sexta-feira, 28 de outubro de 2016

“90% DO CARO LEITOR FOI FEITO NAS ESTRELAS”

Artigo publicado primeiramente na imprensa regional.



A colecção “CiênciaAberta”, da editora Gradiva, que recebeu em 2012 o Grande Prémio Ciência Viva, tem desempenhado um papel incontornável para a divulgação científica entre nós. Em quase 35 anos de existência, permitiu aceder na língua de Camões ao que de melhor se escreve internacionalmente na divulgação da ciência, incluindo autores como Carl Sagan, Hubert Reeves, Richard Feynman, Stephen HawKing, entre muitos, muitos outros. São até ao momento 216 títulos fundadores para uma ampla cultura científica e também, diga-se, humanística.

É importante sublinhar que a “Ciência Aberta” deu sempre lugar aos autores portugueses, abrindo as suas portas à “divulgação científica portuguesa”. Esta boa tendência até se acentuou nos últimos anos, principalmente desde que Carlos Fiolhais é o seu director (exactamente a partir do número 201): em 18 títulos, metade são de autores portugueses! Isto também revela que a comunicação e divulgação de ciência têm crescido em Portugal nos últimos anos.

E é sobre um novo autor português da colecção “Ciência Aberta” que me irei debruçar a seguir.

Se voltar a ler o título desta crónica, encontrará o título do último volume da colecção que estamos a referir. Contudo, falta neste título um asterisco, que aparece na capa do livro, e que remete à informação de que os 90% se referem à “percentagem em massa”. O autor deste livro que tem o número 216 na “Ciência Aberta”, é o astrónomo e matemático Alexandre Aibéo, um dos nossos melhores comunicadores de ciência, mais especificamente na área da astronomia. Foi vencedor, em 2010, da primeira edição do concurso FAMELAB – Comunicar Ciência em Portugal, o que muito diz sobre a sua grande qualidade em comunicar bem e de forma acessível e aprazível a todos. E esta qualidade é um perfume que emana ao longo deste seu novo livro através da sua escrita.



Diga-se que este é o segundo livro de Alexandre Aibéo. O seu primeiro foi um muito inspirado e singular “Isto não é (Só) Matemática” (editado pela Quidnovi), sobre o qual Nuno Markl disse que trouxe sex-appeal à matemática.

Este novo livro é sobre a observação do Universo, sobre a astronomia, área que o autor domina bem. E está escrito numa linguagem muito acessível, num tom coloquial que transporta o leitor para uma conversa imaginária com o autor: e essa conversa é tão boa que não se dá pelo tempo a passar. E há também um tom humorístico, não exagerado, que convive muito bem com o rigor científico que o autor imprime à sua escrita, o que torna a leitura deste livro muito agradável e descontraída.

Este livro teve como ponto de partida, segundo o autor, a passagem para este formato de diversas palestras sobre astronomia que tem dado nos últimos anos um pouco por todo o país, em escolas mas não só. A sua grande experiência na exposição e interacção de públicos variados com a astronomia é assim a matriz de que partiu para a escrita deste livro muito útil para quem quer compreender como é que esta ciência nos permite entender o Universo, desde o cálculo “manual” da distância da Terra à Lua, até aos primeiros instantes após o Big Bang.

Para além do conhecimento sobre astronomia que Alexandre Aibéo transmite acessivelmente a qualquer leitor, é de sublinhar o cuidado com a contextualização histórica dos avanços e das descobertas astronómicas. Ao ler este livro, para além de viagens imaginárias às estrelas e galáxias, também fazemos uma viagem pela história da humanidade.

Por fim, dizer que depois de lermos este livro ficamos mais ricos (de conhecimento) e inteligentes: é que o autor também nos ensina a pensar com sentido crítico o que é essencial para sermos melhores pessoas e cidadãos.


António Piedade

3 comentários:

  1. Este blogue (quase) deixou de ter comentários. Uma pena.

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    1. Considerando que até há uns meses atrás bem mais de metade dos comentários eram insultos aos autores e/ou tentativas de justificar pseudociências, dou-me por muito satisfeito de esses comentários terem desaparecido. Ficam os que se aproveitam.

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  2. Desculpem-me os leitores por algumas gralhas e erros ortográficos que estavam na primeira edição deste texto e que entretanto já corrigi (espero que a todos).

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