domingo, 27 de dezembro de 2020

JOSÉ ESTEVES, O HOMEM, A OBRA E O AMIGO


 “Esta é uma carta aberta a José Esteves, dirigida por um seu amigo, Rui Baptista, de Coimbra, professor de Educação Física, que no segundo Congresso de Educação Física apresentou uma moção (aprovada) para que fosse concedida a José Esteves o doutoramento “honoris causa”(Jornal “A BOLA", 12/02/1992).

No que se reporta à integração universitária do Instituto Nacional de Educação Física (INEF) na universidade, escrevi anteontem neste blogue o “post”, intitulado, “Antes de 25 de Abril, o ensino superior inter e extra muros universitários”. E porque “a memória é a consciência inserida no tempo”, no dizer de Pessoa, mencionei o nome de professores de Educação Física que lutaram por esta causa, esquecendo-me, falta de que me penitencio, de António da Fonseca, director da FNAT, tendo  como “primus inter pares” José Esteves, de seu nome completo José de Sousa Esteves.

Fundamentei a minha opinião em traços da sua riquíssima personalidade de homem probo e corajoso para que o tempo não pudesse fazer cair no olvido pessoas que tiveram a honra de merecerem a sua amizade generosa ou das  gerações mais novas que tem os velhos como “cotas”, em gíria depreciativa.

Navegámos ambos em águas políticas diferenciadas mas respeitando a nossas inclinações políticas, enviando-me os seus dois livros com dedicatórias muito amigas e cartões de boas-festas no Natal, efeméride que lhe merecia  grande respeito com católico praticante que era. Eu, por meu lado, enviei-lhe os meus livros: "Sem comTEMPOrizar", "Os pesos e halteres,  a função cardiopulmonar e o doutor Cooper", "Educação Física, Ciência ao Serviço da Saúde Pública" e "Do Caos à Ordem dos Professores".

Em aleivosia sem nome, num curso de férias do INEF, sendo na altura José Esteves seu subdirector  e prelector,  houve um “bufo” discente desse curso que fez chegar aos ouvidos  do ministro da tutela de que ele tecia críticas políticas desabonatórias ao  Estado Novo. Era fácil fazer acreditar nesta maldosa mentira por ele ter sido um dos participantes na chamada “Vigília do Rato” (30/12/1972), em que um grupo de católicos realizaram uma reunião de natureza política tendo alguns deles sido presos e enviados para a Cadeia de Caxias e uns tantos funcionários públicos alvos de processos de demissão.

Tendo-lhe o então director do INEF, simultaneamente, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, Anderson Leitão, aconselhado a pedir a demissão, para evitar a sua demissão compulsiva, respondeu-lhe que o não faria enquanto não fosse levado a efeito um processo disciplinar para apuramento da sua responsabilidade efectiva. Efectuado ele, foi provado tratar-se de uma miserável aleivosia.

O Professor Anderson Leitão, que lhe tinha grande  estima e consideração, apressou-se em dar-lhe  conhecimento do desfecho que lhe permitia a continuação do seu cargo directivo e docente.  A sua resposta foi breve e seca de um homem digno que não permitia que a sua dignidade tivesse sido posta em causa: “Agora, sim, demito-me!” E demitiu-se!

Atitude bem diferente tiveram trafulhas que, ao serem questionados sobre o facto de terem desempenhado elevados cargos antes de 25 de Abril, responderam, sem que lhes corasse a cara de vergonha, que os tinham aceitado para minarem as estruturas fascistas. Espero que os não tenham aceitado para minarem as estruturas comunistas porque, como nos ensina o ditado popular: “Cesteiro que faz um cesto faz um cento desde que tenha verga e tempo!”

Por considerar, a exemplo de Perre-Joseph Proudon,  que “em todas as decadências o primeiro sintoma é o da decadência da amizade” e, em “roubo” a uma citação do meu amigo Eugénio Lisboa, de Hugo Belfi, “as memórias são como as palavras: o tempo e a distância corroem-nas como ácido”, ao longo do tempo, escrevi vários textos evocativos de José Esteves, alguns deles neste blogue,  sobre esta personalidade ímpar da sociologia desportiva, autor do livro,  intitulado: “O Desporto e as Estruturas Sociais, que tem sido matéria de estudo de faculdades de Educação Física nacionais. Posteriormente, escreveu outro livro emblemático, hoje, mais do que nunca, pleno de acualidade: “Desporto e Racismo”.

Ambos, notáveis teses, em palavras de António Paula Brito, professor de Educação Física e psicólogo, mais tarde professor catedrático de Psicologia Desportiva da Faculdade de Motricidade Humana,   por abordarem temas de um deplorável “status”: “Quando, a propósito de Educação Física e Desporto se fala de Cultura, de Ciência, de Sociedade, de Política, etc., é frequente enfrentar-se um sorriso descrente ou ouvir gritar a Heresia” Mais prosaicamente tenho escrito que ainda há pseudo-intelectuais que pretendem ver na Educação Física e Desporto uma fábrica de hercúleos mentecaptos! Isto apesar de Almeida-Negreiros ter pontificado: “É preciso criar a adoração dos músculos”!

José Esteves suportou, com o estoicismo dos mártires e a paciência de Job, a heresia e fê-lo em hora em que falar de Sociedade (de uma certa sociedade) ou de Política (de uma certa política) era bem mais perigoso e arriscado sob o ponto de vista político do que enfrentar a ironia dos néscios ou sofrer a dúvida de uma certa intelectualidade ciosa da sua condição.

No seu livro, sobre a Sociologia do Desporto, estudo académico emergente em Portugal, José Esteves assume em acto de coragem uma posição crítica em luta constante com os seus detractores. Poucas vezes, a consagrada expressão de Séneca que, “viver significa lutar” teve aplicação tão nobre como quando aplicada a José Esteves.

Conta a lenda que Pigmalião se perdeu de amores por Galeteia, estátua de rara beleza por si esculpida, em tão grande e sofrida paixão que Afrodite condoída lhe deu o sopro da vida. Émulo seu, José Esteves cinzelou com o bater do coração e o escopo da alma a grande paixão da sua vida – a Educação Física e o Desporto. Chega, finalmente, o 25 de Abril, por ele tão desejado e ansiado.

José Esteves vive a hora, quase numa atitude de recolhida religiosidade: Não bate palmas! Não se cola ao pelotão da frente! Não aceita elevados cargos para que é convidado, inclusivamente,  pelo Partido Comunista.

Tem as mãos calejadas do trabalho. Tem os pés sofridos em longa e dura caminhada. Tem o corpo alquebrado por uma luta política intensa.

Não!, para mim, José Esteves não foi um falso ídolo com pés de barro por ter os pés solidamente assentes no solo que pisa. Um semideus, porque não pertence à mitologia grega. Um super-homem porque não é, de forma alguma, personagem de Nietzche," lutando contra o homem moral, um fraco, um degenerado".

Numa época planetária de exacerbado nacionalismo nas pugnas desportivas, em nome de uma bandeira ou de uma ideologia política, que formosíssima utopia a sua: “Não troco a promoção desportiva duma centena de crianças das nossas escolas primárias por uma medalha de ouro olímpica”.

A um simples mortal, os deuses do Olimpo jamais, poderão perdoar tanta e tamanha afronta. E não nos diz o adágio que “a vingança é o prazer dos deuses”?

3 comentários:

  1. Depois de publicado este meu post, ocorreram-me dois acontecimentos dignos de referência:

    1. Foi Jorge Sampaio, ao que suponho, seu aluno no Liceu de Oeiras, tendo escrito sobre José Esteves:“José Esteves tem a qualidade de nos fazer pensar. As suas perguntas são uma fonte inesgotável de reflexão…. As suas práticas não contradizem nunca as suas teorias. …É sempre o mesmo cidadão que não se demite do seu papel de”consciência critica” e que não cala a sua indignação perante “todos os racismos...”

    2.Recém formado, tendo ele iniciado a sua docência no então Liceu D. João III, em Coimbra, (hoje Escola Secundária de José Falcão), depois de uma sua aula de Desporto, num dia de verão ao ar livre com os alunos de tronco nu, foi chamado ao gabinete da reitoria para reitor lhe dizer que não admitia "manifestações pagãs no "seu" liceu!" Enfim manifestações ditatoriais...

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  2. Recordo com saudade. Foi meu professor de Educação Física na Escola Comercial Ferreira Borges por volta de 1973 ou 1974.

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  3. Gostaria de saber em que concelho do Minho nasceu!

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