quinta-feira, 28 de abril de 2011

A TV QUE DÁ CABO DE NÓS


Eu ainda tinha dúvidas sobre qual era, em Portugal, a empresa que trata pior os clientes. Hoje, quando pretendi a rescisão de serviços da Zon (TV Cabo), fiquei esclarecido. A humilhação que infligem aos clientes que pretendem ser ex-clientes passa todos os limites. Quando é para fazer clientes é tudo ultra-rápido, à velocidade da luz, mas quando é para perder clientes (muito justificadamente no caso) é tudo ultra-ultra-ultra-lento, à velocidade dos processos geológicos. Inventam fidelizações em contratos, não dão a informação a que o contraente tem direito, e obrigam a fazer reclamações de utilidade duvidosa porque eles têm, ou julgam que têm, a TV e o cabo na mão. O que me indigna verdadeiramente é quererem cobrar vários meses por um serviço que não prestam numa casa vazia, sem televisão nem computadores. Quando nos dirigimos ao balcão em busca de um esclarecimento, tentam alimentar conversas de circunstância, esquecendo que o cliente está ali para resolver o seu problema e não o problema deles. Não, não se trata da atitude de uma ou duas funcionárias isoladas, que frequentaram umas formações à pressa, parece-me antes que é a atitude generalizada de uma empresa que procura ser a campeã da má educação (lá me chamaram "Sr. Carlos" de novo, com uma desfaçatez que confrange, continuando mesmo quando fiz notar que só as pessoas com alguma intimidade se tratam pelo primeiro nome) e da arrogância (pensam que estão acima de tudo e de todos, acima da lei e da moral!), numa disputa com as suas congéneres, em que o vencedor está em aberto. Infelizmente, não tenho a ilusão de que as empresas concorrentes sejam muito melhores: são várias as empresas kafkianas, nesta era da técnica, que querem dar cabo de nós.

Estranhas relações?

Recebo na caixa de correio electrónico da instituição pública a que pertenço, e que me paga o salário, uma informação (ou será publicidade?) que me deixa atónita. Passo a explicar...

Uma certa federação nacional da minha área profissional (que, confesso, nem sabia que existia) informa-me que se tornou parceira de um grupo privado de saúde. Ou teria sido o contrário? Não é que isso faça grande diferença...

Informa-me também que pertenço a uma "nobre classe". Pertenço!? Como tal nunca antes se tinha passado pela minha cabeça, surge-me numa pergunta: uma "nobre classe" (presumo que "profissional" e não "social") em comparação com outras?

Como calha estarmos entre o 25 de Abril e o 1.º de Maio, surge-me outra questão: não são, ou devem ser, as "classes" iguais, em termos de acesso a cuidados de saúde!?

Parece que não... pois, se assim fosse, que sentido teria destacar-se que pertenço a uma "nobre" classe!? Deve ser porque há outras classes "não nobres" com direitos diferentes...

Adiante... Passo ao que se me propõe, e que é o seguinte: "dispor de todos os serviços" prestados em duas clínicas a preços reduzidos. Esses serviços são de medicina (em variados ramos), de psicologia clínica, de estética (em todos os aspectos que se possa imaginar para não deixar envergonhada a "nobre classe") e, claro, estando na moda, de medicina tradicional (em variantes que eu desconhecia). A benesse estende-se aos meus familiares directos.

Depois do elogio e da panóplia de atenções de que sou alvo, confesso que me sinto um pouco mal ao escrever a frase que se segue e que corresponde ao que me atormenta: não se esboçará no que acima disse uma relação estranha entre uma certa federação profissional e uma certa empresa privada?

Nota: Propositadamente, não identifico nem a Federação nem a Empresa pois entendo que isso constituiria publicidade a ambas o que, por certos, elas dispensarão.

Coimbra e o país


Coimbra, entre o Norte e o Sul, entre o litoral e o interior, é uma cidade que representa bem Portugal. Tem concentrado do melhor e do pior que existe no país. Tem coisas muito boas: a Universidade decerto, pois há sectores da Universidade de excelência a nível não apenas nacional, mas também europeu. Mas não é preciso ir muito longe para encontrar ilhas de incrível atraso… O nosso país é, infelizmente, assim: um país de gritantes contrastes.

Coimbra tem monumentos exemplarmente restaurados, como Santa Clara-a-Velha, mas também há outros mal conservados, como Santa Clara-a-Nova (aqui o nome da Santa engana, pois a velha está nova e a nova está velha!). Tem a Joanina, uma das mais belas bibliotecas mundiais, mas, nas suas estantes, muitos livros imploram por rápido socorro. Tem o Museu da Ciência da Universidade, que já ganhou um prémio europeu, mas tem, mesmo ao lado, o Museu Académico, que permanece ignorado. E tem o Jardim Botânico, uma extraordinária área verde, mas tem, anexa, uma Mata onde não se pode entrar e, muito perto, o Parque de Santa Cruz quase ao abandono.

Um romance de Robert Louis Stevenson intitula-se O Médico e o Monstro. Coimbra tem partes de médico e partes de monstro. É uma cidade bem desenvolvida na área da saúde, com serviços excelentes como a Cirurgia Cardiotorácica dos Hospitais da Universidade. Mas é também uma cidade onde um doente que precisa de uma simples radiografia pode ir para uma fila de espera de onde só sai ao fim de umas boas horas. Coimbra, tal como o país, é capaz do melhor e do pior.

A urbe é agradável para viver, mas nela persistem muitos escolhos. Quer quiser desfrutar das coisas boas está muito bem na cidade de Coimbra. Mas quem quiser preocupar-se com as más também. Porque privilegio as coisas boas e sei que há remédios para as más acredito que Coimbra tem futuro. E Portugal também!

DOGMAS


Texto de Hugo Penedones incluído no seu livro electrónico "A Nossa Vez":

Nos últimos anos temos assistido a um debate aceso nos Estados Unidos quanto ao papel da ciência e da religião. Movimentos religiosos conservadores defendem que se devem ensinar as teorias criacionistas nos programas escolares, lado a lado com (ou mesmo substituindo) as teorias evolutivas de Darwin.

Ter uma educação sobre a história das religiões do mundo, é certamente algo de muito útil. É uma peça fundamental da nossa cultura. No entanto, será que o Criacionismo e a Evolução são duas teorias igualmente válidas? Será que os cientistas acreditam na Evolução da mesma forma que os religiosos acreditam no Criacionismo?

A resposta é um estrondoso “não”!

E a explicação é muito simples, como Richard Dawkins descreve no seu fantástico livro “The God Delusion”: para um cientista, o que conta é o teste da realidade. Um cientista “acredita” na teoria de Darwin enquanto toda a evidência experimental a suportar. Se amanhã aparecerem fósseis de espécies consideradas “recentes” e se forem datados como tendo centenas de milhões de anos, algo tem de ser revisto. A atitude científica seria de imediatamente dizer: “a teoria de Darwin estava errada ou incompleta. Temos de encontrar uma melhor!”.

Por contraposição, para um crente dogmático, a realidade não importa. Mesmo que tenhamos toda a evidência para suportar a evolução das espécies (testes de DNA, registo de fósseis, etc.), um crente continua a “acreditar” que Deus criou o homem diretamente. E a mulher a partir de uma das suas costelas!

Mesmo havendo evidência de que a idade do planeta Terra é cerca de 4500 milhões de anos, um crente continua a defender que o mundo foi criado há menos de 10 mil anos. A partir do nada, em 7 dias.

Esta atitude seria engraçada se não tivesse uma propriedade: é perigosíssima.

As crenças dogmáticas são perigosas na religião e também na política. Não sei os números exatos, mas os dogmas devem ter servido para justificar uma grande percentagem de guerras no mundo. Desde as Cruzadas, passando pelas Guerras Mundiais, até à Guerra fria. E continuamos a lutar por dogmas. Gostamos de matar por isso.

Se defende uma ideologia pré-definida, que nunca se questiona, um dia vai estar errado(a) e não se vai aperceber. Se escolher ser “Marxista”, “Capitalista”, “Anarquista”, ou qualquer outra teoria “completa”, corre o risco de fechar os olhos para o mundo.

Como disse Einstein: “A verdade é aquilo que passa no teste da experiência.”.

O que precisamos é de pessoas que aceitem a realidade como ela é e que façam o seu melhor para a transformar de acordo com os interesses comuns - os interesses que todos partilhamos.

Hugo Penedones

ÚLTIMA HORA: CRIME NO MUSEU

Informação recebida do Pavilhão do Conhecimento Ciência Viva de Lisboa:

Segunda-feira não é um dia como outro qualquer para se cometer um crime... especialmente se for um CRIME no MUSEU. Que o diga o assassino do director do Museu de Ciências Naturais belga. Ao lado do corpo inanimado no chão do seu gabinete, repousa um revólver. Quem terá sido o autor de tão bárbaro homicídio? E qual o móbil do crime?

Até 2 de Outubro, o Pavilhão do Conhecimento-Ciência Viva vai estar vedado com faixas amarelas e pretas como cenário de um crime. A entrada na nova exposição interactiva CRIME no MUSEU só está autorizada a visitantes astutos, que aceitem integrar a equipa de cientistas forenses responsáveis pela investigação.

Será que uma análise laboratorial de ADN é sempre fiável? A posição do corpo da vítima é determinante para saber como foi assassinada? O que podem dizer uma beata com restos de saliva, as marcas de um projéctil ou as larvas encontradas num cadáver sobre as circunstâncias do crime? As fibras de uma camisola ou pedaços de um bolo com marcas de dentes serão suficientes para mandar alguém para a prisão? É preciso juntar as pistas e fazer uso da ciência para descobrir o autor deste CRIME no MUSEU.

A investigação passa por oito laboratórios: Vestígios Biológicos e ADN, Balística, Pegadas, Entomologia Forense, Fibras e Microfibras, Impressões Digitais, Medicina Legal e Odontologia Legal. Em cada um deles os cientistas forenses terão de analisar cabelos, sangue, fibras, larvas, pegadas, impressões digitais. Há pistas válidas e outras que só servirão para baralhar o curso da investigação.

Uma coisa é certa: a culpa nem sempre é do mordomo.

Do lado de cá das fitas amarelas e pretas, o Pavilhão do Conhecimento organiza jantares-mistério onde todos os convidados são suspeitos, visitas aos espaços da polícia que normalmente não estão ao alcance do público, laboratórios de ciências forenses e ciclos de conversas onde revelamos o trabalho da polícia e dos cientistas forenses.

A exposição CRIME no MUSEU contém legendas em braille e desenhos em relevo para visitantes cegos e com baixa visão e as actividades programadas são acessíveis a este público.

Portugal, Poetas, Liberdade e Cidadania 2


Segunda parte da antologia de textos sobre Portugal e cidadania, escolhidos por José Cymbron da Fundação Aristides Sousa Mendes (em cima Miguel Torga):

Diário (Miguel Torga, excertos)

25 de Abril de 1975 – Eleições sérias, finalmente. E foi nestes cinquenta anos de exílio na pátria a maior consolação cívica que tive. Era comovedor ver a convicção, a compostura, o aprumo, a dignidade assumida pela multidão de eleitores a caminhar para as urnas, cada qual compenetrado de ser portador de uma riqueza preciosa e vulnerável: o seu voto, a sua opinião, a sua determinação. Parecia um povo transfigurado, ao mesmo tempo consciente da transcendência do acto que ia praticar e ciente da ambiguidade circunstancial que o permitia. O que faz o aceno da liberdade, e como é angustioso o risco de a perder! Assim os nossos corifeus saibam tirar do facto as devidas conclusões. Mas duvido. Nunca aqui os dirigentes respeitaram a vontade popular, mesmo quando aparentam promovê-la. No fundo, não querem governar uma sociedade de homens livres, mas uma sociedade de cúmplices que não desminta a degradação deles.

25 de Abril de 1981 – Um dia de cava e de retórica, de manhã a semear batatas no quintal, de tarde a ouvir os discursos que no parlamento celebravam a data de hoje. Agora, no sossego da noite, estou a pensar se não haverá um grande equívoco em determinadas certezas. Se, na verdade, a democracia em que vivemos nos não terá sido dada sem querer pelos próprios que agora se gabam da munificência. Necessitados de credibilidade na hora subversiva, encostaram-se à palavra miraculosa. E a palavra, arbitrariamente utilizada, acabou por os obrigar à observância da sua estrita significação.

Três sílabas de sal (Manuel Alegre)

(…) Fui no verbo navegar
Para além do mar sem fim
Só nunca pude chegar
A Portugal que há em mim

(…) Ser marinheiro é dobrar
Hoje aqui o Bojador.

A Emigração (José Estêvão)

(…) Moralizar, desacumular, repartir, produzir, são quatro chaves que podem conter a população. E moralizar é educar, estabelecer igualdades justas, proclamar o código dos direitos e deveres. Desacumular é destruir monopólios nocivos, concessões usurpadoras, privilégios inadmissíveis. Repartir é dividir a população em relação à extensão do solo e à sua fertilidade. Produzir é acumular os meios que podem tornar as subsistências mais numerosas, baratas e gerais.

(…) O Indivíduo que emigra não é um nómada, um selvagem só possuidor de armas e duma tenda portátil, para quem a deslocação é fácil e a locomoção desembaraçada: é um homem que tem uma pátria, família e amigos. A partida é sempre dolorosa, e muitas vezes quase impossível. A facilidade, a indiferença em deixar o solo natal só se dá em duas classes verdadeiramente antípodas: nos filósofos e nos criminosos.

(…) Hoje a emigração é uma lamentável servidão. O colono quando mete o pé no barco, já é escravo do negociante pelo seu transporte. Levantou um crédito sobre a sua vida e força. Se tem a felicidade de resistir às intempéries do clima, às diferenças de alimentação, à saudade pungente da pátria, poderá pagar essa letra de sangue que sacaram sobre ele, e ele selou com lágrimas. Se não puder, então, perecerá, e perecerá escravo da emigração. Este recurso é falso e impotente. Na nossa emigração para o Brasil, o painel das misérias que lá vão passar os nossos emigrados contrista e envergonha um coração português. Muitos dos nossos vão lá ser vendidos como escravos a esses senhores de engenho, duros aristocratas do capital, que não vêem lágrimas, porque só vêem ouro. As emigrações são uma anomalia que envergonha a época em que vivemos, sem, de nenhuma forma, remediar os males da população.

(…) Os problemas, que nos cercam e apertam, ou nos hão-de esmagar ou hão-de ser resolvidos. O terreno é difícil e desconhecido, bem o sabemos. Mas hemos de tentá-lo e estudá-lo por todos os meios.

(…) A nossa população tem subido a quatro milhões de habitantes, e cresceria mais se se removessem os obstáculos que impedem o seu desenvolvimento. (…) Mas dirão: que ganhávamos nós com isso? Vermo-nos a braços com as dificuldades e complicações de uma população exorbitante? Devemos apagar o fogo ou lançar-lhe lenha? Sigamos o destino e o progresso, lancemos-lhe lenha, e que a fornalha arda com todo o seu brilho. A Providência velará por nós. Muito há a crer também no homem, neste Proteu de mil formas, de mil recursos, nesse vasto compêndio onde cada geração vai decifrando uma linha. Confiemos nele, e confiemos no Criador, que de certo tem mil segredos ainda para lhe revelar.

Lancemo-nos, pois, nesta cruzada do progresso; entreguemo-nos de alma e coração às suas vantagens e inconvenientes; poupemos os nossos filhos; e não vamos cometer crimes pelo desejo de evitar males. Deixemo-nos ir embalados por esta embarcação que marcha veloz para um mundo desconhecido. Aproamos ao oriente, havemos de chegar a algum porto. E tenhamos presente sempre o alcance das quatro palavras que, como quatro colunas, encerram a questão que nos tem ocupado: Moralizar, desacumular, repartir, produzir.

É Urgente Descobrir (Carlos Queiroz)

na flora da fantasia,
uma espécie de semente
que gere a pura alegria
e se possa introduzir
nas almas de toda a gente.

Portugal, Poetas, Liberdade e Cidadania 1


“Hoje em dia os novos infiéis são as pessoas que não acreditam que é possível mudar Portugal.” (Jovem da Escola Aristides de Sousa Mendes, em Cabanas de Viriato)

A Fundação Aristides de Sousa Mendes promoveu no Largo de Camões no dia 25 de Abril, um Encontro que visava uma reflexão sobre Portugal. Foram lidos poemas e/ou textos de Luís de Camões, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Carlos Queiroz, Sophia de Mello Breyner, Eugénio Lisboa e Manuel Alegre. A selecção dos poemas e dos textos foi de José Cymbron. Publicamos essa breve antologia em duas partes (em cima Sophia de Mello Breyner).

D. Afonso Henriques (Fernando Pessoa)

(…) Hoje a vigília é nossa. (…)

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!

Os Mortos (Eugénio Lisboa)

Os mortos mais do que os vivos, estão vivos.
Surgem, fortes, intensos, aparecem,
depurados e cheios de motivos.
Visitam-nos e acham que merecem
Todo o rigor da nossa atenção.
A morte deu-lhes, pensam, nova vida:
vê-se neles uma concentração
de virtudes - de vida reflectida.
Os mortos ensinam-nos a viver:
dão um valor novo ao que nos rodeia,
dão ao quotidiano acontecer
um brilho vivo que nos incendeia.
Os mortos acendem, em nós, a chama
de uma nova vida. Julgo que pedem
que olhemos fundo a luz que se derrama.
Exigem. Clamam. Os mortos não cedem.

Lápide (Miguel Torga)

Luís Vaz de Camões.
Poeta infortunado e tutelar.
Fez o milagre de ressuscitar
A Pátria em que nasceu.
Quando, vidente, a viu
A caminho da negra sepultura,
Num poema de amor e de aventura
Deu-lhe a vida
Perdida.
E agora,
Nesta segunda hora
De vil tristeza,
Imortal,
É ele ainda a única certeza
De Portugal.

Camões e a tença (Sophia de Mello Breyner)

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

Os Lusíadas (Luís de Camões, excertos)

Os mais experimentados levantai-os,
(…) pois que sabem
O como, o quando, e onde as coisas cabem. (X-149)

(…) ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo. (IX-92)

Sabe que há muitos anos que os antigos
Reis nossos firmemente propuseram
De vencer os trabalhos e perigos
Que sempre às grandes coisas se opuseram; (VIII-70)

(…) descobriram
Pouco e pouco, caminhos estrangeiros,
Que, uns sucedendo aos outros, prosseguiram.” (VIII-72)

(…) obrigação que lhe ficara
De seus antepassados… (IV-67)

( …) esforço e arte
Vencerão a Fortuna e o próprio Marte. (X-42)

Ousou algum a ver do mar profundo,
Por mais versos que dele se escrevessem,
Do que eu vi, a poder de esforço e de arte, (…) ?

Enfim, não houve forte Capitão
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia, Grega ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão-somente. (V-97)

Assim, com firme peito e com tamanho
Propósito vencemos a Fortuna, (VIII-73)

Não eram senão prémios que reparte,
Por feitos imortais e soberanos,
O mundo cos varões que esforço e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos; (IX-91)

Apolo e as Musas, que me acompanharam,
Me dobrarão a fúria concedida,
Enquanto eu tomo alento, descansado,
Por tornar ao trabalho mais folgado. (VII – 87)

Fernando Pessoa
(Miguel Torga)

(...) Foi o vidente filho universal
Dum futuro-presente Portugal,
Outra vez trovador e argonauta.

25 de Abril (Sophia de Mello Breyner)

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

As portas que Abril abriu (Ary dos Santos, excerto)

Agora que já floriu
A esperança na nossa terra
As portas que Abril abriu
Nunca mais ninguém as cerra.

Trova do mês de Abril (Manuel Alegre)

Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia.
Na esperança de um só dia.

Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias.
Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)
Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)
Por um só dia vivida.

BIBLIOTECA JOANINA por Cristina Carvalho


Crónica de Cristina Carvalho (autora, entre outros, de "O Gato de Uppsala") escrita após visita à BIBLIOTECA JOANINA - Universidade de Coimbra - em 5 de Abril de 2011

Sempre que um comboio pára em cima duma ponte e por debaixo dessa ponte existe a água, fica-se como suspenso entre o céu e a terra.

No meio, a água. E por essa água dum rio, neste caso dum certo rio Mondego, não consigo evitar de me perder, de conter-me sem abraço, de encontrar-me ali parada, a balançar na carruagem a caminho de Coimbra, os olhos a percorrer este leito esverdeado, cama lânguida, língua húmida, ninho de passarada, de medos e esperas sem fim. O comboio parou. E aqui estou eu muito sossegada, já me passaram as quatro estações, já olhei, já esfriei, já me foi noite e já me foi dia.
Espero. Ao segundo solavanco o comboio, subtilmente, avança, mas é como se continuasse parado de tão suave, tão imperceptível movimento. Deixou de estar parado. E agora, depois da água, depois da vida, do lado esquerdo, Coimbra existe.

Cheguei numa tarde muito quente. Por volta das três, a cidade está quase adormecida sob essa estrela de fogo que num alto só de altura, num vislumbre e em tremura, faz com que a vida se atrase. Desci do comboio e parei a olhar à volta. Não conheço aqui nada nem ninguém. Sou uma visitante. No fim da linha atravesso, no fim da linha vislumbro, para já, um bom começo. Quero ir lá ao fundo, lá ao cimo, conhecer de perto essa miragem de pedra, desaparecer-me na História onde avanço e onde recuo trezentos anos seguidos.

Sumi-me por umas ruas estreitas, fui escorregando no tempo, fui alcançando a memória. E ao virar duma esquina, já no alto, no profundo, uma cidade correndo tonalidades de verde em garantidos repousos, o rio ao fundo, tranquilíssimo, e o hálito do calor que se vai desvanecendo ali na tarde que chega.

No terreiro, um edifício. No edifício, a porta entreaberta. Entrei por essa porta entreaberta. Percorri, silenciosamente as notas de música que ia ouvindo no interior deste interior, cada livro, cada tecla, cada passo, cada som, e ouvi vozes e senti os espíritos dos incontáveis artistas que aqui trabalharam, que aqui se criaram e viveram e amaram e sofreram, dezenas e dezenas de artistas e artesãos que, numa atitude conjunta fizeram brilhar num firmamento magnânimo a mais extraordinária biblioteca universitária do mundo: a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra.

Admirei a frescura do interior, o esmagamento barroco, as chinoiseries que ornamentam as laterais das altíssimas estantes de carvalho carregadas de preciosidades encadernadas; apreciei o engenho da dissimulação das escadas de madeira em aberturas discretas ao comprimento das próprias estantes, desci às masmorras, perdi-me nas masmorras, sofri, pensei e pasmei nas masmorras. E caminhei por estreitíssimos, secretos e escuros corredores; desci pelo abismo dos degraus, equilibrei-me nalgum musgo das paredes, aspirei a humidade de outros tempos. Elevei-me ao maravilhoso quando percorri com passos curtos os varandins que bordam todo um espaço aéreo, circundante.

Mas duas reais surpresas prenderam a minha mais certeira atenção e é por elas que escrevo esta crónica: mesas e morcegos.

Seis sumptuosas mesas de leitura estão espalhadas por todo o espaço da biblioteca. Cada uma tem, pelo menos, quatro metros! Quando o dia chega ao fim e não há mais visitantes, nem turistas nem estudantes, as mesas são tapadas por amplas e largas composições de peles curtidas e unidas para o efeito. Nos séculos XVIII e XIX, eram peles de urso, vindas doutras paragens, cosidas umas às outras de forma a compor um vastíssimo manto protector dessa madeira preciosa em que as mesas foram concebidas. É que os dejectos das colónias de morcegos que habitam e se alimentam ali, na realíssima Joanina, dão cabo de tudo!

No alto das alturas das paredes inteiramente decoradas por estantes com milhares e milhares de riquíssimas lombadas de pele e oiro e prata e mais que se não sabe, estes magníficos livros, quase todos dedicados a uma só matéria – a religiosa - escapam à voracidade dos insectos comedores de papel unicamente por via desses feiíssimos mamíferos: os úteis morcegos. No alto das alturas, estando eu no varandim, pude apreciar sem olhar à sua função, os secretos esconderijos destes animais especiais que durante a noite, ao arrepio das preciosidades presentes, esvoaçam tranquilamente rentes aos belos livros, poisam nos belos livros, chafurdam e pastam por ali, comendo todos os insectos que por sua vez, se não fossem comidos, comiam as tenras folhas do antiquíssimo papel. Comem e dejectam. Dejectam porque comem. E por isso, as seis enormes e maravilhosas mesas de leitura têm de ser tapadas todas as noites de todos os dias porque todas as noites de todos os dias os morcegos se alimentam.

Saí. Saí tarde. Saí ao pôr-do-sol desse dia tão quente e percebi a aproximação da noite em mais um dia da vida. Saudei, mentalmente, esta “casa de livros”, construída, decorada e vivida durante onze intensos anos. Saudei, mentalmente, as dezenas de Antónios, Manueis, Carlos e Luíses que foram seus bronzistas, latoeiros, vidraceiros, pedreiros e marceneiros. Saudei, mentalmente, uma das jóias mais valiosas que Portugal tem para mostrar e para dedicar ao mundo inteiro. A Biblioteca Joanina.

Cristina Carvalho
Abril 2011

quarta-feira, 27 de abril de 2011

História Química de Uma Vela de Michael Faraday



Informação do Museu da Ciência, Imprensa da Universidade e Sociedade Portuguesa de Química:

Lançamento do livro A HISTÓRIA QUÍMICA DE UMA VELA, de Michael Faraday, edição da Imprensa da Universidade de Coimbra e Sociedade Portuguesa de Química

Museu da Ciência da Universidade de Coimbra

28 de Abril 2011 | 18H00


Prefácio de Sebastião Formosinho
Tradução de M. Isabel Prata e Sérgio Rodrigues

Apresentação por Mário Nuno Berberan e Palmira Silva

No final serão realizadas algumas das demonstrações do livro por Sérgio Rodrigues e Filipa Oliveira


Michael Faraday (1791-1867) é um dos cientistas mais respeitados de todos os tempos. Embora seja mais conhecido pelos seus trabalhos na área da Física, os avanços que proporcionou na área da Química são também notáveis, nomeadamente a descoberta do benzeno e o desenvolvimento da electroquímica.

De origens modestas, Faraday começou como aprendiz de encadernador o que lhe permitiu estudar muitas obras a que de outra forma não teria acesso. As suas qualidades ímpares foram descobertas por Humphry Davy, após ter recebido do jovem Faraday notas detalhadas das lições que havia proferido na Royal Institution, às quais Faraday havia assistido. Tendo iniciado a sua carreira científica como assistente de Davy foi director da Royal Institution e fellow da Royal Society.

Faraday foi também um grande divulgador de ciência, em especial junto dos jovens. Este livro, que continua a ser citado 150 anos depois da sua edição original, é um testemunho de um tempo em que a divulgação da ciência era avidamente procurada por jovens e adultos e um exemplo clássico e sempre actual de excelência pedagógica.

O prefácio à edição portuguesa de Sebastião Formosinho, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra, que viveu nos anos sessenta o ambiente científico da Royal Institution, dá-nos um enquadramento pessoal desta obra.

A presente tradução, da responsabilidade de M. Isabel Prata e Sérgio Rodrigues, é acompanhada por modernas notas, tanto culturais como científicas, que procuram esclarecer alguns aspectos menos conhecidos da obra e da época em que foi escrita.

Telescópios:Nossa visão eletrônica!


REACTOR NUCLEAR PORTUGUÊS FAZ 50 ANOS


Hoje celebram-se os 50 anos do Reactor Português de Investigação situado em Sacavém, perto de Lisboa.

Esse reactor tem sido uma verdadeira escola de ciência e engenharia nuclear, desde que foi inaugurado em 25 de Abril de 1961, tendo dado origem não só a numerosas publicações científico-técnicas como, ainda mais importante, a formação de uma pleiade de recursos humanos especializados. O primeiro reactor nuclear experimental funcionou em 1942 debaixo das bancadas de um estádio de Chicago, nos EUA, e logo no ano seguinte entrava em funcionamento em Oak Ridge o primeiro reactor industrial. Na sequência do programa Átomos para a Paz, sob o impulso do presidente norte-americano Dwight Eisenhower, houve entre nós, em finais dos anos 50 e início dos anos 60, uma grande aposta na ciência e tecnologia nuclear (não esquecer que as minas de urânio da Urgeiriça existem quase desde o início do século, além de, no final da Segunda Guerra Mundial, terem sido descobertos e explorados filões em Moçambique). Discutiu-se, durante muito tempo, a instalação de uma central nuclear em Portugal. Mas, com o 25 de Abril, o de 1974, essa possibilidade haveria de fenecer. O Ministério da Indústria e Tecnologia mandou fazer, nos anos 70, um Livro Branco sobre uma central nuclear em Portugal, que não teve quaisquer consequências.

Só nos tempos mais recentes o nuclear voltou à ribalta, tanto no mundo, onde a energia nuclear foi reavivada pelo facto de não contribuir para o efeito estufa devido à ausência de emissões de dióxido de carbono, como em Portugal, devido ao interesse manifestado por um grupo privado num grande investimento numa central nuclear. O governo português tem adiado qualquer discussão ou qualquer planeamento neste sentido. Pela minha parte, acho que não deve haver temas tabus e que é bom que a energia nuclear esteja sobre a mesa como uma das opções possíveis no nosso futuro energético tal como o é para outros países. Pode, por várias e boas razões, não ser a melhor e vir a ser descartada, mas não deve ser eliminada à partida por mero preconceito. As centrais nucleares estão bem próximas de nós na Europa, em Espanha e em França. Apesar das más notícias vindas ultimamente do Japão, o nuclear tornou-se uma das tecnologias mais bem reguladas e mais seguras do mundo, sendo previsível que após Fukushima as medidas de regulação e segurança venham a ser ainda mais apertadas com o correspondente reforço de confiança.

A história do reactor nuclear português está em larga medida por fazer, mas há para isso abundante documentação. O livro de Jaime da Costa Oliveira “O Reactor Nuclear Português” (edições Mirante, 2006) contém boa parte dela. O autor, que trabalhou no recator, começa por uma história da “era atómica” no mundo para continuar com a chegada dessa era a Portugal. O início oficial do nuclear em Portugal remonta a 1954 com a criação da Junta de Energia Nuclear. O Laboratório de Física e Engenharia Nuclear (antecessor do actual Instituto Tecnológico e Nuclear, um laboratório do estado) começou a ser construído em Sacavém, no ano de 1957, tendo desde o início sido planeado para incluir um reactor de tipo piscina, cujo combustível é urânio e cujo meio moderador é a água, com uma potência máxima de um megawatt. Vários capítulos do livro fazem uma descrição pormenorizada do reactor, discutindo em particular as questões de segurança, que estiveram sempre presentes desde a instalação e foram sempre asseguradas.

Um dos maiores interesses da obra reside na inclusão de depoimentos de alguns dos principais actores da actividade do reactor, nomeadamente o prefácio de Júlio Galvão, que esteve na génese do Serviço de Protecção contra Radiações do Laboratório de Sacavém. E vários testemunhos aparecem em apêndice, em resultado de entrevistas efectuadas pelo autor. Incluem-se aí, entre outros, depoimentos de António Comprido (engenheiro que entratanto passou a trabalhar no sector dos petróleos), Eduardo Martinho (engenheiro nuclear que escreveu no seu blogue sobre os 50 anos do reactor), Frederico Carvalho (que se doutorou em Física em Karlsruhe e foi durante muitos anos responsável pelo Departamento de Física do Laboratório de Sacavém), João Caraça (doutorado em Física Nuclear em Oxford e que hoje é director do Serviço de Ciência da Fundação Gulbenkian), José Moreira de Araújo (doutorado em Física Nuclear em Manchester que fez uma longa carreira na Universidade do Porto), José Veiga Simão (doutorado em Física Nuclear em Cambridge, professor da Universidade de Coimbra, e que foi Ministro da Educação, Ministro da Indústria e Energia e Ministro da Defesa Nacional), Rui Namorado Rosa (doutorado em Física em Oxford e professor na Universidade de Évora, especializado em questões de energia). Houve, como se vê, uma tentativa séria e em grande parte conseguida de formar pessoas de valor em física nuclear. O volume lista aliás os artigos que foram publicados no quadro das actividades do reactor português de investigação. Acrescente-se que vários centros nacionais de investigação em física fundamental radicam aliás nesse esforço.

Portugal, pese embora algumas indecisões no passado no domínio da política científica e energética, bem pode orgulhar-se de ter um reactor com um registo impecável de funcionamento e que muito tem contribuído para a ciência fundamental e aplicada.

PARA SABER MAIS:

- Jaime da Costa Oliveira, “O Reactor Nuclear Português. Fonte de Conhecimento”, edições Mirante, 2006.

terça-feira, 26 de abril de 2011

A partir da vitória foi uma festa

Continuação da passagem, aqui reproduzida, do livro de Memórias de Rómulo de Carvalho sobre os acontecimentos que se seguiram ao dia 25 de Abril.

“A partir da vitória foi uma festa. Expulsos os governantes, como boas maneiras, os militares e o povo, com cravos vermelhos na lapela ou nas mãos e até mesmo nos canos das espingardas (por isso se lhe chamou a “Revolução dos Cravos”) trataram, de imediato, de promover a liquidação da odiada PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), com longo cadastro de crimes, de violências, de abusos de toda a ordem, com sede em Lisboa, na Rua António Maria Cardoso. O ataque foi violento e sangrento com cinco mortos. No total a Revolução provocou seis mortos: esses cinco e mais um que morreu de indigestão no Parque Mayer a comemorar o derrube da Ditadura. Os pides foram encarcerados mas, graças à Providência, fugiram todos numa mesma noite, mais de cem, e nunca mais ninguém os apanhou. Se vos quiserdes divertir, meus queridos tetranetos, ide folhear o Diário de Notícias desses dias e aí encontrareis, nas páginas dos anúncios, vários rectângulos em que se lê que Fulano de Tal vem declarar por este meio que nunca pertenceu à Pide. Bons rapazes.

Uma vez expulsos os governantes, os militares, promotores do acontecimento, entreolharam-se sem saberem bem o que haviam de fazer a seguir. Eles sabiam conspirar, sabiam defender o seu prestígio, sabiam actuar, sabiam tudo o que presta para derrubar mas não para construir. Um dos “capitães de Abril”, talvez o mais afamado de todos, declarou meia dúzia de anos depois dos acontecimentos, em entrevista ao Diário de Notícias (…) que “Nós todos, os militares, não tínhamos, de facto, em 25 de Abril, nenhuma estrutura política”. “Na generalidade, não pensavam nada em termos políticos e nem tinham um conhecimento mínimo da sociedade portuguesa” (…). Chamava-se o homem Otelo Saraiva de Carvalho. Foi um herói mas, com as voltas que o mundo dá, meteu-se em acções aventureiras que o conduziram à prisão.

Concretizado o derrube da Ditadura e reconhecida a impreparação dos militares para darem rumo à vida nacional, era a vez de os políticos saltarem para o terreno. Tinham vivido até aí na clandestinidade e muito deles presos, em Caxias ou em Peniche, ou no Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde. As portas das prisões e as barreiras das fronteiras foram abertas, e todos puderam subir às suas tribunas e expor os seus programas (…).

O que se passou a seguir foi uma balbúrdia que levou alguns anos a serenar. Muito foram os partidos que então se organizaram, e cada um, como é óbvio, como o seu programa, o que provocou lutas permanentes e abusos de toda a ordem. O Zé Povinho, a quem tanto faz que os governantes sejam estes como aqueles, desde que lhe satisfaçam os seus interesses, aproveitou-se da balbúrdia e entregou-se a toda a espécie de desmandos, de atitudes e de linguagem. Foi uma bela oportunidade para arranjarem casa de habitação de pedra e cal os que viviam em barracas de madeira. Eu vi aqui no meu bairro uns indivíduos partirem os vidros das janelas de um rés-do-chão que estava desabitação, treparem por elas e ocuparem a casa. Quem ia na rua, como eu, olhou e seguiu, sem qualquer comentário.”

Rómulo de Carvalho,
in
Memórias (2010), Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 300-301.

A Corrupção, a Campanha Eleitoral para Assembleia da República e o FMI


“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente” (Mário Quintana, 1906-1994).

Em vésperas de uma nova campanha eleitoral para a Assembleia da República na qual, pese embora a promessa dos partidos políticos em se manterem moderados na agressividade e parcos nas despesas, poderá haver acusações de corrupção que podem afectar a dignidade dos políticos e do próprio país, fazendo perder a fé na Democracia porque, segundo Aldous Huxley, “nos estados autocraticamente organizados, o espólio do governo é compartilhado entre poucos: nos estados democráticos há muito mais pretendentes, que só podem ser satisfeitos com uma quantidade muito maior de espólio que seria necessário para satisfazer os poucos aristocratas; a experiência demonstrou que o governo democrático é geralmente muito mais dispendioso do que o governo por poucos".

Pela actualidade que lhe reconheço, sem querer, de forma alguma, generalizar o que deve ser particularizado para não ferir, com infundadas suspeitas, a honra de simples e honrados cidadãos que possam militar desinteressadamente na política, transcrevo um meu artigo de opinião de há alguns meses, Portugal e a corrupção. Escrevi então:

“Era um vez um pequeno país, na feliz imagem de Afonso Lopes Vieira, “onde a terra acaba e o mar começa”, obrigado, pelo interesse e cobiça da União Soviética, da China Popular e dos próprios Estados Unidos, então sob a presidência de J. F. Kennedy, para que Angola e Moçambique deixassem de ser territórios sob administração portuguesa. Apesar de grande produtor de café, S. Tomé e Príncipe era mantido à margem da ganância dessas grandes potências por elas ainda não terem conhecimento da descoberta de poços de “ouro negro” naquelas paradisíacas paragens de roças vicejantes.

A conivência com esta campanha morava nos diversos areópagos internacionais que, sob o manto hipócrita de nobres intenções humanitárias, atiçaram sobre Portugal as mandíbulas do opróbrio de ser uma nação colonial quando os verdadeiros motivos das grandes potências mundiais tinham por finalidade o pior dos colonialismos: o neo-colonialismo! Estavam lançadas, assim, em terreno fértil as sementes contra a Guerra do Ultramar que implicava uma hemorragia do erário público em três frentes de combate: Angola Moçambique e Guiné Todavia, nos derradeiros anos que antecederam o 25 de Abril, “nunca outro período da nossa história assistiu a um tão rápido desenvolvimento económico e a uma tão grande aproximação da nossa economia às mais desenvolvidas” (Luciano Amaral, Atlântico, ano I, n.º 6, Set. 2005, p.9).

Hoje, assiste-se, apesar da torrente caudalosa dos fundos comunitários (até quando?), a este triste panorama: o salário mínimo nacional é inferior ao da Grécia; os ordenados em Espanha são maiores e o custo de vida menor; os automóveis são 15% mais caros do que a média europeia; a bolsa dos portugueses é onerada com impostos mais elevados que os da grande maioria dos paises europeus; e, last but not least, alguns países do Leste Europeu começam a aproximar-se – ou mesmo a superiorizarem-se – ao desenvolvimento destas paragens lusitanas.

Não fossem os relatórios nada abonatórios para o nosso país, que nos chegam em catadupa do estrangeiro, e são publicados nos media (bendita liberdade de imprensa!), quase poderíamos ser levados a pensar que o bem-estar da Pátria e a felicidade dos portugueses residem, tão-só, em encontrar respostas para perguntas que lhe angustiam a alma, como estas: será que a condição de octogenário de Mário Soares deve ser ou não impeditiva da sua corrida ao Palácio da Ajuda? Ou, mais prosaicamente, qual o clube da Superliga de Futebol se sagrará campeão nacional da época 2005/2006?

Numa nada “ditosa Pátria” - com uma tantas personagens com responsabilidades social, política e económica que, em momentos de grave crise nacional, se preocupam com questões de “lana caprina” ocupando os tempos de ócio, sob o derradeiro sol de Agosto, com intrigas de soalheiro e desavenças de comadres - foi sacudida a opinião pública, pelo menos aquela mais atenta e responsável, pelo artigo de Daniel Kaufmann que relata, na edição de Setembro deste ano da revista “Finance & Development”, editada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que “Portugal podia estar ao nível da Finlândia se melhorasse a sua posição no ranking do controlo da corrupção”.

Em fim de férias, que provocam um certo estado depressivo nas pessoas, grande “maldade” a deste articulista na escolha da altura para a denúncia de um statu quo em que Portugal deixou de estar “orgulhosamente só” para passar a estar vergonhosamente acompanhado pela corrupção, como que a modos, como diria Pessoa, de um “cadáver adiado que procria” "(Público, 26.Set.2005).

Numa altura em que a salvação da nossa economia, mercê das asneiras que se fizeram com três sucessivos Programas de Estabilidade e Crescimento, em que as tentativas de cura se prenunciaram como simples e cada vez mais dolorosas panaceias em que havia o perigo de o doente não morrer da doença mas da cura, é encarada, agora, como salvação in extremis a chegada e permanência do FMI que fará recair, sem dó nem piedade, sobre os justos as asneiras dos pecadores de um desgoverno que conduziu Portugal à triste e penosa situação actual em que se não divisa a luz ao fundo do túnel. Um túnel deveras perigoso porque, segundo Edmund Burke, “no meio de um povo geralmente corrupto a liberdade não pode durar muito”!

Nota: Este post, como o nome indica, reporta-se à próxima campanha eleitoral para a Assembleia da República e à estadia do FMI em Portugal, sendo uma adaptação actualizada de um outro que publiquei neste blogue, intitulado “A Corrupção e a Campanha Eleitoral para a Presidência da República” (07/01/2011).

Clonagem, no Ciclo Fronteiras da Ciência em Coimbra

Informação recebida do Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho relativa uma palestra sobre Clonagem na 6ªfeira, 29 Abril, às 21h15, no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, em Coimbra:

O tema da Clonagem (ou mais correctamente, o tema da Transferência Nuclear Somática), entrou de súbito no léxico e imaginário populares em 1996, com o nascimento da ovelha “Dolly”. Nunca tanto foi dito e escrito, especulado e exagerado a propósito de uma única ovelha. No entanto, a investigação nesta área era bastante antiga, remontando à década de 1950, e pretendia responder a uma questão de ciência básica muito simples. Uma célula de um embrião tem a possibilidade de formar muitas células diferentes. À medida que o embrião se desenvolve as células perdem essa capacidade, vão sendo cada vez mais especializadas e passam a desempenhar funções muito específicas no organismo. Um pouco à semelhança da escolaridade, onde a escolha de ramos, áreas ou cursos vai progressivamente limitando as saídas profissionais dos alunos. Chama-se a esse processo Diferenciação. Mas será possível voltar atrás no tempo e transformar uma célula especializada (da pele, do sangue) de um indivíduo adulto no equivalente a uma célula embrionária? Será possível reprogramar uma célula adulta para ser outra coisa? A Clonagem é uma das abordagens a essa problemática, que não se limita a tentar reproduzir cópias idênticas de indivíduos, algo de resto impossível. Mesmo que conceptualmente simples de explicar, a técnica levanta inúmeras questões científicas, técnicas e éticas. As questões científicas e técnicas, relacionadas com uma taxa de sucesso muito baixa e variável de espécie para espécie, e com várias malformações em fetos clonados, são universais. Já as questões éticas não o serão tanto.

A Clonagem é também um tema fascinante porquanto, se continua a ser muito debatido na sociedade, a verdade é que muito poucos investigadores trabalham neste tópico, e o mesmo não é considerado pelos especialistas particularmente interessante. Isto porque surgiram entretanto outras técnicas para reprogramar células, como a Pluripotência Induzida, mais simples, menos complexa do ponto de vista ético e mais reprodutível do que a Clonagem, apesar de ter também as suas limitações. Uma característica importante da noção das Fronteiras em Ciência é estarem em constante mutação, nunca ficando onde as julgamos encontrar.

João Ramalho-Santos
Centro de Neurociências e Biologia Celular
Departamento de Ciências da Vida
Universidade de Coimbra
jramalho@ci.uc.pt

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Naquele dia 25 de Abril de 1974

Aqui reproduzimos a visão de Rómulo de Carvalho acerca do dia 25 de Abril e dos que se lhe seguiram. Uma visão que nos ajuda a perceber que se passou, mas, sobretudo, o que se passa em Portugal.

"Naquele dia 25 de Abril de 1974, que foi uma 5.ª feira, saí de casa de manhã, como de costume, a caminho do Liceu Pedro Nunes. Não tinha aulas, porque (...) estava afastado desse serviço, mas tinha um encontro marcado com dois professores alemães, nesse liceu, onde iríamos trocar impressões, em francês, sobre questões de ensino. Segui pela Coelho da Rocha, normalmente, sem notar nenhum sinal de "revolução", e aí encontrei um colega, o Trigueiros, que fora meu estagiário, e se encaminhava também para a citada reunião. Lá ao fundo virámos à direita e começámos a descer a rua da Estrela.

Ó Dr. Trigueiros, o que é aquilo? Parámos a observar. À direita, a meio da rua, há um quartel, da Guarda Republicana, com uma porta larga e guarita junto dela onde normalmente se vê um soldado de pernas abertas, de sentinela, a observar quem passa. Por cima da porta, no 1.º andar, há uma janela com varanda, e o que me deu nas vistas, ao descer a rua, foi ver o soldado nessa dita varanda, de pernas abertas, a observar quem passava. A porta do quartel estava fechada, e a habitual sentinela passara-se para o 1.º andar. Que é isto?

Quando chegámos ao liceu, os alemães, que tinham vindo da Baixa, disseram-nos, alarmados, que havia por lá grande movimento de gente que se manifestava, com soldados à mistura. Devia ser uma revolução, o que aconselhou todos nós a regressar aos seus lares. Assim foi.

Quando cheguei a casa liguei o aparelho de rádio na expectativa de ter notícias dos acontecimentos. Não havia dúvida. O movimento estava a ser seguido pelos operadores de rádio como se procedessem à execução de um filme, ao vivo.

Ouviram-se ordens e contra-ordens, comentários rápidos em tons alvoroçados. A Revolução estava na rua. A ditadura estava a ser derrubada. Os maus da fita iam ser castigados e os bons erguidos aos ombros, entre aplausos.

De vez em quando as ondas radiofónicas traziam consigo uma canção. Era a canção que, por combinação prévia, tinha servido de sinal à eclosão do movimento revolucionário. Ficara combinado que, entre as zero horas e a uma hora daquele dia 25 de Abril de 1974, a Rádio Renascença emitiria uma canção, já então conhecida, de um "cantautor" (nome que na altura se usava para os autores das letras das canções que eram simultaneamente autores das respectivas músicas) de nome José Afonso, agora já falecido. Todos os candidatos a revoltosos ligaram os seus rádios, àquelas horas, para a referida estação, e mal ouvissem o aguardado canto, saltariam para as ruas de armas na mão.

A canção, como vos disse, já era conhecida, mas de muito pouco tempo antes da Revolução. A censura exercida no tempo de Salazar tinha-se gradualmente abrandado após a sua queda da cadeira, a ponto de tornar possível o conhecimento público de canções de feição revolucionária (...). Chamava-se a canção "Grândola vila morena", e começava assim: "Grândola vila morena, / terra da fraternidade. / O povo é quem mais ordena / dentro de ti, ó cidade."

A única coisa que daqui se compreende, e exalta os ânimos, é que o povo é quem mais ordena. É mentira, mas é bonito. Porquê Grândola? (...) E morena porquê? Para rimar com ordena com que, aliás, não rima bem! E que se passou em Grândola, que a gente saiba, para ser terra da fraternidade? Eu, pelo menos, não sei (...). Basta de perguntas. O que interessa é que a canção era revolucionária e o público exaltou-se com ela, e aplaudiu-a cantando-a em coro. Essa foi a canção que deu o sinal de partida para os revolucionários, e desse modo se instalou na História."

Rómulo de Carvalho,
in
Memórias (2010), Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 298-300.

Coimbra, 25 de Abril de 1974

Coimbra, 25 de Abril de 1974 - Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá seja duradoiramente de parada...

Miguel Torga
in
Diário XII, Coimbra (1977), página 59.

American hero (dos últimos)

Gabrielle Giffords e Mark Kelly

Hoje, 2ª feira, a minha crónica no jornal i.

Esta é uma história tipicamente americana, quase um filme hollywoodesco, com sangue, suor, lágrimas, espaço e até mesmo Obama, o presidente. Comecemos pelo futuro: se tudo correr como previsto, esta sexta-feira, pelas 19h47, hora de Lisboa, partirá do Cabo Canaveral a última missão do vaivém espacial Endeavour. A comandar a tripulação de seis astronautas está Mark Kelly, piloto de testes da Marinha, com missões de sucesso na Guerra do Golfo e já com três viagens ao espaço. Mas o maior desafio que teve até hoje tocou na sua esfera mais íntima: a sua esposa, Gabrielle Giffords, é uma senadora democrata que, a 8 de Janeiro e num ataque ainda hoje incompreensível, foi alvejada na cabeça enquanto discursava no Arizona. Com uma missão espacial tão simbólica já marcada, Kelly sabia que este também seria o seu último passeio "lá fora". Largou tudo, o dever rendeu-se ao amor, juntou-se à mulher, sofreu com ela. Entretanto, Gabrielle melhora e Kelly regressa aos exigentes treinos físicos. O sonho dele é que a mulher esteja ali, ao lado do presidente Obama (que insistiu em estar presente), no instante do lançamento. Hoje, Gabrielle está a reaprender a andar e a falar e há quem pergunte: será que Kelly tem força psicológica e concentração suficiente para liderar esta missão? Ele respondeu: "Aprendi a ignorar toda a minha vida pessoal e a focar- -me apenas na missão. E faço-o há já 24 anos." Tornou- -se, assim, num novo herói! Mais um, espacial.

domingo, 24 de abril de 2011

XIII Festival de Teatro de Tema Clássico - 2011

O De Rerum Natura tem o gosto de anunciar a realização de mais uma edição do Festival de Teatro de Tema Clássico. Será a décima terceira. E decorrerá entre 28 de Maio e 15 de Julho.

Estão previstas duas dezenas de iniciativas, repartidas por 16 espectáculos de teatro e 2 de música e, ainda, 2 jornadas de reflexão teórica dedicadas aos diálogos platónicos e à figura de Prometeu.

Anuncia-se, agora, o programa da primeira fase do Festival (28 de Abril a 25 de Maio).

- 28 de Abril de 2011, 5.a feira, 21h30, Coimbra, Teatro Paulo Quintela (FLUC). Grupo Thíasos do IEC, A sogra de Terêncio (antestreia)

- 2 de Maio de 2011, 2.ª feira, 21h30, Coimbra, Teatro Paulo Quintela (FLUC). Origem da Comédia, Secção juvenil da APEC, Ensaio sobre a Cicuta (antestreia)

- 3 de Maio de 2011, 3.a feira, 11h30, Ericeira, Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas. Grupo Balbo, de Cádiz, A mulher na tragédia.

- 3 de Maio de 2011, 3.a feira, 15h, Ericeira, Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas. Grupo Thíasos do IEC, A sogra de Terêncio.

- 4 de Maio de 2011, 4.a feira, 11h30, Conimbriga. Grupo Balbo, de Cádiz, Antígona de Sófocles.

- 4 de Maio de 2011, 4.a feira, 15h, Conimbriga. Grupo Balbo, de Cádiz, Rudens de Plauto.

- 18 de Maio de 2011, 3.a feira, 14h, Coimbra, Museu Nacional Machado de Castro. Conferências platónicas.

- 18 de Maio de 2011, 3.a feira, 21h30, Coimbra, Museu Nacional Machado de Castro. Origem da Comédia, secção juvenil da APEC, Ensaio sobre a Cicuta

- 19 de Maio de 2011, 5.a feira, 15h, FLUP. Grupo Thíasos do IEC, O Fulaninho de Cartago de Plauto.

- 21 de Maio de 2011, Sábado, 21h30, Conimbriga. Espectáculo lírico do Grupo Canto e Drama do Conservatório de Música de Coimbra.

- 22 de Maio de 2011, Domingo, 18h, Coimbra, Mosteiro de Santa Clara a Velha. Grupo Thíasos do IEC, Fulaninho de Cartago de Plauto.

- 22 de Maio de 2011, Domingo, 21h00, Coimbra, Museu Nacional Machado de Castro Espectáculo lírico do Grupo Canto e Drama do Conservatório de Música de Coimbra

- 25 de Maio de 2011, 4.a feira, 21h30, Condeixa, Ruínas Romanas de Conímbriga. Origem da Comédia, Secção Juvenil da APEC, Ensaio sobre a Cicuta.

Até 11 horas por dia na escola

O jornal Público questionou recentemente diversas pessoas sobre estado da Educação. No dia 21 deste mês em notícia assinada por Clara Viana. José Morgado, psicólogo e professor universitário aproveitou a oportunidade para falar sobre o estranho conceito de Escola a Tempo Inteiro a que já nos referimos neste blogue (por exemplo, aqui), aflorando um aspecto fundamental: as consequências que a permanência na escola, para além do tempo que é razoável, terá na aprendizagem.

"Parece-me (...) importante neste breve comentário chamar a atenção para o facto de que no nosso sistema educativo, a ideia de Escola a Tempo Inteiro, num lamentável equívoco com a ideia de Educação a Tempo Inteiro, operacionalizada através das Actividades de Enriquecimento Curricular a que acresce uma possibilidade decorrente de uma designada Componente de Apoio à Família, permitir que muitas crianças permaneçam na escola até 11 horas por dia. Sendo certo que a supervisão das crianças nos tempos profissionais dos pais é um problema fundamental para o qual as comunidades precisam de encontrar resposta, importa também avaliar o impacto que em muitas crianças pode ter a permanência por tanto tempo na escola e, sobretudo, a qualidade e ajustamento do trabalho que é realizado durante esse tempo. Todos conhecemos certamente excelentes práticas, mas também todos sabemos de trabalho desenvolvido por profissionais não preparados, com recursos desajustados, a utilização excessiva de tarefas de tipo escolar, etc. que não podem deixar de ter consequências na relação que os miúdos estabelecem com a escola e com a aprendizagem ao longo do seu percurso."

UM PRAZER INTERROMPIDO


Posfácio do ensaísta Eugénio Lisboa ao romance de Rosa Lobato Faria, “Vento Suão”, publicado muito recentemente:

Ao deixar-nos, em 2 de Fevereiro de 2010, Rosa Lobato de Faria, escritora nascida a sério, com a publicação do romance "O Pranto de Lúcifer", legou-nos um espólio literário abundante, para um período de criação de apenas quinze anos. Abundante e quase sempre de leitura empolgante: rima e é verdade.

O segredo do seu triunfo junto do público é simples, como todas as explicações que realmente explicam – e vamos buscá-lo a um mestre do romance e dos estudos sobre o romance: Henry James, a quem James Wood foi roubar uma soberba epígrafe para o seu livro fascinante "How Fiction Works"*: Na edição portuguesa (em excelente tradução de Rogério Casanova): " A Mecânica da Ficção". “Só existe uma receita – gostar muito do que se cozinha.” Rosa Lobato de Faria gostava evidentemente daquilo que a sua cozinha literária para nós produzia. Há, nas suas narrativas, um fluir gostoso, um fogo, um apetite de seguir em frente que nos subjugam por terem começado por subjugá-la a ela. Como conciliar tão sôfrego apetite de narrar com um começo tão tardio na sua vida literária a sério? Aqui fica a pergunta para quem quiser e souber decifrar o enigma. Diga-se apenas, para começar, que não se trata de caso único.

Rosa Lobato de Faria foi, até certo ponto, sobretudo nos primeiros tempos da sua carreira de romancista, vítima da reputação que projectava a outra Rosa, ligada à televisão, às novelas e às cançonetas de trazer por casa. Certos intelectuais têm dificuldade em admitir a cohabitação, na mesma pessoa, de um escritor sério com um outro mais mundano, mais extrovertido, menos profundo. E, no entanto, a história literária abunda em exemplos: o Scott Fitzgerald que nos deu "The Great Gatsby" não era por certo o mesmo das orgias nos hotéis de luxo da Côte d’Azur, nem do tempo desperdiçado em Hollywood a escrever guiões de pacotilha. Ele próprio tinha consciência do mau juízo que faziam dele, por causa da reputação espalhafatosa do outro que não era o que escrevera "Tender is the Night" – e pedia encarecidamente que tomassem a sério o Scott, autor de romances, nos quais investira o que de melhor havia na sua oficina de ficcionista, a despeito do ser humano desprezível que também, porventura, dava pelo nome de Scott Fitzgerald. Proust era um snob insuportável, a esfalfar-se atrás de marquesas e do high-life em geral, redactor de cartas intermináveis e chatíssimas a personagens de um meio social que ele perseguia e invejava, apesar de fútil, mas havia um outro Proust, mais secreto, mais profundo, mais inventor de uma concepção revolucionária do romance, que se escondia por detrás do mundano e tentava conquistar a imortalidade, sondando, como ninguém, os segredos e labirintos e ratoeiras da memória. O SENHOR Henri Beyle, gorducho baixote e grotesco, que se gastava a dizer piadinhas de mau gosto nos salons de Paris, que, aliás, desprezava, era, por outro lado, o escritor Stendhal, que nos deixou, pelo menos, dois monumentos da novelística francesa: "Le Rouge et le Noir" e "La Chartreuse de Parme". Não se deve olhar com ligeireza para a máquina da criação: ela tem habitado nos lugares mais improváveis.

Em livros como "Romance de Cordélia", "O Prenúncio das Águas" ou agora, neste inacabado "Vento Suão", Rosa Lobato de Faria dá-nos testemunho poderoso desta outra Rosa, que não terá, por certo, exactamente os mesmos admiradores que tinha a mais vistosa e mais superficialmente sedutora actriz de televisão e autora de poemas e letras de canções: material que se não situa, necessariamente, no mesmo patamar de exigência em que vive a sua ficção.

É, provavelmente, verdade que a narrativa da autora de "O Prenúncio das Águas", flui com uma mestria que, por vezes, se confunde com facilidade, ou mesmo, sugere-se, arrasta a asa à superficialidade. Ainda, outras vezes – demos, de barato, os trunfos todos ao inimigo – a teia implacável que a autora tece em torno dos personagens não desdenha namorar, com alguma saudade, o grande romance folhetinesco do século XIX. Mas a força de vida, o conhecimento profundo da realidade e do meio em que se agitam os seus fantoches ficcionais, o domínio das minúcias (de que, diria eu, só uma mulher á capaz), o fôlego narrativo, a irrupção imparável de um vento negro de violência que impõe uma aura de tragédia intemporal ao que parecera quase inócuo – acabam por subjugar as eventuais reticências.

Querem um exemplo, entre tantos que poderia dar, de uma notação de grande romancista, servindo-se da colaboração da observação e da memória involuntária? Vejam as duas amigas, Sofia e Luísa, recordando os tempos da infância: “ - Lembras-te de quando pensávamos que não havia amanhã? Não tínhamos a certeza se o Sol ia nascer. Levantávamo-nos de madrugada com aquela angústia: e se não nasce? Víamos os pássaros raros que anunciavam a manhã e cada uma em sua casa torcia por um nascente que parecia tardar de propósito para nos fazer sofrer...”.

Rosa Lobato de Faria, antes de se dedicar seriamente à ficção, fora, não é vergonha dizê-lo assim, uma “profissional do entretenimento”. Não é pois de admirar que tenha trazido para os seus romances o desejo de, entre outras coisas, “entreter o leitor”. Nisso, estava apenas a inserir-se na nobilíssima tradição da novelística universal, que tinha, como objecto primeiro, entreter o leitor ou ouvinte das peripécias narradas. Martin Seymour-Smith, na longa e exaustiva introdução que escreveu para o seu monumental guia "Novels and Novelists", observa: “A qualidade literária não é incompatível com o poder de entreter, como Charles Dickens talentosamente demonstrou.” Muitos grandes romances, mesmo no século XX, são literalmente empolgantes, independentemente de outras qualidades. O que se pode até criticar em muitas das narrativas inculcadas, entre nós, como obras-primas, e cumuladas de prémios, é o completo desprezo (provinciano) pelo dever de minimamente entreter o leitor. Os romances de William Boyd – um dos mais brilhantes romancistas ingleses de hoje – são imensamente “entertaining”, para além das outras muitas qualidades que fazem dele uma figura cimeira da novelística universal: "The New Confessions" ou "Brazaville Beach", entre outros, “agarram” literalmente o leitor e seduzem-no, por essa via, para mares mais profundos. A Herman Hesse, que o acusava de, no seu romance "Sua Alteza Real", ter Thomas Mann piscado o olho, de maneira demasiado indiscreta, ao grande público, o grande romancista respondeu que sim, que o fizera conscientemente, porque não lhe interessava ser lido apenas por um pequeno público. Provavelmente considerava de grande interesse o que tinha a dizer, para o confinar apenas aos “happy few”. Ser empolgante sem descer às receitas e às fórmulas não é pecado de maior. Entre os romances fortes de Rosa Lobato de Faria e os “best sellers” obscenos que atravancam os supermercados e as “livrarias” vai um mundo de diferença.

"Vento Suão" ficou, infelizmente, inacabado. No momento crucial, quando o leitor suspende a leitura, perguntando a si próprio o que mais poderá acontecer, - a morte encarregou-se de levar a romancista, restando-nos só adivinhar. Aquele facalhão de cozinha cravado nas costas de Mateus (fortíssimo personagem, diga-se de passagem) levanta a Sofia insuperáveis problemas e desperta no leitor uma invencível frustração, por ir ficar sem saber. O grande romancista americano Raymond Chandler recomendava aos seus colegas de ofício que, no momento em que a história fraquejasse, mandassem vir um homem de pistola na mão. Lobato de Faria não precisou de que a sua história fraquejasse, para meter na sua narrativa o monstruoso facalhão. O problema não reside, quanto a nós, na duvidosa receita, mas apenas no facto de nos terem sido escamoteadas as consequências do acto sangrento. A autora de "Vento Suão", como era seu hábito e gosto, não recuava diante dos maiores extremos a que se entrega a literatura negra. Era parte do seu talento saber salvar-se a si e à narrativa, para além de tais excessos, que talvez nem o fossem. Lobato de Faria ousa tudo. Mas era como aquelas pessoas que têm o talento de se atirarem à água e sairem secas. Seja como for, "Vento Suão" prometia ser, interrompida pela morte, como ficou, uma das fortes narrativas – ousada, infractora, a um tempo excessiva e civilizadamente fluente – que nos deixou essa mulher talentosa e abusadoramente bela que foi Rosa Lobato Faria.

*Na edição portuguesa (em excelente tradução de Rogério Casanova): "A Mecânica da Ficção".

Eugénio Lisboa

Na imagem: Rosa Lobato de Faria

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