terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A FORMAÇÃO DE PROFESSORES AO SABOR DAS MARÉS


“A desistência das elites, substituída por uma casta de medíocres, transformou-nos numa espécie de carpideiras” (Baptista-Bastos, escritor e jornalista).

Esta “desistência das elites” tem dado azo a que vozes vindas de estratos profissionais sem ligação directa ao ensino se manifestem publicamente, enquanto os professores formados por universidades parecem viver numa espécie de apatia generalizada. Das vozes mais contundentes, sobressai, sem dúvida, a de Medina Carreira, que não perde a oportunidade em chamar a atenção para a importância de uma educação que separe o trigo do joio: “Isto de sermos todos iguais é uma trafulhice” (Revista Expresso, 24/10/2009).

Recuando ao ano de 2004, cito uma entrevista televisiva em que, por seu lado, o economista Silva Lopes dá conta da sua preocupação com o lamentável estado da educação nacional. Dela recolho uns tantos excertos: ”É um desastre completo. Nem daqui a 30 ou 40 anos nos livramos dos erros que andamos a fazer hoje. Sobretudo no fim da carreira temos alguns dos professores primários mais bem pagos da Europa. Nunca ninguém me explicou por que não há concursos verdadeiros para professores, por que é que se utilizam as notas das universidades, venham eles de uma escola boa e exigente ou de uma escola perdulária nas notas”.

Este statu quo, torna-se forçoso dizê-lo, encontrou acolhimento nos próprios licenciados por faculdades que se venderam por um “prato de lentilhas” concorrendo para a docência de escolas superiores de educação que iam sendo criadas, a eito, pelo país fora. Chamei a atenção, várias vezes, para esta situação merecedora, por parte de um professor do politécnico, do seguinte protesto: “Considero absolutamente lamentável o artigo da autoria de um membro da direcção do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados. Utilizando uma linguagem belicista com o propósito de mobilizar os estudantes universitários para uma espécie de guerra santa a fazer aos estudantes do ensino politécnico, o autor acaba por tornar visível a xenofobia académica que tem vindo a alimentar algumas (repito, algumas) das posições através das quais se recusa, liminarmente, às ESE’s a possibilidade de formarem professores para leccionar no 3.º ciclo do ensino básico” (Público, Carta ao Director, 24/12/96).

Por o artigo ser da minha autoria não podia deixar de justificar a razão da minha posição. Assim, respondi com um artigo de opinião intitulado “Uma Questão de Honra”, de que transcrevo parte: “Mas como eu me sinto feliz e orgulhoso pelo reconhecimento público de que tenho sido um esforçado centurião (aliás, desde 87) da recusa em ESEs poderem formar professores para o 3.º ciclo do ensino básico. Nunca me perdoaria a mim próprio deixar que os estudantes universitários pudessem ser apanhados desprevenidos nas teias que à sorrelfa se teciam nos gabinetes da 5 de Outubro para lhes usurpar um mercado de trabalho já saturado e da sua natural pertença. E porque, com escrevi, em artigo anterior, referindo-me, respectivamente, aos universitários e aos alunos do politécnico, ‘uns são os invadidos e outros os invasores’, tenho que aceitar a acusação que me é feita de ‘xenofobia académica’, mas que colhe nobre exemplo nos franceses que durante a II Guerra Mundial lutaram contra os alemães nas forças da Resistência, enquanto compatriotas seus colaboravam com os invasores. Nesta perspectiva, portanto, a minha ‘xenofobia académica’, mais do que uma mera opção, deve ser considerada uma questão de honra” (Público, 01/02/2007).

Tempos depois, foi a direcção do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados recebida em audiência pela então secretária de Estado da Educação Ana Benavente. Aproveitando a ocasião, levantei esta questão. Fazendo jus à proverbial ambiguidade dos políticos, “bamboleando três vezes a cabeça como quem prefacia uma revelação ponderosa” (Camilo) não deixou ela de mostrar um ar agastado. Ao recordar-lhe que a Lei de Bases do Sistema Educativo contemplava, apenas, a atribuição dessa docência a diplomas universitários, sem se dar por achada, retorquiu: “Mas a lei muda-se de um dia para o outro!”

Sabia do que falava. Numa segunda alteração à Lei de Bases do Sistema Educativo, Lei n.º 49/2005, de 30 de Agosto, sendo Valter Lemos, antigo professor da Escola Superior de Educação de Castelo Branco, secretário de Estado da Educação, foi estabelecido no respectivo ponto 3, do artigo 34.º, do respectivo anexo: “A formação de educadores de infância e dos professores dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico realiza-se em escolas superiores de educação e em estabelecimentos de ensino universitário”. Com esta promiscuidade formativa, através de faculdades e de escolas superiores de educação, corre-se o risco da universidade vir a diminuir a exigência do respectivo ensino para evitar que os seus alunos sejam preteridos por alunos saídos das escolas superiores de educação nos concursos para a docência em que conta a classificação final de curso.

A factura desta eventual baixa de qualidade na formação dos professores saídos das faculdades será paga por um país que parece conviver bem com a mediocridade do ensino fomentando-a, até, para além da própria decência, com passagens até ao 9.º ano de escolaridade, com finalidades meramente estatísticas de uma qualidade que não existe perante a apatia da própria opinião pública porque, como escreveu Simone de Beauvoir, “o mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”.

Sendo ministra da Educação Isabel Alçada e presidente do Conselho Nacional de Educação Ana Maria Bettencourt, as duas professoras das Escolas Superiores de Educação, respectivamente, de Lisboa e de Setúbal, difícil me parece que consigam subtrair-se ao fascínio de serem juízes em causa própria, tornando, assim, possível que a preparação dos professores do ensino secundário seja realizada, também ela, em escolas superiores de educação, desvirtuando, com isso e uma vez mais, o princípio legal que presidiu à criação dessas escolas: formarem educadores de infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico detentores do diploma académico de bacharel. Trata-se apenas de uma questão de marés!

Cérebros, mulheres giras e cerveja barata


Artigo de opinião de David Marçal, publicado no "Público" de hoje:

Segundo um artigo recente publicado noutro jornal, os motivos apontados por dez investigadores estrangeiros para trabalharem em Portugal são a praia, a comida, as mulheres giras e a cerveja barata. E, de acordo com vários relatórios de organizações internacionais, Portugal é também o país europeu que mais exporta recursos humanos qualificados, o que faz supor que os portugueses só dão o devido valor a estas coisas quando se vêem a apanhar chuva na pinha e a pagar cinco euros por uma pint nalgum sítio onde as suas competências sejam valorizadas.

Que prevê o programa do actual Governo para a ciência? Cerveja grátis para investigadores? Não. O Governo propõe-se "a renovar e reforçar o Compromisso com a Ciência". Define metas quantitativas (aumentar o número de doutorados, patentes, o investimento público e privado em investigação), faz referência à necessidade de Portugal integrar as redes internacionais de conhecimento e de grandes infra-estruturas científicas. Promete ainda melhorar as condições fiscais para quem contratar doutorados, medida que não é novidade mas que me inspira alguma preocupação: a ideia de que a contratação de doutores pelas empresas tem que ser apoiada é um pouco como um médico que receita morfina: temos que estar mesmo muito mal. Mas, sem brincadeiras, a proposta que me parece mais interessante é esta:

"Será ainda garantido, a todos os investigadores doutorados, um regime de protecção social idêntico ao dos restantes trabalhadores, incluindo os actuais bolseiros, assegurando-se, ainda, o cumprimento integral, em Portugal, das recomendações europeias relativas às carreiras dos investigadores e às suas condições de mobilidade."

Esperemos que cumpra rapidamente. É uma vergonha que tantos investigadores estejam abrangidos pelo Seguro Social Voluntário, o mesmo sistema de protecção social das donas de casa, e não pela segurança social igual para todos. Isto na prática equivale a prestações para a Segurança Social pelo valor do salário mínimo (com as devidas consequências no valor das prestações em caso de necessidade e na reforma) e ausência de subsídio de desemprego. Os bolseiros são uma fatia de leão, tanto em número como em importância para o sistema científico nacional. O que aconteceria aos grupos de investigação que ganham prémios e fazem notícias nos jornais se dispensassem os bolseiros? Perguntem-lhes.

É válida a meta apresentada pelo Governo de aumentar o número de investigadores. Mas esperemos que isso não continue a ser feito à custa da precariedade dos bolseiros. Sai muito mais em conta um bolseiro de investigação que ganha uma miséria (as bolsas não são actualizadas desde 2002, o que representa uma perda de 18% do poder de compra face à inflação acumulada), que recebe apenas 12 meses por ano, que custa 83,84? em segurança social por mês (independentemente do valor da bolsa) e que não dá chatices com subsídio de desemprego. Este tem sido o milagre da multiplicação de cérebros.

Registo como positivo o programa que na anterior legislatura permitiu a contratação de 1000 investigadores doutorados para institutos e universidades públicas. Os contratos de trabalho devem tendencialmente substituir as bolsas, pelo menos no caso dos investigadores doutorados, por isso esperemos (tal como consta do programa do Governo) que continue. Mas isto não invalida que as condições dos bolseiros não tenham que melhorar. Senão, perpetua-se uma espécie de sistema de castas, em que alguns felizardos conseguem saltar para o outro lado, assemelhando-se a carreira de investigação em Portugal ao filme Slumdog Millionaire.

Não ignoro que Portugal é um país que tem um PIB per capita muito inferior ao de outros países europeus e que não poderá de um momento para o outro oferecer aos investigadores as mesmas condições, pelo que teremos que continuar a contar com a ajuda do clima, da gastronomia, do sex appeal dos portugueses e da cerveja barata para fixar cérebros. Mas integrar os bolseiros no Regime Geral de Segurança Social (e julgo que deveriam ser todos e não apenas os doutorados) é o mínimo. Esperemos que isto aconteça em breve. E que a crise, o salvamento do sistema financeiro irresponsável, o défice ou qualquer outra perna de pau não sirva de desculpa para protelar indefinidamente esta medida.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Abuso discursivo

Ao ler o texto de Carlos Fiolhais, lembrei-me dos "quatro ingredientes" que Alan Sokal e Jean Bricmont dizem constituir, quando devidamente reunidos, o abuso discursivo no campo da ciência.

Para se perceber melhor o dito abuso, os autores dão o seguinte exemplo:


“Este diagrama [a tira de Möbius] pode ser considerado a base de uma espécie de inscrição essencial à origem no nó que constitui o sujeito. Isto vai bem mais longe do que aquilo que poderia pensar-se à primeira vista, um vez que pode procurar-se o tipo de superfície capaz de receber tais inscrições. Talvez reparem que a esfera, este símbolo antigo de totalidade, não é apropriada. Um toro, uma garrafa de Klein, uma superfície de corte cruzado, são capazes de receber tal corte. E esta diversidade é muito importante porque explica muitas coisa sobre a estrutura da doença mental. Se o sujeito pode ser simbolizado por este corte fundamental, também pode mostrar-se que um corte num toro corresponde ao sujeito nevrótico e numa superfície de corte cruzado a outra espécie de doença mental” (Lacan, 1970, 192-193).

Notas:
- A tira de Möbius é uma superfície só com uma face: a frente e o verso estão unidos por um caminho contínuo. Para a construir-se pega-se numa tira comprida de papel, torce-se 180 graus uma das pontas que se cola à outra ponta.
-Toro é uma superfície como a dum pneu ou duma bóia.
- A garrafa de Klein é semelhante a uma tira de Möbius mas sem aresta. Para a representar seria necessário um espaço euclidiano a quatro dimensões.
- A superfície de «capuz» cruzado, no texto escrito «corte cruzado» [cross-cut], provavelmente por um erro de transcrição, é um outro tipo de superfície.

E os ingrediantes acima referidos são:

"1. Falar abundantemente de teorias científicas de que não se tem, na melhor das hipóteses, mais do que uma vaga ideia. Na maior parte dos casos, estes autores não fazem mais do que utilizar uma terminologia científica (ou aparentemente científica) sem grandes preocupações com o seu significado;

2. Importar noções das ciências exactas para as ciências humanas sem fornecer a menor justificação empírica ou conceptual. Um biólogo que quisesse utilizar no seu campo de investigação noções elementares de topologia (como o toro), da teoria dos conjuntos ou da geometria diferencial seria instado a fornecer algumas explicações. Aqui pelo contrário, aprende-se com Lacan que a estrutura do nevrótico é exactamente o toro [é a própria realidade! (p. 32)], com Kristeva que a linguagem poética revela da potência do contínuo (p. 49) e com Baudrillard que as guerras modernas se desenvolvem num espaço não euclidiano (p. 145), tudo sem explicação;

3. Exibir uma erudição superficial, lançando sem vergonha palavras eruditas à cara do leitor num contexto em que não têm qualquer pertinência. O objectivo é impressionar e, sobretudo, intimidar o leitor sem formação científica (…).

4. Manipular frases desprovidas de qualquer sentido e dedicar-se a jogos de linguagem. Trata-se de uma verdadeira intoxicação de palavras associada a uma diferença alucinante pelo seu significado.”

Referência bibliografica: Sokal, A. & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais. Lisboa: Gradiva.

Poemas à Maneira de Anacreonte

Anacreontea. Poemas à Maneira de Anacreonte, é o mais recente livro da colecção Fluir Perene.

Anacreonte terá nascido no sécúlo VI a.C. e morrido quando o século seguinte chegava quase a meio. De Teos, a sua cidade natal, partiu e conheceu muito mundo - Trácia, Samos, Atenas, Tessália... -, o que lhe proporcionou um conhecimento aprofundado da natureza humana, com fraquezas e grandezas, com vícios e virtudes.

A sua obra literária, vasta e diversificada (ainda que ao presente só nos tenha chegado uma pequena pequena ), influenciou inúmeros poetas que procuraram segui-lhe o estilo, o estilo Anacreonte.

Neste livro, resultado da escolha e tradução de Carlos Martins de Jesus, com prefácio de Frederico Lourenço, pode o leitor desfrutar de poemas em edição bilingue (grego e português) que decorreram da inspiração neste Mestre Grego. Eis um belo exemplo:

Dá-me a lira de Homero,
mas sem a corda assassina.
Traz-me taças de preceitos,
traz-mas com leis misturadas,
para que ébrio possa dançar,
tomado por consciente loucura
e, cantando ao som das liras,
a canção de mesa eu entoe.
Dá-me a lira de Homero,
mas sem a corda assassina.


O livro poderá ser lido aqui, apesar de se poder adquirir em formato de papel no Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Coimbra, ou encomendado pelos contactos disponíveis aqui.

Imagem que é capa do livro: Venus Anadyomène (1848) de Jean August Dominique Ingres

VACUIDADES SOBRE O MAGALHÃES

Há cerca de um ano e porque me foi perguntado respondi, num encontro de inspectores de ensino, que o computador Magalhães não passava de uma manobra de propaganda e de um grande negócio. Todas as revelações feitas nos últimos tempos sobre o negócio têm-me, infelizmente, dado razão.

O ex-ministro Mário Lino, no programa "Quadratura do Círculo" da SIC bem tentou fazer a indefensável defesa do Magalhães para consumo interno, mas agora é a União Europeia que está a esmiuçar o caso por terem sido violadas normas comunitárias.

Foi, por isso, com natural curiosidade que, alertado pelo título "O Magalhães não é apenas um concurso", comecei a ler um artigo de Francisco Jaime Quesado, Gestor do Programa Operacional Sociedade do Conhecimento, publicado no jornal "Público" de 19-12-2009. A minha desilusão foi enorme. O artigo era um emaranhado de lugares comuns, disfarçados em "economês" que, tal como o "eduquês", é declarado inimigo do pensamento claro.

Diz o articulista: "O Magalhães constituiu um passo marcante na afirmação por parte do Governo português de uma aposta estratégica na Educação como o grande driver de mudança colectiva da sociedade e recentragem no valor e competitividade como factores de distinção na economia global. Não tenhamos dúvidas." Eu, se me é permitido, tenho sérias dúvidas; lamento, mas não me convencem nem o "driver" nem a "recentragem"...

E continua: "Na "escola nova" de que o país precisa, [a Educação] tem que se ser capaz de dotar as "novas gerações" com os instrumentos de qualificação estratégica do futuro. Aliar ao domínio por excelência da tecnologia e das línguas a capacidade de, com criatividade e qualificação, conseguir continuar a manter uma "linha comportamental de justiça social e ética moral", como bem expressou recentemente Ralph Darhendorf em Oxford." Ainda se me é permitido, esta ideia da "escola nova" é muito velha e a "qualificação estratégica" é uma expressão não só gasta como vazia. E "conseguir continuar a manter" não passa de um comboio de verbos que, apesar da citação erudita, não leva a frase a estação nenhuma.

O autor, em vez de clarificar, consegue ser ainda mais confuso quando acrescenta: "Na economia global das nações, os "actores do conhecimento" têm que internalizar e desenvolver de forma efectiva práticas de articulação operativa permanente, sob pena de verem desagregada qualquer possibilidade concreta e efectiva de inserção nas redes onde se desenrolam os projectos de cariz estratégico estruturante." Registo a duplicação do "efectiva". E a insistência no "estratégico". Mas pergunto: que dicionário será preciso para perceber a frase toda?

Conclui o autor: "Por isso, a oportunidade e a importância do Magalhães. Que, para além dos efeitos ao nível da revolução na utilização das TIC como um instrumento de qualificação pedagógica, teve também o mérito de elevar na escala produtiva empresas portuguesas do sector, aumentando as exportações, consolidando dinâmicas de inovação e reforçando o emprego". Quanto à dita "qualificação pedagógica" nada está provado, pois nada foi até agora adiantado em seu abono. O que parece, outrossim, estar a ser provado é o favorecimento escandaloso de uma certa empresa com prejuízo da concorrência e, pior, dos dinheiros públicos e de todos nós.

Após uma defesa tão confusa do Magalhães, em nome de uma entusiástica fé em "amanhãs que cantam" graças a "novas tecnologias" que tornarão excelente o nosso depauperado ensino, continuo à espera de argumentos pedagógico-científicos que sustentem a distribuição a esmo e a pataco de computadores pelos infantes do 1.º ciclo, em detrimento de outros projectos como, por exemplo, o ensino experimental das ciências no ensino básico. Fala-se muito em avaliação. Não haverá ninguém que avalie a sério o Magalhães?

PS) "Darhendorf" deve ser "Dahrendorf" se é quem eu estou a pensar, mas esse erro é o menos...

AVATAR



Já está nos cinemas um dos filmes mais aguardados de todos os tempos: "Avatar", escrito e dirigido pelo realizador canadiano James Cameron, que estudou Física na Universidade da Califórnia. Disse a sua biógrafa Rebecca Keegan recentemente ao "Los Angeles Times":
"The fact that he has this sort of equally developed two sides to his personality -- the scientist and the artist. ... [At Fullerton College] he was majoring in physics and at the point when he had to decide between the scientist and the artist. And he chose the artist. Usually people are a left brain or a right brain. ... He's as good a painter as he is a designer of cameras. ... He worked with NASA. He could hold his own in a room full of scientists. This is a guy with a couple of junior college physics classics. ... For him, science and art are equally necessary parts of what he does. In a town, Hollywood, where people get by being really good B.S.ers, he's actually incapable of it -- to a point of detriment, at times. ... He really tells you what he thinks to your face."

O CULTO DA CARGA


Minha crónica na última "Gazeta de Física" (na imagem Richard Feynman):

O físico Richard Feynman, num discurso de início do ano académico no California Institute of Technology (Caltech), em 1974, usou a expressão “cargo cult” (traduzido à letra o “culto da carga”) para designar os rituais que alguns povos primitivos de ilhas do Pacífico começaram a praticar, durante a Segunda Guerra Mundial. Eles imitavam, ainda que toscamente, os procedimentos dos militares americananos quando instalavam pistas para aterragem de aviões de carga. Os indígenas chegavam não só a arranjar pistas rudimentares a ver se também recebiam a “carga”, mas também a “fazer uma cabana de madeira para um homem se sentar lá dentro, com dois bocados de madeira na cabeça a imitar auscultadores e dois paus de bambu a imitar anternas – o controlador”. Este relato é feito no livro “Está a brincar Mr. Feynman” (Gradiva, 1988), um dos primeiros volumes da colecção Ciência Aberta e que vale sempre a pena reler. Feynman sugere uma analogia para a pseudociência: “Seguem todos os preceitos e formas aparentes da investigação científica, mas falta-lhe qualquer coisa essencial porque os aviões não aterram.”

De facto, os exemplos que podem ser dados de ciência do “culto de carga” são numerosos. Os praticantes das várias formas de pseudo-ciência, umas mais grosseiras e outras mais refinadas, proliferam no mundo de hoje. Porém, ao contrário do que a caricatura indicada por Feynman dá a entender, nem sempre é fácil fazer a distinção entre ciência e pseudo-ciência, entre ciência verdadeira e ciência da treta. É decerto mais fácil nas chamadas ciências exactas como a física e a química, onde a eventual fraude acaba relativamente cedo por ser detectada acarretando a morte científica do respectivo autor, mas é mais difícil em ciências humanas, como a psicologia e as ciências da educação, onde não raro acontece que a morte física do autor precede a respectiva morte científica. As chamadas ciências naturais, em particular as ciências biomédicas, onde hoje trabalha uma enorme comunidade de investigadores, constituem um vasto terreno intermédio (ver sobre medicina e farmácia o livro de Ben Goldrace “Ciência da Treta”, saído há pouco na Bizâncio).

O famoso caso da fusão fria, ocorrido há uma década quando os químicos Martin Fleischmann and Stanley Pons anunciaram que tinham conseguido produzir fusão nuclear numa simples experiência de electrólise de água pesada com um eléctrodo de paládio, é paradigmático do destino impiedoso que têm, em ciências físico-químicas, as ideias que não são comprovadas por outros de uma forma clara, sistemática e, por isso, conclusiva. Fleischmann e Pons estão hoje desaparecidos de cena. Feynman bem tinha avisado: “Aprendemos com a experiência que a verdade acabará por aparecer. Outros experimentadores repetirão a nossa experiência para descobrir se estávamos certos ou errados. Os fenómenos naturais irão estar de acordo ou em desacordo com a nossa teoria. E, embora possamos ganhar alguma fama e excitação temporárias, não adquiriremos uma boa reputação como cientistas se não tentarmos ser muito cuidadosos”.

No campo das ciências humanas, a área do ensino das ciências deve particularmente preocupar os cientistas. Aí o método científico tem, sem dúvida, uma aplicabilidade mais restrita. Os sistemas são mais complexos e a incerteza é maior. Mas é significativo que o “American Journal of Physics”, com um sistema de “peer review” muito apertado, publique cada vez mais artigos sobre educação científica. E que haja em “open access”, com o rigor que é apanágio da “Physical Review”, a revista “Physical Review Special Topics - Physics Education Research”. Quero ser optimista: a ciência do “culto da carga” está, nas ciências de educação, sob ameaça.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Certamen Horatianum - Maio de 2010

Nos últimos anos, tive a oportunidade de acompanhar os melhores alunos das minhas turmas de Latim a Itália, a competições - aí intitulados de «certamina» - que relembram através de concursos internacionais, simpósios e manifestações culturais e turísticas várias, autores clássicos de inegável pendor na cultura ocidental. Assim, participámos no Certamen Ciceronianum, no Certamen Ovidianum, e no Certamen Horatianum, que se desenrolam na terra natal de cada autor, Arpino, Sulmona e Venosa, respectivamente.

Estas participações foram uma experiência inesquecível a nível pessoal: a verificação das centenas de jovens que, vocacionados para áreas científicas, continuam a estudar com afinco e interesse os autores clássicos, a clarificação de pressupostos educativos que os outros países consolidam nesta área, a par com a surpresa que as várias delegações mostram ao verem-nos chegar –pois Portugal não tem participado nas últimas décadas- fizeram-nos prosseguir. Os alunos viveram com entusiasmo e participaram activamente em todos os momentos destas competições, e fundamentalmente, foram um motivo de maior e melhor estudo das matérias que leccionávamos, ao longo dos últimos anos.
De facto, os dois anos que estudam Latim não são suficientes para os objectivos traçados pela organização destas competições, pelo que esta participação obrigou a um aprofundamento do conhecimento dos autores, bem como da exercitação de tradução. E estes mostraram-se muito benéficos na formação académica e humana destes alunos e das turmas em que se inseriam.

Este ano, lamentavelmente, a minha escola já não teve alunos de Latim em número suficiente para abrir turma, depois de uma década intensa de trabalho nesta área.

Em Maio de 2010, repetir-se-á pelo 24.º ano consecutivo a competição em honra de Quinto Horácio Flacco e será, aliás, Portugal a descrever a sua experiência na revista que Venosa edita anualmente a este propósito. Neste momento, contactam-nos de Venosa, pessoalmente, interessados na participação portuguesa e na divulgação do concurso, pelo que deixo aqui um repto aos nossos leitores para que divulguem esta competição junto das escolas secundárias e que encontrem aqui motivo de uma nova dinâmica através de algumas participações. Nestas vejo o interesse pessoal dos alunos e, de um modo mais alargado, da educação em Portugal.

Aqui e aqui ficam as páginas relativas a estas competições, onde poderão ser consultados o regulamentos e as condições de participação.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Celebrar o Natal com pinguins no Museu da Ciência

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, que passamos a divulgar.

Neste Natal as férias no Chimico são passadas a conversar e estudar pinguins com o biólogo português que mais tempo passou entre eles. José Xavier realizou varias expedições à Antártica, tendo regressado recentemente da mais longa de todas: uma permanência de 9 meses entre albatrozes e pinguins.

Sabes o que está a acontecer ao nosso planeta sempre que o buraco de ozono aumenta? Estas FÉRIAS NO CHIMICO convidamos-te para uma viagem até à Antárctica para poderes conhecer como o comportamento dos pinguins e albatrozes está a mudar devido às alterações climáticas.No dia 22 de Dezembro, o Museu da Ciência vai receber José Xavier, um jovem investigador que se apaixonou por esta região do planeta e que estará no museu para te contar o que tem estudado nestes últimos anos. Saber mais sobre o seu trabalho aqui.

Dias 22, 23, 29, 30 e 31 de Dezembro

10H00 13H00 (5-7 anos)
14H30 17H30 (8-12 anos)

Para mais informações consultar a página do Museu da Ciência ou directamente aqui.

Mendel esquecido por Darwin?

Há um mito urbano amplamente difundido de que Darwin teria na sua biblioteca uma separata do artigo de Mendel Versuche uber Pflanzenhybriden (experiências em hibridização de plantas), publicado em 1865, nos Proceedings da Sociedade de História Natural de Brno, mas que optou por não o mencionar.

Um leitor do De Rerum Natura pergunta-nos se Darwin recebeu uma carta de Mendel e não lhe respondeu, e se isso teve a ver com o facto de ele não ler alemão ou com o facto de os cientistas britânicos darem pouca importância à ‘ciência alemã’.

Eu próprio li autores (por exemplo, Phillip Kitcher) segundo os quais essa cópia existia na biblioteca pessoal de Darwin, mas que este nunca a havia aberto (as separatas eram impressas em folhas grandes, que depois eram dobradas em cadernos mais pequenos – como os livros aliás – e requeriam o uso de um instrumento fundamental para o efeito: o corta-papel).

Contudo, essa afirmação não tem fundamento. Não há qualquer indício de que Darwin tenha recebido o artigo de Mendel. No catálogo da sua biblioteca, elaborado na Universidade de Cambridge, não consta qualquer volume daquela publicação, que era pouco importante na época, ou a célebre separata de Mendel. O contrário é verdade: Mendel leu e anotou a Origem das Espécies e outros trabalhos de Darwin.

A biblioteca de Darwin viajou da sua casa de Down House para a Universidade de Cambridge, quando um dos seus filhos a vendeu, tendo regressado anos mais tarde, quando a casa se tornou numa casa-museu. Poderíamos, então, admitir que a separata, existindo, se tivesse perdido.

Mas Darwin estava interessadíssimo no hibridismo em plantas e no fenómeno do vigor dos híbridos. É muito pouco provável que, se tivesse recebido a separata, não lhe tivesse dado atenção. E não há qualquer anotação de Darwin sobre a sua existência. E Darwin lia alemão, embora lentamente, e correspondia-se com cientistas alemães.

Há apenas 11 referências aos trabalhos de Mendel antes de 1900, quando foram "descobertos" por Bateson e de Vries. Darwin possuía algumas delas, como os livros de W. O. Focke e de H. Hoffmann, ambos em alemão, sobre hibridização em plantas. Contudo, quando anos mais tarde um jovem discípulo de Darwin, George Romanes, estava a preparar um artigo sobre hibridismo para a Enciclopédia Britânica e lhe escreveu a pedir ajuda, Darwin enviou-lhe o livro de Focke, dizendo-lhe que lhe seria mais útil que ele ("aid you much better than I can"). Sucede que as páginas desse livro que fazem referência ao trabalho de Mendel nunca foram cortadas por Darwin, nem por Romanes, que, portanto, não as leram.

Os interessados podem ler mais aqui.

Há um texto interessantíssimo de Steve Jones, publicado em The Guardian, sobre as preocupações de Darwin acerca das consequências da endogamia, que ele conhecia (“Nature thus tells us, in the most enphatic manner, that she abhors perpetual self-fertilization”) e as consequências que podiam ser inferidas sobre os casamentos entre parentes muito próximos, como era o seu.

Assim, Darwin nunca respondeu a Mendel porque este nunca lhe escreveu. Darwin tinha, aliás, por hábito responder a todas as cartas que lhe eram dirigidas, o que fazia metodicamente: lia-as entre as 9h30 e as 10h30 e respondia depois do almoço. Darwin mantinha uma correspondência impressionante com cientistas de todo o mundo – incluindo um jovem português, Arruda Furtado, que lhe escreveu várias cartas em francês, às quais Darwin respondeu em inglês (as cartas de Darwin a Arruda Furtado encontram-se no Museu de Ciência da Universidade de Lisboa).

Há um estudo curioso sobre a correspondência de Darwin e de Einstein realizado por João Oliveira e Albert-Lazlo Barabási, que surgiu na Nature a 27 de Outubro de 2005. Nele se mostra como os dois autores foram tão prolíficos na sua correspondência com outros cientistas ou não-cientistas. Darwin escreveu 7591 cartas e recebeu 6530. Einstein escreveu 14 500 e recebeu 16 200. Em média, Darwin escreveu 0,51 cartas por dia e Einstein 1,02. Um registo impressionante na era pré-correio electrónicol!

CYBERGOONS: THE ETHICS OF HACKING OTHER PEOPLE’S FILES.

Habitual destaque de fim de semana para a coluna "What's new" do físico Robert Park:

"If you believe in scientific openness," warming critics wrote me, "you should be pleased that the climate-gate files became public." Well, I do believe in openness. The success and credibility of science is anchored in openness; new ideas and findings must be exposed to the scrutiny of other scientists. By contrast, governments insist on the need for diplomatic and military secrecy; the result of which is perpetual warfare. But contrary to the impression conveyed by the media, the U.S., thankfully, has no official-secrets act. Conscientious government workers, willing to risk their careers by leaking classified information, may be the only check on government excesses carried out behind a screen of national security (see here ). But it was no Daniel Ellsberg who hacked the climate-gate files. The unauthorized release of e-mail files from a climate unit at the University of East Anglia had no such high-minded purpose. It has the smell of goons hired by an Exxon or a Peabody Coal."

Robert Park

Nova reforma/reorganização do Ensino Básico - 1

É quase certo que, num futuro muito próximo, o nosso Ensino Básico venha a sofrer mais uma reforma/reorganização curricular.

Há escassos dias, o designado Conselho de Escolas avançou uma proposta e a própria ministra da Educação pronunciou-se publicamente sobre o assunto no Seminário O impacto das avaliações internacionais nos sistemas educativos, promovido pelo Conselho Nacional de Educação.

A pergunta que, como sociedade, devemos fazer é se faz sentido avançar com uma reforma/ reorganização curricular para os três primeiros ciclos de escolaridade, tendo em conta que a que está em vigor foi publicada há menos de uma década, em 2001, e que só recentemente foram homologadas as reformulações dos programa de Matemática (2007) e de Português/Língua Portuguesa (2009)?

Penso que sim, que faz sentido, se tivermos em conta que o currículo vigente não tem produzido resultados académicos comparáveis ao de outros países ocidentais. Pelo contrário, os estudos de avaliação internacional e alguns de avaliação nacional dignos de crédito dão-nos a perceber um cenário cada vez mais preocupante, do qual o Ministério da Educação poderá estar consciente.

E isto acontece apesar dos esforços que têm sido empreendidos ao nível da formação contínua de professores nas áreas consideradas críticas (Matemática, Língua Portuguesa e Ciências Experimentais) e dos novos programas, ao nível do Plano da Matemática (que inclui diversas vertentes), ao nível da introdução das Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação nas escolas, ao nível da implementação de Áreas Curriculares não Disciplinares (como o Estudo Acompanhado, que procura desenvolver competências de aprendizagem autónoma) e de Actividades de Enriquecimento Curricular (como as de Apoio ao Estudo, destinada à realização trabalhos de casa e de consolidação das aprendizagens com acompanhamento), etc.

Contudo há uma questão incontornável, decorrente desta afirmação: em que aspectos se deve centrar essa reforma/reorganização?

Do que li até ao momento os aspectos que a tutela se propõe alterar são os seguintes:

- Número de áreas curriculares para se conseguir uma maior articulação entre elas. Não percebi se essa alteração vai no sentido de introduzir novas áreas ou para reduzir as já existentes ou, ainda, para esbater fronteiras entre elas, como sugere o Conselho de Escolas.

- Número de horas lectivas. Não percebi se essa alteração vai no sentido de preencher mais o horário dos alunos ou de o reduzir; de estabelecer claramente tempos de trabalho e lúdicos, necessidade absoluta dado o conceito de "escola a tempo inteiro" que temos instalado.

- As competências básicas, que além de se centrarem na Leitura, Escrita, Matemática e Ciências, devem centrar-se também nas Tecnologias de Informação e Comunicação. Não percebi se essa alteração (que não é inovadora, uma vez que consta na anterior reorganização curricular e no Plano Tecnológico para a educação da anterior legislatura) continua a secundarizar os conteúdos.

- O estabelecimento metas de competências para cada ano de escolaridade. E não apenas competências (gerais e transversais) para o Ensino Básico, e competências específicas de final de ciclo para cada área curricular disciplinar, como se preconiza no presente currículo.

O "ANNUS MIRABILIS" DO JAZZ


Texto do físico José António Paixão, publicado na revista "Anti-Matéria" dos estudantes de Física da Universidade de Coimbra:

Celebra-se em 2009 a passagem de 50 anos sobre aquele que é, talvez, o ano mais produtivo da história do jazz - 1959 -, verdadeiro “annus mirabilis”, onde vieram a lume trabalhos que marcariam o rumo do jazz na segunda metade do século XX. Podemos até estabelecer um paralelo na história da Física com o ano de 1905, em que Albert Einstein publicou os seus trabalhos seminais, e cujo centenário foi amplamente celebrado por todo o mundo em 2005 como “Ano Mundial da Física”.

Exemplifiquemos com algumas das obras mais importantes desse ano.

Kind of Blue, do primeiro quinteto de Miles Davis é, consensualmente um dos melhores – senão o melhor – disco de jazz de todos os tempos. Num estilo modal, o disco que se inicia com o inolvidável “So what” foi inovador e inspirador para sucessivas gerações de músicos, não só da música improvisada mas também de outros estilos musicais. Este LP é hoje quádrupla platina e o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.

The shape of Jazz to come, de Ornette Coleman, justificou plenamente o título, abrindo as portas a um novo estilo na música improvisada em que as harmonias clássicas são abandonadas em favor de uma forma mais livre, conhecida, precisamente, por free jazz. Sem o suporte de um instrumento harmónico como o piano, Ornette fazia-se acompanhar apenas pelo trompete de Don Cherry, o contrabaixo de Charlie Haden, e a bateria de Billy Higgins. Arbert Ayler, Archie Shepp ou o contemporâneo John Zorn, vierem beber deste novo estilo que surpreendeu, em 1959, o mundo do jazz.

Mingus Ah Um é um dos trabalhos fundamentais de Charles Mingus, onde o génio deste contrabaixista e compositor está bem patente em temas inolvidáveis como Better Git It In Your Soul, Fables of Faubus e Goodbye Pork Pie Hat, este último dedicado à memória do saxofonista Lester Young que faleceu nesse ano.

Giant steps,
de John Coltrane, é outro marco importante na história do Jazz e na forma de tocar saxofone. As estruturas harmónicas complexas de composições como “Giant steps” e “Countdown” e o ritmo frenético com que eram executadas pelo “mestre” apontavam já o novo rumo de Coltrane na direcção de uma estética free, característica dos seus últimos trabalhos.

Time out, do quarteto de Dave Brubeck, foi um estrondoso sucesso comercial vindo da West Coast – Brubeck foi capa da Time com este disco – devido em grande medida aos inusitados tempos das composições, como o compasso 5/4 do tema Take Five, e aos solos arrebatadores do saxofonista alto Paul Desmond.

Portrait in Jazz
, do trio do pianista Bill Evans, que contava com o malogrado contrabaixista Scott LaFaro (viria a falecer aos 25 anos de idade, em 1961, num acidente de automóvel) e o baterista Paul Motion, apontou para um renovado rumo do trio clássico de piano, contrabaixo e bateria. A empatia entre os membros do trio de Bill Evans é fantástica e a o seu legado influenciou decisivamente grupos como os trios de Keith Jarrett, Brad Meldhau e Esbjörn Svensson.

Boa escuta!

José António Paixão

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A matemática da arte

"I am interested in Persian geometric art and its historical methods of construction,
which I explore using the computer software Geometer's Sketchpad.
I then create digital artworks from these geometric constructions primarily using
the computer software PaintShopPro."
Reza Sarhangi.

Reza Sarhangi (na imagem) é professor no Departamento de Matemática da Universidade de Towson, Maryland, e interessa-se pela relação que, desde há longa data, a matemática estabelece com a arte.

É responsável por uma organização que se dedica a explorar essas relações e que se designa por Bridges, que se pode conhecer aqui.

Esta organização, que surgiu há 11 anos nos Texas, tem colaboradores de inúmeras nacionalidades, que se reúnem, todos os anos, em várias partes do mundo - Estados Unidos, Canadá, Europa, México. A reunião, de 2011 terá lugar em Coimbra.
As obras apresentadas são reunidas em livro, podendo também ser consultadas on-line.

Ontem, Reza Sarhangi, cujo trabalho pode ser visto aqui, fez uma palestra no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, intitulada A Arte e a Matemática dos Polígonos Estrelados, na qual, além de revisitar polígonos criados em diversas civilizações - babilónica, grega, africana, etc. -, em diferentes tempos - antiguidade, renascença, contemporaneidade - e por pessoas geniais - como da Vinci, Gauss, Escher, etc. -, centrou-se nas potencialidades gráficas dos computadores mais modernos para produzir novos modelos.

A desmontagem que fez de diversos polígonos e a sua reconstrução deixou no ar a beleza da invenção de que, como humanos, somos capazes, quando persistimos em saber mais...

Cientista com cruz gamada


Com a amável autorização do autor Hélder Costa, publicamos um pequeno excerto da peça As peúgas de Einstein que foi recentemente levada à cena no Brasil e que em Portugal está por estrear (na foto o físico alemão Philippe von Lenard, 1862-1947, prémio Nobel da Física de 1905 e defensor activo da ideologia nazi):

"(Cientista com cruz gamada no braço, brandindo papéis)

Lenard – (senta-se no banco)
Eu, Philippe von Lenard, declaro que Einstein é o rei dos judeus vigaristas, é o símbolo da mentira dessa raça sub-humana. A teoria da relatividade é mais uma falsificação judia! Temos de esmagar e destruir essa gente, esses traidores da filosofia e da ciência da grande Alemanha. Temos de os expulsar da nossa santa Pátria. Rua da Alemanha! Fora da Alemanha!
(Levanta-se, fica à frente do banco) Os estudantes judeus não podem entrar nas nossas universidades. Os professores judeus deixam de ter alunos. Rua da Alemanha! Se a estupidez e a teimosia judia não os fizerem desistir, trancaremos as suas salas de aula com cadeados. Morte a essa raça indigna! (sai) (Palmas amplificadas com som)
(Música expressionista)

(Einstein, Elsa e Max Planck)

Einstein (circula) – O saber e a Ciência na mão dos nazis! Como é possivel!?

Elsa – (entra e leva banco do centro de cena para a mesa) Albert, mein Liebe, não te preocupes com Lenard e com os seus amigos. (Tira pacotes de cartas de um saco). Olha o teu correio. Vem de toda a parte do mundo, felicitam-te, pedem-te conselhos e fotos autografadas.

Einstein - Katherine Hepburn, Picasso, Bette Davis... Charlie Chaplin...

Elsa - Nem uma estrela de cinema tem tanta adoração.

Einstein - Não me queiras comparar com a Marlene Dietrich.

Elsa – Acho que tu és mais bonito.

Einstein - Pois , pois, tudo é relativo… (beijam-se)

Sem ruído surge Max Planck)

Elsa - Max!

Einstein - Max Planck, meu grande amigo e mestre! Em minha casa! Cuidado, eu sou judeu.

M. Planck – Albert, eu acho que o problema que existe consigo se deve à sua constante intervenção politica. Faça o seu trabalho cientifico e deixe esses assuntos para outra gente.

Einstein - Eu não acho que o cientista deva ficar em silêncio perante a política, perante a vida, perante os problemas do dia a dia. Eu não me arrependo de uma única palavra e estou convicto de que as minhas acções servem a humanidade.

M. Planck – O nazismo está a avançar em força. Mataram o seu amigo íntimo, o Walter Rathenau.

Einstein - Sim, e também mataram o Walter, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha. Estão a apontar muito alto. Matam e ficam impunes. Pobre Alemanha! Eu gosto do trabalho científico que estamos a realizar. Ficarei em Berlim até ao último instante."

Hélder Costa

“As peúgas de Einstein”, de Hélder Costa

Com a devida vénia, transcrevemos do jornal O POVO FORTALEZA a crítica do sociólogo Daniel Lins à peça "As peúgas de Einstein" que aí recentemente foi levada à cena, assinalando os 90 anos da observação no Brasil do eclipse solar que tornou Einstein famoso (na foto Einstein e Chaplin, 1931).

"Hélder Costa, um ícone da dramaturgia européia é líder de ação teatral, A Barraca, por ele fundada, em Lisboa, desde sua volta do exílio, após a “Revolução dos Cravos”, em abril de 1975! Autor de 50 peças, presente em inúmeros festivais da Europa, inclusive das programadas no Théâtre St-Gervais, de Genebra, para temporada 2010, respectivamente: “Meu drama é meu dream”, e “Obviamente Demito-o”.

Privilegiadas, Sobral e Fortaleza tiveram a ocasião de assistir “As Peúgas de Einstein”, sob a direção de Hélder Costa e assistência de Yuri Yamamoto, respectivamente nos teatros de São José e Centro Dragão do Mar. Cabe louvar o apoio do Governo do Estado do Ceará, desta feita a um acontecimento cultural de rara qualidade, tanto em seu aspecto propriamente textual e dramático quanto em sua força política, histórica. Neste sentido, a obra deveria circular em todo o Estado: teatros, escolas, prisões, universidades, Assembléia Legislativa, bairros de todos os segmentos sociais etc.

Afora a biografia multifacetada de gênio, optou-se por uma cartografia que tem como alvo Einstein em movimento, em erupção num universo encantador e cruel: o século XX!

Cientista, esteta, ele não nos carrega em seus braços; envolvido no turbilhão da história, complexa e perturbadora, leva-nos com ele. São diversos encontros. E ninguém sai ileso de tantas emoções! Algumas doces, outras terríveis, mas que instigam o espectador a se perguntar: o humano não é a face oculta do horror? Hitler e sua arquitetura da destruição, ou ainda os humilhados, os perseguidos do Mac Carthysmo. E claro, Charles Chaplin, cujo ator rouba a cena, tornando-a obs-cena, fora da cena.

Diante dos horrores da guerra, dos sistemas ditatoriais ou déspotas que marcaram o século XX: as sátiras e comédias políticas, o riso e a emoção, as lembranças dos bons encontros, em detrimento da violência política nua, crua definem a escolha de uma dramaturgia, que acolhe as diferenças como vontade de potência, sem comum medida com a melancolia aguda presente em nossos poros e sonhos.

A obra propõe, pois, uma visita guiada por Einstein através das incríveis invenções do século XX, recheado de linhas de fuga artísticas: arte, resistência. O despertar do cinema, o surrealismo. A ebulição filosófica, uma espécie de Renascimento das letras e das ciências, das margens e dos anarquismos desejantes, amores e paixões, corpos e sensualidades, como reação à barbárie cantam e celebram a vida.

O diretor escolheu relatar uma história enlutada, sem ressentimento niilista daqueles que não agem, mas reagem! A reação é reacionária. Agir é reinventar devires. A presença do humor é um bálsamo, e o elenco (O Grupo Bagaceira) afinadíssimo, cria uma dramaturgia sem concessão, habitada, todavia, pelos afetos e cuidados, flutuando entre coração e o cérebro,o que enche a cena de jubilação, de saber com sabor! O uso da comédia, afora as ideologias, alcança sua função maior: divertir, comover.

Ao atenuar a memória das marcas, mediante o riso e o humor, delicadamente dirigidos, a obra aviva os espíritos revitalizando-os para um aquecimento ativo, para a invenção de mundos possíveis, sem cair na denegação dos horrores, nem tornar a história, uma estória.

É de extrema beleza o encontro de Chaplin (Tempos Modernos) com sua companheira, com quem caminha em direção a um horizonte múltiplo, fascinante porque desconhecido. Comoção e blocos de afetos guiam a irresponsabilidade do espírito habitado pela vontade sempre de amar, combater, viver.

Momento raro na dramaturgia brasileira!"

Daniel Lins

O FUTURO EM COPENHAGA


Meu artigo no "Sol" de hoje:

Esta semana, em Copenhaga, está em jogo o futuro do clima da Terra. No seguimento do Tratado de Quioto, procura-se um novo acordo internacional que possa travar o fenómeno do aquecimento global que, tudo leva a crer, é consequência em larga medida da actividade humana. De facto, na comunidade científica, com base em numerosos e variados dados da observação, existe, hoje, um amplo consenso tanto sobre o aumento do efeito de estufa na atmosfera terrestre como sobre a predominância da sua origem artificial.

Tal não significa que não haja nas conclusões científicas correntes uma certa dose de incerteza – o nosso planeta é um sistema extremamente complexo - e que não persista, entre os cientistas, alguma controvérsia – alguns deles, poucos, não subscrevem a tese da responsabilidade humana pelo aquecimento. Essas divergências, apesar de poderem perturbar o grande público, devem ser encaradas com naturalidade, pois faz parte do método científico a busca activa do erro. É bom que se semeie a dúvida em afirmações que parecem sólidas. Os chamados “negacionistas”, cuja visibilidade foi recentemente ampliada graças à divulgação de mensagens roubadas aos computadores de uma universidade britânica (o “climategate”), em vez de contrariar a ciência estão, afinal, a prestar-lhe um bom serviço. À medida que a discussão avança, a luz vai nascendo, isto é, a ciência vai fazendo o seu caminho.

Os políticos, a quem compete a celebração de um acordo, fazem bem em servir-se das informações e dos conselhos fornecidos pela maioria dos especialistas, cuja voz é amplificada pelas sociedades e outras organizações científicas. Que não haja ilusões: são poderosos os interesses político-económicos em jogo. Mas essa circunstância só reforça a necessidade de boa ciência, de ciência íntegra e independente, fundada na avaliação dos pares. Foi com base nessa ciência que se efectuou o diagnóstico e a posologia do buraco da camada de ozono. O Tratado de Montreal que produziu uma solução para este problema é um excelente exemplo para Copenhaga.

LIVROS PARA O SAPATINHO


Minha crónica no "Público" de hoje:

Como estamos no Natal, sugiro uma mão cheia de livros recentes para pôr no sapatinho (a ordem é alfabética do autor):

- Umberto Eco, "A Vertigem das Listas", Difel. O famoso professor e escritor da Universidade de Bolonha, pouco depois de ter publicado entre nós um livro em defesa dos livros no qual refere os morcegos da Biblioteca Joanina ("A Obsessão do Fogo", com Jean-Claude Carrière, Difel), regala-nos com esta obra ilustrada sobre listas. O estilo é claramente "Eco" e a apresentação segue a linha estética da "História do Belo" e da "História do Feio".

- Ben Goldacre, “Ciência da Treta”, Bizâncio. A pseudociência na área das ciências da saúde – desde milagrosas desintoxicações até aos supostos perigos das vacinas, passando pela homeopatia e outras curandices sortidas - é desmascarada por um médico inglês que conhece bem o método científico e não tem papas na língua a declarar onde ele está ausente.

- Luísa Costa Gomes,”Ilusão (ou o que quiserem)”, D. Quixote. Um romance que retrata um país e um tempo onde a escola parece sem rumo. Veja-se, por exemplo, este trecho em que Jorge trava o seguinte diálogo com a sua mulher, a “sotôra” Teresinha, professora de Português: «O ensino tem de ser centrado no aluno!», ajudei. «Não vês que é exactamente o que estou a fazer? E disse à Jessica: «Fazes uma composição como se estivesses a escrever mensagens aos teus amigos. Experimenta. E ela aceitou o desafio.» A Teresinha estende-me então meia folha, mal rasgada ao meio e muito amarrotada: «k ir ao c kumersial? tou tesa! vi la uma caia bué! bora ao kafe! ta de xuva! Tns money? O kajo tb vai! e ka um pao! k tu! kto custa? k? a caia! cei la! m e pra saber, fdse! tnsmoney? não! atao nao da.» «É um princípio», disse eu (...). Depois de uma negociação interessante, comprometeu-se a ler os bilhetes de autocarro e os menus do McDonald. São coisas da vida de todos os dias e afinal nós estamos a educar para a vida."

- David Landes, “A Revolução no Tempo”, Gradiva. Do economista de Harvard autor de “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, outra grande obra, que é uma verdadeira história cultural do tempo e dos relógios, portanto, uma história da civilização. No Cap. 3 conta como os jesuítas introduziram, no século XVI, relógios mecânicos na China, entrando por Macau.

- A. E. Maia do Amaral (organização), "Tesouros da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra", Imprensa da Universidade de Coimbra. Volume ricamente ilustrado sobre a mais antiga das bibliotecas portuguesas, para o qual escrevi o prefácio. Apresentam-se os seus espaços e o seu recheio, que para muitos será surpreendente: manuscritos iluminados, tipografia quatrocentista e quinhentista, espólios literários e científicos, fundos musicais, imprensa periódica portuguesa, imagem fotográfica, marcas bibliográficas, etc. É uma óptima prenda de Natal!

- Rui Ramos (coordenador) com Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, "História de Portugal", Esfera dos Livros. Uma nova história de Portugal num só volume, escrita por historiadores da nova geração. À medida que o tempo passa, a história surge naturalmente com novos olhos e esta é, por isso, uma síntese necessária e útil. Fundamental para entrarmos prevenidos no futuro.

- Jorge Reis-Sá e Rui Lage (organização), “Poemas Portugueses. Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI”, Porto Editora. Somos um país de poetas? Esta antologia de poesia portuguesa com 2152 páginas, organizada por ordem cronológica do nascimento dos autores, desde o Pai Soares de Taveirós, trovador do início do século XIII, até Luís Quintais, o antropólogo-poeta contemporâneo, dá a entender que sim.

- Maria Helena da Rocha Pereira (coordenação e tradução), "Hélade. Antologia da Cultura Grega", Guimarães. Um livro actual apesar de a primeira edição remontar aos 50. Da responsabilidade da mais consagrada das nossas classicistas, trata-se de um clássico da cultura nacional. Esta é uma nova edição do prelo da renovada editora Guimarães.

Boas leituras em 2010!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Homer Evolution

Em final do ano Darwin e quando a família mais amarela do mundo faz vinte anos de existência, sem que a idade passe por ela, aqui se deixa ao leitor a verdadeira história da evolução do homem que todos tratam por Homer Jay Simpson.

A propósito do sismo de hoje...

A propósito do sismo desta madrugada, relembro um pequeno excerto de uma interessante comunicação de Rómulo de Carvalho apresentada à Classe de Ciências da Academia das Ciências de Lisboa, na sessão de 29 de Outubro de 1987, intitulando-se «Interpretações dadas, na época, às causas do terramoto de 1 de Novembro de 1755»:

«Em 1 de Novembro de 1755, pelas nove horas e três quartos da manhã, começaram a sentir os habitantes de Lisboa, com espanto e angústia, que o chão lhes tremia por debaixo dos pés . O tremor fora antecedido de um ruído tumultuoso que vinha do interior da terra e que, por si só, não seria assustador, de acordo com a descrição de um contemporâneo que o comparou ao «de muitos coches correndo». E acrescenta: «de modo que os que estávamos na Igreja da Senhora das Necessidades, onde os Soberanos costumão ir aos sabbados, julgámos que chegava Sua Magestade».

Em breves instantes o tremor, que se iniciara por uma sacudidela lenta, cresceu com grande intensidade. As paredes dos edifícios começaram a dar de si, a estalar, a abrir fendas e em breve se desmoronaram abatendo-se sobre as pessoas que alucinadamente fugiam de suas casas, correndo pelas ruas. Era um sábado, e dia santificado, dia de Todos-os-Santos. Por ser dia de especial devoção, e por ser de manhã, estavam as igrejas a transbordar de fiéis que assistiam às missas, o que foi causa de grande mortandade. As pedras das abóbadas dos templos, as colunas dos altares, as paredes em redor, abateram-se abruptamente sobre as pessoas desvairadas e indefesas, erguendo nuvens de poeira que sufocavam os poucos que ainda conseguiam fugir a tempo.

O abalo durou cerca de sete minutos e transformou, em tão curto tempo para tão desoladora mudança, uma cidade cheia de animação e de movimento, num montão de ruínas. Quantas pessoas teriam perecido? Muitos milhares mas não se sabe ao certo quantos.

Ao primeiro abalo, o das nove e três quartos, sucederam-se mais dois no mesmo dia, igualmente violentos, um às onze horas da manhã e outro às três da tarde, provocando novos desmoronamentos, e novas angústias , após o que abrandou a convulsão da terra embora os pequenos tremores fossem prosseguindo nos dias e nos meses que lhes sucederam.

A multidão desvairada entendeu que estaria mais segura correndo para locais descobertos, sem casas nem arruamentos, para o campo se possível, e também para a margem do rio, para a largueza do terreiro do paço real ou para a Ribeira. Tudo inútil. Aí não eram as pedras das casas que esmagavam os fugitivos mas as ondas embravecidas do Tejo que avançavam sobre a cidade e depois recuavam levando tudo atrás de si. «[...] meia hora ou pouco mais de cada num dos tremores succedeo a intumescência do mar». «Em partes fugio muito o Tejo, e o mar descobrio praias, que nunca virão o Sol. Em outras partes entrarão as agoas muito dentro da terra» . «O movimento das agoas, foi hum dos effeitos estupendos do Terremoto». «Mais de oito dias depois do primeiro de Novembro não tiverão as marés o seu curso regular».

A tamanha desgraça colectiva ainda se acrescentou a dos incêndios. As velas acesas nos altares das igrejas e nos oratórios particulares, as brasas dos fogareiros das cozinhas na habitação de cada um, facilmente pegaram fogo a panos, a roupas, a papéis sobre os quais tombavam. Logo ao primeiro abalo se seguiu imediatamente «taõ voraz incêndio que acabou por arruinar a melhor parte da Cidade, o qual principiou na mesma hora» - diz uma das testemunhas do acontecimento. A cidade ardeu «durante quatro dias» - informa outro comentador.

A movimentação do solo no decurso da memorável tragédia daquele primeiro dia de Novembro, deu-se segundo diferentes direcções, o que teria sido motivo para que o terramoto fosse mais devastador. Além de se agitar verticalmente também a terra «dava huns balanços com que a modo de embarcação», de nascente para poente e de norte para sul . São concordantes os diversos testemunhos, embora alguns dêem mais privilégio à direcção norte-sul. «A direcção dos seus movimentos» - diz um desses testemunhos - «suppõem todos de Norte a Sul. Não há dúvida, que os mayores, e de mais larga duração forão nesta direcção; e os que eu pude observar foraõ da mesma sorte; mas pessoas veridicas, e de caracter destincto, me affirmáraõ, que houve mudança nestes movimentos, que a terra também tremera do Oriente para o Poente» . Teodoro de Almeida, observador atento, é dessa opinião: «O movimento foi com balanço differente em diversos sitios de Lisboa, e de seus contornos. Em muitas partes foi o balanço de Norte a Sul, e n'outros de Poente a Nascente». O mestre oratoriano apresenta exemplos concretos, que apreciou cuidadosamente, de pormenores de edifícios que ruíram ou não, ou que sofreram deslocamentos, e até o caso de rotação sobre si mesmas de certas estátuas que ornamentavam o jardim da casa de campo do marquês de Ponte de Lima, em Mafra.

Não foi apenas na cidade de Lisboa e seus arredores que o terramoto de 1755 se fez sentir. Ele foi, segundo opinião abalizada, «o mais extenso que a sciencia assignala». O chamado, indevidamente, «terramoto de Lisboa», sentiu-se, pode dizer-se, em todo o Portugal Continental, na Espanha, no Norte de África, nas costas do Mediterrâneo, na Europa Central, na Inglaterra, na Irlanda, na Suécia, na Noruega, e até do outro lado do Atlântico. Os efeitos mais desastrosos deram-se porém no continente português, em Espanha e em Marrocos.»

Alpinismo e homossexualidade

(A propósito da proposta de lei hoje aprovada que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, recupero um texto que publiquei noutro blogue já há algum tempo sobre o tema supracitado)

George Leigh Mallory foi um exímio e destemido alpinista. Herói da I Guerra Mundial, com uma enorme experiência de escalada nos Alpes e em Gales, fez parte da expedição britânica de reconhecimento do Everest em 1921 e destacou-se num dos primeiros ataques ao cume da montanha mais alta do mundo no ano seguinte. Quando morreu, em 1924 na face norte do Everest, era sem discussão o melhor alpinista britânico do seu tempo. Ninguém desceria para contar que subiu ao cume do Everest antes de 1953 (por altura em que se propunha a estrutura em dupla hélice do ADN).

A última fotografia de George Mallory e Sandy Irvine

Expedição de 1924

Em 1999 o corpo de George Mallory foi encontrado a cerca de 8300 metros de altitude. Os alpinistas que o descobriram ficaram pasmados. As roupas eram simplesmente um amontoado de camadas de roupa quotidiana (camisa!), o material de segurança praticamente inexistente, a corda não aguentaria uma verdadeira queda (na realidade não aguentou, foi encontrada partida) e as botas em absoluto ineficazes para progressão em glaciar. Em 1924 não se poderia recorrer a uma série de "ajudas" dos tempos de hoje, como cordas fixas e uma escada colocada no second step por uma expedição chinesa nos anos 60. As vias de ascensão não eram conhecidas e não se sabia se seria possível a um ser humano sobreviver, mesmo que por breves momentos, no cume do Everest. Os sistemas de oxigénio suplementar tinham tantas fugas e eram tão pesados que suscitava debate a sua real utilidade. Não tinham como se proteger do frio, o calçado era inadequado para progredir sobre o gelo ou neve dura, as cordas partiam e não sabiam por onde ir. Era necessária uma audácia e espírito de aventura inimagináveis.

Por qualquer medida que se tome, George Mallory era um expoente das características superlativas da masculinidade.

Mallory era considerado um homem muito bonito e tinha um genuíno interesse pelas artes. Estudou em Cambridge, envolveu-se no ambiente do teatro, música e pintura, várias vezes pousou nu para o pintor Ducan Grant (homossexual assumido). Grant chegou mesmo a gabar-se de que Mallory terá sido seu amante. Não quer isto dizer, de modo algum, que tal seja verdade. De qualquer forma, o clima de Cambridge (e de Oxford) na primeira década do século XX era um ambiente muito tolerante à homossexualidade, com manifestações de amor assumidas entre homens.

Não há qualquer prova de que Mallory, mais tarde casado e com filhas, tenha tido alguma experiência homossexual. No entanto assumiu (numa carta enviada à sua mulher!) quando estava na Guerra o fascínio por um soldado extremamente bonito que havia encontrado nas trincheiras no dia anterior.

George Mallory

Há mesmo um biografo de Mallory que sugere que a escolha do inexperiente jovem Sandy Irvine (22 anos sem nenhuma época nos Alpes!) como seu companheiro de cordada na fatal tentativa ao cume do Everest em 1924 terá tido motivos românticos. Esta tese é facilmente desmontada, há várias razões circunstanciais e práticas que justificam a escolha (era um dos alpinistas mais frescos, mais fortes e o que melhor sabia utilizar e reparar o equipamento de oxigénio). De qualquer forma a hipótese é legítima dado o ambiente que se vivia em 1924 entre a elite de aventureiros britânicos.

E em 2009 o parlamento português aprova o casamento gay!

Passo-a-passo. Sem atalhos.

A minha crónica regular no "Jornal de Notícias" (16/12/2009 - "Passeio Público"):

Dizia recentemente um grande industrial europeu aos seus vários colaboradores, na reunião anual da empresa, depois de ter instalado várias unidades na China e países de leste: “Foi um erro. Temos de voltar a aprender a fazer o que sabíamos fazer. Com qualidade. Liderando a inovação técnica. E fazer aqui na nossa casa. Na Europa”. Deslocalizar a produção para reduzir custos não é sustentável e funciona contra o modelo europeu.

Portugal tem desmerecido uma estratégia que coloca o foco nas pessoas e na sua capacidade de reinventar o seu futuro. Uma estratégia clara de desenvolvimento teria tornado evidente a necessidade de reforço da capacidade científica e técnica, a necessidade de cuidar a educação como recurso nacional precioso, bem como a imperiosa necessidade de incentivar a criatividade e capacidade empreendedora. Como muitas empresas europeias, Portugal preferiu meter-se por atalhos esquecendo que o futuro se constrói passo-a-passo.

Precisamos essencialmente daqueles que investem em Portugal para utilizar a qualidade dos nossos recursos humanos, para quem constituímos uma vantagem competitiva porque identificam os nossos sucessos na transformação de conhecimento em ideias de negócio e em empresas, que reconhecem a nossa capacidade criativa. Não precisamos do investimento que tem como único objectivo salários baixos ou incentivos financeiros à instalação. São atalhos. E quem se mete por atalhos... mete-se em trabalhos.

Nessa perspectiva é muito importante reconhecer o papel do consórcio INOV-C, liderado pela Universidade de Coimbra, nessa nova atitude do Centro de Portugal. Na verdade, o consórcio permite um conjunto de sinergias alargadas num conceito de parque de ciência e tecnologia multipolar alargado à região, e no qual se inclui, entre outros, o iParque, o Biocant e o IPN. As vantagens são as da integração, da coordenação próxima, da eficácia e da não duplicação de meios e infra-estruturas. A candidatura foi aprovada pela Comissão Directiva do Programa Operacional Regional do Centro em Dezembro. Ao todo foram atribuídos cerca de 23, 5 milhões de euros de FEDER ao projecto conjunto. O iParque candidatou as suas duas fases de construção - que incluem os terrenos, as infra-estruturas, o Business Center, o edifício Nicola Tesla (acelerador de empresas), o sistema de mobilidade do parque e as infra-estruturas de comunicação – num total de 24.390.000 euros. Esta aprovação atribui ao iParque 11.045.040 euros do FEDER.

O objectivo é ser uma das 100 regiões mais inovadoras da Europa e por isso atractiva para iniciativas empresariais que signifiquem um considerável investimento estrangeiro diferenciador, que é necessariamente o investimento na nossa capacidade de sermos criativos e empreendedores. Esse é que é o investimento relevante e sustentável.

:-)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Nota de Imprensa da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica

(Imagem do peditório dos bolseiros de investigação no ano passado pela altura do Natal)

Informação recebida da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica:

16 de Dezembro de 2009

Assunto: Reunião da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) com a Secretaria deEstado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

No passado dia 2 de Dezembro, a ABIC reuniu com o Senhor Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Prof. Doutor Manuel Heitor, com o objectivo de ouvir as propostas do novo governo no que se refere ao Estatuto do Bolseiro de Investigação. Durante a reunião a tutela não apresentou à ABIC quaisquer propostas concretas.

Contrariamente às justas aspirações da ABIC, a tutela mostrou-se indisponível para rever o estatuto do Bolseiro de Investigação, discutindo apenas três questões pontuais que permitiriam, contudo, um avanço positivo face à actual situação.

O Senhor Secretário de Estado comprometeu-se em apresentar, antes do início da discussão do Orçamento de Estado na Assembleia da República, propostas relacionadas com:

1. a actualização do valor das bolsas;
2. a revisão do modelo de contribuições para a segurança social por parte dos bolseiros;
3. a maior fiscalização e combate às falsas bolsas que servem somente para suprir as necessidades permanentes das instituições em termos de recursos humanos.

Relativamente a cada um destes pontos -

1. A actualização das bolsas foi colocada como um imperativo, devido à perda de poder de compra dos bolseiros desde 2002, ano em que as bolsas foram aumentadas pela última vez. Foi referido, pelo SE, como já havia sido em alturas anteriores, que esta situação seria tida em conta aquando da elaboração do Orçamento de Estado e da sua discussão na AR. A ABIC considera ser fundamental a restituição do poder de compra perdido pelos bolseiros nestes sete anos.

2. foi discutida a necessidade de os descontos para a Segurança Social serem indexados ao valor da bolsa auferida. A ABIC considera absolutamente insuficiente o desconto relativo ao 1º escalão do Seguro Social Voluntário, previsto no actual estatuto, que compromete a reforma dos actuais bolseiros e o apoio na doença.

3. Relativamente às falsas bolsas, o SE afirmou ser também objectivo do governo acabar com este abuso e informou a ABIC que está em curso um inquérito às instituições, cuja finalidade é averiguar as tarefas dos diferentes bolseiros. O Secretário de Estado referiu que esta situação de falsas bolsas já se encontra resolvida quer na Fundação para a CIência e Tecnologia (FCT) quer no MCTES, onde proliferavam falsas bolsas com tarefas administrativas.

A ABIC reivindica a revisão do Estatuto do Bolseiro de Investigação como instrumento fundamental para a alteração do enquadramento jurídico dos bolseiros. O novo Governo, que, no que respeita à Ciência, mantém a mesma equipa ministerial, tem obrigação de conhecer aprofundadamente os graves problemas associados à condição de bolseiro e as justas reivindicações da ABIC. De facto, em diversos momentos reconheceu a razoabilidade das propostas da nossa associação. Perante uma ausência de qualquer medida durante mais de quatro anos e a falta de resposta às reivindicações da ABIC, continuaremos a lutar por melhores condições para os bolseiros e a revisão do seu estatuto.

Cientistas de Pé emprestam o seu humor ao projecto Simbiontes

(clique para ampliar)

19 de Dezembro às 18h00, os cientistas de pé juntam-se à Associação Viver a Ciência para angariar fundos para a investigação científica em cancro - o evento é de entrada livre, pode aproveitar para ver os quadros que ainda não foram vendidos e assim poder também contribuir para esta causa.

A Exposição Simbiontes, que está no Chiado desde 28 de Novembro e que pode ser vista até 23 de Dezembro, é constituida por obras produzidas por crianças em ambulatório no IPO de Lisboa e ilustrações do pintor da Ar.Co, Ângelo Encarnação. Os fundos a obter com a venda dos quadros serão aplicados num Prémio de investigação científica em cancro.

As peças artísticas tiveram origem numa série de ateliers pedagógicos e criativos no IPO de Lisboa, organizados pela Associação Viver a Ciência, em parceria com a Ar.Co, e inspirados no conto “A menina do Mar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Na sequência do projecto surgiu também o livro pedagógico “Os Amigos da Menina do Mar”, da autoria da bióloga da Associação Viver a Ciência Raquel Gaspar e com ilustrações de Ângelo Encarnação, que pretende explicar aos mais pequenos alguns dos mistérios relacionados com as espécies marinhas. Os lucros da sua venda juntam-se também ao fundo comum do projecto Simbiontes.

O projecto Simbiontes – que ambiciona envolver vários sectores da sociedade em torno da angariação de fundos para a ciência - é globalmente apadrinhado pela presidente da SIC Esperança, Mercedes Balsemão.

Mais informações: Blogue dos Cientistas de Pé, Projecto Simbiontes, Galeria Simbiontes Leilão Simbiontes a 28 de Novembro Exposição Simbiontes Livro "Os Amigos da Menina do Mar" Ângelo Encarnação expõe trabalhos no Chiado Plaza Mapa: Como chegar ao Chiado Plaza

EXUBERÂNCIAS DA CAIXA PRETA


Convite recebido do Instituto de Biologia e Medicina Molecular, Porto:

The IBMC.INEB, and all organization members of the "EXUBERÂNCIAS DA CAIXA PRETA a propósito d’ A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais de Charles Darwin" would like to invite you to the exhibition opening at the Museu Nacional de Soares dos Reis, OPorto, on the 17th of December 2009 by 6.30pm.

We invite you to reflect upon the Darwin’s book. This exhibition coexists between the physical expression of the emotions – stereotyped and deriving from our shared biology – and the extraordinary, and sometimes surprising, exuberance of its representations, inevitably resulting from our cultural and existential multiplicity, in which one reflects the other.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O português que se correspondeu com Darwin

Informação recebida da Editora Gradiva

Lançamento do Livro: O Português que se Correspondeu com Darwin, de Paulo Renato Trincão

Apresentação de Rosália Vargas.

Local: Livraria Bertrand Roma, Av. de Roma, n.º 13 B, Lisboa
Data: 16 de Dezembro (quarta-feira), às 17h30

"Esta obra, em forma de peça de teatro – que se quer lida e se exige representada em palco –, escrita por um divulgador de ciência, não por acaso geólogo e Doutor em Paleobiologia, coloca a cultura científica no palco, o que só pode ser positivo. Através dela podemos ver quem foi Charles Darwin. Geólogo? Biólogo? E também ter uma ideia sobre o impacto que as ideias de Darwin tiveram no Portugal do século XIX. Na comunidade científica de então, produziu-se uma tese de doutoramento, pelo ilustre biólogo e botânico Júlio Henriques, por muitos e longos anos voz científica quase única, o que convenhamos é muito fraco pecúlio para tanto potencial argumentativo, para tal revolução estruturante do pensamento biológico e, por que não, filosófico. No entanto, anos antes de Júlio Henriques e num contexto informal, houve um português, amanuense de profissão, curioso, observador e estudioso atento de coisas da Natureza, de seu nome Francisco de Arruda Furtado, que se correspondeu com Darwin. Pelo que sabemos dos escritos de Darwin, cujas cartas com Arruda Furtado são aqui traduzidas e apresentadas, foi o único português com que trocou correspondência. Sabendo-se que Darwin fazia questão de sempre responder a cada carta que recebia, esta pode ser uma medida do acolhimento das ideias de Darwin no Portugal do séc. XIX."

AMADEU SOARES, Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro

A flor máis grande do mundo

meEm época de advento que se nos abre cada ano diferente, num encontro de cada um de nós e na dádiva ao outro, (re)visitemos «A flor máis grande do mundo», de José Saramago, numa curta metragem dirigida por Juan Pablo Etcheverry.

UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...