Novo texto de António Piedade saído no "Diário de Coimbra" (na foto imagem de ressonância magnética nuclear):“Toda a tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da pura magia”Esta é a asserção da terceira lei de Sir
Arthur C.
Clarke, inclusa no seu livro "
Profiles of The Future", escrito em 1961.
Arthur Clarke, escritor de obras de ficção científica
incontornáveis, como “
2001, Odisseia no Espaço”, propôs, em 1945, os fundamentos do sistema de comunicações por satélites em
órbitas geoestacionárias. Fez, para isso, uso do conhecimento sobre a radiação
electromagnética adquirido cumulativamente por várias gerações dos melhores cientistas da humanidade nos últimos 200 anos (Maxwell, Hertz, Weber, Faraday,
Snell, Marconi, Einstein, Planck, entre outros). De facto, muita da tecnologia que sustenta a nossa sociedade actual é fruto do conhecimento que temos dos campos, da forças e das radiações
electromagnéticas, de que o espectro da luz visível, estudado por Newton, é só uma pequena parte.
Desde as ondas de rádio até aos raios gama, passando pelas
microondas e pelos raios X, não é difícil identificarmos actividades, processos e
instrumentação, no nosso dia-a-dia, que decorrem da natureza da radiação
electromagnética, que por sua vez dependem da frequência ou do comprimento de onda e da amplitude. Einstein teorizou a relação entre matéria e energia, através da famosa constante “c” que mais não é do que a velocidade a que qualquer radiação
electromagnética,
independentemente da sua frequência, se propaga no vazio. E Planck estabeleceu através da constante “h”, que tem o seu nome, a relação entre a energia de uma dada radiação
electromagnética e a sua frequência. De facto, a velocidade de propagação das ondas
electromagnéticas varia com a frequência, ou com a sua energia, se o vazio for preenchido por matéria (recorde-se que o som não se propaga no vácuo, por se tratar de uma onda mecânica e não
electromagnética). O meio de propagação (ar, água, metal, tecido biológico, etc.) afecta a velocidade de propagação e até a própria capacidade de penetração de uma dada radiação
electromagnética, e isto
proporciona-nos tecnologias muito úteis que usamos sem nos apercebermos o que está por detrás delas.
Isso é, em particular, evidente nas tecnologias da saúde e da vida. Inúmeros são os exemplos no nosso quotidiano. Um é a aplicação dos raios-X na detecção de inúmeras patologias e perturbações no organismo, determinante como auxiliar de diagnóstico, primeiro no quadro de uma medicina mais empírica e, mais recentemente, de uma medicina baseada na evidência, robustecida pela metodologia científica na minimização de erros tantas vezes fatais para o paciente. Outro exemplo é o da aplicação da radiação gama na
radioterapia curativa ou paliativa de combate a determinados tipos de cancros sólidos. Ainda um outro exemplo é o da ressonância magnética nuclear, que faz uso de campos magnéticos e radiações
electromagnéticas com frequências na gama das ondas de rádio e, por isso, muito menos nocivas do que, por exemplo, os raios X. Aliás, é espantoso o avanço nas técnicas de
imagiologia por ressonância magnética registado nos últimos anos e tudo o que têm permitido desvendar a respeito da fisiologia do nosso corpo, mormente na
neurofisiologia, conquanto permitem monitorizar uma determinada função e
contextualizá-la com a anatomia envolvente.
Um último exemplo, este visto por um ângulo oposto, é o efeito nefasto que a radiação
ultravioleta, proveniente do Sol, provoca no ADN das células da nossa pele, induzindo mutações e danos
biomoleculares que potenciam o desenvolvimento de certas formas de cancro.
Sem o conhecimento minucioso das propriedades da interacção da radiação
electromagnética com a matéria que constitui os tecidos do nosso corpo, em rigor com os átomos e moléculas que o constituem, não teria sido possível desenvolver aquelas e outras tecnologias para a saúde e da vida. Estas são áreas cientificamente bem fundamentadas e identificadas com a medicina nuclear e com a radiologia, disciplinas incluídas nos
currícula para a formação de médicos e técnicos de saúde.
O mesmo não se pode dizer, por ausência de qualquer informação científica acessível, de um pretenso conhecimento científico subjacente a uma dita "medicina quântica" que se começa a instalar, adubada pelo desconhecimento que o público em geral possui sobre a física e química quânticas.
(continua)
António Piedade