quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A normalização da "colaboração" entre organizações políticas e entidades sociais da mais diversa natureza, com destaque para as empresas

Os leitores que estão afastados do sistema de ensino talvez não saibam que o currículo escolar integra uma área designada, neste momento, por "Cidadania e Desenvolvimento". No espírito do que se designa por "Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania", essa área ganhou especial protagonismo, sendo composta por dezassete temas que devem ser tratados ao longo do percurso académico (ver, por exemplo, aquiaquiaqui).

A Direcção-Geral da Educação além de explicitar orientações gerais para cada um desses temas, disponibiliza documentos que certos agentes/parceiros educativos "oferecem" (com a legitimidade que a lei lhes reconhece) ao sistema, a escolas e professores, a formadores, a dinamizadores.

Ora, quem são tais agentes/parceiros? São, em muitos casos, empresas/fundações multinacionais e nacionais que têm alguma afinidade com os temas. Por exemplo, para o tema Saúde, são empresas de alimentação, de artigos de higiene, etc.; para o tema Literacia financeira, são bancos, seguradoras e afins; para os temas de Desenvolvimento sustentável e Educação ambiental são empresas de combustíveis, produtora de energia, etc. 

A "lógica" é a seguinte: empresas que causam danos, em muitos casos graves, às pessoas e ao mundo, propõem-se participar na educação dos mais jovens para impedir que esses danos sejam causados. Isto é feito, repito, com conhecimento e permissão dos sistemas de ensino, infiltrando-se neles, desde o nível nacional até ao nível local.

A mensagem que fazem passar não é, evidentemente, esta; é, pelo contrário, uma imagem de filantropismo, de beneficência acima de qualquer suspeita. E, não obstante a evidente contradição  (e grave), todos nesses sistemas parecem achar normal, e mais do que isso: muito bem! Estranho é que alguém estranhe e conteste, como estou a fazer aqui.

É evidente que as empresas que operam deste modo nos sistemas e nas escolas não operam apenas aí; operam nos mais variados sectores da sociedade, mesmo nos políticos, sejam eles nacionais, internacionais ou supranacionais.

Esta nota tem a ver com o seguinte: foi notícia o patrocínio de empresas à Cimeira das Nações Unidas sobre o clima, que está a decorrer em Madrid (aqui e aqui, por exemplo). E, salienta-se, que a empresa que mais dinheiro disponibilizou é a produtora de energia que mais contribui para elevados níveis poluição no país vizinho (ver aqui). É “patrocinadora diamante” do evento. Além disso, terá comprado, com fins de apresentação de imagem, a capa de vários jornais (ver ao lado a declaração de uma autarca.

A estreita "colaboração" entre organizações que defendem direitos fundamentais e entidades que não têm necessariamente essa prioridade é, na verdade, um sinal dos tempos: normalizou-se. E, estando instalada na escola, desde os níveis mais precoces de escolaridade, temo que, no futuro, não tenha qualquer crítica. 

5 comentários:

  1. Já me recusei, veementemente, em sede do meu departamento, a dinamizar e a participar em atividades como "justiça para todos", "literacia financeira", com o fundamento de que esses projectos não eram meus e de que eram promovidos e concebidos por sociedades de advogados e entidades financeiras com um formato com o qual eu não estava de acordo.
    Que o meu contrato de professor não prevê e não compreende obrigações de ser catequista ou delegado de propagandas.
    A escola pública deve preservar-se ao máximo de se transformar num balcão dos figurões da praça.
    A maior demonstração de desrespeito e de despeito pela cidadania que os vendilhões podem fazer é, sob a aparência da bondade das intenções, estribarem-se no envolvimento ou devoção dos crentes para fazerem da boa fé alheia mais uma fonte de rendimento.

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  2. Estimado Professor
    Aproveitando para lhe agradecer os seus comentários, devo elogiar o seu discernimento e coragem. Presumo que não seja fácil fazer frente às incontáveis solicitações que chegam à escola e aos seus professores.
    É, para mim, muito evidente o que diz, nomeadamente o facto de afirmar que o professor é professor; não é vendedor, influenciador (nova palavra no vocabulário pedagógico) ou doutrinador. A questão é até quando poderão alguns professores fazer frente a essas solicitações num ambiente de normalização do que é objectivamente reprovável sob o ponto de vista ético?
    Até porque a lei (não a LBSE, mas decretos vários desde 2012), bem como orientações e directrizes da tutela, prevêem essa intromissão de empresas, fundações e outras entidades no espaço escolar, numa lógica de co-construção do currículo.
    Cordialmente,
    NHDamião

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  3. «A questão é até quando poderão alguns professores fazer frente a essas solicitações num ambiente de normalização do que é objectivamente reprovável sob o ponto de vista ético?»
    Os professores que fizerem frente vão ser excluídos do processo, não têm perfil, não colaboram, criam problemas, sabotam as panelinhas e os arranjinhos, são desmancha-prazeres e desmancha-discursos...Enfim, personae non gratae, que não têm sossego nem vão dar sossego às espertezas saloias e ao espírito de subserviência, que parece ser a coluna vertebral deste país impotente, dominado pela corrupção e atolado na ignorância. E estamos a falar da Educação, não estamos a falar da Defesa Nacional.

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  4. Estimado Professor
    Tenho a mesma impressão (que é uma impressão baseada no que estudo, logo não é, penso, apenas uma impressão ligeira): os professores que fizerem frente vão ser excluídos, a pressão das entidades que estão acima dsa escolas, que rodeiam as escolas, o ambiente/ethos das escolas, o processo de avaliação das escolas e dos professores... tudo isso descaracteriza a profissão docente e, estou muito convencida que irá anulá-la. Nos próximos anos, os professores perderão ainda mais protagonismo, reconhecimento, autoridade. E isto não é uma questão portuguesa, é global. E por ser global ainda é muito mais assustador. Mas, deixe que lhe diga: o mais assustador é alguns professores não perceberem ou não quererem perceber o que se passa e, até, corroborarem o que concorrem para a sua eliminação.
    Cumprimentos,
    MHDamião

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  5. Helena Damião,

    destaco este trecho do seu comentário:
    «Mas, deixe que lhe diga: o mais assustador é alguns professores não perceberem ou não quererem perceber o que se passa e, até, corroborarem o que concorrem para a sua eliminação.»
    Ocorre-me dizer que, num simulacro de democracia como é a nossa, e quanto mais os peões têm consciência ou medo disso, mais se contentam em ter um lugar no tabuleiro, porque a sobrevivência é a verdadeira lei do mais forte, nem que seja com balões de oxigénio.
    De resto, a estratégia da sobrevivência, e da busca de estatuto, como podemos observar na história recente das guerras mais sofisticadas, permitiu que fossem manipuladas nações inteiras de gente com ambições para quem um pouco de poder, ou até a "honra" de envergar uma farda, com uma bandeira, ou a promessa de um "passaporte para o inferno", representavam uma oportunidade de glória.
    É assustador pensar que as pessoas e as instituições e as relações de poder e os valores continuam a ser, cada vez mais, como foram nesses tempos tenebrosos.

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