sexta-feira, 18 de março de 2016

Natureza e Mito


Com o tempo primaveril, os campos começam a encher-se de flores. É fácil encontrar estas flores pequeninas, de cores e formas variadas, cuja definição botânica podemos ler no dicionário:


“Anémona: Planta da família das ranunculáceas, de cores variadas e brilhantes. As anémonas crescem nas matas, nos prados e à beira de água. São lindas plantas, de flores muito diferentemente coloridas. “ in  Lello Universal, Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro.

Mas a Mitologia fala-nos desta flor de uma forma muito mais interessante.
A anémona  (do grego ‘vento’) está relacionada com o mito de Adónis.
Diz-nos o mito que Adónis era filho de Mirra, a jovem filha de Tiante, rei da Síria a quem a ira de Afrodite suscitou um amor incestuoso pelo próprio pai. Ao descobrir o ardil em que caiu, o rei, furioso, persegue-a para a matar, mas os deuses apiedaram-se da jovem e transformaram-na numa árvore, a árvore da mirra. Meses depois nasceu Adónis, criança cuja beleza impressionou Afrodite que a recolheu e entregou a Perséfone, rainha dos Infernos, para que a criasse em segredo. Mais tarde, Perséfone, presa da beleza do jovem, não quis devolvê-lo a Afrodite o que gerou uma grande polémica entre elas. Esta lenda tem semelhanças com a do rapto da própria Perséfone, já que, também aqui, depois de um longo litígio, as duas deusas acordaram que Adónis passaria um terço do ano no mundo subterrâneo com Perséfone e dois terços junto de Afrodite. É mais uma lenda ligada ao mistério da vegetação, pois o jovem, nascido de uma árvore, passa um terço do ano debaixo da terra e depois sobe ao mundo da luz, para junto da deusa da Primavera e do Amor.
A lenda conta também que, um dia, o jovem foi ferido mortalmente por um javali. O poeta Bíon refere que a deusa derramou tantas lágrimas quantas as gotas de sangue de Adónis e que, de cada lágrima, nascia uma rosa e, de cada gota de sangue de Adónis, nasceu uma anémona.

Assim relata Ovídio:
                                                            E a demora não foi maior
que uma hora inteira, quando do sangue desponta uma flor,
com a cor que costumam oferecer as romãs que encerram
os seus grãos sob flexível pele. A sua vida, porém, é breve.
Pois, mal segura e fácil de cair pela excessiva leveza,
arrancam-na os mesmos ventos que lhe dão o nome.  
( Metamorfoses, VIII, 734-739)

As anémonas, flores pequeninas e frágeis, florescem na Primavera e no Outono. Apresentam cores variadas, do roxo ao lilás, ao púrpura, ao azul e mesmo ao branco. Com mais de 60 espécies, o próprio nome científico faz alusão ao mito. Dos três grupos principais de anémonas destacam-se: a Adonis vernalis, a Adonis aestivalis, a Adonis  amurensis e a Adonis microcarpa.
Em honra de Adónis, instituiu Afrodite uma festa que era celebrada pelas mulheres da Síria na Primavera, com um ritual que lembrava a morte prematura do belo jovem: eram lançadas sementes em vasos e, de seguida, regadas com água quente para que germinassem mais rapidamente. Porém este violento tratamento fazia com que as plantas morressem pouco depois da sua germinação, simbolizando, deste modo, a curta vida de Adónis. Essas plantações denominavam-se “jardins de Adónis”.
Lembremos, a propósito, o poema de Ricardo Reis, o heterónimo de Fernando Pessoa:

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
       Que em o dia em que nascem,
       Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
       Antes que Apolo deixe
       O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
       Que há noite antes e após
       O pouco que duramos.  

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000

E assim o mito embeleza a natureza, traz poesia às coisas simples. Não é mais belo que a descrição do dicionário?

Afrodite e Adónis, quadro de Rubens (Hermitage Gallery, S. Petersburg)






Isaltina Martins

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