sábado, 27 de abril de 2013

CONVERSAS COM OS REIS DE PORTUGAL (HISTÓRIAS DA TERRA, DA VIDA E DOS HOMENS)

Texto introdutório retirado do livro de Galopim de Carvalho, Conversas com os reis de Portugal - Histórias da terra, da vida e dos homens, a editar pela Âncora Editora, com prefácios do Prof. Carlos Fiolhais e do Dr. Manuel Branco.
Imagem retirada de nunopeb.wordprees.com
Mais de quatro dezenas de anos de convivência muito próxima e assídua com os professores das nossas escolas básicas e secundárias, mostraram-me que, salvo algumas honrosas excepções, os que ensinam nas áreas das “Ciências” sabem muito pouco da nossa História e que os das áreas das “Letras” sabem igualmente muito pouco ou quase nada de Geologia.

Esta constatação no que respeita o binómio “Ciências” versus “Letras” está, aliás, dentro do panorama nacional da parte da população que teve oportunidade de estudar.

E só me refiro a esta parte dos portugueses porque a restante, infelizmente demasiado numerosa, não beneficiou dessas oportunidades e revela um desconhecimento confrangedor e preocupante em quaisquer destas duas áreas.

Mas sabe tudo ou quase tudo sobre o mundo do “pontapé na bola”. Este tema do “desporto” tem público assegurado e vende bem. O que não falta são jornais e tempos de antena na rádio e na televisão a manter, inteligentemente, esta alienação.

Incluindo num vasto domínio habitualmente referido por humanidades, a economia, gestão e finanças, a sociologia e as ciências políticas, o direito, a história, as artes plásticas, as do espectáculo e das letras, verifica-se que, neste nosso panorama e salvo as sempre honrosas excepções, os portugueses que desenvolveram a sua preparação escolar, incluindo a de nível superior, numa ou mais vertentes deste importante domínio, não se interessam e sabem muito pouco ou nada do outro grande domínio do conhecimento que abarca as ciências exactas e naturais e as tecnologias.

A vida profissional permitiu-me, ao longo de décadas, conviver, muitas vezes e de muito perto, com as mais altas figuras nacionais, dos chefes de estado aos responsáveis dos governos central e autárquicos, com parlamentares e figuras gradas dos partidos políticos, com os mais prestigiados jornalistas, politólogos e outros comentadores da rádio, da televisão e dos jornais, na grande maioria gente ilustre do domínio das humanidades, e pude constatar esta realidade.

Na situação contrária, verifica-se que a cultura humanística dos profissionais das ciências e tecnologias, meus pares no mundo do trabalho, ainda deixa muito a desejar mas é maior o número daqueles que olham com interesse a literatura, a música, as artes plásticas e a história. São muitos os homens e mulheres da medicina, da física e química, da biologia e geologia e das engenharias, com actividade reconhecida e prestigiada nestas vertentes.

Esta bipolaridade vem de longe. Logo na adolescência, rapazes e raparigas aspirantes ao ensino universitário definiam e definem as suas vocações, escolhendo logo aí, sem qualquer fundamento válido, “ciências” ou “letras”, como uma das duas áreas mais procuradas para prosseguimento dos seus estudos. Hoje, não, mas no meu tempo de liceu, “ciências” era, no geral, uma opção de rapazes. Para as meninas, diziam muitos pais, o mais apropriado eram as “letras”.
- Eu vou para ciências. Gosto de matemática e de físico-química. – Afirmava um dos meus colegas de liceu.
- Não me fales nos Maias, no Camilo, no Garrett, nem nos outros gajos que somos obrigados a ler. – Insistia ele.
- Pois, olha, eu, é o que mais gosto. – Contrapunha uma colega, de outra turma. 
- A Matemática, nem vê-la, a Química vá que não vá, mas a Física é uma seca. Já escolhi. Vou para letras. 

Era assim a conversa ente nós, sem nos darmos conta de que a escolha que julgávamos corresponder a uma vocação nata era, no geral, fruto do sistema e, não raras vezes, o resultado da competência ou incompetência dos respectivos professores. O que a realidade mostra é que nas boas escolas, com bons professores, os melhores alunos são bons em todas as disciplinas.

E aí, sim, a escolha que fazem é consciente.

Conversas com os reis de Portugal - Histórias da terra, da vida e dos homens é um projecto concebido, em especial, a pensar nos professores de Geologia, a quem só faz bem recordar a História de Portugal que já esqueceram, e nos professores de História, que viram passar ao lado a longa caminhada do planeta que nos deu vida e para os quais a História, praticamente, só começa com a aparição da escrita.

A estes e a muitos outros cidadãos, professores ou não, é preciso lembrar que a nossa verdadeira história começou há uma eternidade avaliada em cerca de 13.700 milhões de anos com o nascimento do Universo.

Por um lado, este projecto afirma-se como uma proposta de divulgação especialmente focada em domínios das Ciências da Terra e do Ambiente, de forma avulsa e, tanto quanto possível, agradável. Por outro lado, evoca as personagens e os episódios que ditaram a nossa História e lembra o que de mais importante foi acontecendo além-fronteiras.

O texto, ficcionado na medida do necessário, desenvolve-se em estilo de diálogo informal entre o narrador e as aparições dos nossos monarcas, em situações e locais escolhidos de acordo com os temas a desenvolver. Na liberdade que a ficção consente, os personagens trazidos a esta prosa são, por assim dizer, imagens virtuais dos reis e rainhas que traçaram os nossos destinos ao longo de quase nove séculos. Alguns deles carregam consigo um fardo de defeitos, outros, uma auréola de virtudes e outros, ainda, ambos os predicados ao mesmo tempo. Alguns viveram de costas viradas para o conhecimento científico como, aliás, é apanágio de muitos dos nossos políticos do presente. Outros, pelo contrário, revelaram grande abertura para esse mesmo conhecimento.

Nesta ficção, as ditas aparições, como num sonho, vêem, ouvem, pensam e falam como se fossem gente de verdade. Sendo imateriais, não têm volume nem massa e são indiferentes à gravidade, ao calor e ao frio. Libertos das necessidades fisiológicas que tiveram em vida, têm o dom de aparecer quando e onde querem. São ubíquos, intemporais e o seu mundo é a totalidade do Universo.

Na sua condição de alma ou fantasma do que foram em vida, acompanharam a história nacional e universal que se desenrolou para cá do seu tempo, sem limites de fronteiras e, curiosos do passado, pesquisaram os tempos que os antecederam. Sem que ninguém dê por eles, entram nas livrarias e nas bibliotecas de todo o mundo, de dia ou de noite, sem precisar de chaves nem de iluminação, e frequentam as aulas dos mestres que melhor satisfazem a sua ilimitada ânsia de saber, quaisquer que sejam as línguas que eles falem. Só não prevêem o futuro.

Libertos da vida terrena e dos interesses e compromissos inerentes a essa condição, tornaram-se os mais sinceros e rigorosos críticos do que foram e fizeram na sua passagem pela Terra. Têm agora, todos eles, uma curiosidade especial por temas de ciência, escolhem com quem lhes interesse conversar e só essas pessoas os vêem e ouvem.

O narrador é um jovem geólogo, a concluir uma tese de doutoramento, alentejano pelo nascimento e pelo coração. Aprendeu a amar e defender os valores da natureza nos campos do Alentejo e foi aí, também, com os seus conterrâneos, que começou a ser gente e formou as bases de uma consciência social e política com a qual se assumiu como cidadão. Tem, em casa, montes de livros desta e de outras especialidades, legadas por homens e mulheres que, “tijolo a tijolo”, ajudaram a erguer o grande edifício do conhecimento que ilumina os nossos dias.

Nesta ficção, o narrador conversa com todos os monarcas, a começar por D. Afonso Henriques, de Borgonha, e a terminar em D. Manuel II, de Bragança, e vê-os nas vestes e nas poses mais divulgadas nos retratos e esculturas que deles nos ficaram. Curioso da História, aproveita estes encontros para relembrar o que lhe foi ensinado na escola e aprender muito mais. Como cidadão interventor na sociedade em que vive, não perde, nestas conversas, a oportunidade de comentar os acontecimentos ou temas que preocupam, sobremaneira, os portugueses do presente.

Os temas científicos, imaginados nas preocupações de cada um dos monarcas, procuram, sempre que possível, ter algo relacionado com as suas vidas ou com a época e os lugares em que viveram. Nas conversas que travam com o narrador aludem aos principais acontecimentos ocorridos no seu tempo, analisam algumas atitudes e decisões que tomaram, evocam as personalidades que marcaram as suas vidas e também tecem as considerações que entendem oportunas acerca da actualidade social, política e cultural deste país que continuam a considerar como seu.
Galopim de Carvalho

2 comentários:

  1. “as meninas iam para letras” :). Iam. Fui uma delas. Mas contrario as estatísticas. O mundo da física, da matemática e afins é-me estranho. Tive, nessas áreas, bons e maus professores. As minhas classificações nunca ultrapassaram o 10 (na escala de 0 a 20); acrescento que um dos professores – ou o de física ou o de matemática, dava-me (literalmente) no último período o 10 para que não chumbasse aquela secção. É verdade que em Lavores e Educação Física era igualmente má, o que ilustra as minhas limitações a nível de movimentos de pormenor e dos outros. Em letras era razoavelmente boa, sem estrídulos.
    Para alguém nesta situação é “um bocadinho aflito” ainda hoje, entender a linguagem da física ou da matemática nos seus pormenores. E me parece mais fácil que os garotos/as das ciências ditas exactas (tinha lido que a distinção acabara e que todas as ciências são ciências humanas, mas enfim…) gostem de actividades que proporcionam prazer: música (ela é um universo comum de todos os homens) pintura, teatro; a leitura também não tem paredes, é promíscua, grassa (e oxalá que cada vez em mais homens, ler educa o espírito e impede asneiras como as dos nossos políticos; aposto que lhes falta essa e outras artes). A vida à medida que vai sendo vivida exige-nos a arte. Ou não se aguenta. Homens de letras. Homens de ciências. Homens.

    As “Conversas com os Reis de Portugal”, pelo escrito no post, parecem interessantes. Mas sou um Tomé, tenho que ver (passar as folhas, olhá-las em alguma demora, comparar com o que eu mesma sei, e ver se acrescenta).

    Muito êxito!

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  2. Professor Galopim de Carvalho;


    Num comentário a um texto do Senhor Professor João Boavida deixei uma transcrição de um pensamento do Professor José Sebastião e Silva. Pareceu-me que este pensamento deveria também estar presente neste seu post.

    Contudo, relevo do seu texto a seguinte frase “O que a realidade mostra é que nas boas escolas, com bons professores, os melhores alunos são bons em todas as disciplinas.”

    Professor Galopim de Carvalho, fica pois algumas perguntas:

    O que perdem ou quanto perdem os melhores alunos nessas escolas, quando eles (“felizes contemporâneos de Descartes ou de Leonardo da Vinci”!!!) são colocados a trabalhar para terem bons resultados a todas as disciplinas, mesmo naquelas para as quais não têm aptidão?

    Quão boas serão essas escolas?! serão verdadeiramente boas e que por isso as devemos ambicionar?!




    “Ensino idêntico para todos, é um principio talvez muito cómodo para o professor; mas, para bem de todos, há que substitui-lo por este outro: ensino que favoreça, tanto quanto possível, as aptidões de cada um.
    De resto, a especialização devia começar, a meu ver, já nos dois últimos anos do liceu, como se fazia antes de 1936; conviria mesmo ir mais longe do que então, estabelecendo maior número de ramificações. Esses dois últimos anos teriam portanto um carácter pré-universitário.
    Não quer isto dizer que se deva desprezar a cultura geral. Convém estimular, em certa medida, o interesse por questões de ordem geral, e, sobretudo, favorecer hábitos de leitura. Mas não exageremos! Subsiste entre nós um culto perigoso do enciclopedismo, e da multiplicidade de aptidões – como se fossemos felizes contemporâneos de Descartes ou de Leonardo da Vinci. Será preciso lembrar que não é esse culto a maneira mais adequada de evitar o acréscimo de incompetência?
    Eis como penso a respeito do problema do ensino liceal, e da posição que nele deve-se atribuir à Matemática. E é pensando assim que julgo ser homem do meu tempo, virado para os problemas do meu tempo e do meio em que vivo.”[Sebastião e Silva – Textos Didácticos vol III pag.261]



    Nota: As dúvidas que eu tenho resultam da interpretação (a minha interpretação) das palavras do Professor Sebastião e Silva. Interpretação que porventura é muito incompleta e até errada, que importa!! o importante é dar a conhecer o pensamento do Professor Sebastião e Silva sempre com o desejo que ele seja útil ás pessoas.



    Cordialmente,

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