terça-feira, 25 de abril de 2017

Um texto fundamental para compreender a democracia moderna e como a educação pode contribuir para ela

Resposta à pergunta: que é o iluminismo? o opúsculo de Immanuel Kant datado de 1784, é um dos textos mais importantes para quem queira pensar sobre a complexa relação entre a democracia e a educação.

De facto, Artur Morão, o tradutor que li, mesmo apontando algumas críticas que a passagem do tempo autoriza, reconhece que se trata de
"um dos mais contundentes apelos ao exercício autónomo da razão, à liberdade de pensamento (...) constitui ainda uma expressão sintomática de um momento fundamental na estruturação da consciência moderna (...) Propõe, de certo modo, um ideal imperativo e inatingível – precisamente a consecução da genuína e plena ilustração intelectual."
Se alguma finalidade a educação deve perseguir, com destaque para a educação escolar, é a formação do "entendimento", da "razão", que permite a escolha autónoma e responsável, o exercício do livre-arbítrio e cria as condições para o exercício da liberdade e da dignidade.

Logo ao princípio diz Kant nesse texto:
"A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo. 
A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes) continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (...) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante todas as tentativas ulteriores. 
É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer semelhante tentativa.
Este texto, que tem tudo a ver com a data que hoje se comemora, continua aqui.

2 comentários:

  1. Helena Damião,

    Oportuna referência.
    Permito-me a ousadia de acrescentar à passagem que escolheu uma ideia quanto à razão que nos impede - humanos - de evitar certos erros, especialmente aqueles que da história (e das ideias em particular) poderíamos aprender: é que os ciclos em que se desenrolam os eventos humanos e políticos são de uma escala que ultrapassa a nossa instintiva necessidade de gratificação imediata.

    Ao trabalho, portanto.

    Saudações,
    LV

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  2. Até podemos ter iluminismo e razão e entendimento, em suma, ciência e ideologia, mas se não tivermos vontade e ação orientada pelo Direito, enquanto princípio normativo de ação e critério de sanção, para valores comunitários, gregários, vinculativos, éticos, justos, nem a democracia, nem a ciência e ideologia evitam o caos e o absurdo.
    A educação para a democracia é uma educação para valores de convivência, tolerância, aceitação, na liberdade das diferenças. Mas a democracia tende a legitimar o domínio, até irracional/pelas piores razões, de interesses que se fazem (podem não ser) prevalecentes numa sociedade. E o que as pessoas concluem, basicamente, é: se a democracia não serve os nossos interesses, não serve. E quem diz democracia diz outro regime, forma de governo, partido, religião...
    A menoridade, o paternalismo, toda a retórica em torno do "dever-ser" que não é, do poder-ser, que não pode, do querer-ser, que interessa àqueles mas não nos interessa a nós, são "ideais" que alguém pode, de algum modo acalentar, mas a realidade, a tal que interessa à ciência, não se compadece do que interessa a A, B ou C. O “ser” é o que não interessa. O que interessa é o resto.
    Por falar em retórica, estamos cada vez mais submersos pela retórica, dos políticos que têm ouvidos e boca, mas não têm cérebro e também daqueles cientistas que são boas arrecadações/compêndios de ideias feitas e de tabelas e de nomenclaturas e de fórmulas, mas que não têm inventividade para extrair da informação os corolários necessários.
    Vivemos num tempo de estilização, estereótipos, padronização e reprodução automatizada/estandardizada, supostamente para nos facilitar a vida e a morte, mas mais esta.
    De qualquer modo, a educação dificilmente desempenhará o seu papel "iluminador" se não for algo mais do que instrumento de domesticação, seja em nome de que deus/"must" for.

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