domingo, 23 de junho de 2013

Sobre o impacto da ciência no desenvolvimento económico

É um mantra quase inquestionável partir do princípio que o conhecimento científico está na base do progresso tecnológico e do bem-estar económico. Que, se quisermos aumentar os segundos, precisamos de aumentar o investimento na produção e divulgação do primeiro. Isso é quase sempre feito através de investimento público em universidades, laboratórios e formação de recursos humanos.

Mas será esta aparente evidência, aceite pela maioria dos políticos e por quase todos os investigadores e cientistas, verdadeira? Não estará o papel da ciência altamente inflacionado e não será ela, só por si, e seja incapaz de trazer progresso económico? 

Existe pelo menos um académico que pensa assim. Num trabalho, já com alguns anos,  “The economic laws of scientific research”, Terence Kealey, Professor na Universidade de Buckingham, no Reino Unido, questionou o modelo tradicional segundo o qual o conhecimento é transferido de uma forma linear das universidades e centros de investigação para a indústria. Num estudo aprofundado que fez à Revolução Industrial, Kealey concluiu que as universidades é que prosperaram em consequência da riqueza produzida pelo crescimento industrial e não o contrário, como se julga tradicionalmente.

Creio que Kealey, sendo ele também um académico, não quis questionar a importância da ciência no desenvolvimento económico. Mas talvez a cadeia de causalidade entre investimento público em ciência e progresso económico, bem como a real importância da ciência neste processo tenha sido extremamente exagerada. Segundo Kealey existem outros factores importantes, sem os quais, o investimento em ciência é um mero desperdício de recursos.

E porque me lembrei deste estudo? Ao ler um relatório recente, bastante pormenorizado, elaborado pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia sobre a ciência em Portugal e os caminhos futuros, não pude deixar de verificar alguns factos surpreendentes, que me levantaram algumas questões que queria partilhar com os leitores para uma discussão aberta e não dogmática.

O esforço do investimento em I&D em Portugal sofreu um aumento considerável nos últimos 15 anos, estando agora perto da média europeia. No entanto, se analisarmos os outputs, encontramos resultados modestos. É verdade que houve um aumento importante tanto do número de doutorados como do número de publicações. Mas a posição do país no ranking internacional de ciência manteve-se praticamente inalterada e o ranking das nossas universidades continua a ser modesto.

O número de patentes submetidas manteve-se residual, como residual é o número de doutorados a trabalhar nas empresas.  Os projectos de colaboração entre empresas e universidades são praticamente reféns de projectos, directa ou indirectamente, apoiados pelo QREN e não orgânicos.

Não quero, nem posso, ter um olhar pessimista sobre o esforço que foi, e deve continuar a ser, investido na promoção do conhecimento, mas pergunto-me: não estaremos a investir recursos de forma pouco racional e economicamente sustentável? Não será necessário criar mecanismos de financiamento da investigação mais eficazes? Não deveria parte destes fundos ser canalizado para o incentivo à criação de spin-offs e startups dentro das próprias universidades e unidades de investigação?

São perguntas que deixo em aberto, entre outras que me ocorrem. Não querendo reduzir a ciência a outputs económicos, estes não podem ser ignorados como têm sido até aqui.

ENTREVISTA À VISÃO

Entrevista que dei à Visão e que saiu na quinta-feira no suplemento sobre o Ensino Superior:

P- O que se deve esperar de um curso de ensino superior?

R- Um curso de ensino superior é uma experiência que prepara para a vida. No final do seu curso o estudante deve ser capaz de responder a desafios da sociedade dentro da área que escolheu. Para isso tem não só de possuir conhecimentos superiores como de ser capaz de os aplicar em situações concretas. E tem ainda de ser capaz de lidar com problemas inesperados, porque a vida está cheia de surpresas.

P- Considera que a oferta que existe no nosso país é adequada ao que o nosso país precisa?

R- Há em Portugal uma oferta grande e variada de cursos. Dá-me a ideia que é demasiado grande e variada. Poder-se-iam unir alguns cursos e até fazer desaparecer aqueles que não tenham suficiente justificação.

P- Considera que o nosso ensino superior tem evoluído positivamente? Porquê?
~
R- Sim, basta olhar para os números da PORDATA para verificar que o nosso ensino superior cresceu muito desde que entrámos na União Europeia. A evolução positiva não se traduz apenas no número de matrículas e canudos. O aumento da qualidade é visível do facto de encontrarmos algumas universidades, as que produzem mais ciência, no “top 500” das universidades mundiais. Mas podemos e devemos subir mais quer em quantidade, atraindo mais jovens e novas faixas de população, quer em qualidade, reforçando a produção científica nas universidades. Além do ensino universitário há ainda o ensino politécnico, mas aí temos um problema de definição de objectivos, que deveriam ser distintos dos do ensino universitário.

P- Acha que o estudo das ciências pode ser uma aposta ganha para os nossos licenciados e, por consequência, para o futuro nosso país?

R- Sim. Vivemos numa sociedade que deve o seu estado de desenvolvimento ao cultivo das ciências e das tecnologias. No futuro vai continuar a ser assim, pelo que as profissões científico-técnicas vão continuar a ser procuradas pelo mercado. Basta olhar para o elevadíssimo número de cientistas e engenheiros formados em países de economia emergente, como a China.

P- Acha que o nosso ensino tem tratado bem o estudo das ciências?

R- O ensino básico e secundário das ciências poderia ser melhor, designadamente mais experimental desde o jardim de infância e o 1.º ciclo do básico. Mas as nossas melhores universidades têm preparado bem os seus alunos, como mostra o facto de alguns chegarem rapidamente a posições de topo no estrangeiro. O nosso ensino superior podia ser reforçado através de uma aliança mais estreita com a investigação científica, por exemplo com o rejuvenescimento do corpo docente: alguns novos doutores brilhantes bem merecem lugares nas universidades e politécnicos. Essa entrada no sistema de ensino superior seria uma alternativa a algumas saídas do país que vemos hoje. Os nossos jovens cérebros são a nossa maior riqueza e, se apostarmos neles, seremos recompensados.

P- Que tipo de competências ficam mais valorizadas quando se opta por fazer carreira nas áreas das ciências?

R- Ficam mais valorizadas as capacidades de descoberta do mundo, fundada na curiosidade, e de transformação do mundo, baseada no engenho. Os cientistas resolvem enigmas. Por seu lado, os engenheiros, servindo-se do conhecimento científico, tornam mais fácil a vida de toda a gente.

P- Quando pensamos em ciências pensamos em bioquímica, medicina, etc. Contudo, as ciências são muito mais vastas. Que saídas profissionais podem os nossos jovens ter na área das ciências?

R- Sim, há um grande leque de ciências, assim como há a possibilidade de formação interdisciplinar, por exemplo licenciatura num ramo e mestrado ou doutoramento noutro. As ciências e tecnologias têm, em geral, saída, pelo menos têm mais saída que outros cursos. Bem sei que vivemos um momento de grave crise de emprego, mas não aconselho os jovens a serem demasiado calculistas, pensando apenas na profissão. Os tempos mudam. Pensem antes em formar-se numa ou mais áreas de que gostem, áreas para as quais se sentem atraídos. A paixão deve ser decisiva.

P- Agora que estamos num momento em que milhares de jovens portugueses vão fazer as suas opções de licenciatura, pedia-lhe que desse uma sugestão.

R- Ninguém me levará a mal se eu recomendar o curso que eu próprio fiz, por escolha apaixonada: o curso de Física da Universidade de Coimbra. Os estudantes têm direito a tratamento personalizado. Mas há outras boas escolhas: o importante é escolher uma área de que gostem, pois em princípio a escolha será para a vida.

P- “Darwin aos Tiros e outras histórias de ciência” é o título de um dos seus livros, que relata, de uma forma divertida, situações científicas. A ciência poderia ser mais aliciante se fosse apresentasse de uma forma mais divertida?

R- A ciência não é a senhora carrancuda que, por vezes, parece. Ela é divertida, é aliciante, como mostram as histórias do livro que escrevi a meias com um jovem cientista, o David Marçal. Mas, para encontrarmos esse lado da ciência, é necessário conhecê-la bem. Fazer ciência é decifrar mistérios, o que dá sempre um enorme prazer.

P- O que falta fazer no nosso país na investigação científica?


R- Falta continuar o crescimento que se deu nos últimos 25 anos. O crescimento está a abrandar, quando ainda estamos longe do lugar europeu a que devemos aspirar. Infelizmente, os cortes orçamentais têm sido cegos. Cortar na ciência significa limitar o futuro. Precisamos de mais ciência nas universidades e nas empresas. Para sermos tão ricos como outros países europeus, precisamos de mais e melhor ciência.

sábado, 22 de junho de 2013

Do estado social e da caridadezinha

O pobre no seu penar
Habitua-se a rastejar
E no campo ou na cidade
Faz da sua infelicidade
Alvo para os desportistas
Da caridade

Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha
Vamos brincar à caridadezinha

José Barata Moura - "Vamos brincar à caridadezinha "


Vou começar  por falar de uma obra da responsabilidade da Sociedade Estoril, a Linha de Cascais. A linha de comboio de Cascais foi uma obra notável para o seu tempo e de uma importância ímpar na história de Portugal. Para quem, como eu, cresceu e viveu na zona, essa singela obra baptizou toda uma região do país. Eu, apesar de ter crescido num bairro social, era visto como um "menino da linha". A característica muito importante da infraestrutura era, na minha opinião, a sua enorme qualidade, hoje menos evidente embora, por exemplo, durante muito tempo tenha sido o único transporte público colectivo  acessível a um deficiente físico (e esta exclusividade não foi até 1970, foi até bem perto do fim do século passado). 

A qualidade que tinha a infraestrutura era tal que eu era visto pelos meus amigos como um bicho raro, por não ter carta de condução. Não precisava, o comboio trazia-me a Lisboa num quarto de hora e em Lisboa andava de um lado para o outro. Tirei a carta já tinha 29 anos, quando os meus horários de trabalho começaram a ser alargados e incompatíveis com os horários de trabalho dos maquinistas.

Hoje não uso o comboio, apesar de viver ainda na mesma zona. A principal razão é que os meus horários de trabalho se mantêm incompatíveis comk os dos maquinistas. Mas isso é uma escolha minha e acarto com os custos e proveitos disso. Isto dá-me uma perspectiva diferente pelo facto de conseguir observar as tendências do trânsito. A marginal Cascais-Lisboa é uma via com um tráfego sempre decrescente. Sempre, com descontiniudades  provocadas pelas greves dos maquinistas, quando o trânsito passa de intenso a impossível e depois vai decrescendo lentamente até à próxima greve semestral, que é tão inevitável como a morte.

Temos uma infraestrutura de qualidade, capaz de fornecer um serviço público fundamental, com vantagens competitivas óbvias face às alternativas mas, uma vez que o direito dos prestadores se sobrepõe aos direitos de todos os outros, a qualidade do serviço é atirada ao lixo. Como o tráfego vai decrescendo à medida que nos afastamos no tempo da greves, percebe-se que a opção das pessoas seria consumir aquele serviço, mas, face à instabilidade do serviço, elas vão trocando pelo serviço que as fábricas de carros alemães  proporcionam, mais fiável e, logo, de melhor qualidade.

Os que podem, claro. Há uma franja da população que, não podendo recorrer ao carro, se vê obrigada a continuar a sofrer um serviço sem qualidade com os custos que isso acarreta. Os utentes ficam reduzidos aos que podem aguentar esses custos (os turistas, por exemplo) e aqueles que os têm que aguentar, os imigrantes e outros trabalhadores de baixo rendimento, os desempregados e os estudantes. Assim, um serviço público que se destinava a proporcionar um transporte de qualidade para todos, isto é, acessível a todos, ricos e pobres, serve hoje apenas quem pode aguentá-lo. Se acabássemos com ele seriam os pobres os afectados? Claro, só eles é que não têm os recursos para poderem ultrapassar os custos da enorme falta de qualidade. E esta falta de qualidade não deriva da infraestrutura, da maquinaria, da qualidade dos  trabalhadores,  ou do preço, mas apenas da relação entre o conjunto dos trabalhadores e quem lhes paga o ordenado.

Portanto, ser mais solidário com os necessitados tem dois caminhos: ou compramos carros a todos e fechamos a linha de comboios, ou acabamos com a relação laboral que existe na companhia de comboios. Ser solidário com os mais necessitados é proporcionar-lhes um serviço que recomendaríamos a nós próprios. É para isso que existem serviços públicos, não é para atirar os mais necessitados para uma porcaria que só usamos se não tivermos outra alternativa. O que temos é brincar à caridadezinha.

Acredito que, do ponto de vista dos maquinistas, tudo se justifique. Mas isso ainda é pior porque, se a relação é injusta para os maquinistas e o serviço é tal que só quem não tem outra hipótese é que o usa, temos mais uma razão para acabarmos com esta relação laboral.

Falemos agora da escola. Os meus filhos andam numa escola pública "porque podem". Por enquanto, felizmente, ter pais que ainda estudam nos seus 40 e... anos, que preferem ir ao museu do que ao centro comercial e que têm a almofada financeira para poderem mudar tudo de um ano para o outro, permite que eles possam andar numa escola pública onde podem ser ensinados, não por freiras dedicadas, junto a  colegas com nomes próprios que são apelidos (como Caetana ou Salvador) mas por professores que acham que "está a chover" é justificação para não aparecer (isto não é anedota) e na companhia de colegas que têm nomes de futebolistas brasileiros (como Josemar). O mundo não é feito de freiras dedicadas e acho que a escola também serve para mostrar aos putos que o mundo não é aquilo que aparece no Disney Channel. Eu posso, porque aquilo que não aprendem na escola podem aprender em casa.

Mas os meus filhos são os "turistas" desta linha de comboio que é a educação proporcionada pela república portuguesa. Os meus filhos não andam na escola pública porque a escola pública é boa. Não é. Nem perto disso. Ninguém que tenha os filhos numa escola pública diz "eu  pus aqui os meus putos porque acho que era a melhor escola que havia" . Quanto muito, dirá aquilo que eu digo, mas não diz aquilo que deveria dizer de uma escola: "tem os melhores professores"  ou "saem daqui ensinados". A verdade é que a escola pública é uma  linha de Cascais, tem tudo para ser boa, mas é uma porcaria que só quem pode ou é obrigado a aguentar é que frequenta. Serve só para "turistas" e pobres.

E, tal como a linha de Cascais, não é por causa das infraestruturas, não é pela qualidade intrínseca dos professores (porque eles com outro patrão são bons), é apenas por causa da relação existente entre os professores e quem lhe paga o ordenado. E, novamente, se queremos ser solidários, não devemos dar aos necessitados a porcaria que não usaríamos.

Os meus filhos continuam sem notas porque andam numa escola pública. Ao contrário dos filhos dos meus amigos (alguns professores de escola pública) que têm os filhos em escolas privadas. E, compreendendo tudo o que há para compreender do ponto de vista dos professores relativamente à sua relação com o patrão que sou eu, mas, ou fechamos o sistema público e metemos os putos em escolas privadas, ou arranjamos outro patrão aos professores. Vamos parar de brincar à caridadezinha e fingir que esta porcaria seria aquilo que escolheríamos para nós.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A ilusão de estabilidade evolutiva

Vale a pena ler um excelente livro que, sendo uma ficção ousada e especulativa, é ao mesmo tempo excelente divulgação científica: Evolution, de Stephen Baxter. Abrangendo desde a extinção dos dinossauros até à extinção da vida na Terra, é um livro que torna vívido o drama da evolução, com as suas extinções constantes.

Conversas com os Reis de Portugal



No próximo dia 2 de Julho, terça-feira, pelas 18:00 horas, na Reitoria da Universidade de Lisboa, terá lugar o lançamento do livro Conversas com os Reis de Portugal, de A. M. Galopim de Carvalho.

A obra será apresentada pelo Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa.

Os últimos dias da Bear Stearns


Poucos meses depois de ter levado na tromba com a evidência de que alguns do modelos que andava a desenvolver poderiam estar enfermos de algumas fragilidades (ainda hoje não verificadas, no entanto, pelo menos no meu caso)  e que me fizeram voltar à academia para encontrar explicações diferentes, chegou-me às mãos um artigo jornalístico chamado "The Last Days of Bear Stearns" * sobre o colapso de um dos maiores e mais antigos bancos de investimento do mundo. O caso, usado em inúmeras homilias "contra o monstro capitalista dos especuladores da economia de casino", é  muito interessante. Infelizmente, ainda hoje muito interessante. E que está de alguma forma ligado à discussão sobre a origem da economia.

Resumindo a história, "a" Bear Stearns **  era um banco de investimento que faria qualquer banco de investimento luso parecer uma casa de câmbios. 33 000 empregados (mais ou menos o dobro da CGD) e uma presença global; tinha sobrevivido à Grande Depressão e, em Março de 2008, alguns meses depois do valor das suas acções em bolsa ser cerca de 135 USD, foi vendido ao seu rival JP Morgan a 10 USD por acção num cenário de completa insolvência. Apelando aos leitores que se livrem de moralismo e preconceitos relativamente ao negócio das finanças, isto é, que não ache que "foi a gula dos banqueiros!" ou que "andaram a jogar no casino!"  são respostas válidas para explicarem este fenómeno, irei ao ponto verdadeiramente interessante da coisa: O colapso da Bear Stearns foi uma coisa de dias. Não de 30 ou 143 dias, mas de 4 dias. Em 4 dias, um banco sofre o impacto do que tiver que sofrer, entra em colapso e é vendido. Confessem que isto, no mínimo, é excitante!

Então lembro-me de, intuitivamente,  ter pensado que isto não seria possível na geometria que estava subjacente a todos os modelos de risco que usávamos. A ideia de que a economia é um enorme banho contínuo de agentes económicos que "chocam" uns com os outros de forma aleatória não era compatível com este fenómeno. Então uma singela frase da notícia traz-me a um cenário "horrendo": Dois dos fundos da Bear tinham falido no Verão anterior. Isto significa que alguns milhares de clientes do banco tinham perdido todo o dinheiro investido e o resultado de tal tragédia para milhares de clientes foi... que o valor das acções subiu dos 90  para os tais 135 USD. Antes de me lançar aos moralismos e preconceitos de que gosto muito pouco, resolvi simular este episódio recorrendo a um tipo de programa de computador chamado  "multi-agent model" em que se criam objectos com acções estupidamente simples perante vários cenários, também simples, para que, no fim, possamos entender o comportamento do sistema. Isto confirmou a minha suspeita: não é possível numa completa aleatoriedade que o banco tivesse falido daquela forma; a geometria da economia em torno do banco teria que ser algo completamente heterogéneo. Porquê? Porque a tragédia de milhares de clientes não provocou qualquer mossa em meio ano, pelo contrário, e bastou a suspeita da Goldman Sachs (ver a notícia) para que o banco colapsasse por completo, quase instantaneamente.

Para que é que isto serve? Bem, voltando à nossa conversa sobre a origem da economia, esta tem que nos dar alguma coisa que nos justifique essa geometria tão heterogénea que Pareto já tinha identificado no início do século XX (cujo nome serviu para de baptizar a forma matemática da distribuição de riqueza). Não havendo a atracção para consumir coisas novas, não sendo a economia um solução divergente da selecção natural, não seria possível que a riqueza tivesse a distribuição que tem ou que a Bear Stearns pudesse falir instantaneamente por causa de uns quantos emails. Não só Pareto *** tinha razão no início do século XX, como tinha descoberto algo de muito mais estrutural.

Mas há uma informação prática mais importante ainda e que resulta de um singelo detalhe em toda a história. A Bear Stearns era o banco de investimento com um dos melhores rácios de capital de toda a indústria financeira americana: nunca desceu abaixo dos 10%, de acordo com o regulador da altura, a SEC. O número de 10% é exactamente o número que a troika exigiu que os bancos portugueses tivessem para aguentar o impacto dos riscos acrescidos pela insolvência do estado português de 2011. Com que base este número é obtido? Avaliam-se os riscos de todas as posições do banco e ponderam-se as posições em função dos riscos que acartam. Pega-se no capital do banco (o dinheiro dos accionistas) e divide-se por esta soma.

Onde é que está o problema? Na frase  "Avaliam-se os riscos.. ". A verdade é que os riscos da Bear Stearns avaliaram-se como se a economia fosse um enorme banho de agentes que "chocam" aleatoriamente. Só que a economia não é um sistema onde os agentes chocam aleatoriamente. O facto da sua origem ser (ou aparentar ser) um sistema divergente leva a uma geometria completamente heterogénea que explica os resultados de Pareto e a falência explosiva da Bear. E, na prática, onde é que está o problema? Bem, confiando que alguns leitores estão à espera de lançar uma frase como "a culpa é das agências de rating ao serviço dos especuladores da economia de casino", deixem-me dizer-lhes que as leis que regulam os bancos, e que mandam os bancos avaliar os riscos, supõem que a economia é um banho de agentes que chocam aleatoriamente e, portanto, os 10% que a troika exigiu (tal como os 8% que são exigidos pela regulação bancária global) não valem um caracol. Aprendemos alguma coisa com o colapso da Bear? Claro. Mas nada que seja usado pela regulação bancária europeia...

Voltando à origem da economia: como é que este troca-tintas do Cruz passa da falência de um banco de investimento para a origem da economia? Se a economia tivesse surgido de uma mera cooperação que existe para vencer um constrangimento natural, a geometria seria aquela que a regulação bancária espera que seja, um banho de trocas que são criadas e interrompidas à medida que os constrangimentos surgem.  Uma alternância equilibrada entre "tenho comichão nas costas e portanto vamo-nos coçar um ao outro" e "já tenho as costas coçadas, larga-me!". Como a economia é uma solução divergente, a geometria resultante é uma estrutura altamente heterogénea a que se dá o nome de "rede livre de escala".  Embora haja quem diga que bastaria a regulação bancária dizer o que é para ficar demonstrado o contrário... (mas não eu!).

Espero já estar a captar alguns entusiastas para o assunto, mas a história vai continuar........


REFERÊNCIAS:

* Ainda disponível online em http://money.cnn.com/2008/03/28/magazines/fortune/boyd_bear.fortune/  . Hoje há livros inteiros sobre a história, para quem for fanático destas coisas. Eu fico-me pelos bonecos....
** Os bancos de investimento ainda se tratam no feminino como "a" casa de investimento porque não eram bancos no aspecto formal.
***  http://en.wikipedia.org/wiki/Vilfredo_Pareto

quinta-feira, 20 de junho de 2013

NOVOS LIVROS DA GRADIVA

A China não está só a mudar de líderes: está também a avançar para a fase seguinte do seu desenvolvimento. Esta colectânea única de ensaios – escritos por importantes pensadores chineses da actualidade – dá uma perspectiva dos grandes debates em curso sobre o futuro do modelo de crescimento da China, do seu sistema político e da sua política externa. Os textos aqui publicados mostram que a China se encontra no início de uma mudança tão radical como o foram a revolução comunista de Mao Tsé-Tung (China 1.0) e a revolução capitalista de Deng Xiaoping (China 2.0). Chamamos a esta fase China 3.0.
«Fora de Colecção», n.º 393, 196 pp., € 13,50 . € 12,15




Luís Portela
«A melhor bagagem para iniciar a viagem da leitura deste livro é uma mala vazia de tudo menos da surpresa de se deixar conduzir pela visão de um homem mais conhecido pela sua vida empresarial de êxito como presidente da Bial, que tomou a decisão, quanto a mim extraordinária e corajosa, de partilhar com os outros aquilo em que profundamente acredita e que é a sua perspectiva espiritual num mundo-escola.» - MARIA DE SOUSA, Universidade do Porto
«Fora de Colecção», n.º 394, 148 pp., € 10,00 . € 9,00


Darrell Huff




«A juventude não é uma questão de idade. A colecção «Ciência Aberta» tem mais de 30 anos e continua nova. Após ter recebido o Grande Prémio Ciência Viva e ter publicado o número 200, prossegue com este verdadeiro clássico da divulgação científica, que continua extraordinariamente actual. Faltava esta edição portuguesa! Hoje como ontem a estatística continua a ser levianamente evocada por tudo e por nada, numa e noutra área (na política, na economia, na publicidade, etc.), a propósito e a despropósito, muitas vezes para justificar o injustificável. E só um cidadão com cultura científica, um cidadão que leia este e outros livros da colecção «Ciência Aberta», pode estar prevenido para os erros e abusos cometidos em nome da ciência. No Ano Internacional da Estatística, a Gradiva orgulha-se de publicar este livro, enriquecido pelo tão sábio como divertido prefácio de Dinis Pestana, professor de Estatística da Universidade de Lisboa. Depois de o ler, o leitor não mais vai olhar para um inquérito ou para uma média da mesma maneira!» - Carlos Fiolhais
«Ciência Aberta», n.º 201, 180 pp., € 13,50 . € 12,15


«Steven Strogatz encontrou uma fórmula mágica: como transformar a fobia da matemática em puro prazer. Seja a propósito de números inteiros, de banheiras, de primos, do teorema de Pitágoras, do cálculo infinitesimal ou até do hotel de Hilbert, que consegue sempre alojar todos os hóspedes que cheguem (mesmo que sejam em número infinito), todos os capítulos destilam o intenso prazer da descoberta e compreensão de uma verdade profunda e oculta – aquilo a que Strogatz chama os momentos «Ahá!». Numa escrita pura e cristalina, Strogatz revela-nos a cada passo recantos da matemática a uma luz surpreendentemente nova. O seu entusiasmo é contagiante, a sua forma de expor, brilhante – e o seu sentido de humor, cativante.»  - Jorge Buescu


«O Prazer da Matemática», n.º 39, 264 pp., € 16,00 . € 14,40

A adversativa

Ainda sobre agreve dos professoes, artigo de opinião do escritor Jorge Reis-Sá no "Público" de hoje:  


Sou filho de professores. O meu pai, que faleceu há quase 19 anos, tinha pela sua profissão um respeito que ainda hoje lhe granjeia as memórias que só aos grandes mentores os antigos alunos reservam. Se havia coisa que me deliciava, era ver os meus colegas - ele foi professor na mesma escola onde estudei, a Didáxis, embora nunca tendo sido meu - no primeiro período a queixarem-se da sua exigência para, no final do ano, estarem rendidos às aulas e ao conhecimento que ele lhes transmitia, ainda que nunca deixando que essa exigência baixasse. O meu pai adorava dar aulas e adorava a língua que falamos. Por isso mesmo era feliz na profissão que escolhera, a de professor de português. A minha mãe foi professora primária. E ainda hoje escreve com a mesma letra que me ensinou, tão característica. Este fim-de-semana perguntei a três pessoas algo que, em 19 anos, nunca fiz sobre nenhum assunto: o que acharia o meu pai? No caso, que considerava surpreendente de tão grave, o que acharia ele desta greve. Perguntei-o à minha mãe, ao meu avô – que viveu como tantos o 25 de Abril do lado da Revolução e que entende perfeitamente a luta das classes, operário durante os 50 anos que trabalhou como serralheiro – e ao director da escola onde o meu dava as aulas e que era o seu melhor amigo, o José Fernandes. Nunca achei bem perguntar o que poderia fazer alguém que, desaparecendo do nosso convívio e nos tendo deixado tantas saudades, não estaria cá para responder. Mas nesta situação, não resisti. E as respostas foram as que esperava: estaria completamente contra a marcação de uma greve para uma data em que os alunos que ele tanto respeitava seriam as maiores vítimas. E vi-me ainda mais revoltado do que ele poderia ficar. E pensei então na adversativa.

Porque, se havia direito que o meu pai defendia e que eu defendo é o da greve. Quem, como ele, andava com o Avante! dentro do casaco no início dos anos 70 e se tornou um socialista moderado durante a democracia que feliz viveu, sabe da importância que esse direito tem. Mas o meu pai também me ensinou uma outra coisa: não há direitos sem deveres. E vivemos tempos em que toda a gente se acha no direito mas poucos se acham no dever. Por isso o "mas". O direito à greve, que a nossa lei fundamental consagra como deve no artigo 57, com toda a limpidez que lhe falta em tantos outros sítios, é inabalável. E não concordo com alguma adversativa na lei fundamental. Mas o "mas" deveria ter estado presente na mente dos professores e, ainda mais, na dessa corporação, desse lobby à americana que se chama Fenprof, e que se diz um Sindicato dos Professores.

Não é. Um sindicato luta pelos direitos dos seus trabalhadores, não funciona como uma corporação. E os sindicatos dos professores, com a Fenprof à cabeça e o sr. Mário Nogueira como timoneiro, em vez de pensarem nos professores (seus direitos e deveres), e consequentemente nos alunos e na Educação, pensam apenas na corporação, como sempre pensou essa corporação bancária que se chamava Associação Nacional das Farmácias, por exemplo. Pensam apenas nos seus direitos.

Culpa deles? Também, mas não só. Os Governos que mal ou bem nos governaram durante tantos anos é que nunca tiveram a coragem de os afrontar. E quem tentou, perdeu. Os sindicatos ganharam sempre. Sou filho de professores, sei do que falo. A minha mãe reformou-se aos 52 anos, com o tempo todo de serviço. Era um direito que o sindicato conseguiu e ela, e bem, usufruiu. Mas porque não aceitar que uma pessoa na posse total das suas qualidades profissionais, com três décadas de saber feito, possa ser requalificada para poder prestar outros serviços à comunidade? Ela aceitaria - porque os presta pro bono numa IPSS. Mas os sindicatos não, que iria contra os seus direitos. E assim, esperando como espero que dure até aos 90 anos da minha bisavó, o Estado vai pagar a reforma à minha mãe durante 40 anos. E depois surpreendemo-nos que tenhamos falido.

O serviço que os sindicatos dos professores prestaram a todos nós na última segunda-feira foi deplorável. Desde os seus associados, que viram ser confundida a sua justíssima revolta contra tantas políticas de um Governo medíocre com as palavras dogmáticas de quem os diz representar. Até aos pais e, claro, aos alunos. O ministro da Educação (que com o da Saúde e a da Justiça são como árvores de fruto - erros de casting de tão competentes para tamanha incompetência governativa na floresta queimada que nos desgoverna) teve o comportamento que devia. E só lamento que a opinião pública não perceba que direitos sem deveres levam um país e quem lá vive ao abismo; e que os professores não se revoltem, isso sim, contra quem os acaba por manietar com palavras ocas retiradas da cartilha de um partido que ainda tem como programa a criação de uma "democracia avançada" que não tem nenhuma adversativa mas me parece uma óptima metáfora para outras coisas. Há uma greve geral marcada para o dia do exame de Matemática. O ministro da Educação percebeu que nada haverá a fazer senão alterar já a data do exame. Não porque o devesse ter feito no de segunda-feira passada - que não devia masporque o direito à greve é inabalável quando lutamos contra a floresta mesmo entendendo que há árvores de fruto que ficam chamuscadas.
 

Jorge Reis Sá

Bons raios te meçam



O Solstício de Verão de 2013 é já amanhã, dia 21 de Junho. No hemisfério Norte, teremos a noite mais curta do ano e a sombra dos objectos atinge o seu valor mínimo.
Para celebrar esta efeméride no âmbito do Ano Internacional do Planeta Terra 2013, instituições e público em geral vão repetir uma experiência realizada pela primeira vez há mais de dois milénios, por Eratóstenes (276 a. C – 194 a. C).
Analisando a sombra de objectos em dois lugares diferentes, ao meio dia, e juntando alguma matemática, Eratóstenes foi o primeiro a apresentar um valor para o raio da Terra. Eratóstenes mostrava assim ser possível medir o raio da Terra usando os raios solares.
Quem quiser participar, pode dirigir-se a um dos seguintes locais, onde a experiência será feita junto do público: Centro Ciência Viva de Constância, Departamento de Matemática da Universidade dos Açores, Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, Museu de Marinha, Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, Observatório Astronómico de Lisboa, Planetário Calouste Gulbenkian, Planetário do Porto - Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, Centro Ciência Viva de Estremoz, Escola Secundária Braamcamp Freire ou ainda na Ilha do Príncipe, na Praça Marcelo da Veiga em Santo António.

Mais informações em:
http://www.mat.uc.pt/mpt2013/bons-raios-te-mecam.html

Informação recebida de Carlota Simões, organização do Ano Internacional do Planeta Terra 2013

COIMBRA DOS DOUTORES


Post convidado de Galopim de Carvalho:

Nunca apreciei a tão falada Sala dos Actos da veneranda Universidade de Coimbra. Repositório de uma tradição de pompa e circunstância, ainda bem viva na cidade dos doutores que por ali passaram e estão a passar grandes vultos da inteligência lusitana. As poucas vezes que entrei neste casarão desconfortável, frio e soturno, fi-lo na condição de membro de júris em provas académicas, sempre ali realizadas num cerimonial muito ao gosto dos meus colegas coimbrões. Quais avejões negros, em ritual funéreo, os meus pares, carregados de circunspecção, perpetuam uma prática elitista, aos meus olhos obsoleta e bafienta, com a qual nunca me identifiquei.

 Eu, que por decisão própria, não adquiri o traje académico que me competia usar, sempre aqui me apresentei, mal-ajeitado, numa farda que não era a minha, ora apertada, ora larga e comprida, emprestada para o efeito. Fazendo um breve parêntese, recordo que, em idênticas provas na Universidade de Lisboa, a obrigatoriedade do uso do traje académico (concebido e aprovado ao tempo do Prof. Marcelo Caetano, como Reitor) tem vindo a esmorecer, quanto a mim, louvavelmente, num testemunho de maior valorização dos conteúdos, isto é, da criação do saber, relativamente à forma, ou seja, à encenação.

 A última vez que participei como membro de um júri em Coimbra, nesta imensa sala e bem ao estilo da austeridade e da fidalguia intelectual de tempos idos, jurei a mim próprio que nunca mais ali voltaria em serviço da Universidade. E cumpri. Foi em meados dos anos 90 do século que passou.

 Ao fundo, num cadeirão enorme, feito trono, em posição de destaque, como é tradição, o Reitor presidia, solitário e de longe, às provas de agregação de um dos seus Doutores. Aparentemente desinteressado, cumprindo o seu dever, escondia o bocejar atrás de um molho de folhas de papel A4 que, ora folheava, a modos de ler qualquer coisa, ora usava como abano, mais para passar o tempo ou iludir o tédio do que para suavizar o calor ou afugentar uma mosca, duas coisas que ali não havia.

 Em baixo, o candidato configurava o réu, falando e olhando para cima, para nós, seus inquisidores. Nós, pelo contrário, do alto dos nossos assentos e, também, da nossa importância, falávamos, olhando-o de cima para baixo. Mas, até aí, tudo bem. Simpática ou não, tradição é tradição e não sou eu, nem muitos como eu, que a vamos alterar. O pior estava para vir.

 Uma vez por outra, eu levantava os olhos para o alto da grande parede em frente e ia recordando a História de Portugal, aprendida meio século atrás, na 4ª classe, ali evocada numa correnteza de grandes e toscos retratos dos nossos gloriosos reis, a começar no que fundou a nacionalidade, logo seguido do D. Sancho I, e por aí fora, até ao limite da visibilidade possível a partir do lugar onde, desconfortavelmente, me sentava e os pés baloiçavam e me arrefeciam.

 Deste júri faziam parte sete professores da casa e três de fora, entre os quais, eu. O desenrolar das provas não se afastou daquela normalidade em que candidato e arguentes debatem desapaixonadamente os seus pontos de vista em torno do trabalho em apreciação. Nada que se parecesse a autênticas batalhas, a que me foi dado assistir em décadas de docência, nas quais, muitas vezes, mais do que arguir, o arguente queria era brilhar e exibir o seu muitíssimo saber. Tudo foi correcto e tranquilo nesta sessão em que a argumentação foi confiada a dois dos professores visitantes e na qual, os professores da casa, calados, foram meros assistentes entre um público constituído por alunos, colegas, pais e outros familiares do candidato.

 Findas as provas e numa outra sala, o júri reuniu para votar. Cada membro daquele colectivo recebeu, da mão do Reitor, duas bolas do tamanho de berlindes, uma branca e outra preta. Sobre uma mesa, à nossa frente, havia duas urnas, uma branca e outra preta. Para votar a aprovação do candidato, cada um de nós devia colocar a bola branca na urna branca e a bola preta na urna preta. Trocar as cores das bolas com as das urnas significava reprová-lo.

 Com a urna branca na mão, prestes a tornar conhecido o seu conteúdo, o Reitor relembrou que o número de bolas brancas ali introduzidas versus o número de bolas pretas ditaria o resultado. Mais brancas do que pretas, o candidato estava aprovado; mais pretas do que brancas determinavam a sua reprovação. Em confirmação do resultado desta primeira contagem, abrir-se-ia a urna preta, na qual as bolas tinham significado inverso.

 Da urna branca saíram, então, sete bolas pretas e três brancas. Incrédulo do que estava a ver, a iniquidade desta votação era, de seguida, confirmada com a abertura da urna preta. O candidato fora reprovado. O modo em que as provas haviam decorrido não apontava, de modo nenhum, para um desfecho assim. Matematicamente, a maioria daquelas sete bolas pretas reflectia a vontade dos professores da casa. Soube, que além de mim, outro dos professores convidados votara a favor do candidato. Feitas as contas, era evidente que, pelos menos, seis dos sete coimbrões votaram contra ele. Tornou-se-me então evidente que, entre os meus colegas da cidade dos doutores, havia entendimento prévio relativamente a este triste resultado, por razões que desconheço, mas que, também ficou evidente, nada terem a ver com a competência científica e profissional do visado. Não custa deduzir que sabiam, à partida, que tinham maioria para manter o seu propósito. Este propósito não foi, porém, declarado na reunião de júri que, por regulamento, antecede as provas públicas, e na qual se discutiu e se decidiu sobre a admissibilidade do candidato às mesmas. Nessa reunião prévia, os professores da casa podiam, por maioria, ter recusado admiti-lo, só que cada um deles teria de justificar, de cara destapada, a sua decisão. Na acta dessa reunião ficou, pois, registada a admissão do candidato às provas que requerera.

 Se, por razões que me escapam, as cúpulas locais não desejavam admitir o candidato no seu seio, deviam tê-lo declarado na dita reunião prévia e não o fizeram. Tinham, assim, evitado todo o incómodo, todo o trabalho que nos causaram e todo o mau estar que este lamentável episódio provocou. Como se costuma dizer, caiu-me o coração aos pés. Caíram também aos pés todos os corações dos que, cá fora, rodeando o candidato, aguardavam o momento de o felicitar. Um balde de água gélida desceu a nobre escadaria da Universidade. Nos rostos dos presentes pairavam lágrimas, dentes cerrados e olhares apáticos, imobilizados pela estupefacção. Sem querer e sem o saber eu acabava de participar num acto que considero vergonhoso e que recordo como o pior episódio que me foi dado testemunhar em quarenta anos ao serviço da universidade portuguesa. Esta deselegância, por parte dos colegas coimbrões, pôs a nu laivos de hipocrisia dissimulada sob uma habitual falsa capa de bonitas palavras e gestos de simpatia e de afecto.

 De pasta na mão e farda dobrada no antebraço do outro lado, os meus colegas de Coimbra iam saindo, a caminho da sua importância, sem olhar para o grupo dos ofendidos a que me juntei.

 Numa pastelaria da cidade, apalavrada para servir o habitual beberete, em regozijo deste tipo de acontecimentos, as confecções secaram sobre as mesas postas, os copos permaneceram vazios nas toalhas brancas onde haviam sido alinhados e as garrafas não foram abertas.

 Felizmente que o tempo tem vindo a varrer estes avejões e parte do que de obsoleto e bafiento perdurava nestas e noutras torres de marfim. As cátedras estão a dar lugar a disciplinas, acabaram-se os lentes, substituídos por professores, e os sábios fossilizaram, tendo evoluído, democraticamente, para investigadores ou trabalhadores científicos, como se preferir chamar-lhes. Banalizado pelo número crescente de universidades públicas e privadas, nem sempre dignas desse nome, o título de Reitor tem vindo a perder o prestígio que o adjectivo Magnífico lhe conferia, um termo a juntar a outros caídos em desuso.

 Não tinha passado um mês sobre a redacção que fiz desta lamentável ocorrência, o Jornal de Notícias divulgava através da net, em 16/03/07, a medida à qual dou todo o meu aplauso: o Governo instituiu, relativamente às provas de agregação, a obrigatoriedade de a maioria dos membros do júri ser externa à universidade onde são prestadas. A votação do júri deve ser nominal e fundamentada, “terminando com o inaceitável secretismo actual”.

 António Galopim de Carvalho


DIABOLIZAR PARA GOVERNAR?

Reproduzo aqui um pequeno artigo de opinião publicado no Diário Económico, da autoria de João Cardoso Rosas:

Perante a luta sem tréguas entre os professores e o Ministério da Educação, uns apressam-se a condenar a arrogância do ministro, enquanto outros atribuem toda a culpa ao radicalismo dos sindicatos.

Seria preferível que colocassem as seguintes questões: por que razão o discurso radical da FENPROF, de Mário Nogueira, conseguiu ter consigo a maioria dos professores quando esse mesmo discurso, em termos eleitorais, chega apenas aos 20% (PCP + BE)? E por que razão o ministro da Educação não tomou a decisão, simples e fácil, de adiar o exame de Língua Portuguesa para todos os alunos quando até o próprio Mário Nogueira tinha afirmado em público que, se o Governo mudasse a data do exame, a greve não iria atrás dela?

Existe uma resposta clara para estas questões. Há muitos anos que o sector da Educação conhece uma tensão crescente. Tanto os Governos do PS como os do PSD tenderam a considerar que a forma mais expedita para reformar o sector consistiria em colocar a sociedade (pais, alunos, etc.) contra os professores para assim os fragilizar e eliminar a oposição às reformas. Quem acompanha a política portuguesa sabe que este modelo de "diabolizar para governar" nasceu no sector da Saúde e com Leonor Beleza em relação aos médicos. Mas foi na Educação e com os professores que ele se generalizou. Neste aspecto, existe uma linha de continuidade entre Maria de Lurdes Rodrigues e Nuno Crato (algo que eles negariam, claro, porque se detestam mutuamente).

Assim, a atitude afrontosa do ministério da Educação em relação aos professores, sempre com mais exigências avulsas e mal justificadas, mais trabalho burocrático e inútil, maior desvalorização da função docente, agora também com ameaças de despedimento sumário e sem indemnização, conjuga-se perfeitamente com um discurso sindical radicalizado e em oposição a qualquer mudança, por mais razoável que seja. O radicalismo de uns alimentou o radicalismo de outros, chegando a um ponto no qual a Educação é hoje um sector mais bloqueado do que outros sectores da Função Pública. Por isso o discurso de Mário Nogueira tem êxito e o ministro não foi capaz de resolver um problema simples.

A única forma de impedir o triunfo de um discurso sindical radicalizado consistiria em começar por evitar a radicalização da parte do ministério da educação. Ou seja, passaria por uma estratégia reformista diferente, aberta aos sindicatos e à sociedade, com propostas conhecidas e amplamente debatidas, acompanhadas pelo elogio continuado da função docente. Reformas noutros países demonstram que esta é a melhor estratégia. Mas o ministro Nuno Crato não o compreendeu e quis prosseguir num caminho que não tem já saída.

João Cardoso Rosas, Professor universitário

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A Crise Europeia em 2013: Uma Encruzilhada Perigosa


Artigo de opinião recebido do nosso leitor António Mota de Aguiar:

  “Poderia a guerra ter sido ganha mesmo que não se tivessem cometido erros militares? A minha   opinião é que não. A partir de 1941, o mais tardar, estava tão perdida como a Grande Guerra porque os objectivos políticos não tinham a mínima relação com as possibilidades económicas e militares da Alemanha. A única coisa que o método peculiar de Hitler de travar a guerra deu ao povo alemão foi milhões de mortos a mais. Foi a única coisa – Não era possível ganhar a guerra. Mas há uma coisa notável, uma coisa que não me sai da cabeça: porque é que um país como a Alemanha, situado no meio do continente, não transformou a política numa arte para manter a paz, uma paz sensata… Fomos estúpidos ao ponto de julgar que poderíamos desafiar o mundo… sem vermos que isso era completamente impossível na situação em que nos encontrávamos na Alemanha. Quais são as razões para isto?... Não sou político nem historiador. Não sei. Só vejo a pergunta”.     

Tenente – General Ferdinand Heim, numa palestra a outros prisioneiros de guerra,  23 de Maio de 1945”(1)


Os  acontecimentos de há quase 70 anos não se repetirão porque o nazismo morreu. Mas a situação que estamos a viver é muito perigosa e não sabemos como vai acabar. A campeã da austeridade tem sido Angela Merkel, natural de Berlim, educada na República Democrática Alemã e química de formação.  No início da crise grega, numa entrevista ao canal  ZDF, dizia que, não sendo perita em assuntos financeiros, se regulava pelos conselhos do FMI. Belo serviço! O FMI já veio confessar que se enganou nas previsões para a Grécia. O currículo de Merkel parece-me bastante fraco para dirigir 500 milhões de europeus.

O jornal  El País, em edição recente, esclarece-nos sobre os objectivos de Merkel:  

“(…) Angel Merkel, la derecha alemana, (…) tiene un objectivo, ganar las elecciones del  22 de septiembre. No va a cambiar hasta entonces, Pero los demás países, particularmente los llamados periféricos, y en especial el nuestro, no pueden aguentar más dosis de recorte de gastos a palo seco” (2)       

Vale a pena ler o que escreve certa imprensa alemã e o que dizem alguns políticos alemães sobre o sul. Uma parte da imprensa alemã  tem vindo a tratar com virulência, para não dizer desprezo, os povos do sul da Europa. Para alguns deles devíamos estar agradecidos por tudo o que fazem por nós. Há pouco foi a vez de políticos alemães incorporarem nos seus ataques a França, o “enfermo crónico da Europa”. Atribuindo com arrogância as infelicidades  dos países do sul a preguiça e indisciplina, esses dirigentes mostram um esquecimento da história europeia, ignorando que as ideias e o pensamento provêm da Antiguidade grega, e que a Europa deixa de ter referências sem essa base histórica e moral.

Enquanto os países do sul se debatem com um desemprego trágico, as autoridades alemãs limitam-se a oferecer alguns milhares de postos de trabalho seus a pessoas do sul. Mas fazem-no em benefício próprio, pois acolhem homens e mulheres com os melhores conhecimentos profissionais e na maior força de trabalho. Gerhard Schröder e Jacques Delors escreveram sobre este assunto:

“Y en esta cuestión desempeña un papel muy importante la responsabilidad del Gobierno alemán. En Alemania el desempleo juvenil es inferior al 8%. Son muchos los jóvenes de los países del sur de Europa que buscan ali salidas profesionales. Ahora bien, la migración de una población laboral joven y muy preparada no puede ser la solución al problema, porque los hombres y mujeres que se van en esas circunstancias están llevándose sus títulos e su preparación de su pais. En consecuencia, lo que nos hace falta es un gran programa pensado para abordar el problema del paro juvenil a escala europea. Los países más poderosos de Europa, en particular Alemania, tienen la oportunidade de demonstrar su responsabilidade politica y económica en esta situación” (3).

Por seu lado, criticando a situação de crise  europeia, Mario Monti e Sylvie Goulard escrevem  no seu livro “A Democracia na Europa”:

“(…) os custos da indecisão,  as divisões estéreis alimentam já a grande impaciência dos povos em sofrimento. Amanhã, se não nos acautelarmos, alimentarão talvez a sua revolta. Se o confronto de ideias é em si a própria marca da democracia, os cidadãos suportam cada vez menos a ideia de sustentar, com o dinheiro dos seus impostos, uma classe política que, não contente em não conseguir justificar o seu valor acrescentado, consegue reduzir o potencial do país, quando deveria, pelo contrário, trabalhar para o bem comum (…)” “A Europa tem necessidade de um rumo, sem subterfúgios, e esse rumo tem de ser a unidade: esta unidade refere-se, acima de tudo, aos indivíduos, os seres humanos que povoam a União e a fazem viver. (…) O revés mais terrível de uma Europa que se limita a discussões entre governos é que ela não inclui as pessoas”. (4)

Vivemos sob uma política que salva bancos, concedendo-lhes quantias inimagináveis, mas esquece as gerações jovens sem trabalho. Onde iremos parar? É que há um momento irreversível na vida dos países.
Como recuperar Portugal, um país com paupérrimos recursos naturais, um desemprego grave – sobretudo um desemprego juvenil altíssimo – e um elevado número de iletrados, rodeado como está de países com semelhantes crises socioeconómicas?  Em Portugal, onde há cerca de um milhão de desempregados (18%), e cerca de 172.000 jovens sem trabalho (43%), a austeridade é um dogma sem sentido.  Como é possível que, com a austeridade imposta pela Alemanha de Merkel (de “Merkiavel”, como lhe chamou o sociólogo alemão Ulrich Beck) possamos alguma dia chegar a um estado mínimo de bem-estar? Ao fim de oito séculos de história, Portugal arrisca-se a dar um salto no vazio. 

Os alemães  desconhecem, ou não querem saber, que, como diz Beck, “a concessão de créditos foi associada a imposição de reformas rigorosas e a controlos que levaram à decadência social de regiões inteiras. Inúmeras pessoas perderam a base material do seu sustento, a sua dignidade, o seu futuro – e, sobretudo, também, a sua fé na Europa” (5).

Em 1950, a Alemanha apanhou o comboio da União Europeia. Porém, quando se viu servida, passados 20 anos, as infrastruturas industriais e económicas alemãs tinham dado um salto, passando a  concorrer em mercados como os da China, EUA e Rússia, bastante mais rentáveis que os europeus. Escreveu Beck:

“A Alemanha (…) até agora, tem beneficiado indubitavelmente da Europa. Do euro, mas também da crise, tanto em termos políticos e económicos como morais. Por isso, é do melhor interesse do país promover a união política da Europa” (5). 

A União Europeia foi fundada para fazer fase à calamidade da guerra, a qual dizimou a maior parte dos países europeus. Esteve na mente dos fundadores, como Jean Monnet, Roberto Schuman, Konrad Adenauer, que a União originaria uma federação política. Não sabiam bem como seria esta última etapa e ainda hoje há dúvidas sobre o caminho a percorrer. Mas há que discutir e avançar no caminho da construção europeia, da união política, com dirigentes europeus competentes e escolhidos democraticamente pelo povo europeu.

António Mota de Aguiar

    REFERÊNCIAS:

1    (1)  Mark Mazower,  O Império de Hitler, Edições 70, 2013, p. 1
2  (2) Diego Lopes Garrido, Nicolás Sartorius, Carlos Carnero, “No podemos esperar a  las elecciones alemanas” – “Es urgente un plan Europeu de estimulo económico que genere empleo”, El Pais, 21.05.2013.
3   (3) Gerhard Schröder e Jacques Delors, “Democracia, empleo y crecimiento”, El país, 24.05.2013
4   (4)   Sylvie Goulard e Mario Monti; A Democracia na Europa, Editorial Presença, pp. 3 e 155
     (5) Ulrrich Beck,  “A Europa Alemã – De Maquiavel a “Merkievel”: Estratégias de Poder na Crise do Euro”, pp. 88 e  105/106.

Mário e o lobo

Ainda a greve dos professores: Artigo de opinião de João Miguel Tavares no "Público" de ontem:  


Mário Nogueira foi eleito líder da Fenprof em Abril de 2007. Em Setembro de 2007, a propósito do concurso de colocação de professores, declarou: "Este é o maior ou um dos maiores despedimentos colectivos que teve lugar neste país."

Em 2008, a propósito da avaliação dos professores: "Se o Ministério da Educação quiser guerra, vai ter guerra." Em 2009, sobre o Estatuto da Carreira Docente: "Visa transformar os professores em operadores acríticos de verdadeiras linhas de montagem em que estão a ser transformadas as escolas portuguesas."

Em 2010, acerca dos novos agrupamentos de escolas: "São um absurdo e a negação completa do que é o trabalho pedagógico numa sala." Em 2011, a propósito do Orçamento do Estado: "Um verdadeiro roubo, quase um assalto à mão armada." Em 2012, acerca do ministro da Educação: "Está a apostar na ignorância, está a apostar na segregação, está a apostar na destruição deste país." Em 2013, sobre a mobilidade especial: "Eu acho que este é um governo fascista."

Assim de repente, estou capaz de adivinhar o que ele dirá em 2014 sobre qualquer ideia que venha dos lados da 5 de Outubro. Aposto o meu ordenado em como vai ser má, péssima, horrível, um atentado, uma vergonha, uma calamidade, uma tragédia, um assalto, um roubo. Claro que Mário Nogueira está a cumprir o seu papel e a empenhar-se naquilo para que foi escolhido: proteger os interesses da classe dos professores a todo o custo chamando-lhe"defesa da escola pública" para parecer bem -, independentemente do estado em que o país se encontre.

Se Mário Nogueira fosse delegado sindical no Jardim do Éden quando Eva entregou a maçã a Adão, ele estaria certamente ao lado de quem, com tanta competência, astúcia e empenho, ministrou a disciplina de Pecado Original. Não é, pois, de espantar que Adão e Eva tenham sido colocados em mobilidade especial, enquanto a serpente permaneceu nos quadros do Paraíso: os alunos sempre tiveram mais azar do que os professores.

E no entanto, os professores parecem apreciar esta atitude, continuando a achar que o estilo e a ideologia PCP da Fenprof, que não convence 10% dos portugueses quando se trata de governar o país, é perfeita para governar os interesses de 50% dos professores. Sem dúvida que o pandemónio nos exames de ontem mostrou o músculo do sindicato e a perenidade de Mário Nogueira.

Um dia destes, também Nuno Crato seguirá os passos de Maria de Lurdes Rodrigues, e outro ministro da Educação terá o privilégio de estar face a face com o seu incrível bigode. Só que, infelizmente para os professores, tanta verve sindical também tem um preço - e o resultado de ter um sindicato que todos os anos, mal lhe cheira a qualquer tentativa de reforma, desata aos gritos pelas ruas como se as pragas do Egipto tivessem caído sobre nós, é dar cabo da imagem dos professores junto de uma faixa muito significativa da população.

Mário Nogueira é um homem empenhado, combativo e que leva a peito a sua missão, mas o seu radicalismo, apoiado por dezenas de milhares de professores, transforma toda a classe numa versão sindicalizada de Pedro e o Lobo. Anunciar o apocalipse a cada 15 dias nunca dá bons resultados, porque as reivindicações justas e injustas se misturam numa mixórdia indistinta de protestos. E assim, aos poucos, Mário Nogueira e os professores vão perdendo toda a credibilidade. De vitória em vitória - até à derrota final.

João Miguel Tavares 


Público 2013-06-18

A ESTATÍSTICA COMO CIÊNCIA DA INCERTEZA


No próximo dia 20 de Junho de 2013, pelas 18 h, no RÓMULO– Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, no piso térreo do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, terá lugar mais uma sessão Café, Livros e Ciência, uma iniciativa em parceria com o Museu da Ciência de Coimbra, a Fábrica Ciência Viva de Aveiro e o TagusPark de Oeiras, desta vez com a presença com a Prof. Doutora Nazaré Mendes Lopes, professora de Matemática e Directora do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

A propósito do livro Como Mentir com a Estatística", de Darrell Huff , que está a sair como n.º 201 da colecção “Ciência Aberta” da editora Gradiva, Nazaré Lopes falará sobre "A Estatística Como Ciência Da Incerteza".

Como Mentir com a Estatística, escrito por Darrell Huff em 1954, apresenta, de forma clara e bem-humorada, erros usuais e básicos em Estatística que levam em geral a conclusões erradas e mesmo absurdas sobre factos correntes do nosso dia-a-dia. Tornou-se por isso um dos livros sobre Estatística mais vendido de sempre. Quase 60 anos passados desde a sua publicação original, muitos dos erros que descreve não perderam a atualidade. Nesta conversa, Nazaré Lopes abordará algumas das principais questões a ter em conta quando se desenvolve um estudo estatístico, salientando a forma como Huff as foi introduzindo e discutindo ao longo do livro. E estará aberta a discussão sobre enganos feitos com a estatística.


VÍDEO DE APRESENTAÇÃO DE "TODA A CIÊNCIA (MENOS AS PARTES CHATAS)"

David Marçal apresenta o livro que coordenou: aqui. 

Economia e Evolução

O meu parceiro de blog Desidério diz que não existe mistério na justificação da existência de uma economia depois de eu ter iniciado a discussão aqui. Como esta é(*), provavelmente, a maior discussão da história sobre tal coisa (obrigado Carlos e Armando) não me parece que deva ficar por aqui e por isso cá vai mais uma, a bem da nação.

A selecção natural é um processo universal de optimização, i.e., uma forma de resolver um problema dentro de um dado conjunto de constrangimentos que leva a mais que uma solução. A natureza usa-o para determinar que espécies devem existir, os gestores de fundos usam-no para determinar que activos devem compor o fundos, os arquitectos de soluções usam-no para determinar que recursos computacionais devem estar disponíveis para o leitor ler esta posta. Dizer que é um produto da evolução por selecção natural não acrescenta nada à compreensão do fenómeno porque tudo o que existe é produto desse processo evolutivo, i.e., dizer que existe e dizer que é produto da selecção natural são duas afirmações equivalentes.

Pegando de onde estávamos, a pergunta que ajuda à compreensão da existência do fenómeno é "qual é o factor diferenciador que possa levar a uma economia tem e que não leva às outras interacções de grupo?". As baleias têm comunicação e alguma inteligência, já foram observadas formas de cultura em macacos, as formigas e as abelhas têm formas altamente bem sucedidas de sociedade. Todas estas sociedades existem, todas elas são produto da evolução. Perante os constrangimentos que eram apresentados pelo meio ambiente, o processo evolutivo seleccionou estas soluções como soluções de sucesso(de elevado "fitness", para os fanáticos da algoritmia).

No entanto, a natureza seleccionou outra solução que, não só se tornou um sucesso perante os constrangimentos, como eliminou os constrangimentos (bem, quase todos, há a questão dos vírus, da vida do Sol, do tamanho do planeta,...). O conjunto humano continua a formar interacções económicas num processo de "clustering" juntando cada vez mais elementos ao sistema, ligando os vários subsistemas,  criando mais mundo onde ele não existia (virtual) para onde expandir o sistema. Há muito que as questões de sobrevivência estão eliminadas, que o processo de selecção natural não só está vencido, como acontece em todos os outros casos, como está "descontrolado" ao ponto de os contrangimentos terem sido destruídos.

Esta solução difere fundamentalmente de todas as outras soluções num aspecto fundamental e que não tem nada a ver com inteligência, pelo contrário. É um processo multiplicativo, absolutamente divergente (daí a necessidade do mundo virtual para se expandir) completamente fora do equilíbrio. O ser humano "destrói" tudo à sua volta para construir o mundo económico que está sempre, sempre, a crescer. Isto só tem uma explicação, na minha modestíssima e pouco credível opinião, é a existência de um instinto económico que não tem um mecanismo de "feedback". Que a natureza nos colocou sem que o mecanismo compensatório tenha sido desenvolvido, daí o carácter divergente da solução.

As interacções económicas são sempre diferentes das anteriores devido impulso de consumir e produzir. Não se troca algo por algo igual, por definição isso não é uma troca. Por isso, o ser humano vai sempre escolher o que não tem, ao contrário de todos os outros mecanismos de interação que resultam sempre na mesma troca. Se fosse sempre a mesma troca, ela só existiria se houvesse necessidade de troca, i.e., se os lados da troca não tivessem aquilo que vão trocar. Isto é um mecanismo compensatório de per si, "como tenho não quer ter".  Mas se sou impelido a ter tudo, se basta o que quero ser diferente para essa sensação de falta surgir ("escassez", segundo os economistas teóricos), o mecanismo compensatório desaparece e o sistema não para de crescer.  


Concluindo (por enquanto, que tenho que ir fazer crescer ainda mais sistema) a evolução deu-nos a economia, mas não explica a sua existência porque a evolução deu-no várias soluções, mas só uma é a economia. E esta só se explica se olharmos para o carácter divergente dela comparativamente com todas as outras soluções encontradas pela natureza que são soluções de equilíbrio. E, respondendo também a alguém que comentava ontem "porque existe? Eu quero saber para quê!", não é fundamental saber se o instinto existe de facto ou não. Basta saber que, em boa aproximação, todos os efeitos são semelhantes e, logo, para os efeitos pretendidos - a explicação do "para quê" - chega. E o "para quê" já lá vamos.


(*) Se tivesse havido outra, as últimas crises não teriam ocorrido!

terça-feira, 18 de junho de 2013

Há economia porque é evolutivamente eficaz


O João pergunta aqui por que há economia. Ora, o dilema reiterado do prisioneiro mostra que há vantagens evolutivas na cooperação; e é isso que observamos em muitos outros animais, que têm comportamentos que beneficiam o grupo à custa de algum custo pessoal. Tecnicamente, isto chama-se "altruísmo", em biologia, ainda que o termo seja algo abusivo e enganador. Ora, quando há vantagens evolutivas em algo, é natural que os organismos que por acaso adoptam esse comportamento ou nascem com essa característica acabem por deixar mais descendentes do que os outros. Isto levanta alguns problemas de explicação biológica, pois parece indicar que há selecção de grupo, o que parece incompatível com a ideia de que a unidade da selecção é o gene. Mas muitos biólogos e cientistas evolucionistas não vêm aqui qualquer incompatibilidade. E. O. Wilson e Sloan Wilson, por exemplo, defendem a selecção de grupo, ao passo que Steven Pinker a contesta, assim como Dawkins (este último de uma maneira autoritária que nem apetece ler: o argumento central dele é que a maior parte dos biólogos, das maiores autoridades na área, não acreditam nisso e por isso o Wilson é parvo. Enfim.).

Ora bem, as trocas económicas são comportamentos de grupo que resolvem variadíssimos problemas, permitindo que aqueles grupos humanos que a adoptam tenham vantagem competitiva sobre os outros. Por isso não é de espantar que tais comportamentos conquistem a generalidade das populações humanas. Na verdade, parece haver indícios arqueológicos de que essa foi uma inovação crucial introduzida pelo Homo sapiens quando entrou na Europa e desalojou o homem de Neandertal: as trocas comerciais. No caso do sapiens encontramos artefactos produzidos com materiais que tiveram de viajar centenas e às vezes milhares de quilómetros, mas isso não parece acontecer com os neandertais.

Conclusão: a origem das trocas económicas parece-me não ser particularmente difícil de explicar cientificamente; certamente não é mais difícil de explicar do que qualquer comportamento de grupo que beneficia o grupo.

Hoje temos vários estudos que mostram que os comportamentos económicos intuitivos das pessoas estão optimizados para estimular a cooperação e castigar o free-rider, o explorador que beneficia do grupo mas nada contribui para o grupo. Algumas experiências mostram que as pessoas não se importam de gastar mais dinheiro para garantir que o free-rider desconhecido do grupo seja apanhado. Isto surpreendeu inicialmente os economistas, mas faz todo o sentido: quando não apanhamos os exploradores do nosso grupo, torna-se irracional não explorar os outros. É por isso que em sociedades onde os exploradores não são apanhados, como Portugal, quase ninguém é honesto: não roubar quando muita gente rouba quando pode é pura e simplesmente irracional.

Portanto, no desenho das instituições temos de garantir que os free-riders são apanhados. Em Portugal ocorre exactamente o inverso: tudo está concebido para que os free-riders (a começar pelos políticos e pelo funcionalismo público, mas prolongando-se por todas as classes elevadas, jornalistas, artistas, intelectuais, etc.) explore as pessoas que trabalham no duro e não têm outras alternativas. Praticamente as únicas pessoas que não exploram as outras em Portugal são os empregadores, os empresários. Mas a população pensa exactamente o contrário: que estes e não aqueles é que são os free-riders. É a magia da mentira ideológica. Tal como nos regimes comunistas em que depois de se ter acabado com os chamados capitalistas as pessoas continuam a viver mal acreditando que é por culpa dos capitalistas que já não existem, em Portugal as pessoas acreditam que vivem mal devido às únicas pessoas que lhes dão alguma coisa, e não devido às pessoas que consomem a riqueza dos outros sem nada rigorosamente darem em troca.

Um futuro melhor?

Segundo dados coligidos pelo Projecto Farol, o custo por aluno no ensino secundário aparece nos lugares cimeiros da OCDE, e o número de alunos por turma está dentro da média apurada por aquela instituição. Contudo, as taxas de insucesso colocam Portugal nos últimos lugares de um ranking de 36 países estudados por aquela organização.
Conclui-se assim que o sistema educativo português, com uma base de financiamento similar à dos países da OCDE, apresenta resultados bastante abaixo da média. O que significa que não é mais dinheiro que vai resolver os problemas da educação e é noutras vertentes que está a solução do problema.
Por isso, há que desmistificar a argumentação de que mais e melhor educação se resolve simplesmente com mais dinheiro, mais professores, menos alunos por turma, como tem sido veiculado pelo lóbi dos professores e da chamada “escola pública”.
Isso seria negar qualquer ideia de produtividade, a de ensinar melhor com menos dinheiro. E isso é possível, reorganizando, dando efectiva e competente liderança às escolas, adequando as turmas aos recursos disponibilizados. E consolidando nas escolas a cultura de auto-exigência e de prestação de contas.
Excerto do Manifesto Um Futuro Melhor para Portugal.

Porque é que existe economia?


In the search for the ‘guilty men’ responsible for the collapse of the global economy, one obvious group has escaped blame: the economists.... It may be true that all bankers are greedy, all politicians venal, all regulators blind and all accountants stupid. But such personal failings do not explain their behavior in the past few years. (...) We are where astronomy was when Copernicus realized that the Earth revolves around the Sun. The academic economics of the past 20 years is comparable to pre-Copernican astronomy, with its mysterious heavenly cogs, epicycles and wheels within wheels or maybe even astrology, with its faith in star signs.

Anatole Kaletsky, Editor-at-Large, The Times, Fevereiro 5, 2009




Pergunta básica, não é? Porque é que existe uma economia deveria ser uma pergunta respondida muitas vezes. Ou não. Na verdade, ninguém sabe porque é que existe uma economia. E fazendo uma pesquisa por essa net fora não existe uma única página, um artigozinho da wikipedia que defina economia (o sistema, não o ramo do conhecimento que o estuda, esse escreve-se "Economia") sem recorrer a conceitos internos à economia, como bens, serviços, produção,etc. A pergunta é bastante mais fundamental, é porque é que o homo sapiens evoluiu criando um sistema de troca?

Tal como os físicos não dão uma explicação para o porquê de existir um universo - explicam a origem mas não o porquê dessa origem - os economistas também não se dedicaram muito à explicação do porquê da existência do sistema. Manda a lógica que o porquê da origem do sistema esteja no domínio da biologia, do animal que é o único que formou um sistema de trocas. E, nesse domínio, já se consegue encontrar alguma coisa (*) sem certezas, mas um homem económico é muito mais eficiente que uma besta dum primata que só se preocupa com aquilo que vai comer logo. Porque o homem económico vai  procurar matar um bicho para comer enquanto o outro lhe constrói o abrigo, sabendo que o que constrói o abrigo vai conseguir comer e o que matou o bicho vai estar abrigado durante a noite, trocando o trabalho. Esta especialização faz com que os dois homens valham mais que a soma de dois primatas auto-suficientes em termos  de capacidade de vencer o ambiente que os rodeia. Já os dois homens têm abrigo e comida, ainda os primatas auto-suficientes andam a lutar por um pedaço de carne.

Isto explica alguma coisa, mas não explica tudo. Não explica porque é que depois de eu ter levado o bicho para casa, ainda quero comprar mais coisas. Explica porque conseguimos comida mas não porque saímos do alojamento para ir para uma fila de noite para ver se somos os primeiros a ter um iPad. Como é que de trocarmos um trabalho básico por outro trabalho básico andamos hoje a trocar modelos matemáticos, programas de computador, espaço de processamento, arte, etc. A verdade é que se os nossos "irmãos" primatas andam a projectar fezes uns aos outros fisicamente e se nós o fazemos de forma higiénica através da internet, é por causa de termos uma economia.

Uma explicação plausível é a existência de um instinto económico. Algo gravado no nosso processamento biológico que nos deu a vantagem competitiva de ter uma economia e que, passadas as necessidades de sobrevivência, nos continua a atormentar para continuarmos a consumir e a produzir para consumir. Os economistas chamam-lhe "escassez", algo que não tem nada a ver com raridade natural, mas com o sentimento de necessidade de qualquer coisa que não temos. Um campo que atrai as partículas do sistema económico a ligarem-se de forma a trocar trabalho que ainda não têm. Diversos animais trocam trabalho, mas não têm uma economia porque trocam sempre o mesmo tipo de trabalho. As formigas, as abelhas, os lobos e outros animais sociais trocam sempre o mesmo tipo de trabalho para o qual nasceram. Para o homem, trabalho que tem que ser sempre novo e tem que fazer escolhas livres para que tenha escassez de coisas novas. E pode ter sido este instinto adicional que nos trouxe ao domínio esmagador do meio ambiente que nos rodeia.

Tal como a criação do universo, não é possível reproduzir a experiência. Conseguimos ter algumas evidências que corroboram esta teoria deste Big Bang económico como temos da teoria do Big Bang do universo, mas na realidade não é possível reproduzir aquela mutação que trouxe o instinto económico da mesma forma que não é possível reproduzir o início do universo ou a mutação que nos trouxe o instinto sexual. A verdade é que todas as evidências apontam nesse sentido.

Porque é que isto é importante? Bem, para a esmagadora maioria dos economistas parece ser irrelevante. Mas, usando o brilhante parágrafo de Kaletsky que transcrevi lá em cima, isso não deve ser estranho para todos os outros que não são economistas. A maior parte das pessoas aborda a explicação de um problema começando pela razão pela qual o problema existe. Mas na altura em que nasceu a Economia como ramo do saber, não havia internet, não havia dados, não havia comunicações, não havia forma de saber que se estava errado. A altura de saber que se estava errado aconteceu há menos de 10 anos em que a maior crise económica global da história rebenta com toda a gente "certa" no que estava a fazer(que converge para a única forma de estarem todos errados ao mesmo tempo).

Eu, por mim, gosto desta explicação do porquê de haver uma economia. E diz-nos muito dos mecanismos da dita e de algumas características que são autênticas "fases de Vénus" na explicação de um sistema tão misterioso para nós que o compomos, mas para isso terei tempo...

(*) R. Lipsey and P. Steyner. Economics. Harper & Row, 2005.



 

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...