sexta-feira, 30 de agosto de 2013

QUANDO SE SENTE EUROPEU?


Depoimento que prestei so DN e publicado hoje:

 DESDE QUE NASCI

 Sou europeu desde que nasci. Na escola aprendi com Camões que a terra onde tinha nascido era “cume da cabeça/ De Europa toda”. Mais tarde com Pessoa fiquei a saber que a Europa “fita, com olhar esfingico e fatal, / O Ocidente, futuro do passado. /O rosto que fita é Portugal.” Já percorri toda a Europa, fui várias vezes à América, mas nunca fui a África, como Pessoa, nem à Índia, como Camões. Quando viajei na Europa pela primeira vez estranhei que as fronteiras de Portugal fossem das poucas que estavam fechadas (de noite, nem abriam!). Hoje, felizmente, estão abertas e podemos andar, sem mostrar o BI nem trocar de moeda, em grande parte dos países europeus. A Europa – a Europa das antigas Atenas e Roma, onde nasceu a filosofia, a Europa da Idade Média cristã, onde surgiram as universidades, a Europa do Renascimento, onde o humanismo floresceu, a Europa do Iluminismo, onde a ciência triunfou, a Europa da Revolução Industrial, onde o progresso económico surgiu, e a Europa da União Europeia, onde houve e há paz - é a minha casa. Quero ter futuro nela.

MANIFESTO PELA COMUNICAÇÃO DE CIÊNCIA EM PORTUGAL

Na sequência do tiro no pé que é o encerramento da área de promoção da ciência e tecnologia, foi criada um manifesto que pode ser assinado on-line, com vista à reversão desta situação.

Para: Exma. Sra. Presidente da Assembleia da República, Doutora Maria da Assunção Esteves; Exmo. Sr. Ministro da Educação e Ciência, Professor Doutor Nuno Crato; Exma. Sr.ª Secretária de Estado, Professora Doutora Leonor Parreira; Exmo. Sr. Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, Professor Doutor Miguel Seabra

No concurso aberto este ano para atribuição de bolsas individuais da Fundação para a Ciência e Tecnologia, a entidade que em Portugal gere a maior parte dos fundos públicos para a ciência, foi eliminada a área científica denominada Promoção e Administração da Ciência e Tecnologia (PACT). Criada em 2005 esta área tem permitido que se faça investigação a nível de doutoramento ou pós-doutoramento em Comunicação de Ciência.

Os bolseiros beneficiários deste financiamento têm conseguido: 
- Conceber e implementar projectos originais e inovadores para promover o conhecimento científico junto da comunidade (tais como eventos, espectáculos, exposições, livros, documentários, etc.); 
- Compreender as percepções, as mudanças de pensamento e atitude do público para com a ciência e tecnologia e estudar; 
- Avaliar o impacto das actividades desenvolvidas tanto junto do público-alvo como da comunidade científica. 
- Contribuído para o avanço do conhecimento do campo científico emergente em que se tornou a comunicação de ciência, publicando o seu trabalho em revistas internacionais com revisão por pares e apresentando-o em congressos internacionais. 

Recentemente os bolseiros PACT contribuíram com mais de metade das comunicações que foram apresentadas no 1º Congresso de Comunicação de Ciência em Portugal, que decorreu em Maio de 2013 em Lisboa (e com segunda edição já agendada para Maio de 2014 no Porto). 

Os bolseiros PACT, juntamente com outros investigadores, gabinetes de comunicação dos institutos e faculdades, museus e centros Ciência Viva, têm contribuído ativamente para trazer a discussão da ciência e tecnologia para o espaço público e conseguido chegar a diferentes tipos de público. 

Para além disso, os Investigadores PACT de doutoramento e pós doutoramento têm desempenhado um papel fulcral para a compreensão das necessidades do público e da comunidade científica neste âmbito, na procura das lacunas na literacia científica, na reflexão sobre a prática feita - muitas vezes em associação com investigadores de Sociologia, de Ciências de Comunicação ou da Educação. 

Caminha-se para o paradigma europeu da multidisciplinaridade e da necessidade de incluir estudos de ciência na sociedade em todo o tipo de projetos científicos; acreditamos que é um bom caminho. Também neste ponto as PACT têm refletido estas práticas com painel de avaliação constituído por três investigadores de áreas científicas distintas e complementares: um matemático com larga experiência em divulgação de ciência, um sociólogo e um especialista em ciências da educação. O perfil dos candidatos selecionados tem sido também espelho desta multidisciplinaridade, cruzando competências das ciências exatas e das da vida com ferramentas de comunicação e medição do impacto. 

Em qualquer tipo de enquadramento económico a aposta na ciência é fundamental para um futuro melhor. Nesse contexto, a promoção da ciência assume-se como uma prioridade estratégica, que é fortemente abalada com o fim da área de Promoção e Administração da Ciência e Tecnologia. 

Assim, os abaixo-assinados, reclamam a manutenção da aposta na promoção da ciência, como pilar fundamental da política científica em Portugal, no âmbito do qual as bolsas PACT têm um papel único: de fazer e refletir sobre a prática contribuindo para fomentar a discussão pública das implicações dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos e na fomentação da literacia científica. 

David Marçal 
Eunice Sousa 
Joana Lobo Antunes
Luís Azevedo Rodrigues
Sílvia Castro

Pode assinar o manifesto aqui.

O adeus de um cientista

Na semana passada, a astrofísica espanhola Amaya Moro-Martín publicou uma carta-aberta ao Primeiro Ministro espanhol, onde, de uma forma original e incísiva, apontava uma série de razões para abandonar definitivamente o seu país, cansada da forma como a Espanha tratava a ciência. 

O conteúdo desta carta, que pode ser visto, no original http://sociedad.elpais.com/sociedad/2013/08/19/actualidad/1376935600_483731.html ou em inglês http://www.theguardian.com/science/political-science/2013/aug/28/science-policy e certamente é familiar a muitos jovens cientistas portugueses que sairam ou estão a pensar sair do país.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

"Nestas circunstâncias só nos resta ir para o inferno!"

Apontamento no seguimento de texto anterior.

Em 1995 era publicado em Portugal, pela Gradiva, um ano depois da edição francesa, uma pequena obra de leitura acessível que dava conta de várias inquietações decorrentes do protagonismo que a televisão havia ganho na sociedade, alterando modos de pensar e de agir, e nem sempre no sentido que se pode considerar positivo. Televisão: um perigo para a democracia, é o título da obra.

Longe de diabolizarem esse meio de comunicação, Giancarlo Bosetti, jornalista que redigiu a introdução, Karl Popper, epistemólogo, e Jonh Condry, psicólogo, que escreveram os dois textos centrais, e Jean Baudolin, professor de Ciências Políticas, que acrescentou um posfácio, indagam o seu lugar nas nossas vidas. Se há duas ou três décadas as palavras destes quatro senhores eram relevantes, no presente sê-lo-ão muito mais.

O extracto que se segue é da lavra de Popper (páginas 18 e seguintes). Considerando que se trata de um potente instrumento que terá necessariamente de se harmonizar com os princípios da democracia e do liberalismo e não com a violência e a vedetização, propôs a várias estações de televisão um projecto que nenhuma delas atendeu, facto que o irritou bastante: "Fala-se de censura, mas são os produtores de TV, que detêm o poder de censurar tudo à sua vontade e sem que possa fazer-se seja o que for."
 É, aliás, interessante ouvir falar os produtores de televisão sobre esta questão. Por ocasião de uma conferência que realizei há uns anos na Alemanha tive o ensejo de conhecer o responsável de uma cadeia de que deslocara para me ouvir juntamente com alguns colaboradores (...). Durante a nossa discussão fez afirmações inauditas, que se afiguravam naturalmente indiscutíveis. «Devemos oferecer às pessoas o que elas esperam», como se fosse possível saber o que as pessoas pretendem recorrendo simplesmente aos índices de audiência. Tudo o que é possível recolher, eventualmente, são indicações sobre as preferências dos telespectadores face aos programas que lhe são oferecidos. Esses números não nos dizem o que devemos ou podemos propor, e esse director também não podia saber que escolhas fariam os telespectadores parantes outras propostas. De facto, ele  estava convencido de que a escolha só seria possível no quadro do que era oferecido e não perspectivava qualquer alternativa. A sua posição afigurava-se-lhe conforme aos princípios da democracia e pensava dever seguir a única direcção compreensível para ele, a que considerava «a mais popular». Ora, em democracia nada justifica a tese deste director, para quem o facto de apresentar programas cada vez mais medíocres corresponde aos princípios da democracia, «porque é o que as pessoas esperam». Nestas circunstâncias só nos resta ir para o inferno! A democracia (...) não é mais do que um sistema de protecção contra a ditadura (...). A democracia sempre procurou elevar o nível da educação; é essa a sua autêntica aspiração. As ideias deste director não correspondem em nada ao espírito democrático, que sempre foi o de oferecer a todos as melhores possibilidades e oportunidades.Inversamente, os seus princípios conduzem a propor aos telespectadores emissões cada vez piores, que o público aceita desde que se lhe acrescente violência, sexo e sensacionalismo. De facto, quanto mais uso se fizer deste género de ingredientes, mais se incita as pessoas a voltarem a pedi-los. E, como estas práticas são as que os produtores compreendem melhor e as que suscitam mais facilmente a adesão do público, renunciamos a propostas mais exigentes. Contentamo-nos em acrescentar pimenta aos programas (...) acrescenta-se sempre mais pimenta aos pratos de má qualidade para disfarçar o seu gosto detestável ou insípido.

"Morrem das formas mais parvas"

O Odisseia é um canal de televisão onde tenho visto programas de grande interesse científico, artístico e humanístico, se é que esta diferenciação faz algum sentido. Tem sido, pois, um dos poucos canais que me levam a ligar a "caixa que mudou o mundo".

Mas, tal como outros canais temáticos (isto não falando dos generalistas), para sobreviver, deve ter de ceder àquilo que atrai muita gente. E o que atrai muita gente em questão de televisão, como noutras questões, nem sempre está de acordo com o que é verdade, certo, recomendável, tolerável... isto à luz do estado civilizacional que conseguimos alcançar. O dinheiro, nestas coisas de comunicação social tem de vir de algum lado e o lado de que vem reivindica certos níveis de audiências...

Percebo isso, mas de maneira alguma o posso aceitar.

Não posso aceitar que um canal de televisão, ou outra qualquer instância, por mais que tenha feito ou faça pela divulgação do conhecimento, ceda, ainda que pontualmente, à ignomínia.

No Odisseia vi o pior que já pude ver na categoria de "entretenimento", o que nunca imaginei sequer ver. Pior, muitíssimo pior, do que os big brothers e afins: sugerir (ou, mais do que isso, afirmar) que a morte de certas pessoas em certas circunstância é uma coisa divertida e... merecida.

Refiro-me ao programa 1000 formas de morrer, que se apresenta como "série documental" baseada em "mitos e histórias reais" para "desmistificar o tabu da morte" e onde (ena!) se faz a "recriações de alguns acontecimentos mais trágicos". Contam, pois, os seus autores, com a propensão humana (talvez exista mesmo) para a banalidade (no caso, é possível desmitificar a morte entre dois momentos de publicidade) e para a barbárie (como nos deliciamos com o extremo sofrimento do outro).

No texto de apresentação do dito programa li o seguinte: "com recurso a explicações científicas e ainda animações geradas através da técnica CGI (Computer Generated Imagery), os telespetadores poderão compreender, de forma mais simples, muitas das calamidades que enfrentamos diariamente e que podem provocar a morte, sejam elas catástrofes, doenças ou até mesmo os ‘simples’ germes".

Triste texto: pretendendo garantir qualidade, salvando o lugar que o programa ocupa no Odisseia, ofende a ciência e a tecnologia, bens preciosos que devem estar inequivocamente ao serviço do que é certo, sob o ponto de vista ético; pretendendo esclarecer o telespectador, ofende-o ao sublinhar a simplicidade da mensagem que lhe destina, como se ele não pudesse alcançar mais do que isso.

Perguntei a vários conhecidos se estão a par do tal programa, onde se conta que certas pessoas "morrem das formas mais parvas", e percebi que aqueles que o vêem, acham-no... giro, interessante, engraçado... Afinal, aquelas mortes só acontecem a quem é mesmo estúpido! Corolário: merece morrer. Nada menos do que isso.

Bingo! A orientação discursiva do programa foi inteiramente construída nesse sentido e revela-se um êxito. Quem sabe, sabe! Tiremos o chapéu a quem a imaginou e concretizou: trata-se de especialistas que a apresentam como brincadeira mas não é brincadeira, estão muitos milhões em jogo...

Serão muitos os que se embalarão nesta orientação, do princípio ao fim de cada episódio e, com muita naturalidade, desligarão a televisão para dormir descansadamente o sono dos justos, sem que nenhuma dúvida os assalte.

A existência de um tal programa e a sua aceitação (pelos vistos em vários países do civilizado ocidente) revela a nossa grande ignorância em matéria de Direitos Humanos.

Na Declaração Universal (que pode ser consultada aqui) plasmou-se o que de melhor a herança greco-latina e judaico-cristã permitiu discernir (para o que aqui interessa retiro o seguinte: no preâmbulo afirma-se a "fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana"; no artigo 1.º esclarece-se que "todos os seres humanos nascem... iguais em dignidade" e no artigo 3.º que "todo o individuo tem direito à vida").

Plasmou-se, mas isso não basta: é preciso educar. É preciso educar para que as pessoas possam perceber o que efectivamente palavras tão simples querem dizer. E, ainda que assim seja, nem todas perceberão, mas é um passo...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

“43 MINIATURAS MATEMÁTICAS” PARA GRANDES DESCOBERTAS

Recensão do livro "43 Miniaturas Matemáticas" publicada primeiramente na imprensa regional.

O livro “43 Miniaturas Matemáticas” é o mais recente título, número 40, da colecção “O Prazer da Matemática” da editora Gradiva. Este livro surgiu como resposta ao desafio lançado a dez professores e investigadores do Departamento de Matemática da Universidade do Porto, no âmbito das comemorações do Ano Internacional da Matemática do Planeta Terra. Os autores são: Paulo Ventura Araújo, Maria Pires de Carvalho, Gabriela Chaves, Lucinda Lima, Christian Lomp, António Machiavelo, Ana Cristina Oliveira, José Carlos Santos, Carlos Correia de Sá, Maria do Céu Silva e João Nuno Tavares.

“Os pequenos textos que aqui (no livro) se apresentam pretendem dar breves retratos de alguns tópicos matemáticos, na esperança de que o seu conjunto dê uma ideia fiel da paisagem real da matemática”, pode ler-se no início do prefácio da autoria dos organizadores do livro, os matemáticos António Machiavelo, José Carlos Santos e João Nuno Tavares.

Cada um dos pequenos textos está escrito numa linguagem muito acessível e rigorosa, que aproxima mesmo o leitor mais reticente para o mundo maravilhoso da matemática. A organização deste livro conseguiu que o resultado final do convite aos dez autores se apresente muito equilibrado. Ao ponto de a leitura dos diferentes textos aparentar ter sido escrita por um único autor.

Os textos apresentam ou respondem a questões como: O que são as cónicas? O que é a quadratura do círculo? Existe diferença entre o zero e o vazio? Quantos pontos tem o infinito? O que é o teorema de Pitágoras? Como é a geometria da Terra? O que é a geometria analítica? E a geometria projetiva? O que são os quaterniões? Existe um hipercubo? Quais os pontos notáveis de um triângulo?

Em cada uma das 43 entradas para o conhecimento matemático, que podem ser lidas independentemente e na ordem mais apelativa ditada pela curiosidade do leitor, existem elementos adicionais mais que possamos saber mais. Existem ainda ilustrações e esquemas, estes elaborados pelos autores, que compaginam cada um dos textos facilitando a sua compreensão.

Recorde-se que a colecção “O Prazer da Matemática”, criada por Guilherme Valente, passou a ser dirigida a partir do número 39 pelo matemático e divulgador de ciência Jorge Buescu. E sobre este livro Jorge Buescu escreve, na contrapa do livro, o seguinte: «O que acontece quando se junta uma dezena de matemáticos? É inevitável: fala-se de matemática. É o que acontece neste pequeno livro – de uma forma simultaneamente brilhante e original. Sob a forma de miniaturas, onde um pequeno texto sobre uma ideia específica é acompanhado por curiosidades e ilustrações, os autores transportam-nos numa suave viagem pelas ideias da matemática: dos tipos de infinito aos hipercubos, da geometria à arte. Uma delícia para a mente.»

Como se pode ler também na contracapa, as 43 miniaturas servem “de aperitivo para descobrir como a matemática tem um notável potencial de revelação das estruturas e padrões que permitem compreender o mundo à nossa volta”.

É pois um excelente e cativante convite à leitura.

António Piedade

Referência Bibliográfica
Título: 43 Miniaturas Matemáticas
Autores: António Machiavelo, José Carlos Santos e João Nuno Tavares (orgs.)
Editora: Gradiva Publicações, S.A.
Colecção: O Prazer da Matemática
Páginas: 152
1ª edição: Julho de 2013
ISBN: 978-989-616-541-3

MUSEU DO QUARTZO - SETEMBRO PRÓXIMO


RESUMO DO CURSO

1ª SESSÃO (11 de Setembro)

INTRODUÇÃO

É nesta Terra, o Planeta Azul, envolto nos farrapos brancos das nuvens, que reside tudo o que temos: o ar que respiramos, a água que bebemos, o chão que pisamos e nos dá o pão. É só com isto que contamos para viver. É, pois, fundamental, conhecer melhor esta nossa casa que nos transporta através da imensidão do Cosmos, à velocidade de 30Km por segundo. E a Geologia é a ciência que nos permite chegar a esse conhecimento.

O nosso Planeta, velho de cerca de quatro mil quinhentos e setenta milhões de anos, lar da biodiversidade, incluindo a humanidade inteira, não foi sempre como hoje o conhecemos. Esta nossa Terra, um ponto azul na imensidade do espaço cósmico, é o resultado de uma longa e complexa evolução, e o homem é o fruto mais jovem dessa mesma evolução, numa cadeia imensa de inter-relações em que participaram as rochas, através dos solos, a água, o ar e todos os seres vivos. Assim, interessa ao cidadão em geral, como criatura consciente que é no quadro da Natureza, conhecê-la melhor, a fim de bem avaliar os problemas que se lhe põem no seu relacionamento com o ambiente natural.

Com acento tónico no estudo das rochas, dos minerais e dos fósseis, são preocupações da Geologia a origem, natureza e constituição internas da Terra, a sua história, como planeta dinâmico que continua a ser, e a história da Vida a que deu berço. Estuda a expansão dos oceanos e a deriva dos continentes, a formação das montanhas, o vulcanismo e a sismicidade. São ainda do seu âmbito a meteorização das rochas e a formação dos solos, a erosão do relevo e a sedimentação e, ainda, a evolução da biodiversidade. No campo aplicado ocupa-se, entre outros domínios, da prospecção de matérias-primas minerais e da maior parte dos recursos energéticos, da procura e captação racional dos aquíferos e do apoio à grandes obras de engenharia.

Quase tudo o que nos rodeia e de que constantemente nos servimos, ou com o qual nos articulamos diariamente, resultou das conquistas da Ciência e da Tecnologia e, nestes domínios, a Geologia teve e continua a ter papel importante, muitas vezes subavaliado ou esquecido. Os transportes e comunicações, as indústrias e actividades mais variadas e os respectivos equipamentos radicam, em boa parte, nestas conquistas do génio humano, e nestas conquistas são fundamentais as conseguidas nos domínios da Geologia.

Em suma, a Geologia e as tecnologias com ela relacionadas são alguns dos pilares sobre os quais assentam as sociedades humanas, o progresso social e o bem-estar da humanidade. A Geologia envolve conhecimentos que não podem deixar de interessar o cidadão comum, pois ensina-o a situar-se no todo natural e, assim, compreender e abraçar os problemas de defesa do ambiente e da conservação da Natureza. A premente necessidade de desenvolvimento da sociedade dos dias de hoje e do futuro não deve deixar de ser, a cada momento e em cada situação, confrontada, em termos científicos, com a preservação do ambiente natural e, nesse diálogo, os ensinamentos da Geologia não podem estar ausentes.

Estão os cidadãos habilitados a pronunciar-se sobre: a sismicidade e as normas que regulam a construção anti-sísmica nos locais que habitam; a sobreexploração dos recursos minerais ou dos riscos decorrentes das minas abandonadas; os aterros sanitários, cimenteiras, plataformas petrolíferas, exploração de minerais radioactivos; as reservas mundiais dos recursos minerais e energéticos; o aquecimento global.

A resposta é, ainda, seguramente, não! Mas a importância da Geologia não se limita à vida económica e ao dia-a-dia das sociedades. Faz parte das preocupações científicas e culturais de muitos cidadãos.

Para além dos aspectos económicos, científicos e culturais relacionados com o conhecimento geológico há, ainda, os aspectos filosóficos que procuraram respostas a reflexões como: de onde viemos nós, humanos? E os nossos pares da biodiversidade? Porque estamos aqui? Desde quando e até quando? Reflexões para as quais a Geologia dispõe de elementos fundamentais, em pé de igualdade com a Biologia, a Astrofísica e a Astroquímica.

A CIÊNCIA QUE ESTUDA A TERRA E NOS ENSINA A VIVER EM SOCIEDADE E EM HARMONIA COM A NATUREZA.

O Homem, feito dos mesmos átomos de que são feitas as estrelas, os minerais, as plantas, os outros animais e tudo o mais que existe, é matéria que adquiriu complexidade tal que se assumiu com capacidade de se interrogar, de se explicar e de intervir no seu próprio curso e no do ambiente onde foi “fabricado”. Na sua possibilidade de adquirir conhecimento e de o transmitir, é a manifestação mais elaborada da realidade física do mundo que conhecemos, na qual foi consumida a quase totalidade do tempo do universo.

Pode dizer-se que a Natureza “pensa” através do cérebro humano e, com igual razão, pode aceitar-se que o Homem deu voz à Natureza. É uma realidade que, na ânsia desenfreada de lucro e de prazer, a civilização industrial desenvolvimentista, incontrolada, está a atentar contra a natureza. Assim urge perguntar «Perante quem deve o Homem prestar contas da maneira como decide articular-se com a Natureza?».

A resposta é, sem dúvida, «aos outros homens, ou seja, à Sociedade.» Se o Homem deu voz à Natureza, a Sociedade deu-lhe ética e assume-se no direito de estabelecer regras entre os seus pares no usufruto deste vasto condomínio. A capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente desta mesma Sociedade, está, pois, na razão directa das suas convenientes informação e formação. Importa, assim, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe o acesso aos conhecimentos que, desde sempre, a ciência nos vem revelando.

DO ASTRO-REI AO PLANETA AZUL

Nós vivemos graças ao Sol, e tudo na Terra, de uma forma directa ou indirecta, depende da actividade do “astro-rei. Ele é a fonte de energia que assegura grande parte dos processos actuantes à superfície da Terra, entre os quais a vida. Mesmo os processos não naturais, criados pelo génio humano, consumidores de energia, como as indústrias e os transportes, têm no Sol a respectiva fonte.

À semelhança de uma cereja, com caroço no centro de uma plopa mais volumosa, por sua vez, envolvida numa delgada pele, a Terra caracteriza-se pela existência de um núcleo central, envolto num manto muito espesso, totalmente coberto por uma capa, proporcionalmente muito fina a que se dá o nome de crosta.

2ª SESSÃO (12 de Setembro)

UM PLANETA VIVO 

A Terra é um planeta dinâmico e esse dinamismo radica em duas fontes de energia: uma delas é o calor que ainda conserva no seu interior; a outra é, como se disse atrás, o Sol, através da sua radiação. Como manifestações do dinamismo induzido pelo calor interno, somos sensíveis à actividade vulcânica e aos tremores de terra, directamente presenciáveis a partir dos seus efeitos. Outras expressões deste dinamismo correspondem a processos imensamente lentos, só perceptíveis à escala do tempo geológico, entre os quais, a elevação das cadeias de montanhas, a abertura e alastramento dos oceanos, a deriva dos continente e a formação de rochas em profundidade.

Como dinamismo radicado na energia solar, relacionam-se processos e ambientes ao alcance da nossa possibilidade de observação, com destaque para a alteração das rochas e a formação dos solos, o clima e a sua influência no relevo e na ocupação vegetal e animal, a manutenção da vida. Mas de nada serviria esta imensa energia se não existissem os principais veículos que lhe dão eficácia, ou seja, a atmosfera, a hidrosfera e a biosfera. 

PARA BAIXO TODOS OS SANTOS AJUDAM

À semelhança da ajuda dos santos, a gravidade puxa sempre para baixo. Centrando-nos no nosso planeta e na nossa vivência, todos sabemos que um corpo aqui existente e que tudo o que aqui acontece, em termos de mecânica, está sujeito à atracção da Terra. Tudo cai para ela e tudo se afunda nela. Todos sabemos que a massa de um corpo é a medida da quantidade de matéria nele contida e que o peso desse corpo é a força com que a Terra o atrai. Essa força gravítica, como nos ensinou Newton (1642-1727) e que todos decorámos na escola, é directamente proporcional às massas do planeta e desse corpo e inversamente proporcional ao quadrado da distância que separa os respectivos centros de gravidade.

Uma vez que a Terra não é perfeitamente esférica, uma mesma massa tem pesos diferentes consoante os locais onde se encontra O soerguimento e afundamento de porções maiores ou menores da crosta terrestre resultam de movimentos verticais de há muito bem conhecidos. Sabemos hoje que a Escandinávia se está a elevar à razão de 10mm por ano. Coberta por uma camada de gelo, com dois a três mil metros de espessura, durante a última glaciação, esta porção da crosta afundou-se. Posteriormente, no período que se seguiu, marcado pelo degelo e recuo da calote polar gelada, e progressivamente aligeirada dessa sobrecarga, tem vindo a soerguer-se numa procura de equilíbrio ainda não atingido.

3ª SESSÃO (13 de Setembro)

A GRANDE FORNALHA

René Descartes (1596-1650), filósofo francês, via na Terra um pequeno Sol abortado, que arrefeceu e solidificou em superfície, mas mantendo o fogo central. A Terra funciona como uma máquina térmica, sendo o seu calor interno o somatório: do calor criado ao longo do processo de acreção, do resultante dos choques entre os corpos envolvidos; do desenvolvido durante a contracção gravítica do planeta; do resultante do mergulho gravítico do ferro e consequente formação do núcleo; do resultante dos megaimpactos meteoríticos e do gerado pela radioactividade de certos isótopos, ao longo de muitos milhões de anos.

Especialmente concentrado e intenso no núcleo, este calor alimenta um conjunto de penachos sobreaquecidos (plumas) que atingem a superfície, gerando o vulcanismo, bem como a convecção térmica do manto, motor da expansão dos oceanos e da deriva dos continentes e ainda da elevação da cadeias de montanhas.

NOS REINOS DE VULCANO E DE PLUTÃO 

No interior da crosta e do manto superior são conhecidos ambientes aquecidos acima de 800º C, que promovem a fusão total ou parcial das rochas aí existentes. Geram-se, assim, magmas que, ao arrefecerem, dão origem a outras rochas que classificamos de magmáticas ou ígneas. O magma é, pois, um material rochoso, ígneo, provido de mobilidade, de que temos uma ideia através da lava incandescente descendo a encosta do vulcão. Para que o magma tenha mobilidade, basta que parte dos seus minerais esteja no estado líquido. A outra parte, a dos minerais mais refractários, permanece no estado sólido, dentro do fundido fluindo com ele.

O magma pode ascender e solidificar à superfície, num processo conhecido por vulcanismo, termo que alude a Vulcano, deus romano do fogo, ou permanecer e solidificar a profundidades que podem ultrapassar os 35km, onde as pressões são muito elevadas, num processo a que se dá o nome de plutonismo, em alusão a Plutão, deus romano dos infernos Bibliografia de apoio: A.M. Galopim de Carvalho – “Como Bola Colorida – A Terra, Património da Humanidade”, Âncora Editora, Lisboa, 2007.

A. Galopim de Carvalho

VIDA PARA LÁ DA TERRA

Auto-retrato do Mars Science Laboratory (Curiosity) em acção na superfície marciana
Técnicos e cientistas da NASA e muitos cidadãos deste mundo estão suspensos dos resultados das análises em curso (pelos equipamentos instalados a bordo do rover Curiosity) na superfície de Marte. A recente comprovação da existência de água no solo do “planeta vermelho” fez renascer o interesse pela procura de indícios de vida, por mais simples que possa ser.

Fruto de uma obra de excelência do génio humano e de um investimento financeiro à dimensão da infinita curiosidade científica, este engenho, ali chegado há pouco mais de um ano, no dia 6 dia de Agosto de 2012, depois de uma de muitos milhões de quilómetros, continua a sua missão na busca de tais indícios.

São muitos os estudiosos que aceitam a vida como uma consequência inevitável da evolução da matéria no Universo. Como se de um destino se tratasse, às partículas subatómicas primordiais seguiram-se os átomos e as moléculas, das mais simples às mais complexas com capacidade de se reproduzirem.

Foi o que a ciência pensa ter acontecido aqui, no “planeta azul”, com o nascimento de seres muito primitivos, à semelhança das arqueobactérias. A evolução que se seguiu, numa interacção permanente e ao longo de cerca de 4000 milhões de anos, entre as sucessivas formas de vida, o ar, a água e as próprias rochas, conduziu à biodiversidade actual, cujo expoente de maior complexidade é, sem dúvida, o cérebro humano.

Para surgir onde isso lhe é permitido, a vida só precisa de esperar que a matéria cumpra o seu “destino”, e, nessa espera, a enormidade do tempo consumido tem uma dimensão que ultrapassa a nossa capacidade de o abarcar. Nada nos diz, pois, que não possa haver vida no “planeta vermelho”, tão velho quanto o nosso.

E quem diz em Marte, diz em outro qualquer planeta exterior ao Sistema Solar. São mais de oito centenas os chamados exoplanetas, associados a outras estrelas da Galáxia. Este conhecimento, cientificamente comprovado, permite extrapolar esta certeza à totalidade das estrelas do céu, as que vemos e as que nem os mais potentes telescópios conseguem ver, num número da ordem dos 1022 (cerca de cem mil milhões de galáxia com cerca de cem mil milhões de estrelas, em média, cada uma).

Com um número tão descomunal é de admitir uma razoável probabilidade de existirem sistemas planetários nos quais um planeta tenha com respectiva estrela a mesma relação de massa e distância que caracteriza a relação da Terra com o Sol.

Uma tal relação determinou os níveis de temperatura favoráveis à presença significativa de água no estado líquido, tida por berço da vida que conhecemos. Neste raciocínio, especulativo mas perfeitamente lógico, não é, de todo, impossível a existência de planetas nos quais se pudessem ter desenvolvido civilizações tanto ou mais avançadas do que a nossa. «Existem sóis inumeráveis e infinitas terras que giram à volta deles, como estes sete planetas que giram em torno deste Sol que nos é vizinho», escreveu, em finais do século XVI, o filósofo e teólogo, italiano Giordano Bruno.


Por essa ousadia e por se recusar a admitir que a Terra se encontrava no centro do mundo, este dominicano, foi queimado vivo, «para purificação da sua alma», em Roma, às ordens da Santa Inquisição.

A. Galopim de Carvalho

Quem consegue arrotar mais alto?


Excerto do livro de ciência juvenil de Glenn Murphy, Consegues arrotar muito alto? que acaba de sair na Gradiva Júnior (tradução de António Piedade):

O recorde do arroto mais barulhento é de cerca de 105 decibéis — mais ruidoso que uma mota ou uma motosserra, o suficiente para causar dor a qualquer pessoa muito próxima. Mas não tentem isto em casa: pode ser mesmo muito perigoso.

Mais alto que uma mota?! Não acredito! 
Mas é verdade. O recorde mundial do arroto alcançou 104,9 decibéis (ou, abreviadamente, dB, as unidades usadas para medir o volume do som). E a medida foi realizada a cerca de 2,5 metros! O campeão do mundo dos arrotos jura que é capaz de atingir 118 dB, ou mais. Em média, o ruído de uma mota a passar é de cerca de 90 dB — umas boas vinte e oito unidades abaixo.

Então quem foi que o deu? 
Um inglês chamado Paul Hunn. Silenciou o anterior recorde do arroto em Julho de 2004, e ainda ninguém conseguiu batê-lo.

Como é que ele conseguiu arrotar tão alto? 
Bem, como todos os sons, os arrotos são só ondas de pressão do ar, e, se pressionarmos mais essas ondas, qualquer som pode tornar-se muito alto. Para produzir um som faz-se vibrar um objecto — como um sino ou uma corda de guitarra — para a frente e para trás muito rapidamente, chocando, puxando ou esfregando alguma coisa nele. Por sua vez, o objecto comprime as moléculas do ar à sua volta, gerando ondas ou vibrações que são transportadas pela atmosfera. Quando atingem os ouvidos, as ondas de pressão fazem vibrar os tímpanos. Depois as vibrações são amplificadas por um conjunto de ossos pequeninos e recolhidas por uma série de pêlos finíssimos que existem na cóclea (que é um tubo longo e fino cheio de um líquido alinhado com os pêlos, tudo enrolado como uma concha de um caracol no ouvido interno). Aqui as vibrações são finalmente traduzidas em sinais nervosos que o cérebro interpreta como sons, e identifica como um «sino», uma «corda de guitarra» ou outra coisa qualquer.

Mas então e os arrotos? 
No caso dos arrotos, o objecto que vibra é uma dobra carnuda designada cárdia, que separa o estômago do tubo de comida, ou esófago. Quando o ar é engolido (por acaso, enquanto comemos; ou de propósito, se forçarmos um arroto), fica aprisionado no estômago. À medida que este se enche com comida, líquidos e ar, a pressão vai aumentando e o ar acaba por irromper através da cárdia, fazendo-a vibrar quando é expelido e criar aquele profundo e agradável BUURRRRRRRRRRRRRPPPP ao sair. Claro que, se quisermos forçar um arroto a sair, podemos apertar o estômago pela contracção dos músculos do próprio estômago e do diafragma (uma camada lisa de músculo entre o estômago e os pulmões). Foi desta maneira que o Sr. Hunn conseguiu um arroto tão alto. Há milhões de crianças em todo o mundo que usam o mesmo método para forçar arrotos altos, mas ele sabe fazer isso melhor que qualquer outra pessoa. Ah, e antes também ingeriu muitas bebidas com gás.

Está bem, mas porque é que as bebidas com gás fazem arrotar mais alto? 
São gasosas e têm bolhinhas devido à adição de dióxido de carbono, um gás, sob pressão. Por isso, quando as bebemos engolimos o gás, que aumenta no estômago e… é fácil imaginar o resto.

É perigoso forçar um arroto dessa forma? 
Bem, abusar das bebidas gasosas não é muito bom para ninguém, e engolir gás de propósito não faz nada bem ao estômago, mas na realidade não é isso que torna perigoso arrotar tão alto como fez o Sr. Hunn. É só depois de o arroto sair do nosso corpo que ele se torna perigoso para nós e para os outros.

Mas se um arroto é só ar e som, como pode ser perigoso para quem quer que seja?
Se os sons forem suficientemente altos e na frequência certa, tornam-se muito intensos e perigosos. Nunca ouviste falar dos cantores de ópera que conseguem estilhaçar copos de vidro só com as vozes? É bem verdade. Tudo o que têm de fazer é atingir o tom certo, cantar essa nota suficientemente alto, e o copo de vidro vibrará e tremerá até se desfazer em pedaços. Os militares dos Estados Unidos da América desenvolveram uma «arma sonora» que dispara ondas de pressão de ar e som em vez de balas. A «pistola de anel em turbilhão» dispara um anel de ar que vibra tanto que consegue fazer cair um homem a dez metros de distância.

Então se arrotássemos suficientemente alto conseguiríamos partir os óculos de uma pessoa? Ou deitar ao chão um grupo de pessoas? Isso seria fixe! 
Bem… Não. Nem por isso. Nem mesmo o melhor arroto jamais conseguido, como o do Sr. Hunn, conseguiria produzir uma pressão de ar que derrubasse uma pessoa. E o arroto dele tem um tom demasiado baixo para partir vidro. Mas consegue arrotar suficientemente alto para magoar os ouvidos de alguém, ou mesmo feri-los de forma permanente.

O quê, a sério?! 
Sim, sem dúvida. O Sr. Hunn arrota entre 105 e 118 decibéis, e 85 decibéis são suficientes para danificar temporariamente a audição de uma pessoa. Os construtores que utilizam martelos pneumáticos (que martelam à volta dos 120 dB) usam protectores nas orelhas para evitar que os seus ouvidos sofram lesões. Se arrotássemos a 165 dB, o estrondo seria igual ao de um tiro de pistola junto à nossa cabeça, portanto se arrotássemos desta forma conseguiríamos defender-nos a nós e às outras pessoas!

Sim, e também seria uma grande desilusão.
Então porquê?

Imagina. Conseguíamos arrotar tão alto como uma pistola, mas depois da primeira vez que arrotássemos mais ninguém nos conseguia ouvir. Nem mesmo nós. 
Pois… sim… isso seria realmente uma tragédia.

Só mais uma coisa…
O que é?

Os brócolos fazem arrotar? 
 Eu penso… que não, não. Porque é que perguntas?

Deviam. Soam a bróóóó, como um arroto. 
Caramba, essa foi má.

Eh, eh. 
BUUUURRRRRRRRRRRRRRRPPPPPP!!!!!

Saber mais: coisas barulhentas...
O volume de uma onda sonora está relacionado com a pressão do ar e é medido em decibéis (dB). Nessa escala, zero decibéis correspondem a um som mais suave do que a maioria das pessoas consegue ouvir (embora algumas consigam ouvir sons de aproximadamente 10 dB, ou mesmo menos). Vejamos quanto medem os sons de algumas coisas comuns (e outras menos comuns):

dB Som
0 barulho de folhas
20 sussurro
40 chuva miudinha
75 máquina de lavar
90 mota
110 motosserra, concerto de rock
115 um dos arrotos do Paul Hunn (próximo de nós)
130 avião a jacto (a uma distância de 30 metros)
 165 disparo de uma pistola.

(Ver aqui uma recensão a este livro)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Porque Odeio a Escola: Uma perspectiva



Ao acompanhar a minha conta Twitter, deparei-me com uma lista de hashtags populares em Portugal. Entre eles estava um que me chamou a atenção: Razoes Para Odiar A Escola. Decidi passar os olhos pelo stream de mensagens onde os jovens expressavam o seu mal-estar, frustração e até ódio pela escola. As razões são as mais variadas, mas as mais comuns eram "aulas aborrecidas", "maus professores", "materiais desinteressantes".

Antes de nos queixarmos que os alunos não nos ouvem, acho que devíamos primeiro tentar ouvir o que eles têem para nos dizer e fazermos uma pequena reflexão. Para os actuais  "nativos digitais" a escola deve ser o local mais desinteressante do mundo. Os métodos de ensino, conteúdos dos programas e o sistema de avaliação pouco ou nada evoluiram desde a era de produção em massa do século XIX.

Será de estranhar que os jovens considerem a escola um local aborrecido? O mundo onde crescem evoluiu a uma velocidade estonteamente enquanto a escola parece parada no tempo. Em casa, através da Internet, aprendem a programar, fazer blogs, partilhar conteúdos digitais e até ganhar dinheiro. Com a Web 2.0 sabem fazer-se ouvir e sabem que a sua opinião é respeitada. Criam canais no Youtube, aprendem nos cursos online e eles próprios ensinam a outros conhecimentos que aprenderam.

Enquanto isso a escola parece teimosamente refém de um modelo que insiste em tratar todos os alunos como se fossem peças idênticas de um qualquer mecanismo abstracto, com interesse que eles não entendem e que muitas vezes é perfeitamente inútil.

A escola precisa de se reinventar a abraçar as oportunidades fantásticas que foram criadas com a tecnologia e não refugiar-se com a cabeça na areia como se estivesse num universo paralelo.

INFUSÃO DE CIÊNCIA NO JARDIM BOTÂNICO DE COIMBRA


Portugal: Regressa o Passado


Texto recebido do historiador António Mota de Aguiar:

A investigação científica sofre actualmente um forte ataque por parte das autoridades actuais. Estamos longe do apoio dado à investigação por Mariano Gago.

Como todos nós sabemos, o nosso país viveu tradicionalmente de espaldas viradas para a investigação. Através da nossa História, aqui e ali, algum ministro sobressaiu dedicando alguma atenção à educação. O século XX foi o século da investigação científica por excelência, mas o Estado Novo tinha outras preocupações e sítios onde gastar os recursos nacionais. Mesmo assim, contam-se alguns cientistas que, por mérito próprio, conseguiram atingir renome internacional e trazer à ciência valor acrescentado. Vêm-me à memória alguns nomes:  Mark Athias, Celestino da Costa, António Gião, Bento Jesus Caraça, Abel Salazar, Mário  Silva, Aurélio Quintanilha, Ruy Luís Gomes, Egas Moniz, e tantos outros.

Após o 25 de Abril, malgrado as vicissitudes que todos nós conhecemos, deram-se os primeiros passos na edificação de uma nova escola, de novos métodos de ensino, as universidades fortaleceram-se com novos professores universitários, criaram-se novas universidades e alguma delas dedicaram-se à investigação científica. O único meio que tínhamos de criar em Portugal uma sociedade avançada – já que somos pobres em recursos naturais – era seguirmos pela via da investigação científica, como fez a Finlândia há cerca de 20 anos e vemos bem onde ela está hoje. Mas não basta o Estado investir, é preciso que os investigadores se sintam inseridos e voltados para a I&D, como se diz hoje. Isto é todo um projecto!

É certo que, nestes anos pós 25 de Abril, houve no ensino muita incompetência e confusão. Nalguns casos as palavras de Egas Moniz, que a seguir cito, referindo-se aos professores seus colegas de então, escritas “Nas Confidências de um Investigador Científico” (p.21), fazem ainda hoje sentido:

“Porque não se exige aos professores, de tantos em tantos anos, a prova da sua actividade em trabalhos e publicações, podendo ser irradiados os que provarem a sua incapacidade em produção científica? Por que deixar pulular essa categoria de mestres inactivos, espalhados pelas diversas Faculdades, e que não passam de ser o eco dos livros, sem contrição de trabalhos próprios, nem referência à sua observação pessoal?”

O pensamento do Nobel da Medicina, aplica-se de igual modo ao ensino secundário e faz sentido ainda hoje, para além de, devido à crise financeira que vivemos, ser necessário igualmente cortar, pois vivíamos (vivemos) por cima das nossas possibilidades. Mas cortar onde? Na Educação, na Saúde, na Ciência? Não. Estas três áreas são das mais atrasadas da União Europeia.

Apesar do nosso atraso, ao entrarmos no século XXI Portugal deu um salto espectacular na investigação científica. Graças ao esforço de alguns e ao acumular do espírito do 25 de Abril, assim como à acção e apoio do ministro Mariano Gago,os resultados na  investigação científica são ainda bem visíveis.

Referindo-se a livros de temática científica editados  pela Gradiva, Carlos Fiolhais, num recente post publicado neste blogue, escreveu o seguinte:

“Se nos primeiros cem volumes, havia apenas oito livros de autores portugueses, nos segundos já havia 32! Basta olhar para a lista de títulos para se aperceber como a ciência cresceu em Portugal” (…) A Ciência promove a independência e o espírito crítico (…) Quase não tínhamos ciência em Portugal e hoje temo-la. É uma das nossas garantias de liberdade”    

Mas estamos a perdê-la, os cortes nas universidades, nas bolsas, na investigação, da forma como estão a ser feitos, são inadmissíveis. De repente, com a entrada deste governo, entrámos na era do “corta”. Corta-se tudo o que é cultura, até a Cinemateca Portuguesa vai fechar em Setembro. E cortam-se nos fundos destinados às Universidades, nas bolsas e na investigação científica.
 
Não teria maior utilidade que os enormes investimentos  feitos nos dois submarinos do Estado português tivessem sido fossem feitos nas Universidades, na Educação e na Saúde dos Portugueses? Estamos todos conscientes que sim. 

Tudo isto nos está trazendo uma perda moral, um desinteresse generalizado dos portugueses pela coisa pública. Estamos ficando paupérrimos. Dizia recentemente um cientista espanhol: construir é difícil, destruir é facílimo, reconstruir é quase impossível. Estamos a destruir o que fizemos de bom do 25 de Abril de 74 a esta parte. É só cortar a olhos fechados!

Temos que decidir o que queremos ser como país, se queremos continuar a  ser um país de emigrantes por essa Europa a fora, ou se queremos viver com dignidade, dentro dos padrões da cultura europeia. 

António Mota de Aguiar

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

21500 exemplares? Obrigado a todos os leitores!


Acabo de receber a agradável notícia de que o meu livro Filosofia em Directo continua a merecer a preferência dos leitores portugueses, tendo já ultrapassado o bonito número de 21 500 exemplares vendidos. A todos os leitores do meu livro, o meu muito obrigado. Espero não desmerecer a vossa confiança, e espero que discordem do que escrevi, mas que o livro vos dê instrumentos para discordar de uma maneira mais sofisticada, reflectida e cuidada.

A edição brasileira do meu livro tem por título Filosofia ao Vivo e está à venda nas livrarias brasileiras. Em caso de dificuldade, pode ser comprado no site do editor.

Os leitores poderão gostar também do meu livro Sete Ideias Filosóficas Que Toda a Gente Deveria Conhecer, que é um complemento ao Filosofia em Directo. O Sete Ideias vende-se em Portugal em todas as livrarias, como é o caso da Wook, e no Brasil na Livraria Cultura.

Uma vez mais, muito obrigado a todos os leitores que fazem de Filosofia em Directo um inesperado sucesso de vendas. Espero não desmerecer a vossa confiança.

SIMETRIA


Excerto do livro Miniaturas matemáticas recentemente saído na Gradiva (sem figuras, que estão no livro) na colecção O Prazer da Matemática:

"Na linguagem corrente, o conceito de simetria está muito ligado à ideia de imagem num espelho: costuma-se dizer que uma figura é simétrica quando a imagem de metade da figura num espelho é igual à outra metade da figura. Esse aspecto da simetria está profundamente enraizado na mente humana (e na de outros animais); uma maior simetria está associada a uma maior apreciação estética, provavelmente ligada ao facto de os indivíduos mais simétricos serem também mais saudáveis.

Mas o conceito de simetria é muito mais geral do que isto. Uma generalização pode vir do facto de outra maneira de exprimir que uma figura é simétrica (no sentido usual) ser dizer que quando reflectimos a figura numa recta, obtemos uma figura igual. Ora, quando reflectimos uma figura numa recta, as imagens de quaisquer dois pontos, depois de reflectidos, estão à mesma distância uma da outra que estavam originalmente. Mas a reflexão numa recta não é a única transformação do plano que tem esta propriedade: por exemplo as translações e as rotações também têm (chamam-se isometrias as transformações do plano que conservam a distância entre quaisquer dois pontos). Podemos considerar então figuras com vários tipos de simetria: para além da simetria de reflexão, já mencionada, há simetrias de rotação, quando há uma rotação que deixa a figura igual, simetrias de translação, etc. E nada nos obriga a pensar só em figuras planas: estas ideias também se aplicam ao espaço, onde passamos a ter também, por exemplo, reflexões em planos e rotações em torno de um eixo.

FRISOS E PADRÕES

Um friso ou um padrão é, intuitivamente, uma figura no plano que contém um motivo que se repete indefinidamente, numa direcção no caso do friso, em mais do que uma direcção no caso do padrão.

SIMETRIA NA ARTE

A simetria sempre foi muito explorada na arte. Os vários tipos possíveis de frisos e padrões aparecem em formas de arte variadas de muitas civilizações desde tempos muito remotos, alguns desde a pré-História. A análise da disposição espacial dos átomos nos cristais é um exemplo de aplicação do estudo da simetria em três dimensões; os grupos cristalográficos descrevem a simetria dos cristais.

CRISTALOGRAFIA

Padrão com simetrias de reflexão e de rotação (para além das simetrias de translação, que existem em qualquer padrão).

SABIA QUE só há quatro tipos de transformações do plano que mantêm as distâncias entre pontos? São as rotações, reflexões num eixo, translações e reflexões deslizantes (reflexão num eixo seguida de uma translação com a direcção do eixo); compondo duas daqueles quatro tipos ainda se obtém uma de um desses tipos (por exemplo, uma reflexão seguida de outra reflexão é uma translação ou uma rotação, c onforme os eixos das duas reflexões forem paralelos ou concorrentes).

SABIA QUE  quando se classificam frisos e padrões de acordo com as suas simetrias (por exemplo, se têm eixos de simetria ou alguma rotação que os deixe iguais) só há 7 tipos de friso e 17 tipos de padrão?"

SOBRE O ELEVADOR ESPACIAL


O jornal I de hoje publica uma longa  e interessante reportagem sobre o projecto do elevador espacial, da autoria da jorhnalista Ana Kotowicz. eis as minhas respostas às questões que me foram colocadas e que, naturalmente, só apareceram em parte:

P- Precisamos realmente de elevadores espaciais?

R- Talvez. De facto, a descoberta do espaço já teve melhores dias e está a precisar de ideias novas. A subida para o espaço usando foguetes é muito cara e todas as alternativas devem ser examinadas .A ideia de estender um cabo desde o equador da Terra até um ponto de uma órbita geoestacionária, que rode com a Terra,   é visionária, mas não de todo impossível. A ideia ocorreu ao cientista russo Tsiokolvsky, que foi também um dos pais dos foguetes. Os foguetes já se fizeram, falta fazer o elevador. E ocorreu ao físico e escritor de ficção científica Artur Clarke, que foi também o autor da ideia de usar satélites em órbita geoestacionária, isto é, satélites que girem com a Terra, permanecendo sempre por cima do mesmo ponto da Terra.  Os satélites já se fizeram, falta fazer o elevador. Clarke, que viveu no Sri Lanka, colocou num seu romance, passado no século XXII,  o elevador espacial numa ilha com o nome de Taprobana, o nome que os portugueses deram ao Sri Lanka. Se Camões disse que os navegadores lusos chegaram "ainda além da Taprobana", Clarke queria que os novos exploradores fossem "acima da Taprobana"! Mas talvez fosse melhor colocar o elevador em S. Tomé e Príncipe, que tem um ilhéu por onde passa mesmo o equador, conforme mostraram os trabalhos geodésicos de Gago Coutinho. Proponho já um slogan: "Venha ao elevador espacial de S. Tomé: ver para crer!"

P- Dentro da comunidade científica, há várias vozes – por exemplo Michael Laine, da LiftPort, David Horn, do ISEC – que defendem que neste momento já temos tecnologia suficientemente avançada para construir um elevador na Lua. Concorda? E se sim, o que é que acha que ainda nos está a travar?

R- Sim, já devemos ter tecnologia para subir no espaço sem foguetes, mas ela é extremamente cara. Pelo menos dez mil milhões de dólares. Estaremos disposta a pagá-la? É como a ida a Marte: é possível tecnologicamente, mas estaremos dispostos a pagá-la? E entre o elevador espacial e a ida à Marte o que escolheríamos? A ida  à Lua só foi possível porque o presidente norte-americano fez uma escolha política e os norte-americanos aceitaram pagar o preço. Ora o elevador espacial ou a ida a Marte terão provavelmente de ser escolhas mundiais, da humanidade no seu conjunto, o que parece impossível por agora.

P-Já a Obayashi Corp garante que em 2050 vai ter um elevador especial pronto. Acredita que vão cumprir esta promessa?

R- Acho que ninguém consegue razoavelmente prever nada para 2050. Sei que há várias empresas na Terra a oferecerem a Lua ou quase, mas isso faz parte da sua estratégia de promoção.

P- Até que ponto é que a sua área de estudo mudaria com uma inovação deste género?

R- A possibilidade de ir ao espaço por menos dinheiro teria impacto em todas as áreas da ciência, designadamente pela possibilidade de fazer mais facilmente  experiências no espaço quue hoje são muito difíceis de realizar. E seria como o programa Apollo das viagens à Lua: o grande projecto do elevador espacial traria benefícios difíceis de prever, não apenas na ciência como na vida em geral.

P-  Serão os nanotubos de carbono. a grande esperança para o elevador espacial se tornar realidade?

R- Sim são. Esses materiais, que consistem de folhas de grafite enroladas, são extremamente resistentes à tracção, bastante mais que o aço. E o cabo do elevador espacial tem de ser extremamente resistente para suportar o seu próprio peso. Mas, mesmo dispondo de nanotubos, não é fácil, nem como disse barato, fazer o tal elevador, a que alguns chamam o "pé de feijão" da lenda inglesa do "João e o pé-de-feijão".  

P- Compraria um bilhete para a viagem inaugural?

R- Sim, gostava de ver a Terra por cima, de um sítio  mais alto que o de um avião, mas os primeiros bilhetes devem ser só para ricos, ou melhor superricos. Será só para gente como os actuais turistas espaciais. Mas deveria haver bilhetes para todas as bolsas: quem quisesse subir mais, pagaria mais. Um amigo meu a quem comentei essa possibilidade, respondeu-me que isso não seria nenhuma novidade, pois já hoje os ricos estão por cima e os pobres por baixo...  De qualquer modo, para subir até 35 000 km, a tal órbita geoestacionária, demoraria vários dias, mesmo que, numa cabina movida a lasers, se subisse a 200 km/h. É só fazer as contas....

P- Elevadores espaciais. Uma fantasia ou uma inevitabilidade?

R- Há fantasias que se tornam realidade. Quem diria no tempo de Kepler, no século XVII, astrónomo e autor de um conto de ficção científica que tem como tema a ida á Lua, que seria possível ir à Lua, como se foi no século XX? Ainda falta um século para a data prevista por Arthur Clarke. Não sei, talvez.

COSMOS - A SÉRIE MÍTICA DE CARL SAGAN VOLTA EM 2014


Com a devida vénia, divulgamos o artigo de Nicolau Ferreira do Público de ontem:

A série Cosmos, que em 1980 se tornou um sucesso mundial, vai ter continuação. Os 13 novos episódios serão apresentados por Neil deGrasse Tyson, astrofísico e divulgador de ciência norte-americano, que estará aos comandos da nave espacial criada por Carl Sagan na série Em 1980, Carl Sagan dizia: “A água parece convidativa.” O astrofísico e famoso divulgador de ciência, falecido em 1996 com 62 anos, referia-se ao Universo, no primeiro episódio da série Cosmos: Uma viagem pessoal. Os 13 episódios que passaram na televisão, onde Sagan explicava o início do Universo, o aparecimento da vida, a importância da ciência ou por que é que a humanidade tinha o dever de manter a paz, marcaram para sempre a divulgação da ciência. Sagan, a mente por trás da série, pedia ao espectador para olhar para as estrelas e convidava-o a sonhar com futuras viagens interestelares. Poucos anos depois de se ter caminhado na Lua e quando já se enviava robôs para outros planetas, o cientista desejava que a espécie humana — pó das estrelas tornado consciente — mergulhasse neste mar gigante que é o cosmos.

Mas mais de 30 anos depois, as missões propostas por Carl Sagan parecem postas de lado. O financiamento científico está contraído em muitos países e os voos que a agência espacial NASA ambiciona são mais baixos. Para contrariar esta tendência, Ann Druyan, a terceira e última mulher de Carl Sagan, que esteve envolvida na série original, voltou a esta viagem inventada pelo marido. Cosmos vem aí, com 13 novos episódios a estrear na Primavera de 2014.

“Demos tantos saltos na década de 1960. Havia uma certa audácia e confi ança, e tivemos entretanto uma falta de confi ança”, afi rmou Ann Druyan na convenção Comic-Con Internacional, que teve lugar em Julho, em San Diego, nos Estados Unidos. “Parte dessa falta traduzse num retrocesso em direcção ao medo, à ignorância, à superstição, ao pensamento mágico. A nível cultural existem ciclos, onde as pessoas estão prontas para se abrirem [ao conhecimento] e andarem para a frente, e ciclos em que regridem. Acho que estamos prontos para voltar ao caminho, essa é a mensagem de Cosmos.”

Druyan falou depois da apresentação na convenção do trailer da nova série chamada Cosmos: A Spacetime Odyssey. Ao seu lado estava Neil deGrasse Tyson — famoso astrofísico e divulgador de ciência norte-americano que vai ser o protagonista da série, ou seja, estará no lugar de Carl Sagan — e Brannon Braga, director executivo da rede televisiva Fox, que está a produzir os novos episódios juntamente com o canal National Geographic.

Brannon Braga, que nasceu nos Estados Unidos, mas tem origem portuguesa, foi produtor executivo e guionista das séries 24, Flashforward, Treshold, além de ser o criativo de centenas de episódios de diferentes séries televisivas do universo Star Trek. Outra estrela envolvida na produção da novo Cosmos é Seth MacFarlane, criador das séries animadas da Fox para adultos Family Guy, American Dad! e The Cleveland Show, que diz ser um fã do Cosmos.

Sabe-se pouco sobre a nova série. O trailer, de três minutos e 24 segundos, mostra Neil deGrasse Tyson numa nave espacial que, de acordo com o astrofísico, pode viajar para o passado e para o futuro consoante o seu pensamento. A nave é a nova versão do veículo onde Sagan se movia na série original. Vêem-se ainda planetas, estrelas, uma descida a Marte, mas também o oceano terrestre, uma seara e uma árvore. Há imagens que parecem mostrar a fisiologia humana e os microrganismos.

Os efeitos especiais saltam à vista e são intercalados com desenhos animados sobre a evolução humana com cenas de caça dos nossos antepassados ou de um auto-de-fé. Na convenção Comic-Con, Brannon Braga explicou esta inovação. Nas passagens da série sobre o passado, os criadores resolveram recorrer a desenhos animados com o estilo dos graphic novel da banda desenhada. No trailer aparece ainda Tyson a caminhar sobre uma versão melhorada e tridimensional do calendário cósmico, um conceito que Carl Sagan utilizou primeiro no seu livro Os Dragões do Eden e que depois levou para a série. O calendário cósmico divide em 12 meses o tempo desde o Big Bang, ocorrido há 13.800 milhões de anos, e hoje, e ajuda a ter uma perspectiva dos períodos de tempo que separam os grandes acontecimentos do Universo e da Terra.

Assim, se o Big Bang aconteceu a 1 de Janeiro, a origem da nossa galáxia, a Via Láctea, ocorreu a 1 de Maio. O nosso sistema solar apareceu a 9 de Setembro e a Terra nasce cinco dias depois. A origem da vida terá sido por volta de 25 de Setembro e os primeiros vertebrados surgiram a 19 de Dezembro. Os dinossauros extinguiram-se a 28 de Dezembro e, fi nalmente, os primeiros seres humanos apareceram às 22h30 do último dia do ano.

Série continua actual

“Esta série é sobre o mesmo, mas contamos uma data de novas histórias, estabelecendo coordenadas de base, para depois saltar mais longe a  partir delas”, resumiu Ann Druyan, autora e produtora executiva.

O Cosmos foi um fenómeno. Quando se estreou na PBS, uma televisão pública norte-americana, tornou-se a série mais vista de sempre nos Estados Unidos, e manteve esse estatuto até 1990, quando foi destronada por A Guerra Civil. Ganhou três Emmy e um Peabody. Desde então já foi vista por 750 milhões de pessoas em 175 países. Hoje está disponível no YouTube.

Por trás deste sucesso esteve um guião bem feito — que, além de Sagan, contou com Ann Druyan e Steven Soter, astrofísico também envolvido no novo projecto —, bem como uma produção de três anos com 150 pessoas. Houve filmagens em 40 lugares espalhados por 12 países, o uso inovador de efeitos especiais e o génio de Carl Sagan.

“O grande êxito de Cosmos devese à personalidade de Carl Sagan, que tem uma capacidade de persuasão incrível”, sublinha ao PÚBLICO o físico Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra e actual editor da colecção Ciência Aberta da editora Gradiva, onde foram publicados os livros de Carl Sagan, incluindo o Cosmos, uma versão escrita da série, editada no mesmo ano.

“Pôs a sua inteligência ao serviço da comunicação e passou essa inteligência para nós. Sentimo-nos inteligentes ao ler o Cosmos”, refere o físico, que ainda hoje mostra partes da série aos jovens quando faz divulgação de ciência. “Fixa-lhes a atenção. Continua actual e fresco.”

As primeiras palavras de Carl Sagan na série ainda ressoam em nós: “O cosmos é tudo o que existe, existiu ou existirá.” Durante 13 episódios, o cientista, numa linguagem simples mas cientifi camente correcta, fala sobre estrelas, planetas, galáxias, evolução, ADN ou moléculas orgânicas. Visita a Grécia Antiga e vai até Marte, explica as raízes do método científico e aborda temas que lhe eram caros, como a possibilidade da existência de vida noutros planetas ou a capacidade destrutiva do homem, tão presente durante a Guerra Fria, quando, muitas vezes, parecia estar iminente um confl ito nuclear. “Somos nós que nos responsabilizamos pela Terra. Devemos a nossa obrigação de sobreviver não só a nós próprios, mas ao cosmos, vasto e antigo, de onde despontámos”, defende Carl Sagan, encerrando o último capítulo.

 Para Neil deGrasse Tyson, estamos numa altura óptima para voltar à viagem inventada por Carl Sagan. “Não queremos esperar mais de uma geração para contar de novo a história de quem somos e onde queremos ir neste Universo”, disse o astrofísico na Comic-Con.

Tyson é um reconhecido divulgador de ciência, já ganhou vários prémios, além de ser o director do Planetário Hayden do Museu Americano de História Natural de Nova Iorque. O seu estilo é completamente diferente do de Carl Sagan – é fisicamente possante, mistura humor e gesticulação com um toque de pregador e tem grande facilidade em lançar sound bites no discurso. “É talvez uma das maiores figuras da divulgação de ciência de hoje”, diz Carlos Fiolhais. “Mas tem a sombra de Sagan por trás.”

O norte-americano é um acérrimo defensor do cepticismo, da procura do erro, do papel da razão na ciência. Mas, tal como Sagan, não deixa de ser um sonhador. “Hoje em dia ninguém anda a sonhar com o futuro. A NASA sabe como é que se sonha com o futuro”, disse em 2010 numa conferência na Universidade de Buff alo, em Nova Iorque, onde defendeu que haja mais dinheiro para a agência espacial dos Estados Unidos. Todavia, há um lado pragmático quanto à escolha do seu público, quando está a divulgar ciência. “Os adultos sempre foram o meu objectivo. Porque não há nada mais perigoso do que um adulto no poder com iliteracia científi ca”, referiu em Julho em San Diego.

Pode, por isso, antecipar-se o carácter universal do próximo Cosmos. Simples, informativo, ambicioso, científico e sonhador. Afinal, somos uma espécie inteligente — a única que, para já, conhecemos —, a viver à volta de uma estrela de meia-idade, num braço da Via Láctea. O que queremos fazer com o futuro, para onde queremos olhar e como podemos tornar o mundo melhor? “O século começou com a queda das Torres Gémeas [em Nova Iorque] e instalou-se uma nova confusão nos assuntos humanos que impediu de olhar para as estrelas”, avalia Carlos Fiolhais. “Há muitas coisas a dividir as pessoas neste planeta, mas a ciência é um assunto que une.”

O físico português espera ver tratados na série os novos temas que se tornaram importantes nos últimos 30 anos na física, como a energia negra e a matéria negra: “Tenho uma enorme curiosidade.” O cosmos continua a chamar por nós.

O PLANO DE OBAMA PARA O ENSINO SUPERIOR


Why Obama’s Radical Education Plan Could Finally Disrupt Higher Education

http://techcrunch.com/2013/08/22/why-obamas-radical-education-plan-could-finally-disrupt-higher-education/

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

LIVROS DE AGOSTO DA GRADIVA

Informação recebida da editora Gradiva:



Marco Túlio Cícero (Philip Freeman, selec., trad. e introd.)
Como Governar Um País - Um Guia Clássico para Líderes Actuais


Marco Túlio Cícero (106 a. C. — 43 a. C.), o maior estadista e orador de Roma, foi eleito para o mais importante cargo da República Romana numa altura em que o seu bem-amado país se encontrava ameaçado por políticos sedentos de poder, problemas económicos extremos, perturbações internacionais e partidos políticos que se recusavam a trabalhar juntos. Parece-vos familiar? Como Governar um País colige o melhor dos escritos de Cícero sobre o tema que lhe dá título e constitui um guia acessível e prático, baseado no bom senso, para políticos e cidadãos.

«Fora de Colecção», n.º 400, €9,50

Pierre Berloquin


50 Apostas Impossíveis - E no Entanto Fáceis de Realizar
Gosta de apostar? Muito bem. Mas, então, aposte para ganhar! Inicie-se na arte das apostas que dão ao seu adversário uma probabilidade inferior a um por cento. Multiplique as suas paradas. Comece por apostar um euro e acabe por ganhar um piano de cauda! O seu adversário percebe perfeitamente no que está a embarcar. Só se torna sua vítima porque tem... demasiada confiança em si próprio. Veja neste livro o que o ajudará a pôr o seu adversário nesse estado bem-aventurado... Pierre Berloquin é o maior especialista francês em quebra-cabeças e jogos cerebrais. Tem publicadas cerca de 20 obras do género, entre as quais os bestsellers 100 Jogos Numéricos  e 100 Jogos Geométricos, publicados pela Gradiva.
«Fora de Colecção», n.º 397, €10,00 . €9,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/7461


Mais perguntas pertinentes e respostas surpreendentes no novo livro da colecção já bem conhecida dos jovens leitores curiosos. Neste volume, encontrarão respostas a perguntas como: para que servem as nuvens? Porque não se afundam os enormes navios que vemos passar? Porque é que a água é molhada? (E haverá algo mais molhado do que a água?) Leitura divertida e esclarecedora assegurada.

«Gradiva Júnior», n.º 139, 288 pp., €12,00
http://www.gradiva.pt/?q=C/BOOKSSHOW/7447

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Stephen Gray e a Descoberta dos Condutores e Isolantes


Informação bibliográfica  recebida no De Rerum Natura:

S. L. B. Boss, A. K. T. Assis e J. J. Caluzi, "Stephen Gray e a Descoberta dos Condutores e Isolantes. Tradução Comentada de Seus Artigos sobre Eletricidade e Reprodução de Seus Principais Experimentos" (Editora Cultura Acadêmica da Unesp, São Paulo, 2012), 458 páginas, ISBN: 978-85-7983-374-8.
 Ele está disponível para download gratuito (3 Mb) em:
 http://www.culturaacademica.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=354 

O livro trata da vida e da obra de Stephen Gray (1666-1736) e de sua principal descoberta, os condutores e isolantes de eletricidade. O fato de que o âmbar atritado atrai corpos leves já era conhecido desde os gregos antigos. Durante mais de 2.000 anos este efeito não passou de uma curiosidade científica. Hoje em dia todos associam os metais aos fenômenos elétricos, seja nas tomadas e fiações das residências, nos motores, nas linhas de transmissão ou no para-raios. Porém, por mais de 2.000 anos ninguém havia conseguido com que os metais demonstrassem propriedades elétricas, tais como atrair corpos leves em suas proximidades, por mais que os metais fossem atritados, martelados ou aquecidos. Gray descobriu os condutores e isolantes elétricos. Ao isolar eletricamente os condutores da terra, conseguiu fazer com que atraíssem corpos leves colocados em suas proximidades. Para isto aproximava um corpo eletrizado de uma extremidade do condutor, fazendo com que a outra extremidade do condutor atraísse corpos leves. Este fenômeno é conhecido hoje em dia como indução ou polarização elétrica. Entre os condutores que Gray conseguiu eletrizar desta forma estavam os metais e o corpo humano. Ele também descobriu as principais propriedades dos condutores e isolantes. Seu principal artigo sobre o tema foi publicado em 1731, após a morte de Isaac Newton (1642-1727). A descoberta feita por Gray dos condutores e isolantes é uma das mais importantes de toda a história da eletricidade. Esta descoberta tardia abriu as portas para todas as aplicações da eletricidade. Logo foram inventados diversos instrumentos elétricos, tais como o pêndulo elétrico, o eletroscópio e o eletrômetro. Charles Du Fay, seguindo as pesquisas de Gray, descobre em 1733 os dois tipos de eletricidade, denominados hoje em dia de cargas positivas e negativas. Todas estas são descobertas muito recentes na história da ciência quando comparadas com o conhecimento da astronomia, da mecânica, da óptica ou da gravitação.  Gray foi também o pioneiro na criação de eletretos, substâncias que apresentam uma eletrização de longa duração (alguns minutos, horas, dias ou meses). Ou seja, mostrou como preservar temporalmente a eletrização dos corpos.

O livro apresenta uma biografia de Gray, que tem uma história fascinante. Sua profissão foi de tintureiro, sendo também um cientista amador. Nunca cursou uma universidade. Quando fez suas principais descobertas estava com mais de 60 anos, aposentado, vivendo em uma instituição de caridade mantida por alguns aristocratas.

 O livro contém também uma tradução completa e comentada de seus 10 artigos sobre eletricidade. Seus experimentos são contextualizados, ilustrados com figuras didáticas e explicados com base nos conhecimentos atuais de física. O livro mostra também como reproduzir suas principais experiências com materiais de baixo custo. Tudo isto permite que este material possa ser utilizado com proveito em salas de aula a nível de ensino médio ou universitário.

 A versão impressa pode ser adquirida no seguinte site:

https://book7.com.br/products/Stephen-Gray-e-a-descoberta-dos-condutores-e-isolantes-9788579833748.html

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...