terça-feira, 23 de abril de 2013

David Soares subscreveu a ILC


A língua, na verdade, muda – isso é evidente -, mas não evolui. Evoluir pressupõe sempre a existência de um desígnio para o qual se caminha e se vai abandonando versões toscas do objecto a aperfeiçoar até apurar-se a forma final. Ora, não há desígnio nenhum por trás das mudanças das línguas, logo não evoluem – e, nesse sentido, o AO90 não é o corolário dessa busca pela perfeição que os seus bonzos nos querem fazer acreditar. A língua muda, mas não muda tanto na rua, por influência da tal oralidade, como muda por acção da grafia, graças às palavras inventadas pelos escritores: o nosso léxico contemporâneo foi todo inventado por escritores, filósofos e cientistas, desde a Idade Média para cá. Quem muda a língua de modo natural e harmonioso não é quem a fala – nem quem acha como ela deve ser escrita -, mas quem, com efeito, trabalha com ela. De todas as mudanças impressas pospelamente sobre uma sociedade derivam consequências que só não são imprevisíveis na sua tragicidade. Ignore-se, pois, a história, mas que não se finja surpresa quando essas consequências erguerem a cabeça. Contudo, mantenho o meu optimismo: é por mantê-lo que subscrevi a ILCAO e a divulguei por todos os meus contactos para que também o fizessem. Fi-lo enquanto escritor e enquanto cidadão. Sobretudo, fi-lo enquanto amante da língua portuguesa, cujo espírito já está moribundo por culpa da convivência com este desacordo espiritocida.


5 comentários:

  1. Que o "desacordo" é "espiritocida" (também) estou de acordo.

    Mas alto lá com o significado do conceito de evolução, o qual, em termos biológicos, depois de Darwin, e tanto quanto se discute, parece caracterizar-se precisamente por não haver desígnio nenhum para o qual se caminhe. Antes pelo contrário: a evolução (biológica) é vista como fruto do acaso, em que as populações de seres vivos se vão modificando em consequência da selecção natural devida às variações do meio.
    O que pode causar impressão, claro que pode...

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  2. Por variadas razões, sou contra o AO. Mas as mudanças da língua existem também por influência da oralidade, sim.

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    1. De facto. E a afirmação segundo a qual a lingua so é modificada "por quem trabalha com ela" (a terra a quem a trabalha, é isso ?) também tem a sua piada, pela perfeita imbecilidade dos subentendidos (os escritores e professores são os "nobres" proletarios da lingua, enquanto os locutores são meros turistas ?).

      Enfim, quando se chega a este nivel de argumentação, o problema ja não sera a reforma ortografica...

      Uma igreja é o que esta malta devia criar... Assim ao menos as coisas estariam claras e os coitados que acreditam, por razões fundadas, que a reforma é ma, não teriam de passar pela vergonha de se ver associados com estes palhaços.

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    2. A opinião que aqui ventila não é de facto sua, mas uma reprodução de pensamento condicionado. Experimente livrar-se do condicionamento que os media lhe imprimiram, dos lugares comuns que toma por verdades, leia de novo o texto do David Soares e veja se mantém essa "opinião".
      Convém pensar um bocadinho.

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    3. A opinião indevidamente apropriada deve ser restituida onde exactamente ?

      Aproveitando o balanço, vou seguir o exemplo do Sr. Teixeira e livrar-me de uma vez por todas de todos os condicionamentos, a começar pelo condicionamento da realidade. O melhor mesmo, é fazer como ele : rezar...

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