sábado, 26 de abril de 2014

Em ciência, não há coincidências: só em televisão…



Alguns dias à volta do 25 de abril estimularam-me a escrita: se já tenho tendência para ligar coisas improváveis, fico deveras perturbado quando a coincidência me bate à porta.
Os factos, primeiro: facto 1, a infelicidade que é, para muitos, ver estremecer a excelência do Serviço Nacional de Saúde; facto 2, uma conversa de Carlos Fiolhais com Medina Carreira; 3, a presença de quatro senhoras no mais recente Expresso da 1/2 noite; 4, a sintonia de posições de Joana Amaral Dias e Henrique Medina Carreira quanto a alguns aspetos do exercício da opinião; e 5, o facto de, na qualidade de professor, acabar sempre a puxar a brasa à minha sardinha.
O comentário, agora:
1—A política de restrições orçamentais já produziu resultados incómodos em serviços de saúde que, julgávamos nós, teriam atingido uma fasquia de excelência que ninguém esperava baixar. O ministro da saúde tem mais qualidades do que a maioria dos outros, mas é aplicado na redução de despesas, e os especialistas da área começam a achar que as restrições já afetam o funcionamento de hospitais, estruturas de assistência, e rotinas normais das áreas de medicamentos. Maria José Morgado comentou, no Expresso da 1/2 noite, que o Serviço Nacional de Saúde é um milagre—o que, a julgar pelo funcionamento do resto do país, pode ser encarado como uma descrição exata.
2—Carlos Fiolhais e Henrique Medina Carreira entretiveram-se a concordar educadamente um com o outro, ao longo do programa Olhos nos olhos, mas percebia-se, volta, não volta, o facto de estarem em fundamental desacordo. Judite Sousa, que não é distraída, fez questão de sublinhar o desacordo, e fez muito bem: Medina Carreira acha que qualquer tentativa de manter a percentagem do orçamento do Estado aplicada na investigação é errada, porque não há dinheiro; Carlos Fiolhais entende que, ao contrário, é importante reforçá-la, porque é insuficiente face ao investimento da média dos países europeus; e que deve ser feito um esforço suplementar na colocação profissional dessas pessoas, estimulando, em concreto, a modernização e qualificação do setor empresarial, por exemplo. Tudo isso multiplica o tal dinheiro. E mencionou, a propósito, as boas realizações de algumas empresas modernas intimamente ligadas às estruturas universitárias donde emergiram. O debate acerca da inutilidade de muitos diplomas existentes dividiu-os, mas, de facto, terá cumprido uma missão anunciada por Medina Carreira: foi pedagógico, porque deu aos espetadores critérios para alimentar melhor a opinião.
3—No Expresso da 1/2 noite, a cientista Maria de Sousa sublinhava, de forma particularmente expressiva, que a Ciência não deve ser apoiada para reforçar a economia de um país: a formação científica deve ser incentivada para incorporar a cultura de um país. É, sobretudo, um projeto de investimento cultural—traz, entre várias virtudes, a capacidade de duvidar e fazer perguntas—que, admitamos, tem consequências económicas visíveis sempre que calha. (Só não se sabe quando e onde calha…) Entretanto, quando Maria José Morgado se pôs a falar da corrupção, e dessa outra cultura que é a da não prestação de contas, foi interrompida por Joana Amaral Dias, que considerou a apreciação generalista e perigosa: lá podem vir uns a dizer que os políticos são uma classe horrível, e que com o António de Oliveira Salazar é que estávamos em paz e quentinhos. Mais adiante, Maria José Morgado, falando do desastre que são os tribunais, acrescentou que só a educação parecia estar pior. Referiu o livro A sala de aula, de Maria Filomena Mónica (afirmando que, finalmente, percebeu tudo sobre a crise do ensino), depois de dizer várias coisas sobre a estrutura da justiça e a corrupção (mostrando que já há muito tempo percebeu tudo sobre essa crise)—e foi interrompida de novo por Joana Amaral Dias: é perigoso dizer estas coisas, porque depois vem aí o José Manuel Durão Barroso falar sobre os anos de escola dele, que eram muito catitas—manifestamente, produziram-no a ele—, e vêm outros, a afirmar que o caos do ensino público acaba… acabando o ensino público.
4—Henrique Medina Carreira já manifestara um susto semelhante, de sinal contrário: não interessa nada falar em bons resultados—também é perigoso—, porque, depois, as pessoas desatam a afirmar que tudo está muito bem, e não corrigem o que está mal: serve para que os aldrabões enganem a sociedade. Bom: Henrique e Joana—a mesma luta.
5—No fundo, é tudo a mesmíssima guerra, vista com óculos diferentes. Como tenho andado a aprender coisas sobre a Finlândia, recordo-me de ler que, na crise profunda que atravessaram no final do século passado, nunca abrandaram no investimento no ensino, com qualidade repetida na escolha e preparação de um corpo docente extremamente qualificado, e gratuidade de todo o sistema até ao fim dos estudos superiores. Os níveis elevados de investimento na formação científica e investigação foram, ao longo da crise, deixando muitos responsáveis com o coração na garganta: e se estavam errados? Os primeiros resultados do PISA, no ano 2000, vieram surpreendê-los, muito para além das expectativas mais otimistas: estavam no topo da escala!  E a indústria e a Nokia continuavam a crescer…
Podemos daqui inferir que quaisquer cortes na formação científica dos portugueses são cegueira: não podemos desinvestir, por muito que tenhamos de poupar—exatamente porque temos de poupar. Negociemos PPPs, façamos contas a assessorias, parques automóveis desmedidos, gastos supérfluos de representação. Combatamos a corrupção, organizemos a justiça para não deixar impunes patifarias que saem caras ao país. Mas deixemos a formação científica e a investigação em paz—ou, ainda melhor, façamo-las crescer mais um pouco. E invistamos a sério na formação dos melhores professores que conseguirmos produzir, já que boa parte dos problemas deste país ainda é de ordem cultural: basta olhar para a câmara dos representantes para perceber isto. O ex-ministro Miguel Relvas também pode servir de exemplo.
O Serviço Nacional de Saúde não é só um milagre, como diz Maria José Morgado: é um resultado da concentração de gente com formação científica numa tarefa, em área onde abundam cientistas. É um corpo criado e meticulosa e insistentemente aperfeiçoado por pessoas com sólida formação científica, noção dos objetivos, sentido das finalidades; com momentos de tentativa e erro, modéstia nas emendas, e uma clara e cívica ética de serviço público. Joana Amaral Dias atribui-o a políticos: o impulso legislativo, a institucionalização do fenómeno, sim; mas a ossatura e os vários tecidos que o constituem, e lhe dão rosto, são um claro exemplo do que podem fazer especialistas com formação de ciências, tão esclarecidos na prática da assistência médica como Maria José Morgado na da justiça. São os frutos da escola e da reflexão que, penso eu, faltam na jurisprudência e no ensino, onde o raciocínio científico talvez esteja demasiado ausente.
Não; não há coincidências, em ciência. Se calhar, bem vistas as coisas, nem em televisão…
António Mouzinho

3 comentários:

  1. Neste país corremos sempre o risco de nos surpreendermos, aqui no DRN também.
    Eu assino por baixo tudo o que o Senhor António Mouzinho escreveu neste post.
    Mas não me esqueço de que quase fui insultado por este senhor aqui há uns poucos anos, talvez um ou dois, não me lembro exactamente a data, apenas sei que me respondeu com bastante pesporrência recorrendo ao «argumento de autoridade» da sua madura idade, disse-me que já ia nos 60 e poucos e que estava de partida de férias para o Algarve, que fizesse o favor de não o incomodar mais com contrarrespostas.
    E apenas porque eu defendi precisamente o que ele defende (implicitamente) agora, que o investimento em Educação deve continuar, que fizemos progressos nos últimos 40 anos apesar de continuarmos com muitas deficiências e de termos ainda de melhorar muito.
    Apesar de ainda continuarmos muito na cauda nesta corrida de longo curso que jamais se fará com paragens para pensar a estratégia, antes com a continuação da corrida e o aceleramento do ritmo enquanto ao mesmo tempo se pensa como ir recuperando terreno ao «adversário».
    E sempre, sempre, sem parar de correr e de pansar!
    Que era um erro criticar da forma demagógica como estava a fazer a orquestra superiormente dirigida pelo Papa Anti-Eduquês Guilherme Valente e por outros bispos, como o actual coveiro da nossa Educação Crato (o tal que corta nas escolas públicas mas que ao mesmo tempo aumenta os subsídios das privadas dos contratos de associação mesmo onde a rede pública cobre as necessidade, i. e. Caldas da Rainha, Coimbra, etc.)
    Por eu não alinhar na campanha vergonhosa do Papa Anti-eduquês que aqui punha posts execráveis com alguma regularidade, para gáudio de alguns acólitos bastante fiéis que salivavam de prazer e se dobravam batendo com o nariz no chão ao mesmo tempo que diziam Amém.
    Parece que alguns finalmente perceberam os objectivos de tão execrável campanha dos «anos devastadores do eduquês».
    Não há nada como um bom banho de realidade como tira-teimas a qualquer teoria.
    Neste momento só Medina Carreira se mantém intrépido a dar o peito às balas, firme como o antimónio nas suas convicções pessoais sobre a total falência da Educação desde a sua fugaz passagem como turbo-professor numa qualquer escola técnica à noite nos anos 50/60.
    Burros são os ingleses que contratam tanto médico e enfermeiro português incompetente, os suíços que contratam tanto enfermeiro português incompetente, os alemães e os noruegueses que contratam tanto engenheiro português incompetente, e todos os nacionais de tantos outros países para onde esta «cambada de ignorantes iletrados com diploma no bolso» têm emigrado conseguindo ludibriar essa gente distraída.
    Como é que uma Educação nacional caótica, que só tem formado imbecis e ignorantes ao longo de 40 anos, conseguiu dar tanto diploma de ignorância perante a complacência de quase toda a gente é quase um mistério.
    Apenas superado pela distracção dos avisados (pelo menos nas Finanças) povos europeus do Centro e do Norte.
    Tal como costumo ser sempre educado nos meus comentários que esporadicamente (cada vez mais esporadicamente) deixo nos blogues, também nunca fico ofendido com respostas menos adequadas seja de quem for.

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  2. Entre as qualidades do Ministro da Saúde avulta a do combate à ladroagem que infecta o SNS. Qualidade que, curiosamente, nunca é referida. Pelas minhas contas sob a égide do Paulo Macedo, já foram identificados roubos e vigarices superiores a 1.000 milhões de euros. No entanto o discurso politicamente correcto sobre o SNS é sempre o catastrofista, como se nada de anormal exista no SNS...
    António

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  3. Subscrevo tanto o texto como os comentários.
    A isso acrescente-se que os nossos " impreparados" doutorandos dão cartas nos EUA, perante a sua própria admiração , dado que imaginavam os autóctones de um brilhantismo inexcedível.
    Já um doutorando americano em Portugal, entre muitas vantagens do país , sublinhava que qualquer hospital público tratava todos os que necessitassem e por pouco dinheiro.

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