segunda-feira, 18 de maio de 2020

Ética no Quotidiano

Recebemos através da editora Gradiva informação sobre o livro. Ética no Quotidiano, da autoria de Dave Robinson (aqui). Nele surge uma reflexão sobre as decisões políticas em tempo de pandemia. As questões que abaixo se enunciam têm estado presentes no nosso quotidiano desde que ela se iniciou e hão-de continuar a persegui-nos nos próximos meses ou anos. Pensar nelas é, de resto, um exercício que nos servirá no futuro em situações análogas que, por certo, passaremos. Uma delas, mais grave do que esta, é, sem dúvida, a  sustentabilidade do planeta, que tem estado suspensa, esquecida, negligenciada... mas lembremo-nos que ela não é adiável...  
Jeremy Bentham inventou o utilitarismo como método para ajudar governos a enquadrar leis, tomar decisões e justificar as suas acções. Por isso, parece uma filosofia moral especialmente adequada aos problemas produzidos pelas pandemias. 
Não há dúvida de que este vírus produziu enormes quantidades de infelicidade para muitas pessoas, e portanto a tarefa do governo é procurar evitar todo esse sofrimento ou erradicá‑lo completamente. 
Os utilitaristas insistem que a sua filosofia é igualitária – todos nós somos dignos de igual consideração. Os governos, contudo, podem ter de levar a cabo a tarefa de eliminação de vírus por fases – ajudando os mais vulneráveis e os mais indispensáveis em primeiro lugar, como os idosos e doentes, bem como aqueles que são necessários para a tarefa: enfermeiros, médicos, motoristas que fazem entregas e assim por diante. Mas o objectivo final seria ajudar todos, e o mais rápido possível. Um problema mais complicado é o das decisões nas áreas médica e económica que um governo teria que tomar ao lidar com esta crise. 
Pode parecer bastante simples. Contam‑se as mortes e faz‑se aquilo que reduz os números.
Mas governos utilitaristas têm de lidar com o sofrimento e a felicidade no futuro, o que é apenas mais ou menos previsível, a menos que, como agora percebemos tão bem, não seja de todo previsível. Os governos precisam de ser lembrados das incertezas da indução – trata de probabilidades, não de certezas. Dados actualizados e pandemias passadas provavelmente ajudam a fazer algumas previsões razoáveis, mas no caso da Covid‑19 muitas vezes estavam completamente erradas. 
Este vírus provou ser deveras único com o seu longo período de incubação, a sua elevada letalidade, a sua enorme capacidade de contágio e assim por diante. Aconselhamento científico inicial chegou a recomendar que se espalhe na comunidade, de modo a criar uma «imunidade de grupo». Mas isso conseguir‑se‑ia à custa de milhares de mortes. Mesmo a distância social recomendada de dois metros é, na verdade, uma suposição. 
Bentham tentou reduzir este tipo de incerteza, inventando um sistema de pontos único e complicado em que atribui pontos por coisas como a intensidade da dor (ou morte) prevista, a sua duração, certeza, expansão, o seu custo e assim por diante. O seu tipo de «cálculo da felicidade» também suscita muitos «problemas económicos e morais» – seria aceitável, por exemplo, arriscar as vidas de alguns cidadãos, a fim de facilitar uma recuperação económica mais rápida? 
Actualmente, os economistas chamam esse tipo de cálculo «análise de custo-benefício». Existe porque nenhum governo tem recursos ilimitados para gastar com os seus cidadãos. É aqui que os bem‑intencionados objectivos da moralidade esbarram nas realidades sombrias da economia (...) 
Se a crise continuar por um tempo considerável, a economia continuará a sofrer grandes danos; as empresas entrarão em colapso; empregos deixarão de existir; a pobreza aumentará. E o que sabemos é que quando a pobreza aumenta, mais pessoas morrem prematuramente. 
Se reduzirmos a necessidade de isolamento social, a fim de ajudar a restaurar a economia, podemos causar mais algumas mortes pelo vírus; mas podemos salvar mais vidas, caso os mais pobres sejam capazes de trabalhar novamente. 
Cálculos utilitaristas podem ser um negócio sombrio. Uma crise como esta também pode incentivar os governos a assumir demasiado poder sobre a saúde e a expectativa de vida de cidadãos individuais, não apenas agora, mas no futuro. Vivemos numa democracia liberal que desaprova demasiada interferência dos governos nas nossas vidas particulares. 
Provavelmente é prudente ser céptico, se não mesmo cínico, sobre o que os governos fazem em nosso nome. É por isso que uma democracia precisa de um partido de oposição forte no Parlamento e de uma imprensa independente que revele o pensamento subjacente às decisões e acções do governo. Gostaríamos que elas fossem para o bem de todos nós e não apenas para os cidadãos mais poderosos e influentes. 
Os governos têm o dever de eliminar a ameaça que este vírus constitui para os cidadãos? Um argumento central para o direito de os governos existirem, terem autoridade, terem poder e fazerem leis é que isso se deve a um contrato. Este contrato estabelece‑se entre todos os cidadãos e os governos. Os cidadãos concordam em ser governados porque os governos têm o dever de protegê‑los e esta é a principal razão para os governos existirem. É a primeira cláusula do acordo. É uma boa ideia, mas é ficção, claro. Eu nunca assinei um contrato e o leitor deste texto também não. Mas a maioria dos governos aceitaria que a protecção dos seus cidadãos de um vírus mortal é algo obrigatório. 
Até onde podem ir para levar a cabo essa tarefa? Que direitos humanos pode um governo infringir, abolir, limitar para executar a tarefa de remover a ameaça que o vírus impõe? Pode um governo tornar a vacinação obrigatória para todos os seus cidadãos? Até que ponto os governos estão autorizados a levar adiante essa tarefa de eliminar o vírus? Isto é mais difícil de responder. Algum governo tem uma boa razão para impedir que as pessoas deixem as suas casas para irem trabalhar ou conviverem com outras pessoas (com vista a controlar os efeitos do vírus, é claro)? A maior parte das pessoas diria que sim, se desejarmos proteger não só a maioria das pessoas, mas também os mais vulneráveis. Mas o que fazer com aqueles que se recusam a obedecer? Deveríamos tentar proteger todos com alguma forma de assistência financeira limitada, proteger empregos e empresas, tanto quanto possível, e assim por diante. No entanto, isso é um inconveniente de curto prazo até que uma vacina seja encontrada e produzida em grandes quantidades. Mas o governo tem o direito de insistir na vacinação obrigatória para todos? Se a vacinação se tiver mostrado inofensiva e eficaz, então aqueles que a recusassem teriam um caso difícil de defender, especialmente se representassem uma séria ameaça aos seus concidadãos. Contudo, a ideia de injectar à força tais indivíduos, pareceria repugnante para a maioria de nós. Conferiria demasiado poder aos governos e estabeleceria um precedente perigoso.

domingo, 17 de maio de 2020

TOADA ÍNDICA (Apontameno biográfico em versos de sete sílabas)


Novo poema de Eugénio Lisboa, académico e crítico literário, que publico com imenso prazer:

Em tempos de antigamente,

quando andava no liceu,

numa terra que era quente,

com um mar que era meu,

ali sendo o paraíso,

de pouco fazendo tudo,

muito não sendo preciso,

buscando prazer no estudo,

estudando-me já eu,

a descobrir os mistérios

do sexo no apogeu

e dos dramas do império,

nesses tempos, eu dizia,

em que tudo era grande

e o amor descobria

que a vida se expande,

nesses tempos de começo

de um mundo que se abria,

de viagens sem regresso,

num tempo em que já sabia

que a dor também existe

e que o triunfo se paga,

mesmo quando se não desiste,

pelo preço de uma chaga

que o tempo não amacia;

naquele tempo enriquecido

por tudo que acontecia

e era por mim sentido

ser tesouro amealhado,

- eu sonhava, com fervor,

num futuro apontado

à grandeza e ao amor!

Que sonhar, nessa idade,

mesmo sendo o sonho alto,

não é grande enfermidade

nem dá grande sobressalto!

Foi assim que certo dia,

- havia sol e promessa

e meu coração ardia –

parti, com dor e com pressa,

deixando amores e festas,

a caminho do futuro

que eu pensava sem arestas,

radioso e bem seguro!

Quando se deixa um tesouro,

em busca de outro maior,

trocamos talvez um ouro

por outro muito pior.

E foi assim que parti,

nesse dia de Setembro,

saindo de onde nasci

-ai como disso me lembro!

Foi o futuro o que foi,

cheio do bom e do mau,

pleno de tudo o que dói,

logo que saí da nau.

Nas águas de um novo mar,

comecei nova aventura,

aprendi outro voar

e ganhei grande fartura!

Mas foi no outro oceano,

lá longe, no além mar,

que eu abri todo o pano

e me pus a navegar!



Eugénio Lisboa,

num regresso ao meu passado Índico, a um tempo mítico

               que nunca mais esquecerei!

sábado, 16 de maio de 2020

DIA INTERNACIONAL DA LUZ



Na foto: Maiman em 1960 com uma réplica ampliada do primeiro laser

Faz hoje, 16 de Maio, Dia Internacional da Luz (por determinação da UNESCO, desde 2015, que foi o Ano Internacional da Luz), 60 anos que o físico norte-americano Theodor Maiman que o físico norte-americano Theodore Maiman pôs a funcionar, no Hughes Research Laboratory, em Malibu, arredores de Los Angeles, na Califónia, o primeiro laser, feito de rubi, activado por uma lâmpada de flash.

A palavra laser, que hoje se tornou comum, era muito nesse tempo, muito recente e, portanto, praticamente desconhecida da maioria das pessoas. Laser é a abreviatura de Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation, amplificação de luz por emissão estimulada de radiação (maser é o acrónimo da mesma expressão, com light substituído por microwave). A ideia já andava no ar, até porque existiam já lasers de mico ondas.  O termo foi cunhado em 1957 por Gordon Gould, um norte-americano, estudante de doutoramento na Universidade de Columbia, Nova Iorque, que esboçou num bloco-notas o nome e algumas ideias base da nova tecnologia. Gould haveria mais tarde de conduzir, com sucesso, uma batalha jurídica de trinta anos para obter os direitos da patente do laser. Um dos meios de prova de que serviu foi a autentificação que fez numa loja comercial com data e carimbo nas apostos nas folhas do seu bloco. Esse investigador, que trabalhava numa empresa privada, haveria de ficar milionário ao ver finalmente os seus direitos reconhecidos, embora tenha tido de pagar aos seus advogados uma boa parte daquilo que recebeu.

O procedimento prático pode ter sido, pelo menos em parte, criado por Gould. Mas a ideia de laser é uma das muitas ideias geniais que o maior físico do século XX, Albert Einstein, nos legou. Não, ele nunca viu a luz laser por ter falecido em 1955. A ideia teórica do laser é de 1907 -  fez cem anos em 2017 - e é bastante simples. Como um átomo existir em vários níveis de energia, Einstein pensou em promover por meio de absorção de luz um conjunto de átomos  para um estado excitado e depois provocar o seu decaimento simultâneo para em estado de energia mais baixo, emitindo luz. Esta emissão de luz é coerente – as ondas de luz somam-se e o feixe de luz é forte e alinhado – e tem um comprimento de onda bem definido - no caso da luz visível tem uma só cor.

A concretização prática da ideia demorou muito tempo. Só em 1954, após a Segunda Guerra Mundial, com o grande desenvolvimento da radiação de microondas (que teve ligada à invenção do radar durante o conflito) se construiu o primeiro laser de microondas, que veio a ser chamado maser (m de microondas), e só em 1960 se conseguiu construir o primeiro laser de luz visível, a que alguns chamaram maser óptico.  A diferença entre as microondas, que usamos hoje nos fornos de cozinha e nos telemóveis, e a luz visível, que é recolhida pelos nossos olhos, reside nos comprimentos de onda, que são maiores para as micro-ondas.

Ainda hoje permanece em disputa entre os historiadores de ciência a autoria do aparelho emissor de laser: devem ser apenas creditados Maiman e Gould, ou ainda um professor de Gould na Universidade de Columbia, o também norte-americano Charles Townes, que tinha sido um dos criadores do maser (trabalhou para a Bell Laboratories durante a guerra no desenvolvimento de sistemas de radares). Em 1958, Townes escreveu, juntamente com o seu cunhado Arthur Schachlow, um artigo onde expunha em pormenor as bases conceptuais do laser, inspiradas no génio de Einstein. Os dois receberam o Prémio Nobel, o primeiro em 1964 e o segundo em 1981. Townes dividiu o seu prémio, atribuído “pelo trabalho fundamental no campo da electrónica quântica, que levou à construção de osciladores e amplificadores baseados no princípio maser-laser”, com dois físicos russos Nicalay Basov e Aleksandr Prokhorov, que, nesses tempos de Guerra Fria, trabalhavam no mesmo assunto do outro lado do muro de Berlim, praticamente sem contacto com o Ocidente. Nem Maiman nem Gould foram distinguidos pela Academia Sueca. A invenção do laser é tão remota, que todos esses investigadores já faleceram. De entre eles, Townes foi o que viveu mais tempo: faleceu em 27 de Janeiro de 2015, quando ia em breve completar a bonita idade de cem anos. Ainda viveu a tempo de assistir, ainda que à distância, ao começo em Paris, a 19 de Janeiro de 2015,  ao começo das celebrações de 2015 -  Ano Internacional da Luz. Eu estava em Paris, como Comissário Nacional para o Ano da Luz. E também lá esteve José Mariano Gago, na que deve ter sido a sua última intervenção pública. Eu e o Pedro Pombo, da Universidade de Aveiro, que me acompanhava na delegação portuguesa, falámos com ele em conversa amena. Nada nos fez prever que foi a última vez que o vimos. Faleceu daí a cerca de três meses, em 17 de Abril de 2015. Gago tem uma curiosíssima ligação ao laser: o seu dia de aniversário é a 16 de Maio: a 12 de Maio de 1960, festejou doze anos. Morreu precocemente: como seria bom festejar com ele, no Dia Internacional da Luz, os seus 72 anos!

A ciência, como foi o caso da ciência de Einstein, é mãe de tecnologia, nalguns casos tão poderosa como surpreendente. Mas a tecnologia também é criadora de ciência. Foram numerosos os prémios Nobel da Física atribuídos após os anos 60 do século passado por invenções e descobertas baseadas em luz laser: em 1971 o Nobel da Física foi atribuído pela ideia da holografia, assente no laser. Em 1981 foi dado pelo desenvolvimento da espectroscopia laser. Em 1997, foi concedido pelo arrefecimento e aprisionamento em átomos com luz laser  E, em 2000, distinguiu os construtores de lasers de semicondutores. Actualmente os lasers tornaram-se instrumentos banais em laboratórios de física, química e engenharia.

Hoje vivemos em tempo de laser. Eles estão literalmente por todo o lado. É  impossível imaginar a nossa vida sem impressoras laser, sem apontadores laser, sem os CD e DVD com músicas e filmes que são lidos com luz laser, sem a leitura óptica dos códigos de barras nos supermercados, sem a transmissão de informação na Internet via laser através de fibra óptica, sem as várias formas de cirurgia laser, sem cortes industriais a laser, sem fisioterapia ou depilação a  laser, sem espectáculos de luz laser, etc. Townes, Schachlow, Basov e Prokhorov, quando congeminaram os protótipos de maser e  laser, Gould, quando escreveu o novo nome e propôs a nova tecnologia, e Maiman, quando viu pela primeira vez a luz laser irradiada pelo rubi, de um vermelho intenso, não podiam imaginar a enorme quantidade de aplicações que, décadas volvidas, o laser teria. Quando Maiman deu à luz o primeiro laser de luz visível, foi dito que era de “uma solução à procura de um problema”. Não encontrou apenas um problema, mas sim muitos, tendo-os resolvido a todos, com proveito e agrado gerais. O laser é um exemplo de como a investigação científica pode ser feita sem interesses comerciais imediatos para depois, quase como um bónus inesperado, aparecer todo um conjunto de aplicações que ganham um enormíssimo mercado. Talvez se soubessem a história do laser os políticas percebessem o valor da investigação fundamental, proporcionado os adequados meios para que ela se desenvolva. O lucro é, em primeiro lugar, a compreensão do mundo. Depois, pode também ser económico e social. Mas repare-se na ordem..

sexta-feira, 15 de maio de 2020

RANKING NATURE DE PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PORTUGAL

https://www.natureindex.com/annual-tables/2020/institution/all/all/countries-Portugal

FAKE: texto atribuído a Maria de Sousa

Com o título "Depoimento póstumo da cientista Maria de Sousa de 80 anos" está a circular na Internet, por vezes pela mão de pessoas com credibilidade (como a arquitecta Helena Roseta). Mas é fake! O texto que começa assim:

"Carta aberta de uma cientista otimista às novas gerações A cientista Maria de Sousa, ao saber que estava infectada com covid-19 e consciente da sua situação de alto risco, despediu-se dizendo: “Espero perdurar por via dos que ficam vivos”. Por mais dolorosa e triste que seja a morte, a vida tal como a conhecemos na Terra é infinita.  (...)"

Não faz sentido logo pelo início a autoria ser de Maria de Sousa. A autora é Maria do Carmo Fonseca, foi publicado no DN e o nome da autora foi indecentemente surripiado. É a desinformação dos tempos modernos...

Ver a cópia adulterada

https://www.helenaroseta.pt/noticias/000702,052020

e comparar com o original

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/02-mai-2020/carta-aberta-de-uma-cientista-otimista-as-novas-geracoes-12143794.html


Máscaras, pessoas e personagens

Na Antiguidade, entre os Gregos e os Romanos, as máscaras eram utilizadas no teatro e serviam para caracterizar a personagem que ali se queria representar. Como os papéis eram desempenhados apenas por homens, as máscaras denunciavam também o tipo de personagem, masculino ou feminino e era, ainda, através da mudança de máscara que o mesmo actor conseguia representar duas ou mais personagens numa mesma peça. 

Havia a máscara do velho e a do jovem enamorado; distinguia-se a máscara da comédia e a máscara da tragédia. Assim, a assistência sabia, pela máscara, em latim persona, qual o tipo de peça teatral a que ia assistir e que tipo de personagem era aquela que aparecia. A máscara levava, portanto, à primeira reacção da assistência, ela denunciava uma característica, escondia o actor que estava debaixo dela e apresentava uma personagem com características distintas dele. Debaixo da persona, o indivíduo tornava-se outro; dizia-se personam tenere para significar “desempenhar um papel”, a persona era o fingimento, o disfarce. A palavra persona designava o carácter do actor que ali desempenhava um papel. Passou, assim, também ao sentido de “individualidade”, ao significado presente no vocábulo português daí derivado “pessoa” e “personalidade”. 

Diz-se que Quinto Róscio, um famoso actor cómico do século I a.C. foi o primeiro, em Roma, a usar máscara para desse modo esconder o seu estrabismo.

Fedro, escritor romano, tem uma fábula sobre a raposa e a máscara (Vulpes ad personam tragicam) em que nos conta a reacção da raposa quando encontrou uma máscara de tragédia. Observando-a atentamente, e admirando a sua beleza, terá exclamado: “O quanta species cerebrum non habet!”, que bela aparência, mas não tem cérebro. A máscara é apenas o exterior, pode ter grande beleza, mas falta-lhe o mais importante, aquilo que fará dela um humano, uma pessoa. Não interessa, pois, a glória feita de aparências...

É através dessa característica específica que persona dá em português palavras como personalizar, atribuir características próprias, específicas de uma determinada pessoa, e da pessoa que tem características bem vincadas diz-se que tem personalidade, pois possui ideias muito pessoais; quando, em literatura, atribuímos a uma coisa ou a um ser irracional características próprias de pessoas, de seres humanos, estamos a construir uma personificação, a personificar e, no mundo da ficção, temos personagens, homens ou mulheres, seres com características próprias que se assemelham a pessoas do mundo real.

Hoje somos todos personagens, com as nossas personas, com a máscara que disfarça e protege nas suas diferentes aplicações. 

Vemos, portanto, que o vocábulo perdeu em português aquele sentido que tinha no teatro antigo.

Para designar o que oculta, o que esconde a verdadeira pessoa, o vocábulo português “máscara” veio através do italiano maschera (que, por sua vez, terá vindo do latim medieval “masca” ou, talvez, do árabe). 

Sempre, oportunamente, atenta aos temas da actualidade, é de máscaras que nos fala a última crónica semanal de Pascale Seys (aqui), uma reflexão que se ouve sempre com agrado, pelas muitas e variadas relações que estabelece.

Aqui se apresenta a sua tradução na totalidade: 

“Masques et bergamasques 1”
"Em 1751, Voltaire apoderou-se de uma lenda que ampliou de forma fenomenal para fins políticos. No capítulo XXV do seu livro “História do século de Luís XIV”, o filósofo faz referência a um misterioso prisioneiro clandestino que o poder disse ter morrido por causa da peste. Mas quem é então o prisioneiro desconhecido? É um lacaio ou um homem importante? É o superintendente das finanças Nicolas Fouquet? É d’ Artagnan, é o amante da Rainha? Ou trata-se do irmão clandestino, o gémeo indesejado de Luís XIV, como pretendiam depois de Voltaire, Alexandre Dumas e Marcel Pagnol? Ninguém conhecia a identidade do prisioneiro e o mistério permanece. O homem, parece, gostava de roupa fina e apreciava rendas, e se beneficiava de um tratamento privilegiado no seu cárcere, entre todos os sinais particulares, havia um que vai verdadeiramente alimentar o fogo da sua lenda: o prisioneiro usa uma máscara, uma máscara de ferro. E Voltaire acrescenta que tinham ordem de matar o prisioneiro da máscara de ferro, se ele destapasse o rosto. A existência de uma permissão de matar contra aquele que levanta aquilo que o revela atesta ao mesmo tempo a importância da função da máscara e do valor daquilo que ela oculta." 
"Uma máscara esconde, uma máscara oculta a identidade ou a verdade de um ser ou de uma coisa, o que revela, aliás, a etimologia da palavra “disfarce, fingimento”. Mascarar-se é sair da sua maneira, quer dizer, sair da sua maneira habitual de ser. Trazer uma máscara equivale, pois, a sair da sua verdade, o que se chama também: uma mascarada. Mas as máscaras têm o seu deus: Dioniso, um deus paradoxal, inatingível, cheio de epicleses 2. Não se sabe se é velho ou jovem, se defende os excessos do vinho ou antes a abstinência. Dioniso encarna o espírito do teatro e de um disfarce em relação ao outro, ele é o deus das metamorfoses. Como nós e como as borboletas, Dioniso é inconstante, plural e rico nas suas transformações. Ele é o deus das máscaras que, debaixo da sua máscara, esconde outras máscaras até ao infinito: é a sua verdade." 
"No Reino Unido, nos corredores de um hospital de Southampton, o artista Banksy realizou uma obra de um metro quadrado, a preto e branco. Representa um menino de fato de macaco que agita, na sua mão, uma boneca com os traços de uma super-heroina: é uma enfermeira de máscara, vestida com uma capa e um avental. Aos pés do menino, relegados sem consideração, Batman e Superman estão juntos num cesto dos papéis. A mensagem de Banksy é clara: no reino dos heróis mascarados, são as enfermeiras que destronam em heroísmo e em verdade os super-heróis de ficção. O que podemos imaginar, através do olhar da criança que brinca, é que debaixo da máscara da enfermeira, debaixo da sua capa e do seu avental bate um coração que atravessou lutos." 
"E se a máscara esconde a coragem, a fadiga, tal como as lágrimas de quem faz face à morte, então o disfarce pode vestir de verdade uma das mais belas formas de heroísmo que existe: o heroísmo do pudor. Nietzsche não se enganou quanto a isso, ele que enunciava este paradoxo num grande texto, sob o título “Prelúdio de uma filosofia do futuro” onde dizia: “Tudo o que é profundo ama a máscara”."
Notas: 
1 bergamasque: alusão, com certeza, ao poema de Paul Verlaine (poeta francês do século XIX), Clair de Lune, que começa assim: 
Votre âme est un paysage choisi 
Que vont charmant masques et bergamasques 
Jouant du luth et dansant et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.
 2 epiclese: em grego ἐπίκλησις, significava “sobrenome”, mas também “invocação” de uma ou mais divindades.

DIA 16 DE MAIO - DIA INTERNACIONAL DA LUZ



Dia 16 de maio é o Dia Internacional da Luz, uma iniciativa da UNESCO aà qual Portugal se associou desde o início: https://www.lightday.org/

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Autores Gregos e Latinos” [Textos]

 - Aldo Dinucci: As Diatribes de Epicteto, livro I. Tradução do grego, introdução e comentário (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 216 p.

[Epicteto, filósofo estoico do século 1 EC, foi escravo de Epafrodito, um secretário imperial de Nero e Domiciano. Tal como Sócrates, Epicteto nada escreveu. Sua filosofia chegou até nós por intermédio das anotações de seu discípulo Lúcio Flávio Arriano Xenofonte, que registrou os ensinamentos de Epicteto em oito livros (quatro dos quais foram perdidos), que compunham as Diatribes de Epicteto. A obra é prefaciada por uma carta de Arriano a certo Lúcio Gélio, na qual Arriano afirma não serem as Diatribes senão transcrições das aulas de Epicteto. Essa é a razão pela qual a obra é atribuída desde a Antiguidade a Epicteto.]

Série “Ideia” [Estudos]

- Maria Helena Jesus, Paulo Jesus, Gonçalo Marcelo, A Escrita do Eu: a literatura como laboratório da vida (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 478 p.

[Organizado em quatro partes, divididas em dezoito capítulos, este livro articula análise filosófica e hermenêutica literária, apresentando um fio condutor que reside nos processos criativos ou «poiéticos» onde o «si-mesmo» se forma e transforma como configuração de símbolos e obra de linguagem, no atelier da memória e da imaginação (auto)biográficas. O livro evidencia o caráter aberto, exploratório, experimental da literatura, em geral, e das experiências da escrita e da narração, em particular, mas também a característica fugidia, instável, e talvez nunca totalmente capturável destas experiências na primeira pessoa. Nele, são explorados os processos de construção da subjetividade e da identidade (pessoal ou coletiva) e interrogados os mecanismos da interpretação da vida e do mundo.]


quinta-feira, 14 de maio de 2020

Maria Ângela Brito de Sousa, 1939-2020


A Maria João Oliveira , bibliotecária do Rómulo, preparou uma lista bibliográfica sobre Maria de Sousa. Agradecendo-lhe a pesquisa, partilho-a aqui:

LISTA BIBLIOGRÁFICA
 Maria Ângela Brito de Sousa, 1939-2020

 O Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra reúne nesta lista alguns títulos disponíveis no Rómulo e nas restantes bibliotecas da Universidade de Coimbra de autoria ou com a participação de Maria de Sousa, cientista de prestígio internacional na área das Ciências Biomédicas, autora de notáveis trabalhos sobre o sistema imunitário, professora universitária e escritora.

 Maria de Sousa, nascida em Lisboa a 17 de Outubro de 1939, faleceu também em Lisboa a 14 de Abril passado, vítima da COVID-19.

 Prémios:

 1995 - Grande Prémio Bial de Medicina | Fundação BIAL
 1995 - Grau de grande-oficial da Ordem Infante D. Henrique | por Mário Soares
 2004 - Prémio Estímulo à Excelência | Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
 2009 - Medalha de Ouro de Mérito Científico | Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior 2011 - Título de Professora Emérita da Universidade do Porto
 2011 - Prémio Universidade de Coimbra
 2012 - Grau de grande-oficial da Ordem Militar de Sant'iago da Espada | por Aníbal Cavaco Silva 2016 - Grau de grande-colar da Ordem Militar de Sant'iago da Espada | por Marcelo Rebelo de Sousa 2017 - Prémio Universidade de Lisboa
 2020 – A Ordem dos Médicos cria o Prémio de Investigação Maria de Sousa, em sua homenagem.

 Títulos disponíveis no Rómulo

-  GOODFIELD, June - Um mundo imaginado : uma história de descoberta científica. Tradução de Manuela Pena Gomes. Lisboa : Gradiva, reedição 2020 (a 1.ª edição é de 1988). (Ciência Aberta ; 236). ISBN 9799896169800. Cota: RC 001 GOO

Maria de Sousa é a Ana Brito, a cientista descrita neste livro (Maria de Sousa chama-se Brito, do lado da mãe).

-  SOUSA, Maria de - Meu dito meu escrito : de ciência e cientistas, com um monólogo da caneta. 1ª ed. Lisboa : Gradiva, 2014. ISBN 9789896165772. Cota: RC 001 SOU

-  CURSOS INTERNACIONAIS DE VERÃO DE CASCAIS, 15 - Migrações : das células aos cientistas : actas dos XV Cursos Internacionais de Verão de Cascais. Coordenação e introdução Maria de Sousa. 1ª ed. Lisboa : Esfera do Caos, 2011. (Ensaios ; 11). ISBN 9789896800369. Cota: RC 57 MIG

-  MANOEL, Diogo - GABBA : a decade and a half in the life of a graduate program : 1996-2011. Editor literário Maria de Sousa [et al.]. Porto : Comissão das Comemorações Centenário da Universidade do Porto, 2011. ISBN 9789898265777. Cota: RC 378 MAN

-  MÓNICA, Maria Filomena [et al.] - Toda a memória do mundo. Introdução de Maria de Sousa. 1ª ed. Lisboa : Esfera do Caos, 2007. ISBN 9789898025340. Cota: RC 159.9 TOD

-  CURSOS INTERNACIONAIS DE VERÃO DE CASCAIS, 6 - Actas dos VI Cursos Internacionais de Verão de Cascais. Coordenação Maria de Sousa, António Carvalho. Cascais : Câmara Municipal, 2000. ISBN 9726370728. Cota: RC 001 ACT

-  CURSOS INTERNACIONAIS DE VERÃO DE CASCAIS, 11 - Actas dos XI Cursos Internacionais de Verão de Cascais. Coordenação do vol. 2 de Maria de Sousa e Jorge Vieira. Cascais : Câmara Municipal : Instituto de Cultura e Estudos Sociais, 2005. ISBN 9726371503. Cota: RC 001 ACT

-  SOUSA, Maria de - Contribuição para a caracterização da ecologia e da biologia do sistema timo-dependente : memórias, percursos e esboço de uma nova teoria = Towards the characterisation of the ecology and the biology of the thymus-dependent system. Porto : Bial, 1995. Cota: RC 61 SOU

-  GOODFIELD, June - An imagined world : a story of scientific discovery. London : Hutchinson, 1991. ISBN 0091474808. Cota: RC 61 GOO

-  SOUSA, Maria de - A hora e a circunstância : poemas. [Lisboa] : Gradiva, cop. 1988. Cota: RC 82-1 SOU

 Títulos com contribuições ou sobre Maria de Sousa disponíveis nas restantes Bibliotecas da Universidade de Coimbra:

-  RIBEIRO, Anabela Mota - Este ser e não ser : cinco conversas com Maria de Sousa. 1ª ed. Lisboa : Clube do Autor, 2016. ISBN 9789897243066.

-  SOUSA, Maria de - Investigação médica em Portugal : ilustrações e lições. In Medicina Interna. ISSN 0872-671X. Vol. 9, nº 1 (Jan./Mar. 2002), p. 6-11.

~- SOUSA, Maria de - Resumo da conferência de abertura "sobre a natureza do progresso científico : o poder da hipótese. In Revista FML. ISSN 0872-4059. Série III, vol. 10, nº 2 (Fev./Mar. 2005), p. 77-82.

-  SOUSA, Maria de - Medicina num simples lavar de mãos. In Notícias do Milénio : 1000-2000. (1999), p. 304-311.

-  SOUSA, Maria de, ed. lit. - Perfil da investigação científica em Portugal : ciências da saúde = [Profile of scientific research in Portugal : health sciences]. Lisboa : O.C.T, 1998. ISBN 9728421303. 

- SOUSA, Maria de - Questioning the value of applying XIX century paradigms to medical research and medical practice at the end of XX century. In Actas dos 3s Cursos Internacionais de Verão de Cascais. Cascais : Câmara Municipal, 1997. ISBN 972637037X. Vol. 2, p. 19-26.

-  SOUSA, Maria de - Deficiências de imunidade celular : conceito, factos e sonhos. Porto : O Médico, 1974. Separata de: O Médico, nº 1179, vol. 70, 1974.

-  SOUSA, Maria de - Estudo das modificações do epitélio brônquico em algumas doemças broncopulmonares crónicas. Lisboa : Tip. da Papelaria Fernandes, 1963. Dissertação de Licenciatura.

 Alguns artigos científicos publicados em revistas internacionais:

-  CARDOSO, Carla S. ; OLIVEIRA, Pedro [et al.] SOUSA, Maria de - Comparative study of the two more frequent HFE mutations (C282Y and H63D): significant different allelic frequencies between the North and South of Portugal. European Journal of Human Genetics. Vol. 9 (2001). Consultado em: https://www.nature.com/articles/5200723

-  SOUSA, M. - Imaginative immunology. Nature. Nº 269 (1977). Consultado em: https://www.nature.com/articles/269629a0

-  SOUSA, M. de ; HASTON, W. - Modulation of B-cell interactions by T cells. Nature. Nª 260 (1976). Consultado em: https://www.nature.com/articles/260429a0

-  CURTIS, A. ; SOUSA, M. de - Factors Influencing Adhesion of Lymphoid Cells. Nature New Biology. Nº 244 (1973). Consultado em: https://www.nature.com/articles/newbio244045a0PARROT, Delphine M.V. ;

- SOUSA, Maria de – Thymus-dependent and thymus-independent populations; origin, migratory patterns and lifespan. Clinical and Experimental Immunology. N.º 8 (Maio de 1971). Consultado em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1712985/

-  SOUSA, Maria de A. B. ; PARROTT, Delphine M. V. – Induction and recall in contact sensitivity : changes in skin and draining lymph nodes of intact and thymectomized mice. Journal of Experimental Medicine. ISSN 0022-1007. Vol. 130, nº 1 (Out. 1969). Consultado em: https://rupress.org/jem/article/130/4/671/5802/INDUCTION-AND-RECALL-IN-CONTACT-SENSITIVITY?searchresult=1

- PARROTT, D. ; SOUSA, M. de - Changes in the Thymus-Dependent Areas of Lymph Nodes After Immunological Stimulation. Nature. N.º 212 (1966). Consultado em: https://www.nature.com/articles/2121316a0#citeas

-  PARROTT, Delphine M. V. ; SOUSA, Maria de A. B. ; EAST, June - Thymus-dependent áreas in the lymphoid organs of neonetally thymectomized mice. Journal of Experimental Medicine. ISSN 0022-1007. Vol. 123, n.º 1 (Jan. 1966). Consultado em: https://rupress.org/jem/article/123/1/191/3910/THYMUS-DEPENDENT-AREAS-IN-THE-LYMPHOID-ORGANS-OF

 *NOTA: A presente lista foi elaborada de acordo com a NP 405 e está organizada por ordem cronológica (do mais recente para o mais antigo).

RÓMULO CCVUC
Maria João Oliveira
Maio 2020

quarta-feira, 13 de maio de 2020

OUTRO SONETO À LÍNGUA PORTUGUESA

 Um "Outro soneto" do ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa que publico com o maior prazer:


Com a língua portuguesa me caso,

com ela vivo quando é preciso;

a língua portuguesa não tem prazo

e veste-se de luxo e conciso.



Vive de tristeza e de alegria,

sossega, como sabe, os aflitos

e sabe matizar a euforia,

apaziguando, suave, os altos gritos!



Enfeita-se com cores e buzinas,

desperta, com clamores bem sentidos

e seus ares de grande dançarina,



aqueles que andando adormecidos

acordam àquele toque de alerta:

a língua é clamor e é oferta!

Eugénio Lisboa



Nota: Chamo-lhe “Outro soneto”, porque há, pelo menos, mais dois sonetos à língua portuguesa: os de António Ferreira e de Olavo Bilac.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Um astrofísico e um filósofo frente à Covid-19

Com a devida vénia, eis a crónica mais recente do P. Anselmo Borges, professor de Filosofia, no DN:

Têm outro horizonte de compreensão e, por isso, podem ajudar-nos no discernimento da presente hecatombe. Ambos muito conhecidos. Um é astrofísico, o outro é filósofo. Do alto do seu saber e da sabedoria que a idade, 88 e 98 anos, respectivamente, também dá, vale a pena ouvi-los. Foi o que fiz, pela intermediação de entrevistas que deram, a partir do seu confinamento.

1. O astrofísico é Hubert Reeves, que conversou com Luciana Leiderfarb para o Expresso. E que disse?

Constatou o facto: em casa, confinados, por causa de um vírus invisível. “A única coisa que não é clara para mim é se a poluição e a degradação do planeta a que estamos a assistir e a que chamamos a ‘sexta extinção’ estão ou não relacionadas com este vírus.” Embora não seja especialista na matéria, pensa que “está perto da verdade: a pandemia não foi causada directamente pela sexta extinção, mas indirectamente, facilitando as condições para o coronavírus se expandir tão depressa.”

De qualquer modo, somos muito maus a fazer antecipações: “Ninguém sabe do futuro. É a imprevisibilidade da realidade que quero destacar. A realidade é difícil de prever, e somos muito maus a fazê-lo.” Mas temos hoje excesso de poder que nem sempre queremos ou somos capazes de controlar, e aí está o perigo: “Temos duas formas de nos autodestruirmos: através de uma guerra nuclear ou da sexta extinção. Ambas podem eliminar-nos e dependem do nosso autocontrolo.”

A Natureza foi construindo estruturas. “E uma das suas obras-primas é a espécie humana. Somos provavelmente o nível mais alto de complexidade que conhecemos, a estrutura mais complexa do Universo.” A Humanidade trouxe ao mundo a cultura — Mozart, Van Gogh, um tipo de criatividade que desapareceria completamente se o ser humano fosse extinto —, a ciência — nenhuma outra espécie animal teria chegado à teoria da relatividade de Einstein —, e a compaixão — temos pulsões destrutivas, mas também temos compaixão, sofremos quando vemos pessoas a sofrer. “A Humanidade merece ser preservada.” Adverte, porém, que o ser humano é tremendamente poderoso, o mais poderoso, mas também o mais complicado e tanto somos capazes do melhor como do pior: tanto podemos fazer uma sinfonia de Beethoven ou construir a teoria da relatividade como uma bomba atómica ou a II Guerra Mundial. “Hoje sabe-se que a probabilidade de a actividade humana ser a principal causa do aquecimento global é de 99%” (Aqui, acrescento eu: por causa do confinamento, é um facto que, com a diminuição da intervenção antropogénica, se constata uma forte melhoria do meio ambiente). Também “sabemos que, se não nos adaptarmos ao ecossistema, em vez de continuarmos a forçá-lo a adaptar-se a nós, vamos desaparecer.” A nossa presença na Terra está ameaçada. Portanto, “a nossa responsabilidade agora é não destruirmos de vez a complexidade do planeta. Garantir que com o nosso comportamento não eliminamos a Humanidade.”

O aparecimento da vida e, concretamente do ser humano, na gigantesca história da evolução, continua envolto em mistério. Quais as condições presentes desde o início para que se desse esta aparição? “Vivemos ainda num grande mistério, sem conhecimento do que se passou entre o início e agora e sem fazermos ideia sobre se houve um antes e se haverá um depois.” Uma questão muito debatida entre os cientistas, mas “aqueles que possuem uma crença religiosa não têm qualquer problema em relação a isso, porque a resposta é Deus.” Perguntado sobre se acredita em Deus, responde: “Tenho muitas perguntas sobre Deus. Mas não sei o que Deus é. Para mim, é um assunto importante, mas relativamente ao qual não cheguei a nenhuma certeza.” Aqui, digo eu: também o crente não tem certeza, tem fé, com razões, e é razoável acreditar. Sobre se é possível conciliar ciência e religião, Reeves reconhece que “são duas actividades diferentes da mente”, que tem dois domínios, sendo um o conhecimento — “aprender, saber como as coisas são, como funciona o mundo” — e o outro o do valor. Dá um exemplo: a ciência diz como fazer a bomba atómica, mas não pode dizer se devemos ou não fazê-la, pois isso já é do domínio do valor, no qual se inclui a filosofia e a religião.” Enquanto a ciência pergunta: ‘o que é, como funciona?’, a religião questiona: ‘é bom ou mau?’. Este é um assunto na ordem do dia, na medida em que, cada vez mais se coloca a questão da aplicabilidade da ciência e das suas fronteiras éticas.”

À pergunta da jornalista: “O que é que ainda o surpreende? O que é que o emociona?”, responde: “A amizade, o amor, a música. Ouço música o dia todo. Não há nada mais elevado. As salas de concerto são as minhas igrejas. É o lugar onde sinto que existe algo maior do que eu.”

Envolvido pelo espanto, pelo maravilhamento perante o Universo e a sua história, sabe que a sua vida roça “o seu limite perigoso” e, por isso, não se deita antes da uma ou duas da madrugada. “Tenho esta ideia de, até onde a saúde mo permitir, não querer desperdiçar o tempo a dormir.”

2. Edgar Morin é filósofo e sociólogo e continua a surpreender-me, agora confinado, com mais uma entrevista concedida ao jornalista Francis Lecompte para o sítio Cnrs. Le journal, que colocou como título para a conversa que teve: “Edgar Morin: Temos de viver com a incerteza”.  

Uma mensagem principal desta pandemia é que derrubou a nossa sensação de omnipotência e pôs em causa a relação com a ciência, que se pretendia omnisciente. Diz Edgar Morin: “O que me impressiona é que grande parte do público via a ciência como o repertório de verdades absolutas, afirmações irrefutáveis.” Afinal, observámos que os cientistas convocados pelo poder político “defendiam pontos de vista muito diferentes e, às vezes, contraditórios, e isso nas medidas a ser adoptadas, nos possíveis novos remédios para responder à emergência, na validade deste ou daquele medicamento, na duração dos ensaios clínicos a realizar.” Parece que mesmo entre os cientistas poucos leram, por exemplo, Karl Popper, que estabeleceu que uma teoria só é científica se for refutável, portanto, o critério de cientificidade de uma teoria é a sua refutabilidade, ou Gaston Bachelard, ao colocar o problema da complexidade do conhecimento, ou Thomas Kuhn, ao estabelecer, com a sua teoria dos paradigmas, que “a história das ciências é um processo descontínuo”.

 “O facto de hoje estarmos a falar do coronavírus era completamente desconhecido há um ano”, afirma Reeves. E Edgar Morin confirma: nesta crise do coronavírus, o impressionante é que “não temos ainda nenhuma certeza sobre a própria origem desse vírus nem sobre as suas diferentes formas, as populações que ataca, os seus graus de nocividade. Nós estamos igualmente a passar por uma grande incerteza sobre todas as consequências da epidemia em todos os domínios, sociais, económicas, etc.”. Aqui, acrescento eu: A China portou-se da pior maneira ao não alertar atempadamente o mundo e continua a manifestar má consciência ao impedir estudos e investigações internacionais independentes sobre precisamente a origem da pandemia. 

O paradoxo é este: por um lado, estamos todos à espera de que a ciência, através de medicamentos, através de uma vacina, nos liberte do pesadelo; por outro, não sabemos e temos de conviver com a incerteza. Edgar Morin espera que a presente crise sirva para “revelar como a ciência é uma coisa mais complexa do que se quer crer. É uma realidade humana que, como a democracia, assenta sobre os debates de ideias, embora os seus modos de verificação sejam mais rigorosos.” Temos de aceitar as incertezas e viver com elas, “quando a nossa civilização nos inculcou a necessidade de certezas cada vez mais numerosas sobre o futuro, muitas vezes ilusórias, por vezes frívolas. A chegada deste vírus deve lembrar-nos que a incerteza permanece um elemento inexpugnável da condição humana. Nenhum seguro social que possamos fazer será capaz de nos garantir que não vamos adoecer ou que seremos felizes. Tentamos cercar-nos com o máximo de certezas, mas viver é navegar num mar de incertezas, através de ilhotas e arquipélagos de certezas nos quais nos reabastecemos.”

O jornalista: “É a sua própria regra de vida?” Edgar Morin: “É sobretudo o resultado da minha experiência. Assisti a tantos e tantos acontecimentos imprevistos na minha vida que isso faz parte da minha maneira de ser. Não vivo na angústia permanente, mas estou à espera de que surjam acontecimentos mais ou menos catastróficos. Não digo que previ a epidemia actual, mas digo, por exemplo, que há vários anos que, atendendo à degradação da nossa biosfera, nos devíamos preparar para catástrofes. Isso faz parte da minha filosofia: ‘Espera o inesperado’.” Aliás, desde que na década de 60 li Martin Heidegger, apercebi-me de que vivemos na era planetária e a globalização é um processo que poderia trazer benefícios e também danos. “Também observo que o desencadeamento descontrolado do desenvolvimento tecno-económico, animado por uma sede ilimitada de lucro e favorecido por uma política neoliberal generalizada, se tornou prejudicial e provoca crises de todos os tipos. A partir desse momento, estou intelectualmente preparado para enfrentar o inesperado, para enfrentar as convulsões.”

Edgar Morin confessa satisfação porque, desde o seu primeiro discurso sobre a crise, o Presidente Macron até mencionou a possibilidade de mudar o modelo de desenvolvimento. Significa que caminhamos para uma mudança económica? Resposta: “O nosso sistema baseado na competitividade e na rentabilidade tem muitas vezes graves consequências nas condições de trabalho. A prática massiva do teletrabalho por causa do confinamento das empresas pode contribuir para mudar o funcionamento das empresas ainda muito hierárquicas ou autoritárias. A crise actual pode acelerar também o regresso à produção local e o abandono de toda a indústria do descartável, dando assim trabalho aos artesãos e ao comércio de proximidade.”

E vamos passar também para uma mudança política, na qual “as relações entre o indivíduo e o colectivo se transformam?”

Resposta: “O interesse individual dominava tudo, mas agora as solidariedades estão a despertar”, e dá o exemplo do mundo hospitalar. Infelizmente, não podemos falar de um despertar da solidariedade humana ou planetária. No entanto, já éramos seres humanos de todos os países, confrontados com os mesmos problemas no que se refere à degradação do meio ambiente ou ao cinismo económico. Mas, hoje, da Nigéria à Nova Zelândia, encontramo-nos todos confinados e deveríamos tomar consciência de que os nossos destinos estão ligados, queiramos ou não. Seria, portanto, o momento para refrescar o nosso humanismo, pois, enquanto não virmos a Humanidade como uma comunidade de destino, não poderemos pressionar os governos a agir num sentido inovador.”

O jornalista: E agora, passando longos períodos de confinamento, o que é que a Filosofia nos poderia ensinar?

Edgar Morin: “É verdade que para muitos de nós que vivemos uma grande parte da nossa vida fora de casa este confinamento brusco pode representar um incómodo terrível. Mas penso que pode ser uma ocasião para reflectir, perguntar o que, na nossa vida, é frívolo ou inútil. Não digo que a sabedoria é permanecer toda a vida num quarto, mas, para dar um exemplo: pensando apenas no nosso modo de consumo e de alimentação, é talvez o momento de nos desfazermos de toda esta cultura industrial, cujos vícios conhecemos, o momento para nos desintoxicarmos. É também a ocasião para tomarmos consciência de modo duradouro dessas verdades humanas, que todos conhecemos, mas que estão recalcadas no nosso subconsciente: o amor, a amizade, a comunhão, a solidariedade, que fazem a qualidade da vida.”

3. Fica uma pergunta imensa, mas essencial: Quando terminar a hecatombe, teremos ao menos aprendido onde está o essencial? Ou voltaremos à vertigem do ter, esquecendo o ser?

Anselmo Borges

NÃO SEJA BURRO



Crónica de Santana-Maia Leonardo publicada nas Beiras no recente Dia Internacional do Burro:


 Até Otelo Saraiva da Carvalho já tem saudades “de um homem com a inteligência e a honestidade de Salazar” [ao DN em 2011] capaz de sacar Portugal do atoleiro de corrupção em que a nossa democracia o mergulhou. A história de Portugal é uma ditadura contínua com alguns intervalos de selvajaria absoluta, a que se convencionou chamar “democracia”, para que o povo volte a ganhar saudades de ser governado por um ditador.

Ora, o que nós precisamos não é de um homem com a inteligência e a honestidade de Salazar, mas de cidadãos que valorizem a honestidade e a inteligência, sem complexos, amem a liberdade, o que significa ser responsável, e cultivem o respeito pelos outros e pela diversidade. Ditadores e pastores é precisamente aquilo que nós não precisamos, sejam eles inteligentes ou estúpidos. É precisamente aqui que reside a diferença entre o Homem e a ovelha: enquanto a ovelha procura um pastor que a guie, o Homem busca a Liberdade. “Ser homem é ser livre. Tornarmo-nos verdadeiros homens, esse é o sentido da História.” (Jaspers)

E já vai sendo tempo de os portugueses tirarem as palas dos olhos e deixarem de tirar água à nora. Quase 50 anos depois do 25 de Abril, a esmagadora maioria dos portugueses continua amarrada à nora e a ver o mundo a preto e branco: direita/esquerda, Benfica/ Sporting, comunistas/fascistas, Norte/Sul. Não admira, por isso, que os portugueses vão sempre parar ao mesmo sítio. É esse o destino do burro que tira água à nora. Por amor de Deus, deixem de ser burros! Abram os olhos!

O mundo é a cores e a sua beleza reside precisamente na sua diversidade. Como disse Laborinho Lúcio, «na complexidade da vida não sou o preto ou o branco, sou preto, branco, amarelo, verde e, no momento de escolher, vou buscar a cor que naquele momento se impõe.»

Ao contrário da esmagadora maioria dos portugueses que conheço, não tenho nenhum brinco de identificação na orelha, que me tivesse sido posto à nascença ou na infância, fosse ele do Benfica, do Sporting, dos Católicos ou da Mocidade Portuguesa. Eu não nasci ovelha de nenhum rebanho: seja clube, partido ou religião. Nasci livre. “Ser livre não é um dote, é um dom”, como escreveu Miguel Torga. Todas as minhas escolhas são racionais. Só estou vinculado à minha consciência. E se gosto de participar em debates acesos em que defendo com entusiasmo as minhas convicções, o meu principal objectivo não é convencer o oponente da minha razão, mas desafiá-lo a convencer-me de que eu estou errado. E, se me convencer, eu mudo de opinião de imediato.

Como dizia André Gide, “confia nos que procuram a verdade mas desconfia daqueles que a encontram”. Por isso, enfrento de peito aberto e olhos nos olhos qualquer exército por maior que ele seja. E quando socialistas, benfiquistas ou qualquer outra maioria esmagadora (se vivesse na Madeira ou em Viseu, o PSD; se vivesse no Porto, o FCP) me tenta atemorizar com o grande número dos seus adeptos e o seu poder de fogo, dizendo-me que as flechas que vão lançar sobre mim são tantas que vão encobrir o Sol, eu respondo-lhes como Leónidas respondeu ao mensageiro de Xerxes no desfiladeiro das Termópilas: “Melhor, combaterei à sombra.”

Santana-Maia Leonardo 

SÓ O REGISTO ESCRITO DA HISTÓRIA RESISTE ÀS GARRAS DEVORADORAS DO TEMPO



Enviada pelo autor, publico uma versão alargada da última crónica de Guilherme Valente no Sol (onde ele tem uma coluna em que tem falado, com grande conhecimento de causa, da China e dos chineses):


"Bebemos a água, mas não nos esquecemos de quem abriu o poço"

A China tem os arquivos historiográficos mais vastos do mundo, os mais antigos e rigorosos, recorrentemente verificados. Registavam o passado para influírem no futuro, para encontrarem a “propensão”, na concepção chinesa da História o “instante” certo para intervir na ordem humana sem perturbar a ordem cósmica do mundo.

Sem se perceber que a História está sempre presente na China, sem a inteligência desse outro sentido do tempo que marca a realidade e o espírito chinês, não se compreenderá nada da civilização, nada da política chinesa hoje.

O passado na China é um passado de palavras e não de monumentos... porque nenhum resiste às garras devoradoras do tempo (por isso construíram em madeira, para reconstruírem sempre, as excepções foram os túmulos e as fortificações). “O passado que continua surpreendentemente a animar a vida chinesa é um passado que habita os homens, é ao mesmo tempo espiritualmente activo e fisicamente invisível.” (F. W. Mote, A Millennium of Chinese Urban History.)

Em vários momentos da História em que para a lógica ocidental seria «natural» a China retomar a administração do território de Macau isso não aconteceu. Aconteceria muito mais tarde em circunstâncias de cujo significado a generalidade dos Portugueses não se terá apercebido - em Novembro de 1999, um ano depois da transição da Administração de Hong Kong.

O último desses momentos, digamos, normais - e eu estava lá - foi no tempo da Revolução Cultural quando na sequência de uma situação delicada para as duas comunidades a segurança na cidade e a protecção de pessoas e bens foram assumidos num breve período pelas associações cívicas chinesas cujos dirigentes então também ameaçados eram amigos e aliados dos portugueses no governo de Macau. E ninguém foi molestado, como jamais esquecerei!

O momento anterior foi quando o Exército de Libertação Popular, comandado por Lin Piao (o general que nunca perdeu uma batalha), depois de expulsar o exército de Chiang Kai-Chek do Sul da China, parou às portas de Macau. Fala-se mesmo de uma mensagem de Mao a ordenar que não entrasse na cidade. Não chegara ainda a “propensão”, o instante na concepção chinesa da História, para a intervenção humana na ordem do mundo sem perturbar a ordem do cosmos.

Curiosamente, anos antes, na Segunda Guerra Mundial, também o exército japonês que tinha tomado Hong Kong cercara Macau mas não entraria na cidade, só aparentemente protegida pela neutralidade de Portugal. Um período terrível em que se manifestou uma solidariedade exemplar dos portugueses com os chineses, um milhão de refugiados!* História que continua a ser ignorada em Portugal mas que a China não esquece.

Na diversidade de peripécias históricas vivida por portugueses e chineses nesses longos 500 anos, a dimensão de poder dos dois Estados, o jogo do interesse mútuo, regional ou imperial, os modos de ser dos dois povos,** foram factores que determinaram a continuidade, aparentemente milagrosa, da experiência singular que foi e continua a ser Macau. Ligada à relação do povo chinês com a História e o tempo, como acima sugeri, e a dois conceitos-chave do pensamento chinês: o entendimento e a harmonia.

Em Novembro de 1793, uma impressionante embaixada inglesa foi enviada à corte de Quianlong com o objectivo de propor o intercâmbio do “maior império do Ocidente com o maior império do Oriente” (palavras do embaixador)***. Os britânicos preparavam-se para seguir para Cantão rumo ao desejado encontro, que o Imperador fora evitando, na residência de verão no sul da China. Entretanto desenrolara-se através do correio imperial um diálogo entre os dois pontos extremos da China. De Pequim, Qianlong dirigira no dia 21 de Outubro um edito ao governador militar de Cantão, bem como a todos os governadores das províncias costeiras: informava-os dos «pedidos inconvenientes» dos bárbaros para obterem uma pequena ilha onde pudessem residir permanentemente», ou no Zhoushan, ou perto de Cantão. Guo Shixun respondeu no dia 1 de Novembro e apenas doze dias mais tarde Qianlong sublinhava a tinta vermelha a sua resposta.

Eis o diálogo que selaria o malogro da embaixada de Macartney, a última oportunidade que a China teria para se abrir ao Ocidente antes da tragédia da decadência, da invasão das potências ocidentais e do Japão.

Guo Shixun: “Os ingleses, quando chegam a Macau, têm de arrendar as suas habitações aos portugueses. A sua situação é a de convidados perante um anfitrião. Foi por isso que o enviado [britânico] pediu lhe fosse concedido um lugar onde pudessem colocar as suas mercadorias, que seria o equivalente ao que Macau é para os portugueses”.

Qianlong: “Absolutamente impossível”.

Guo Shixun: “A instalação dos portugueses remonta aos Ming, há mais de duzentos anos. Esses bárbaros acabaram por amar aquelas terras e mergulharam na influência benéfica do imperador. Não se diferenciam do resto do Império.“

Qianlong: “Precisamente”

Guo Shixun: “É necessário, de acordo com as vossas santas instruções, que a defesa costeira seja rigorosa. Os bárbaros ingleses não deverão poder instalar-se na menor parcela do território do Império.”

Qianlong: “Execução imediata. Isso deve ser inteiramente contrariado”.

Aconteceu que esses "bárbaros" viriam a instalar-se na China pela força e infligiriam a violência e humilhação mais ignóbeis a um povo e uma civilização com 4 000 anos de História, que fora a mais brilhante do Planeta. Crueldade que a China todavia nunca retaliaria, mas nunca esquecerá.

Na véspera do meu regresso a Portugal, num final de tarde tranquilo, visitou-me na pequena sala que eu ocupava no palácio do Governo de Santa Sancha, obra admirável de um grande arquitecto português de Macau (em que tudo está hoje como o último Governador deixou) um jovem engenheiro chinês, doutorado numa das grandes universidades da América, filho do mais respeitado representante da comunidade chinesa que era deputado na Assembleia Legislativa da cidade e membro da...Assembleia Nacional Popular da RPC:

“Sabe, se o tempo [a “propensão”... ] de resolver a situação de Hong Kong não tivesse chegado, Portugal continuaria a administrar Macau.”

Mas os portugueses continuaram e continuam a ir viver para essa cidade mítica. Só anos depois percebi a mensagem na despedida que aquele Amigo chinês me levara. Um entendimento e um destino que a História preserva das garras devoradoras do tempo.

Guilherme Valente

*José Rodrigues do Santos, A Amante do Governador, Gradiva, 2018.
**Benjamim Videira Pires (S.J.), Os Extremos Conciliam-se, Instituto Cultural de Macau.
*** Alain Peyrefitte, O Império Imóvel ou o Choque dos Mundos, Gradiva, 1995.

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...