quinta-feira, 9 de abril de 2015

COMUNICADO DO SNESUP SOBRE A DEMISSÃO NA FCT

Comunicado recebido do SNESUP:

Ontem foi tornada pública a demissão do Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT, IP), Professor Doutor Miguel Seabra. O Ministério da Educação e Ciência tornou público que a demissão resultou de "razões pessoais" invocadas pelo próprio, pelo que os restantes membros da Direção da FCT se manterão em funções. Ver aqui

Cremos que só mesmo razões pessoais justificariam esta demissão, pois não vislumbramos razões de outra natureza que não existissem há já pelo menos 2 anos atrás. Até porque, não sendo meramente íntimas, se as razões fossem de outra natureza não se justificaria a manutenção da restante equipa que gere a FCT.

Apesar das "razões pessoais" apontadas por um qualquer detentor de cargo público nos merecerem, agora e sempre, total respeito e consideração, o SNESup constata que existiriam inúmeras razões de natureza científica e de natureza política que há muito tempo justificam a substituição da Direção da FCT.

De facto, a atual FCT não resolveu nenhum dos problemas que herdou, tendo ainda criado novos problemas que dificultam a evolução científica de Portugal, como por exemplo:

- A precariedade laboral dos investigadores portugueses – não é democraticamente aceitável e nem cientificamente aconselhável para um país que ambicione implementar uma economia tendo por base o conhecimento (como FCT apregoou como sendo a base da sua estratégia) manter milhares investigadores doutorados ano após ano com um subsídio de manutenção mensal (bolsa de investigação);

- Os cerca de 1000 investigadores contratados pelo programa Ciência 2007 e 2008, que terminariam os contratos em 2013 e 2014, foram deixados no desemprego independentemente da qualidade do trabalho que desenvolveram. Por outro lado, o programa Investigador FCT, que anunciou a contratação de 1000 novos investigadores até 2015, só ainda contratou cerca de 500, apesar de faltarem menos de seis meses para o fim da legislatura;

- Desinvestimento (abandono) nos Laboratórios do Estado com a consequente perda de conhecimento e competências únicas;

- Todos os concursos realizados por esta Direção da FCT para atribuição de bolsas de doutoramento, pós-doutoramento e dos contratos para Investigador FCT foram objeto de contestação pública devido à falta de transparência e “acusados” de inúmeras irregularidades/ilegalidades – note-se que pela primeira vez uma Direção da FCT assumiu publicamente e perante a Assembleia da República que as classificações científicas dos candidatos foram alteradas administrativamente sem que isso a tenha impedido de continuar em funções(!);

- Um concurso de avaliação das Unidades I&D portuguesas, desenhado pela FCT com o principal objetivo de reduzir a metade as instituições financiadas, que para além de não aproveitar o potencial científico instalado no país envergonha a comunidade científica portuguesa. Para além da contestação pública que se arrasta há vários meses, (e que teve o seu mais recente episódio com a significativa redução do financiamento anunciado na fase de assinatura dos termos de aceitação),a nulidade deste concurso foi solicitada pela via judicial devido às inúmeras irregularidades/ilegalidades cometidas.

Perante este cenário o SNESup estranha que “os restantes membros da direção da FCT se mantenham em funções”, mas aguarda com serenidade a nomeação do(a) novo(a) Presidente fazendo votos para que com ele ocorra uma alteração da política científica e que a única missão da “nova FCT” seja promover o desenvolvimento científico nacional com total respeito pelos investigadores e instituições científicas.


quarta-feira, 8 de abril de 2015

"Classificados - emprego"

Como se sabe, a Fundação para a Ciência e Tecnologia precisa de um novo presidente. Belmiro Fernandes Pereira procura ajudar, dando uma sugestão para a redação do edital do concurso (antes publicada no facebook).
"Procura-se figura catedralítica que faça prova documental de evidências curriculares, tanto na governância de unidades orgânicas como no desenho de estratégias e na gestão de projetos, com habilidades e destrezas aferidas no desempenho de cargos locais, regionais e transnacionais de grande visibilidade, larga experiência em evaluação de boas práticas e capacidade para liderar procedimentos adequados à prossecução, implementação e monitorização de políticas focadas em aplicações e plataformas que correspondam às demandas expetáveis, num horizonte de médio prazo, de promoção da integridade académica, de transformação das práticas sociais e de maximização da aplicação objetiva dos recursos de produção técnico-científica. Enviar CV em esperanto e bege. Será majorada a propositura que identificar corretamente, em cinco mil carateres, os objetivos e metodologias e que justificar a adequação das metodologias aos objetivos em seis mil, novecentos e sessenta e nove carateres, sem espaços entre eles.” 

“JE SUIS GARISSA”

Texto que nos foi enviado pela leitora Dulce Marques da Silva, professora de Filosofia, e que o De Rerum Natura muito agradece.


A 7 de janeiro do corrente ano, um ataque à redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, provocou 12 vítimas mortais e fez a Europa revoltar-se contra a violação de direitos humanos elementares: o direito à liberdade de expressão e o direito à vida.

A frase emblemática “JE SUIS CHARLIE”, configurou a condenação colectiva daquilo que adjectivámos como barbárie, denotando uma força conjunta na luta contra todas as suas formas. Os políticos mostraram-se unidos no repúdio ao que, muito correctamente, se considerou um atentado criminoso.


Na altura, congratulei-me pelo facto de se fazerem ouvir milhões de vozes em defesa de valores universais, já que se não estivesse subjacente a convicção de que eles existem, essas vozes não fariam sentido, perderiam qualquer legitimidade.


Mas, identificando-me com Singer (2008, p.123), tenho agora de afirmar, com veemência e indignação, que se aceitamos a “imparcialidade, universalizabilidade, igualdade ou outra coisa do género, não podemos discriminar desfavoravelmente uma pessoa pela razão de ela estar longe de nós (ou de nós estarmos longe dela)”.



Estudantes abatidos em Grassisa (imagem retirada daqui)
Servem as palavras deste filósofo para dizer que me enganei no juízo que fiz ainda há tão pouco tempo: afinal, os padrões morais do Ocidente são mais superficiais e limitados do que eu, de modo optimista, supus. Chego a esta deprimente conclusão ao perceber a indiferença com que, no dia 2 do corrente mês, encarámos o hediondo massacre de 148 jovens, estudantes de uma universidade do "longínquo" Quénia.

Não vi em nenhuma cidade, de nenhum país europeu, qualquer manifestação, mesmo pequena, com representantes políticos, de braço dado, à frente, a marcar o ritmo da marcha contra a mesma barbárie que agora assolou o Quénia. Não vi ninguém empunhando cartazes com a frase “JE SUIS GARISSA".


Lamentavelmente, digo que temos por mais importantes 12 vidas na Europa do que 148 em África!


A nossa caminhada rumo à efectiva defesa dos valores universais é mais longa do que eu pensava.



Dulce Marques da Silva

Referência: Singer, P. (2008). Escritos sobre uma vida ética. Lisboa: Dom Quixote

As Pedras e as Palavras


Acaba de sair o livro As Pedras e as Palavras, da autoria do nosso colaborador A. Galpim de Carvalho. Capa magnífica, texto magnífico. O De Rerum Natura partilha com os seus leitores a Introdução.

"As pedras e as palavras foram dois universos fulcrais na minha passagem por este mundo.

As pedras, modo mais popular de dizer as rochas, com as quais convivi profissionalmente durante mais de meio século, contam-nos a história do nosso planeta. Através dos seus minerais, da textura e de outros atributos falam das causas que lhes deram origem, das condições ambientais (pressão, temperatura, quimismo) em que foram geradas ou transformadas e muitas delas, ainda, da data do seu nascimento. São elas que conservam no seu seio os fósseis, testemunhos preciosos que nos permitem contar a história da Vida.

Sem que muitos deem por isso, as pedras ocuparam, desde sempre, um espaço importante no nosso quotidiano. Nas suas cavernas, os nossos antepassados da Idade da Pedra encontraram abrigo e segurança e foram pedras as suas primeiras e as mais importantes matérias-primas. As pedras fortificaram os castros da Idade do Ferro e ergueram castelos e palácios ao longo da História.

Estão nas choças dos primeiros povoados e fizeram a monumentalidade de assírios, egípcios, gregos e romanos, bem como a do Renascimento e do Barroco. Estão nas calçadas e pavimentos que pisamos e na estatuária de todos os tempos. Estão no ferro, no cimento, na brita e na areia do betão e, ainda, na cal que alveja o casario alentejano e algarvio. Estão nas amplas vidraças e nos caixilhos de alumínio da moderna arquitectura urbana. Fornecem todos os metais com que se constroem navios, comboios, aviões, automóveis e naves espaciais e estão na base de todos os electrodomésticos. Estão na televisão, no computador e no telemóvel. Estão nas baixelas e nas loiças de cozinha, nas jóias, nas fibras sintéticas, que tomaram o lugar do linho, do algodão, da seda ou da lã, e no silicone dos implantes em medicina reconstrutiva.

Do sílex e do bronze dos primeiros machados à pechblenda , passando pela pederneira de mosquetes e bacamartes e pelos pelouros de catapultas e bombardas, as pedras foram e são uma constante na tenebrosa e altamente proveitosa (para os chamados “senhores da guerra”) indústria bélica, um flagelo que, numa caminhada de centenas de milhares de anos, sempre acompanhou a humanidade. No seu inesgotável engenho, o homem retirou das pedras todas as matérias-primas com que fez o progresso em paz, mas também, desgraçadamente, a guerra.

As palavras, usei-as à saciedade, faladas e escritas, como professor na Universidade de Lisboa, durante quarto décadas, iniciadas como assistente no Departamento de Mineralogia e Geologia, num tempo em que se lhe exigia habilitações em todas as matérias curriculares da licenciatura, da Cristalografia à Paleontologia, passando pelas Petrologias, Estratigrafia e Geo-história, Geodinâmica Interna, Geomorfologia e outras.

Usei-as, ainda e muito, por todo o país e no estrangeiro, em Escolas, Bibliotecas, Museus, Centros Culturais, Associações Científicas, Sociedades Recreativas, como cidadão empenhado na divulgação científica, na defesa e valorização da Geologia e da profissão de geólogo, bem como na salvaguarda do nosso património geológico e paleontológico.

Herméticas quando lhes desconhecemos o significado, as palavras abrem-se-nos, de imediato, à compreensão se lhes descodificarmos os elementos constituintes, sendo este um dos papéis do professor e do divulgador. A palavra é uma característica exclusivamente humana, que nos distingue dos restantes animais a que, de um modo demasiado simplista, adjectivamos de irracionais. Sabemos hoje que este nosso dom reside nos escassos pontos percentuais que nos distanciam do código genético do chimpanzé.

Porque não aproveitar, então, essa capacidade e fruir os bens que o saber nos oferece? Façamos, pois, o jogo das palavras e vejamos como ele nos abre a uma melhor compreensão do Mundo. Enquanto falada, a palavra é um conjunto de sons que, salvo excepções, define um e, por vezes, mais objectos ou ideias. Os estudiosos destas matérias admitem que a postura erecta dos hominídeos, a libertação das mãos (especialmente adaptadas à vida arborícola pelos seus avoengos primatas) e a utilização destas no talhe e no uso de instrumentos conduziram ao aumento de volume do cérebro e ao seu desenvolvimento em termos de complexidade.

Assim, a possibilidade física de emitir mensagens sonoras, aceites como rudimentos de palavras, pressupõe a aquisição de uma capacidade intelectual e de uma outra, física, ao nível do aparelho fonador, susceptíveis de conceber símbolos expressivos transformáveis em emissões vocais. Uma tal possibilidade pode, ainda, ter surgido quando os nosso primitivos antepassados começaram cooperar entre si, adaptando formas de comunicação baseadas, não só em expressões gestuais, mas também nas citadas emissões vocais.

Impossíveis de confirmar, as opiniões sobre o início desta etapa da hominização, variam entre as que a aceitam associada ao aparecimento do género humano, há cerca de 2.500.000 anos, às que a apontam como uma conquista do homem moderno, há menos de 100.000 anos. Usada com marco divisório entre a a Pré-história e a História, a palavra escrita é um conjunto de símbolos gráficos ou grafemas susceptíveis de exprimir uma e, por vezes mais, ideias, registados num suporte material (barro, pedra, tela, papel, electrónico, etc.).

Na nossa cultura, em que a grafia é alfabética, a palavra escrita é convertível na articulação de sons ou grupos de sons que reproduzem a palavra falada. Surgida há cerca de 5000 anos, na Mesopotâmia, acredita-se que por engenho dos sumérios, a palavra escrita desenvolveu-se como uma outra via de comunicação que, embora de uso muitíssimo mais restrito, possibilitou ao homem divulgar os seus conhecimentos muito para além do seu espaço geográfico e do tempo. São múltiplos os factores envolvidos na criação deste passo importante na civilização, e um deles foi o surgimento das cidades, como exigência do progresso da economia e da sociedade.

Através da palavra, o leitor encontrará nesta obra ampla divulgação na área das ciências da Terra, mas também, memórias, ficção e opinião. Uns mais longos, outros mais curtos, são, na maioria, textos inéditos e outros já editados em jornais, revistas ou blogues, algo modificados ou actualizados."
A. Galopim de Carvalho

O gato de Seabra

Com a devida vénia, transcrevemos comentátio de Teresa Firmino no Público de hoje:

Na física quântica, há uma experiência mental muito conhecida chamada Gato de Schrödinger, que o físico austríaco Erwin Schrödinger imaginou em 1935 para ilustrar o estranho mundo das partículas. Dentro de uma caixa de aço, está um gato, um frasco de veneno, um contador Geiger e uma amostra de uma substância radioactiva. Ao fim de uma hora, pode haver – ou não – um átomo que tenha decaído e libertado assim radioactividade. Se tal aconteceu, é accionado um martelo, que parte o frasco e o veneno é libertado. Mas sem sabermos o que se passa lá dentro, o gato, segundo as leis da mecânica quântica, coexiste em dois estados ao mesmo tempo no interior da caixa, está vivo e está morto. Há uma sobreposição de estados quânticos e só quando alguém abre a caixa e verifica o que se passa no interior é que o gato assume um dos estados, e ou está vivo ou está morto.

É o paradoxo do Gato de Schrödinger que vem à memória quando se fica a saber o nome do principal vencedor deste ano do Grande Prémio Bial de Medicina.

Miguel Seabra é professor catedrático da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa (UNL), onde se licenciou em medicina em 1986. O doutoramento, em bioquímica e biologia molecular, foi em 1992 na Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Daí partiu em 1997 para Londres, para o Imperial College. Tem-se pois dedicado à investigação médica há vários anos. Até ao início de 2012, dirigiu o Centro de Estudos de Doenças Crónicas da Faculdade de Ciências Médicas da UNL.

Desde Janeiro de 2012 e até esta terça-feira, quando a sua demissão foi anunciada, assumiu a presidência da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), a principal instituição pública que financia o sistema científico do país, tutelada pelo Ministério da Educação e Ciência. É o seu braço na aplicação das políticas científicas. Tem por missão desenvolver, avaliar e financiar o sistema científico português. Assim, a FCT financia projectos de investigação, bem como equipamentos científicos e bolsas de doutoramento e pós-doutoramento. Em suma, como diz o decreto-lei que define a sua missão, compete-lhe “a coordenação das políticas públicas de ciência e tecnologia”. Políticas que, no actual Governo, e com Miguel Seabra na FCT, têm passado por cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento e por uma avaliação de credibilidade duvidosa aos centros de investigação do país.

É por isso, no mínimo, surpreendente Miguel Seabra ter-se candidatado a um prémio de investigação científica enquanto ocupava a presidência da FCT. Tal como o Gato de Schrödinger existe paradoxalmente ao mesmo tempo em dois estados, Miguel Seabra colocou-se numa sobreposição de lugares: era gestor político, que coordenava as políticas públicas de ciência e tecnologia, e ao mesmo tempo cientista que concorreu a um prémio com a sua própria investigação científica.

Não está em causa o mérito do seu trabalho científico, nem do seu currículo como investigador, nem do júri que avaliou tudo isso, nem da Fundação Bial que atribuiu o prémio. Vamos pensar que foi o melhor trabalho a concurso, entre os 36 que concorreram, e que merecia vencer. Mas, ao candidatar-se ao Grande Prémio Bial de Medicina na qualidade de investigador enquanto era presidente da FCT, Miguel Seabra começou por colocar os membros do júri, também cientistas, de diversas universidades, numa situação estranha. Cientistas que são avaliados e financiados pela fundação presidida por Miguel Seabra. Tal como colocou numa situação incómoda a Fundação Bial (criada pelos Laboratórios Bial e pelo Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas), até porque no regulamento do prémio nada há que impeça a candidatura de quem ocupe um cargo de gestão da política científica do país. Mas, principalmente, pôs-se a ele próprio num lugar ainda mais estranho. Digamos que há um certo paradoxo ético.

Se Miguel Seabra já estava debaixo de fogo enquanto responsável pela gestão da ciência portuguesa, esta candidatura ao prémio vem deixá-lo ainda mais chamuscado.

Teresa Firmino

terça-feira, 7 de abril de 2015

É preciso restaurar a confiança

Soube há pouco que se demitiu o responsável nominal do desastrado processo de "avaliação" da FCT, que liquidou sumariamente e logo de início metade das unidades de investigação nacional e estava agora a liquidar quase metade do financiamento da outra metade  (o lema da FCT agora era "estratégia sem base"). Para além de estar a liquidar as esperanças de milhares de jovens com talento, que se vêem forçados a emigrar por aqui não serem acolhidos e encorajados.

 De trapalhada em trapalhada a direcção da FCT foi  destruindo a ciência portuguesa. Entre mentiras e silêncios, entre negociatas e favores, foi afundando a ciência portuguesa. Como já foi dito pelos reitores a propósito da "avaliação", tratou-se de  um "falhanço pleno".  Agora está minada a confiança na agência pública que financia a ciência em Portugal: ninguém acredita no que resta da actual direcção, que inexplicavelmente permanece em funções. É preciso, primeiro que tudo, restaurar a confiança.

Os cientistas portugueses não se sentem representados na actual FCT, que sempre fez ouvidos moucos às vozes sensatas que se têm feito ouvir. Nem se sentem representados pelo actual ministro que, desistindo da ciência, contemporizou com a arbitrariedade com prejuízo da sua imagem. É preciso um ministro da Ciência. Os investigadores defendem a ciência como meio que a sociedade tem de alcançar o futuro, pelo que querem ver na FCT e no Ministério da Educação e Ciência (ou, melhor, no Ministério da Ciência e Ensino Superior) alguém que defenda a ciência como um bem público em vez de interesses particulares. O mais necessário agora na política de ciência e tecnologia é o que mais tem faltado: isenção, seriedade e transparência.

Miguel Seabra demite-se da presidência da FCT


 "Miguel Seabra, apresentou o pedido de demissão do cargo invocando “razões pessoais” e o pedido foi aceite – divulgou esta terça-feira à tarde o Ministério da Educação e Ciência (MEC), em comunicado."

É certo que Miguel Seabra tem sido o principal rosto das políticas desastrosas deste governo para a ciência em Portugal, tal como o corte brutal nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento e o inaceitável "processo de avaliação". Mas é preciso mais. É preciso acima de tudo que a política e visão para a ciência em Portugal mude também.

Sim, é pura falta de vergonha...

Se há coisa que não suporto é que se coloque a dignidade profissional das pessoas em causa, só para aparecer nos jornais. Este é um caso de tal modo chocante que resolvi dedicar a ele uma hora da minha vida.

Alguma polémica parece ter surgido nos últimos tempos sobre os números do desemprego e uma discrepância entre aquilo que o INE publica e aquilo que o IEFP publica. Esta é uma história de anos, os sites do IEFP e do INE até têm esclarecimentos destacados sobre as diferenças e qualquer pessoa que não queira por em causa o profissionalismo alheio, pode verificar o que quiser em 15 minutos. Mas gente como o Prof. Louçã entende colocar nos jornais que a diferença é uma pouca vergonha, insinua que se deve ao facto de serem organismos chefiados por gente nomeada pela "coligação" e outros insultos à dignidade profissional alheia e à independência dos profissionais que se dedicam à produção destes números. O gráfico abaixo foi dado como demonstrativo de que os números são espantosos ao ponto de não se verificar diferenças grandes antes de 2013.




Pois, custava muito pouco. Basta abrir um dos relatórios do IEFP (eu nunca tinha aberto um) e procurar a rubrica "pedidos de emprego". Abri um perfeitamente ao calhas, saiu-me um de 2008 , e, sem dificuldade verifiquei os seguintes números: Pedidos de emprego: 486565 dos quais 408598 de desemprego registado, 41580 de empregados, 23783 de ocupados, 12605 de indisponíveis temporariamente. Perdi 2 minutos a chegar a esta informação. E perceber que as métricas são diferentes até na sua natureza.

Mais tempo, uns 20 minutos, levei a fazer outra análise. Eu, por razões profissionais, em tempos tive que lidar com as diferenças entre o desemprego do INE e o desemprego do IEFP. Na altura lembro-me de ter optado pelo INE por ser um organismo independente do governo. E fui ver o histórico entre o desemprego registado pelo INE e o IEFP (fui ao Pordata ver este que o do IEFP ia demorar mais de 20 min), coisa que se sabe que existe e que é esclarecida pelos dois organismos há anos e anos. O resultado é o que se mostra no gráfico abaixo. Como os dados do INE e do IEFP têm periodicidade diferentes, o gráfico usa as médias anuais, o que dá jeito porque é o que o Pordata tem:


Na realidade, a coincidência não é a regra, é a excepção. Sem grande esforço dá para suspeitar que o estudo fez "cherry picking" dos dados que apresentou para ter uma boa história para contar.  Perdia-se mais 20 minutos e chegava-se à conclusão que a afirmação do Prof. Louçã é mentira. Não há qualquer parecença entre as duas métricas porque elas são diferentes. São assumidamente diferentes, há páginas de esclarecimentos nas duas instituições a dizer que são diferentes e porquê.

Os profissionais que trabalham no INE e no IEFP a produzir estes números não merecem ser ofendidos da forma como estão a ser por pessoas que querem aparecer no jornal. Mas numa coisa acho que podemos estar todos de acordo. É tudo uma questão falta de vergonha.
 
 PS: Não tenho interesses nem no IEFP, nem no INE nem em nenhum organismo do estado, tirando ser colaborador não remunerado do Centro de Física Teórica e Computacional da Universidade de Lisboa.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Os processos legais contra a FCT multiplicam-se

Informação recebida do Sindicato dos Professores das Região Centro:

Avaliação das Unidades de Investigação suscita requerimento do SPRC à Procuradoria-Geral da República

O SPRC apresentou junto da Procuradoria-Geral da República requerimento com o qual pretende que o Ministério Público analise a legalidade do procedimento de Avaliação de Unidades de I&D levado a cabo pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, I.P. (a qual contratou a European Sciense Foundation (ESF)). com vista à atribuição de financiamento da sua actividade

Como é conhecido publicamente, este processo desenvolveu-se em duas fases, sendo que, na primeira cerca de 50% das diversas unidades de investigação sujeitas a avaliação foram eliminadas, tendo por base uma norma introduzida com os procedimentos já a decorrer  que resulta do contrato firmado entre a FCT e a ESF — “evaluation will result in a shortlist of half of the research units that will be selected to proceed to stage 1”. Ou seja, enquanto no Guia de Avaliação “apenas se exigia a obtenção de uma nota mínima”, a FCT impôs aos avaliadores um limite máximo de unidades que podiam passar à 2ª Fase!”

No requerimento agora entregue (31.03.2015) refere-se a violação do “quadro normativo aplicável às instituições que se dedicam à investigação científica e desenvolvimento tecnológico”, consagrado nos artigos 28º e 29º do  Decreto-Lei 125/99, de 20 de Abril. Uma violação que se verifica  quer no Regulamento 284/2013 (publicado no Diário da República, 2.ª série — N.º 139 — 22 de julho de 2013), através do qual se pretendeu regulamentar o procedimento imposto pelos referidos artigos,  quer nas subsequentes regulamentações definidas e divulgadas pela FCT ao longo do procedimento. 

Refere a queixa que a alegada definição das regras do procedimento “não foi atempada e objectivamente definida, foi sim sendo efectuada à medida que a avaliação se ia desenvolvendo e em momentos em que já se conhecia o objecto da avaliação a realizar”.

A título de exemplo, lembre-se que quando as unidades de investigação já se tinham candidatado surgiram novas regras que, naturalmente, tiveram influência, quer na avaliação, quer no financiamento a distribuir pelas unidades de investigação e só apenas em 06/01/2015, já depois de conhecidos os resultados provisórios da avaliação, “vieram a ser divulgados os critérios de atribuição de financiamento”.

Denuncia o SPRC:

1.    Não foi cumprido o legalmente imposto de modo a que o procedimento de avaliação incluísse visitas de avaliação e audição dos responsáveis;

2.    Apenas na 2ª fase de avaliação, (com 50% das unidades excluídas do processo) foram “realizadas visitas às unidades de I&D ou reuniões presenciais com os coordenadores unidades de I&D” quando, face ao previsto no nº3 do artigo 28º do DL 125/99, todas as unidades de I&D “seriam submetidas a uma avaliação em duas fases, já que só assim se garantiria que em relação a todas se verificaria um procedimento em respeito da referida norma legal”;

3.    Não existiu correspondência entre os critérios previstos no aviso de abertura do processo de avaliação e os factores de avaliação previstos na lei, os quais deveriam convergir.

Conclui, assim, o Gabinete Jurídico do SPRC que a FCT actuou em violação do artigo 28º, nº3, do Decreto-Lei n.º 125/99, ao não proceder de forma a que todas as unidades de I&D fossem avaliadas em conformidade com a referida imposição legal, acrescentando que, “tal actuação, para além de violadora do nº3 do artigo 28º – através do qual o legislador impôs os meios/métodos de avaliação das unidades de avaliação – origina uma discriminação entre unidades de I&D sem qualquer razão objectiva que a justifique”.

Assim, tendo em conta a investigação realizada, com a intervenção de diversos investigadores e da leitura de vários documentos que são públicos sobre este processo, o Gabinete Jurídico do SPRC entende que não foram aplicados todos os critérios, nem foram realizadas as visitas e entrevistas impostas pelos vários normativos, nem sequer foi efectuada uma avaliação “detalhada” a todas as unidades de I&D implicadas.

Para o SPRC, por se definirem as regras de avaliação a meio do processo, há violação dos princípios da transparência e imparcialidade, princípios impostos pelo.  Código de Procedimento Administrativo e pela própria Constituição da República Portuguesa (designadamente no seu artigo 266º, n.º 2).

Sabendo-se do impacto muito negativo da violação de normativos legais para o futuro das diversas unidades de investigação, das irregularidades cometidas, da quebra do compromisso entre o Estado e a sociedade científica nacional relativamente às garantias de legalidade, transparência e imparcialidade que devem presidir em todos os processos de avaliação com profundas consequências, por um lado, no futuro do sistema científico nacional e do próprio ensino superior e, por outro, dos investigadores, docentes e bolseiros, entendeu o SPRC, através do seu Gabinete Jurídico, solicitar à Procuradoria Geral da República a impugnação das normas regulamentares referidas e dos actos administrativos delas decorrentes que tenham sido praticados.

"Apagando David: O significado da vida privada ou o que dela resta"


"Se não tem nada a esconder,
seguramente não terá nada a temer" 

 In documentário Erasing David, 2010. 

Ontem, muito tarde, passou no canal de televisão Odisseia um documentário admirável apresentado em 2010, cujo título é Erasing David.

Quem o concebeu e realizou foi um sujeito inglês mais ou menos anónimo, David Bond, que "um belo dia recebeu uma carta do governo a informá-lo de que era um dos 25 milhões de habitantes cujos dados se tinham extraviado, entre eles o seu nome, a sua morada e os seus dados bancários. 

Intrigado, começou a investigar a forma como se gerem esses dados e não demorou a descobrir algumas verdades alarmantes sobre o que o governo e as empresas privadas já sabem sobre os cidadãos comuns, inclusive descobre que há pessoas que foram apanhadas no fogo cruzado das bases de dados e ficaram coma vida destruída. Para comprovar até que ponto se podem saber coisas a partir destes dados, David contratou os serviços de uma prestigiosa agência de detetives e propõe-lhes um desafio singular: desaparecerá sem deixar rasto durante um mês, enquanto tentam encontrá-lo.

E acrescenta, "outrora bastião da liberdade e dos direitos civis, o Reino Unido é agora uma das sociedades modernas mais vigiadas do mundo, só superada pela China e a Rússia. O adulto médio britânico aparece em mais de 700 bases de dados e é gravado diariamente por uma das mais de quatro milhões de câmaras situadas nas ruas de todo o país."

David contesta em particular a idea que surge a todo o momento, tanto por lá como por cá: Se não tem nada a esconder, seguramente não terá nada a temer... Além de atentar contra um direito fundamental - a privacidade e a intimidade - que deve, em circunstâncias "normais" ficar ao livre arbítrio de cada um, e de esvaziar a pessoa dessa dimensão fundamental da sua vida, é uma redonda mentira, pois temos razões de sobra para temer o que nos pode acontecer quando os nossos dados, mesmo aqueles que parecem não ter interesse nenhum, são deliberada ou aleatoriemente usados para fins perversos, que são múltiplos.
Este texto tem continuação

domingo, 5 de abril de 2015

O BLOGUE DO DALAI LIMA

O Dalai Lima é um dos mais argutos observadores da realidade nacional e internacional. Os últimos posts são

Obituário

Manoel de Oliveira conclui longa-metragem.

Ana Tumia

A cada sístole o ventríloquo contraía-se todo.

Crise, what crise

Touros portugueses não investem.

Ver mais em http://blogdodalailima.blogspot.pt/


CONCURSO DE FOTOGRAFIA SOBRE A LUZ


A PORDATA APRESENTA AS CONTAS PÚBLICAS

Informação recebida da Fundação Francisco Manuel dos Santos:

Pordata
Estatísticas sobre os países da Europa, Portugal e os seus 308 municípios
A Pordata tem um novo tema: Contas Públicas para a compreensão da dinâmica da sociedade. A partir de agora, pode aceder a (quase) todos os dados acerca das Finanças do Estado português – do número de funcionários aos vencimentos médios, passando pelos valores do défice, da dívida pública, das receitas, das despesas do Estado e acabando na carga fiscal (desagregada por impostos), são muito poucas as coisas que não conseguirá encontrar na Pordata. A nova área é especialmente importante por compilar informação que neste momento está dispersa por uma miríade de fontes de informação que nem sempre são facilmente acessíveis, como a Conta Geral do Estado.

Ao navegar por mais de 50 quadros pode descobrir, por exemplo, que desde 2011 a 2014 a Administração Pública perdeu mais de 71 mil trabalhadores; ou que a carreira de magistrado é a que tem melhor remuneração no Estado (máximo de 6.130€); ou até que cada português devia, em 2013, cerca de 21.000€ (valor da dívida pública per capita).                                             

O MOCHO SÁBIO FEZ UM ANO


FESTIVAL INTERNACIONAL DE BIOTECH

Informação recebida do Ciência Viva:

O que têm em comum os implantes dentários feitos a partir de escamas e espinhas de peixe, o biodiesel produzido com base em microalgas ou as novas terapias de combate ao cancro e à esclerose múltipla?

Estes são alguns dos resultados práticos da investigação mais avançada na área da Biotecnologia que estarão em destaque no Pavilhão do Conhecimento nos próximos dias 10 e 11 de Abril, no Festival Internacional de Biotecnologia.

No dia 12, domingo, o Festival desloca-se para o Time Out Mercado da Ribeira. A entrada é livre.

Durante três dias, investigadores, empresários e jovens embaixadores da Biotecnologia irão partilhar as mais recentes inovações através de actividades, jogos e debates, demonstrando a sua aplicação no quotidiano.

O Festival Internacional de Biotecnologia é uma iniciativa da World Biotech Tour, coordenada pelo ASTC (Association of Science-Technology Centers), com o apoio da Biogen Foundation.

O Pavilhão do Conhecimento é o primeiro centro de ciência do mundo a receber este projecto, passando de seguida o testemunho aos centros de ciência Technopolis, na Bélgica, e Miraikan, no Japão.

Programa detalhado aqui

Mais informação sobre a participação portuguesa na World Biotech Tour aqui

Esperamos a sua visita.

ENGLISH VERSION

Museu do Relógio, em Serpa, comemora 20 anos com nova “máquina do tempo"

Do Região-Sul: 

 O lançamento do relógio de bolso “XX Anos” é um dos destaques das comemorações do 20.º aniversário do Museu do Relógio, com sede em Serpa, que tem um espólio de cerca de 2.400 exemplares mecânicos. 

A apresentação desta nova “máquina do tempo” está integrada no evento “Edição Limitada”, com que o museu privado vai assinalar os seus 20 anos de existência, nos dias 18 e 19 deste mês, em Serpa, no distrito de Beja. O acervo da instituição integra relógios de bolso, pulso, parede ou mesa, a partir dos quais o visitante pode apreciar a evolução tecnológica e as modas, estilos e tendências, ao longo dos tempos. 

“Passaram-se 20 anos desde que o fundador do museu abriu a sua coleção ao público, para dar a Serpa e ao Alentejo mais um polo de atração turística cultural, e achámos que devíamos fazer um evento ímpar”, explicou à agência Lusa o diretor do Museu do Relógio, Eugénio Tavares d’Almeida. Fundado por António Tavares d’Almeida (falecido em 2012), o museu tem sede em Serpa e, em 2011, abriu um polo em Évora. 

Para assinalar o 20.º aniversário, o museu vai lançar o relógio de bolso “XX Anos”, numa edição limitada e numerada de 20 exemplares, sobre o qual Eugénio Tavares d’Almeida não quis ainda revelar muitos pormenores. “O relógio só vai ser conhecido no jantar de dia 18. Mas é de bolso porque a coleção do museu começou por relógios de bolso”, justificou. Trata-se “uma peça romântica” e cuja caixa “é toda em madeira, feita por um artesão do Alentejo”, acrescentou, considerando ser “uma peça digna para um colecionador” e para assinalar os 20 anos da instituição.

 Duas tertúlias, uma sobre colecionismo de relógios e a outra sobre o tempo, degustação de produtos regionais, convívio e um jantar de gala, que inclui um leilão de solidariedade, são outros dos pontos altos da iniciativa. No jantar de gala, em que vai também ser exibido um filme sobre a evolução do museu e apresentado um livro sobre estes 20 anos, o primeiro dos 20 exemplares do novo relógio de bolso vai ser leiloado para fins solidários. “O leilão reverte a favor da Creche de Serpa, que tem mais de 150 anos, mas que, nos últimos tempos, sofreu com toda esta conjuntura económica”, frisou.

 No que toca às tertúlias, a primeira intitula-se “Colecionismo de Relógios: Investimento ou Paixão”, com Miguel Seabra, José Carlos Saldanha e Carlos Torres como oradores. A outra, subordinada ao tema “Tempo: Dos Cosmos ao Homem”, vai ter como intervenientes Fernando Correia de Oliveira, Carlos Fiolhais e Paulo Crawford.

 O evento comemorativo dos 20 anos do Museu do Relógio é limitado a 100 participantes e as atividades terminam no dia 19, com uma visita ao Lagar e à Herdade Maria da Guarda.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

IN MEMORIAM DE JOSÉ SILVA LOPES


“As carreiras são entre nós matéria importante, visto estarmos num país de carreiristas no qual todos buscam uma calha que lhes permita deslizar sem atrito” (João Lobo Antunes).

Foi  hoje amplamente noticiado o falecimento de José Silva Lopes, antigo ministro das Finanças e do Plano, do III Governo Constitucional. Neste mesmo dia, o  Prémio Nobel da Economia (2008)  Paulo Krugman, que esteve no Banco de Portugal, vindo do Massachusetsss Institute of Technology,  depois de escrever que “o mundo perdeu um grande homem, bom e incrivelmente simpático”, declarou que  “algumas das suas ideias lhe deram pistas para os  seus primeiros trabalhos académicos” (“Jornal de Negócios”, 3.Abril.2015).

Numa carta, por mim subscrita,  publicada no Público (10/11/2004), intitulada “A preocupação de Silva Lopes com a educação”,  longe portanto do diploma de Miguel Relvas, e outros quejandos que não param de aumentar, dei conta , quase diria de forma premonitória, de uma   entrevista televisiva deste notável homem público em que lamentava o estado da educação: “É um desastre completo. Nem daqui a 30 ou 40 anos nos livramos dos erros que andamos a fazer hoje”. Ao ser interpelado se tal se ficava a dever ao pouco investimento feito neste sector, não hesita em responder com um vigoroso não. Aduzindo, a título de exemplo, o facto de “sobretudo no fim da carreira, termos alguns dos professores primários mais bem pagos da Europa”. Ora, tal só é possível com a cobertura de um injusto Estatuto da Carreira Docente que iguala desiguais fazendo com que todos os professores atinjam o topo da carreira [através, por vezes, de caricatos cursos de complemento de habilitações] sem ter em conta a respectiva formação académica, que vai desde um curso médio a uma licenciatura universitária, quer se destine à docência do 1.º ciclo do ensino básico ou até do ensino secundário. É só uma questão de tempo de serviço!

E não hesita em prosseguir, Silva Lopes: “Nunca ninguém me explicou por que é que não há concursos verdadeiros para professores, por que é que se utilizam as notas das universidades, venham elas de uma escola boa e exigente ou de uma universidade manhosa e perdulária nas notas”. Esta verdadeira aberração, muito se amplia se contabilizarmos, outrossim, os docentes oriundos do ensino politécnico a concorrerem, igualmente, em vantajosa  condição, para a docência do 2.º ciclo do básico com os saídos da universidade. Mas basta de seguir a “‘política do avestruz” no que respeita à formação dos alunos!

Há que encarar os factos de frente e sem sofismas para acabar com o escândalo de uma percentagem de crianças terminar o 1.º ciclo do básico sem saber ler, escrever ou contar (o chamado LEC), vítimas inocentes de um sistema educativo permissivo, e sem respeitabilidade, que distribui, a eito e sem jeito, diplomas com simples finalidades estatísticas para uso da União Europeia e de um país em que “se ensina pouco, se educa menos e se exige quase nada”, em denúncia pública da Associação Comercial do Porto, anos atrás. E isto para não falar dos inúmeros ignorantes, diplomados por uma desregrada massificação do próprio ensino superior”.

E porque, na voz do povo,  “a esperança é a última coisa a morrer”, esperançoso me quero de que fortes ventos de mudança afastem para longe as plúmbeas nuvens que têm pairado e, pior do que isso, feito chover copiosamente disparates sobre o sistema educativo nacional. E, como tal, ,  os bons fados nos afastem da denúncia de Ramalho Ortigão (1836-1915) quando se queixou amargamente da educação do seu tempo, dizendo ser “uma burla atroz”. E porque más fadas atravessaram fronteiras, em idos tempos, o filósofo alemão Nietzche (1844-1900), contemporâneo da Ramalhal figura, não se mostra menos pessimista relativamente à educação do seu torrão natal. Escreveu ele: “E assim cheguei até vós, ó homens de hoje, e ao país da educação. E o que me aconteceu? Não obstante toda a minha ansiedade, tive de rir. Nunca os meus olhos tinham contemplado algo tão manchado e heterogéneo”.

Um pouco de alegria

Foi preciso, em poucos dias, morrer um grande poeta - Herberto Helder - e um grande cineasta - Manoel de Oliveira - para que neste triste país despontasse um pouco de alegria. Essa estranha alegria que está nas suas artes, de que é feita a arte.

Aquelas vozes insistentes e torturantes que da vida só conhecem uma nota e que, arrogantemente, querem reduzir toda a vida a essa nota, passaram a ruído de fundo. Mas voltarão ainda antes da missa do sétimo dia.

"Foi mau aluno..."

Em diversos canais de televisão portugueses, a acompanhar a notícia da morte de Manoel Oliveira, surge um rodapé com dados biográficos do cineasta. Esse rodapé começa assim: "Foi mau aluno..."

"Foi mau aluno..." é a primeira impressão de quem lê esse rodapé e que condiciona as seguintes. O raciocínio que se espera do telespectador será algo do género: não é preciso ser-se bom aluno para se ir longe na vida.


Nas notícias on-line é a mesma coisa: "era mau aluno e começou a ler já tarde", li numa delas.

Este dado, não sei se correcto ou incorrecto, mas bem destacado para o público em geral, terá fundamento na auto-apreciação que Manoel de Oliveira fez da sua passagem por um colégio de Jesuítas, situado na Galiza. Disse ele que, aí, foi mau aluno. Certamente, com toda a subjectividade a que se tem direito quando se fala na primeira pessoa...

Daí a retomarmos e a insistirmos no culto do "mau aluno" vai uma  grande distância. Manoel de Oliveira vai ser mais um nome a acrescentar à lista, onde também consta Albert Einstein, destinada a "provar" que a escola não faz qualquer diferença.

A LUZ QUANDO NASCE É PARA TODOS

Meu artigo no Sol de hoje:

O símbolo de 2015 - Ano Internacional da Luz consiste num disco solar rodeado por bandeiras de várias cores, de modo a que o conjunto pareça uma flor. O Sol representa a origem da vida, pois sem Sol nenhum ser vivo existiria sobre a Terra (a energia solar assegura por um lado a existência de água em estado líquido e por outro lado a fotossíntese nas plantas, que transformam água e dióxido de carbono em oxigénio e compostos orgânicos vitais). A nossa estrela significa também a sustentabilidade humana, pois a energia que dele nos chega é uma condição necessária da vida humana (daqui a cinco mil milhões de anos, quando o Sol se começar a extinguir, não teremos condições para viver neste sítio do cosmos). O Sol representa a cultura universal, pois como diz o provérbio “O Sol quando nasce é para todos” (na inauguração do Ano da Luz, na sede da UNESCO, um representante da Nova Zelândia comentou: “Sim, mas primeiro é para nós.”). Dada a omnipresença do Sol na nossa vida, não admira que os povos antigos como os Egípcios, os Aztecas e os Incas tenham divinizando o Sol.

As bandeiras coloridas representam a variedade e inclusão internacional. A proclamação do Ano Internacional da Luz foi feita por unanimidade, num dos raros gestos em que as nações da Terra aparecem unidas. As cores (curiosamente oito e não as sete tradicionais do arco-íris) podem ser vistas como simbolizando um espectro de temas associados ao Sol como a ciência, a tecnologia, o desenvolvimento, o ambiente, a cultura, a história e a educação.

É graças à luz que obtemos a maior parte do nosso conhecimento do mundo. Perto do Sol, a evolução biológica tornou os nossos olhos aptos a receber a luz que é mais emitida pelo Sol, a chamada luz visível. A atmosfera filtra, para nossa protecção, boa parte da luz invisível enviada pelo Sol. Mas ela é permeável às ondas de rádio e  microondas que usamos em telecomunicações hoje de uma forma maciça. Luz invisível muito energética (raios X e raios gama) é produzida por nós para ser usada, por exemplo, para diagnóstico e tratamentos médicos. As tecnologias da luz são infindáveis: em nossas casas a luz entra por fibras ópticas nas televisões e computadores e as comunicações globais assentam em cabos ópticos que atravessam os oceanos. Beneficiamos hoje de todo um conjunto de técnicas baseadas em lasers, uma ideia de Einstein só concretizada no laboratório nos anos 50: desde os códigos de barras nos supermercados até à cirurgia oftalmológica, passando pela leitura de CD.

Neste ano dito não só da luz como das tecnologias baseadas na luz, as Nações Unidas pretendem não só celebrar a luz, um tema verdadeiramente transversal, como ligar, inspirar e motivar de modo a que as tecnologias baseadas no nosso conhecimento da luz sejam mais partilhadas em toda a sociedade humana. Muitas actividades estão a ser organizadas em todo o mundo (www.light2015.org), incluindo evidentemente Portugal (ail2015.org), com o envolvimento de sociedades, laboratórios e escolas científicas assim como de empresas e associações económicas, ambientais e culturais. Em Portugal, o ano arrancou oficialmente a 16 de Março na Escola Passos Manuel, em Lisboa, o mais antigo liceu português, com uma palestra sobre a história do nosso conhecimento da luz e um show de luz, que demonstrou de modo espectacular as várias propriedades da luz. Foi a primeira de um conjunto de sessões escolares, intituladas Haja Luz nas Escolas. Entre muitas outras iniciativas a 13 e 14 de Setembro haverá uma noite de observação e um workshop, curiosamente na aldeia da Luz, no Alqueva, uma das “reservas de luz” do mundo (sítios onde a abundância de luz é impedida, para melhor observar a luz cósmica). A 27 de Novembro haverá uma conferência internacional na Fundação Gulbenkian, onde modernos aspectos da luz serão divulgados.

As Nações Unidas chamam a atenção para o desigual acesso, no mundo actual às tecnologias da luz. Dependemos da luz, visível e invisível, para vivermos, mas muitos povos têm um limitado acesso a formas artificiais de luz. Em África, onde a insolaridade é grande, existem, paradoxalmente, largas regiões sem rede eléctrica e, portanto, sem lâmpadas. A solução já existe: painéis fotovoltaicos que retêm a luz do dia para que ela possa ser fornecida de noite por lâmpadas LED. A luz quando nasce deve ser para todos.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Bibliotecas para lá dos livros


CONVITE

 Na próxima 3ª feira, 7 de Abril de 2015, às 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada com o Professor José Moura, Director da Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. A apresentação do orador será feita pelo Professor Carlos Fiolhais, Director do RÓMULO.

 ENTRADA LIVRE

 SINOPSE DA PALESTRA:

 No Campus de Caparica, a Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa é uma mais-valia em todo o espaço urbano e cultural do município de Almada. Uma verdadeira mini‐cidade, onde se desenvolve uma intensa atividade de ensino e progresso tecnológico e científico. Nesse interface cidade/universidade, um elo significativo com a comunidade circundante é a Biblioteca da FCT, um edifício com acesso público, aberto à comunidade. Na era da informação, uma biblioteca tem de ter um novo dinamismo e objectivos diferenciados. Do nosso computador e através das redes (sociais, de dados científicos, etc.) temos um acesso muito fácil à informação que pretendemos, em diferentes formatos: texto electrónico, áudio, vídeo, mais frequentemente. Ao desafio “Bibliotecas para que servem hoje em dia? temos vindo a dar uma resposta pró‐ativa, desenvolvendo um trabalho continuado de procura e armazenagem de informação, assim como utilização de novas ferramentas e criação de bases de dados, sempre na óptica de formação e apoio ao utilizador. Por outro lado, acreditamos que estas novas bibliotecas devem organizar e catalisar um conjunto de atividades culturais e de serviços variados. A Biblioteca tem vindo a ser um desafio para quem ali vive ou passa pela Universidade, propondo um programação regular de Exposições, Espetáculos, Workshops, Seminários, Conferências, Encontros e projectos especiais da mais variada índole, da Ciência à Tecnologia, da Gastronomia ao Teatro, ao Cinema e à Arte. É bem patente que a Biblioteca da FCT está a mudar o rumo e a imagem das bibliotecas tradicionais. Assim, a FCT e a sua Biblioteca cumprem algo que deve ser um dos objectivos de uma Universidade moderna e atenta, desenvolvendo programas de extensão cultural, desenvolvimento local e humanização das áreas de ciências e tecnologias.

 BREVE BIOGRAFIA DO ORADOR:

 JOSÉ J. G. MOURA, nascido em 1951, Engenheiro Químico IST, UTL, Lisboa (1974), Doutoramento em Química pela FCT ‐ Universidade Nova de Lisboa (UNL) (1979). 1979‐1981 – Investigador Convidado da Universidade de Minnesota, EUA. 1984‐2002 – Professor Convidado, Universidade da Georgia, EUA. 1991‐ 1994 – Membro do NATO Programa ‐ Supramolecular Química, 1992‐1993 ‐ Membro do Painel de Química do Human Capital & Mobility – DGXII, CE. 1994 – Membro do Painel Protein Engineering ‐ Structural Biology – EC, 1994‐... Professor Catedrático da FCT‐UNL. 1997‐2000 – Presidente do Departamento de Química. 2000‐2006 Delegado Português ao INTAS e COST. 2003‐2006 Presidente do Conselho Científico da FCT‐ UNL. 2004‐2006. Membro do Comité Técnico do COST. 2004 ‐ Prémio Estímulo à Excelência do MCES. 2005‐ Membro Eleito do Conselho de Cientistas da Soc. Biol. Inorg. Chemistry. 2006 ‐ Membro Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Membro de diversos Editorial Boards. Membro do Painel Científico do Programa Estímulo da Ciência da Fundação Gulbenkian e colabora com FCT na avaliação de projectos. Em 2010 foi eleito Presidente da Society of Biological Inorganic Chemistry. Tem mais de 400 artigos ISI publicados com um índice h de 54. É Director da Biblioteca do Campus de Caparica, FCT‐UNL desde 1996, estando envolvido na coordenação deprojectos culturais e científicos.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Boletim da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

O último número do Boletim da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra foi recentemente publicado, e disponibilizado em acesso aberto, através do link:


Trata-se de um Número Especial que nos dá a conhecer um estudo sobre a automatização das Bibliotecas da Universidade de Coimbra, que obrigou a um trabalho persistente de recolha e de compilação de informação dispersa e confinada ao arquivo interno da BGUC. A sua autora refere que este trabalho abrange“[…] todo o período que vai desde o momento em que os bibliotecários de Coimbra compreenderam as vantagens que o uso do computador traria às várias operações executadas nas bibliotecas (1964) até à implementação do atual Sistema Integrado de Bibliotecas (2003) utilizado pelas dezenas de bibliotecas da Universidade de Coimbra […]”.
Deste modo, revela-se como um contributo essencial para a história da informatização das bibliotecas em Portugal, fazendo a reconstituição de todo o processo de informatização levado a cabo.

FCT OBLIGED TO GO TO COURT

There has been an interest from all around the world about all the news about the Portuguese scandal in science assessment. For the benefit of our international readers we have translated a recent newspiece by the journalist  Samuel Sive, which appeared recently (24h Januart) in the national reference newspaper PÚBLICO:

FCT OBLIGED TO GO TO COURT

The controversy on the assessment of research units by the Foundation for Science and Technology (FCT), which has dragged on for months in the scientific community, will now move to the courts. There are at least two public research university centers which presented legal challenges of the process, invoking various illegalities committed by that institution, such as rule changes with the ongoing process and other "blunders", which lead them to seek the annulment of all evaluation

 These two lawsuits against the FCT were presented at the end of last month, moved by the Mathematical Centre (CMAT), University of Minho (UM), at the Administrative and Fiscal Court (TAF) of Braga, and the Chemistry Center of the Tras-os-Montes and Alto Douro University oUTAD), at the TAF Mirandela. In addition to the temporal coincidence, the two complaints share the same type of arguments against the assessment for the FCT by the European Science Foundation (ESF), which called into question the legality of some of the decisions.

 In the two known processes there are three problems that are pointed out. Among these, there is the indication that appeared in the contract signed between the FCT, subordinate body to the Ministry of Education and Science (MEC), and the ESF that only 50% of the evaluated units would proceed to the second phase of the evaluation, a fact which could only be learned about three weeks after the announcement of the results of that stage (where 144 centers have ended up its way while 178  passed to the second stage). The action of the CMAT is considered that this reading "results clear from the contract with the ESF" and that a constraint of this type had never been publicized by FCT. "Thus, it breached the principle of transparency," argues the same document.

Then they point a change introduced in the evaluation process already under way. In the action moved by the University of Minho research center it is considered a "serious breach" changing the number of evaluators in each panel. CMAT argues that on  April 29, 2014, with an "additional information", FCT went on to mention that the assessment would be made by three rapporteurs, when the first evaluation of the guide, published on July 31, 2013, it had been announced that there would be five evaluators for each center. This change "changes the evaluation procedure during the procedure, in clear violation of the principles of trust and transparency", it is argued in the action which was received at TAF Braga.

 On the other hand, the list of expert panels for the evaluation was proposed by the FCT on April 4, 2014 – and approved by the Secretary of State of Science Leonor Parreira  four days later - at a time when the deadline for research units submit their application to the evaluation processes was passed long ago. This time lag with the appointment of experts made at a later date than the applications also hurt, according to the action delivered in court by CMAT, the principles of neutrality and impartiality and is na additional cause  for the annulment of the whole competition. "To date, and completely beyond the legal term, we remain without any response from FCT,"  explains to  PUBLICO Ana Jacinta Soares, CMAT coordinator, who subscribes to legal action.

 In the first phase of the evaluation, released at the end of June last year, CMAT has been classified as  "Fair” and therefore was not entitled to any funding. The first complaint of the research unit of the University of Minho allowed na upgrade to "Good", but that was not enough for the CMAT, which considers being excluded some of its arguments "unfairly and illegally"

In the document  of the case the various steps of the evaluation process of the research units, since the opening of the competition in July 2013, are recalled, calling attention to the main defects that were publicly denounced by the several scientific laboratories over the past few months, as the inadequacy of evaluators panels - according to the legal action of CMAT, from the 11 elements of the Panel of Exact Sciences, only three are actually mathematicians - or the fact that bibliometric indicators were not properly considered

The main reason for opposition by the UTAD Chemical Center is precisely the evaluation criteria of scientific productivity. This unit had note 3 in this item, despite being best rated in the various parameters analyzed by bibliometric study published by the FCT at the beginning of the evaluation process than  the centers that have ended up having note 4.

This research unit went from a “Very Good” rating in the previous review of 2007 to "Good" in the new process. Therefore, they will receive an annual funding of only 10,000 euros, which will have to be divided among the 27 researchers who make it up.

 Also for this center there were "gross errors" in the evaluation of research centers that should determine its annulment. "All this was so incredible that the FCT has no choice but to start again", says the director of that scientific unit, Paulo Coelho.

 These are the only two judicial processes on the assessment of the research units that PUBLIC learned about. FCT did not disclose whether there are others. Moreover, on this subject there was a single reaction from that public entity, through its office of communications: "The FCT does not comment on legal processes, whether ongoing or in the perspective that they will come into being."


Samuel Silva Público 24/3/2015

FCT EM TRIBUNAL

Informação recebida do SNESUP (os recortes do JN e do Expresso - uma página inteira a mostrar a incompetência da FCT estão nos links abaixo):


"Como comunicámos na semana passada, houve já duas Unidades de Investigação que avançaram com queixa em tribunal contra a Fundação de Ciência e Tecnologia (FCT) relativa ao processo de avaliação das Unidades de Investigação. Trata-se de um primeiro passo ao qual se juntarão outros, tal como foi também noticiado recentemente. Este é um processo que está longe da sua conclusão, sendo de realçar o caráter como as Unidades têm respondido à FCT, respeitando todos os trâmites. A pressão de assinatura dos acordos acentua-se, sendo que por vezes joga-se com as dificuldades orçamentais. É um território pouco edificante. As críticas são crescentes e mantêm-se as notícias. Até onde acredita a FCT que pode levar a sua prepotência?"

Os unicórnios voadores de 2014

O Unicórnio Voador. Crédito: Cláudia Barrocas

Já conhecidos os vencedores do Prémio Unicórnio Voador, atribuído pela Comcept (Comunidade Céptica Portuguesa) às personalidades ou entidades que mais tenham contribuído para a disseminação da pseudociência, superstição e outras formas de desinformação.

Para cada categoria, os vencedores de 2014 são:

Grafonola – RTP1 – Pelo espaço que o Telejornal ofereceu à pseudociência com as reportagens “Acreditar”. Uma autêntica vitrina em horário nobre para, entre outras coisas, diagnósticos médicos por medição de palmos de roupa, curas para o cancro com raízes e previsões da data da morte pela “física quântica”. Ao todo, foram 34 minutos e 39 segundos de publicidade a produtos e serviços milagrosos que não foram acompanhados de qualquer análise crítica.

Estrela Cadente – Gustavo Santos – Esperar é a coisa mais ridícula que um ser humano pode fazer. Mas esperar não quer dizer aguardar, esperar vem na verdade de “espe-r-ar”, que quer dizer “espetar” ou “atirar” postas de pescada ao “ar”, uma habilidade essencial para entrar no negócio da auto-ajuda e do coaching. Mas será que também é essencial culpabilizar as vítimas de violação, violência doméstica e ataques terroristas?

O Rei Vai Nu – Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa – Que aproveitou a lei das terapias não-convencionais para lançar um “curso avançado em medicamentos homeopáticos”. Não sabemos a diferença entre o curso avançado e o curso básico, mas gostaríamos de imaginar que, no avançado, os farmacêuticos são recomendados a não dispensar qualquer medicamento homeopático sem antes explicar que são só água e açúcar.

(A RTP parece apostada em renovar o título e ganhar uma manada de unicórnios voadores em 2015, a avaliar pelo modo irresponsável como posicionou um "debate" acerca da "opção de não vacinar", como se esta fosse tão legitima como a contrária, e pelo espaço que contínua a dar a leitoras e auras e alinhadoras de chackras. Serviço público precisa-se, urgentemente).

Serviço público de obscurantismo na RTP

Não contente com um lamentável "debate" sobre a "opção" de não vacinar, a RTP parece apostada em assumir-se como a televisão oficial do obscurantismo. Sem nenhuma centelha de espírito crítico, dá voz a uma mulher que afirma fazer "leitura de auras" e "alinhamento de chackras".

http://media.rtp.pt/blogs/agoranos/artigos/leitura-da-aura-e-alinhamento-de-chackras_2465

A RTP está definitivamente a precisar de uma melhor "leitura" da sua missão e de um novo "alinhamento" dos seus conteúdos.

PEDRO PAIXÃO SOBRE A LUZ


Recebi de um estimado leitor este excerto do escritor Pedro Paixão sobre a luz:

“A luz é o que, sem se ver, faz ver e não se pode agarrar com os dedos de todas as mãos. Há aqui um admirável ensinamento. Nada é comparável à luz, que não sendo uma coisa, nos mostra o aspecto de todas as coisas, as coisas de todas as cores e as cores de todas as coisas. A luz abre-nos o mundo que a escuridão encerra, um presente tão imenso que não sabemos retribuir, um presente de tal modo violento que está só no passar…"

                                                           Pedro Paixão,  p, 213 do cap VI - O mundo é tudo o acontece, do livro com o mesmo título de 2008, da editora Quetzal. 

OS VAN GOGHS EM PALCO EM LISBOA


A luz segundo Daniel Faria

Neste Ano Internacional da Luz, dois poemas sobre a luz de Daniel Faria:

Como reporás a terra arrastada
 Para a boca?

 Foges e foges
 E repousas à sombra da velocidade.

 E ao extinguires-te dizes
 Tudo
 O que podia ser dito
 Sobre a luz

Daniel Faria


Explicação da Luz


O azulejo lava a sua luz

Tem o brilho
Do movimento exacto
Dos seus vestidos

E o seu rosto é limpo.
Com as suas próprias mãos
Sem acabar se acaricia

A luz lava o brilho
Do azulejo. A luz o lava
No seu vestido

E o seu rosto é um.
Com as próprias mãos
O quebra e inicia

Daniel Faria

CENTENÁRIO DO ORPHEU

Informação recebida do CLEPUL, Lisboa:

No âmbito da recém-criada ACADEMIA LUSÓFONA, inaugurar-se-á no próximo dia 6 de Abril de 2015 o seu CURSO GERAL, com um programa dedicado à celebração do centenário da publicação da revista Orpheu, momento simbolicamente marcante da nossa modernidade estética.

A SHIP, Instituição de Honra do 100Orpheu, promovido pelo CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, da Universidade de Lisboa), pelo LEPEM (Laboratório de Estudos de Poéticas e Ética na Modernidade, da Universidade de São Paulo) e por um conjunto de instituições nacionais e estrangeiras de reconhecido mérito científico e cultural, que atravessará Portugal e Brasil durante todo o ano de 2015 com as mais diversas iniciativas, vem convidar a participar na jornada inaugural do CURSO GERAL, segunda-feira, dia 6/4/2015, com o seguinte programa:

                16h: Acolhimento e Visita ao Palácio.
                17h: Inauguração da Exposição “Rostos & Refracções de Orpheu”(Roslam Botiev & Joaquim Carvalho). Apresentação de Miguel Real.
                18h: Sessão inaugural com Conferência “Mistérios de Orpheu” de Raúl Rosado Fernandes.
                20h30m: Jantar no Martinho da Arcada (inscrições na SHIP).

O CURSO GERAL da ACADEMIA LUSÓFONA constitui uma plataforma de apresentação e combinação de cursos, ciclos de palestras, exposições e worshops sobre as Culturas Lusófonas, da responsabilidade (organização, coordenação e lecionação) dos diferentes núcleos institucionais da SHIP e com colaboração de Instituições Associadas.


Assim, paralelamente ao programa diário de aulas entre as 14h30m e as 17h, realizar-se-ão Seminários 100Orpheu-SHIP, que abrem com esta conferência inaugural do Professor Raúl Rosado Fernandes e contarão com as participações de Lídia Jorge, Rui Vieira Nery, Francisco Simões, etc..Para mais informações consulte http://ship-sociedadehistorica.blogspot.pt/p/estudos-gerais-academia-da-ship.html

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...