domingo, 20 de dezembro de 2020

SOMOS O PASSADO DE AMANHÃ


Com o prazer habitual e proveito de sempre, transcrevo esta desassombrada, belíssima e profunda análise que o meu estimado amigo Eugénio Lisboa, académico, ensaísta e crítico literário publicou no “Jornal de Letras”, com o subtítulo: "Algumas observações cândidas sobre Eduardo Lourenço": 

We are tomorrow’s past
Mary Webb 
 
O texto que vem a seguir não visa de modo nenhum ser antipático com a figura do autor de Pessoa Revisitado. Que fique desde já claro: seria estulto e ingrato não reconhecer a forte marca que a sua intervenção cultural teve no nosso meio intelectual. Mas vou falar sobretudo – e parece-me fundamental fazê-lo – no modo um pouco inquietante, unanimista e incontinente da homenagem que se tem andado a fazer e que deixa muito a desejar, quando se vise um escrutínio sereno, objectivo e inteligente, que a obra de Lourenço requer e merece. 

Isto, de resto, não se tem passado só com Eduardo Lourenço: algumas figuras de algum porte, recentemente desaparecidas, foram também alvo de intemperadas ejaculatórias fora de qualquer equilibrado senso crítico. Não é, a meu ver, a melhor maneira de se homenagear um morto que deixou marca entre os vivos.

António Sérgio e José Régio passaram a vida a fazer a pedagogia de uma metodologia feita de cautela, de bom senso, de obstinação fecunda, de aprofundamento gradativo e sereno, evitando o excesso ditirâmbico e, afinal, pouco fundamentado e pouco crítico.

O grande físico, Albert Einstein, incomodado com o verdadeiro culto a que votaram a sua figura de grande intérprete do universo, declarou que “o culto da pessoa humana [lhe pareceu] sempre injustificado”. Eu diria mais: perigoso e pouco fecundo.

Andar a descobrir, dia sim, dia não, um novo génio de serviço que vem e arrasa tudo quanto antes se fez é puro provincianismo, o qual, ao contrário do pensamento vigente, não habita preferencialmente na província.

Lourenço foi um homem muito inteligente, mas com óbvios limites, como toda a gente. Para começar, como já algures observei, o seu estilo de escrita nem de longe era o mais adequado a um bom prosador de ideias. Os grandes modelos de veiculadores de ideias, de Antero a Orlando Ribeiro, passando por António Sérgio, José Régio ou Sílvio Lima, entre outros, ou por alguns dos maiores filósofos de qualquer nacionalidade, oferecem-nos uma prosa límpida, intrepidamente descascada, alheia a “fioretti” e a maneirismos gongorizantes, que só servem para atravancar o fluir asseado das ideias.

São inúmeras as pessoas – sobretudo, mas não só, pessoas que vivem fora de Portugal e estão habituadas a outras leituras mais arejadas – a queixarem-se da obscuridade das prestações ensaísticas de Eduardo Lourenço. E têm alguma razão. As boas ideias não devem esconder-se por detrás de vestes complicadas e apinocadas, que as tornem de doloroso acesso.

O filósofo Vauvenargues, que Voltaire tanto estimava, deixou-nos um aforismo célebre, que não me canso de recomendar a académicos fascinados pelo valor da opacidade: “A clareza é a boa fé dos filósofos.” E o filósofo Wittgenstein, mais citado do que realmente lido, ia mais longe, quando dizia que um pensamento que se não consegue exprimir com simplicidade e clareza é indício de que ainda não está maduro para ser expresso. Mas estar na posse de um pensamento amadurecido e torná-lo deliberadamente obscuro, pela vestimenta que se lhe acrescenta, é propriamente inaceitável. E impróprio de um filósofo.

Lourenço gostava, obviamente, de aprimorar e apinocar o veículo das suas ideias (o estilo), o que talvez agradasse aos amantes de algum gongórico, mas servia mal os verdadeiros amantes de ideias. Esconder, com berloques, a nudez de uma ideia pode levantar a suspeita de que se quer ocultar a fragilidade dessa ideia. Eis por que me revejo mais, em termos de veículos de ideias e de sólidos argumentos de avaliação literária, nos textos de ensaístas como Sérgio, Régio, Sílvio Lima, David Mourão-Ferreira, Jacinto do Prado Coelho, Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima e, noutra área, na admirável e clarificante prosa de um Bertrand Russell ou de um Bergson. 

Mas as reservas que aqui quero trazer são mais dirigidas aos admiradores e aduladores de Lourenço, aos emissores de epitáfios incontinentes, do que ao próprio ensaísta. Quando querem fazer dele o argonauta que “desvendou” Portugal e Pessoa aos portugueses, estão a assassinar os factos eruditos e a cometer uma clamorosa injustiça. Aqui, repito, o pecador não é o autor de O Labirinto da Saudade, mas sim os seus aduladores pouco informados ou muito esquecidos. 

Todo o excesso de admiração é sempre suspeito e revela, em geral, pouco senso crítico e péssimo conhecimento da obra idolatrada. André Gide, que era, além de notável ficcionista e diarista, um finíssimo crítico e ensaísta, raramente dado a desmedidos ditirambos, observava, judiciosamente, que, quando se tem pouca coisa a dizer de alguém ou de uma obra, até não calha mal berrar, e que o excesso é frequentemente uma marca de penúria, pois que a verdadeira abundância arrasta consigo uma espécie de ponderação. O excesso, além de normalmente implicar um défice de conhecimento, é, repito, perigoso. O poeta William Blake dizia que o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. 

Pode ser que sim: depende de que excesso se trata, porque o excesso de admiração pode levar ao palácio do erro e da injustiça. Pessoa não precisou de Lourenço para ser descoberto, lido, estudado, promovido e traduzido. Dizer que Lourenço, por mais admirável que seja a sua sondagem pessoana, “desvendou” Pessoa aos lusíadas, esquecendo o admirável trabalho de quem, de muito longe, o precedeu é cometer os pecados capitais de ou esquecimento, ou desatenção, ou ignorância ou leviandade.

Já em 1925 – ainda Lourenço gatinhava – José Régio arriscava a sua licenciatura, apresentando à conservadora Universidade de Coimbra, uma dissertação sobre as modernas tendências da poesia portuguesa, na qual dava palco generoso aos três argonautas do Orpheu. E aí coroava Pessoa com o estatuto de Mestre. Esta dissertação seria depois publicada, com o título de Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa, em 1941. Nesta altura, Lourenço já não andava de bibe, mas tinha apenas 18 anos e, entretanto vigorara a revista presença, de 1927 a 1940, a qual deu larguíssima atenção e palco a Pessoa e aos seus principais heterónimos. E ignorar Jacinto do Prado Coelho que, com a sua tese seminal – Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa – deve ter feito solevar mais do que uma perturbada sobrancelha na Universidade de Lisboa, é mais ou menos tão grave como ignorar personalidades como Jorge de Sena, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Teresa Rita Lopes, David Mourão-Ferreira e tantos outros (perdoem-me se os não cito) a quem a aura pessoana tanto deve.

Do mesmo modo, dar ao autor de Labirinto da Saudade os créditos de pioneiro solitário no desvendar de Portugal aos portugueses é cometer outra injustiça de truz: então o Antero das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, o Eça, que tão bem sondou as misérias, os tics e as cómicas megalomanias da sociedade portuguesa, com uma arte inigualável, o Oliveira Martins do Portugal Contemporâneo, o Miguel Torga, do belíssimo livro Portugal, dos vibrantes e inesquecíveis dezasseis volumes do Diário e dos contos admiráveis dos Novos Contos da Montanha ou o António Sérgio, dos oito límpidos e clarividentes Ensaios, além de muitas outras notáveis e corajosas intervenções, não colaboraram nada para desvendar Portugal aos portugueses? Nada disto conta? Lourenço veio pisar terra virgem? (Não foi ele quem o disse, foram os seus intemperados aduladores).

Olhem que a injustiça é feio pecado e o autor do admirável Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista não precisa de favores espúrios. Outro aspecto que gostaria de aqui sublinhar é este: Eduardo Lourenço aceitou sempre muito mal e de muito mau humor os raríssimos reparos que, em vida, confrontou. Visou sempre, com prodigioso trabalho de formiga, uma saboreada unanimidade, sem vestígios de contraditório. E conseguiu-o, o que não fica bem a um meio cultural adulto.

Nisto, não seguiu a fecunda pista de Karl Popper, que descreveu a lógica do progredir científico, por via da aceitação da “falsificação” (acto de mostrar que é falsa uma hipótese de trabalho), a qual permite passar o mais rapidamente possível, de uma hipótese revelada frágil, para outra mais competente. Entrincheirar-se o “clerc” na “sua” hipótese, como se fosse um ganho definitivo não é muito próprio de quem quer avançar no conhecimento.

O sábio Samuel Johnson, biógrafo de poetas e o autor do primeiro verdadeiro dicionário da língua inglesa, além de ser o protagonista da mais elogiada biografia de sempre (Life of Johnson, de James Boswell) foi um dia abordado por uma senhora meticulosa, a qual encontrara no Dicionário de Johnson um erro: atribuição de um sentido errado a um certo vocábulo. Intrigada, perguntou-lhe por que tinha ele cometido tal erro. O sábio respondeu com suave candura: “Ignorância, minha Senhora. Pura ignorância!” Assim falam os sábios que se não importam de errar e gostam de progredir. 

Para terminar, gostaria de voltar a sublinhar que esquecer a contribuição dos que nos antecederam e contribuíram para o nosso conhecimento é abrir um mau precedente. Como diz a epígrafe de Mary Webb, que antepus a este texto, “somos o passado de amanhã”. O que fizermos aos que nos antecederam será provavelmente o que nos farão os que nos sucederem.

4 comentários:

  1. Concordo em absoluto, não conseguindo evitar a mágoa que sinto por não terem feito os mesmos rasgados elogios a tantos outros como, por exemplo, ao falecido professor Óscar Lopes.

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  2. Eugénio Lisboa vem aqui salvar a honra do convento da nossa intelectualidade. É tara portuguesa viver de favorecimento, de exaltação injustificada, ao mesmo tempo que se reluta em reconhecer méritos aos que não pertençam à tribo. Compare-se o fervor pró-Eduardo Lourenço com o comedido louvor a Jorge de Sena, de longe intelectual e autor mais importante do que EL. O situacionismo continua a dominar o nosso viciado meio intelectual. O actual situacionismo em nada desmerece o anterior. A diferença é que a este chamam democrático. Boa Noute, amigos e forte abraço para ELisboa, um bravo do conspícuo IST.

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  3. Ainda a propósito de Eduardo Lourenço e do coro excessivamente laudatório que o seu passamento acabou por motivar, cabe referir algo que até ado momento não vi citado em nenhum lugar, por nenhum dos opinantes mais ou menos hiperbólicos nos elogios tecidos em redor da figura dedaparecida. Trata-se do estranho pósfácio que Eduardo Lourenço se esmerou em incluir no livro de pretensa autoria de José Sócrates "A Confiança no Mundo",segundo consta elaborado por Dias Farinho, professor da Faculdade de Direito de Lisboa, contratado por JSócrates para trabalhos de assessoria cultural (?). Que terá levado Eduardo Lourenço a emprestar o seu nome prestigiado a essa inusitada farsa intelectual ? Mesmo admitindo que tal haja sucedido por quebra de lucidez, pela sua avançada idade, estranha-se o acto e ainda mais o silêncio sepulcral que sobre este caiu. Ninguém viu, ninguém leu, ninguém referiu ou quererão impor que tal nal haja existido ? Parece anómalo num meio onde reine a livre expressão de ideias e opiniões. Haverá aqui convenção ou pacto de secretismo tão religiosamente observado ? Nada disto abona o ambiente cultural em que se vive, putativamente livre, democrático, como repetidamente se afirma. Afinal, o compadrio político-cultural estará ainda vivo em Portugal, talvez hoje até de modo bem mais perverso. Haverá, no entanto, que admitir que sempre alguém saberá dizer não à tentativa de escrever a História depurada de factos incómodos.

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