terça-feira, 6 de outubro de 2015

PORTUGAL APÓS AS ELEIÇÕES

No Público poucos dias antes das eleições referi os resultados das sondagens na penúltima semana
(médias apresentadas por Pedro Magalhães) e é incrivel como ficaram tão perto dos resultados finais. As sondagens da última semana foram mesmo na mouche, excepto a subida inesperada do Bloco de Esquerda à custa do PS. Tiro o meu chapéu aos cientistas sociais que foram extraordinariamente certeiros.

Confesso que não esperava que a diferença de resultados entre o PSD/CDS e o PS fosse tão grande: esperava uma bipolarização mais nítida, mas o eleitorado decidiu de outra maneira, com muitos descontentes a privilegiar o Bloco. Infelizmente, o que eu receava sobre abstenção confirmou-se: ela aumentou (as sondagens prévias já indicavam isso), ao contrário do que foi anunciado e comentado na noite eleitoral,  Talvez se trate da consequência dos números impressionantes da emigração recente (cerca de 120.000 pessoas por ano, pelo menos). O número de votos e brancos continua também expressivo. Estes são factos muito relevante que convida à reflexão. Os partidos, todos ou quase, fingem que não é com eles, mas é.

Já houve muitos comentários sobre a instabilidade que aí vem. Os eleitores disseram claramente que não quer maiorias absolutas, obrigando os partidos a negociar acordos. Não tendo sido dada a maioria absoluta ao PSD-CDS (lembro que Passos Coelho disse, em campanha, que se não lha dessem, preferia que a dessem ao PS), o mais provável será a formação de um governo minoritário dos dois partidos que se apresentaram  coligados. Eles ganharam legitimidade para ensaiar uma solução desse tipo - uma solução frágil, pois não deverá resistir à legislatura. Também não se sabe se, no PS, Costa vai resistir aos seus correligionários (já dizia Churchill que os adversários estão na bancada ao lado mas os inimigos estão na sua própria bancada).  Nos próximos dias Passos Coelho deve ser convidado  a formar governo e vamos ver se ele percebe que o quadro político agora é muito diferente. Vai ser obrigado a uma negociação árdua de início e a uma negociação permanente depois. Por exemplo, a pseudo-avaliação do sistema científico da FCT nunca passaria no novo Parlamento  (no Parlamento há agora especialistas em política de ciência e é bom que seja feita uma rigorosa auditoria à penosa época do quero-posso-e -mando da FCT). Julgo que o actual primeiro-ministro não terá a necessária habilidade para o  diálogo.

Dizem os jornais que Nuno Crato, responsável maior pelo desastre na área da ciência (leia-se "Fuga de Cérebros", que acaba de sair na Bertrand), não é agora ministeriável. Passos Coelho ter-lhe-á dito para permanecer silencioso durante a campanha, para evitar mais prejuízos políticos. Se a coligação perdeu a maioria absoluta, bem pode agradecer à desventurada acção do ministro da Educação e Ciência, que passou rapidamente do topo para o fundo das tabelas de  popularidade.  Entrou aos ombros dos professores e saiu com uma imagem degradada. Vamos a ver se há, no novo governo, uma outra visão, necessariamente consensualizada, para as áreas da Educação e  Ciência.

1 comentário:

  1. Gostava que me dessem um exemplo de um ministro da educação que não tivesse acabado no fim da tabela da popularidade ( entenda-se por parte dos professores ).
    Isto é já um clássico. O lobby da educação/ciência é insaciável.

    cumps

    Rui Silva

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