sábado, 20 de julho de 2024

MUITOS TELEMÓVEIS E UNS QUANTOS MENTORES E ESCOLARIZAR-SE-Á O MUNDO

De modo progressivo e subtil, mas muito certeiro, as expressões “escola”/“sala de aula” e “professores” vão sendo substituídas pelas expressões “ecossistemas de aprendizagem” e “provedores/ fornecedores de aprendizagem”.

Isso pode ser constatado em documentos publicados por entidades supranacionais (entre as quais se destaca a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico - OCDE), com a finalidade de informar e sensibilizar os decisores políticos quanto às opções que devem tomar no respeitante à "escolarização" das populações (ver, por exemplo, aqui e aqui). 
 
Mas também pode ser constatado em iniciativas, experiências... inovadoras, declaradas como soluções de sucesso pleno e infalível para a mesma "escolarização" (ver, por exemplo, aqui).
 
[note-se que "escolarização" não é sinónimo de se aprender na escola, no sentido físico e relacional que lhe atribuímos]. 
 
E, claro, a ideia dessa substituição cai e reproduz-se, sem filtro, na comunicação social, tanto naquela, com aspas, que se destina a fazer opinião, como na mais clássica, séria e  objectiva.
 
Dispensar escolas e professores para que os mais jovens possam aprender aquilo de que, efectivamente, necessitam e lhes interessa, tem-se imposto como uma verdade óbvia.

O “novo cenário de aprendizagem” assente na “transformação digital”, é a solução para se conseguir uma escolarização plena, flexível, "adaptada" às especificidades de cada aluno. 
 
Basta, pois, que os Estados instalem e assegurem uma boa rede de internet e forneçam um telemóvel a cada aprendiz. Com estas condições, agora tão básicas, "uma miríade de intervenientes" (fornecedores/ provedores de aprendizagem) articula-se para levar a todos e a cada um informação deslumbrante. Fazem-no com apoio de "mentores" que, à distância, "interagem" com os jovens "clientes", replicando, obviamente o que essa "miríade de intervenientes" decide e veicula através das suas potentes plataformas informáticas.

12 comentários:

Mário R. Gonçalves disse...

É a perfeita descrição do Inferno na Terra. Não tenho grandes esperanças em que isso seja evitado, mas ao menos há que atrasar o máximo possível criando bolsas de resistência - neste caso, Escolas de Resistência, com... LIVROS, ESTUDANTES e PROFESSORES. Tudo o resto é supérfluo ou até nocivo.

Anónimo disse...

Que avanços tão rústicos! O ideal seria colocar um chip de aprendizagem no cérebro de cada um, o qual fosse alimentado por informação ao longo da vida. Assim, ninguém perderia tempo com escolas, ecossistemas, alunos, professores, computadores, internet e o diabo a 4. Todos savants, logo à partida. Libertar a população para realizações mais práticas e avançadas sem perder tempo com a aquisição de conhecimento. Criatividade, apenas.
As escolas são, cada vez mais, espaços inúteis que não cumprem a sua função, uma vez que todos passam, sabendo ou não, a toque de remendos legislativos e incoerentes, feudos de amiguinhos onde o currículo académico e profissional tem pouco impacto, um caos artificialmente e deficientemente organizado de passagem de diplomas. Só faz falta porque não há instituições gratuitas para tomar conta de crianças e adolescentes.

Anónimo disse...

Neste momento, toda a gente manda na escola: assistentes operacionais, pais, empresas, câmaras municipais, editoras, agentes externos cheios de projetos que pouco acrescentam ( os alunos continuam com notas baixas nos exames) e, portanto, os professores podem sentir-se dispensados. Os que cá estão só falam em reforma e em sair e há pouca gente a querer entrar nesta coisa que dura 45 anos.

Anónimo disse...

Por exemplo, o curso que a professora Helena tem não serve para rigorosamente nada nas escolas. O que quererá dizer isto?

António Pires disse...

As ordens, no âmbito das políticas educacionais portuguesas, vêm lá de fora. Para combater o eventual uso exagerado dos telemóveis e demais tecnologias digitais, a minha escola, altamente inovadora em metodologias educacionais, impõe a FILOSOFIA UBUNTU a todos os professores e alunos, conseguindo assim humanizar, como nunca antes se tinha visto, o ecossistema escolar. Atingimos o equilíbrio: já não há indisciplina, nem violência, e o sucesso escolar de todos, e de cada um, é retumbante. Os professores e alunos são doutrinados em filosofia ubuntu, com conhecimento, incentivo e aprovação do ministério da educação.
A visível degradação do sistema educativo - que vai desde a proletarização dos professores, equiparados a operários fabris não especializados, nomeadamente para efeitos de reforma, a semestralização do ano letivo, o ensino por domínios, subdomínios e rubricas, classificados percentualmente às centésimas, por questões de "equidade", até à fraude completa dos "cursos profissionais" -, tem por base teórica a FILOSOFIA UBUNTU!

Anónimo disse...

Fiquei tão humanizada com o ubuntu que agora só oiço Mozart - Requiem: Lacrimosa, em ré menor. Cada vez que há novas ideias no ensino, pareço uma carpideira.

Anónimo disse...

Criatividade é diferente de infantilismo e imbecilidade.

Anónimo disse...

Agora vou concentrar-me no PEBI, ensinar o currículo em português e inglês desde o 1.o ciclo. Acho bem, pois se em português é tudo tão difícil, pode ser que, traduzindo, entendam melhor toda a matéria, a negra também.

Anónimo disse...

André, be quiet, please, or I will destroy you.
Eu acho fino, very british. Vai fazer as delícias das tias teachers.

Rui Ferreira disse...

Em contraciclo, hoje na P2 do Público, sob o título “Vamos ter de retirar a maior parte da tecnologia das escolas”, numa entrevista realizada ao psicólogo norte-americano Jonathan Haidt, entre outras coisas acertadas, o autor diz “O que temos feito às crianças desde 2012 é a maior destruição do potencial humano na história da humanidade”. A ler.

António Pires disse...

O que quer a maioria dos alunos, a maioria dos encarregados de educação e a maioria dos cidadãos eleitores, do sistema de ensino português?
Querem que todos os alunos sejam aprovados com notas elevadas, ou seja, maiores ou iguais a 4, no ensino básico, e maiores ou iguais a 16, no ensino secundário. Estão todos a borrifar-se para o PASEO (Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória), para as Aprendizagens Essenciais e para todo o ecossistema escolar, tenha ele uma natureza analógica ou digital. Se os mentores forem mais competentes do que os professores para passarem diplomas à martelada, pois então que venham os mentores e o digital!

Helena Damião disse...

Espero que trabalhos como os de Nicholas Carr, Michel Desmurget, Jonathan Haidt e de outros sejam tidos em devida conta por directores e professores. A curto prazo não tenho esperança que o poder político, nomeadamente o português, faça o que quer que seja em relação aos stakeholders que entram no sistema, na escola para... os transformar. Basta visitar a página da DGE para se perceber o seu número e infiltração crescentes. Cumprimentos, MHDamião

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...