quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

A História dos Paladares ou Saberes e Sabores

 


Meu artigo mais recente no As Artes entre as Letras:

Saiu no final de 2021, do prelo da Prime Books, o segundo volume da monumental trilogia História dos Paladares de Deana Barroqueira, escritora portuguesa nascida em 1945 na diáspora portuguesa nos Estados Unidos. A autora promete-nos um terceiro volume, que já está entregue na editora e deve sair ainda este ano. O primeira volume tem o título de Sedução, o segundo volume 2 designa-se, adequadamente, por Perdição e o terceiro volume chamar-se-á, felizmente, Redenção.

O primeiro volume, saído também em 2021, teve uma muito boa receção dos leitores e da crítica, que foi coroada pelo Prémio Internacional da Literatura Gastronómica, da Académie Internacional de la Gastronomie, em França. Soube entretanto que os dois volumes foram nomeados para os Gourmand World Cookbook Awards 2022 (os «óscares da Gastronomia»), nas categorias de História da Culinária e de Séries. É natural motivo de contentamento para aautora e para todos os seus ávidos leitores, entre os quais me incluo: as obras, quer ganhem ou não, entraram na lista dos 1% melhores livros do mundo do seu género, em 227 países. A gastronomia portuguesa (já que os livros se centram sobretudo na história da gastronomia portuguesa) está bem e recomenda-se.

Deana Barroqueiro escreve na linha de gastrónomos José Quitério e Alfredo Saramago, que nos regalaram com livros muito enriquecedores sobre o que comemos. Barroqueiro tem uma grande bagagem de cozinha e gastronomia e escreve bem: não só foi durante três décadas e meia professora de Literatura Portuguesa e Francesa como tem a mão treinada por um conjunto de obras que conquistou leitores: começou com livros infantis como Uraçá: O índio branco (Livros Horizonte, 2002), continuou com livros inspirados na Bíblia como Contos Eróticos do Velho Testamento, com prefácio de Maria Teresa Horta (Livros Horizonte, 2003; reedição: Planeta Manuscrito, 2018), traduzido em Espanha, Itália e Brasil; e estendeu-se por volumosos romances históricos que se baseiam na história portuguesa, em particular nos períodos da Expansão Marítima e da União Ibérica: O Navegador da Passagem: A história de um descobridor de mundos que o mundo ignorou (Porto Editora, 2008); O Espião de D. João II: Na demanda dos segredos do Oriente e do misterioso Reino do Preste João (Ésquilo, 2009; reedição: Casa das Letras, 2015); O Corsário dos Sete Mares: Fernão Mendes Pinto (Casa das Letras, 2012); D. Sebastião e o Vidente: Um romance de conspiração, mistério e revelação (Porto Editora, 2006; reedição: Casa das Letras, 2016), que recebeu o Prémio Máxima de Literatura 2007 - Prémio especial do júri, e se tornou um best-seller; e 1640. O poeta, a professa, o prosador, o pregador (Casa das Letras, 2017). A autor ganhou, pelo seu estudo e divulgação da cultura portuguesa no espaço da lusofonia, o Prémio Femina 2021.

Se o primeiro volume da trilogia, que me surpreendeu, tinha 486 páginas, o segundo volume só fica um pouco atrás, com 396 páginas. Tem, tal como o primeiro, muitas receitas antigas: a capa informa que são 211. Como diz a autora numa carta aos leitores: «Ao volume de Perdição, interessa a culinária como conceito estético e, sobretudo, a gastronomia, enquanto ramo do saber relevado á categoria das arte, portanto, produto de civilização. Através de uma profunda pesquisa individual de artigos e livres antigos e contemporâneos, procurei explorar o lado simbólico, ideológico e artístico da alimentação, condimentando-o com o sal e a pimenta das minhas memórias, emoções e paixões.» E, mais adiante: «A História dos Paladares é uma encruzilhada, ou melhor um labirinto de sabores e saberes onde temi perder-me a cada canto, a cada nicho - cozinha regional tradicional, nacional, internacional, oriental, étnica, gastronómica, molecular ou de desconstrução (…) pela densidade da informação recolhida». A autora tece uma malha, ajudada pelo grafismo, onde nos podemos prazerosamente perder, seja com histórias, seja com informações úteis, seja com receitas. Pode-se começar em qualquer lado e andar para a frente ou para trás….

O livro está dividido em sete capítulos, cada um deles definido por três palavras: I- Memoriais. Editados. Impressos. II- Aprimorados. Civilizadores. Progressistas. III- faustosos. Pantagruélicos. Opulentos. IV- Encobertos. Prodigiosos. Virulentos. V- Sacralizados. Sacrílegos. Bentos. VI- Ocultistas. Necromânticos. Antropofágicos. E, finalmente, VII- Freiráticos. Conventuais. Pecaminosos. No capítulo I a autora transporta-nos aos banquetes romanos e traz-nos o primeiro livro de cozinha português, No capítulo II, fala-nos do grande chef francês Auguste Escoffier e a da cozinheira Rosa Maria (um pseudónimo, que talvez seja de um homem), autora no século XX da Cozinheira das Cozinheiras que a mãe da autora levou e trouxe da América (pelo meio, podemos aprender «um remédio pera as mulheres que casarem pareçam donzelas»). No capítulo III ficamos a saber como foi a primeira boda da dinastia de Avis e o que se comia na corte do Preste João das Índias. No capítulo IV, aprendemos os sabores de São Tomé e os sabores de Macau. No capítulo V conhecemos como é que Santo Inácio de Loyola comprou uma viagem com biscoitos e como é a culinária sagrada de comida-de-santo no Brasil. No capítulo VI ficamos arrepiados com cenas de canibalismo e com as greves da fome que Isabel do Carmo fez quando esteve presa em Custóias. No capítulo VII, por último, surgem uma história fantástica do Convento de Odivelas, onde João V costumava ir, e a deliciosa receita dos pastéis do convento de Tentúgal. Estas são apenas algumas pormenores de um quadro muito rico apresentado em Perdição. Com uma lista bibliográfica muito completa e um receituário no final, só faltou um índice, para nos ajudar a encontrar qualquer nome ou iguaria. Mas tanto fez a autora que só lhe podemos estar gratos por este pantagruélico livro.

Ficamos, cheios de água na boca, a aguardar pelo terceiro volume. Depois da Sedução e Perdição, precisamos ansiosamente de Redenção.

 

 

 

1 comentário:

  1. Caríssimo Professor
    Muito obrigada pela crítica tão generosa que faz ao meu livro. Fez-me muito feliz. Bem haja e até à Redenção!
    Os meus desejos de um ano livre de todo o mal.
    Deana Barroqueiro

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