segunda-feira, 26 de novembro de 2012

VALIDAR A HOMEOPATIA É SER CÚMPLICE DE UMA FRAUDE


Penso que é óptimo discordar e o unanimismo não é o objectivo de qualquer espaço de debate que verdadeiramente o seja. As publicações de Desidério Murcho (esta e esta) são por isso muito benvindas, pois são uma oportunidade de aprofundar a questão.

1. Eu nunca disse que a homeopatia deveria ser proibida. Eu defendo que é um erro regulamentá-la e que o Estado reconheça cédulas profissionais de quem a exerce, porque isso é uma validação que induz as pessoas em erro. Faz algum sentido o Estado reconhecer certificações de videntes ou astrólogos? Ou aprovar uma licenciatura em biologia de dragões e unicórnios? Não faz sentido dizer que há pessoas que estão habilitadas a exercer uma coisa que não funciona e outras que não.

2. A liberdade de escolha de que estamos a falar é a possibilidade de se poder escolher um tratamento que não funciona, tendo a expectativa de que funciona. Isto é uma fraude. Podem-se vender torradeiras avariadas, dizendo que funcionam? Deveria poder-se? Será que se deve também reconhecer o resgisto notarial de terrenos noutras dimensões? Como vivemos numa sociedade em que o consumo (entre outras coisas) é regulado com vista a proteger os consumidores, não me parece que faça sentido que o Estado seja neutro nesta questão, que é de consumo e de saúde pública.

3. As terapias alternativas não são inofensivas. Será que um seropositivo deve poder escolher entre os medicamentos anti-retrovirais e um suplemento vitamínico que nenhum efeito tem, e o Estado deve aprovar e comparticipar ambos os tratamentos? Isto não é um exagero teórico. Aconteceu realmente na Africa do Sul, pelas mãos de um criminoso chamado Matthias rath. Será que devemos induzir nas pessoas que viajam para regiões onde a malária é endémica a ideia de que é igualmente seguro escolher entre a profilaxia para a malaria convencional e um  remédio homeopático? Isto também não é um caso hipotético. Quando o Estado certifica profissionais de uma "medicina" que não funciona está-lhes a conferir um selo de validade, contribuindo para enganar as pessoas, e pondo a saúde de muita gente em risco desnecessariamente.

4. Compreendo o que diz Desidério Murcho acerca da liberdade de escolher coisas erradas e concordo que as pessoas devem ser livres de escolher. Mas devemos contribuir para que possam fazer as melhores escolhas possíveis. E regulamentar a homeopatia não é um contributo para esclarecer a questão. É lançar a confusão, criando o equívoco de que a homeopatia têm uma validade que não tem.

5. Não estamos a falar de impor legislativamente a ciência às pessoas. Estamos a falar do contrário: impor legislativamente a pseudociência às pessoas. Nesse chapéu de "liberdade" não deveríamos também permitir que o criacionismo seja ensinado nas aulas de ciência como uma teoria científica alternativa à evolução? Já foram feitas várias tentativas nesse sentido nos Estados Unidos, que passaram por vários processos judiciais. Afinal, também há mesmo muita gente que acreditda que os seres vivos foram desenhados por um grande arquitecto inteligente. O problema é que para tratar a SIDA, que é causada por um vírus em evolução rápida, é necessário reconher que a evolução ocorre. Ou que para tratar infecções com antibióticos (um excelente exemplo de produtos naturais usados para fins médicos) é necessário também ter em conta que as bactérias são capazes de evoluir e desenvolver resistência a antibióticos.

6. Na imagem está Matthias Rath, um licenciado em medicina que vende tratamentos que não funcionam para tratar doenças graves (como o cancro e a SIDA), mas em quem muita gente acredita, pois neles é levada a acreditar.

Em defesa da liberdade



Agradeço os comentários ao meu postal anterior. Penso que é tempo de fazer um sumário. Infelizmente, nenhum dos comentadores me convenceu da iniquidade que seria o enquadramento legal da homeopatia. E não consegui mudar de ideias quanto à iniquidade que seria excluir a homeopatia do enquadramento legal.

As minhas razões são simples: qualquer profissão tem o direito de ser reconhecida pelo estado, seja ou não uma tolice, desde que não obrigue seja quem for a consumir os seus serviços. Não vejo como negar este princípio quando se raciocina de modo imparcial sobre o ordenamento de uma sociedade. Claro, se me perguntarem se prefiro viver numa sociedade com crendices ou literacia científica, eu prefiro a última. Mas dado o facto de realmente haver quem acredita em coisas que eu considero crendices — e que elas não consideram crendices — então a imparcialidade manda-me aceitar e enquadrar essas pessoas, de modo a que se sintam com o mesmo direito a estar nesta sociedade do que eu, e desde que se salvaguarde o meu direito não só de não reconhecer a cientificidade ou eficiência das suas práticas, mas também de as pôr em causa publicamente, de não as consumir e de desencorajar as outras pessoas de as consumir.

Como se vê, o que eu defendo nada tem a ver com a homeopatia ser ou não uma pseudociência. Isso é completamente irrelevante. O que é relevante é haver quem queira praticá-la — seja como homeopata, seja como cliente do homeopata.

Repito que a minha posição não é relativista. Eu seria relativista se aceitasse que as verdades são relativas ao que as pessoas pensam. Não aceito tal coisa. Se a homeopatia não for eficaz, não será eficaz, por mais que as pessoas pensem que o é. E se o for, sê-lo-á, por mais que outras pensem que o não é. Mas em questões legislativas não é a verdade que conta; são as escolhas das pessoas que contam. E estas escolhas têm sempre de ser respeitadas, desde que não prejudiquem terceiros de um modo claro e inequívoco. E quando prejudicam, precisam apenas de ser regulamentadas cuidadosamente, para salvaguardar os direitos de terceiros. O David Marçal confunde o que ele gostaria que a sociedade fosse, e que eu também gostaria que a sociedade fosse, com o que ele tem a legitimidade de impor aos outros que seja. Eu gostaria que as pessoas lessem mais literatura, filosofia e ciência, e que vissem menos telenovelas e menos futebol e que dessem menos importância à politiquice quotidiana, que fossem mais reflectidas e cultas e menos boçais e frívolas. Mas não são. E como não o são, seria da minha parte inaceitável ordenar a sociedade de modo a que elas se sintam pior na sua própria sociedade, pois têm tanto o direito a sentir-se integradas na minha sociedade como eu — desde que não me impeçam a mim de ter um estilo de vida que a elas não interessa. Precisamos de aprender a viver harmoniosamente em comum, com as nossas diferenças radicais. E se formos menos fundamentalistas, talvez até tenhamos algo a aprender uns com os outros.

Lamento que neste blog eu seja o único autor a defender inequivocamente a liberdade de ser tolo, frívolo, boçal, irreflectido, anticiência, crédulo, ignorante, etc. Há uma grande diferença entre divulgar uma maneira alternativa de ver o mundo, com a ajuda da ciência e da cultura, e impor essa maneira de ver o mundo a quem a rejeita. E é de arrepiar os poucos cabelos que me restam quando penso em David Marçal e Carlos Fiolhais a impor legislativamente a ciência às pessoas. Talvez eu esteja a ver mal, mas discordo frontalmente e publicamente dessa mentalidade ditatorial e impositiva — reconhecendo contudo o direito a que defendam tal mentalidade publicamente. Desde que me reconheçam o mesmo direito a mim, como certamente reconhecem.

A liberdade  não passa de um termo prostituído se não for precisamente a liberdade para que os outros façam o que a nós nos parece a mais rotunda tolice. E em Portugal, devido à nossa triste recente história, ainda muitas pessoas não entendem a liberdade. Quando essas pessoas são cientistas e pessoas com uma marcada e saudável intervenção pública, talvez seja uma boa ideia dar a conhecer aos leitores uma posição — mais do que uma posição, uma postura — alternativa. Faço minha a conhecida máxima atribuída a Voltaire, e que ele realmente nunca escreveu: “Discordo completamente de tudo o que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito a dizê-lo”. Descontando o exagero retórico, acrescento, como John Stuart Mill e antes dele Bento de Espinosa, que a mera liberdade para ter e exprimir opiniões de pouco ou nada serve se não pudermos pô-las em prática no ensino, na profissão, no modo de vida. Defendo por isso o direito inalienável dos portugueses a abraçarem a pseudociência, a ignorância, a telenovela, o futebol e o inesgotável rol de tolices humanas. Apenas os convido, muito cordialmente, a descobrirem alternativas, se as quiserem descobrir.

Passatempo “Pipocas com telemóvel…”: Oferta de um exemplar à resposta mais criativa



A Associação Viver a Ciência oferece um exemplar do livro "Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência" para quem der a resposta mais original sobre mirabolantes refeições que (não) possam ser confeccionadas usando as radiações dos telemóveis. Mais informações aqui.

domingo, 25 de novembro de 2012

BOA TARDE DE PIPOCAS COM TELEMÓVEL NA SIC

A participação de Carlos Fiolhais e David Marçal no programa da SIC Boa Tarde, a propósito do livro Pipocas com Telemóvel, pode ser vista aqui.

Uma moda que não é pedagogia, é pseudo-pedagogia

Escrevo este texto a partir de comentários de leitores a outro texto (Obviamente, já lá estão!), centrado num problema de que tenho vindo a dar conta neste blogue e noutros contextos. Problema que percebo com manifestações cada vez mais graves: a recolha de dados privados e íntimos dos alunos e das suas famílias, a que se segue a sua exposição pública.

Se alguns professores e encarregados de educação entendem que já se foi longe demais, que há muito se ultrapassaram os limites éticos e até legais; outros não vêem qualquer problema nessa situação, ou não pensaram nela; e uns ainda outros, percebendo o problema, pelo menos em alguns dos seus contornos, optam por responder ao que lhes é solicitado.

Para explicar o que afirmo concentro-me na recolha de dados "sócio-biográficos", através de ficha, questionário ou inquérito, a cargo dos directores de turma, os quais (erradamente) fundamentam o Projecto Curricular/de Trabalho de Turma.

Imagino que os primeiros sujeitos a que aludi não tenham a vida facilitada, os professores sentirão a necessidade de justificar-se junto dos colegas e do director; os encarregados de educação sentir-se-ão na obrigação de explicar porque devolvem os instrumentos não preenchidos. Perante uma prática instalada e não contestada, pode presumir-se que temerão ser mal compreendidos e que a sua decisão possa ter consequências negativas. Os segundos contactarão, sem sobressaltos, com os tais instrumentos, os professores distribui-lo-ão e trabalharão os dados como se de outros dados quaisquer se tratasse; os encarregados de educação prestarão, indiferentemente, as informação solicitadas ou dirão aos seus educandos para o fazer, talvez até acreditando que é para o bem deles. Os terceiros, numa atitude de conciliação, procurando não perturbar o que está instalado, para não serem mal interpretados ou para evitarem problemas… passam, os professores, os instrumentos e, os encarregados de educação, respondem-lhe, desviando-se estrategicamente de aspectos delicados, incómodos… as mais conscienciosas, tentado não mentir, omitirão informações ou usarão os subterfúgios que têm mais à mão.

Tendo em conta estas diversas posições, reforço o que dois leitores referiram:

1. O uso dessas fichas, questionário ou inquéritos “socio-biográficos”, ainda que de uso generalizado (em todas ou praticamente todas as escolas do país), indiscriminado (igual para todos os níveis de escolaridade, alunos…) e repetido (todos os anos ou em todos os inícios de ciclo) não passa duma prática acrítica que se instalou com toda a propriedade. Ainda que se tenha instalado por boas razões (conhecer melhor os alunos para melhor os ensinar) não tem nenhuma sustentação científica nem ética.

2. Não há qualquer indicação da tutela que as apresente como obrigatórias. Mas, ainda que houvesse, têm as escolas e os professores o dever de ponderar nas suas decisões o que é certo sob o ponto de vista científico e ético.

3. Alguns documentos normativos e legais, mesmo da tutela, acautelam o direito à reserva da vida privada dos alunos (em texto posterior listarei os documentos de que tenho conhecimento que contemplam este aspecto).

De tudo isto decorre que se estas fichas, questionários ou inquéritos forem suspensos não acontece nada de mal a ninguém, pelo contrário, suspende-se uma prática absurda, uma "moda", que nem sequer é inofensiva: é çesiva em termos individuais e contraditória aos propósitos educativos da Escola

Trata-se de uma "moda" que, ainda que se faça passar por pedagógica, é com todas as letras pseudo-científica.

MAIS RESPOSTAS SOBRE PIPOCAS

Algumas questões que foram colocadas a David Marçal e Carlos Fiolhais por Sofia Tavares, jornalista que trabalha para o programa "Boa Tarde" da SIC, a propósito do livro "Pipocas com Telemóvel" (Gradiva):

ST- Divertiram-se a escrever o livro?

DM- Claro que sim. Apesar de ser um assunto sério, a falsa ciência pode ser muito divertida. Todo o carrossel de argumentação para justificar coisas injustificáveis tem, em muitos casos, um efeito muito cómico para quem tenha um mínimo de cultura científica.  É o caso, por exemplo, das teorias da conspiração que envolvem  participantes extremamente improváveis em prol de objectivos absurdos.  Certas expressões, como "cientistas da NASA" ou "tecnologia quântica", também têm piada por aparecerem muitas vezes sem significarem nada a não ser uma tentativa de tornar credível aquilo que o não é.

ST- A Ciência não será, também, culpada das ideias erradas que circulam a seu respeito?
 CF- A ciência não, os cientistas sim. Poderão ser culpados por omissão, se não participarem no debate público e se não contribuírem para esclarecer o que é a ciência e o processo científico. Deveriam participar mais. O terreno fértil para a propagação da falsa ciência é a falta de cultura científica. A promoção da cultura científica é o único antídoto contra a imensa variedade de aldrabices científicas. Se as pessoas souberem o que é a ciência, que assenta na observação e na experiência, não serão enganadas por auto-proclamadas figuras de autoridade. Na promoção da cultura científica há muitos actores, a começar logo pela escola. Mas há outros, como os meios de comunicação social. Eles podem ajudar e ajudam a divulgar a ciência.
  
ST- Pensam que a maioria das pessoas irá criticar e sentir-se atacada pelas revelações que fazem no livro?
 DM- Não. Poderá, quando muito, haver pessoas que se sintam incomodadas por verem postas em causa algumas coisas que dão como certas. Mas nós não atacamos ninguém. Atacamos certas ideias, por estarem erradas apesar da sua apregoada sustentação científica. A sua base não é a ciência, mas sim a pseudociência. Chamamos a atenção para isso e que quando um faça o juízo que entender.
  
ST - O humor é uma constante... Por que razão decidiram abordar as histórias dessa forma?

CF- O humor não é o único tom do livro, que aborda um conjunto de assuntos sérios. Há, de facto, coisas na pseudociência que são tão absurdas que se tornam ridículas. Mas há outras que não são assim tão absurdas e é preciso explicar bem o que está em causa. O nosso estilo  também é uma questão de gosto pessoal, já que ambos os autores gostam de ver o lado engraçado das coisas. Quisemos escrever um livro que informasse e, ao mesmo tempo, divertisse.

ST- Ainda falta muito espírito crítico aos portugueses?
DM- O espírito crítico faz falta a todos, a uns falta mais e a outros falta menos.  Precisamos todos de mais. Esse espírito, que num grau elevado é uma marca da ciência, ajuda-nos a tomar as melhores decisões. Experimentar, observar, raciocinar, concluir com lógica são elementos do espírito crítico que são úteis não só na ciência mas na vida do dia a dia de todos. É muito fácil enganarmo-nos ou sermos enganado. De posse de espírito crítico, torna-se mais difícil. E, nesta época de crise, não convém nada que sejamos enganados.

ST- Qual é, no vosso entender, a pseudociência mais popular e aquela que poderá surpreender mais as pessoas?
CF- A pseudociência mais popular, que chega a mais pessoas, é aquela que está associada a produtos de consumo, coisas que se vendem em supermercados. Um exemplo importante é o dos iogurtes com probióticos, iogurtes com bactérias especiais, cujos benefícios para a saúde são amplamente exagerados pelas empresas que os vendem. Por causa disso, uma dessas empresas já foi multada em vários países e obrigada a retirar anúncios que foram considerados publicidade enganosa.

A que poderá mais surpreender talvez seja a homeopatia, porque muitas pessoas pensam que tem alguma base científica. Não tem, de facto. Os remédios homeopáticos são só água e açúcar e o único efeito que têm é o placebo, isto é, a ilusão de que funciona. Na apresentação do livro tomámos uma overdose de remédios homeopáticos e ainda estamos vivos.

 ST - Por que é que em Portugal as entidades reguladoras da saúde e para a defesa do consumidor não têm um papel mais activo no sentido de alertar as pessoas sobre a falsa ciência?
DM- É uma boa pergunta. A DECO faz um trabalho meritório na divulgação de algumas aldrabices. Talvez devesse fazê-lo mais vezes. Mas a ASAE também deveria intervir mais nestes casos tal como a a ERC  em casos de publicidade enganosa. Talvez por défice de cultura científica e por falta de participação de cientistas nessas entidades.

O facto de as autoridades que regulam os medicamentos continuarem a permitir que remédios homeopáticos sejam vendidos em farmácias é incompreensível. Atrevemo-nos a pensar que o nosso livro sirva para suscitar a discussão sobre esse e outros assuntos.

25 ANOS DE CIÊNCIA EM PORTUGAL




Texto de Carlos Fiolhais publicado recentemente na revista XXI - Anuário da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

Houve uma explosão da ciência em Portugal de 1986 a 2011, após a entrada do país na União Europeia. Há mais cientistas do que jamais houve e há mais artigos científicos. Tal se deve a um substancial acréscimo de investimento em Investigação e Desenvolvimento (I&D), que, no ano de 2008, ultrapassou 1,5% do PIB nacional (Fig. 1), elevando-nos da situação no fundo dos rankings internacionais em que estávamos para um lugar que, não sendo cimeiro na cena europeia, pelo menos já não nos envergonha. O investimento público em I&D em percentagem do PIB ultrapassou mesmo em 2005 a média europeia  (Fig. 2). Embora o aumento dos meios públicos tenha sido determinante, ele foi acompanhado pelo empenho das empresas: Em 2007, cerca de metade do investimento em I&D passou a ser conseguido à custa de meios privados.

 

Fig. 1 Crescimento da percentagem do PIB nacional investido em I&D (total e empresas).



Fig. 2 Comparação do investimento público em I&D em percentagem do PIB na União Europeia e em Portugal.

O investimento público foi particularmente visível na formação de jovens em ciência e tecnologia, muitos deles realizando doutoramentos ou pós-doutoramentos no estrangeiro, graças a um generoso sistema de bolsas que nos guindou, nesse indicador, a um lugar de destaque na Europa. A expansão da ciência em Portugal deu-se, como não podia deixar de ser, num quadro de forte internacionalização da ciência nacional. O país passou a integrar grandes laboratórios e consórcios internacionais.

Outros indicadores completam o que foi dito sobre o investimento, podendo os mais relevantes ser consultados na PORDATA. Por exemplo, em 1986 havia 1,2 investigadores por cada mil activos (Fig. 3), mas, em 2010, já havia 8,2, valor que deve ser comparado com 6,5, a média da União Europeia, isto é, ultrapassámos a média europeia do número de investigadores. A nossa quota feminina na investigação também se destaca a nível europeu, em reflexo do notável aumento do papel das mulheres em  Portugal após 1974. Por outro lado, em 1986 foram publicados 6,6 artigos científicos por cem mil habitantes (Fig. 4), ao passo que em 2010 esse número já era de 121,3, próximo da média europeia!



Fig. 3 Número total de pessoas em I&D  e de investigadores por mil activos.


 Fig. 4 Número de artigos científicos por cem mil habitantes.

O crescimento da I&D só foi possível graças a consideráveis financiamentos vindos da União Europeia. Mas é justo reconhecer que ele também se deveu à canalização que os sucessivos governos, alguns mais do que outros, fizeram de uma pequena fatia desses investimentos em favor do progresso nessa área. Num país onde a ciência não tinha grande peso histórico e onde a tecnologia era tradicionalmente importada em vez de desenvolvida localmente, o edifício científico português só foi erguido nas últimas décadas. Em 1995 foi criado o Ministério da Ciência e Tecnologia e, no ano seguinte, a Fundação para a Ciência e Tecnologia - FCT, o “braço armado” do apoio estatal à investigação. É incontestável o papel que o ministro José Mariano Gago teve à frente desse ministério, que deu em lugar em 2002 ao Ministério da Ciência e do Ensino Superior, ocupado por esse ministro entre 2005 e 2011. Face ao receio, na época talvez justificado, do imobilismo e burocracia académica, o sistema de I&D foi, porém, montado em larga medida à margem das universidades, embora mantendo ligações significativas, tanto formais como informais, com elas. Ao fim e ao cabo os investigadores seniores e a capacidade de formar  aprendizes estavam nas universidades. Foram, portanto, criadas, em geral por universitários, instituições privadas sem fins lucrativos para absorver os investimentos disponíveis e cumprir desejáveis metas de produtividade, que acresceram às unidades universitárias, que entretanto também se multiplicaram e desenvolveram. Complementando os Laboratórios de Estado, com algum trabalho prestado mas pouco inovador, fundaram-se novas unidades de grande dimensão devotadas a várias áreas da ciência, incluindo as ciências sociais e humanas, designadas por Laboratórios Associados, que, com a “bênção” do ministério,  passaram a viver de contratos-programa.

Para além do financiamento de base das unidades de I&D que dependia da qualidade (averiguada num esquema de avaliação internacional), foram montados concursos públicos, sujeito a avaliação por pares, de bolsas de doutoramento e de pós-doutoramento e de projectos, completados por programas para equipamentos de maior porte. Esta “rega” permitiu que a recém-plantada árvore da ciência desse rapidamente frutos. No sector privado, a Fundação Gulbenkian e a Fundação Champalimaud, a primeira já com tradição de meio século e a segunda fundada em 2004, desenvolveram programas muito competitivos em biologia e biomedicina, albergando equipas que concorriam vitoriosamente a fundos nacionais e europeus.

Do ponto de vista de visibilidade social, a ciência também cresceu e apareceu. A ciência não está só nos laboratórios mas também nos média e na rua. A cultura científica progrediu entre nós com a criação da Ciência Viva – Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, que apoia uma rede de centros de ciência interactivos espalhados pelo país.

Em 2011, após o pedido de ajuda do governo português e eleições antecipadas, o ministério responsável pela ciência passou a chamar-se da Educação e Ciência. O novo ministério tentou, num clima de dificuldades, manter a herança do anterior. Que balanço é possível fazer hoje e que desafios se apresentam? Se o desenvolvimento recente da I&D em Portugal é, em linhas gerais, uma história de sucesso,  o êxito não é completo. A falha principal é a debilidade da ligação da ciência com o sistema económico. Embora, em resultado do esforço em I&D, tivessem aparecido várias empresas startup, que nalguns casos vingaram (não existem muitos números para se poder ter uma perspectiva integrada), e embora tivessem também sido bem sucedidos alguns processos inovadores em indústrias tradicionais, a verdade é que esse esforço não teve suficiente impacto no sector produtivo. Houve, com certeza,  reflexos do esforço em I&D na economia, como foi o aparecimento em 2007 da balança de pagamentos tecnológica positiva (essa balança refere-se ao uso de serviços, patentes e marcas de base tecnológica, Fig. 5): Portugal passou a exportar mais serviços de ciência e tecnologia do que importa e estar-se-á, se essa tendência continuar, perante uma alteração significativa das estruturas produtivas e das áreas de desenvolvimento do país. Mas estamos longe de ter atingido dois terços do investimento em I&D a cargo de empresas, como acontece nos países mais ricos, quase não há doutores nas empresas e o repetido discurso oficial sobre inovação não encontra suficiente eco em resultados. Num mundo global e competitivo, onde não é fácil transferir valor da ciência para o mercado, o sistema de I&D nacional terá de se orientar mais nesse sentido. Só para dar um exemplo de dificuldades por resolver, Portugal continua, no que respeita ao registo de patentes paupérrimo numa comparação europeia (Fig. 6).


 Fig. 5 Balança de pagamentos tecnológica portuguesa.


 Fig. 6 Patentes concedidas na União Europeia e em Portugal.

Há um outro problema, relacionado com o anterior. Não conseguindo a economia absorver jovens qualificados em número suficiente, persiste um sério défice de emprego científico, para o qual têm chamado a atenção as associações de bolseiros e de investigadores, cujos membros têm apenas trabalho temporário. Os anúncios recentes de emprego público de investigadores são pálidos quando comparados com o boom que ocorreu com o programa Ciência em 2008, que permitiu a contratação de cerca de mil cientistas durante cinco anos. Muitos cérebros formados em ciência e tecnologia, que são afinal a nossa maior riqueza, estão, por isso, a procurar trabalho noutras paragens.

Não foi alterada a separação vinda de trás entre ciência e ensino superior. Apesar do nome do ministério, as Secretarias de Estado do Ensino Superior e da Ciência parecem algo desligadas. Por exemplo, a rede de cursos de 3.º ciclo (doutoramentos) não se encontra bem articulada com o sistema de bolsas da FCT. Existe, por isso, uma oportunidade para garantir a sustentabilidade do sistema científico, “casando” melhor, nas universidades, a ciência com o ensino superior.

O investimento em ciência está hoje a diminuir, somando-se o ligeiro decréscimo da percentagem do PIB em I&D com a queda do PIB. Esta “recessão” na ciência resulta não só do decréscimo do esforço do Estado, mas também da diminuição do esforço dos privados, em consequência da crise. Está na ordem do dia o futuro do sistema de I&D nacional – designadamente a angariação e a distribuição dos meios para continuar de forma sustentada o crescimento recente, de modo a prosseguir a convergência com os países mais desenvolvidos. Embora haja um programa europeu nesta área – o Horizon 2020 -, no qual devemos competir, será preciso contar cada vez mais com as nossas próprias forças em vez de depender quase exclusivamente das ajudas externas que até agora têm impulsionado a ciência.

Significará a crise o fim da expansão da ciência? Existirá vontade política clara para continuar a considerar a I&D uma prioridade nacional? Será que o potencial de criatividade dos nossos jovens vai ser aproveitado da melhor maneira? É certo que estamos a viver uma séria crise, mas não é menos certo que dispomos de algumas instituições credíveis em áreas vitais para o desenvolvimento e de recursos humanos altamente qualificados que há 25 anos não existiam. O país está mais preparado para o que der e vier.

Nuno Crato, o ministro da Educação e Ciência, conhece bem o valor da ciência na sociedade moderna e tenta inspirar confiança. O garrote orçamental está, contudo, a actuar indiscriminadamente sobre todos os ministérios, não tratando de modo diferente aquilo que, por ter dado sobejas provas de capacidade e competitividade, merece tratamento diferente. É nossa obrigação manter na ciência o esforço das últimas duas décadas e meia. Não se pode saber com precisão o futuro, mas sabe-se que, sem suficiente ciência e sem a inovação assente nela, não teremos um futuro promissor.

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Programa de Ciência e Inovação da FFMS

Apesar de o esforço em I&D ter sido bastante referido nas esferas políticas e mediáticas, ele está ainda insuficientemente estudado e avaliado entre nós. Não se conhecem bem as suas prioridades (explícitas ou implícitas), as suas virtudes e os defeitos, os seus êxitos e fracassos. O debate público sobre estas políticas é relativamente débil, restringindo-se por vezes às pessoas e às instituições interessadas. Com excepção de alguma auto-avaliação levada a cabo pela FCT e de algumas revisões da OCDE, pouco mais é publicamente conhecido e discutido. Importa, por isso, fazer essa avaliação e a Fundação Francisco Manuel dos Santos - FFMS, através do seu Programa de Ciência e Inovação, pretende contribuir para esse processo.

Esse Programa articula-se nas seguintes linhas:

1- Métricas e impacto da I&D, que permitam exercícios de avaliação.
2- Relação da ciência com as universidades. Foi realizado um primeiro encontro com as principais universidades portuguesas no Palácio de S. Marcos, em Coimbra, a 15 de Junho de 2012.
3- Ciência e Inovação. Para além de um estudo em curso por Manuel Mira Godinho, professor do ISEG, pretende-se estudar melhor o empreendedorismo de base científico-tecnológica.
4- Cultura científica. Importa conhecer melhor o estado dessa área entre nós.

Nota: Todos os grádicos são da PORDATA.

Carlos Fiolhais

O GRANDE RIO DO SUL

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho.

Naquele ano de 1961, acabado de contratar como 2.º assistente, o Prof. Carlos Teixeira, director do meu departamento, na Faculdade de Ciências de Lisboa, mandou-me acompanhar um seu colega francês, Prof. Daniel Laurentiaux, da Universidade de Reims, a realizar trabalho de campo na região de Mértola.

Tive, assim, oportunidade de percorrer em pormenor o Guadiana em alguns dos seus mais belos troços, hoje submersos, e isso encorajou-me a conhecê-lo de outros ângulos para além dos da geologia (na figura ao lado, o rio em Mértola, in tripadvisor.com).

“Dizem que havia um pastor antre Tejo e Odiana, que era perdido de amor per ua moça Joana, escreveu, no século XVI, Bernardim Ribeiro, na Écloga de Jano e Franco.

Grande rio do sudoeste ibérico, de importância capital na estruturação do território peninsular, o Guadiana foi usado pelos romanos como divisória entre duas das grandes províncias administrativas do império, a Betica, a oriente, e a Lusitania, a poente, confrontadas ao longo do troço que hoje corre a jusante do Caia. Até ao século VIII, designado por Ana, os Árabes respeitaram-lhe o nome, antepondo-lhe o elemento composicional uadi, que significa rio, o mesmo que está na base das designações de alguns cursos de água no sul do país, como Odeleite, Odemira e que está igualmente em uso nos uedes do noroeste africano, os vales secos correspondentes aos rios temporários característicos das terras semiáridas do Magrebe.

Uadiana ou Odiana foi o nome deste importante curso de água, eixo do Garb al Andalus, expressão que, em árabe, quer dizer o ocidente da Hispânia, ou seja, grosso modo, o conjunto da Andaluzia, Alentejo e Algarve. Odiana sobreviveu à reconquista, no século XIII, e assim se manteve, por mais três centenas de anos, na linguagem dos portugueses. Antre Tejo e Odiana era o nome da grande comarca e da circunscrição administrativa meridionais, ao tempo em que este rio foi fronteira entre os reinos de Portugal e de Leão e Castela. Por seu lado, os castelhanos transformaram o uadi, radicado na região ao longo de cinco séculos de ocupação islâmica, em guadi, elemento que ainda hoje compõe o nome de muitos rios do sul de Espanha, como Guadalimar, Guadalupe, Guadojoz e, o mais conhecido de todos, o grande Guadalquivir.

Guadiana é, assim, um nome importado que se impôs em virtude da sua posição raiana e que substituiu o antigo Odiana, influência que não se verificou com os nomes Odeleite, Odiáxere e outros com a mesma raiz, correspondentes a rios mais afastados da influência castelhana.

Desde sempre, como qualquer grande rio, o Guadiana foi pólo de atracção das populações. Os mais antigos testemunhos datam do Paleolítico, representado por abundantes utensílios em pedra lascada jacentes nos seus terraços. Tal atracção percorreu toda a Pré-história e os tempos históricos até aos nossos dias, sendo de assinalar, entre outros, os vestígios da ocupação romana, deixados nas minas de pirite de S. Domingos, a presença islâmica, hoje bem conhecida em Mértola, os vários castelos e praças fortes edificados nas suas margens e cercanias, o porto mineraleiro do Pomarão e as muitas dezenas de açudes construídos no seu leito a fim de lhe represarem as águas e, com isso, mover as respectivas azenhas.

Vista aérea da barragem de Alqueva

Na continuidade da relação do Homem com a terra, temos hoje a barragem de Alqueva, obra imensa que representa, para muitos, o mais recente e talvez o mais grandioso e esperançoso abraço entre o Alentejo e o grande rio. Assim os inconfessáveis interesses de alguns não estraguem as esperanças desses muitos.

Galopim de Carvalho

Mentalizar o mal é perigoso

De Lao-Tse, historiador e bibliotecário, contemporâneo de Confúcio, que viveu no século VI a.C. na China Antiga.

Mentalizar o mal é perigoso

Quando o homem não mentaliza o mal,
O mal não lhe acontece.
Deixa o mal no berço da maldade,
E o mal não desgraça o homem.
Ainda que o sábio conheça o seu sabor,
Não exibe valores.
Ainda que conheça a sua dignidade,
Não exibe valores.
Ainda que conheça a sua dignidades.
Ele conhece as suas possibilidades,
Por isso não exorbita dos seus limites.

In Tao Te King (tradução e notas de Huberto Rohden, São Paulo, Fundação Alvorada, p. 180).

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

MEDICINAS ALTERNATIVAS E CRIANÇAS INDIGO

O post de David Marçal, publicado hoje neste blogue, “Regulamentação das Medicinas Alternativas é uma Aldrabice Colossal”, mereceu-me o seguinte comentário: “Caro Professor David Marçal, no campo da saúde (e não só) quando se mexe em interesses a instalar, a reacção é sempre descabida e sem nexo. Sejam eles bruxarias, cartomância, horóscopos e quejandos… Haja paciência e bem haja por se fazer apóstolo de uma cruzada que tem em vista defender a Ciência”.

Dei comigo, logo a seguir e porque no post acima citado se fala em crianças Indigo, em consultar (e republicar) um post meu saído aqui em 6 de Abril de 2009, intitulado “Cursos de (de)Formação para Professores”. Nele escrevi:

“A educação consiste em saber dar à criança a quantidade certa de amor” (Sigmund Freud)

"Sempre que uma pessoa se defronta com algo de impensável, é costume (do qual não sei a origem) dizer-se, “desde que vi, no circo, um porco a andar de bicicleta já nada me espanta”. Mas será sempre assim? Dois factos levam-me a descrer.

O primeiro, reporta-se a um artigo publicado há anos no "Público" (08/05/2005), da autoria de Nuno Pacheco, com um título que não deixa dúvidas sobre a paródia em que se transformou o ensino em Portugal: “Brincar às escolas”! O segundo, diz respeito a um artigo acabado de sair no “Expresso” (04/04/2009) da autoria de Joana Pereira Bastos intitulado “Esoterismo pode contar para a progressão na carreira".

A semelhança dos casos que geraram os artigos gemina-os no dislate – ambos se referem a acções imaginativas de formação de professores - embora seja diferente a progenitura: o primeiro foi organizado pela “Associação Sindical Pró-Ordem dos Professores” (baptismo ridículo, comparável ao de uma “Ordem dos Professores Pró-Associação Sindical”!) e o segundo pela Fundação Casa Índigo. Os dois tiveram a caução do Ministério da Educação (ME).

Segundo Eça, “o riso é a mais antiga e ainda mais terrível forma de crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta de uma instituição, e a instituição alui-se”. Bem a propósito, foi este o destino que uma notícia sobre uma acção de (de)formação de professores mereceu de Nuno Pacheco. Ou seja, num artigo jocoso, de ponta a ponta, que ora transcrevo em parte (transcrevi-o na totalidade no meu livro “O Leito de Procusta”, 2005, ps. 83, 84): “Lê-se e, por melhor boa vontade, não se acredita. Não há pasmo que consiga descrever a sensação de estar perante tamanho disparate. Ainda vamos descobrir que os males do ensino se devem aos cortinados das escolas, ao mau ‘design’ dos equipamentos ou ao perfume usado pelos professores. Talvez ajude um pouco de meditação transcendental, talvez exercícios tântricos, talvez ‘feng shui’…”

Partamos, agora, ansiosos por novidades, para os objectivos da recente acção de (de)formação. São eles: “Aprendizagem de ‘técnicas pedagógicas para uma melhor integração das ‘crianças indigo, cristal, violeta, esmeralda, diamante ou douradas’, para além do conhecimento de ‘técnicas de regulação ou limpeza de energia’.

Por mais incrível que pareça (lá vem, outra vez, o porco e a bicicleta!) , o ME, sempre atento a tudo destruir sem nada construir, acreditou este curso ministrado pela Fundação Casa Índigo, que é, segundo o “Expresso”, “uma instituição baseada na teoria de que a ‘aura’ da crianças tem diferentes cores, em função da sua energia e da ligação que mantém com o Universo”. Nestas acções de formação, que dão créditos para a progressão na carreira, ”os docentes podem aprender ‘técnicas pedagógicas’ (…). Além de poderem igualmente ficar a conhecer ‘técnicas de regulação ou limpeza de energia’”.

Sobre os motivos da acreditação pelo ME deste tipo de acções poder-se-ão tirar, de entre outras, as seguintes ilações:

1.ª O ME sentindo-se incapaz de equacionar e resolver os problemas do ensino com medidas exotéricas enveredou pela via do esoterismo: as medidas agora são esotéricas.


2.ª O ME deve mandar encerrar, em respeito pela contenção das despesas públicas, todas as Faculdades de Psicologia e Ciências da Educação portuguesas por incapacidade de se tornarem parceiros científicos na investigação dos processos em melhorar o rendimento escolar sem ser pela via estatística.

3.ª O ME deve criar um corpo de incendiários para queimarem em fogueira pública todos os manuais de Psicologia e Ciências da Educação por transmitirem conhecimentos que atrasam e obstaculizam um país de faz-de-conta, um país com elevados níveis de escolaridade, espelhados em sucesso escolar sem paralelo neste mundo.

4.ª O ME pretende que todos os nacionais tenham escolaridade obrigatória de licenciado (antes de Bolonha) ou mestrado (depois de Bolonha), ainda que obtida à pala das miríficas “Novas Oportunidades” e “Provas de acesso ao ensino superior para maiores de 23 anos”, em concorrência desleal para com as escolas do ensino básico e secundário, que correm o perigo de se tornarem desnecessárias por a idade de 23 anos (e por que não 21 ou 22?) para além de ser um posto ter passado a ser um atestado de sapiência.

5.ª O ME providenciará a inscrição massiva dos novos diplomados, sem esperança no devir, nos Centros de Desemprego, com as cabeças cheias de nada e ocas de tudo, numa espécie da “Fundação Nacional de Alegria no Trabalho” (FNAT), do tempo da Outra Senhora, agora transformada em “Fundação Nacional de Tristeza no Descanso” (FNTD).

Como promessa, qual réstia de sol no céu plúmbeo de asneiras de cabo de esquadra, com copianço no pensamento de Sigmund Freud em epígrafe, surge a intenção da responsável da Fundação Casa Índigo: “O curso serve basicamente para os professores entenderem a necessidade de amar as crianças”. Até parece uma boa intenção. Mas, a exemplo do inferno, de boas intenções não estará o ME cheio?”.


Em defesa da aldrabice

Discordo da posição de David Marçal, por enfermar de uma incompreensão profunda de uma diferença crucial. Incompreensão que está na base de algumas das maiores asneiras da humanidade.

A diferença crucial é esta: há uma enorme, uma gigantesca diferença entre o meritório trabalho de esclarecimento que o David Marçal e o Carlos Fiolhais, entre outros cientistas portugueses, têm feito (e que é em parte a razão de ser deste mesmo blog), e a imposição aos outros das nossas ideias. Impor aos outros as nossas ideias nunca é uma boa ideia. E é especialmente uma má ideia se para o fazer tivermos a força do estado do nosso lado.

Usemos o exemplo da homeopatia. Há uma enorme, uma gigantesca diferença entre argumentar e mostrar que não funciona, e impedir as pessoas de a praticar, ensinar, divulgar, etc. A liberdade não é digna desse nome se não for a liberdade para os outros fazerem exactamente o que consideramos a mais tresloucada tolice. Ser fã de clubes de futebol, para usar um exemplo mais grave do que a homeopatia, é uma tresloucada tolice, mas seria uma tolice ainda menos recomendável querer proibir as pessoas de manifestar a sua boçalidade sendo fãs de clubes de futebol. Os livros de José Rodrigo dos Santos promovem a pseudociência — mas ele e a Gradiva têm o direito de os publicar.

É crucial — urgente — distinguir cuidadosamente o que é do âmbito do debate de ideias do que é do âmbito das políticas de uma sociedade.

Quanto ao debate de ideias, é crucial — urgente — que pessoas como o David Marçal e o Carlos Fiolhais nos esclareçam e discordem abertamente da homeopatia e expliquem por que pensam que não é uma maneira adequada de prevenção ou tratamento de doenças.

Quanto ao debate de ideias, a questão da verdade, da justificação e da prova é de suma importância. O que queremos de um debate esclarecedor é a justificação cuidadosa das afirmações, a produção de provas públicas reproduzíveis por terceiros — e toda a panóplia de procedimentos epistemicamente probos que, idealmente (ainda que infelizmente nem sempre realmente) constituem qualquer actividade academicamente séria (e não apenas a ciência, como é comum que os cientistas pensem).

Mas isso é quanto ao debate de ideias.

Já quanto às políticas que regulam a nossa vida comum numa sociedade, a verdade (mesmo quando é transparente, e raramente o é) é quase sempre irrelevante e é demasiadas vezes usada para oprimir os outros. É irrelevante que a homeopatia não cure pessoa alguma nem previna doença alguma, nem produza bem-estar algum. A única coisa relevante é haver pessoas que querem consumir homeopatia. Essas pessoas têm o direito de errar e é por isso que é irrelevante, para efeitos legislativos, saber se a homeopatia é “científica” ou não. (A palavra “científico” tornou-se hoje em alguns círculos o que a palavra “ortodoxo” era no séc. XVI — ai daquele que não for ortodoxo, perdão, científico.)

Para termos uma sociedade melhor precisamos de uma sociedade onde pessoas muito diferentes de nós — e com crenças e estilos de vida muito diferentes — se sintam tão bem quanto nós. Eu penso que a homeopatia é uma tolice para-religiosa, mas defendo o direito inalienável a quem não o pensa de ter nesta sociedade todas as condições possíveis (desde que não prejudique terceiros) para praticar, ensinar, divulgar e consumir homeopatia. Se eu não reconhecer a essa pessoa tal direito, estarei a insistir num arranjo político e social que é pior para ela, ainda que seja melhor para mim. E é irrelevante se ela tem razão ou não.

Repito: a única coisa que conta no que respeita às crianças Indigo ou à homeopatia é haver quem acredita nessas coisas. Os legisladores portugueses, ao regulamentarem tais coisas, têm razão, apesar de não terem razão em muitas coisas. Uma sociedade melhor não é uma sociedade dominada pela ditadura seja do que for — incluindo da ciência — mesmo que esse seja o que for seja verdade. A verdade nada deve ter a ver com os arranjos legislativos. Numa sociedade livre e democrática, os arranjos legislativos não existem para defender a verdade — oprimindo assim quem não acredita nela — mas antes para regulamentar da maneira mais sábia possível as diferentes formas de vida, para acomodar tanto quanto possível a maior diversidade de estilos de vida, crenças e práticas, desde que não prejudiquem terceiros. Isto porque sempre que excluímos dos nossos arranjos legislativos quem acredita nisto ou naquilo ou quem vive desta ou daquela maneira, estamos a oprimir essas mesmas pessoas, não lhes reconhecendo o direito a sentirem-se tão realizadas e aceites quanto nós mesmos.

A homeopatia não prejudica seja quem for, involuntariamente. Quem quiser ir por esse caminho é livre de o fazer, mas não é obrigado a fazê-lo. É irrelevante se a homeopatia realmente ajuda as pessoas ou as prejudica, dado que as pessoas a escolhem em liberdade. Os desportos radicais também prejudicam as pessoas, tal como comer uma dúzia de pastéis de nata todos os dias, mas nem por isso devem tais práticas ser proibidas ou sequer dificultadas.

 Lamento discordar do David Marçal, e lamento quebrar o tom de unanimismo deste blog, mas talvez surja alguma luz desta discordância.

REGULAMENTAÇÃO DAS MEDICINAS ALTERNATIVAS É UMA ALDRABICE CONVENCIONAL

Ficou-se ontem a saber que o governo aprovou uma proposta de lei para regulamentar as medicinas alternativas. Assim, os profissionais que praticam acupunctura, homeopatia, osteopatia, naturopatia, fitoterapia e quiropraxia terão que ter formação superior e cédula profissional com registo público.

Isto é uma péssima notícia. 

Induz o público em erro, levando as pessoas a pensarem que estas terapias têm uma validade equivalente à medicina convencional, o que não é verdade. Pensemos na homeopatia, porque é um daqueles casos sem nuances ou tons de cinzento. É preto no branco: não funciona melhor do que um placebo, são comprimidos de açúcar, é uma aldrabice pura. Regular o exercício da homeopática é o mesmo que regular a venda de torradeiras avariadas. É dizer que apenas vendedores com uma licenciatura e cédula profissional com registo público podem vender torradeiras que não funcionam.

Os detentores destas "cédulas profissionais" ficarão na posse de um argumento que lhes permitirá dizer que o Estado reconhece a validade científica do seu trabalho. E isto não é verdade. A regulamentação é uma decisão política que resulta do cumprimento de uma decisão judicial (na sequência de uma acção interposta em tribunal pela Associação de Medicina Natural e Bioterapêutica). Portanto a validade que têm essa carteira profissional é política e jurídica.



Do ponto da falta da cultura científica os juízes (portugueses e não só) têm um cadastro considerável. Em Janeiro deste ano, também por causa de uma decisão judicial, o Ministério da Educação e da Ciência viu-se obrigado a reconhecer a Casa Índigo como uma escola para ensinar crianças Indigo. Crianças Indigo, que alguns acreditam terem uma aura entre o azul e o violeta (indigo) é uma coisa que não existe. Neste caso, o texto do despacho ministrial é esclarecedor:

Em cumprimento do determinado pela sentença proferida no processo n.º 1323/09.9BESNT-A, da 3.ª unidade orgânica do Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra, apesar de não coincidir com o entendimento expresso pelo Ministério da Educação e Ciência nesta matéria, e ao abrigo do disposto nos artigos 158.º n.º 2 e 188.º do Código Civil e nos artigos 1.º, n.º 1 alínea f), 77.º e 79.º, n.º 1 do Decreto-Lei n.º 119/83, de 25 de fevereiro, reconheço, em estrito cumprimento da referida sentença, a personalidade jurídica da Casa Índigo - Fundação para a Formação Consciencial e Cultural de Crianças Índigo, Jovens e Educadores, como fundação de solidariedade social no âmbito da educação, com efeitos retroativos a 21 de outubro de 2008.

Muitos dirão que noutros países as medicinas alternativa já estão reguladas e que esta regulamentação em Portugal só peca por tardia. Há muitos disparates que vêem de fora. Este é mais um. E, numa altura de crise em que muita gente terá dificuldade em ter acesso a cuidados médicos, esta é uma mensagem absolutamente errada.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

PORTUGAL NA NATURE POR CAUSA DOS CORTES NA CIÊNCIA

Um artigo publicado hoje na revista Nature dá conta da preocupação com os cortes na ciência em Portugal e noutros países do Sul da Europa, por parte de associações de cientistas expatriados, ou seja de cientistas portugueses, espanhóis ou italianos que trabalham no Reino Unido ou na Alemanha.

Desde os descobrimentos ibéricos que a hegemonia das nações tem como base a ciência e a técnica, que se traduz num domínio militar, económico, político e cultural. Os cortes na ciência conduzem a Europa ou os países que deles forem alvo à irrelevância. Os países não têm ciência porque são ricos. São ricos porque têm ciência...

Aos professores que dão a ler...

Rapazes nos catorze, quinze anos, aos encontrões uns aos outros, o passeio não lhe chega, vozes desafinadas a tentar cantar Le Déserteur. Estranhei, indaguei e soube que foi o professor ou professora (não percebi bem) de francês, que saltou do manual e ofereceu-lhe Boris Vian. Que adolescente não se sente fascinado com a subversão misturada com a ternura de Vian?

Aos professores que dão a ler... Boris Vian e outros escritores (escritores mesmo) dedico esta pequena nota, deixando o poema que entusiasmou aquelas almas, antes que, como Maria do Carmo Viera diz, se tornem de "almas de pedra".

Monsieur le Président
je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
je ne veux pas la faire
je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C’est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
je m’en vais déserter
Depuis que je suis né
J’ai vu mourir mon père
J’ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Qu’elle est dedans sa tombe

Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j’étais prisonnier
On m’a volé ma femme
On m’a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J’irai sur les chemins
Je mendierai ma vie
Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens
Refusez d’obéir
Refusez de la faire
N’allez pas à la guerre
Refusez de partir
S’il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n’aurai pas d’armes
Et qu’ils pourront tirer.

Don´t ask, don´t tell

Uma "notícia ao minuto" que me caiu na caixa de correio, parecendo banal, não o é. Nela se conta que uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), que serve populações com necessidades básicas extremas, recusou, apesar de ter grandes necessidades, um donativo muito publicitado, proporcionado por um programa de televisão, mais propriamente um reality show, e que proveniente da venda de peças de vestuários dos concorrentes.

Argumentou, essa instituição (de que não conheço a orientação, o que, para o caso, não interessa nada), que, apesar de precisar do dinheiro, não o pode receber porque esse programa “não é um exemplo para as nossas crianças e jovens”. Detive-me na palavra "nossas". As crianças e jovens que atende são, sublinho, aquelas que, enfim, se considera terem por obrigação receber tudo o que se lhes dá... porque precisam de sobreviver. Mas a instituição diz que, exactamente por causa deles, tem de declinar a oferta, por estarem comprometidos, interpreto eu, princípios éticos e morais. Entende que, recebendo a oferta, as "suas" crianças e jovens poderiam ser levadas a pensar que o programa é conduzido por princípios aceitáveis, e não é.

O dilema é complexo: atender a necessidades básicas ou a princípios que dão forma à dignidade humana. Presumo que a decisão, tornada pública, tenha sido difícil de tomar. Mas foi a que foi!

Era de prever a discordância social. Muitas pessoas propagaram o seu desacordo no Facebook e o presidente da Confederação Nacional das IPSS, padre, fez o mesmo: “A situação social é tão grave que se o diabo oferecesse dinheiro para alguma das instituições a que estou ligado, só perguntava se era roubado”.

DIA DE RÓMULO

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...