sábado, 6 de janeiro de 2018

Boletim de Estudos Clássicos

Mensagem recebida no blogue:

É com grato prazer que informo que o Boletim de Estudos Clássicos está agora também publicado na plataforma IMPACTUM (OJS), para publicações periódicas da UC geridas pela Imprensa da Universidade de Coimbra (link) http://impactum-journals.uc.pt/bec/issue/archive, estando disponibilizados os nºs 58/2013 até ao 62/2017.
Contando com décadas de publicação, o BEC encetou, nos últimos cinco anos, um caminho de conformação aos critérios de referenciação de publicações periódicas académicas e de qualificação tornando-o uma publicação de referência na área da investigação, divulgação, educação e ensino dos Estudos Clássicos, como se refere na sua linha editorial:
 O Boletim de Estudos Clássicos assume como principal missão a investigação e a divulgação em Estudos Clássicos numa perspetiva de ensino e de aprendizagem dos mesmos em contexto pedagógico, para o ensino superior e não superior. O BEC procura servir o diálogo entre investigadores, especialistas, docentes, estudantes e amadores dos Estudos Clássicos, com especial foco no que se investiga em Estudos Clássicos (língua, cultura, literatura, pedagogia e didática, receção), mas também no que se faz e acontece no mundo contemporâneo que reflita a relevância dos Estudos Clássicos para a compreensão da atualidade.”

-Atingido este patamar, convidamos a comunidade do ensino e da investigação em Estudos Clássicos a apresentar propostas de publicação de originais no BEC (encontra-se em preparação o nº 63/2018), seguindo o link:
ou entrando em contacto com o mail:
pabadias@hotmail.com (editor principal).


Paula Barata Dias

MÓNICA BETTENCOURT-DIAS: Minha escolha para o Expresso de uma figura do futuro na ciência




A bióloga Mónica Bettencourt-Dias, de 44 anos, é um valor seguro da ciência portuguesa. Doutorada em 2001 em Bioquímica pelo University College de Londres e com um pós-doutoramento em Cambridge, regressou em 2006 a Portugal para um lugar de investigadora principal no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC). Beneficiária de várias bolsas “milionárias” europeias, uma delas em 2017 no valor de dois milhões de euros, recebeu diversos prémios e distinções, entre os quais a prestigiada associação ao Laboratório Europeu de Biologia Molecular, um reconhecimento que assenta na publicação em revistas de grande impacto como a Science e a Nature. O seu trabalho centra-se nos centrossomas, peças de uma complicada maquinaria celular que determina a divisão celular. Nomeada recentemente, após selecção por um comité internacional, directora daquele Instituto, a Mónica junta agora às suas tarefas de investigação outras de gestão. É dela que se espera não só a manutenção dos altos padrões de qualidade daquele Instituto mas também o acréscimo de colaboração com outros institutos de investigação, designadamente os universitários, no sentido de aproximar o sistema científico nacional do pelotão da frente na União Europeia. Os desafios da ciência portuguesa são exigentes, dado a queda do investimento em ciência na legislatura anterior, mas a Mónica, que representa bem uma geração que atingiu elevados patamares graças à política de José Mariano Gago, tem os conhecimentos e a visão para fazer crescer a ciência nacional.

O IGC surgiu em 1961, mas só no ano seguinte o Instituto de Estudos Biológicos, antecessor do actual IGC, que só trabalha em biologia, ganhou corpo. Em 1965 foram inauguradas as instalações do IGC em Oeiras e em 1967 as do Instituto de Estudos Biológicos. Um dos cientistas que pontificou no IGC foi o médico holandês Nicolaas van Uden (consorte de D. Adelaide de Bragança, neta do rei D. Miguel), que criou em 1969 os Estudos Avançados de Oeiras, uma escola de pós-graduação que trouxe a Portugal alguns dos melhores especialistas mundiais. O estabelecimento da biologia moderna em Coimbra e Porto, onde hoje está firmemente implantada, deveu-se a essa “semente” plantada em Oeiras, mostrando como a inovação no sector público pode provir da iniciativa privada. A Fundação Gulbenkian, neste como noutros sectores, tem sido exemplar e espera-se que o continue a ser. O IGC, uma das poucas instituições privadas que faz ciência em Portugal, tem particulares responsabilidades no desenvolvimento do sistema científico português. Dinâmica e determinada como é, a Mónica recebe uma herança que passará a outros ainda melhor do que a que recebeu.

Last but not least, a Mónica gosta de fazer comunicação científica. Ela sabe que a ciência é parte da sociedade e não pode viver sem essa ligação forte à sociedade que se chama cultura científica. Com a Mónica à frente do IGC, vai haver mais ciência para todos.

Introdução do Expresso:

O futuro a nós pertence. Dez consagrados escolhem dez rostos de futuro
Quando se muda de ano criam-se sempre novas expectativas. Queremos saber o que aí vem e quem serão os grandes protagonistas das mudanças que se seguem. Os velhos dão invariavelmente lugar aos novos, costuma dizer-se, e foi isso mesmo que pedimos para fazer aos nossos consagrados das mais variadas áreas. Da literatura à ciência, da gestão ao futebol, das artes plásticas ao teatro e à música, do humor à política, quisemos saber quem são as suas apostas e as novas promessas. Quisemos saber também porque o são e o que se espera delas. As respostas chegaram-nos na primeira pessoa. E, se em alguns casos o futuro é previsível, noutros é absolutamente surpreendente. Quando completa 45 anos de vida, o Expresso avança com os rostos do futuro:

Rui Tavares 
por António Barreto
Salvador Sobral 
por Carlos do Carmo
Gelson Martins 
por António Simões
João Luís Barreto Guimarães 
por António Lobo Antunes
Igor Jesus 
por Rui Chafes
João Pedro Mamede 
e Nuno Gonçalo Rodrigues 
por Jorge Silva Melo
Luís Araújo 
por Alexandre Soares dos Santos
Mónica Bettencourt-Dias 
por Carlos Fiolhais 

Marco Silva 
por Manuel José
Mariana Cabral Bumba na Fofinha) 
por Ricardo Araújo Pereira



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

"Vigésimo Oitavo"

Informação chegada ao De Rerum Natura.


A Cooperativa Bonifrates apresenta, com o seu projeto júnior, o espectáculo "Vigésimo Oitavo", na Blackbox do Convento São Francisco, em Coimbra, nos dias 19 (21h30) e 20 (16h00) de janeiro de 2018.

"Vigésimo Oitavo" é uma criação performativa, composta por filmes e cenas em palco, protagonizada por atores entre os sete e os dezoito anos, com guião e direção de João Paulo Janicas, vídeos de Miguel Godinho e banda sonora de Amílcar Cardoso.

Tomando como referência o artigo sobre a educação da Convenção sobre os Direitos da Criança e inspirando-se no gesto (utópico?) de Malala Yousafzai (“uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo”), "Vigésimo Oitavo" lança uma provocação sobre o valor que a escola tem (ou não tem) no mundo atual, aos que a proíbem, aos que a vendem, aos que a desprezam, aos que a perdem, aos que se perdem nela...

Bilheteira do Convento São Francisco: diariamente entre as 15h00 e as 20h00
Telefone: 239 857 191; Email: bilheteira@coimbraconvento.pt

Bilhetes entre os 2€ e os 4€

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

"A Educação é das áreas sobre a qual todos opinam"

Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos de Escolas Públicas, escreveu recentemente um artigo para o jornal Público com o título Mais respeito pela Educação! Nele aponta um problema central e crucial da educação escolar: a sempre pronta opinião de quem nada sabe do assunto.
"A Educação é das áreas sobre a qual todos opinam — muitos considerando que pelo facto de terem passado pelos bancos das escolas ganharam essa legitimidade, outros simplesmente porque sim e uma minoria porque a democracia os investiu como representantes do povo... 
Não raras vezes, em debates sobre Educação (no âmbito do não superior) promovidos pelas mais diversas entidades, estes primam pela ausência de professores e alunos, permitindo que erros crassos grassem ao sabor das convicções. 
Regra geral, quase sempre estão presentes autarcas (reconheço em alguns brilhantismo neste domínio, tanto no discurso como na ação), professores universitários (das mais diversas proveniências académicas) — procuro a razão de alguns destes docentes, ilustres cronistas da nossa praça, raramente escreverem sobre os problemas que enfermam o ensino superior, preferindo compadecer-se em relação ao ensino para o qual olham de cima — e outras personalidades, mais ou menos enigmáticas. (...).
Questiono a usurpação ilegítima da “defesa da escola pública” como chavão na caça aos votos, quando não se concretiza ou explica o que se pretende implementar no terreno. A Educação merece a consideração de todos nós e muito mais! É necessário que fundamentem com rigor as suas abordagens ideológicas para a Educação, não se ficando por frases bonitas, que soam bem, mas impregnadas de vacuidade (...).
Que sabem mais dizer sobre Educação alguns dos nossos políticos que não seja serem defensores da escola pública? O que pensam eles sobre a instabilidade legislativa neste setor? Que medidas se predispõem promover para a valorização da profissão docente? Como se posicionam face a um Pacto na Educação tendo em conta questões estruturais? Qual a sua opinião sobre as mudanças constantes na avaliação dos alunos? Como se definem relativamente à não estabilização curricular? Perspetivam colocar os principais problemas da Educação na agenda política? Estas são algumas das questões a que, prescindindo de divagações ou subterfúgios, deveriam dar resposta, sem se fecharem em banalidades ou em registos politicamente corretos, esgotados já de sentido. 
Urge debater séria e frontalmente a Educação. Não há mais paciência para a demagogia política, para a opacidade declarada em termos gerais, manifestamente abstratos, sobejamente apropriada pelos representantes dos partidos políticos quando se referem à Educação do país, devendo assumir como sua obrigação a explanação, com verdade, do que pensam e estão resolvidos a fazer em prol da área mais importante de qualquer sociedade democrática moderna (...)."

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

OS MORTOS FALAM? O PORQUÊ DAS AUTÓPSIAS


Na próxima 4ª feira, dia 10 de Janeiro, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra "Os mortos falam? O porquê das autópsias", por Duarte Nuno VieiraProfessor e Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.



Resumo da palestra: "Etimologicamente, a palavra autópsia significa “ver com a própria vista” ou “ver a si mesmo”. A autópsia envolve, todavia, a utilização de todos os órgãos dos sentidos, sendo através destes e da aplicação de um conjunto de adequados procedimentos técnico-científicos, que a autópsia permite, em muitas situações, obter resposta para um diversificado conjunto de questões. Algumas dessas questões, como sejam qual a causa e a etiologia da morte, estão presentes em quase todas as autópsias; outras, porém, surgem apenas pontualmente, em função das especificidades de um determinado caso concreto. Qual a distância a que foi efetuado um disparo, quanto tempo terá a pessoa sobrevivido a um determinado trauma, ou se se encontrava sob a influência de álcool no momento do evento que causou a morte, são exemplos de algumas das inúmeras questões que se podem suscitar em contextos particulares. A autópsia consiste, pois, em através da aplicação de conhecimentos e metodologias médicas, associados aos de outras áreas do saber, procurar que um determinado corpo nos transmita informações que podem ser fundamentais em diversos domínios, nomeadamente e a título de exemplo, para uma correta aplicação da justiça, para uma completa informação da família, para uma melhor compreensão da doença e do trauma, ou até para a prevenção de eventuais situações futuras, entre muitos outras. Fortemente condicionada por circunstancialismos legais e socioculturais, e condicionada também por limitações diversas, a autópsia continua, todavia, a constituir um procedimento absolutamente fundamental e imprescindível, apesar do avanço das novas tecnologias de diagnóstico. Através dela, os mortos falam, numa linguagem que os médicos patologistas entendem e sabem interpretar."

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral

Link para o evento no Facebook.

O ANO FEYNMAN

Minha crónica no Público de hoje (na imagem Richard Feynman):



Bem sei que em 2018 se comemora o bicentenário do nascimento de Karl Marx e da publicação de Frankenstein, a obra-prima de Mary Shelley, e o centenário do armistício que pôs termo à Primeira Grande Guerra e dos nascimentos de Nelson Mandela e de Leonard Bernstein, assim como o meio centenário do Maio de 1968 em França e da estreia de 2001 Odisseia no Espaço, a obra-prima de Stanley Kubrick. Mas, para mim, 2018 é principalmente o ano do centenário do físico americano Richard Feynman, Prémio Nobel da Física de 1965 pelo seu trabalho sobre a electrodinâmica quântica, a teoria quântica dos electrões e da luz, e uma das maiores lendas da ciência do século XX.

Nova-iorquino de ascendência judaica, o facto se só ter começado a falar aos três anos não o impediu de logo revelar uma voraz curiosidade. Licenciou-se em Física no MIT e doutorou-se em 1942 em Princeton, um sítio onde a grande figura era na época Einstein (este, que também começou a falar tarde, estava aliás presente no primeiro seminário que Feynman lá deu). A sua tese de doutoramento inaugurou uma nova maneira de trabalhar com a teoria quântica. O mundo estava em guerra e, no ano seguinte, Feynman foi recrutado para trabalhar no projecto Manhattan, que construiu as primeiras bombas atómicas. Ficou então lendária a sua capacidade de abrir cofres, adivinhando códigos. A seguir foi para Cornell, onde realizou o trabalho que havia de merecer o Nobel.

No início dos anos 50 passou um ano sabático no Brasil, onde aprendeu português para além de aprender a tocar bongo e frigideira. Depois aceitou uma oferta de Caltech onde alcançou o pícaro da fama como professor. Nos anos 60 revolucionou o ensino da física com as suas Feynman Lectures on Physics, um clássico em três volumes. Um livro que traduzi em jovem foi um conjunto de palestras gravadas pela BBC intituladas O carácter da lei física, que dão um cheirinho dessa obra maior. Os direitos dos vídeos foram adquiridos por Bill Gates que os colocou na Internet em acesso livre (Gates chamou a Feynman o ”melhor professor que nunca tive”). Tal como o seu contemporâneo Leonard Bernstein, também ele nova-iorquino e judeu, Feynman tinha uma fabulosa capacidade pedagógica, na qual se aliavam a mestria dos assuntos com a teatralidade da exposição.

Nos anos 80 saíram dois livros auto-biográficos de Feynman que retratam a sua excentricidade: Está a brincar Sr. Feynman! e Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!, ambos traduzidos entre nós na Gradiva. Para proporcionar estes livros às novas gerações surgirão este ano nos Estados Unidos novas edições com um prefácio de Bill Gates.

Feynman já estava doente com cancro quando, como membro da comissão de investigação do desastre do Challenger, mostrou com uma experiência, durante uma conferência de imprensa, como uma anilha do vaivém se tinha quebrado no lançamento devido às baixas temperaturas. Declarou, criticando a NASA: “A realidade tem de estar à frente das relações públicas, já que a Natureza não pode ser enganada”.

Já no final da sua vida tentou visitar a república soviética de Tuva, no centro geométrico da Ásia, só porque em pequeno tinha coleccionado selos dessa república, então independente, mas o clima de guerra fria não o permitiu. Para compensar, o seu colaborador próximo Robert Leighton vai passar o próximo dia do aniversário de Feynman, 11 de Maio, na capital tuvana, que dá pelo nome de Kyzyl.

Os interesses científicos de Feynman foram variados. Onde havia um problema, lá estava ele a propor uma solução. Onde havia uma possibilidade, lá estava ele a lançar um desafio. Fez em 1959 uma célebre conferência onde lançou a área, hoje pujante, da nanotecnologia. E, em 1982, propôs a ideia de computação quântica, um domínio hoje muito auspicioso. O mundo bem pode agradecer ao físico.

Feynman é hoje um herói popular: há filmes, peças de teatro, bandas desenhadas e até uma ópera sobre ele. Numa das peças aparece a querer ensinar física teórica a prostitutas de Las Vegas. Apesar de ter tardado a falar, Feynman não tinha papas na língua. Só quando morreu ficou sem palavras. As suas últimas, no hospital, continuam a ser citadas: “Não gostaria de morrer segunda vez. É tão aborrecido.”

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

"136 líderes antecipam 2018"

Depoimento que prestei ao "Jornal de Negócios" e que saiu hoje numa edição especial de antevisão de 2018:

"O mundo está cheio de incerteza: é, por exemplo, dificil prever as humores de Trump. Mas para Portugal espero que continue e até se reforce o caminho de recuperação de confiança. Na ciência e tecnologia precisamos de mais emprego científico e maior presença de doutorados nas empresas, reforçando a competitividade destas."

CARLOS FIOLHAIS Professor da Universidade de Coimbra e administrador da Coimbra Genomics

OS CIENTISTAS TRESMALHADOS


Excerto de “A Ciência e os seus inimigos”, livro saído há pouco na Gradiva.de Carlos Fiolhais e David Marçal, que acaba de ser publicado na revista cultural do Porto "As Artes entre as Letras":

A anticiência encontra‑se por vezes dentro da própria ciência. Falamos de erros ou falhas da ciência, feitos por cientistas a que podemos chamar tresmalhados. De facto, pelo seu mau procedimento, colocaram‑se à margem da comunidade científica.

Há evidentemente erros involuntários na condução do trabalho científico. Já diziam os antigos Romanos que Errare humanum est, e os cientistas só mostram que são humanos quando erram. Os erros corrigem‑se e, depois de pedir desculpa, passa‑se à frente, aprendendo com eles. Existem erratas ou, por vezes, artigos completos a corrigir outros artigos. Não há nada de mal em encontrar erros, bem pelo contrário. Como bem assinalou o filósofo britânico Karl Popper, a procura do erro e o pão nosso de cada dia da ciência, já que ela consiste, na sua essência, na detecção de falsidades. Escreveu Popper: «Uma teoria será científica se e só se for falsificável» e «uma teoria é falsificável se alguém puder mostrar que é falsa ou se se puder refutar usando rigorosos testes empíricos.»

A ciência desenvolveu um método — chamado peer review  — que se destina a encontrar erros antes da publicação de qualquer escrito, o que em geral consegue fazer, sendo descartados os erros mais triviais. Não significa isto que alguns erros não possam escapar ao crivo da revisão por pares. Quando isso acontece, e se se tratar de um tema relevante a que se dedicam vários grupos de investigação, estes são identificados e corrigidos posteriormente, quando outros cientistas tentam replicar os resultados publicados. Ao longo da História, os cientistas sempre tentaram encontrar e descartar erros. Eles são, portanto, muito sensíveis a erros, isto é, desconformidades com a lógica ou com a realidade, sabendo que a verdade é um objectivo longínquo para o qual se caminha de uma forma contínua e progressiva. Embora a verdade seja um ideal eventualmente inalcançável, na maioria dos casos práticos é relativamente fácil para um cientista reconhecer a falta de verdade. O processo científico, onde a revisão por pares desempenha um papel essencial, foi criado e melhorado para cumprir a missão da ciência da melhor maneira possível.

A má ciência acontece quando os erros cometidos por cientistas são intencionais ou, não o sendo, não são reconhecidos pelos próprios quando apontados. Falamos então de fraudes científicas. A definição de fraude científica proposta por um painel britânico em 1999 é a seguinte: Comportamento de um investigador, intencional ou não, que não possui bons padrões éticos e científicos.» Fraude consiste, portanto, na violação dos códigos‑padrão de conduta ética na investigação científica, que implicam a adesão à verdade.

Um dos primeiros deveres dos cientistas é a permanente atenção aos factos. Os cientistas podem e devem ser imaginativos em relação às teorias, mas devem respeitar escrupulosamente os factos. As teorias devem ser ajustadas aos factos e não o contrário. E os factos em ciência são captados através dos chamados dados (data) que são tão sagrados como os factos, uma vez que são o retrato deles.

As fraudes podem assumir as mais variadas formas:

— Fabricação de dados. Podem‑se criar imaginativamente dados falsos para uma certa experiência ou observação. Podem‑se até relatar experiências ou observações que nunca foram realizadas. Como é óbvio, consegue‑se extrair dessa maneira quaisquer conclusões que se queiram, mas essas conclusões de científico não têm absolutamente nada. O método científico foi «macaqueado» mas a ciência é nenhuma.

— Falsificação de dados. Pode haver manipulação de dados, que consiste por exemplo no uso de dados fora do contexto particular em que foram recolhidos, ou na subtracção ou acrescento de alguns dados para que possa emergir uma «verdade» qualquer. Ou pode haver manipulação da experiência, fazendo controlo indevido das variáveis.

— Plágio. Consiste na apropriação do trabalho de outrem, incluindo a apropriação de um projeto experimental, do material experimental ou de dados. Pode também haver simplesmente a cópia de textos ou de imagens escritos ou obtidas por terceiros, sem qualquer referência de autoria.

O número de casos de fraude científica é, infelizmente, cada vez maior em todo o mundo. A razão é simples: nunca houve tantos cientistas como hoje — sim, a ciência continua em crescimento a escala global, apesar da acção de todos os seus inimigos — pelo que, mesmo que a probabilidade de publicação de erros intencionais seja reduzida (devido à acção da peer review), a sua ocorrência em valor absoluto é cada vez maior. Os sinos do sistema científico têm tocado a rebate, chegando o som a toda a sociedade. Por exemplo, a revista The Economist dedicou em 2013 uma capa à fraude na ciência (o título era How science goes wrong), levantando a questão de saber se ainda se podia confiar na ciência. O número de artigos retirados pelos autores ou pelos editores e, portanto, eliminados dos índices das revistas, é cada vez maior. É certo que algumas dessas retiradas podem ser devidas a um erro grave mas genuinamente cometido sem dolo. Mas muitos desses artigos retirados nunca deviam ter sido publicados por enganarem deliberadamente os leitores e prejudicarem o bom nome da ciência. As revistas sérias tomam precauções redobradas, mas há cada vez mais revistas publicadas apenas na internet com processos de revisão duvidosos ou mesmos sem qualquer revisão: é um negócio, basta pagar para conseguir a publicação. Claro que há alguns sinais de alarme que nos podem deixar de sobreaviso, se olharmos, por exemplo, para o factor de impacto dessas revistas, uma medida que contabiliza o número de citações médio de cada artigo nela publicado. É muito fácil publicar o que se queira em certas revistas irrelevantes e obscuras. Há casos espantosos de artigos completamente ininteligíveis, escritos basicamente ao acaso por um computador, que foram aceites para publicação porque foi paga a taxa de publicação. Alguém fica com o dinheiro e nós ficamos com o lixo na internet. Sim, a internet está cheia de lixo, mesmo no sector das publicações alegadamente científicas.  (…)

Reinvenção foi palavra-chave no discurso de ano novo do Presidente - Política - RTP Notícias

Reinvenção foi palavra-chave no discurso de ano novo do Presidente - Política - RTP Notícias

Inclui declarações que fiz à RTP:

"O Presidente da República falou no seu discurso de Ano Novo da necessidade de “reinventar o futuro” no contexto da referência aos trágicos incêndios de 2017. 

De facto há que reconhecer que houve erros que agravaram catástrofes, que por isso só em parte foram naturais. Temos que aprender com os erros fazendo melhor.

É preciso pôr a ciência ao serviço da floresta, a ciência ao serviço do ambiente, a ciência ao serviço da protecção civil, a ciência ao serviço das nossas vidas. 

O grande escritor irlandês George Bernard Shaw disse: “O sucesso não consiste em não cometer erros mas em não cometer os mesmos erros duas vezes”.

Reinventar é precisamente fazer diferente, o que passa por um Portugal mais equilibrado e por um Portugal mais seguro em todo o lado.


Temos em Portugal ciência, boa ciência, mas falta-nos por vezes a sua aplicação a tempo. Reinventar Portugal deve ser colocar a ciência em nosso benefício." 

“Los valores en la educación de África de ayer a hoy”

Da responsabilidade de José María Hernández Díaz e de Eugenie Eyeang, o livro “Los valores en la educación de África de ayer a hoy”, escrito em três línguas (espanhol, português e francês) e editado pela Universidade de Salamanca em finais de 2017, é mais do que a apresentação do resultado de investigação universitária. Tendo por base a investigação universitária, robustece as débeis pontes que ligam a Europa e a África em matéria de educação escolar, mais precisamente, do seu valor que ela tem e dos valores que a devem guiar. 

Uma breve nota curricular dos autores principais e do conteúdo da obra ajudará a explicar esta afirmação. 

Hernández Díaz, professor catedrático de “Teoria e História da Educação” da Faculdade de Educação da Universidade de Salamanca, é um académico reputado. No seu vasto e consolidado trabalho conta-se a coordenação do grupo de pesquisa “Memoria y Proyecto de la Educación”.

Eyeang, professora da Escola Normal Superior de Libreville e directora do “Centre de Recherche Appliqué aux Arts et aux Langues”, especializou-se na área da sociodidáctica, dedicando-se, sobretudo, à formação de professores de línguas e ao estudo dos valores éticos no campo da educação, onde tem uma vasta lista de publicações.

Partindo da mesma linha de pensamento no respeitante aos mencionados valores, os dois autores têm aproximado não só Espanha e o Gabão mas também outros países europeus e africanos, bem como o Brasil, na tão necessária reflexão sobre os seus sistemas de ensino. 

Estamos perante uma reflexão que visa saber para compreender e compreender para melhorar. Este é, de facto, o cerne da extensa obra em destaque. 

São 799 páginas que se materializam numa introdução (“África, sus valores y la educación”) e em quatro partes (“África, valores y educación. Questões a debate”; “Valores pedagógicos de África, desde si misma. Experiências”; “Miradas poliédricas sobre África, valores y educación”; e “Tiempos e miradas posnacionais. A propósito de África”), em que se organizam sessenta e cinco artigos de participantes no “II Foro sobre África de Educación y Desarrollo”, que teve lugar na Universidade de Salamanca em finais do último Outubro. 

Na Introdução, Hernández Díaz e Eyeang destacam, em termos de educação escolar, a importância de “seguir-se o caminho da hibridação cultural, onde caibam todas as expressões e valores que estejam à altura da defesa dos direitos do homem e do cidadão”. É este, de resto, o sentido comum dos artigos que se seguem, veiculando “leituras genéricas, históricas e actuais, análises de experiências e práticas socioeducativas [bem como] leituras críticas sobre os valores que se difundem na escola e o seu lugar no currículo, a simbologia inerente ao quotidiano escolar, os manuais escolares, a organização do tempo e do espaço educativo em diferentes países africanos”. 

Trata-se especialmente, ainda que não exclusivamente, de “contribuições elaboradas desde a própria raiz africana, desde os agentes educativos que actuam com a convicção do potencial transformador da educação para a melhoria social”, pois, face a “fenómenos de dor colectiva (…) não se podem cruzar os braços, nem nunca se deve aceitar o conformismo do inevitável”.

Esta recusa de nada pensar nem fazer perante os desígnios dos sistemas educativos que se desviam daqueles que concorrem para o bem-estar da humanidade revela-se uma das mais-valias da obraO que é tanto mais importante quando se tem visto, nas últimas décadas, múltiplos sistemas de todo o mundo sucumbirem à uniformização neoliberal, mesmo não deixando de declarar que as suas políticas se encontram norteadas para a formação de cidadãos democratas e autónomos e para dar resposta a especificidades concretas das populações.

Sendo uma realidade imposta por entidades e empresas de dimensão supra-nacional centradas no lucro financeiro, saem destacadas as competências funcionais exigidas pelo mercado de trabalho, as quais, nessa medida, devem ser adquiridas por todos os alunos, sem outra qualquer alternativa. Face a esta realidade, interpretada por vários dos autores como manifestamente limitativa, susceptível de configurar novas formas de colonialismo, há um dever por parte de quem tem responsabilidades educativas de a analisar em função dos valores éticos e de procurar alterá-la.

Uma segunda mais-valia da obra é a visão da educação que proporciona a partir da realidade africana, o que, na verdade, não é costume nas universidades europeias. Realmente, o estudo dessa realidade, “no melhor dos casos”, traduz-se, disse Hernández Díaz ao jornal “Ensino Magazine” de 20 de Julho, em “alguma presença testemunhal em programas culturais (…) mas não muito mais. O que significa que África continua submetida ao ostracismo académico, ao esquecimento científico”. Assim, “merece um espaço nas nossas universidades, nas aulas e projectos, nos currículos, nos livros e revistas, nos congressos”, potenciando a emergência de “novos paradigmas de conhecimento e de cultura pela dimensão global e mundial dos problemas que abordamos na nossa docência e investigação”.

Em concreto, para a questão dos valores importa consolidar e ampliar redes capazes de sustentarem estas duas dimensões. Note-se que algumas redes desse teor já são bem visíveis em trabalhos, tanto teóricos como de observação e análise empírica, apresentados no livro, e das quais resulta uma ponderação axiológica que vai além do que é convencional publicar-se. 

Uma terceira mais-valia, que está longe de ser a última a poder ser apontada à obra, é o ângulo que se destaca nessa visão: o das ciências da educação. Estamos num domínio diverso, onde se encontram pressupostos divergentes e modos de laborar nem sempre consistentes, circunstância que, em geral, acarreta suspeitas quanto à validade e pertinência das suas produções, podendo torná-las exercícios estéreis, sem consequências para o melhoramento da educação, afinal o seu fim último. 

Ora, o conteúdo em apreço deixa ao leitor uma ideia bem diferente: foi possível que mais de meia centena de especialistas ligados a tal domínio, de geografias distantes e com vivências distintas se focalizassem numa temática e a abordassem de forma abrangente e, ao mesmo tempo, profunda, conseguindo um núcleo duro de conhecimentos, que dignifica as próprias ciências da educação. Núcleo que, uma vez explorado e apropriado pelos sistemas de ensino, eventualmente com apoio das universidades, poderá ajudar, por via da educação, a encarar alguns dos problemas com os quais as sociedades contemporâneas se confrontam, sendo que um dos mais prementes é a deriva dos valores éticos em favor de “valores” que não o são nem o podem ser, sob pena de se entrar num retrocesso civilizacional, já declarado em obras de referência. 

A apreciação geral da obra faz ressaltar duas ideias para o presente e o futuro: o valor inquestionável da educação escolar e dos valores éticos que permitiram a marcha da humanidade e, afinal, lhe conferem substância e unidade; e a difícil tarefa que cabe aos educadores quando fazem valer esses valores, visto que o mundo manifesta prioridades pouco compatíveis com eles.

domingo, 31 de dezembro de 2017

2018


Em 2018 passam 100 anos do nascimento de Richard Feynman (na foto), o físico americano que recebeu o Nobel e foi o autor das "Feynman Lectures on Physics" e "Está a brincar Sr. Feynman" (nasceu a 11 de Maio de 1918). Passam também os 100 anos do físico Abraham Pais, o biógrafo de Einstein ("Subtil é o Senhor"). Passam 100 anos do Nobel da Física de Max Planck e do Nobel da Química de Fritz Haber.

Passam 100 anos do nascimento do político Nelson Mandela e do músico Leonard Bernstein. Passam 100 anos do fim da 1.ª Guerra Mundial, 100 anos da morte do czar Nicolau II e família e, entre nós, 100 anos da morte de Sidónio Pais.  Passam 100 anos do nascimento dos historiadores Vitorino Magalhães Godinho e Armando de Castro e da escritora Odette de Saint-Maurice.

Passam 150 anos do nascimento do inventor  Padre Himalaia e do compositor Viana da Mota.

Passam 200 anos do nascimento do sociólogo e filósofo  Karl Marx e também do nascimento do físico James Prescott Joule. Passam 200 anos da publicação de "Frankenstein", a obra prima de Mary Shelley.

Passam 250 anos do nascimento do médico português Bernardino António Gomes, que estudou o quino para curar a malária e foi pioneiro da vacinação. Passam 250 anos da fundação do primeiro jardim botânico português, na Ajuda, em Lisboa, e da Imprensa Rágia, também em Lisboa.

2018 vai ser o Ano Europeu do Património Cultural e o Ano da Biologia Matemática. Em 2018 as Olimpíadas Internacionais da Física vão decorrer em Lisboa os Jogos Universitários Europeus vão ser em Coimbra.

Feliz 2018!

sábado, 30 de dezembro de 2017

Opinião: Íris Científica 4

Faz já doze anos que António Piedade publicou o seu primeiro livro Íris Científica (2005), pela editora Mar da Palavra. Foi preciso esperar seis anos para o leitor conhecer o seu segundo livro, Caminhos de Ciência (2011). A partir daí, o autor já não mais parou, apresentando ao público um novo livro ao ritmo de quase um por ano. Entretanto, poderíamos ir acompanhando a sua escrita sobre ciência nas crónicas que publica regularmente na imprensa regional. Têm sido, aliás, esses os textos que têm alimentado a coleção Íris Científica, que já vai no quarto volume. Este novo livro é constituído por trinta e três textos, divididos em duas partes: “Além no Espaço” e “Aqui na Terra”.



A coleção Íris Científica é muito mais do que uma coletânea de textos publicados na Imprensa Regional. Trata-se de uma seleção de temas, que nos dá a conhecer as mais recentes descobertas e avanços científicos, e que vai sendo atualizada anualmente. Para quem, por motivos profissionais ou por falta de tempo, não consegue acompanhar o conhecimento produzido em várias áreas da ciência, pode encontrar neste livro um resumo de uma parte da investigação realizada tanto a nível nacional como internacional. Além disso, por estar escrito de um modo claro para diversos públicos, tanto pode ser lido por jovens alunos como por adultos interessados na ciência. Estou certo que este livro ainda servirá para aqueles que, no futuro, tenham curiosidade em conhecer que ciência fora produzida no passado – o nosso presente. Porventura, ainda poderá servir de ponto de partida a futuros historiadores da ciência. Trata-se, pois, de uma coleção útil a ter por perto, em qualquer biblioteca pessoal. Que o ano 2018 traga o quinto número desta coleção.


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

RECOMEÇAR

 Meus desejos de Ano Novo no Público de hoje:

Em cada novo ano lembro-me do poema “Receita de Ano Novo” do brasileiro Carlos Drummond de Andrade: “Para ganhar um Ano Novo / que mereça este nome,/ você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo./ mas tente, experimente, consciente./ É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.”

 O grande desafio em cada novo ano é fazê-lo verdadeiramente novo. O que é que eu gostaria que fosse novo, nestes tempos de grande incerteza? No plano internacional que as trumpices parassem de nos abespinhar. No plano nacional que a confiança, que começou já a despontar, se instalasse na economia e na vida, o que passa por uma definição mais clara de um futuro comum europeu.

 Na ciência, espero que no novo ano haja em Portugal uma avaliação nova das unidades de investigação, ultrapassando a última de má memória. Espero ainda que as instituições de ensino superior, fontes permanentes de ciência, acelerem o processo de renovação dos seus quadros de docência e investigação. E, se não for pedir muito, que as empresas nacionais comecem a contratar doutorados de modo a melhor aproveitar em benefício do país o enorme potencial de criatividade que reside na mais recente geração.

 Volto a Drummond, citando outro,poema, “Recomeçar”: “Se pensarmos pequeno, / coisas pequenas teremos. / Já se desejarmos fortemente o melhor / e principalmente lutarmos pelo melhor, / o melhor vai se instalar na nossa vida. / E é hoje o dia da Faxina Mental…“

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

CIENTISTAS PORTUGUESES NO MUNDO NO "FALAR GLOBAL"

http://www.cmjornal.pt/cmtv/programas/falar-global/detalhe/cientistas-portugueses-no-mundo?ref=falar-global_destaque

"A Ciência e os Seus Inimigos", de Carlos Fiolhais e David Marçal - Livro do dia da TSF

Para ouvir aqui:

https://www.tsf.pt/programa/o-livro-do-dia/emissao/a-ciencia-e-os-seus-inimigos-de-carlos-fiolhais-e-david-marcal-9009736.html?autoplay=truex

Fascínio pela Ciência

Meu depoimento prestado a Carlos Eugénio Augusto e publicado na última revista "Prevenir":

 Descobri a ciência no tempo da escola, principalmente através de livros de divulgação científica, que me revelaram que é um empreendimento humano que dá origem a projetos extraordinários. O que aprendi, em colecções como Ciência para Gente Nova, de Rómulo de Carvalho, mudou a minha vida. Ler sobre o átomo fazia-me ver a ciência a acontecer, sentir os seus problemas, dificuldades, hesitações e dúvidas permanentes. Mais tarde, abracei o curso de Física e a paixão cresceu. À medida que a ciência se revelava, mais vontade e “obrigação” senti de a partilhar. E, de uma forma inesperada, até consegui ter algum sucesso, nomeadamente através de Física Divertida, um livro que escrevi na década de 1990, baseado em palestras que fiz nas escolas, cujas reações demonstraram que a ciência pode ser uma fonte de prazer e partilha intelectual. Mas a ciência é também liberdade, democracia e um caminho para o desenvolvimento e bem-estar social, levando a viver de uma forma mais positiva, de olhos no futuro. A tecnologia, por exemplo, um fruto da ciência, tornou mais fácil comunicar, viajar, ter melhores cuidados de saúde. Como professor, tento transmitir esse entusiasmo e deslumbramento continuados. O mundo vai ter sempre mistérios e a ciência é um processo de interrogação cativante, devendo hoje desempenhar o papel que outrora a filosofia teve na procura do saber. Acredito que a ciência é o método por excelência para adquirir conhecimento, para despertar o sentido crítico, e uma das mais ricas dimensões humanas, a par da arte, religião e ética, que nos permite conhecer e viver melhor no mundo. E, ao segui-lo, vamos entender que muito do nosso quotidiano resulta do seu conhecimento e que está nas nossas mãos tentar transformar o mundo num sítio melhor.»

EM NOME DA FÍSICA Doutorado em Física Teórica, professor catedrático da Universidade de Coimbra e diretor do Rómulo Centro Ciência Viva, Carlos Fiolhais é um dos cientistas mais (re)conhecidos em Portugal, tendo já arrecadado prémios e distinções como um Globo de Ouro da SIC, a Ordem do Infante D. Henrique e, mais recentemente, o Grande Prémio Ciência Viva Montepio 2017. No seu mais recente livro, A Ciência e os Seus Inimigos (Gradiva), escrito em parceria com o bioquímico David Marçal, reforça a ideia de uma ciência que se assume como «um aliado essencial de uma sociedade livre e aberta».

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

LIVROS DE CIÊNCIA PARA O SAPATINHO



Há nos escaparates bons livros de ciência saídos recentemente mas, tirando um caso ou outro, dificilmente encontram local nos sítios de maior visibilidade, que mostram os livros do costume. Apresento aqui dez livros de ciência em português, que são óptimas prendas de Natal. Ao contrário por exemplo de  uma garrafa de vinho, um livro é um presente com futuro. A ordem é alfabética do apelido do autor:


1- António Damásio, A Estranha Ordem das Coisas. A vida, os sentimentos e as culturas humanas, Temas e Debates e Círculo de Leitores, Novembro de 2017

O próprio autor, neurocientista de prestígio internacional, veio a Lisboa apresentar a Lisboa na escola dos Olivais que ostenta o sue nome.  Mais um grande livro de um grande autor português, emigrado nos Estados Umidos, que nos faz reflectir sobre as relações entre a mente e o corpo. É assaz sedutora a forma como Damásio mistura a ciência com a filosofia.


2- Yuval Noah Harari, Homo Deus. História Breve do Amanhã, Elsinore, Abril de 2017.

Este livro é um best-seller em muitos países do m mundo. Para os jornais britânicos Guardian e Evening Standard foi o livro do ano. O historiador israelita, depois do grande sucesso que foi Homo sapiens, faz uma incursão sobre um futuro que pode não ser humano, se as máquinas tomarem conta de tudo. Será que o fim do ser humano está à vista?



3- Museu Calouste Gulbenkian, Do outro lado do espelho,  Outubro de 2017

Belo catálogo da exposição sobre espelhos, sob a curadoria de Rosa Figueiredo,  que estará de portas abertas até Fevereiro de 2018 na Galeria Principal da Fundação Gulbenkian em Lisboa. Sendo uma exposição sobre arte, o tema unificador é o espelho, um instrumento da óptica. Inclui peças do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra e um dos textos, precisamente sobre a matemática dos espelhos, é do historiador de ciência Henrique Leitão.



4- António Piedade, Íris Científica 4, Edição do autor, Novembro 2017

Colectânea de textos publicados na imprensa por um conhecido bioquímico e divulgador de ciência de Coimbra, que coordena um projeto Ciência Viva na Imprensa Regional. Um olhar inteligente, por vezes poético (o autor lançou recentemente o seu primeiro livro de versos, Fonte de Coretos, em edição de autor como esta), convida-nos a entrar na ciência através de crónicas.



5- Natália Bebiano da Providência, Luís de Albuquerque. Um cientista português, Gradiva, Outubro de 2017

A autora, professora de Matemática da Universidade de Coimbra e de certo modo discípula do matemático daquela Universidade e historiador que foi Luís Albuquerque, escreveu uma biografia ilustrada do grande mestre, que teria feito 100 anos em 2017 se não tivesse morrido com 76 anos após ter publicado extensa obra, designadamente sobre história da náutica..

6- Martin Rees, Para o Infinito. Horizontes da Ciência, Gradiva, 2.ª edição, Novembro de 2017

O astrónomo real da Grã-Bretanha e ex presidente da Royal Society, que esteve recentemente entre nós,  apresenta-nos os principais desafios da ciência, em quatro palestras populares que preparou para os microfones da BBC. Traz-nos matéria para pensar neste tempo em que  a ciência está ameaçada por perigos vários, que incluem  Trump e o Brexit. A edição tem a colaboração da Fundação Francisco Manuel dos Santos..


7- Oliver Sacks, O Rio da Consciência, Relógio de Água, Outubro de 2017

Esta é o último livro do médico americano que faleceu em 2015 que é o autor de O homem que confundiu a mulher com um chapéu. Textos muito bem escritos que saíram, pelo menos alguns, na insubstituível The New York Review of Books.



8- Neil de Grasse Tyson. Astrofísica para gente com pressa. Uma viagem rápida e iluminante ao cosmos, Gradiva, , Julho de 2017

Aquele que é hoje o maior divulgado  de ciência nos Estados Unidos, legítimo herdeiro de Carl Sagan,  apresenta-nos neste livro da colecção Ciência Aberta uma breve introdução dos grandes problemas da cosmologia actual: do Big Bang aos buracos negros, da matéria negra  à energia escura.

9- A.J. Barros Veloso (coord), Médicos e Sociedade. Para uma história da medicina em Portugal no século XX, By the Book, Outubro 2017

Um médico e historiador de ciência coordenou um volume escrito a muitas mãos que faz a história da medicina em Portugal no século XX em 862 páginas, num volume muito bem produzido pela editora By the Book..Imperdível para médicos e não só.


10- David Wootton, A Invenção da Ciência. Nova história da Revolução Científica,   Temas e Debates, e Círculo de Leitores, Setembro de 23017

Este é um dos  extraordinários livros do ano em Portugal. Um historiador britânico traz-nos  num espesso volume (823 páginas) uma síntese magistral sobre a Revolução Científica: Copérnico, Vesálio, Tycho Brahe, Kepler, Galileu, Harvey, Newton e vários outros grandes nomes dos séculos XVI e XVII são aqui colocados em contexto. Imprescindível para quem se interesse por ciência ou por história.

Para além deste não posso deixar de recomendar o livro que Davoid Marçal que escreveu comigo, acabado de sair na Gradiva, A Ciência e os seus Inimigos, e a colecção exclusiva do Círculo de Leitores que José Eduardo Franco coordena comigo, Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, das quais já saíram o primeiro tratado de física e o primeiro livro de engenharia.

RECOMENDAÇÃO DE NATAL DA COMCEPT

A OPOSIÇÃO COMO CONDIÇÃO DE REGRESSO DA ESPERANÇA

Após ter explorado alguma informação para escrever o texto anterior, que, devo dizer, me impressionou pela linearidade, pela falta de aprofu...