quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Ciência em Directo


 Minha contribuição para o último "AS ARTES ENTRE AS LETRAS":

A Gradiva acaba de publicar o livro “Apanhados pelo vírus- Factos e mitos acerca da COVID-19”, da minha autoria do bioquímico e divulgador de ciência David Marçal. Eis um excerto do último capítulo:

“O novo coronavírus tem representado um grande desafio para a ciência, mas esta tem conseguido dar uma boa resposta. Não apenas o vírus foi rapidamente sequenciado, como se determinou a forma pormenorizada devárias das suas proteínas, incluindo da importante proteína da espícula, a sua superfície, e foi elucidado o modo como esta se liga a membrana das células do hospedeiro humano. Cultivaram‑se os vírus em laboratório, analisando o processo da sua multiplicação. Estudou‑se a patologia dos tecidos afectados. Investigou‑se a epidemiologia — quem era infectado e como era infectado — a fim de circunscrever o mais possível a contaminação. Estudaram‑se as formas de transmissão e a eficácia das medidas de prevenção. Analisaram‑se os efeitos fisiológicos da doença. Ensaiaram‑se e ensaiam‑se antigos fármacos e procuram‑se novos. Numa impressionante corrida contra o tempo que tem lugar em várias regiões do globo, busca‑se uma vacina que imunize contra o SARS‑CoV‑2.

Há muita gente, incluindo alguns políticos, que se interroga por que razão, estando a ciência tao avançada — e esta! —, ela não resolve rapidamente este assunto. A resposta e que a ciência tem o seu tempo próprio, que não e o tempo dos políticos. Obter conhecimento não é um processo administrativo que possa ser simplesmente resolvido com a alocação de mais recursos (embora os recursos acrescidos possam acelerar a obtenção de conhecimento), pois estamos a desvendar intrincados segredos da Natureza. Neste tempo de crise, nas áreas mais relacionadas com o vírus e a pandemia, a ciência esta mais activa do que nunca. A comunidade científica relacionada com esta área está a trabalhar todos os dias, dia e noite, numa luta para compreender melhor o vírus e a doença. Os cientistas têm dialogado entre si — um processo essencial para a produção de ciência — preferencialmente através dos meios informáticos que a própria ciência (de novo, a física, com os computadores e as fibras ópticas que os ligam) proporcionou nas últimas décadas e que hoje estão ao serviço de toda a humanidade, para os mais variados fins.

De facto, temos assistido ao desenrolar da ciência em directo, com notícias, muitas vezes sem quaisquer filtros críticos, de avanços na prevenção, detecção e tratamento da COVID‑19, que podem ser falsos avanços. Nem tudo o que luz e ouro. Há trabalhos que são melhores do que outros, ou porque as amostras são mais amplas ou porque o tratamento dos dados e mais rigoroso, colocando de lado todos os possíveis efeitos perturbadores. Não é de maneira nenhuma fácil, quer para um jornalista quer para um cidadão comum, aquilatar o grau de fiabilidade dos resultados que vem sendo anunciados com compreensível avidez pelos media. Claro que não há, em princípio, mal nenhum que os resultados da ciência apareçam na praça publica: a ciência é, em larga medida, um empreendimento público e deve, sem restrições, estar acessível ao público. Mas o público não deve tirar conclusões precipitadas de um só trabalho ou de poucos trabalhos. Terá de ser a própria comunidade científica, tornando‑se no que podemos chamar “advogado do diabo” de si própria, a verificar o que se confirma do que e anunciado e o que não se confirma e que, por isso, deve ser inequivocamente refutado. Há trabalhos que têm de ser repetidos não uma, mas varias vezes, para que o erro seja evitado e as conclusões possam ser tomadas como seguras. E um processo de “filtração”, cujos resultados devem evidentemente ser anunciados ao público.

A sociedade tem natural urgência nas soluções: ambiciona o Santo Graal que será uma vacina que se revele eficaz contra a COVID‑19 assim como medicamentos antivirais específicos para o SARS‑CoV‑2, que funcionem melhor do que os outros antivirais usados noutras infeccoes. Várias equipas de cientistas estão a desenvolver uma vacina para a COVID‑19 e a ensaiar medicamentos antivirais. Já existem protótipos de vacinas, nos quais se deposita alguma esperança, mas eles têm de ser cuidadosamente testados num grande número de pessoas para avaliar tanto a sua segurança como a sua eficácia. Nenhuma vacina ou qualquer outro medicamento pode chegar ao mercado sem passar por um período de testes, que pode demorar anos, seguindo as exigências de prova da medicina baseada na ciência. O normal é precisamente demorar anos. A pressa não é boa conselheira no processo científico. No caso da COVID‑19, os cientistas estão a tentar acelerar os processos de desenvolvimento da vacina, sem que isso comprometa a indispensável segurança, mas não se pode acelerar para alem de um certo limite, uma vez que os investigadores tem de aguardar pelos tempos que são próprios do contagio viral que e naturalmente acidental. Nos ensaios clínicos das vacinas, há que esperar que os voluntários que neles participam sejam expostos ao vírus na comunidade e ver quais são as respectivas reaccoes. Há um outro tipo de ensaios — chamados de desafio — em que os participantes são expostos propositadamente ao vírus, mas estes ensaios são considerados pouco éticos. Há quem defenda a sua utilização neste caso, face à gravidade e urgência da situação, e decerto não faltariam voluntários. Veja‑se, por exemplo, que mais de 200 000 pessoas se ofereceram em 2016 para ir a Marte sem bilhete de regresso, no quadro de uma campanha da empresa holandesa Mars One. Não têm sido realizados ensaios de desafio, embora essa possibilidade não esteja completamente arredada. Na verdade, a primeira vacina, contra a varíola, foi testada com um ensaio de desafio: Edward Jenner inoculou o filho do seu jardineiro com varíola humana. Felizmente a vacina resultou e o rapaz de oito anos não desenvolveu a doença. Estávamos no seculo XVIII e as preocupações éticas não eram as que são hoje...

Também há que esperar para ver como o organismo humano reage a vacina. Se houver reacções que sejam fortemente adversas tem de se parar imediatamente para tentar perceber o que aconteceu: não se pode continuar como se nada tivesse ocorrido.(…)”

 David Marçal e Carlos Fiolhais

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