos a enquadrar leis, tomar decisões e justificar as suas acções. Por isso, parece uma filosofia moral especialmente adequada aos problemas produzidos pelas pandemias. 
Não há dúvida de que este vírus produziu enormes quantidades de infelicidade para muitas pessoas, e portanto a tarefa do governo é procurar evitar todo esse sofrimento ou erradicá‑lo completamente. 
Os utilitaristas insistem que a sua filosofia é igualitária – todos nós somos dignos de igual consideração. Os governos, contudo, podem ter de levar a cabo a tarefa de eliminação de vírus por fases – ajudando os mais vulneráveis e os mais indispensáveis em primeiro lugar, como os idosos e doentes, bem como aqueles que são necessários para a tarefa: enfermeiros, médicos, motoristas que fazem entregas e assim por diante. Mas o objectivo final seria ajudar todos, e o mais rápido possível. Um problema mais complicado é o das decisões nas áreas médica e económica que um governo teria que tomar ao lidar com esta crise. 
Pode parecer bastante simples. Contam‑se as mortes e faz‑se aquilo que reduz os números.
Mas governos utilitaristas têm de lidar com o sofrimento e a felicidade no futuro, o que é apenas mais ou menos previsível, a menos que, como agora percebemos tão bem, não seja de todo previsível. Os governos precisam de ser lembrados das incertezas da indução – trata de probabilidades, não de certezas. Dados actualizados e pandemias passadas provavelmente ajudam a fazer algumas previsões razoáveis, mas no caso da Covid‑19 muitas vezes estavam completamente erradas. 
Este vírus provou ser deveras único com o seu longo período de incubação, a sua elevada letalidade, a sua enorme capacidade de contágio e assim por diante. Aconselhamento científico inicial chegou a recomendar que se espalhe na comunidade, de modo a criar uma «imunidade de grupo». Mas isso conseguir‑se‑ia à custa de milhares de mortes. Mesmo a distância social recomendada de dois metros é, na verdade, uma suposição. 
Bentham tentou reduzir este tipo de incerteza, inventando um sistema de pontos único e complicado em que atribui pontos por coisas como a intensidade da dor (ou morte) prevista, a sua duração, certeza, expansão, o seu custo e assim por diante. O seu tipo de «cálculo da felicidade» também suscita muitos «problemas económicos e morais» – seria aceitável, por exemplo, arriscar as vidas de alguns cidadãos, a fim de facilitar uma recuperação económica mais rápida? 
Actualmente, os economistas chamam esse tipo de cálculo «análise de custo-benefício». Existe porque nenhum governo tem recursos ilimitados para gastar com os seus cidadãos. É aqui que os bem‑intencionados objectivos da moralidade esbarram nas realidades sombrias da economia (...) 
Se a crise continuar por um tempo considerável, a economia continuará a sofrer grandes danos; as empresas entrarão em colapso; empregos deixarão de existir; a pobreza aumentará. E o que sabemos é que quando a pobreza aumenta, mais pessoas morrem prematuramente. 
Se reduzirmos a necessidade de isolamento social, a fim de ajudar a restaurar a economia, podemos causar mais algumas mortes pelo vírus; mas podemos salvar mais vidas, caso os mais pobres sejam capazes de trabalhar novamente. 
Cálculos utilitaristas podem ser um negócio sombrio. Uma crise como esta também pode incentivar os governos a assumir demasiado poder sobre a saúde e a expectativa de vida de cidadãos individuais, não apenas agora, mas no futuro. Vivemos numa democracia liberal que desaprova demasiada interferência dos governos nas nossas vidas particulares. 
Provavelmente é prudente ser céptico, se não mesmo cínico, sobre o que os governos fazem em nosso nome. É por isso que uma democracia precisa de um partido de oposição forte no Parlamento e de uma imprensa independente que revele o pensamento subjacente às decisões e acções do governo. Gostaríamos que elas fossem para o bem de todos nós e não apenas para os cidadãos mais poderosos e influentes. 
Os governos têm o dever de eliminar a ameaça que este vírus constitui para os cidadãos? Um argumento central para o direito de os governos existirem, terem autoridade, terem poder e fazerem leis é que isso se deve a um contrato. Este contrato estabelece‑se entre todos os cidadãos e os governos. Os cidadãos concordam em ser governados porque os governos têm o dever de protegê‑los e esta é a principal razão para os governos existirem. É a primeira cláusula do acordo. É uma boa ideia, mas é ficção, claro. Eu nunca assinei um contrato e o leitor deste texto também não. Mas a maioria dos governos aceitaria que a protecção dos seus cidadãos de um vírus mortal é algo obrigatório. 
Até onde podem ir para levar a cabo essa tarefa? Que direitos humanos pode um governo infringir, abolir, limitar para executar a tarefa de remover a ameaça que o vírus impõe? Pode um governo tornar a vacinação obrigatória para todos os seus cidadãos? Até que ponto os governos estão autorizados a levar adiante essa tarefa de eliminar o vírus? Isto é mais difícil de responder. Algum governo tem uma boa razão para impedir que as pessoas deixem as suas casas para irem trabalhar ou conviverem com outras pessoas (com vista a controlar os efeitos do vírus, é claro)? A maior parte das pessoas diria que sim, se desejarmos proteger não só a maioria das pessoas, mas também os mais vulneráveis. Mas o que fazer com aqueles que se recusam a obedecer? Deveríamos tentar proteger todos com alguma forma de assistência financeira limitada, proteger empregos e empresas, tanto quanto possível, e assim por diante. No entanto, isso é um inconveniente de curto prazo até que uma vacina seja encontrada e produzida em grandes quantidades. Mas o governo tem o direito de insistir na vacinação obrigatória para todos? Se a vacinação se tiver mostrado inofensiva e eficaz, então aqueles que a recusassem teriam um caso difícil de defender, especialmente se representassem uma séria ameaça aos seus concidadãos. Contudo, a ideia de injectar à força tais indivíduos, pareceria repugnante para a maioria de nós. Conferiria demasiado poder aos governos e estabeleceria um precedente perigoso.

domingo, 17 de maio de 2020

TOADA ÍNDICA (Apontameno biográfico em versos de sete sílabas)


Novo poema de Eugénio Lisboa, académico e crítico literário, que publico com imenso prazer:

Em tempos de antigamente,

quando andava no liceu,

numa terra que era quente,

com um mar que era meu,

ali sendo o paraíso,

de pouco fazendo tudo,

muito não sendo preciso,

buscando prazer no estudo,

estudando-me já eu,

a descobrir os mistérios

do sexo no apogeu

e dos dramas do império,

nesses tempos, eu dizia,

em que tudo era grande

e o amor descobria

que a vida se expande,

nesses tempos de começo

de um mundo que se abria,

de viagens sem regresso,

num tempo em que já sabia

que a dor também existe

e que o triunfo se paga,

mesmo quando se não desiste,

pelo preço de uma chaga

que o tempo não amacia;

naquele tempo enriquecido

por tudo que acontecia

e era por mim sentido

ser tesouro amealhado,

- eu sonhava, com fervor,

num futuro apontado

à grandeza e ao amor!

Que sonhar, nessa idade,

mesmo sendo o sonho alto,

não é grande enfermidade

nem dá grande sobressalto!

Foi assim que certo dia,

- havia sol e promessa

e meu coração ardia –

parti, com dor e com pressa,

deixando amores e festas,

a caminho do futuro

que eu pensava sem arestas,

radioso e bem seguro!

Quando se deixa um tesouro,

em busca de outro maior,

trocamos talvez um ouro

por outro muito pior.

E foi assim que parti,

nesse dia de Setembro,

saindo de onde nasci

-ai como disso me lembro!

Foi o futuro o que foi,

cheio do bom e do mau,

pleno de tudo o que dói,

logo que saí da nau.

Nas águas de um novo mar,

comecei nova aventura,

aprendi outro voar

e ganhei grande fartura!

Mas foi no outro oceano,

lá longe, no além mar,

que eu abri todo o pano

e me pus a navegar!



Eugénio Lisboa,

num regresso ao meu passado Índico, a um tempo mítico

               que nunca mais esquecerei!

sábado, 16 de maio de 2020

DIA INTERNACIONAL DA LUZ



Na foto: Maiman em 1960 com uma réplica ampliada do primeiro laser

Faz hoje, 16 de Maio, Dia Internacional da Luz (por determinação da UNESCO, desde 2015, que foi o Ano Internacional da Luz), 60 anos que o físico norte-americano Theodor Maiman que o físico norte-americano Theodore Maiman pôs a funcionar, no Hughes Research Laboratory, em Malibu, arredores de Los Angeles, na Califónia, o primeiro laser, feito de rubi, activado por uma lâmpada de flash.

A palavra laser, que hoje se tornou comum, era muito nesse tempo, muito recente e, portanto, praticamente desconhecida da maioria das pessoas. Laser é a abreviatura de Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation, amplificação de luz por emissão estimulada de radiação (maser é o acrónimo da mesma expressão, com light substituído por microwave). A ideia já andava no ar, até porque existiam já lasers de mico ondas.  O termo foi cunhado em 1957 por Gordon Gould, um norte-americano, estudante de doutoramento na Universidade de Columbia, Nova Iorque, que esboçou num bloco-notas o nome e algumas ideias base da nova tecnologia. Gould haveria mais tarde de conduzir, com sucesso, uma batalha jurídica de trinta anos para obter os direitos da patente do laser. Um dos meios de prova de que serviu foi a autentificação que fez numa loja comercial com data e carimbo nas apostos nas folhas do seu bloco. Esse investigador, que trabalhava numa empresa privada, haveria de ficar milionário ao ver finalmente os seus direitos reconhecidos, embora tenha tido de pagar aos seus advogados uma boa parte daquilo que recebeu.

O procedimento prático pode ter sido, pelo menos em parte, criado por Gould. Mas a ideia de laser é uma das muitas ideias geniais que o maior físico do século XX, Albert Einstein, nos legou. Não, ele nunca viu a luz laser por ter falecido em 1955. A ideia teórica do laser é de 1907 -  fez cem anos em 2017 - e é bastante simples. Como um átomo existir em vários níveis de energia, Einstein pensou em promover por meio de absorção de luz um conjunto de átomos  para um estado excitado e depois provocar o seu decaimento simultâneo para em estado de energia mais baixo, emitindo luz. Esta emissão de luz é coerente – as ondas de luz somam-se e o feixe de luz é forte e alinhado – e tem um comprimento de onda bem definido - no caso da luz visível tem uma só cor.

A concretização prática da ideia demorou muito tempo. Só em 1954, após a Segunda Guerra Mundial, com o grande desenvolvimento da radiação de microondas (que teve ligada à invenção do radar durante o conflito) se construiu o primeiro laser de microondas, que veio a ser chamado maser (m de microondas), e só em 1960 se conseguiu construir o primeiro laser de luz visível, a que alguns chamaram maser óptico.  A diferença entre as microondas, que usamos hoje nos fornos de cozinha e nos telemóveis, e a luz visível, que é recolhida pelos nossos olhos, reside nos comprimentos de onda, que são maiores para as micro-ondas.

Ainda hoje permanece em disputa entre os historiadores de ciência a autoria do aparelho emissor de laser: devem ser apenas creditados Maiman e Gould, ou ainda um professor de Gould na Universidade de Columbia, o também norte-americano Charles Townes, que tinha sido um dos criadores do maser (trabalhou para a Bell Laboratories durante a guerra no desenvolvimento de sistemas de radares). Em 1958, Townes escreveu, juntamente com o seu cunhado Arthur Schachlow, um artigo onde expunha em pormenor as bases conceptuais do laser, inspiradas no génio de Einstein. Os dois receberam o Prémio Nobel, o primeiro em 1964 e o segundo em 1981. Townes dividiu o seu prémio, atribuído “pelo trabalho fundamental no campo da electrónica quântica, que levou à construção de osciladores e amplificadores baseados no princípio maser-laser”, com dois físicos russos Nicalay Basov e Aleksandr Prokhorov, que, nesses tempos de Guerra Fria, trabalhavam no mesmo assunto do outro lado do muro de Berlim, praticamente sem contacto com o Ocidente. Nem Maiman nem Gould foram distinguidos pela Academia Sueca. A invenção do laser é tão remota, que todos esses investigadores já faleceram. De entre eles, Townes foi o que viveu mais tempo: faleceu em 27 de Janeiro de 2015, quando ia em breve completar a bonita idade de cem anos. Ainda viveu a tempo de assistir, ainda que à distância, ao começo em Paris, a 19 de Janeiro de 2015,  ao começo das celebrações de 2015 -  Ano Internacional da Luz. Eu estava em Paris, como Comissário Nacional para o Ano da Luz. E também lá esteve José Mariano Gago, na que deve ter sido a sua última intervenção pública. Eu e o Pedro Pombo, da Universidade de Aveiro, que me acompanhava na delegação portuguesa, falámos com ele em conversa amena. Nada nos fez prever que foi a última vez que o vimos. Faleceu daí a cerca de três meses, em 17 de Abril de 2015. Gago tem uma curiosíssima ligação ao laser: o seu dia de aniversário é a 16 de Maio: a 12 de Maio de 1960, festejou doze anos. Morreu precocemente: como seria bom festejar com ele, no Dia Internacional da Luz, os seus 72 anos!

A ciência, como foi o caso da ciência de Einstein, é mãe de tecnologia, nalguns casos tão poderosa como surpreendente. Mas a tecnologia também é criadora de ciência. Foram numerosos os prémios Nobel da Física atribuídos após os anos 60 do século passado por invenções e descobertas baseadas em luz laser: em 1971 o Nobel da Física foi atribuído pela ideia da holografia, assente no laser. Em 1981 foi dado pelo desenvolvimento da espectroscopia laser. Em 1997, foi concedido pelo arrefecimento e aprisionamento em átomos com luz laser  E, em 2000, distinguiu os construtores de lasers de semicondutores. Actualmente os lasers tornaram-se instrumentos banais em laboratórios de física, química e engenharia.

Hoje vivemos em tempo de laser. Eles estão literalmente por todo o lado. É  impossível imaginar a nossa vida sem impressoras laser, sem apontadores laser, sem os CD e DVD com músicas e filmes que são lidos com luz laser, sem a leitura óptica dos códigos de barras nos supermercados, sem a transmissão de informação na Internet via laser através de fibra óptica, sem as várias formas de cirurgia laser, sem cortes industriais a laser, sem fisioterapia ou depilação a  laser, sem espectáculos de luz laser, etc. Townes, Schachlow, Basov e Prokhorov, quando congeminaram os protótipos de maser e  laser, Gould, quando escreveu o novo nome e propôs a nova tecnologia, e Maiman, quando viu pela primeira vez a luz laser irradiada pelo rubi, de um vermelho intenso, não podiam imaginar a enorme quantidade de aplicações que, décadas volvidas, o laser teria. Quando Maiman deu à luz o primeiro laser de luz visível, foi dito que era de “uma solução à procura de um problema”. Não encontrou apenas um problema, mas sim muitos, tendo-os resolvido a todos, com proveito e agrado gerais. O laser é um exemplo de como a investigação científica pode ser feita sem interesses comerciais imediatos para depois, quase como um bónus inesperado, aparecer todo um conjunto de aplicações que ganham um enormíssimo mercado. Talvez se soubessem a história do laser os políticas percebessem o valor da investigação fundamental, proporcionado os adequados meios para que ela se desenvolva. O lucro é, em primeiro lugar, a compreensão do mundo. Depois, pode também ser económico e social. Mas repare-se na ordem..

sexta-feira, 15 de maio de 2020

RANKING NATURE DE PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PORTUGAL

https://www.natureindex.com/annual-tables/2020/institution/all/all/countries-Portugal

FAKE: texto atribuído a Maria de Sousa

Com o título "Depoimento póstumo da cientista Maria de Sousa de 80 anos" está a circular na Internet, por vezes pela mão de pessoas com credibilidade (como a arquitecta Helena Roseta). Mas é fake! O texto que começa assim:

"Carta aberta de uma cientista otimista às novas gerações A cientista Maria de Sousa, ao saber que estava infectada com covid-19 e consciente da sua situação de alto risco, despediu-se dizendo: “Espero perdurar por via dos que ficam vivos”. Por mais dolorosa e triste que seja a morte, a vida tal como a conhecemos na Terra é infinita.  (...)"

Não faz sentido logo pelo início a autoria ser de Maria de Sousa. A autora é Maria do Carmo Fonseca, foi publicado no DN e o nome da autora foi indecentemente surripiado. É a desinformação dos tempos modernos...

Ver a cópia adulterada

https://www.helenaroseta.pt/noticias/000702,052020

e comparar com o original

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/02-mai-2020/carta-aberta-de-uma-cientista-otimista-as-novas-geracoes-12143794.html


Máscaras, pessoas e personagens

Na Antiguidade, entre os Gregos e os Romanos, as máscaras eram utilizadas no teatro e serviam para caracterizar a personagem que ali se queria representar. Como os papéis eram desempenhados apenas por homens, as máscaras denunciavam também o tipo de personagem, masculino ou feminino e era, ainda, através da mudança de máscara que o mesmo actor conseguia representar duas ou mais personagens numa mesma peça. 

Havia a máscara do velho e a do jovem enamorado; distinguia-se a máscara da comédia e a máscara da tragédia. Assim, a assistência sabia, pela máscara, em latim persona, qual o tipo de peça teatral a que ia assistir e que tipo de personagem era aquela que aparecia. A máscara levava, portanto, à primeira reacção da assistência, ela denunciava uma característica, escondia o actor que estava debaixo dela e apresentava uma personagem com características distintas dele. Debaixo da persona, o indivíduo tornava-se outro; dizia-se personam tenere para significar “desempenhar um papel”, a persona era o fingimento, o disfarce. A palavra persona designava o carácter do actor que ali desempenhava um papel. Passou, assim, também ao sentido de “individualidade”, ao significado presente no vocábulo português daí derivado “pessoa” e “personalidade”. 

Diz-se que Quinto Róscio, um famoso actor cómico do século I a.C. foi o primeiro, em Roma, a usar máscara para desse modo esconder o seu estrabismo.

Fedro, escritor romano, tem uma fábula sobre a raposa e a máscara (Vulpes ad personam tragicam) em que nos conta a reacção da raposa quando encontrou uma máscara de tragédia. Observando-a atentamente, e admirando a sua beleza, terá exclamado: “O quanta species cerebrum non habet!”, que bela aparência, mas não tem cérebro. A máscara é apenas o exterior, pode ter grande beleza, mas falta-lhe o mais importante, aquilo que fará dela um humano, uma pessoa. Não interessa, pois, a glória feita de aparências...

É através dessa característica específica que persona dá em português palavras como personalizar, atribuir características próprias, específicas de uma determinada pessoa, e da pessoa que tem características bem vincadas diz-se que tem personalidade, pois possui ideias muito pessoais; quando, em literatura, atribuímos a uma coisa ou a um ser irracional características próprias de pessoas, de seres humanos, estamos a construir uma personificação, a personificar e, no mundo da ficção, temos personagens, homens ou mulheres, seres com características próprias que se assemelham a pessoas do mundo real.

Hoje somos todos personagens, com as nossas personas, com a máscara que disfarça e protege nas suas diferentes aplicações. 

Vemos, portanto, que o vocábulo perdeu em português aquele sentido que tinha no teatro antigo.

Para designar o que oculta, o que esconde a verdadeira pessoa, o vocábulo português “máscara” veio através do italiano maschera (que, por sua vez, terá vindo do latim medieval “masca” ou, talvez, do árabe). 

Sempre, oportunamente, atenta aos temas da actualidade, é de máscaras que nos fala a última crónica semanal de Pascale Seys (aqui), uma reflexão que se ouve sempre com agrado, pelas muitas e variadas relações que estabelece.

Aqui se apresenta a sua tradução na totalidade: 

“Masques et bergamasques 1”
"Em 1751, Voltaire apoderou-se de uma lenda que ampliou de forma fenomenal para fins políticos. No capítulo XXV do seu livro “História do século de Luís XIV”, o filósofo faz referência a um misterioso prisioneiro clandestino que o poder disse ter morrido por causa da peste. Mas quem é então o prisioneiro desconhecido? É um lacaio ou um homem importante? É o superintendente das finanças Nicolas Fouquet? É d’ Artagnan, é o amante da Rainha? Ou trata-se do irmão clandestino, o gémeo indesejado de Luís XIV, como pretendiam depois de Voltaire, Alexandre Dumas e Marcel Pagnol? Ninguém conhecia a identidade do prisioneiro e o mistério permanece. O homem, parece, gostava de roupa fina e apreciava rendas, e se beneficiava de um tratamento privilegiado no seu cárcere, entre todos os sinais particulares, havia um que vai verdadeiramente alimentar o fogo da sua lenda: o prisioneiro usa uma máscara, uma máscara de ferro. E Voltaire acrescenta que tinham ordem de matar o prisioneiro da máscara de ferro, se ele destapasse o rosto. A existência de uma permissão de matar contra aquele que levanta aquilo que o revela atesta ao mesmo tempo a importância da função da máscara e do valor daquilo que ela oculta." 
"Uma máscara esconde, uma máscara oculta a identidade ou a verdade de um ser ou de uma coisa, o que revela, aliás, a etimologia da palavra “disfarce, fingimento”. Mascarar-se é sair da sua maneira, quer dizer, sair da sua maneira habitual de ser. Trazer uma máscara equivale, pois, a sair da sua verdade, o que se chama também: uma mascarada. Mas as máscaras têm o seu deus: Dioniso, um deus paradoxal, inatingível, cheio de epicleses 2. Não se sabe se é velho ou jovem, se defende os excessos do vinho ou antes a abstinência. Dioniso encarna o espírito do teatro e de um disfarce em relação ao outro, ele é o deus das metamorfoses. Como nós e como as borboletas, Dioniso é inconstante, plural e rico nas suas transformações. Ele é o deus das máscaras que, debaixo da sua máscara, esconde outras máscaras até ao infinito: é a sua verdade." 
"No Reino Unido, nos corredores de um hospital de Southampton, o artista Banksy realizou uma obra de um metro quadrado, a preto e branco. Representa um menino de fato de macaco que agita, na sua mão, uma boneca com os traços de uma super-heroina: é uma enfermeira de máscara, vestida com uma capa e um avental. Aos pés do menino, relegados sem consideração, Batman e Superman estão juntos num cesto dos papéis. A mensagem de Banksy é clara: no reino dos heróis mascarados, são as enfermeiras que destronam em heroísmo e em verdade os super-heróis de ficção. O que podemos imaginar, através do olhar da criança que brinca, é que debaixo da máscara da enfermeira, debaixo da sua capa e do seu avental bate um coração que atravessou lutos." 
"E se a máscara esconde a coragem, a fadiga, tal como as lágrimas de quem faz face à morte, então o disfarce pode vestir de verdade uma das mais belas formas de heroísmo que existe: o heroísmo do pudor. Nietzsche não se enganou quanto a isso, ele que enunciava este paradoxo num grande texto, sob o título “Prelúdio de uma filosofia do futuro” onde dizia: “Tudo o que é profundo ama a máscara”."
Notas: 
1 bergamasque: alusão, com certeza, ao poema de Paul Verlaine (poeta francês do século XIX), Clair de Lune, que começa assim: 
Votre âme est un paysage choisi 
Que vont charmant masques et bergamasques 
Jouant du luth et dansant et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.
 2 epiclese: em grego ἐπίκλησις, significava “sobrenome”, mas também “invocação” de uma ou mais divindades.

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...