terça-feira, 1 de dezembro de 2020

DO ERRO DE DESCARTES AO SENTIR & SABER


 



“O homem pensa com o corpo todo” (Krestchemer, psiquiatra e filósofo alemão, 1888-1964).

De quando em vez, dou comigo em revisitar uma pasta de artigos de opinião meus publicados ("Jornal Novo", "Jornal de Notícias "Correio da Manhã", "Público",   "Diário de Coimbra"),  a partir de 1955, mais de um milhar, sem ter em conta inúmeros "post's" publicados em blogues  com destaque no “De Rerum Natura",  de que sou co-autor.

Na medida económica que a minha condição de reformado permite, acabo de comprar o livro de António Damásio: “Sentir & Saber -  A Caminho da Consciência" (Círculo dos Leitores, Nov. 2020). Este género de leitura sobre os complexos meandros da complexidade da  investigação do cérebro humano, no dizer poético, por mim roubado a Sherrington,  “um tear encantado”, desde a cultura helénica aos nossos dias,  tem despertado a atenção de filósofos e cientistas, acaba, uma vez mais,  por ser enriquecido com o último livro   de António Damásio supracitado.

Sobre este livro, que merece ser lido com tempo e devota atenção, não me sinto para já capacitado para emitir  uma mera e apressada opinião, ainda mesmo num país em que toda a gente opina sobre tudo e sobre nada do alto da sua tribuna. Assim, cito apenas o que escrevi, decorria o ano de 1995, no “Correio da Manhã” (19/09/1995), justificado pela minha paixão por esta matéria que é o desbravar  dos segredos que o funcionamento do cérebro encerra, e sobre o qual a professora  de Filosofia  do ensino secundário Regina Sardoeira (“O Independente”, 25/08/1995) pontifica atrevidamente :  “”O dualismo cartesiano: eis o erro apontado - e parece- descoberto no século XX por António Damásio!” 

E porque este novo livro de António Damásio traz para as luzes da ribalta cientifica novas e valiosas achegas, resolvi, em modesta contribuição, transcrever esse meu artigo fotografando o  que  escrevi,  em Setembro do ano de 95 , intitulado “O erro de Descartes”. Ou  seja, para não ser havido como um surfista arrivista que cavalga um onda  ocasional!

P.S.: Verificando que a foto, pela sua falta de nitidez está pouco perceptível, transcrevo o artigo em causa. Assim:


“O ERRO DE DESCARTES

(Meu artigo publicado no “Correio da Manhã”, em 19/09/1995)

Em  1987, a oito anos da publicação do ‘best-seller” de António Damásio,  ‘O erro de Descartes, nos dias 18 e 19 de Novembro, eram publicados no ‘Diário de Coimbra’ dois artigos meus, respectivamente, intitulados,  ‘Biologia e Filosofia antagonizadas’ e ‘No limiar da neurofisiologia’.

Rematava eu o segundo artigo da forma seguinte: ´Não é o cérebro corpo? Só o desconhecimento da fisiologia que preside ao funcionamento do cérebro  justifica o crime  de tentar separar os  órgãos que o vivificam , o animam e lhe dão o suporte sublime do Pensamento: cérebro, coração, pulmões e músculos’.

Neles chamei a atenção  para a subalternidade  em que a filosofia cartesiana colocou o corpo (‘res extensa’) relativamente à mente (´res cogitans’) . Essa realidade, o da ditadura do espírito sobre o corpo, está presente na crítica perfeita  que o filósofo contemporâneo Jean François Lyotard (1988) lhe faz: “Toda a energia pertence ao pensamento que diz o que diz, que quer o que quer,  matéria é o fracasso  do pensamento, a sua massa inerte, a estupidez.

Destarte,  a licenciada em filosofia, Regina Sardoeira ( “O  Independente”,  25 de Agosto de 1995), pontifica atrevidamente: “O dualismo cartesiano: eis o erro apontado – e parece- descoberto no século XX por António Damásio!”

Para esta professora de filosofia, o facto de nas suas aulas falar sobre o dualismo cartesiano parece-lhe condição mais que suficiente para que ele  não subsista.  Não pensa assim Whewel quando nos diz que “ as teorias duma época tornam-se os factos da época seguinte".

Estranha ela, para mais,  que as aulas de Filosofia não sejam havidas como suficientes para terem o título do livro de Damásio como “pompa ilusória e as quatro páginas com que ele o legitima insignificantes”.

Descartes quase permanece impune no seu erro que a ciência se nos encarregou de denunciar e para o qual chamei a atenção  em comunicação apresentada este ano num Congresso realizado em Março deste ano, em que escrevi: “Fica a esperança, portanto, que entre as conquistas do 3.º milénio muitos dos fantasmas que ainda assombram o Corpo serão definitivamente esconjurados, De entre eles,  numa neurociência inovadora e descomprometida  com a Filosofia – existo, logo penso dando lugar a existo logo penso- da autoria de António Damásio, a trabalhar nos Estados Unidos, e laureado em Portugal conjuntamente com sua mulher Hanna com o "Prémio Pessoa/93", o da escravidão do corpo ao espírito”.

Para Delfim Santos (1947), “no pensamento de cada filósofo há algo de vivo e algo de morto e o morto é, quase sempre, o científico”. Segundo Jean-Pierre Changeux (1983) Aristóteles, com lugar no pódio dos maiores filósofos da humanidade, ao debruçar-se sobre  funcionamento do corpo humano , bralhou os espíritos durante séculos por considerar o cérebro como um sistema de arrefecimento  como a sede dos sentimentos”.  Ora, o coração é apenas uma prosaica bomba muscular aspirante-premente que não ama e não odeia, não rejubila e não sofre, não age e não sonha! Mas,  mesmo ainda hoje, na tradição gestual da representação teatral é difícil de aceitar esta realidade que obriga até o próprio conhecedor do sistema nervoso a levar a mão ao peito no  sítio em que o coração galopa em tropel para exprimir à sua amada o fogo da paixão que lhe corrói as entranhas e as labaredas do amor que lhe enrubesce as faces. De igual modo, pensa Georg Gusdorf (1977): “A biologia aristotélica só foi verdadeiramente ultrapassada depois de  um intervalo de 2.000  anos”,

Mas voltemos a Descartes. Heresia das heresias, segundo Jacques-Michel Robert  (1982), este filósofo “localiza o elo da ligação da alma com o corpo na glândula pineal” que fisiologistas coevos de inspiração filogenética, confrontados com o seu obscuro significado  funcional disseram ser o vestígio de um órgão de visão por nós herdados dos répteis. Saberes recentes esclarecem , agora,  que ela segrega uma hormona (melatonina) necessária ao desempenho do ritmo biológico dia-noite.

Assim, é minha convicção que os neurofisiologistas continuam à espera  de alguém que lhes desvende os segredos ocultos por uma caixa negra (na analogia poética de neurofisiologista Sherringtonm, "um tear encantado"), sintetizada de forma perfeita, em linguagem metafórica muito expressiva, por David Kech (1979), académico muito respeitado nas ciências do cérebro: “A neuro fisiologia encontra-se num sótão escuro procurando um gato escuros sem ter a certeza que ele lá está. Seu único indício são leves ruídos que parecem miados”.

Devido a  esta tremenda complexidade, esse alguém terá que ter a coragem de um William Harvey, inicialmente ridicularizado pela própria classe médica,  por destruir, três século atrás, falaciosas teorias sobre o sistema circulatório, veiculadas pela Metafísica, tendo sido capacitado para anunciar jubilosamente os processos  “circulação do pensamento”. O estudo deste notável  fisiologista que lançou para o cesto dos papéis a teoria aristotélica sobre os fenómenos circulatórios, assumiu a importância  de um tiro de partida para a corrida célere da Biologia contemporânea de olhos postos numa perspectiva molecular, depois de séculos de imobilismo dogmático.

Num interessante artigo (Science & Vie, Outubro/94) , é-nos mostrada a imagem do córtex frontal (obtida por uma câmara de  emissão de positões), onde se metaboliza a serotonina, um dos neurotransmissores das emoções,  sob o título “A cólera em imagens”.

Sobre o futuro das ciências da mente, o neurofisiologista  Alcetis Berg não esconde o seu optimismo: “As imagens oferecidas pela Tomografia  por Emissão de Positrões permitem detectar e visualizar os processos bioquímicos cerebrais, através do consumo de glicose pelas diferentes partes do cérebro. Talvez por seu intermédio possamos um dia localizar com precisão os processos neurológicos que compõem o Pensamento”.

É, portanto, nesta perspectiva que o livro ,“O erro de Descartes”, assume o inconcusso valor de trazer luminosidade ao sótão escuro de que nos fala David Krech. Em contrapartida, tentar demonstrar que  a dicotomia cartesiana não  continua a influenciar o nosso século é desmentido pelo historiador Robert Aron quando responsabiliza a demasiada assimilação do cartesianismo pela actual fraqueza do mundo ocidental, pese embora a informação colhida em Regina Sardoeira de que “Descartes e o Discurso do Método” têm sido temas  dos programas de Filosofia do ensino secundário”.


2 comentários:

  1. A filosofia chega a ter semelhanças com uma cobra que, faminta, toma a própria cauda por uma presa e se põe a engolir-se a si própria, anestesiando-se com o próprio veneno, senão quando já desenvolveu imunidade o que, nem assim, deixa de suscitar a questão: até que ponto se pode ser autofágico? Ou, a partir de que ponto a cobra se pode considerar engolida por si mesma?
    O cérebro é um órgão muito especial que, segundo alguns neurocientistas, não evoluiu para encontrar a sabedoria, mas para sobreviver.
    A maioria das pessoas, incluindo a maioria dos poucos filósofos que a história produziu (é possível saber os nomes e o que escreveram, sem ter uma grande memória), não pensam, verdadeiramente, não pensam, no sentido em que aquilo que percepcionam, leem, parece não lhes passar pelo cérebro, pelo menos por aquela parte do cérebro, que é suposto termos, "responsável" pela inteligência, ou pelos processos de inteligibilidade.
    As "coisas" entram pelos ouvidos, pelos olhos, enfim, pelos sentidos e, muitas vezes, saem pela boca, ou pelas expressões gráficas, etc., sem terem indícios de haverem passado pelo tal cérebro.
    Isto, assim sendo, nem é bom, nem mau, não é bonito nem feio, não está certo nem errado, não é melhor nem pior, mais ou menos verdadeiro do que se fosse diferente. Se for, é o que é e não tem de ser, nem pode ser outra coisa, pelo menos enquanto for assim.

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  2. Do seu comentário, extraio este pedaço de prosa:"A maioria das pessoas, incluindo a maioria dos poucos filósofos que a história produziu (é possível saber os nomes e o que escreveram, sem ter uma grande memória), não pensam, verdadeiramente, não pensam, no sentido em que aquilo que percepcionam, leem, parece não lhes passar pelo cérebro, pelo menos por aquela parte do cérebro, que é suposto termos, "responsável" pela inteligência, ou pelos processos de inteligibilidade".Aliás, O. Goldsmith, pontificou: "Não existe nada de absurdo que em alguma época não tenha já sido dito por um filósofo o que me parece bom porque da discussão nasce, uma vezes, a luz, outras um olho negro. No século XIX, as ideias eram discutidas ao faiscar das lâminas dos duelos à espada ao raiar da madrugada!

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