quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Exposição sobre Carolina Michaelis


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Abre amanhã, dia 12 de Novembro, pelas 17h 30m, na Sala de S. Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a exposição bibliográfica e documental "A Vida e obra de Carolima Michaelis de Vasconcelos - Evocação e Homenagem".

Sobre Carolina Michaelis, a primeira professora numa Universidade portuguesa

Integrada no Projecto em curso, de carácter interdisciplinar, Carolina Michaëlis (1851-1925) – Joaquim de Vasconcelos (1849-1936): Um Encontro de Culturas e de Saberes, a presente exposição tem como objectivo evocar e homenagear aquela que foi a primeira Doutora em Letras e também a primeira Professora, a todos os títulos insigne, da Universidade de Coimbra, onde leccionou desde Janeiro de 1912, isto é, desde o primeiro ano lectivo da então recém-criada Faculdade de Letras, até Fevereiro de 1925, ano em que vem a falecer.

Nos três grandes períodos em que dividimos a vida e a obra de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Anos de Berlim (1851-1876), Anos do Porto (1876-1912) e Anos de Coimbra e do Porto (1912-1925), pretendemos mostrar – através da articulação das espécies bibliográficas seleccionadas para expor nas vitrines com a documentação e a iconografia contida nos painéis, e ainda através dos apontamentos multimédia que completam o todo – que Carolina Michaëlis não só nos deixou, como filóloga nacional e internacionalmente prestigiada, uma obra pioneira verdadeiramente gigantesca, que se inscreve na intensa e variada actividade de mediação científica e cultural entre Portugal e a Alemanha por ela desenvolvida desde o primeiro ano em que veio viver para o Porto, mas também soube ser uma cidadã empenhada na promoção e no incremento do ensino da criança e da mulher na sociedade portuguesa da sua época.

PREVENÇÃO RODOVIÁRIA


Texto do nosso leitor João Boaventura alusivo à campanha brasileira de prevenção rodoviária (cartaz na imagem):

A propósito da Prevenção Rodoviária Brasileira, lembrei-me da que foi utilizada na África do Sul, depois do primeiro transplante do coração realizado com sucesso pelo Dr. Christiaan Barnard, onde os cartazes espalhados nas estradas rezavam: “Dr. Barnard waiting for your heart”.

Como curiosidade, o Dr. Barnard já tinha realizado transplantes de coração em 50 cães, e o primeiro homem que se submeteu à operação tinha uma doença terminal pelo que não teve dúvidas em executá-la porque, argumentava: “For a dying man it is not a difficult decision because he knows he is at the end. If a lion chases you to the bank of a river filled with crocodiles, you will leap into the water, convinced you have a chance to swim to the other side.”

O 3 de Dezembro próximo relembra o que aconteceu há 42 anos.

João Boaventura

O JACKPOT CÓSMICO

Por amabilidade da Gradiva, publicamos um excerto do prefácio do livro "Jackpot Cósmico" do físico Paul Davies, que acaba de ser publicado por essa editora:

Quando estava a terminar o meu doutoramento, no University College London, na década de 1960, o meu orientador deu-me um artigo técnico curioso para ler, «para me aliviar um pouco» do meu projecto principal. O artigo (que de facto não veio nunca a ser publicado na forma na qual o li) baseava-se numa palestra dada nos Estados Unidos pelo jovem cosmólogo e físico teórico inglês Brandon Carter.

O assunto era radical e diferente. O trabalho normal de um físico teórico é investigar um problema acerca de um dado fenómeno natural, ainda por resolver, aplicando as leis da física sob a forma de equações matemáticas, e depois tentar resolver as equações para ver a que ponto elas descrevem a realidade. Mas Carter estava a tratar de um tipo de problema completamente diferente, que tinha a ver com a forma das leis propriamente ditas. Fez a si mesmo a seguinte pergunta: «Suponhamos que as leis tinham sido escritas de forma um pouco diferente do que foram na realidade, num ou noutro aspecto— que consequências teria isto?» Os filósofos chamam «análise contrafactual» a este tipo de investigação, e embora os romancistas utilizem este tipo de ideia há muito tempo (li recentemente um romance em que os nazis derrotaram a Grã-Bretanha na Segunda Guerra Mundial e o Reino Unido se tornou um estado-fantoche da Alemanha), era inovadora para um cientista.

O foco da análise do tipo «e se» de Carter era mais uma vez pouco comum para um físico teórico. Dizia respeito à origem da vida. Mais especificamente, os cálculos de Carter sugeriam que, se as leis tivessem diferido mesmo que muito ligeiramente daquilo que hoje vemos, a vida não teria sido possível e não teria havido ninguém para observar o universo. De facto, dizia Carter, a nossa existência depende de uma dada quantidade de «ajustamentos precisos» das leis. Tal como a papa da Joana, as leis da física pareciam a Carter «mesmo boas» para a vida. Parecia batota — uma grande batota. De forma um tanto insensata, deu a este «ajustamento preciso» o nome de «princípio antrópico», o que produz a falsa impressão de que dizia respeito especificamente à humanidade (o que não foi nunca a sua intenção).

Embora o artigo de Carter tivesse um alcance modesto e fosse cauteloso nas suas conclusões, desencadeou nada menos que uma revolução no pensamento científico e provocou uma polémica furiosa que divide a comunidade científica até hoje. O estudo da análise contrafactual na física e na cosmologia foi levado a cabo na década de 1970 por Martin Rees e Bernard Carr, e dele resultou um artigo de referência publicado em 19791. Inspirado por esse artigo, escrevi um pequeno livro acerca deste assunto intitulado The Accidental Universe, que foi publicado pela Cambridge University Press em 1982. Alguns anos mais tarde surgiu um texto muito mais sistemático e aprofundado — The Anthropic Cosmological Principle, de John Barrow e Frank Tippler. Tem sido o ponto de partida de centenas de artigos ao longo dos anos.

No princípio da década de 1980, o princípio antrópico foi zurzido por muitos cientistas como uma patranha semi-religiosa. Numa crítica devastadora na New York Review of Books em 1986, o matemático e escritor Martin Gardner fez uma lista das várias versões do princípio antrópico (AP): Fraco (WAP), Forte (SAP), Participativo (PAP) e — a sua versão favorita — o Princípio Antrópico Completamente Ridículo (CRAP). Durante mais ou menos uma década o tom do debate foi esse. Contudo, os desenvolvimentos em física de partículas de altas energias e em cosmologia, especialmente no estudo do Big Bang que deu origem ao universo, mudaram aos poucos as opiniões. As leis da física, outrora encaradas como se estivessem gravadas em tabuletas de pedra, começaram a parecer menos absolutas. Acumularam-se indícios de que pelo menos algumas não eram leis verdadeiras, fundamentais, mas sim «leis efectivas», cuja forma familiar só se aplica a energias pequenas comparadas com a violência selvagem do Big Bang. É significativo que as análises teóricas tenham sugerido que algumas das características das leis poderiam ser acidentais, reflectindo os acasos da maneira como o nosso universo arrefeceu depois do Big Bang. Isto implicava claramente que a forma de baixas energias destas leis poderia ter sido diferente, e poderia mesmo ser diferente, em alguma outra região cósmica. Aquilo a que tínhamos chamado previamente o «universo» começou a assemelhar-se a um «multiverso» variado — «uma louca manta de retalhos com propriedades diferentes e leis da física diferentes», nas palavras de Leonard Susskind, um físico teórico e cosmólogo da Universidade de Stanford e um dos principais proponentes da ideia do multiverso. É claro que não seria surpresa nenhuma estarmos a viver numa região adequada à vida, porque obviamente não poderíamos estar a viver num sítio onde a vida fosse impossível.

Por esta altura, os ateus começaram a interessar-se pelo assunto. Insatisfeitos com o ajustamento preciso das leis da física por ele sugerir algum tipo de desígnio divino, agarraram-se à teoria do multiverso como explicação simpática da incrível adequação do universo à vida orgânica. Assim, estranhamente, o princípio antrópico acabou por ser encarado, exactamente ao mesmo tempo, quer como alternativa científica ao desígnio quer como teoria quasi-religiosa. Eu entrei para este atoleiro em 2003, quando convenci a John Templeton Foundation a patrocinar uma conferência acerca de cosmologia do multiverso na Universidade de Stanford, à qual presidi com o cosmólogo Andrei Linde. O resultado das nossas deliberações foi publicado num volume editado por Bernard Carr. Uma outra conferência na continuação desta, com mais atenção à teoria das cordas (a tentativa de unificar a física actualmente mais na moda), teve lugar em 2005.

Enquanto estes desenvolvimentos teóricos decorriam, eram feitos alguns avanços espectaculares em cosmologia observacional. Resultaram de levantamentos progressivamente exaustivos do universo pelo Telescópio Espacial Hubble e de diversas experiências terrestres, do mapeamento
pormenorizado do brilho cósmico do Big Bang por um satélite chamado WMAP e da descoberta inesperada de que o universo está a acelerar sob a acção de uma misteriosa «energia escura». Quase num estalar de dedos, a cosmologia, durante tanto tempo uma província científica longínqua e sem grandes desenvolvimentos, tornou-se uma ciência de vanguarda, com novas ideias a fermentarem, muitas das quais estranhas e contrárias à intuição. Parecemos entrar numa nova era, que está a transformar a nossa visão do universo e o lugar que a humanidade nele ocupa.

Neste livro irei explicar as ideias que servem de base a estes desenvolvimentos dramáticos, concentrando-me no «factor Cachos Dourados» — o facto de o universo ser adequado para a vida. Nos primeiros capítulos exponho os conceitos básicos da física e da cosmologia modernas e em seguida descrevo a teoria do multiverso e os argumentos a seu favor e contra ela. No fim do livro faço uma revisão crítica das diversas respostas ao problema do ajustamento preciso. Questionarei também se os cientistas estão prestes a produzir uma teoria de tudo — uma explicação completa e coerente de todo o universo físico — ou se sobrará sempre um mistério no coração da existência.

Para estes últimos capítulos inspirei-me no grande físico teórico John Archibald Wheeler, a quem dediquei este livro. Descobri o trabalho de Wheeler quando ainda era estudante, e nos anos seguintes vim a conhecê-lo muito bem, quer ao nível pessoal quer ao nível profissional. Visitei-o em Austin, no Texas, e ele veio visitar-me a Inglaterra em diversas ocasiões. Teve a simpatia de recomendar o meu primeiro livro, The Physics of Time Asymmetry, com elogios entusiásticos e dedicou grande atenção ao meu trabalho ao longo de um período de mais de três décadas. Foi um privilégio contribuir para a organização da conferência de celebração do seu nonagésimo aniversário, em Março de 2002, uma reunião de cientistas ilustres em Princeton, na Nova Jérsia, onde Wheeler começou e terminou a sua carreira. No final dos anos 30, Wheeler trabalhou com o lendário Niels Bohr em aspectos cruciais da fissão nuclear. Prosseguiu e encarregou-se do renascimento da teoria gravitacional na década de 1950, pegando no assunto onde Einstein tinha parado. Foi Wheeler que criou as expressões buraco negro e buraco de verme. Acima de tudo, reconhecia a necessidade de conciliar os pilares gémeos da física do século XX — a teoria da relatividade geral e a mecânica quântica — para formar uma teoria unificada de gravidade quântica. Muitos dos seus estudantes de pós-graduação seguiram carreiras científicas de grande prestígio; um deles foi o bem conhecido Prémio Nobel Richard Feynman.

O estilo de Wheeler era diferente. Ele era o mestre da «experiência conceptual». Tomava uma ideia aceite e extrapolava até ao seu limite máximo, para ver se e quando ela deixava de funcionar. Adorava concentrar-se nas questões realmente importantes: se a física podia ser unificada, se o espaço e o tempo podiam ser obtidos a partir de algum tipo de entidade mais básica, se a causalidade podia operar para trás no tempo, se as leis complexas e abstractas da física podiam ser reduzidas a uma única afirmação óbvia e simples e como se enquadravam os observadores nesse esquema. Inconformado com a mera aplicação das leis da mecânica quântica, queria saber de onde elas vinham: «Porquê o quantum?», perguntava. Insatisfeito com a disjunção entre os conceitos de matéria e informação, propôs a ideia de it from bit — a emergência de partículas a partir de bits de informação. A mais ambiciosa de todas as suas perguntas era «porquê a existência?» — uma tentativa de explicar tudo sem recorrer a nenhum tipo de fundamento para a realidade física que tivesse de ser aceite como um «dado».

Perguntei uma vez a Wheeler o que considerava o seu sucesso mais importante e ele respondeu, «Mutabilidade!». Com isto queria dizer que nada é absoluto, nada é tão fundamental que não possa mudar se for sujeito a circunstâncias adequadamente extremas — e isso incluía as próprias leis do universo. O conjunto destes conceitos levou-o a propor o «universo participativo», uma ideia (ou, como preferia Wheeler, «uma ideia para uma ideia») que ser tornou uma parte importante da discussão multivero/universo antrópico. Nas suas crenças e atitudes, Wheeler representava uma grande parte da comunidade científica: plenamente dedicado ao método científico de pesquisa, mas sem medo de enfrentar questões filosóficas profundas; sem ser convencionalmente religioso, mas inspirado pela reverência pela natureza e por um sentimento profundo de que os seres humanos fazem parte de um grande esquema que só vemos de forma incompleta; suficientemente arrojado para seguir as leis da física onde quer que elas levem, mas não arrogante ao ponto de acreditar que temos todas as respostas.

MUITO BARULHO POR NADA

Ainda sobre o livro "Caim" de José Saramago, o escritor Cristóvão de Aguiar (na imagem) publicou no seu blogue um texto que começa assim:

"MUITO BARULHO POR NADA
MUCH ADO ABOUT NOTHING
OU A BÍBLIA SEGUNDO SARAMAGO
PONTO FINAL E DISSE


No Jornal de Letras, de 3 de Novembro, Miguel Real, entre muitas outras coisas, escreve: “Em Caim permanece o estilo tradicional de Saramago (já amiúde analisado), tanto barroquizante (…) (uma floresta de palavras (sublinhado meu) ilustradora de uma ideia) e anarquizante (uma espécie de everything goes), isto é, a confluência de um léxico antigo e vernacular – avonde (pp.16 – com um vocabulário moderno, desenhando um melting pot semântico, aparentemente espontâneo, pelo qual a lógica do texto cria as suas próprias hierarquias gramaticais e ideológicas (...)."

O estilo enxuto, descarnado, nunca foi dom de Saramago. O escritor explica tudo até à exaustão, o que não raro se torna enfadonho. Dir-se-ia que há uma inundação de palavras, grande parte delas inúteis, como se tivesse ocorrido uma séria avaria na canalização provinda da nascente criadora. Por esta e outras razões, muita boa gente letrada costuma(va) afirmar, em surdina (o politicamente correcto vigora com força), que se a certos livros de Saramago fossem retiradas cem ou cento e cinquenta páginas, não perderiam nada: pelo contrário, ficariam mais claros, exactos, sucintos…

Quando assim acontece, alguma coisa está podre no reino da literatura. A arte de dizer muito em poucas palavras é difícil, dura, requer muito esforço, muita lima, muita monda… Escrever é cortar! Veja-se Miguel Torga, um dos mais elevados expoentes de concisão de escrita! Se lhe fosse retirada uma só palavra de uma frase ou de um verso, logo ficariam mancos… Não posso acreditar numa arte literária em que palavra menos palavra vai tudo dar ao mesmo…

Os lugares-comuns sempre ocuparam uma posição de relevo na obra romanesca de Saramago. Só do romance Caim extraí uma caterva deles: máquinas de encher chouriços; do pé para a mão; dar tempo ao tempo; para aí virado; fazendo das tripas coração; carta branca; mal se podia ter nas pernas; dois coelhos de uma cajadada; a carne é supinamente fraca (genial, o acrescento do advérbio); chorar o leite derramado (expressão traduzida, à letra, do inglês: em português de lei seria: depois de o mal feito, chorar não é proveito; mas, veja-se a frase completa, para aquilatarmos da genialidade de quem a engendrou: “Chorar o leite derramado não é tão inútil quanto se diz, é de alguma maneira instrutivo porque nos mostra a verdadeira dimensão da frivolidade de certos procedimentos humanos, porquanto se o leite se derramou, derramado está e só há que limpá-lo, e se abel foi morto de morte malvada é porque alguém lhe tirou a vida […] ” (Lili Caneças não diria melhor!) …"

Ler mais aqui.
Cristovão de Aguiar

terça-feira, 10 de novembro de 2009

PLANO INCLINADO



Novo programa da SIC Notícias, com Nuno Crato, João Duque e Medina Carreira.

Ainda o exame de acesso à carreira docente e outras questões


“Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer a minha resposta; caso contrário estarei reduzido à resposta que o mundo me der” (Carl Gustav Jung, 1875 – 1961).

No meu último post (06/11/2009), “Novamente o exame de acesso à carreira docente”, a páginas tantas, teci o seguinte comentário: ”Discutir ideias é uma forma de estar ao serviço da Democracia”. Assim, de um acervo de valiosos comentários dos leitores, transcrevo:

- Mais do que os sindicatos, o lobby das “Ciências” de Educação (aspas do autor) não permitirá o exame de acesso à carreira docente (Fartinho da Silva).

- Os sindicatos “têm contribuído para o actual ruinoso estado de coisas” (Vera Y. Silva).

- O exame de acesso “ajudaria a valorizar os alunos das melhores universidades” (Anónimo).

- “Devido ao estado lastimoso a que o ensino chegou (…)“é absolutamente imprescindível que os professores sejam sujeitos à prova de língua portuguesa para poderem ingressar na carreira” (José Batista de Ascenção).

- Finalmente, os sindicatos não se devem imiscuir em questões “científicas e pedagógicas", competindo aos professores criarem "estruturas próprias que pensem o que deve ou não ser necessário para se ser professor” (António Daniel).

Ciências da Educação: Por haver unanimidade, embora com umas tantas nuances, sobre a vantagem do exame de acesso à carreira docente, começo pelas Ciências da Educação, distinguindo a boa da má moeda, em termos de formação pedagógica. Existem diversas faculdades, espalhadas pelo país fora, que estudam esta matéria com o cientismo, a dignidade e seriedade que a educação merece. E essa abordagem não pode ou deve ser confundida com aqueloutra dos programas das escolas superiores de educação que parecem retratar a visão pessimista de Manuel Bandeira: “Que importa a linha do horizonte? O que eu vejo é o beco”.

Seja como for, o eduquês, analisado criticamente por Nuno Crato no seu polémico livro “O ‘Eduquês’em Discurso Directo”, fez tremer as colunas de um templo criticado por Schulman (1986) por “reduzir às técnicas pedagógicas a concepção da formação e da avaliação dos professores”. Com idêntica opinião, escreve Cristina Robalo Cordeiro (2007): “Nunca a pedagogia consegue que um professor ensine aquilo que não sabe”. Aliás, como escrevi várias vezes, uma asneira científica torna-se perigosíssima se ensinada de uma forma “pedagógica” por criar engramas difíceis de apagar do córtex cerebral dos jovens alunos.

Sindicatos dos professores: Com a intenção de proletarizar a profissão docente e não perder clientela, é bom que se diga, a Fenprof, tem tentado obstaculizar a criação da Ordem dos Professores (voltarei a este assunto mais adiante). Cumpro o ónus da prova: “Em momentos particularmente agudos de ataque à classe e à profissão, tem caminho fácil a ilusão de que uma 'ordem' contribuiria para unir a classe eventualmente dividida e, por essa via, aumentar a capacidade reivindicativa. É uma óbvia ilusão: a criação de uma ordem, no actual contexto, seria mais um factor de divisão” (Secretariado Nacional da Fenprof, 20/06/2008). Isto é, algumas dezenas de sindicatos, de inspiração política e estatutos bem diferenciados e clientelas bem identificadas na sua formação académica, reunidos numa Plataforma Sindical ocasional, são um factor de união da classe para a eternidade. Uma Ordem dos Professores, agregando todos os professores, seria um factor de desunião. Estranho paradoxo este!

Não se abuse de uma possível ingenuidade dos professores. Haja honestidade! A razão, a verdadeira razão, deste apelo panfletário para a união dos professores, em seio sindical, encontra justificação no facto de a Fenprof não querer abdicar de um campo de acção que não lhe pertence, saltando, a seu bel-prazer, a sebe das suas atribuições, como bem caracterizou Eugénio Lisboa: “Para tudo isto os sindicatos têm dado uma eficaz mãozinha, não raro intervindo, com desenvoltura, em áreas que não são nem da sua vocação, nem da sua competência” (Jornal de Letras, n.º 964/ 2007).

Ordem dos Professores: Pelo que julgo ter depreendido do seu comentário, defende António Daniel que mais eficaz mais do que o exame de acesso à carreira docente será a criação, por parte da classe docente, de estruturas que melhor cumpram esse objectivo. Inteiramente de acordo! Na vox populi, quem não tem cão caça com gato por ter sido retirado pelo Partido Socialista às futuras ordens profissionais o direito de se responsabilizarem pela qualidade científica e profissional dos diplomas dos seus associados. A esta discriminatória decisão não terá sido estranho o facto de a Ordem dos Engenheiros, no uso da respectiva competência, não ter reconhecido as “licenciaturas em engenharia” outorgadas pela extinta Universidade Independente, entre elas a de José Sócrates. Refira-se, bem a propósito, que, com louvável espírito de isenção, a Ordem dos Engenheiros não reconheceu certas licenciaturas oficiais universitárias, tendo dado o seu aval a algumas licenciaturas politécnicas como, por exemplo, as do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa.

Defensor confesso da criação de uma Ordem dos Professores, como testemunham inúmeros posts da minha autoria, aqui publicados, e o meu livro “Do Caos à Ordem dos Professores” (2004), entendo que a sua criação é de uma uma urgência que se não deve deixar vergar ao teor de uma legislação que esvaziou, em parte, as funções das ordens profissionais.

Num regime democrático, os partidos políticos não se eternizam no poder e, mais cedo ou mais tarde, surgirão, em outras mãos, medidas eficazes na correcção da injustiça do aberrante contraste entre as legislações actual e a futura destinadas às ordens profissionais. Para lutarem contra esta discriminação inter pares, os professores deverão reflectir sobre o aviso de Edmund Burke: "Para que o mal triunfe basta que os homens bons fiquem de braços cruzados”. E, como tal, reagirem a uma declarada oposição (mesmo dos poderes públicos) em se auto-regularem deixando de ser, como diria Pessoa, “arrabalde de si próprios”.

Eco e Narciso

Em Metamorfoses, num universo ficcional, o poeta sulmonense Ovídio conta histórias de transfiguração de deuses e de homens, em diferentes formas naturais, para lembrar como os deuses realizavam sonhos e desejos. A partir da transformação dos homens, os deuses provam a sua superioridade diante dos mortais. Tal temática da metamorfose servirá a divulgação de vários mitos gregos na romanidade.

Muitos são os exemplos em que os mitos greco-latinos serviram de inspiração a explicações psicanalíticas, como é o caso do Narcisismo, de Freud.
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Reencontremos o Livro III em que Ovídio narra como a doce ninfa Eco entretinha Juno com longos discursos para impedir que a deusa descobrisse as artimanhas de Júpiter, que galanteava as ninfas nos bosques. Por este motivo, Eco foi castigada pela deusa a repetir a última palavra do que acabara de dizer. Por infortúnio maior, um dia apaixonou-se perdidamente por Narciso, um jovem de singular e divina beleza, amado por jovens e ninfas, mas a cujo amor permanecia insensível. De tal modo despedaçado o coração de Eco, pela rejeição de Narciso ao seu amor, definhou, deixando apenas um sussurro débil e melancólico, que ecoava o nome do amado.

Porém, a vingança divina não tardou e Nemésis (vingança), decidiu actuar, condenando Narciso a um triste fim. Era uma tarde quente de Verão e Narciso aproximara-se de uma fonte límpida e cristalina em busca de refrigério, após um momento de caçada. Ao ver a sua imagem reflectida na água, arde de amor por ela, e, assim, ali ficou num idílio contemplativo a admirar sua própria beleza na fonte, esquecido de alimento e de água. As cores e o vigor deixaram, então, seu corpo, e o jovem acabou por morrer.

No local onde as Ninfas esperavam encontrar Narciso, ficara uma flor branca e roxa, em que se transformara afinal, e que guarda o nome do jovem em sua memória.

Imagem - Óleo sobre tela de Cossiers, Museu do Prado, Madrid.

HUMOR: Manuela Ferreira Leite vai participar em experiência do paradoxo de Schroedinger


Uma experiência conceptual proposta em 1935 por Erwin Schroedinger, um dos pioneiros da mecânica quântica, pode agora ser realizada graças aos cientistas do Instituto Sá Carneiro e da Universidade de Verão do PSD.

A experiência:
Dentro de uma caixa blindada e opaca está a líder do PSD. Ao pé, mas inacessíveis à líder, há um frasco cheio de gás de cianeto, uma amostra de material radioactivo, um martelo e um detector de radiação. O material radioactivo tem uma probabilidade de 50 por cento de emitir uma partícula de radiação ao longo de uma hora - e igual probabilidade de não emitir nada. Passado esse tempo, se a partícula tiver sido emitida, ela terá sido detectada pelo detector, que terá accionado o martelo, que terá esmagado o frasco, que terá libertado o veneno e morto a líder. Se não tiver sido emitida, nada terá acontecido à presidente, que continuará em funções.

A bizarria quântico-partidária:
Como o material radioactivo se rege pelas leis da mecânica quântica, ele pode ter emitido a radiação e não a ter emitido, dando origem a uma sobreposição desses dois estados. E como os estados de saúde possíveis da líder estão intrinsecamente ligados a esse fenómeno quântico, este também se encontra simultaneamente em dois estados radicalmente diferentes: Manuela Ferreira Leite está viva e morta ao mesmo tempo. Segundo esta interpretação probabilística da mecânica quântica é a interacção do observador (Marcelo Rebelo de Sousa) que provoca o colapso da sobreposição de estados: quando se abre a caixa, a líder está viva ou está morta. Será que é Marcelo Rebelo de Sousa que quando abre a caixa mata a líder? Existe uma realidade objectiva independente do observador? Envie as suas respostas para mata-a-manela@instituto.sa.carneiro.psd.pt.

DARWIN E OS COELHOS DO PORTO SANTO


Informação recebida do Museu de Ciência de Coimbra:

CICLO DE CONFERÊNCIAS SOBRE DARWIN E A EVOLUÇÂO

No ano Darwin, o Museu da Ciência convidou vários cientistas para, ao longo do ano, proferirem um conjunto de conferências sobre a importância e o impacto das ideias de Darwin na sua investigação. Estas conferências destinam-se a todos os públicos.

Venha conversar com os cientistas sobre evolução e sobre Darwin.

PRÓXIMA CONFERÊNCIA | 12 DE NOVEMBRO | 15h00

DARWIN E OS COELHOS DO PORTO SANTO
NUNO FERRAND (Biólogo, Dep. de Zoologia da Universidade do Porto)

O que é uma espécie? Como surge? Qual a importância dos isolados populacionais no processo de especiação?

Os coelhos do Porto Santo serão utilizados como exemplo para ilustrar o fascinante processo da origem de novas espécies, um assunto que integra o título da obra maior de Darwin, mas que necessitou de muito mais investigação para que se pudesse começar a compreender.

O TRIUNFO DOS PORCOS


Terça-feira é o dia das páginas de ciência no "New York Times". Hoje podemos lá aprender, num artigo de Natalie Angier, que os porcos são bem mais espertos do que se pensava: ler aqui.

Descubra os ERROS!



Parece que a "Face Oculta" está para durar. Mas não era sobre isso que queria falar. Queria só que jogassem comigo ao "descubra os erros".

Armando Vara enviou um carta ao conselho superior de supervisão do BCP pedindo "suspenção"/suspensão dos seus mandatos no banco. Mas teve o cuidado de dizer: é uma "suspenção"/suspensão e não uma "renuncia"/renúncia, pois isso poderia ser interpretado como "assumpção"/assunção* de culpa.

Veja a carta aqui e descubra os erros de ortografia do administrador do BCP que pelos vistos também suspendeu o Português.

:-(

É a vida.

Isto faz-me lembrar um livrinho muito engraçado que ofereci há dias à minha filha mais nova (a Beatriz de 7 anos). Intitula-se "A menina que não gostava de livros", da autoria de uma senhora indiana a viver no Canadá (Manjusha Pawagi). Muito interessante, fácil de ler e que incentiva a ler. Pode custar no início, como ao gato Max que ficou marcado na cauda com a forma de um grande livro que lhe caiu em cima :-) Mas ajuda pela vida fora, e é uma enorme fonte de prazer.

De vez em quando ofereça um livro ao seu filho(a). E leia-o com ele(a), substituindo algum do tempo em frente à televisão. Vai fazer toda a diferença.

*assumpção é uma variante de assunção

O QUE É A FUSÃO NUCLEAR?


Minha resposta à pergunta - O que é a energia de fusão? - que me foi colocada pelo jornal universitário "A Cabra" e que saiu hoje:

A energia solar é nuclear pois o Sol é uma “central” de fusão nuclear. No seu interior núcleos de hidrogénio, o elemento químico mais leve, juntam-se para originar núcleos de hélio, libertando uma enorme quantidade de energia. O Sol cessará de aquecer o nosso planeta quando o combustível nuclear se acabar.

Desde que sabe a origem da energia solar que o homem sonha reproduzir esse processo, ou um parecido, na Terra. Ainda não existe a tecnologia que assegure uma central de fusão nuclear. Mas investiga-se, desde há vários anos, nesse sentido. O maior projecto internacional, o ITER, está a ser levado a cabo perto de Marselha, França, com a participação da União Europeia (Portugal incluído), da China, dos Estados Unidos, da Rússia, do Japão, etc. Vai levar dezenas de anos até se obter um protótipo que funcione… As dificuldades têm a ver a repulsão dos núcleos leves por terem cargas positivas, sendo necessário aproximá-los muito de modo a que as poderosas forças de atracção nucleares entrem em acção. Para isso terão de actuar campos magnéticos muito intensos que mantenham o plasma - isto é, o conjunto de núcleos e electrões – numa pequena região a uma temperatura muito elevada.

A energia libertada num processo de fusão é maior do que a energia libertada num processo de cisão nuclear (que tem lugar nas centrais nucleares convencionais), uma vez que a energia que se ganha em juntar núcleos leves excede a energia que se ganha em dividir núcleos pesados como o de urânio. Mas há mais vantagens: O combustível num reactor de fusão é mais abundante na Terra do que o urânio e não deixa produtos radioactivos de longa duração.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

CANÇÃO DE HOMENAGEM A CARL SAGAN



No You Tube encontra-se esta canção de homenagem a Carl Sagan, que a 9 de Novembro, precisamente hoje, teria completado mais um aniversário, o 75.º, não fora a sua morte prematura por doença. O autor é John Boswell.

Parabéns Carl Sagan!

"[Sagan]
If you wish to make an apple pie from scratch
You must first invent the universe

Space is filled with a network of wormholes
You might emerge somewhere else in space
Some when-else in time

The sky calls to us
If we do not destroy ourselves
We will one day venture to the stars

A still more glorious dawn awaits
Not a sunrise, but a galaxy rise
A morning filled with 400 billion suns
The rising of the milky way

The Cosmos is full beyond measure of elegant truths
Of exquisite interrelationships
Of the awesome machinery of nature

I believe our future depends powerfully
On how well we understand this cosmos
In which we float like a mote of dust
In the morning sky

But the brain does much more than just recollect
It inter-compares, it synthesizes, it analyzes
it generates abstractions

The simplest thought like the concept of the number one
Has an elaborate logical underpinning
The brain has its own language
For testing the structure and consistency of the world

[Hawking]
For thousands of years
People have wondered about the universe
Did it stretch out forever
Or was there a limit

From the big bang to black holes
From dark matter to a possible big crunch
Our image of the universe today
Is full of strange sounding ideas

[Sagan}
How lucky we are to live in this time
The first moment in human history
When we are in fact visiting other worlds

The surface of the earth is the shore of the cosmic ocean
Recently we've waded a little way out
And the water seems inviting."

A IRA DE DEUS


Há coincidências, ao contrário do que diz um título de um livro. Quase ao mesmo tempo surgiram nas livrarias portuguesas dois livros com um título muito parecido, apesar de versarem assuntos muito diferentes sob formas muitas diferentes. Um é o ensaio histórico “A Ira de Deus”, do historiador inglês Edward Paice, subintitulado esclarecedoramente “O grande terramoto de Lisboa de 1755” (Casa das Letras). O outro é o romance “Fúria Divina”, do jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos (Gradiva), que versa a possibilidade de uma arma atómica cair em mãos de extremistas árabes.

Analisemos o primeiro. O título é bem justificado pois o terramoto que assolou no Lisboa fez há poucos dias 254 anos foi na época interpretado como uma manifestação de uma zanga de Deus com os homens. Os homens teriam pecado muito para que os tectos das igrejas caíssem sobre os fiéis quando eles celebravam o Dia-de-Todos-os-Santos. O acontecimento abalou não apenas os edifícios da capital portuguesa, mas também os maiores espíritos da época: Voltaire, Rousseau, Kant e Goethe – todos eles grandes nomes do Iluminismo europeu – não ficaram indiferentes ao extraordinário desastre de Lisboa, tendo sobre ele tecido lucubrações filosófico-morais ou mesmo científicas. É bem conhecida sobretudo a polémica entre Voltaire, o autor do “Poema sobre o desastre de Lisboa” (publicado no próprio ano do terramoto) e do “Cândido ou o Optimismo” (saído só três anos depois), e Jean-Jacques Rousseau, que assumiu as posições optimistas de Gottfried Leibniz e Alexander Pope sobre a “vida no melhor dos mundos” que o filósofo francês tinha atacado. Voltaire não punha em causa a existência de Deus, mas punha em causa a bondade de Deus, pois “nem tudo estava ordenado de forma a favorecer a nossa felicidade presente”. Ao que Rousseau retorquiu dizendo se Deus “não tinha feito melhor era porque Ele não podia fazer melhor” e que a culpa do mal era, em larga medida, do homem, pois “a maior parte dos nossos males físicos é ainda o nosso próprio trabalho”. Um sumário desta tão interessante discussão sobre a teodiceia é apresentada por Edward Paice no Cap. 18, “Jejum e Filosofia”.

Mas antes o autor conta-nos o terramoto, depois de ter entrado no livro apresentando a entrada de um barco no rio Tejo em Lisboa (Cap. 1, “Quem nunca viu Lisboa não viu coisa boa”), e de ter apresentado o rei que reinou em Lisboa na primeira metade do século XVIII, D. João V, para uns o Magnânimo e para outros o Freirático (Cap. 2, “Na corte do rei D. João”). A impressão que Paice transmite sobre o século XVIII português é a mesma que os viajantes ou residentes estrangeiros deixaram, até porque o autor se baseou em larga medida nas fontes britânicas (e irlandesas), nomeadamente as dos comerciantes dessa nacionalidade que aqui se encontravam na época, dada a existência de alguma protecção ao seu comércio em troca da protecção oferecida nos mares pela Royal Navy. Portugal era, para os estrangeiros que nos demandavam e que aqui se estabeleciam, um sítio algo distante e exótico. Apesar da riqueza que D. João V tão exuberantemente ostentava (em grande parte proveniente do Brasil) era, sob vários pontos de vista incluindo o cultural, um país atrasado relativamente aos países da Europa Central e do Norte. Segundo viajante Arthur Costigan, citado por Pairce, era como se “Igreja e estado concordassem ambos em manter a nação naquele estado de escravatura, ignorância e pobreza do qual dependia a sua própria conservação e segurança.”

Dada a familiaridade da língua, é natural que o autor descreva o terramoto (começa a fazê-lo no Cap. 5, “O Dia-de-Todos-os-Santos”) do ponto de vista britânico. Mas podia talvez ter ido mais longe... A narrativa, bem urdida, acompanha de uma forma quase cinematográfica o que aconteceu aos principais cronistas britânicos do desastre de Lisboa. Pode ser um relato fiel, mas é decerto uma visão parcial. Ao fim e ao cabo, os diplomatas e comerciantes que aparecem em discurso directo estavam relativamente bem instalados na capital surpreeendida pelo sismo e não pode deixar de ser uma visão particular aquela que eles nos deixaram. O autor diz, em sua defesa, que os portugueses quase não deixaram documentos relevantes sobre o terramoto, numa crítica ao nosso subdesenvolvimento da época. Cita mesmo uma fonte portuguesa recente segundo a qual, com muito poucas excepções, os relatos portugueses da catástrofe são “uma série de documentos sem valor”.

O historiador procura fazer uma descrição científica do terramoto a partir das fontes históricas, designadamente as suas características físicas (o tsunami, as réplicas, os registos fora de Portugal, mesmo muito longe), a extensão dos prejuízos, incluindo o número (que tem sido muito discutido) de vítimas mortais. No Cap. 9, “Teletsunami”, encontra-se esta descrição quantitativa assaz impressionante: “A força do tsunami era tão grande quando alcançou a foz do Tejo que pedregulhos com cerca de 25 toneladas foram arremessados mais de 27 metros terra dentro. Num dado local, uma rocha de 200 toneladas foi deslocada.” De facto, foi a partir do terramoto de Lisboa que se iniciaram os estudos científicos de geofísica, pelo que já alguém disse, com alguma ironia, que a maior contribuição portuguesa para a ciência mundial tinha sido dado de “forma involuntária”... A mim acontece-me amiúde, quando sou apresentado a cientistas estrangeiros, que eles refiram o grande terramoto de Lisboa quando digo a nacionalidade. Foi um abalo que deixou enormes marcas não só na filosofia e na teologia como na ciência e na tecnologia.

Falar do terramoto e não falar do marquês de Pombal seria impossível. De modo que Pairce dá-nos um retrato do marquês, como o homem inteligente que ganha o poder com a sua acção na catástrofe, em contraste com um rei medroso, que passou a viver depois do sismo numa tenda na zona da Ajuda. No Cap. 19, “Execuções”, relata, como não podia deixar de ser, o assassinato dos Távoras às ordens do Marquês, que impressionou muitos espíritos europeus pelos requintes de barbarismo. Pela minha parte, confesso que é sempre com desconforto que passo pelo sítio, em Belém, onde esteve instalado o cadafalso. Conforme afirmou um jornalista inglês da época, o país passou a ficar “nas mãos de aço de um anjo destruidor, espalhando vingança por todo o país”.

Em resumo, um livro bem escrito sobre um acontecimento que fez e continua a fazer correr muita tinta. O historiador documentou-se bem e escreve bem, procurando captar a atenção do leitor: por exemplo, refere que no dia do terramoto estava prevista a representação, na novíssima Ópera do Tejo, de “A Destruição de Tróia”. Este livro, embora demasiado centrado sobre os relatos britânicos, é um contributo valioso para a divulgação histórica de um facto da história mundial. Soma-se a outros, alguns bem recentes, relacionados com a passagem dos 250 anos do desastre, como “The Last Day. Wrath, Ruin and Reason in the great Lisboin Earthquake of 1755”, do jornalista Nicholas Shrady (Penguin Books, 2008), que eu saiba ainda não traduzido entre nós mas que, como o aqui recenseado, o merecia ser.

Legenda da figura:
Gravura alemã do séc. XVIII da Augsburgische Sammlung, no Museu da Cidade, em Lisboa: “Autêntica representação do cruel terramoto que atingiu a real capital e cidade da residência real de Lisboa em Portugal, quase totalmente devastada e transformada num monte de pedras”.

Livro e Leitura entre os Jovens

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra

O colóquio Livro e Leitura entre os Jovens terá lugar nos próximos dias 17 e 18 (3.ª e 4.ª feira) de Novembro.

Esta iniciativa visa lançar a discussão entre Ministério da Educação, professores, responsáveis por bibliotecas, escritores, jornalistas, bloggers, editores e jovens universitários acerca da evolução dos hábitos de leitura entre a juventude portuguesa e das implicações desta realidade na sua capacidade de expressão escrita e oral.

Para consultar o programa clicar aqui.

Tertúlias da Ciência

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:

CICLO DE CONFERÊNCIAS
ENTRADA LIVRE


Numa tentativa de promover a ciência junto da comunidade estudantil bem como junto da sociedade em geral, o Núcleo de Estudantes de Química, em colaboração com o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, organiza as Tertúlias da Ciência, um espaço onde todos podem expor as suas ideias de acordo com o tema introduzido pelo orador convidado.




CONFERÊNCIA | 11 DE NOVEMBRO | 17h00

CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO - TRABALHO E RISCOS EMERGENTES
António José de Araújo Abreu Vilar de Queirós e Patrícia Dolores Neves Santo da Rocha
Gabinete de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho da Universidade de Coimbra

Os recursos de saúde e segurança no trabalho são frequentemente insuficientes para quem trabalha com as novas tecnologias. Falar em Ciência, Tecnologia e Inovação no mercado de trabalho é falar de "novos riscos" laborais, riscos estes que urge "detectar e controlar".

Um outro problema com que se confrontam os trabalhadores está directamente relacionado com o crescimento das pequenas e médias empresas, que muitas vezes não é acompanhado pelo necessário investimento em segurança e higiene no trabalho.

No Museu da Ciência, os especialistas da UC irão ainda falar sobre os riscos associados ao crescimento do sector dos serviços, relacionados com factores ergonómicos, com os contactos pessoais e o stress, mas também dos riscos ligados ao teletrabalho, ao trabalho independente e ao trabalho temporário, ao aumento do ritmo e da carga laboral, às alterações nas estruturas de gestão e aos fenómenos de integração e globalização.

INVESTIGAÇÃO E CIÊNCIA


A palavra “investigar” remonta ao século XV. A investigação científica moderna teve convencionalmente o seu início na Europa com a chamada Revolução Científica, no início do século XVII. A investigação é o “braço armado” da ciência, uma vez que é graças a ela que a ciência progride. A etimologia ajuda a compreender o seu significado: a palavra "investigação" vem do latim “in” + “vestigium”, que quer dizer seguir o rasto, ir atrás de pegadas. Se se for a um dicionário moderno encontra-se que “investigar é realizar uma “pesquisa crítica e sistemática, com base por exemplo na experimentação, que se destina a rever conclusões aceites à luz de factos novos”.

Os cientistas avançam pois indo atrás de marcas reveladoras, um pouco como Sherlock Holmes, o personagem de Conan Doyle que, a partir de indícios, conseguia descobrir toda uma história. A procura científica tem de ser “crítica” (há que ter cuidado com pistas falsas) e “sistemática” (tem de se perseguir todas as pistas acessíveis). Para a investigação ser produtiva tem de se examinar algo que não se conhecia, os tais “factos novos” que permitem rever “conclusões aceites”.

O processo de investigação científica é persistente. As conclusões só são verdadeiras provisoriamente, dando lugar a outras, que, em geral, são compatíveis com as anteriores. As novas investigações permitem rever as conclusões antes obtidas, alcançando a novas conclusões que, de algum modo, devem abarcar as antigas ou, pelo menos, o essencial delas: a ciência é cumulativa. Pode pois dizer-se que a investigação consiste em ir na peugada não tanto da verdade, só idealmente alcançável, quer dizer, inalcançável, mas na procura da inconsistência, do erro, da mentira.

À conversa com os investigadores do ITQB

Informação recebida do Instituto de Tecnologia Química e Biológica:

Ser cientista: mas afinal o que é isso?
À conversa com os investigadores do ITQB
Semana da Ciência e da Tecnologia 2009

Uma oportunidade para saber mais sobre os desafios dos investigadores em Portugal. Em pequenos grupos, os visitantes são convidados a conversar com investigadores do ITQB para descobrir em primeira mão o que é afinal isso de ser cientista.Da ciência às motivações pessoais, das alegrias às frustrações, do dia-a-dia às oportunidades de carreira, a ideia é mesmo que cada um pergunte aquilo que gostaria de saber.

Aqui fica o nosso convite!

Sessão 1 - Terça-feira, 24 de Novembro às 15h00

Sessão 2 - Quarta-feira, 25 de Novembro às 15h00

Sessão 3 - Quinta-feira, 26 de Novembro às 15h00


É necessária inscrição

Cada sessão contará com a presença de vários investigadores, podendo cada grupo de visitantes conversar com mais do que um investigador.
Um fórum ideal para alunos universitários e do ensino secundário; a inscrição de escolas também é possível (aconselhamos os professores a ter os grupos de 4-6 alunos previamente definidos).
Entrada livre

Inscrições para sci@itqb.unl.pt / 214469350

ITQB-UNL | Av. Republica, EAN | Oeiras | www.itqb.unl.pt

domingo, 8 de novembro de 2009

A canção do PCR

Muitos já terão ouvido o popular Hino aos Funcionários Públicos de Portimão, mas não conhecerão a canção do PCR (Polymerase Chain Reaction), uma técnica que é uma espécie de máquina de fotocópias de ADN, pelo qual foi atribuído o Nobel da Química em 1993.

Oiça e delicie-se com a biologia molecular!




There was a time when to amplify DNA,
You had to grow tons and tons of tiny cells.
(Oooh) Then along came a guy named Dr. Kary Mullis,
Said you can amplify in vitro just as well.

Just mix your template with a buffer and some primers,
Nucleotides and polymerases too.
Denaturing, annealing, and extending,
Well it’s amazing what heating and cooling and heating will do.

PCR when you need to detect mutation (detect mutation)
PCR when you need to recombine (recombine)
PCR when you need to find out who the daddy is (who’s your daddy?)
PCR when you need to solve a crime (solve a crime)

O rapto de Perséfone

Perséfone (Prosérpina, na mitologia romana) era filha de Zeus e Deméter, a deusa das colheitas e também da fertilidade (Júpiter e Ceres respectivamente em Roma).

Bela, a jovem Perséfone, passava os seus dias idilicamente brincando nos campos floridos. Até que, um dia, Hades (Plutão), que tinha a seu cargo o Reino dos Infernos, se apaixonou, ao vê-la, quando passeava no seu carro puxado por cavalos. Num ímpeto, decidiu raptá-la e assim a conduz ao subsolo, onde reinava.

Deméter incessantemente procurou a sua filha, durante nove dias e nove noites, e, neste desvaire, esqueceu, entregue à dor, as suas atribuições. Aos campos faltaram as colheitas, às árvores faltaram os frutos, a terra secou.

Zeus, ao ver o deserto em que a terra se convertia, fruto da tristeza desta desesperada mãe, conseguiu que Hades acedesse à vinda de Perséfone à Terra durante meio ano. Deste modo, quando Perséfone regressou para junto da sua mãe, Démeter mostrou a sua alegria, fazendo crescer as flores e os frutos. Porém, quando foi tempo da descida da jovem ao subsolo, o desalento da sua mãe converteu-se na tristeza do Outono e do Inverno.

Este mito renova-se anualmente no ciclo das estações já que o imaginário grego assim explicava a sua sucessão: à tristeza e escuridão dessas duas estações sobrevém a alegria e a serenidade que o coração de Deméter guarda, quando a filha retorna a casa. Para os Gregos, a Primavera começava nesse momento.

São inúmeras as belas representações deste mito. Lembro aqui Bernini (século XVII), através da escultura que acima se reproduz, exposta na Galeria Borghese, em Roma. Também o nosso Palácio de Queluz está adornado com este belo mito. Clique aqui para visitar os seus jardins.

No alvorecer da civilização


"Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade." Fernando Pessoa

Com o alvorecer da civilização, o Homem expressou o seu conhecimento, ou reconhecimento dos fenómenos físicos que o cercavam através de relatos expressivos. «Esse nada que é tudo», citando Pessoa, o mito, passa a explicar a vida, a natureza e a própria essência humana.

A cultura ocidental herdou, em particular, o património mítico imaginativo, estético e rico da cultura grega, que Platão definira como «um reconto que envolve deuses e seres divinos» e que se opõe à racionalidade do logos, típico da reflexão filosófica.

Esta galeria mitológica reverterá em Arte, da literatura à escultura, à pintura, e estabelecendo, frequentemente, pontes com áreas do conhecimento científico, como é o caso, mais notório, da Psicologia.

Assim, não será talvez descabido repassarmos juntos este vastíssimo património, que continua a fascinar, pelos belíssimos legados que inspirou. Faremos, pois, aqui breves alusões aos mitos gregos, que ilustraremos com representações artísticas, de diferentes épocas, que deles brotaram, e que constituem parte da história da humanidade.

sábado, 7 de novembro de 2009

O GALO ENGANADO



A Philips criou uma lâmpada que enganou um galo...

ESCOLAS OLÍMPICAS APRESENTAM PROJECTOS


Informação recebida do Museu de Ciência da Universidade de Coimbra:

Dia 8 de Novembro às 17 horas

Jovens medalhados contam no Museu da Ciência da UC como conseguiram o melhor resultado olímpico de sempre para Portugal

Não têm ainda idade para frequentarem a Universidade, mas são preparados ao mais alto-nível pelas Escolas Olímpicas da Universidade de Coimbra (UC). Em 2009, conseguiram para Portugal o melhor resultado de sempre nas Olimpíadas Internacionais de Matemática e de Física. Quais são os segredos destes jovens atletas? Quais os planos das escolas olímpicas para a nova temporada? No arranque do ano olímpico, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra promove, no dia 8 de Novembro (domingo), pelas 17h00, a sessão de apresentação da edição 2009/2010 dos projectos das Escolas Olímpicas da UC "Delfos" e "Quark!", que contará com a presença de alguns dos medalhados.

Desde o início da participação de Portugal nas Olimpíadas Internacionais de Matemática e Física que a Universidade de Coimbra tem vindo a preparar as equipas de jovens pré-universitários que representam Portugal nessas competições. Em 2009 estas equipas conquistaram um elevado número de medalhas nas competições internacionais, no melhor resultado global da história de participação olímpica portuguesa. Na competição de Matemática, os seis alunos portugueses alcançaram a primeira medalha de prata, três de bronze e duas menções honrosas; em Física, os cinco jovens representantes de Portugal arrecadaram três medalhas de bronze.

As escolas olímpicas da UC, “Delfos” e “Quark!”, acolhem anualmente largas dezenas de jovens talentos, oriundos de vários pontos do país. Estas “escolas” de excelência, combinam sessões presenciais aos fins de semana com formação à distância pela Internet e contam com a colaboração das Sociedades Portuguesas de Matemática e de Física.

No Museu da Ciência da UC, as escolas irão apresentar os projectos para a nova temporada. No novo ano olímpico, em parceria com a escola Quark!, o Jazz ao Centro Clube irá promover nas noites de sábado dos fins de semana quarkianos uma série de tertúlias abertas ao público em geral, com a presença de artistas e agentes do meio jazzístico, onde serão debatidos vários aspectos da relação entre a música improvisada, a ciência e as tecnologias.

Uma outra novidade para 2009/2010 é a organização de um ciclo de palestras sob o tema “Ciência e Ficção”, promovidas pelo Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, sedeado no Departamento de Física da UC. Estas palestras são abertas ao público e contarão com alguns convidados de renome da divulgação científica em Portugal.

Os projectos olímpicos "Delfos" e "Quark!" são apoiados por conjunto de empresas tecnológicas com ligações directas à Física e à Engenharia Física, como a ISA, empresa de Coimbra na área da instrumentação e telemetria criada por Engenheiros Físicos da UC.

Mais informação sobre os projectos Delfos e Quark em:

http://mat.uc.pt/~delfos
http://quark.fis.uc.pt

A AMÉRICA DESCOBRE O ALENTEJO


Ler no "New York Times" de hoje: aqui. Na figura o castelo do Crato.

VARINHAS MÁGICAS


Habitual destaque de fim de semana para a coluna electrónica "What's New" do físico Robert Park:

DIVINING: THIS TIME, IT’S A BOMB DETECTOR.

There it was, on the front page of the New York Times; the Iraqi government has purchased more than 1500 devices known as the ADE 651 to use at checkpoints. That stands for Advanced Detection of Explosives. The 651 is the latest detection device marketed by ATSC (UK) Ltd. It consists of a thin rod mounted on a swivel held by pistol grip, and is said to point to explosives. That's all it is, there are no sensors. According to Rod Nordland who wrote the article, a retired USAF officer said the device is nothing more than an explosives divining rod,. The stupid Iraqis don't know this and paid $16,500-$60,000 each for them, even though American officers told them the devices are worthless. Boy, are they dumb! Wait, the NYT failed mention that the US Department of Defense was sold on these devices back in the 90s Although it was classified, they tipped off their favorite novelist, Tom Clancy, that the incredible device could detect people through thick walls by sensing their heartbeats. It was the basis of "Rainbow Six" (here). It was a scam. Thousands of similar devices are still in use by local police around the country to satisfy "probable cause" requirements for a property search. ATSC also sells a narcotic detector, but it's exactly the same device with a different number.

Robert Park

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Novamente o exame de acesso à carreira docente


“Para ensinar há uma formalidade a cumprir, saber” – Eça de Queiroz.

Em finais de 2007 lia-se na imprensa uma notícia intitulada “A vice-reitora da Universidade de Coimbra defende exame para acesso à docência". De forma institucional ficou-se a saber que Cristina Robalo Cordeiro, pois é dela que se trata, subscreveu um parecer suportado em três princípios: “qualidade de ensino e equidade de acesso à profissão docente; exigência acrescida para uma competitividade a nível europeu; e reconhecimento de que nunca a pedagogia consegue que um professor ensine aquilo que não sabe.”

Vivia-se então o tempo, que se perpetua em nossos dias, de alunos diplomados pelas escolas superiores de educação passarem à frente dos alunos saídos das faculdades nos concursos para professores do 2.º ciclo do ensino básico, através da classificação do respectivo diploma escolar. Desta forma, um escasso valor superiorizava-se (e superioriza-se) à maior complexidade de currículos, duração de anos de estudos e maior classificação de acesso trazida do ensino do 12.º ano do ensino secundário por parte dos docentes oriundos do ensino universitário.

Dias atrás, em post publicado neste blogue, “Um comunicado da Fenprof” (31/10/2009), deixei o seguinte post-scriptum: “Um outro ponto do comunicado da Fenprof merece uma análise aprofundada que ficará para outra altura. Refiro-me a uma outra exigência sindical: ‘A extinção da espúria prova de ingresso na profissão docente e respeito pelas qualificações dos docentes e pela autonomia das escolas na verificação das condições para o exercício da profissão’”.

É chegado, portanto, o momento de ser feita a abordagem de uma problemática que parece ter em pouca conta o princípio formulado por Eça citado em epígrafe: “Para ensinar há uma formalidade a cumprir, saber”.

A necessidade de exigência na formação dos docentes foi posta em evidência numa intervenção de Reis Torgal, professor catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra que, num debate promovido pela Associação Académica de Coimbra, em 19 de Fevereiro de 2003, se insurgia já contra a formação de professores para o 2.º ciclo do ensino básico a cargo simultâneo das faculdades e das escolas superiores de educação. Mereceu, ainda, crítica o verdadeiro escândalo da atribuição do grau de licenciado a diplomados pelas antigas escolas do magistério primário, após a frequência de um curso de complemento de habilitações em escolas privadas de duvidosa credibilidade que ministram cursos de escassa duração e pouca confiança. Tudo deixa supor ter ficado retida à entrada das fronteiras portuguesas a advertência do transalpino Cesar Cantu: “Não mudem de sentimentos conforme as ocasiões e não namorem a popularidade, renegando a própria consciência”.

As escolas superiores de educação foram criadas, em doutrina e intenções iniciais, para regiões carenciadas de ensino superior. Mas, com a complacência ou mesmo pusilanimidade dos poderes públicos que navegam em cascas de noz num mar de ondas agitadas pelos sindicatos e interesses pessoais dos alunos, logo se instalaram, de armas e bagagens, em cidades de longa e cimentada tradição universitária como Coimbra, Lisboa e Porto!

Segundo notícia do “Expresso”, de 9 de Fevereiro de 2008, intitulada “Erros nas universidades”, alunos da Faculdade de Letras de Lisboa queixavam-se de que “os maus tratos do Português chegam ao corredor da universidade”. E prossegue a notícia: “Temos colegas que dizem ‘púzio’, em vez de pu-lo. (…) ‘Fizestes’, ou ‘dissestes, em vez de ‘fizeste’ ou ‘disseste’, ‘derivado a’ ou ‘tênhamos’ são mais alguns exemplos do que os estudantes escutam a toda a hora”. Ora, se é assim que os estudantes universitários se expressam verbalmente difícil me não parece extrapolar erros de palmatória a precisar da menina dos cinco olhos da antiga escola primária no que respeita aos seus textos manuscritos.

Da minha parte, a defesa de um exame de acesso à carreira docente não é de hoje, como prova a seguinte transcrição de um meu post: “Não posso deixar de estranhar que, em vésperas da discussão do exame de ingresso na carreira docente, Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof e porta-voz da Plataforma Sindical dos Professores, entre nestas negociações numa atitude que eu diria de pé em riste ‘garantindo que a Fenprof as não vai aceitar’. Há todo o interesse em se saber a posição dos outros sindicatos sobre a avaliação dos candidatos à docência versando o domínio da língua portuguesa e dos conhecimentos científicos da área a leccionar. Por exemplo, o que pensa o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados que ‘nasceu para defender os interesses específicos dos professores licenciados por universidades?’” (De Rerum Natura, 28/01/2009).

Estamos, portanto, na presença de uma nova e mais acrimoniosa ofensiva por parte da Fenprof contra as provas de acesso à docência, adjectivada por Mário Nogueira de “espúria”. Com o mesmo direito que lhe assiste nesta renovada frente de combate, assiste-me a prerrogativa desta contra-ofensiva. E ela nunca foi tão necessária numa altura em que a Fenprof, a exemplo de um qualquer caçador desastrado, se prepara para atirar sobre tudo quanto mexe em benefícios de natureza duvidosa!

Breve História dos Vírus IV


Continuação da série de artigos sobre os vírus da autoria de António Piedade, que têm saído n' "O Despertar":

Como é que os cientistas detectam os vírus? Sendo entidades sub-microscópicas, o melhor seria dizê-las nanoscópicas (o seu tamanho varia entre os 30 nm e os 500 nm, e 1 nm é um milhão de vezes menor que 1 mm), não é estranho pensarmos que a sua detecção pela “simples” observação ao microscópio óptico seja muito difícil.


Só com microscópios ópticos de alta resolução, com uma grande capacidade de ampliação, é possível observar as partículas virais. Aliás, a arquitectura viral só foi melhor conhecida com o advento do microscópio electrónico e foi com ele que os virologistas, ou seja os que se dedicam especificamente ao estudo dos vírus, captaram o perfil desses agentes patogénicos. Por outro lado, a cristalografia por difracção de raios X (técnica de resolução de estruturas moleculares utilizada pelos vencedores do prémio Nobel da química deste ano) permitiu detalhar a regularidade espacial presente nas cápsulas proteicas (capsídeos) que formam os vírus. O primeiro vírus a ser cristalizado (1935) e a ser estudado em detalhe por difracção de raios X (1941) foi o vírus do mosaico do tabaco. Curiosamente, acabou por ser Rosalind Franklin (a ignorada investigadora da estrutura do ADN) a resolver a estrutura tridimensional para este vírus em 1955.

A “visualização” por estas técnicas tem o “inconveniente”de não permitir manter os vírus num ambiente celular vivo: ao preparar a amostra a ser observada o investigador tem de imobilizar ou cristalizar “definitivamente” um momento da vida do vírus. O que se ganha em detalhe de forma perde-se em dinâmica da actividade viral. De volta ao óptico: com este microscópio é possível manter as preparações biológicas vivas e assim visualizar, com a paciência e perícia necessárias, as estratégias, movimentos e danos virais. Digamos que os dois se complementam.

Esta dificuldade na detecção visual dos vírus explica porque é que as primeiras imagens virais só foram obtidas indistintamente em meados do século passado. Em 1938, B. Borries, H. Ruska e E. Ruska (este último foi galardoado com o prémio Nobel da Física em 1986 pelo desenvolvimento do microscópio electrónico, ver aqui) apresentaram ao mundo a primeira micrografia electrónica de um vírus, dos vírus ectraomelia e vaccinia (responsáveis por tipos de varíolas), confirmando a existência física de uma entidade patogénica há muito anunciada e combatida. Recorde-se, a título de curiosidade, que as primeiras bactérias foram visualizadas com o microscópio óptico no ano de 1668 por Antoine van Leeuwenhoek.

Pelo que se disse fica suspeito que as primeiras investigações sobre a existência da entidade patogénica não celular responsável por doenças fatais, com enorme capacidade de propagação por contágio e infecção, devem ter sido efectuadas por outros meios de investigação que não os da microscopia. De facto, o trabalho laboratorial de identificação e isolamento da entidade virulenta presente em fluidos biológicos filtrados, de soros animais ou de suspensões bacterianas, foi um trabalho hercúleo cuja história merece ser contada (Continua).

António Piedade

Legendas:

Figura 1: 1918-1919 – Pandemia do vírus influenza 40 a 100 milhões de mortes em todo o mundo. Crédito: http://www.ictvonline.org

Figura 2: 1938 – Primeira micrografia electrónicade um vírus (B. von Borries, Ruska E, Ruska H. Bakterien und Virus in über-mikroskopischer Aufnahme. Klin Wochenschr 1938; 17: 921-25).

ESTE É UM CAMINHO QUE A ESCOLA PÚBLICA NÃO PODE RECUPERAR

Compare-se a letra inequívoca da Lei com a fotografia (muitíssimo perspicaz) de Tiago Miranda. O título da notícia (ver aqui ) alude ao ...