segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Divagações sobre o Tempo II

Continuando a divagar sobre o Tempo e as formas como ele é vivido e sentido, fazendo uso da palavra dos poetas e dos seus sentimentos acerca do tempo...

Todos sabemos como o tempo pode ser difícil, o tempo feito espaço, um espaço que se apresenta como um tempo de angústia, de difícil aceitação, um tempo, uma data, uma era que ficará gravada na memória e na dor.

Assim Sophia caracterizava o seu tempo, esse tempo, no poema “Data”

Tempo de solidão e de incerteza

Tempo de medo e tempo de traição

Tempo de injustiça e de vileza

Tempo de negação

 

Tempo de covardia e tempo de ira

Tempo de mascarada e de mentira

Tempo que mata quem o denuncia

Tempo de escravidão

 

Tempo dos coniventes sem cadastro

Tempo de silêncio e de mordaça

Tempo onde o sangue não tem rastro

Tempo de ameaça

 

Sophia de Mello Breyner Andresen,  Livro Sexto

 

O tempora! O mores! Clamava Cícero no Senado Romano! Tempos difíceis aqueles, em que o orador via os valores da República a desmoronarem-se, via a República Romana ameaçada, via no Senado aqueles mesmos que o queriam destruir. E perguntava, como em muitos outros tempos também nós perguntamos:


Quousque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?

Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?

 

E hoje diríamos também, quosque, pandemia, abutere patientia nostra?

Os tempos, os tempos que correm, os nossos tempos, tempos de mudança, tempos de incertezas, tempos de revoluções de todo o tipo.

E, saudosos de tempos passados, de anos mais promissores, exclamamos também “in illo tempore!” ... , recordando esses tempos, como fazia Trindade Coelho, recordando os seus tempos de estudante de Coimbra.

“Não tenho tempo para nada!... “ Que vida!” é outro lamento constante.

O filósofo romano, Séneca, contraria esta ideia de falta de tempo, afirmando que a correria para agarrar o tempo não pode fazer-nos felizes, a felicidade é outra coisa:

Eu tenho todo o vagar que quero, e, aliás, só não tem vagar quem não quer. Os afazeres não andam atrás de alguém: os homens é que se agarram aos afazeres, entendendo as suas ocupações como sinónimo de felicidade.” Cartas a Lucílio,  106, 1.


Então, saibamos aproveitar o tempo, não tendo saudades do tempo que passou, não deixando que nos roubem o nosso tempo, que é o tempo presente.

É ainda Sophia de Mello Breyner (2001) que escreve:

Quem me roubou o tempo que era um
                          quem me roubou o tempo que era meu

                          o tempo todo inteiro que sorria

                          onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro

                          e onde por si mesmo o poema se escrevia

Sophia de Mello Breyner Andresen, Setembro de 2001

O tempo... sentido de múltiplas formas, passado de variadas maneiras, mais simples, mais complicadas... como nesta quadra ao gosto popular, de Fernando Pessoa:

Quando é o tempo do trigo

É o tempo de trigar,

A verdade é um postigo

A que ninguém vem falar.

 

O tempo atmosférico...  O tempo cronológico ...  O tempo em que alguma coisa se passa ou se passou...  “Não tenho tempo”... diz o apressado . “Já tenho pouco tempo...”, diz o desiludido  ... “No meu tempo...”, diz o saudosista, que não se adapta ao presente...

Aproveita o tempo!  Carpe diem!

Já dizia Antifonte, poeta grego do século V a.C., que:

De tudo quanto gastamos, o mais caro é o tempo.


O que corresponde bem àquele
 provérbio português "A mais forte despesa que se pode fazer é a do tempo".

O tempo é caro porque não volta, caro porque não há dinheiro que o compre, caro porque quando passa não pode ser recuperado.

Por isso há que não desperdiçá-lo com coisas inúteis...

E, entretanto, o tempo vai passando... e dirão “ estou aqui a perder o meu tempo...” ou então vim
"perder o tempo e o latim".

Pois é Tempus fugit, lá dizia Virgílio, nas Geórgicas..., III, 284

                                                                  Sed fugit interea, fugit inreparabile tempus,

 

Séneca, numa das Cartas a Lucílio, comenta estes versos de Vergílio, dizendo que o poeta “sempre que alude à velocidade do tempo, emprega o verbo fugir!... “

 

E cita, das Geórgicas, III, 66-68:

O tempo melhor da vida dos míseros mortais

É o primeiro a fugir; surge logo a doença, a amarga

Velhice, o cansaço, e enfim arrebata-os da dura morte a crueldade.”

 

E o filósofo continua:

Porquê então hesitarmos em apressar o passo, e ver se conseguimos acompanhar a rapidíssima velocidade do tempo? O melhor passa voando, cedendo lugar ao pior.”

 

E prossegue com esta comparação:

Numa ânfora o líquido mais puro é o primeiro a extravasar, deixando para o fim as impurezas, mais densas; também na nossa vida os primeiros anos são os melhores. Iremos nós deixar que eles se dissipem em interesse alheio, guardando para nós próprios apenas as borras?

Cartas a Lucílio, 108, 24-26

E tempo é história, é vida vivida, é presente e memória do passado.

Tempus fugit é, também, o título de um livro do brasileiro Rubem Alves onde podemos ler:

"Sentia que o relógio chamava para o seu tempo, que era o tempo de todos aqueles fantasmas, o tempo da vida que passou… Tenho saudades dele. Por sua tranqüila honestidade, repetindo sempre, incansável, "tempus fugit". Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa. Relógio que não se pareça com este meu, no meu pulso, que marca a hora sem dizer nada, que não tem histórias para contar. Meu relógio só me diz uma coisa: o quanto eu devo correr para não me atrasar…

Mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria: "tempus fugit…"

Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será…"

R. Alves, Tempus Fugit (na contracapa)

 

Falando com o tempo, um tempo sentido, um tempo vivido. O tempo é o relógio da vida e este relógio que lembra, a cada segundo, que a vida passa pode causar angústia.

Um escritor brasileiro, Mário Lago, refere-se, com graça a essa sua relação com o tempo:

“Eu fiz um acordo com o tempo...
Nem ele me persegue, nem eu fujo dele...
Qualquer dia a gente se encontra e,
dessa forma, vou vivendo 
intensamente cada momento...”


Bom, é melhor terminar este texto, porque "o tempo não é elástico", e não quero ocupar demasiado o tempo dos leitores.

No entanto...  não se esqueçam: aproveitem bem o tempo!

Isaltina Martins

 

Traduções citadas:

Séneca, Cartas a Lucílio (trad. de Segurado e Campos),  F.C.G., 

Horácio, Odes (trad. de Pedro Braga Falcão), Livros Cotovia.

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