sexta-feira, 14 de abril de 2017

Os finalistas do eduquês

Artigo de opinião de Guilherme Valente, no Público de hoje:

"Ignorar os factos é desprezar a liberdade"
T. Snyder, On Tirany

  "O conhecimento emancipa a pessoa humana, a autonomia intelectual é a marca da dignidade humana"
I. Kant, 1783

 1. Vejo com satisfação que o meu combate de muitos anos pelos factos e a prova da realidade na na Educação, isto é, pelo espírito científico, fez o seu caminho e hoje mais gente tem engrossado este lado da barricada.

É preciso prosseguir este combate, agora também pela Literatura e as Humanidades (a tecnologia sem a moral "é como uma pistola nas mãos de uma criança"). Aquilo que enfrentamos é o mais brutal, programado, ataque à Razão, à Civilização e aos grandes valores universais comuns. Os valores morais não desaparecem, não são os valores que estão em crise. Em crise está a sociedade marcada pela escola da ideologia relativista, permissiva e obscurantista, que deixou de os transmitir e exercitar e mina.

Veja se, a propósito, o discurso do ministro da Educação britânico, traduzido e divulgado muito oportunamente por Helena Damião, resistente corajosa no meio absurdo e ameaçador dominado pelos "especialistas da educação" (blog De rerum natura).

 O que esse ministro diz, apoiado nos avanços mais actuais das ciências cognitivas aplicadas à Educação, é, afinal, o óbvio, que não me tenho cansado de gritar, quase sozinho, ou melhor, com a concordância, mas, até hoje SILENCIOSA, de inúmeros portugueses.

2. O vandalismo sazonal perpetrado por "estudantes" portugueses em Espanha é mais um facto, a juntar a muitos outros, como os das praxes e da violência nas escolas, que os professores têm vergonha de contar (o JN de 11/4 garante que há jovens a levar armas para os estabelecimentos de ensino), da abdicação aberrante dos jovens de intervirem na política e nas causas cívicas. Tudo evidências da devastação na escola, na juventude e na sociedade programada pela ideologia e a moda que dominou e continua a dominar a Educação desde praticamente o 25 de Abril. Assim se impedindo o País de construir a escola que com a liberdade era possível e imperativo construir. Repare-se como nem têm a menor consciência moral do que praticaram": escreve o PÚBLICO, "Finalistas dizem que estragos foram resposta a 'insultos'".

Viagens de cuja natureza e organização o ME e as escolas onde são traficadas ignoram tudo, claro. Educação para a Cidadania (EC) só no papel.

Pode-se generalizar? Deve-se generalizar. Porque estou a falar do meio dominante, do que suscita, permite e desculpabiliza a barbárie. Claro que há excepções, há sempre. E desta vez os "sociólogos" e "especialistas" não vão conseguir o embuste de identificarem o vandalismo com a revolta de grupos sociais desfavorecidos...

São os filhos de pais que preferiram deixar de ser pais para serem "amigos", alunos de "professores" que deixaram de ser mestres por ser mais fácil e menos perigoso serem "tipos porreiros". Alunos dos Ministérios, dos "especialistas da educação", das teorias e programas das "aprendizagens"; do "aprender a aprender" sem se aprender nada; da "aula continuação do recreio"; do facilitismo, da ausência de exigência e avaliação a sério; do elogio da indisciplina e da desvalorização do professor; das "competências", sem se aprender o que é preciso para se ser competente nalguma coisa; da "interdisciplinaridade", sem se ter aprendido nada em nenhuma disciplina; das "áreas de projecto", a ignorância pode projectar o quê? E, agora, da Educação para a Cidadania, ideia no mínimo perigosa, que só não é idiota por ter o objectivo oculto de reduzir e desvalorizar os saberes essenciais, isto é, evitar que se ensine e apreenda o que deve e é preciso ser aprendido e reflectido.

 E vai piorar, porque o ME já desenterrou (só mudaram o século, as tretas são as velhas e vê-se o seu resultado) O Perfil dos Alunos para o Século...XXI, eleitores num futuro próximo das catarinas martins ou de alguém no outro extremo, que é o mesmo.

Guilherme Valente

5 comentários:

  1. Muito rigorosas, estas generalizações imbuídas de recalcamento geracional, sem qualquer tipo de evidência ou suporte que não o anedotal (ou o que o JN "garante"). Juntando à outra senhora que tem um estabelecimento de explicações, e cujo site está decorado com citações fajutas de Einstein, só nos resta ficar deprimidos com o facto de que nenhum dos lados da barricada augura nada de bom para o futuro da educação em Portugal.

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  2. O que revolta é que estas 'teorias' de que os alunos já sabem, ou aprendem por eles, e a escola só fornece o ambiente e a ajuda, chamados "métodos não directivos", já têm muitos anos, umas quatro ou cinco décadas, de experimentação prática; deveriam ter os seus resultados mais que confirmados com a brilhante ou pelo menos diferente para melhor prestação de uma geração de gente nos seus trinta ou quarenta anos, nos países mais entusiásticos. Nada. Só a habitual mediocridade com a habitual minoria de excelência, talvez ainda mais minoritária. Não há nenhuma revolução das mentes, a não ser que tenham ido uns para o DAESH, outros para a Frente Nacional; onde está uma juventude mais criativa e demonstradora de maior cidadania responsável ? O que se observa, isso sim, é cada vez mais iliteracia funcional - gente que não sabe nada nadinha de História, faz apreciações e julgamentos morais sem fundamento, escreve mal - mas muito mal - e lê pouco - mas muito pouco. O que se observa, ó meu Deus, é cada vez mais atitudes violentas a ganhar praticantes entre jovens e adultos, cada vez mais bárbaros a praticar barbaridades.

    Voilá para o sucesso do ensino não directivo.

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  3. Mário Gonçalves, supondo que existe uma amostra significativa, e organizada, de "produtos" dos métodos não directivos que lhe permite fazer apreciações e julgamentos morais (com fundamento?) sobre gerações inteiras, gostava de saber quais são os países onde encontra o contraponto - gerações e mais gerações brilhantes oriundas do ensino directivo, repletas de alunos criativos, eruditos e responsáveis (ao contrário do que encontramos nesses países "mais entusiásticos" e "bárbaros", tipo Finlândia, imagino).

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  4. É pura e simplesmente estúpido dizer agrupar viagens de finalistas e praxes académicas, e dizer que tudo é culpa do estado da Escola pós-25 de Abril. Ambos estes fenómenos precedem tal data, e a geração do autor já participava em tais actividades. Saudosismo ridículo e fora de lugar.

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  5. Essa reversão de argumentos, tipo "dantes já era assim" ou "mostre as gerações brilhantes do ensino directivo", não passa de falácias óbvias para quem tem olhos abertos e raciocina com lógica. Onde estão, desde os anos 60 o 70, os criadores de música e a grande literatura ? As fulgurantes descobertas da ciência, as novas teorias ? Tudo se passa ao nível da tecnologia anónima, renovada infindavelmente por tarefeiros competentes, que é o que a nova educação cria no seu melhor. Não tem nada a ver com o 25 de Abril. É um fenómeno global, de que as novas pedagogias são só um epifenómeno. Faliu a família, faliram os ideais colectivos, a população explodiu, o modelo clássico de cultura e civilização foi subvertido pela invasão da modelos miseráveis de outras paragens, subculturas popularuchas validadas pelo relativismo. "Partir tudo" é a mentalidade das claques do futebol, das manifestações do black block, das praxes e das viagens de finalistas, dos desesperados violentos no Facebook, das famílias disfuncionais. Tudo isso existe há décadas, séculos? sim, mas era devidamente contido, por auto-contenção, por censura social e pela força de uma lei que ainda não era relativista e complacente.

    Tudo vai mudar, com certeza, de novo, a próxima geração será 'diferente', ou a seguinte. O julgamento histórico distanciado desta época será feito dentro de séculos. Não consigo imaginar que venha a considerar que esta foi uma era de progresso, seja em que campo for.

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