domingo, 16 de dezembro de 2007

Porquê Deus, se tenho a ciência? I

Dado que se discute por vezes neste blog as relações entre a ciência, a filosofia e a religião, decidimos convidar o professor Alfredo Dinis para expor as suas ideias sobre estes temas. Padre jesuíta, Alfredo Dinis é licenciado em Filosofia e em Teologia, e doutorado em História e Filosofia da Ciência na Universidade de Cambridge (Inglaterra). É director da Faculdade de Filosofia de Braga, onde lecciona Lógica e Cristianismo e Cultura. É também presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências Cognitivas, e director da revista de psicologia Pessoas e Sintomas. Dividimos a sua colaboração em duas partes.

1. Porquê a ciência, se tenho Deus? A questão da relação entre ciência e religião interessa-me desde há muito tempo, mas devo confessar que não é fácil encontrar pessoas que do lado da religião tenham suficiente informação sobre a ciência, e vice-versa. Mesmo da parte das elites cristãs, como são os teólogos, não é fácil encontrar pessoas que não só estejam informadas sobre os dados científicos, mas que também compreendam, sem desnecessárias ansiedades, as implicações que esses dados poderão ter para a própria teologia. O heliocentrismo defendido por Copérnico e Galileu teve enormes, para não dizer devastadoras, implicações na teologia cristã: destruiu completamente o universo medieval. E isso foi uma "bênção" para a teologia. Sem a revolução copernicana, e toda a revolução cosmológica subsequente, ainda estaríamos hoje a acreditar que o empíreo, a habitação de Deus, dos anjos e dos santos, estava situado por detrás da esfera das estrelas fixas! O evolucionismo proposto por Charles Darwin tem consequências ainda maiores. Contemporaneamente, as ciências cognitivas lançam novos desafios à compreensão do ser humano e da sua experiência religiosa. A teologia só tem a ganhar se levar a sério estes novos dados que lhe vêm da ciência. Os teólogos não se poderão limitar a achar interessantes as teorias científicas, como se não tivessem de as estudar e levar a sério enquanto teólogos. A teologia deve retirar das teorias científicas suficientemente fundamentadas as implicações que introduzam modificações no próprio discurso teológico e na autocompreensão que o cristianismo tem de si mesmo. De outra forma, os teólogos poderão estar a fazer um discurso cada vez mais irrelevante.

2. Cristianismo e evolucionismo. O evolucionismo constitui uma aquisição científica da humanidade. As suas implicações filosóficas, éticas e religiosas são imensas. Isto cria um estado de alta ansiedade em muitos crentes, não apenas cristãos. Pude constatar isto mesmo no decorrer de um congresso sobre ciência e religião em que participei, na Universidade Médica de Teerão (2006). Os fundamentalismos correspondem objectivamente a altos estados de ansiedade em quem acredita que todas as proposições religiosas são intocáveis, e em quem se vê de súbito confrontado com a necessidade de introduzir modificações nessas proposições. Tentativas de deixar tudo na mesma como o criacionismo e o intelligent design, são formas inadequadas de lidar com altos estados de ansiedade provocados pelo evolucionismo. João Paulo II aceitou formalmente o evolucionismo não apenas como uma hipótese mas como uma teoria com suficiente evidência. Mas as implicações teológicas do novo paradigma têm sido muito pouco explicitadas, precisamente porque levam a introduzir alterações no discurso teológico para as quais poucos teólogos estão preparados. Teilhard de Chardin (1881-1955) explicitou corajosa e lucidamente essas implicações. Para ele, o evolucionismo não só é aceitável como deve levar a teologia cristã a um repensamento profundo do seu discurso sobre a origem da vida e até mesmo sobre a concepção de Deus. Deus deixa de ser o imutável e absolutamente transcendente para se tornar num Deus cuja história intersecta a do universo e da humanidade e, por que não, a história de todas as “humanidades” que existirão nos inúmeros planetas habitados por esse universo fora! E, por que não dizer, por esses universos fora? Também o teólogo Karl Rahner (1904-1984) procurou compreender o que muda no cristianismo tendo em conta o evolucionismo. Contudo, ainda hoje para muitos cristãos, a origem do mundo e da humanidade é a que vem descrita no Génesis, literalmente interpretado. Esta, porém, não é a posição de um cristianismo amadurecido no contacto com a ciência contemporânea e com um método actualizado de interpretação da Bíblia.

3. Ler a Bíblia hoje. A interpretação da Bíblia tem conhecido mudanças significativas desde o século XIX, mas a leitura abstracta e literal de passagens que devem ser lidas contextual e, por vezes, metaforicamente, é ainda praticada por muito poucos. Tanto o criacionismo, como a afirmação repetidamente feita pelos críticos do cristianismo acerca do carácter sanguinário do Deus do Antigo Testamento, por exemplo, baseiam-se numa leitura do texto bíblico que já pertence à história. Não há um conceito de Deus no Antigo Testamento, mas vários. Os livros que compõem o Antigo Testamento não constituem um curso sistemático de teologia, mas a interpretação que o povo judeu fez da sua história a partir da crença num Deus único. Quando venciam e destroçavam outros povos, os judeus só podiam concluir que esse Deus estava com eles e lhes ordenava que destruíssem os seus adversários. Mas isso não significa de modo algum que devamos tomar essa interpretação como correspondente ao facto de Deus ser tão sedento de sangue, de destroços e de despojos quanto o povo judeu.

4. Imagens incorrectas do cristianismo. Uma ideia muito divulgada entre os críticos da religião em geral e do cristianismo em particular é a de que os crentes se consideram possuidores de uma visão total, coerente e integrada de Deus, do universo e da vida, não tendo portanto quaisquer dúvidas sobre o quer que seja, e que se alguma dúvida surge, ela é prontamente resolvida pelos padres e pelos teólogos; os crentes acreditam em dogmas rigidamente formulados e que não podem ser discutidos criticamente na sua formulação; a crença religiosa é uma questão de se aceitar cegamente até mesmo o que é absurdo, porque foi revelado por Deus; a religião alimenta-se de milagres, de crenças bizarras; etc., etc. Devo dizer que não me reconheço minimamente em tais caricaturas do cristianismo apresentadas em livros, artigos e textos vários cuja publicação se tem recentemente multiplicado, também neste blog. Considero além disso que, objectivamente, estas caricaturas não correspondem à realidade do desenvolvimento histórico do cristianismo nem à sua actualidade. Os cristãos não sabem tudo, as dúvidas são elementos integrantes da crença religiosa, e o espírito crítico é fundamental para que a religião não caiam no dogmatismo fundamentalista ou na superstição. Além disso, os tradicionais dualismos como natural/sobrenatural, imanente/transcendente, este mundo e o outro, etc., tradicionalmente relacionados com a crença religiosa, exprimem mal, a meu ver, a autocompreensão do cristianismo.

Alfredo Dinis

Materiais superoleofóbicos

Já todos apreciámos magníficas fotos ou filmes (recordo um recente na National Geographic) com grandes planos de insectos que andam na superfície da água como se esta tivesse uma «pele» elástica. Esta «pele» na realidade é (mais) uma das propriedades anómalas apresentada pela água: a sua elevada tensão superficial de que já falei a propósito dos vulcões de Mentos e Coca-Cola.

A tensão superficial resulta do desequilíbrio das forças intermoleculares estabelecidas pelas moléculas na superfície do líquido. Assim, a tensão superficial é uma medida da intensidade das forças intermoleculares mas reflecte muito fortemente as dimensões da molécula, nomeadamente a área que esta ocupa na interface líquido-gás, a sua área superficial.

Para além da «pele», a tensão superficial, que se pode medir calculando o trabalho necessário para aumentar a superfície de um dado líquido, explica fenómenos como a capilaridade, a forma das gotas desse líquido e outra propriedade muito importante a que chamamos molhabilidade.

Assim, quanto menor a tensão superficial de um líquido maior é a sua molhabilidade ou a facilidade com que se espalha. As implicações deste fenómeno são várias, não só em muitas situações industriais - processos de fermentação, formação de gelo em alimentos congelados, estabilidade de emulsões e espumas, etc. -, como em muitas situações biológicas, por exemplo a nível dos pulmões. Neste exemplo, os pulmões recorrem a surfactantes pulmonares, os fosfolipídos, que baixam a tensão superficial da água nas paredes dos alvéolos e facilitam a difusão do oxigénio.

Os hidrocarbonetos, especialmente os de baixo peso molecular como os constituintes da gasolina, apresentam tensões superficiais muito baixas o que faz com que se espalhem facilmente. E se a Natureza é fértil em soluções hidrofóbicas (que repelem a água) - como as que recobrem as penas de aves e impedem que estas sejam molhadas pela água - não produziu materiais oleofóbicos que, por exemplo, ajudem a minorar as consequências de derrames como o do Prestige ou o mais recente no MarNegro.

Na revista Science de 7 de Dezembro, são apresentados no artigo «Designing Superoleophobic Surfaces» os primeiros materiais oleofóbicos, desenhados por cientistas do MIT. Na figura seguinte, é representada uma folha de lótus em contacto com água (a azul) e octano (a vermelho) antes (imagens superiores) e depois de revestida com um destes materiais.

A equipa do MIT resolveu o problema da baixa tensão superficial dos hidrocarbonetos desenhando um material compósito, microfibras que essencialmente «almofadam» gotas destes líquidos e impedem que estas se espalhem na superfície do material.

As microfibras são uma mistura de polímeros vulgares e moléculas denominadas fluoroPOSS - POSS, polyhedral oligomeric silsesquioxanes, ou seja, silsesquioxanos poliédricos oligoméricos, compostos de silício que têm gerado muito interesse nos últimos tempos pelas suas potencialidades no desenho de compósitos híbridos orgânicos-inorgânicos para aplicações em electrónica e fotónica, entre outras. Os silsesquioxanos, igualmente denominados esferosiloxanos por apresentarem estruturas poliédricas/cúbicas que são topologicamente equivalentes a uma esfera, exibem uma energia de superfície extremamente baixa.

Os compósitos desenvolvidos pelo MIT podem ser depositados em praticamente todas as superfícies, incluindo metal, vidro, plástico e mesmo superfícies biológicas como sejam as folhas de plantas. Ajustando os parâmetros de que dependem as propriedades destes materiais, os cientistas podem desenhar fibras que repelem diferentes tipos de hidrocarbonetos, e conseguiram mesmo produzir um material que permite a separação de água e octano (jet fuel).

A Força Aérea norte-americana, que financiou o projecto, está interessada em utilizar estes materiais para proteger do combustível os componentes de aviões e foguetões que podem sofrer danos estruturais depois de embebidos em hidrocarbonetos mas diria que as suas aplicações possíveis não se esgotam na oleofobicidade, como é exemplo o filtro de jet fuel representado.

sábado, 15 de dezembro de 2007

As armaduras da evolução

Dentro de pouco mais de um ano, em 12 de Fevereiro de 2009, celebra-se o bicentenário do nascimento de Charles Robert Darwin, ano em que se assinalam igualmente os 150 anos de publicação de «A Origem das Espécies», livro que marcou profundamente toda a ciência e a forma como descrevemos o mundo.

Na génese do livro está a viagem que um Darwin de apenas 22 anos iniciou a bordo do HMS Beagle. Recomendado por John Stevens Henslow, seu profesor em Cambridge, Darwin embarcou no Beagle a 27 de Dezembro de 1831 numa expedição à volta do mundo que durou quase cinco anos, até 2 de Outubro de 1836. Durante a viagem Darwin leu os «Princípios da Geologia» de Charles Lyell - que seria posteriormente um defensor do evolucionismo, nomeadamente no livro «A Evidência Geológica da Antiguidade do Homem», publicado em 1863. Lyell descrevia as características geológicas da Terra como o resultado de processos graduais ocorrendo ao longo de grandes períodos de tempo e não de acontecimentos catastróficos e repentinos.

O Beagle percorreu as costas atlântica e pacífica da América do sul o que permitiu a Darwin a realização de expedições terrestres para recolher exemplares da fauna e da flora locais. Nestas expedições, Darwin encontrou, entre outros, fósseis de animais extintos como o megaterium e o gliptodonte em camadas que não mostravam quaisquer sinais de catástrofe ou mudanças climáticas. Inicialmente Darwin pensou serem esses animais fossilizados similares a outros encontrados em África mas, após o seu regresso, Richard Owen mostrou-lhe que estes fósseis eram mais parecidos com animais não extintos que viviam na mesma região (preguiças e tatus).

Na primeira edição de «A Viagem do Beagle», a influência de Lyell pode apreciar-se na adopção por Darwin da teoria de Lyell de «centros de criação» para explicar a distribuição das espécies que encontrou. Em edições posteriores, a fauna encontrada nas Ilhas Galápagos era já evidência para Darwin da evolução que seria consagrada com «A Origem das Espécies»: «é possível imaginar que algumas espécies de aves neste arquipélago derivam de um número pequeno de espécies de aves encontradas originalmente e que se modificaram para diferentes finalidades».

Não parece improvável que os fósseis do gliptodonte, um «parente» dos tatus, que se extinguiu por volta da época em que se pensa que o homem chegou ao continente americano e que com os seus cerca de 3 metros de comprimento e peso de aproximadamente 1.4 toneladas mais parecia um tanque de assalto, tenham ajudado ao estabelecimento da teoria da evolução.

Na edição de quarta feira da revista «Journal of Vertebrate Paleontology» é descrito no artigo «A New Basal Glyptodontid and other Xenarthra of the Early Miocene Chucal Fauna, Northern Chile» o fóssil de um ancestral do gliptodonte com cerca de 18 milhões de anos, descoberto em 2004 na região Salar de Surire, no altiplano chileno, a 4.300 metros de altitude.

A nova espécie, baptizada Parapropalaehoplophorus septentrionalis, com cerca de um metro de comprimento e 90 kg, de acordo com um dos paleontólogos, «Pareceria uma mistura entre uma tartaruga e um tatu, mas claro que está mais relacionada com os tatus».

A equipa de paleontólogos da Universidade Case Western Reserve, do Museu Americano de História Natural e da Universidade da Califórnia em Santa Barbara que descobriu e estudou o fóssil acredita que esta área dos Andes, o habitat da fauna Chucal - cerca de 18 espécies extintas evidenciadas pelo registo fóssil encontrado na região - e a maior elevação no hemisfério ocidental em que se descobriram fósseis de vertebrados, era uma savana aberta cerca de mil metros acima do nível do mar quando os mamíferos que descobriram viveram no local, há 18 milhões de anos.

Como referiu John Flynn do Museu Americano de História Natural em Nova Iorque, «Os nossos e outros estudos no Altiplano [chileno] sugerem que a região se encontrava a uma muito mais baixa altitude, fornecendo novos dados para o timing e taxa de elevação dos Andes». Ou seja, o estudo agora publicado é apenas mais um que esclarece detalhes da teoria mais marcante do século XIX e de uma das teorias que a influenciou, as evoluções biológica e geológica de Darwin e Lyell.

Na imagem: uma reconstituição do P. septentrionalis, crédito de Velizar Simeonovski.

DINOSSAUROS, PIRÂMIDES E JFK


Minha crónica do último "Sol":

Qual é a relação entre dinossauros, pirâmides e JFK? Pois o norte-americano Luis Walter Alvarez, Prémio Nobel da Física de 1968, estudou estes três assuntos. Ele ganhou o Nobel pela descoberta de partículas elementares usando câmaras de bolhas. Mas a revista “American Journal of Physics” de Novembro último (da Associação Americana de Professores de Física) informa-nos sobre os esforços bem sucedidos de Alvarez para resolver enigmas na paleontologia, na história antiga e na história moderna.

A ideia da extinção dos dinossauros por um acidente cósmico é hoje bem conhecida. Foi precisamente Luis Alvarez, em conjunto com o seu filho geólogo (Walter como o pai, mas sem o Luís), quem formulou em 1980, com base na descoberta de traços de irídio nos estratos entre o Cretácico e o Terciário, a hipótese de que a extinção dos dinossauros se teria devido ao impacte de um grande meteoro. Uma grande cratera foi encontrada no México dez anos mais tarde...

Falava-se de uma câmara oculta no interior da pirâmide de Quéfren, no Cairo. Para a localizar Luis Alvarez colocou um detector de raios cósmicos numa câmara conhecida por baixo da pirâmide. O que ele fez não foi mais do que tirar uma espécie de radiografia à pirâmide, mas usando muões naturais em vez de raios X. A partir da observação das partículas recolhidas concluiu que a tal câmara secreta não passava de um boato.

Finalmente, e para investigar a teoria conspirativa segundo a qual havia um segundo atirador a disparar, em Dallas, sobre o presidente Kennedy, analisou um filme da passagem do carro presidencial. Havia quem dissesse que um tiro dado de frente teria feito recuar a cabeça do presidente. Mas Alvarez, com base na observação dos “frames” (não esqueçamos que era um especialista em chapas fotográficas para registar partículas) e nas leis da física desmentiu categoricamente essa hipótese do segundo atirador.

Qual é a moral destas histórias? Quem sabe ciência fundamental, que parece inútil, é capaz de fazer a melhor ciência aplicada, que é muito útil!

Tratamento eficaz


Mais uma das interessantes crónicas de Pio de Abreu no jornal gratuito "Destak":

Há dois anos, em Janeiro de 2006, vivia-se o pânico da gripe das aves. A agenda mediática deu-lhe para aí, talvez por não haver notícias de crianças desaparecidas ou mal tratadas. O certo é que o povo sofria, então, com a perspectiva de uma epidemia tão avassaladora como a pneumónica de trágica memória.

O incansável Ministério da Saúde ficou alerta e as beneméritas empresas farmacêuticas mobilizaram-se. Da feliz combinação resultou que o país iria produzir vacinas para dar e vender. Ficaríamos auto-suficientes e não mais havia que temer a terrível pandemia.

Tudo iria acontecer numa fábrica de Condeixa. O acordo foi festejado com pompa e circunstância pelo Senhor Ministro da Saúde e demais autoridades, na presença de todos os canais televisivos. Dado o arrojo do projecto, com preparação de infra-estruturas e aquisição de tecnologia, a produção só se iniciaria em 2008. Mas a gripe podia, entretanto, aguardar até lá.

Nos dois anos que passaram, em vez de infra-estruturas e de aquisição de tecnologia, a dita empresa fez contas, estudos, prospecções e viagens. Conclusão: não tinha qualquer sentido produzir vacinas, e foi isso que decidiu agora (anda, aliás, a produzir genéricos, como todo o mundo em Portugal). Mas o povo está sossegado. A doença aconteceu na televisão e curou-se logo aí. E digam lá que não temos um grande serviço de saúde!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Humor: O Nosso Cérebro é Diodo!

O nosso cérebro é diodo!!!
De aorcdo com uma peqsiusa
de uma uinrvesriddae ignlsea,
não ipomtra em qaul odrem as
Lteras de uma plravaa etãso,
a úncia csioa iprotmatne é que
a piremria e útmlia Lteras etejasm
no lgaur crteo. O rseto pdoe ser
uma bçguana ttaol, que vcoê
anida pdoe ler sem pobrlmea.
Itso é poqrue nós não lmeos
cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa
cmoo um tdoo.

400 000

Mais um belo número, que nos contenta: chegámos às 400 000 visitas. Estamos contentes, mas queremos mais... Obrigado a todos os que nos têm visitado, esperemos que continuem e tragam mais gente. Em breve contamos chegar aos 1000 posts!

Energias alternativas: os carros do futuro estão a chegar


Na figura: Andreas Gutsch, director executivo da Li-Tec Battery apresenta a última geração de pilhas de lítio, o Separion (Figura: Li-Tec Battery)

Inventadas há mais de 200 anos, quando Alessandro Giuseppe Antonio Anastasio Volta rejeita o «fluido eléctrico animal» proposto por Luigi Galvani e inventa a primeira célula voltaica, em 1800, as pilhas electroquímicas sofreram desenvolvimentos consideráveis nos últimos anos, os mais divulgados a nível das células de combustível.

As pilhas e baterias são utilizadas num enorme número de aplicações mas a substituição de derivados do petróleo como alimentação de veículos automóveis por esta energia mais limpa tem apresentado muitas dificuldades, nomeadamente porque até há bem pouco tempo as baterias disponíveis eram pesadas, com pouca autonomia e difíceis de recarregar. A Toyota e outras companhias têm conseguido progressos notáveis no sentido de ultrapassarem estes problemas desenvolvendo baterias mais leves e mais potentes.

O lítio, o metal de número atómico 3, é o metal menos denso (mais «leve»), e com potencial normal mais baixo, isto é, permite o desenvolvimento de pilhas não só com a melhor razão energia/peso como com maior força electromotriz ou maior voltagem. As pilhas/baterias de lítio iónico ou lítio ião, desenvolvidas em meados dos anos 80 por John B. Goodenough para a Sony são comercializadas desde 1991 mas a sua baixa estabilidade térmica e a sua tendência para explodir quando sujeitas a elevadas temperaturas limitam o seu campo de aplicação.

Estes problemas levaram a Toyota a atrasar a instalação de baterias de lítio na terceira geração do Prius, que deverá sair em finais de 2008, provavelmente equipado com versões melhoradas das actuais baterias de hidreto de níquel.

Mas dois anúncios recentes prometem revolucionar em breve o mercado da energia limpa portátil com novas baterias de lítio. A ExxonMobil Chemical e a sua afiliada japonesa Tonen Chemical apresentaram um polímero revolucionário que permite melhorar a potência, segurança e estabilidade das baterias de lítio-ião usadas em veículos eléctricos e híbridos. O anúncio foi feito no 23rd Electric Vehicle Symposium and Exposition (EVS-23) que decorreu entre 2 e 5 de Dezembro perto da Disneylândia, em Anaheim na Califórnia.

Jim P. Harris, vice presidente da ExxonMobil Chemical Company afirmou «Com o que são essencialmente camadas muita finas de filme, podemos melhorar a performance de segurança da bateria e ajudar a tornar possível a próxima geração de carros híbridos e eléctricos».

Na Alemanha foi criado um consórcio, Lithium-Ion Battery LIB 2015, que pretende explorar as baterias de lítio-ião da firma Li-Tec, que «são 30% menos volumosas que as da Toyota e permitem uma autonomia três vezes maior com o mesmo peso dos modelos franceses». Em vez de um filme polimérico, a Li-Tec, uma pequena empresa que integrou o consórcio que inclui a Volkswagen, a BASF e a Bosch, inventou uma membrana cerâmica muito flexível que separa como um papel os dois elementos de pilha e permite uma maior estabilidade térmica.

Como referiu um porta-voz da Bosch «É um passo para tornar os automóveis completamente eléctricos».

Só podemos esperar que este passo seja dado rapidamente, assim como os que faltam para esse carros serem uma realidade dentro de pouco tempo.

O MUSEU DO CARAMULO


Se o Caramulo é um dos segredos turísticos de Portugal, o Museu do Caramulo é parte importante desse segredo. O Museu não devia ser segredo nenhum pois o seu grande edifício, no sítio do Caramulo, é fácil de encontrar pelos visitantes. De resto, no ciberespaço, há um “sítio” muito bem elaborado, por onde o visitante pode obter informações sobre o Museu e começar portanto a sua visita.

O que há para ver no Museu do Caramulo? Pois, para surpresa de muitos turistas, há no primeiro andar uma colecção de arte internacional, que começa por uma secção de quadros de grandes autores do século XX, onde sobressaem um Picasso e um Dali, que foram oferecidos pelos autores ao coleccionador Abel Lacerda, que dá o nome hoje à Fundação que gere hoje o Museu. E continua por quadros de autores portugueses de renome, como Vieira da Silva, Amadeu de Sousa Cardoso, Eduardo Malta (que fez um retrato a óleo de Salazar com a paisagem da Serra do Caramulo em fundo), Henrique Medina, Eduardo Nery, etc. A colecção é um pouco heterogénea, pois, além da pintura, inclui escultura, cerâmica, mobiliários, peças arqueológicas, etc. Digna de apreço especial é uma sala com tapeçarias flamengas do tempo de D. Manuel I.

Descendo para o rés-do-chão encontram-se, nas salas em redor do claustro, os modelos automóveis mais antigos. O mais antigo é um Benz de 1886 e o mais antigo ainda em funcionamento em Portugal é um Peugeot de 1889. É fantástico encontrar essas verdadeiras relíquias tecnológicas num sítio isolado como o alto da Serra do Caramulo, onde os automóveis antigos devem ter suado as estopinhas a subir. A exposição de carros continua num pavilhão ao lado do edifício principal do Museu, especialmente construído por João de Lacerda, irmão de Abel e apaixonado pelos automóveis antigos (infaustamente, falecido com apenas 36 anos), que contém o resto do total de 65 automóveis e 30 motas antigas. Lá está o Ford T de 1925, que foi o primeiro carro da colecção do Caramulo, devendo acrescentar-se que a empresa Ford, que já tem mais de cem anos de actividade, realizou há anos uma exposição temporária no Museu do Caramulo que documentou um século de Fords (se o leitor perdeu a mostra, ainda pode apanhar o catálogo, bastante informativo). O Ford T, resultado das ideias de massificação e democratização do automóvel do visionário Henry Ford (“O Ford T pode ser fornecido em qualquer cor, desde que seja preto”), foi considerado o carro do século XX, por nenhum depois dele ter tido a sua longevidade e impacto.

Uma particularidade bastante curiosa deste Museu do Automóvel é que praticamente todos os automóveis estão em perfeitas condições de funcionamento, podendo por isso sair do Museu para dar uma volta... De resto fazem-no duas vezes por ano, para “desenferrujar as rodas”.

Vários automóveis do Museu têm histórias interessantes. A mais mirabolante talvez seja a do Chrysler preto ao serviço de Salazar, que primeiro foi vítima de um atentado bombista e que depois, quando estava guardado no parque da prisão de Caxias, foi tomado por um grupo de presos políticos do Partido Comunista e usado para a evasão. Deve ter sido o cúmulo para eles fugir do cárcere no próprio carro do carcereiro! O carro foi na altura alvo de uma rajada de metralhadora, mas hoje está impecável, tal como os outros todos, no Museu.

Dá gosto ver o Museu do Caramulo dados o seu arrumo e conservação. Não há dúvida que surpreende a mescla que o Museu faz de arte e tecnologia. À primeira vista, os automóveis, produto tecnológico, parecem estranhos à arte. Mas, vendo-os com olhos de ver, eles são verdadeiras obras de arte e, por isso, não ficam mal perto dos quadros, das cerâmicas e dos tapetes. A ciência tem muito a ver com a arte. E a tecnologia, que é a ciência ao serviço das nossas vidas, também.

Efeméride: nascimento da teoria quântica

Mais uma contribuição de Luís Alcácer, a assinalar os 107 anos do nascimento da mecânica quântica, tão maltratada em anos mais recentes por pseudo-ciências e banhas da cobra sortidas.


O dia 14 de Dezembro de 1900, em que Max Planck formulou publicamente, pela primeira vez, a hipótese dos "quanta", marca o nascimento da mecânica quântica. Foi a ideia de que a luz era emitida (e absorvida) em quantidades discretas — os quanta — que, nas quase três décadas que se seguiram, levaram à criação de uma das teorias mais fecundas da história da ciência.

Vejamos em que consistiu a ideia de Planck.

Nesse dia, Max Planck deu uma conferência na Sociedade Alemã de Física em Berlim, na qual apresentou uma dedução teórica da fórmula que descreve a chamada "radiação do corpo negro". O "corpo negro" é um objecto ideal que absorve toda a radiação (luz) que sobre ele incide — não reflecte nenhuma radiação, parecendo portanto perfeitamente negro. Todos já observámos que um pedaço de carvão a alta temperatura emite luz (embora o carvão seja um corpo negro imperfeito). A intensidade da luz emitida pelo corpo negro e os seus comprimentos de onda são caracterísiticos da sua temperatura. Planck propôs que essa luz era emitida em quantidades discretas, ou seja, aos bocados. Planck não ousou ir ao ponto de dizer que a luz era um feixe de partículas, como Newton já tinha sugerido.

Na sua teoria, Planck partiu do princípio que a energia (sob a forma de luz) contida no corpo negro e que dele imanava, era formada por algo que vibrava como se fossem pequenas molas (osciladores) e assim conseguiu chegar a uma fórmula matemática que contém essas quantidades discretas, que agora se chamam quanta [i] e que são proporcionais à frequência da radiação que representam, sendo a constante de proporcionalidade designada hoje por constante de Planck [ii].

Não se pense que a ideia de Planck lhe surgiu de repente, caída do céu. Numa carta a Robert Williams Wood de 7 de Outubro de 1931, mais de trinta anos depois, Planck recordava: "posso caracterizar todo o processo (de dedução da fórmula inovadora) como um acto de desespero, uma vez que por natureza, sou uma pessoa calma e adversa a aventuras. Lutei durante 6 anos (desde 1894) com o problema do equilíbrio entre a radiação e a matéria sem chegar a nenhum resultado satisfatório. Estava consciente de que esse era um problema de importância fundamental e conhecia a fórmula que descrevia os resultados experimentais; portanto a interpretação teórica teria de ser encontrada a todo o custo." Note-se que Planck baseou a dedução da sua fórmula na suposição de que a radiação podia ser tratada como ondas electromagnéticas clássicas.

Em 1905, Einstein, no mais revolucionário dos seus cinco artigos desse mesmo ano, sugeriu que, pelo menos alguns tipos de radiação tinham propriedades de partículas materiais, admitindo a hipótese a que chamou "dos quanta de luz".

Essa hipótese explicava vários fenómenos, especialmente o efeito fotoeléctrico, que consiste em arrancar electrões de uma superfície metálica fazendo incidir sobre ela uma luz ultravioleta. Só se compreendia que os electrões (então apenas considerados como partículas), fossem arrancados do metal com a velocidade observada, se a luz fosse formada por partículas que colidiam com eles, arrancando-os do metal, sendo precisa uma energia mínima para os arrancar pois estavam ligados ao metal. Apesar das muitas aplicações, a maioria dos físicos não acreditava na hipótese dos quanta de luz. O próprio Planck, juntamente com outros físicos, escreveu em 1913, quando da proposta para Einstein leccionar na Universidade de Berlim "que ele tinha por vezes falhado o alvo nas suas especulações, como por exemplo, na história dos quanta de luz".

Durante a década seguinte, praticamente ninguém levou os quanta de luz a sério, pelo menos até Dezembro de 1922, altura em que surgiram os resultados da experiência de Arthur Compton, que implicavam inevitavelmente a interpretação de que, na interacção com os electrões, a radiação se comportava como se fosse um feixe de quanta, discretos, com energia e momento (ou quantidade de movimento) bem definidos, isto é, como partículas. O nome fotão para esse tipo de partículas foi sugerido por Gilbert Lewis em 1926.

Curiosamente, em 1924, em Paris, Louis de Broglie completava a sua tese de doutoramento, na qual demonstrava, com base na teoria da relatividade, que uma partícula material (com massa em repouso não nula), como o electrão, tinha comportamento de onda quando em movimento.

Uma das ideias fundamentais, senão a ideia mais fundamental, da teoria quântica é a de que quer a luz, quer as partículas materiais, como os electrões, se propagam como ondas, mas têm comportamento de partículas quando interactuam com outras. Essa ideia pode talvez ser melhor entendida com a ajuda do exemplo seguinte. Um quantum de luz, proveniente de um "laser", pode ser detectado numa placa fotográfica, onde é absorvido por um átomo de prata, desencadeando um processso que dá origem a um ponto negro. No processo de absorção, o "quantum" de luz comporta-se como uma partícula com energia e momento linear (produto da velocidade pela massa) bem definidos, que transfere para o átomo, o qual recua. Entre a fonte onde é emitido (como partícula) e o alvo onde é absorvido, o quantum de luz propaga-se como uma onda.

Também as partículas de matéria, como os electrões e os átomos, têm este comportamento dual — propagam-se como ondas, mas, quando interactuam com outras, têm o comportamento típico de partículas. Esta dualidade, perfeitamente assente e confirmada, tem várias consequências, algumas das quais são desconcertantes. Por exemplo, uma partícula não pode estar simultaneamente em dois lugares. Mas uma onda pode! Uma onda do mar pode virar vários barcos ao mesmo tempo.

O comportamento ondulatório das partículas em movimento é evidenciado pelos fenómenos de interferência, característicos das ondas. De facto, na mecânica quântica, como na óptica, quando uma onda pode seguir dois percursos diferentes (por exemplo, passando por duas fendas), a sua intensidade varia de lugar para lugar e mostra máximos e mínimos (riscas alternadamente claras e escuras, no caso da luz), cuja existência constitui o fenómeno de interferência. Basicamente, esse fenómeno é devido à sobreposição das amplitudes das ondas que seguiram os diferentes percursos. Sempre que deixamos que uma partícula (por ex., um electrão) passe livremente por duas fendas, observamos que ao passar simultaneamente pelas duas fendas, interfere consigo própria.

Claramente, é incorrecta a nossa descrição da realidade ao considerar o movimento de partículas como pontos materiais que descrevem trajectórias bem definidas de acordo com a lei de Newton, ou, por outro lado, considerar a propagação da luz como um fenómeno puramente ondulatório, de acordo com a teoria de Maxwell. A realidade é aparentemente mais complexa.

Que um electrão passe por duas fendas ao mesmo tempo, vá que não vá. Para mim, o electrão é algo estranho; é uma particula pontual (sem dimensões) e talvez não me choque que se comporte como onda, mas que moléculas relativamente grandes, com 60 ou mais átomos de carbono, sejam difractadas sem se decompor (equivalente a passar por duas fendas ao mesmo tempo) é certamente chocante. No entanto, vários resultados experimentais confirmam que assim é [iii].

Luís Alcácer
[i] Do latim: "quanta" é o plural de "quantum".
[ii] A constante de Planck é representada pela letra h e tem o valor h = 6,6260693 x10−34 J s.
[iii] Nature 409, 680 (1999). Para moléculas ainda maiores: http://physicsworld.com/cws/article/print/21590

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

MAIS CIÊNCIA E POESIA

A eventual oposição entre ciência e poesia encontra-se poeticamente retratada num poema do brasileiro Manuel Bandeira (na foto a Lua e Vénus):

"Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.
Desmetaforizada,
Desmistificada,
Despojada do velhe segredo.
Não é agora o filão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.
Ah! Lua deste fim de tarde,
Demissionário de atribuição romântica,
Sem show as disponibilidades sentimentais!
Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si:
-Satélite".

Encontrei este poema no livro de Ronaldo Mourão "Astronomia e Poesia", Difel, Rio de Janeiro, 1977 (Gilberto Gil, actual Ministro da Cultura do Brasil, tem um poema de sentido semelhante).

Delfos e Quark: duas escolas olímpicas


Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:

Delfos e Quark. Duas escolas olímpicas de Coimbra
15 de Dezembro de 2007 (16h30)

No arranque de um novo ano olímpico, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra promove, no próximo dia 15 de Dezembro, pelas 16h30m, uma sessão de divulgação das duas escolas olímpicas de Coimbra – Delfos e Quark, onde estarão presentes alguns jovens medalhados olímpicos que darão o seu testemunho e participarão num debate sobre a promoção da excelência no ensino secundário.

Numa semana em que o estudo PISA volta a mostrar um mau desempenho dos alunos portugueses em Matemática e Ciências, podemos questionar-nos: estarão os nossos jovens fatalmente destinados a uma má prestação nestas disciplinas? A resposta é claramente negativa! E a prova está nas equipas olímpicas que têm conquistado várias medalhas para Portugal nas competições internacionais, as Olimpíadas Internacionais e as Olimpíadas Ibero-americanas de Matemática e Física.

Desde 1989 que Portugal participa na Olimpíada Internacional de Matemática. Cinco anos mais tarde iniciou-se a participação portuguesa na competição equivalente de Física. Desde o início que a preparação das nossas equipas tem decorrido na Universidade de Coimbra. Competem nas Olimpíadas Internacionais os jovens talentos que se tenham distinguido nas respectivas provas nacionais. As Olimpíadas de Matemática e de Física são as competições de ciência mais antigas em Portugal e são também as que envolvem um maior número de alunos, vários milhares de jovens por ano.

Aos fins-de-semana, podemos encontrar na FCTUC as equipas olímpicas e outros jovens oriundos de todo o país partilhando o seu entusiasmo pela Matemática e pela Física, durante as sessões das escolas Delfos e Quark. Estas “escolas” de excelência, que combinam sessões presenciais com formação à distância pela Internet, têm o patrocínio da Universidade de Coimbra e da Agência Ciência Viva e contam com a colaboração das Sociedades Portuguesas de Matemática e de Física.

Mais informação sobre os projectos Delfos e Quark em:
http://mat.uc.pt/~delfos
http://quark.fis.uc.pt
Testemunho de um jovem délfico: aqui,
http://www.mat.uc.pt/~delfos/phpBB2/viewtopic.php?t=816)

Contactos:
Amílcar Branquinho, 239 791 136; ajplb@mat.uc.pt
José António Paixão, 96 414 28 60; jap@pollux.fis.uc.pt

Um debate do outro mundo


No dia 30 de Novembro, Dinesh d'Souza, um católico conservador norte-americano, participou num debate na Universidade de Tufts sobre se Deus é uma invenção humana com Daniel Dennett, o filósofo autor de «Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon». O debate pode ser visualizado na totalidade no YouTube: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 5, Parte 6, Parte 7, Parte 8, Parte 9, Parte 10, Parte 11, Parte 12, Parte 13, Parte 14 e Parte 15.

Um dos argumentos recorrentes de d'Souza ao longo do debate, o estafado reductio ad Hitlerum que pode ser «apreciado» neste excerto, mexe fortemente com a minha capacidade de indignação, por, como já expliquei, ser completamente falso, mas as falácias e espantalhos reciclados ao longo da sua argumentação - que já me merecia muitas reservas -, e também a forma como fugiu sistematicamente a todas as questões que lhe foram endereçadas, não me deixaram grande impressão nem, obviamente, abalaram a minha posição sobre o tema em análise.

Talvez por o estilo de d'Souza impedir qualquer debate sério, prefiro a prestação de Daniel Dennett noutras ocasiões, nomeadamente na entrega do prémio Richard Dawkins em Outubro ou na conferência TED2006 (Technology, Entertainment and Design) em Monterey, Califórnia.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Passeio aleatório hoje em Coimbra


Informação recebida da Livraria Almedina:

A LIVRARIA ALMEDINA e a GRADIVA têm o prazer de convidá-lo(a) a estar presente na sessão de apresentação pública da obra

"Passeio Aleatório pela Ciência do dia-a-dia"
de Nuno Crato

A sessão terá lugar no dia 12 de Dezembro de 2007, pelas 19 horas,
na Livraria Almedina do Estádio Cidade de Coimbra, na Rua D. Manuel I, n.º 26 e 28, em Coimbra.

A apresentação da obra estará a cargo de Carlos Fiolhais, Jorge Buescu, José Lamego e Guilherme Valente.

Seguir-se-á uma sessão de autógrafos.

Portugal, Alemanha e Macau no PISA

Os recentes resultados dos inquéritos PISA revelaram uma ausência de progressos significativos na aprendizagem das ciências dos jovens portugueses (37º lugar, quase o último dos países europeus, bem abaixo da média da OCDE). Mas há pior que os resultados: Até dá pena ver o esforço das autoridades portuguesas para desvalorizar o PISA e, quando não o desvalorizam, o esforço para desculpabilizar um sistema que assim se vê tão cruamente retratado e, claro, abalado.

Outros países tiveram uma outra atitude. Por exemplo, há anos a Alemanha entrou em pânico porque estava apenas na média no "ranking" do PISA. Mobilizou vontades e recursos. Em resultado, a Alemanha fez progressos na classificação e, para nos apercebermos do regozijo germânico, basta ver a capa da penúltima revista "Der Spiegel". Dois países, duas atitudes.

De louvar é o honroso 17º lugar conseguido pelos jovens de Macau, hoje parte da China. Um amigo meu comentou, sarcástico: "Temos uma maneira de subir no PISA. É entregar a administração do território"...

Trancrevo a notícia do sítio "Macau hoje":

"Os alunos de Macau estão de parabéns. Segundo dados revelados ontem em Paris, os estudantes da RAEM parecem ter queda para a ciência, já que o território ocupa agora o 17º lugar numa lista de 57 países e regiões e posiciona-se acima da média da OCDE. Melhor ainda estão os colegas de Hong Kong, que ocupam o segundo lugar da tabela, logo atrás dos finlandeses. Apesar de satisfeita com as boas notas, Teresa Vong, da Universidade de Macau (Umac), lembra que há ainda “um longo caminho a percorrer” em matéria de educação."

Como se vê, os macaenses ainda não estão satisfeitos, acham que lhes falta alcançar a posição de Hong-Kong, ali mesmo ao lado. O exemplo de Macau não nos devia inspirar?

Vale a pena ouvir

Mesmo a propósito do tema sobre que tenho escrito no De Rerum Natura, amanhã, no programa Mais Cedo ou mais Tarde da TSF, João Paulo Meneses entrevista o presidente da Sociedade Homeopática nacional. No blog do programa podemos ler:

«14h - 15h: A Homeopatia define-se como a terapêutica que consiste em dar ao doente em pequenas doses, uma substância que, administrada a uma pessoa saudável, reproduza os sintomas observados. (...) Escolhemos o medicamento que actua pela qualidade e não pela quantidade: usa-se a energia da matéria e não a sua massa.

Nesta hora vamos falar sobre homeopatia - o que é, quais os fundamentos, como se aplica esta terapêutica, como são produzidos os medicamentos receitados pelos homeopatas. Francisco Patrício, presidente da Sociedade Homeopática de Portugal, é nosso convidado.»

Devo confessar que estou com imensa curiosidade em ouvir a conversa, não faço ideia como Francisco Patrício irá explicar o que são «pequenas doses» de uma substância que não está lá, o que pretende com a história do «qualidade» (que pressuponho referir propriedades) versus quantidade e ainda mais curiosa estou em saber que cargas de água é usar-se a «energia da matéria e não a sua massa».

Estou perplexa com esta energia de uma «substância» que se «usa» sem necessidade de massa (com excepção da que é dispendida pelos mais incautos ou pelos mais desprevenidos, que são ludibriados a comprar gato por lebre, ou antes, água a peso de ouro).

Nem sequer imagino com que banha da cobra pseudo-científica o senhor nos vai mimosear, certamente «um arrozoado infeliz de termos científicos misturados pelo DJ Vibe» a que não faltará «biorressonância» e tretas afins. No caso de algum imprevisto me impedir de apreciar em directo o calibre dos dislates debitados, se algum dos nossos leitores ouvir o programa e o gravar, agradecia que mo permitisse ouvir em diferido.

Dicionário de Relojoaria


Faltava-nos em Portugal um dicionário sobre relógios e, em geral, o tempo, mas agora já não falta. Saiu há pouco tempo um livro do nosso maior especialista em relógios e no tempo que eles medem, Fernando Correia de Oliveira, que contém 625 entradas esclarecedoras sobre outros tantos termos. O livro, que se intitula "Dicionário de Relojoaria" e se subintitula "O Universo do Tempo e dos seus Medidores", saiu do prelo da editora Âncora e tem o patrocínio da Boutique dos Relógios. Escreveu o prefácio o conhecido matemático e divulgador científico Nuno Crato. É uma óptima prenda de Natal.

Da introdução do autor transcrevo este belo naco de prosa:

"O Tempo mexe com tudo e todos, nada do que é Tempo nos é estranho. Ele passa pelos calhaus rolados, arredondando-os até os transformar em grãos de areia; ele assina a sua presença nos limos e outros organismos vivos que as marés vão depositando, ciclicamente, em camadas, nos rochedos da costa. Umas vezes somos mais rochas, a que o exterior se vai colando; outras, mais pedras rolantes, passamos antes pelo que nos é exterior e lá vamos deixando um pouco de nós. Há quem tenha mais de rocha encalhada, há quem seja mais seixo rolado. Mas, a tudo o que está imóvel ou a tudo o que se mexe, o Tempo trata por igual - tanto faz que seja ele a passar por nós ou nós a passarmos por ele."

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

O mocho piou três vezes


O "Pio do Mocho" é uma newsletter electrónica de comunicação de ciência, da qual já saiu o número três (Novembro 2007)

Ultrapassado o meio milhar de assinantes, o "Pio do Mocho", boletim informativo do portal "Mocho", tem vindo a afirmar-se como mais um veí­culo de divulgação do que entre nós se vai fazendo no ensino das ciências e na cultura cientí­fica.

Novo jornal de história da ciência

O jornal mais recente de história da ciência e tecnologia é português, mas pretende ter circulação internacional pelo que está na Net em inglês.

Now online:
Journal of History of Science and Technology
Vol. 1, Summer 2007

The publication of the first volume of HoST, The Circulation of Science and Technology, is the direct result of a joint effort by a group of Portuguese scholars aiming at strengthening the field of History of Science and Technology in a small country of the European periphery. They decided that a valuable way of nurturing a sustainable community in the field is to promote a journal where local scholars would have to face topics of international relevance and to dialogue with internationally recognized historians of science. In order to promote such a confrontation, the editors also launched an annual workshop (typically in June) acting as the main supplier of a thematic summer issues

Círculo das Letras

A propósito da inauguração da Livraria Círculo das Letras,hoje pelas 18,30h, que inclui uma exposição de obras de Rogério Ribeiro e uma palestra de Borges Coelho, recebemos o seguinte convite:



Fica a divulgação de um novo espaço cultural.

A FÍSICA DO MENINO JESUS


Como estamos quase no Natal recupero uma das minhas crónicas do "Sol" alusivas à época, e que foi publicada no Natal passado quando ainda não havia "De Rerum Natura". Na figura, o quadro "O Menino Jesus entre os Doutores", de Albrecht Duerer, 1506, Museu Thyssen, Madrid).

De facto, é uma coisa extraordinária que o Pai Natal, no seu trenó puxado por renas voadoras, consiga entregar tantos presentes numa só noite. Será que viola as leis da Física?

O assunto tem sido bastante debatido e, se o leitor perguntar ao Google por “The Physics of Santa Claus” encontrará 1860 entradas. Está na Internet uma prova, com base nas leis da Física, da inexistência do Pai Natal. Um dos argumentos é que um trenó tão carregado e tão rápido sofreria no ar uma fricção maior do que a do Space Shuttle na reentrada na atmosfera. Mas já doutos físicos se pronunciaram em favor do Pai Natal: um propôs uma protecção magnético-iónica para o trenó enquanto outro, com mais imaginação, disse que o Pai Natal vem do pólo Norte por um túnel no espaço-tempo, usando dimensões escondidas.

E o Menino Jesus? Em Portugal o Pai Natal veio, nos tempos recentes, tirar o lugar ao Menino Jesus, que era quem entregava as prendas no sapatinho. As crianças ficavam umas ao pé coxinho, outras todas descalças e outras ainda de pantufas, à espera que o Menino Jesus lhes viesse entregar as merecidas prendas. Os que já estavam na “idade dos porquês” interrogavam-se justamente sobre como seria possível que um menino tão pequenino pudesse trazer tanta coisa!
.
Se formos ao Google não encontramos nada sobre “A fìsica do Menino Jesus” Mas há, de facto, uma relação entre o Menino Jesus e a física: e esta encontra-se na Internet num texto sério, na Universidade de Minnesota (“Jesus at School”). É sabido que o Menino Jesus fugiu aos pais para se ir encontrar com os doutores. Está no Evangelho de São Lucas, o evangelho canónico que descreve a infância de Jesus. Mas há evangelhos apócrifos, como o Evangelho Árabe da Infância de Jesus, que dão pormenores sobre o episódio. O primeiro doutor perguntou-lhe se Ele lia livros. Sim, lia. O segundo se Ele sabia astronomia. Sim, sabia. E o terceiro, um filósofo, perguntou-lhe se Ele tinha conhecimentos de física. Sim, tinha. Perante a sapiência de Jesus, logo o filósofo se declarou seu discípulo. É a vantagem de saber física!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Nós, primatas

Acaba de sair o número 94 da revista mensal eletrónica de jornalismo científico ComCiência, publicada pelo LABJOR e pela SBPC. O tema destaedição é "Nós, Primatas".

Livros no Outono


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Livros no Outono, 10 a 15 de Dezembro de 2007

A Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra está a realizar, entre os dias 10 e 15 de Dezembro, na praça D. Dinis, a segunda edição da sua festa "Livros no Outono / Books at Fall", este ano com a colaboração da Fundação Calouste Gulbenkian, que pôs à disposição as obras do seu rico catálogo.

É assim disponibilizado, à comunidade universitária e à cidade de Coimbra, um largo leque de publicações com reduções sobre os preços de capas que oscilam entre os 60% e os 90%.

O horário de abertura é contínuo entre as 9 horas e as 19 horas.

Sagan responde

Acaba de sair um interessante livro de entrevistas de Carl Sagan, na editora Quasi. Intitula-se "Conversas com Carl Sagan", a organização é de Tom Head, a tradução e notas de Rui Lages e o prefácio de Pedro Russo (coordenador internacional do Ano Internacional da Astronomia 2009). O volume (ao lado a capa da edição orginal norte-americana) sai na colecção "Dragões do Eden", curiosamente o mesmo título de um dos livros de Sagan.

Para abrir o apetite para o livro trancrevo dois trechos da entrevista à revista "Hemispheres", de Outubro de 1994:

"P. Como é que a ignorância acerca da ciência prejudica as pessoas no seu dia-a-dia?

R. Vivemos numa sociedade totalmente dependente da ciência e da tecnologia e no entanto arranjamos as coisas de forma a que quase ninguém compreenda a ciência e a tecnologia. Eis uma receita infalível para o desastre. Todos os dias são tomadas decisões em Washignton que irão afectar o nosso futuro, coisas como as auto-estradas da informação ou a redução dos arsenais nucleares, a investigação sobre o vírus da SIDA, o debate sobre se as drogas que aliviam as dores dos moribundos devem ser descriminalizadas, qual é o melhor rumo para que a América continue a liderar a indústria da tecnologia, como lidar com a diminuição da camada de ozono, ou o aquecimento global. É difícil encontrar-se algum aspecto das sociedades modernas que não dependa de tomadas de decisão inteligentes no âmbito da ciência e tecnologia. É suposto sermos uma democracia. É suposto que o povo se assegure de que os seus representantes votem correctamente. Como é que podem fazer isso se nem sequer conhecem os temas em cima da mesa, ou se os conhecem e não são capazes de entendê-los?

P. Porque é que as pessoas não estão a acompanhar a ciência?

R. (...) As causas, estou convencido, são as seguintes: a ciência é difícil, a ciência nem sempre vai de encontro aos nossos sonhos, a ciência nem sempre nos conforta, a ciência coloca imenso poder nas mãos de pessoas das quais temos todas as razões para desconfiar. Os cientistas são responsáveis, num certo sentido, através da engenharia, pela diminuição da camada de ozono, pelo aquecimento global e tudo o resto. Mas muitos cientistas dirão, 'alto lá, estamos a penas a fazer o nosso trabalho. Tudo isso resulta de má aplicação da ciência por parte dos governos e da indústria.' Até certo ponto, é verdade. E até certo ponto os cientistas têm sido muito corajosos ao chamarem a atenção para os perigos oferecidos por essas tecnologias. Porém, ainda assim, se não tivéssemos a ciência não teríamos estes problemas. Mas também teríamos uma esperança de vida de 25 anos, a mortalidade infantil seria imensa, e muitas das coisas que tornam a vida agradável não existiriam".

Pensamento crítico

Ludwig Krippahl é professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e membro do centro de investigação em inteligência artificial CENTRIA. De formação em bioquímica, trabalha em bioinformática. Mantém o blog Ktreta, recomendado pelo DRN, e é professor de Pensamento Crítico, uma iniciativa ímpar no país, juntamente com Luís Moniz Pereira e Ana Rita Canário. Esta disciplina está fortemente presente em algumas das melhores universidades estrangeiras, mas é praticamente desconhecida no nosso país. Convidámo-lo para falar um pouco do pensamento crítico e da sua importância.

Para muitos é ofensivo criticar as pessoas, duvidar delas ou contradizê-las nas suas crenças. Isto está enraizado na nossa cultura. Talvez até nos nossos genes. Mas é um mal-entendido. Normalmente, o que se critica são afirmações e não pessoas. O pensamento crítico não é um ataque pessoal. Mas compreende-se que muitos o julguem ser. Durante milhares de gerações a melhor forma de julgar a credibilidade de uma afirmação foi julgando a pessoa que a proferia.

Se o ancião da tribo dizia que comer figos ao sol dava dores de barriga não se ia organizar um teste controlado com grupos de voluntários seleccionados aleatoriamente. Não só por limitações práticas como pela falta dos conceitos necessários para perceber a necessidade da experiência, organizá-la e interpretar os resultados. A única possibilidade era decidir se se confiava no ancião. Por isso a confiança nas hipóteses esteve muito tempo associada à confiança nas pessoas.

Hoje em dia é diferente. Não vivemos em tribos pequenas cujo conhecimento total é o dos seus membros mais sábios. Vivemos entre estranhos numa sociedade global que, colectivamente, tem mais informação que qualquer um de nós pode imaginar. Estas circunstâncias justificam avaliar as ideias pelas ideias e não por quem as propõe. Não quer dizer que se rejeite a autoridade, mas que a autoridade não é um valor primário. Tem que se fundamentar em evidências. Um médico não tem autoridade porque é médico mas porque a medicina cura.

O conhecimento disponível também aumenta o custo de aceitar crenças falsas. Durante a Peste Negra havia quem não tomasse banho para se proteger da doença. Não adiantava, mas como nenhum outro profilático conhecido era eficaz também não havia muito a perder. Só mau cheiro e desconforto. Hoje quem adia a quimioterapia para experimentar a homeopatia arrisca a vida quando se pode curar. Se pintamos o mundo com as fantasias dos outros, perdemos a oportunidade de compreender a realidade como ela é, uma oportunidade muito recente na história da nossa espécie.

Além de uma ferramenta útil, o pensamento crítico faz parte da participação responsável na sociedade. Prolongar uma doença infecciosa por recorrer a terapias sem fundamento põe em risco a saúde dos outros. As liberdades democráticas de voto, associação e debate público justificam que se pondere o que se defende. Até a liberdade de crença deve ser temperada pelo pensamento crítico, e não apenas nos atentados ou fanatismos. Quando a sua religião pode afectar outros, o crente deve abstrair-se da sua crença pessoal e considerar o fundamento do que afirma. O pensamento crítico começa pela crítica às nossas próprias opiniões.

Finalmente, o progresso depende de olhar criticamente para o que fazemos. Isto é óbvio na ciência e na tecnologia, mas é igualmente válido na arte, ética, política e em toda a actividade humana. Não se progride sem um olhar crítico que revele o que se pode fazer de maneira diferente e melhor. Por tudo isto é importante que a educação não dê apenas conhecimento mas que também estimule esta capacidade.

Para melhorar este aspecto da formação dos nossos alunos, o Departamento de Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa introduziu a disciplina semestral de Pensamento Crítico no programa da Licenciatura em Engenheira Informática (1). Esta disciplina foca a estrutura de argumentos, erros de percepção e raciocínio, análise de modelos científicos, explicações causais e problemas de decisão. O objectivo é explorar, pela prática, obstáculos ao raciocínio crítico e técnicas que ajudem a ultrapassá-los. É apenas o segundo ano em que a disciplina é leccionada, pelo que só podemos notar a melhoria na capacidade de análise e expressão dos alunos a curto prazo. Mas mesmo que o efeito a longo prazo seja modesto é na direcção certa.

Para concluir, deixo a sugestão de abordar o pensamento crítico como uma disciplina própria. Principalmente no ensino secundário, mas também no primeiro ciclo do ensino superior, é difícil conciliar uma abordagem crítica com a aprendizagem de conceitos básicos na maioria das disciplinas. Para ensinar matemática, línguas, história, biologia e outras disciplinas a este nível é preciso exigir que o aluno aceite muita coisa pela autoridade do professor. Só depois de dominar uma área é que se consegue compreender como esta se fundamenta em evidências e não na autoridade. Disciplinas que estimulassem a análise crítica por si iriam beneficiar não só os alunos mas toda a sociedade.

Ludwig Krippahl

1. Pensamento Crítico na FCT/UNL, 2007/8, 2006/7.

Homeopatetices - O Sono da Razão

Algo que sempre me confunde em relação às pessoas que engolem a treta da «memória da água» tem a ver com o facto de que não é necessário saber muita química para ver que não passa de banha da cobra, basta apenas perceber que para haver «memória» é preciso existirem «recordações».

Mesmo admitindo por redução ao absurdo que a água manteria a estrutura de solvatação sem nada para solvatar, à diluição CH13, como vimos, não resta uma única molécula de água da «tintura» mãe. Mais algumas diluições e não há nas homeopatetices uma única molécula de água que tenha «visto» a tal «substância vital» de que é suposto lembrar-se. Ou seja, mesmo sem perceber nada de forças intermoleculares, basta fazer umas continhas simples para se concluir que não pode haver nenhuma memória, apenas imaginação delirante.

Chegariamos à mesma conclusão sem cálculos pensando que para ocorrer acção terapêutica de um determinado fármaco, tem de existir ligação ou interacção dessa molécula com um alvo. Ou seja, podemos pensar nessas moléculas como sendo chaves que encaixam numa determinada fechadura, um qualquer receptor, para abrir a porta à cura. Ora o que se pretende com a história da memória da água é que basta fazer um molde da chave em «plasticina», enfiar a plasticina na «casa», o corpo humano, e a porta abre-se, por artes mágicas ou por milagre (que tentam vender como «cientificamente» explicado)!

O outro argumento pseudo-científico utilizado, é a história (da carochinha) de que moléculas que não estão lá «agem como um catalisador por processos de biorressonância, amplificando os mecanismos homeostáticos do organismo», uma frase absolutamente sem sentido. Não faz nenhum sentido, em física, falar em catalisadores de ressonância, muito menos em ressonância de «mecanismos homeostáticos do organismo».

O termo catalisador é utilizado para designar substâncias que aceleram determinadas reacções químicas que de outra forma seriam muito lentas e que o fazem alterando o mecanismo da reacção, por exemplo ligando-se ao(s) reagente(s) formando um complexo activado com baixa energia de activação sendo depois regeneradas no fim. Se não há uma única molécula de catalisador não há catálise.

De igual forma, o termo ressonância designa um processo de transferência de energia entre pelo menos dois osciladores quando a frequência do primeiro coincide com uma das frequências próprias de oscilação do segundo. Ou, dito de outra forma, podemos dizer que um sistema entra em ressonância quando lhe é fornecida uma excitação a uma das suas frequências próprias.

Pode parecer complicado mas na realidade não é e um exemplo mecânico simples ajuda a perceber. Pensem que empurram alguém num baloiço, e que este baloiça (oscila) com uma frequência característica de 1 Hz, ou seja, 1 s para o movimento de vai-vem. Para que o balouço absorva ressonantemente a energia fornecida pelos empurrões é necessário que estes sejam realizados à frequência natural de oscilação do baloiço, ou seja, um empurrão por segundo. Se resolverem empurrar o baloiço com uma frequência de 1.8 Hz, na maior parte das vezes dão um empurrão no vazio e a transferência de energia via empurrão é pouco eficiente. Pelo contrário, empurrando o baloiço à sua frequência própria não é necessário fornecer muita energia (um empurrão muito forte) para se atingir (e manter) a amplitude máxima de oscilação (determinada pelo amortecimento).

A ressonância é a base, por exemplo, de várias espectroscopias que são ferramenta indispensável a todos os químicos. Nestas espectroscopias, faz-se incidir radiação de comprimento de onda apropriado para excitar a molécula, o que só acontece quando a radiação está em ressonância, tem a mesma energia que a diferença de energia entre dois níveis próprios, com a molécula/oscilador. Uma vez que não é apenas a energia electrónica que está quantificada, estes níveis podem ser rotacionais (radiação na gama das micro-ondas), vibracionais (radiação quente ou infravermelha) ou electrónicos ( radiação no ultravioleta/visível). Todos os estados excitados têm tempos de vida muito curtos e as moléculas decaem para o estado fundamental (o de menor energia) libertando o excesso de energia na forma de calor ou, nalguns casos, emitindo luz em processos de fluorescência ou fosforescência.

Temos ainda outros processos como os subjacentes à técnica de diagnóstico conhecida como ressonância magnética que deriva de uma técnica fundamental para obter informação a nível molecular, nomeadamente caracterização de estruturas tridimensionais de moléculas, designada por ressonância magnética nuclear (RMN). Esta técnica baseou-se na descoberta que mereceu a Felix Bloch e Edward Mills Purcell o prémio Nobel da Física em 1952, ano em que começaram a ser comercializados os primeiros aparelhos que sujeitando as moléculas em análise a campos magnéticos fortes provocam um desdobramento dos níveis de energia dos dipolos magnéticos nucleares, normalmente designados por spin nuclear embora em rigor se trate de um momento magnético nuclear.

A bioressonância - ou qualquer das versões muito em voga nos dias que correm, pomposamente designadas por «biorressonância quântica» e patetadas New Age afins, a que voltarei em breve -, que pelo nome deveria referir-se a processos de excitação de moléculas biológicas, na realidade não tem rigorosamente nada a ver com ciência, física, quântica ou medicina.

A bioressonância é apenas mais um exemplo em que charlatães sem escrúpulos se aproveitam da ignorância alheia utilizando, como escreveu um dos nossos leitores, «um arrozoado infeliz de termos científicos misturados pelo DJ Vibe» para vender a sua banha da cobra como ciência. Banha da cobra que se tem mostrado tão rentável que já há inúmeros praticantes de «biorressonâncias» sortidas à solta, prontinhos para extorquir dinheiro aos mais incautos.

Mas a minha principal objecção a estas charlatanices não é a fraude em si e já foi descrita por David Colquhoun, e é essencialmente uma objecção aos demónios do sono da razão, ao obscurantismo anacrónico de uma sociedade que se deixa reger por magias, e não faz um esforço para perceber quão mal estão disfarçadas de ciência:

«É verdade que consultar um homeopata pode pôr a vossa vida em perigo se isso corresponder a um atraso de um diagnóstico a sério ou se eles recomendarem placebos para prevenir a malária, mas a objecção mais forte [a estas charlatanices] é cultural. Os homeopatas são a manifestação de uma cultura em que o pensamento mágico é mais importante que a verdade, uma sociedade em que tudo o que se diga três vezes é verdade e não se olha para os factos».

Versão Completa:

Homeopatetices - O Memorial da Água

Homeopatetices: is it a kind of magic?
Homeopatetices - A Componente Mística
Homeopatetices - As Origens

domingo, 9 de dezembro de 2007

Recepção de Euler em Portugal

Está a terminar o ano de Euler, que assinala os 300 anos do nascimento do grande matemático suíço. O Jorge e eu próprio já aqui assinalámos esse aniversário. Muito mais haveria a dizer. Mas ficam só duas palavras sobre a relação de Euler com Portugal (não, nunca cá veio, pois Euler viveu toda a sua vida na Suíça, na Rússia e na Prússia, mas teve cá estudiosos e terá tido pelo menos um amigo português na Rússia).

O acontecimento mais marcante da ciência em Portugal no século XVIII foi a Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, que teve lugar em 1772. Com essa reforma foram criadas duas novas Faculdades – as Faculdades de Matemática e de Filosofia – que tinham relação entre si. Entre os nomes mais marcantes dos primórdios da Faculdade de Matemática contam-se Anastácio da Cunha e José Monteiro da Rocha. Os dois matemáticos, que não se entenderam muito bem (as lutas entre catedráticos não são um assunto novo), foram dos primeiros professores de Matemática na Faculdade com esse mesmo nome em Coimbra. O primeiro escreveu o notável tratado de 1782 “Princípios Matemáticos” (“Principes Mathématiques”, na tradução francesa que saiu em 1811) tendo sido também poeta. Na parte final da sua vida o matemático foi perseguido pela Inquisição (o escritor Aquilino Ribeiro escreveu sobre o assunto o romance “O Lente Penitenciado”). Assinale-se que saiu recentemente uma belíssima edição sobre Anastácio da Cunha, contendo facsimiles de manuscritos encontrados no Arquivo Distrital de Braga: "José Anastácio da Cunha. O tempo, as ideias, a obra...", Arquivo Distrital de Braga / Universidade do Minho, e Centros de Matemática das Universidades do Minho e do Porto, organização de Maria Elfrida Ralha, Maria Fernanda Estrada. Maria do Céu Silva e Abel Rodrigues, Braga, 20o6). Quanto ao segundo, estudou num colégio de jesuítas no Brasil, país onde escreveu um livro descrevendo as suas observações do cometa Halley ("Sistema físico-matemático dos cometas", Rio de Janeiro, 2000) com base num manuscrito de 1760 encontrado na Biblioteca Pública de Évora). Esteve na base do estabelecimento do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, que, após se terem gorado outros planos, acabou por ser construído perto da Biblioteca Joanina, no Pátio da Universidade. Esses dois matemáticos conheciam e citaram a obra de Euler, seu contemporâneo. Anastácio da Cunha refere, por exemplo, a célebre fórmula de Euler.

Mas há outras ligações entre Portugal e o grande matemático suíço. Na época do Marquês (e até antes) vários portugueses notáveis estiveram exilados. São os chamados “estrangeirados”, destacando-se entre eles o nome de António Ribeiro Sanches. Médico de origem judaica nascido em Penamacor e formado na Universidade de Salamanca, trabalhou na corte da Rússia de 1731 a 1947 (Euler viveu em S. Petersburgo entre 1727 e 1741). Foi médico assistente de Catarina II quando ela era adolescente. É possível que aí tenha encontrado Euler. Ribeiro Sanches é o autor das “Cartas sobre a Educação da Mocidade” (1760), que influenciaram as reformas educativas do Marquês de Pombal. No grande arquivo de Euler que está em crescimento na Internet encontra-se referência a cartas entre Leonhard Euler e aquele notável sábio português, escritas entre 1740 to 1766. Essa correspondência compreende cinco cartas, das quais duas foram escritas por Euler. Por outro lado, Euler foi sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa, tendo o Marquês de Condorcet, no elogio fúnebre que lhe fez na Academia de Ciências, de Paris referido essa afiliação.

Homeopatetices - O Memorial da Água

Antes de continuar com a análise das homeopatetices convém explicar aos nossos leitores umas noções básicas de forças intermoleculares - que determinam a estrutura de líquidos. Estas noções parecem-me suficientes para todos se aperceberem de que a memória da água não passa mesmo de uma patetice pseudo-científica.

O esquema acima, ilustrado com azoto, mostra as diferenças fundamentais entre estado líquido e estado gasoso, diferenças essas que têm a ver com o facto de que no estado gasoso as distâncias entre moléculas são muito maiores (o volume molar de um gás é muito maior que o de um líquido ou de um sólido e por isso temos airbags e explosões, em que em ambos o que acontece é uma reacção com formação de um grande número de moles de gases). Para além disso, como as moléculas não se «sentem» umas às outras, no estado gasoso não há restrições aos movimentos das moléculas, nomeadamente às translacções (movimento da molécula como um todo) , rotações e vibrações.

As moléculas vibram como um todo mas podemos decompor essa vibração nos chamados modos normais de vibração que correspondem a abrir e fechar ângulos ou esticar e encolher ligações específicas. As vibrações só são congeladas ao zero absoluto, temperatura a que não há qualquer movimento. Nesta página de um grupo alemão, podem ver uma animação de um modo normal de vibração da água, a «stretching vibration» que corresponde ao esticar e encolher das ligações O-H, e em que se representa as elongações dos átomos numa vibração com período de 10 fs (um fentosegundo é 10-15 s ou 0,0000000000000001 s)

O Jorge Dias de Deus deu alguns anos a minha aula de apresentação de Química Geral aos alunos de Física Tecnológica e costumava brincar dizendo que a Química era aquela parte da Física que se restringia a distâncias em que as únicas forças operantes eram forças electrostáticas. E, na realidade, as forças intermoleculares são também interacções electrostáticas, nomeadamente aquelas que designamos por forças de van der Waals e que são fortemente dependentes da distância, r, (variam com 1/r6) e das propriedades eléctricas das moléculas: o seu momento dipolar ( que já foi abordado no post «Message in a Bottle» e está representado na figura seguinte) e a polarizabilidade, que mede a capacidade de deformação ou volume da núvem electrónica de uma determinada molécula.
As propriedades físicas das substâncias moleculares são explicáveis com base nas forças intermoleculares e no caso da água, uma molécula muito pequena e consequentemente com uma núvem electrónica igualmente muito pequena, não obstante o momento dipolar elevado as forças de van der Waals são pouco intensas e só com estas forças a água seria um gás à temperatura ambiente e não existiria vida tal como a conhecemos.

Mas há outro tipo de forças intermoleculares, não puramente electrostáticas, a que chamamos ligações de hidrogénio e que se estabelecem sempre que há numa molécula um hidrogénio ligado a um átomo muito electronegativo, como sejam o flúor, o oxigénio e o azoto. Esse hidrogénio, deficiente em electrões, estabelece uma interacção com um par de electrões não partilhado do flúor, oxigénio ou azoto. Essa interacção, a ligação de hidrogénio representada na figura, é direccional - e também muito fortemente dependente da distância.

Custa muita energia partir estas ligações de hidrogénio e por isso a água, que pode estabelecer quatro ligações de hidrogénio, tem uma temperatura de ebulição tão anomalamente elevada (a temperatura de ebulição corresponde à temperatura à qual a agitação térmica «vence» as forças intermoleculares e as moléculas passam para a fase gasosa onde não há interacções entre elas).
Quando dissolvemos algo em água há uma alteração da estrutura da água que tem a ver com a natureza química do que dissolvemos. Se dissolvermos um sal iónico, por exemplo sal de cozinha, NaCl, o sal dissocia-se nos iões constituintes, neste caso Na+ e Cl-, que são solvatados por interacções ião-dipolo. A água dispõe-se em volta dos iões com o oxigénio (o centro de cargas negativas) voltado para os catiões (de carga positiva) e os hidrogénios para os aniões (de carga negativa) como ilustrado na figura.
Nem todos os compostos iónicos são (macroscopicamente) solúveis em água, nomeadamente aqueles em que o catião ou anião são demasiado grandes e não apresentam grupos com os quais a água pode estabelecer ligações de hidrogénio. Assim como não são solúveis em água compostos moleculares com os quais a água não estabelece ligações de hidrogénio e mesmo alguns em que isso acontece, se forem demasiado grandes, podem não ser muito solúveis (ou miscíveis). Há casos curiosos como por exemplo o fenol, C6H5OH, que é muito pouco miscível em água (ou solúvel, de Inverno) mas em que a inversa não é verdade: a água é bastante miscível no fenol (o que mais uma vez tem a ver com dimensões e com a grande dependência da distância de todas as forças intermoleculares).

Mas deixemos esses casos menos triviais: para ocorrer dissolução de qualquer coisa em água é então necessário que ocorra uma alteração da estrutura desta para solvatar essa qualquer coisa e a estrutura final da mistura é aquela que confere menor energia ao sistema, ou seja, em que são maximizadas as interacções atractivas e minimizadas as repulsivas (o que acontece também com a minimização possível das distâncias entre moléculas, porque como se tem visto ao longo do texto, todas estas interacções são fortemente dependentes das distâncias).

Todos estes processos são muito rápidos, aliás, reacções envolvendo a água são as reacções mais rápidas que se conhece - sendo as «campeãs» as reacções de transferência de protão, nomeadamente no estado excitado (após absorção de luz) em que os chamados superfotoácidos transferem um protão na escala dos picosegundos (1 ps= 10-12 s), o que não é de espantar se pensarmos que a transferência de protão não é mais que uma vibração mais alongada de um hidrogénio envolvido numa ligação de hidrogénio.

Posto tudo isto, de onde vem esta treta da memória da água esgrimida pelos homeopatetas, em que supostamente a água «recorda-se» do que solvatou em tempos idos e mantém a estrutura que apresentaria na presença do ausente soluto, ou seja, apresentaria «buracos» na sua estrutura (com distâncias que implicariam um impossível «dispêndio» de energia para manter)?

Existem de facto materiais (sólidos, metais e polímeros) com «memória» de forma, mas esta memória é fácil de explicar quimicamente e não passa de uma mudança de fase induzida termicamente, com tensão ou com luz. Desde quasi a Idade do Ferro que se sabe que há uma alteração das propriedades do mesmo por aquecimento acima de uma determinada temperatura (a temperatura de transição alotrópica do ferro de uma estrutura cúbica de corpo centrado, CCC, para estrutura cúbica de faces centradas, CFC ) e que se pode metaestabilizar a estrutura CFC (austenite) com arrefecimento rápido (a têmpera).

O que se passa com estes materiais com «memória» de forma, muito utilizados em medicina, por exemplo para stents (para a manutenção dos vasos sanguíneos abertos), é que se metaestabiliza o material à temperatura ambiente numa determinada estrutura, a que corresponde uma forma que se pode guiar sem problemas na veia, quando o material chega ao local de destino procede-se a, por exemplo, um aquecimento por efeito de Joule, o material muda de estrutura, muda de forma e dá suporte e/ou mantém a veia «aberta».

A treta da memória da água é uma impossibilidade química introduzida por um imunologista francês, Jacques Benveniste, ou antes, por uma sua colaboradora, Elisabeth Davenas, que Benveniste convenientemente «esqueceu» de informar ser paga por uma empresa homeopateta, a Boiron.

Lembro-me perfeitamente da história quando esta saiu em Junho de 1988 na revista Nature e das reacções incrédulas - que uma revista como a Nature publicasse semelhante disparate, mesmo com um disclaimer só visto no artigo sobre Uri Geller - dos meus colegas que trabalhavam mais perto da dinâmica da água. O editor, John Maddox, publicou o artigo de Benveniste - que pretendia que a homeopatia era um fenómeno real, ou mais especificamente que uma solução infinitamente diluída de anticorpos conseguia activar glóbulos brancos devido à tal «memória da água» - com uma reserva editorial que afirmava «Os leitores deste artigo podem partilhar a incredubilidade de muitos referees».

Como parte do acordo editorial, Maddox, James Randi (especializado em desmascarar banhas da cobra sortidas) e Walter Stewart, um perito em fraude científica, viajaram ao laboratório de Jacques Benveniste para repetir as experiências em ambiente controlado. Os três não demoraram muito a refutar as pseudo-experiências subsidiadas pela empresa homeopateta e publicaram logo na edição de Julho de 1988, o artigo «'High-dilution' experiments a delusion», em que, simpaticamente embora apontando que dois dos colaboradores de Benveniste eram pagos pela Boiron, afirmavam que não tinha havido má fé do senhor, apenas péssima ciência e ilusão.

As conclusões do trio de investigadores foram as únicas possíveis: «A hipótese de que se pode imprimir na água a memória de solutos passados é tão desnecessária quanto quimérica (fanciful no original)».

E SE VOLTÁSSEMOS À DOCIMOLOGIA, OU SEJA, À CIÊNCIA DOS EXAMES?

  Em texto que antes publiquei sobre a infindável tragicomédia em que se tornou a classificação dos exames nacionais, disse que ela não se d...