Post convidado de Galopim de Carvalho:
Nunca apreciei a tão falada Sala dos Actos da veneranda Universidade de Coimbra. Repositório de uma tradição de pompa e circunstância, ainda bem viva na cidade dos doutores que por ali passaram e estão a passar grandes vultos da inteligência lusitana. As poucas vezes que entrei neste casarão desconfortável, frio e soturno, fi-lo na condição de membro de júris em provas académicas, sempre ali realizadas num cerimonial muito ao gosto dos meus colegas coimbrões. Quais avejões negros, em ritual funéreo, os meus pares, carregados de circunspecção, perpetuam uma prática elitista, aos meus olhos obsoleta e bafienta, com a qual nunca me identifiquei.
Eu, que por decisão própria, não adquiri o traje académico que me competia usar, sempre aqui me apresentei, mal-ajeitado, numa farda que não era a minha, ora apertada, ora larga e comprida, emprestada para o efeito. Fazendo um breve parêntese, recordo que, em idênticas provas na Universidade de Lisboa, a obrigatoriedade do uso do traje académico (concebido e aprovado ao tempo do Prof. Marcelo Caetano, como Reitor) tem vindo a esmorecer, quanto a mim, louvavelmente, num testemunho de maior valorização dos conteúdos, isto é, da criação do saber, relativamente à forma, ou seja, à encenação.
A última vez que participei como membro de um júri em Coimbra, nesta imensa sala e bem ao estilo da austeridade e da fidalguia intelectual de tempos idos, jurei a mim próprio que nunca mais ali voltaria em serviço da Universidade. E cumpri. Foi em meados dos anos 90 do século que passou.
Ao fundo, num cadeirão enorme, feito trono, em posição de destaque, como é tradição, o Reitor presidia, solitário e de longe, às provas de agregação de um dos seus Doutores. Aparentemente desinteressado, cumprindo o seu dever, escondia o bocejar atrás de um molho de folhas de papel A4 que, ora folheava, a modos de ler qualquer coisa, ora usava como abano, mais para passar o tempo ou iludir o tédio do que para suavizar o calor ou afugentar uma mosca, duas coisas que ali não havia.
Em baixo, o candidato configurava o réu, falando e olhando para cima, para nós, seus inquisidores. Nós, pelo contrário, do alto dos nossos assentos e, também, da nossa importância, falávamos, olhando-o de cima para baixo. Mas, até aí, tudo bem. Simpática ou não, tradição é tradição e não sou eu, nem muitos como eu, que a vamos alterar. O pior estava para vir.
Uma vez por outra, eu levantava os olhos para o alto da grande parede em frente e ia recordando a História de Portugal, aprendida meio século atrás, na 4ª classe, ali evocada numa correnteza de grandes e toscos retratos dos nossos gloriosos reis, a começar no que fundou a nacionalidade, logo seguido do D. Sancho I, e por aí fora, até ao limite da visibilidade possível a partir do lugar onde, desconfortavelmente, me sentava e os pés baloiçavam e me arrefeciam.
Deste júri faziam parte sete professores da casa e três de fora, entre os quais, eu. O desenrolar das provas não se afastou daquela normalidade em que candidato e arguentes debatem desapaixonadamente os seus pontos de vista em torno do trabalho em apreciação. Nada que se parecesse a autênticas batalhas, a que me foi dado assistir em décadas de docência, nas quais, muitas vezes, mais do que arguir, o arguente queria era brilhar e exibir o seu muitíssimo saber. Tudo foi correcto e tranquilo nesta sessão em que a argumentação foi confiada a dois dos professores visitantes e na qual, os professores da casa, calados, foram meros assistentes entre um público constituído por alunos, colegas, pais e outros familiares do candidato.
Findas as provas e numa outra sala, o júri reuniu para votar. Cada membro daquele colectivo recebeu, da mão do Reitor, duas bolas do tamanho de berlindes, uma branca e outra preta. Sobre uma mesa, à nossa frente, havia duas urnas, uma branca e outra preta. Para votar a aprovação do candidato, cada um de nós devia colocar a bola branca na urna branca e a bola preta na urna preta. Trocar as cores das bolas com as das urnas significava reprová-lo.
Com a urna branca na mão, prestes a tornar conhecido o seu conteúdo, o Reitor relembrou que o número de bolas brancas ali introduzidas versus o número de bolas pretas ditaria o resultado. Mais brancas do que pretas, o candidato estava aprovado; mais pretas do que brancas determinavam a sua reprovação. Em confirmação do resultado desta primeira contagem, abrir-se-ia a urna preta, na qual as bolas tinham significado inverso.
Da urna branca saíram, então, sete bolas pretas e três brancas. Incrédulo do que estava a ver, a iniquidade desta votação era, de seguida, confirmada com a abertura da urna preta. O candidato fora reprovado. O modo em que as provas haviam decorrido não apontava, de modo nenhum, para um desfecho assim. Matematicamente, a maioria daquelas sete bolas pretas reflectia a vontade dos professores da casa. Soube, que além de mim, outro dos professores convidados votara a favor do candidato. Feitas as contas, era evidente que, pelos menos, seis dos sete coimbrões votaram contra ele. Tornou-se-me então evidente que, entre os meus colegas da cidade dos doutores, havia entendimento prévio relativamente a este triste resultado, por razões que desconheço, mas que, também ficou evidente, nada terem a ver com a competência científica e profissional do visado. Não custa deduzir que sabiam, à partida, que tinham maioria para manter o seu propósito. Este propósito não foi, porém, declarado na reunião de júri que, por regulamento, antecede as provas públicas, e na qual se discutiu e se decidiu sobre a admissibilidade do candidato às mesmas. Nessa reunião prévia, os professores da casa podiam, por maioria, ter recusado admiti-lo, só que cada um deles teria de justificar, de cara destapada, a sua decisão. Na acta dessa reunião ficou, pois, registada a admissão do candidato às provas que requerera.
Se, por razões que me escapam, as cúpulas locais não desejavam admitir o candidato no seu seio, deviam tê-lo declarado na dita reunião prévia e não o fizeram. Tinham, assim, evitado todo o incómodo, todo o trabalho que nos causaram e todo o mau estar que este lamentável episódio provocou. Como se costuma dizer, caiu-me o coração aos pés. Caíram também aos pés todos os corações dos que, cá fora, rodeando o candidato, aguardavam o momento de o felicitar. Um balde de água gélida desceu a nobre escadaria da Universidade. Nos rostos dos presentes pairavam lágrimas, dentes cerrados e olhares apáticos, imobilizados pela estupefacção. Sem querer e sem o saber eu acabava de participar num acto que considero vergonhoso e que recordo como o pior episódio que me foi dado testemunhar em quarenta anos ao serviço da universidade portuguesa. Esta deselegância, por parte dos colegas coimbrões, pôs a nu laivos de hipocrisia dissimulada sob uma habitual falsa capa de bonitas palavras e gestos de simpatia e de afecto.
De pasta na mão e farda dobrada no antebraço do outro lado, os meus colegas de Coimbra iam saindo, a caminho da sua importância, sem olhar para o grupo dos ofendidos a que me juntei.
Numa pastelaria da cidade, apalavrada para servir o habitual beberete, em regozijo deste tipo de acontecimentos, as confecções secaram sobre as mesas postas, os copos permaneceram vazios nas toalhas brancas onde haviam sido alinhados e as garrafas não foram abertas.
Felizmente que o tempo tem vindo a varrer estes avejões e parte do que de obsoleto e bafiento perdurava nestas e noutras torres de marfim. As cátedras estão a dar lugar a disciplinas, acabaram-se os lentes, substituídos por professores, e os sábios fossilizaram, tendo evoluído, democraticamente, para investigadores ou trabalhadores científicos, como se preferir chamar-lhes. Banalizado pelo número crescente de universidades públicas e privadas, nem sempre dignas desse nome, o título de Reitor tem vindo a perder o prestígio que o adjectivo Magnífico lhe conferia, um termo a juntar a outros caídos em desuso.
Não tinha passado um mês sobre a redacção que fiz desta lamentável ocorrência, o Jornal de Notícias divulgava através da net, em 16/03/07, a medida à qual dou todo o meu aplauso: o Governo instituiu, relativamente às provas de agregação, a obrigatoriedade de a maioria dos membros do júri ser externa à universidade onde são prestadas. A votação do júri deve ser nominal e fundamentada, “terminando com o inaceitável secretismo actual”.
António Galopim de Carvalho