quarta-feira, 7 de junho de 2023

O PASSADO É UM PAÍS AMIGO

Havia leões, cobras, jacarés,
garoupas gigantes e tubarões,
ameaças letais, a nossos pés, 
e também ananases e limões!

Havia praias que não tinham fim,
oceanos que vinham e sobravam,
brincadeiras selvagens no capim,
descobrimentos que nos assombravam!

Trincávamos os frutos do pecado,
de consciência lavada e aberta.
Tudo ali era bem empregado

e a alegria estava certa.
Sorvíamos um mundo com recheio,
ficando, após comido, ainda cheio!

Eugénio Lisboa

"AS FITAS DA EDUCAÇÃO “ COMO METÁFORA

Issac Asimov, o cientista que foi um mestre-escritor de ficção científica, tem, na sua imensa obra, vários textos que tocam a educação. O mais interessante, pelo menos no meu entender, é aquele em que explica um método inovador de aprendizagem para o comum dos jovens: as fitas de educação. 

Nada de esforço nem de tempo perdido a ler, a pensar: posta a fita na cabeça do sujeito, ele fica, num instante, com todo o conhecimento de que precisa para usar.
Mas há os que insistem em ler, à primeira vista apenas para saberem o que não está inscrito nas fitas! Uma inutilidade! E há os que fazem as fitas... que não "aprenderam" com a passagem das fitas pela suas cabeças, mas porque leram e isso tornou-os curiosos e críticos...

Tendo a classificar esta cenário como uma excelente metáfora, não como ficção. Asimov olhou e viu o mesmo que vemos: a educação para uma imensa maioria "vendida" como soft, indolor, reconfortante no imediato; e a educação para uma selecta minoria, tal como ela tem de ser para poder formar.
És capaz de parar de ler esse livro idiota? Omani virou a página e leu ainda algumas palavras, depois levantou a cabeça (...). O que é que tu ganhas em ler esse livro? – Avançou e bufou (…). E arrancou-o das mãos de Omani. Omani levantou-se devagar e apanhou o livro. Endireitou uma página amarrotada sem visível rancor.
– Chama-lhe satisfação da curiosidade – disse – aprendo alguma coisa hoje, talvez um pouco mais amanhã. De certa forma é uma vitória.
– Uma vitória. Que espécie de vitória? É isso que te satisfaz na vida? Chegares a saber o suficiente para seres um quarto de engenheiro electrónico registado quando já tiveres 65 anos?
– Talvez quando tiver 35.
– E nessa altura quem é que te quererá? Quem é que te vai usar? Para onde é que vais?
– Ninguém. Ninguém. Para lado nenhum. Ficarei aqui a ler outros livros.
– E isso satisfaz-te? Diz-me!” (…)

“O primeiro classificado era de São Francisco. E três dos quatro seguintes também. E o quinto era de Los Angeles. Eles apanham as fitas de educação das grandes cidades. As melhores que há (…). Como é que eu posso competir com eles? Vim todo este caminho até aqui só para tentar a minha sorte numas Olimpíadas da minha classe patrocinadas por Novia, e bem podia ter ficado em casa.” (…)
 
“O ponto de viragem deu-se quando se conseguiu perceber o mecanismo de armazenamento do conhecimento no nosso cérebro. Depois disso ter sido feito, tornou-se possível criar fitas de educação que alterassem esses mecanismos de forma a colocar no nosso cérebro um conjunto de conhecimentos prontos-a-usar, por assim dizer.” (…) 
“[A] Terra exporta fitas educacionais de profissões pouco especializadas e isso mantém a unidade da cultura Galáctica. Por exemplo, as fitas de Leitura garantem uma única língua para todos nós.” (…) 
“– Não pense que isto é uma brincadeira – disse George tensamente. – As fitas são, de fato, prejudiciais. Ensinam demais; são demasiado indolores. Um homem que aprenda dessa forma não sabe aprender de nenhuma outra (…). Agora se não dessem fitas a uma pessoa e a forçassem a aprender manualmente, por assim dizer, desde o início; então essa pessoa ganharia o hábito de aprender, e de continuar sempre a fazê-lo.” (…) 
“– E aonde é que vamos buscar o conhecimento, sem fitas? No vácuo interestelar?
– Nos livros. Estudando os próprios instrumentos. Pensando.
– Livros? Como é que é possível compreender os livros sem educação?
– Os livros são feitos de palavras. As palavras podem, na sua maior parte, ser entendidas. As palavras especializadas podem ser explicadas pelos técnicos que vocês já têm. – E a leitura? Autoriza as fitas de leitura?
– As fitas de leitura estão bem, acho eu, mas também não há qualquer razão para que não se aprenda a ler à maneira antiga. Pelo menos em parte.” (…) 
“– E quem é que faz as fitas educacionais? Técnicos especiais de fabricação de fitas? Então quem é que faz as fitas para formá-los? Técnicos mais avançados? Então quem é que faz as fitas… Percebes o que quero dizer. Tem de haver um fim em algum ponto. Tem de existir em algum lugar homens e mulheres com capacidade para pensamento criativo.”

 Asimov, I. (sd). Nove amanhãs: contos do futuro. Europa-América.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Aqui não precisas de pão na boca

Aqui, não precisas de pão na boca

Nem desta humanidade deplorável.

Na tua incomensurável bondade, 

Tu sempre encontrarás a tua força. 

O SUICÍDIO: MODO DE USAR

Os romanos sabiam suicidar-se.
Quando o imperador os ameaçava,
de pouco lhes valia o afastar-se:
só morte vergonhosa os aguardava.

No suicídio, havia panache:
era uma espécie de desafio,
uma cavalgada final de apache,
um gesto ousado, à beira do frio.

Cansados de resistir, os romanos,
envergonhados de sobreviver,
com suicídio, controlavam danos.

Entre morrer e mal sobreviver,
o romano, sem hesitar, escolhia
a via de maior sabedoria.

Eugénio Lisboa

"Qualquer olhar para o futuro digital obriga a humanizar"

José Antonio Caride Gomez é professor catedrático na Universidade de Santiago de Compostela, na área de Filosofía e Ciências da Educação. Em 2020 publicou um artigo no jornal La Voz de Galicia (republicado aqui) que vale muito a pena ler:
Qualquer olhar para o futuro digital (...) obriga a humanizar A ética não pede nada e obriga a quase tudo, tanto individual como colectivamente. A vida segue com ela, independente das circunstâncias (...). Como nunca antes, interroga muitos de nossos modos de ser e estar no mundo, alertando para incómodas verdades: da fome e da pobreza às injustas e injustificadas desigualdades sociais, passando pela degradação ambiental ou deterioração das democracias. 
O surgimento e a expansão da cibernética, a massificação de seus aparatos tecnológicos e a irrupção das linguagens digitais permitem a realização de eventos mais acessíveis (...). Contudo, o virtual tende a confundir-se mais com o real, ao mesmo tempo que, sem crítica, se enaltecem os benefícios desses aparatos (...) 
A forma de olhar o mundo, de o ler e de o interpretar está a mudar. A transformação é irreversível [pelo que] qualquer olhar sobre o futuro digital (....) numa sociedade em rede requer o enfatizar dos direitos e deveres dos cidadãos. 
Para tal, a educação é chamada a desempenhar um papel fundamental (...), ativando e integrando as múltiplas dimensões que humanizam os conteúdos de ensino e aprendizagem nas instituições educativas e na sociedade. 
E isso deve ser feito com base em saberes e pedagogias que nos tornem mais livres, responsáveis ​​e conscientes, capazes de proporcionar uma visão crítica, com valores. 
Cultivar valores éticos como virtudes não decorre do virtual, mas da visão moral. 
José Antonio Caride Gomez

quinta-feira, 1 de junho de 2023

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

Juro que não é por ninguém como eu,
que não tem tamanho para tanto sino!
Os sons só vão assim até ao céu,
se o saudoso é gente do fino.

A Igreja oferece os seus decibéis
aos que têm ou poder ou dinheiro.
Deus não enverga os seus ouropéis,
pra quem é só pedinte ou rafeiro.

Pompa e circunstância vendem-se caro:
só se usam os trajos muito finos,
prós que levam a vida com descaro.

Para os mais humildes não há sinos:
palavras avaras e em voz baixa
e uma falsa postura cabisbaixa!

Eugénio Lisboa

Primeira Pessoa

Primeira Pessoa: Carlos Fiolhais - Escolheu a ciência para viver a aventura humana. Físico, professor, director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, criou

Consulta Pública

Consulta Pública: O que significa, como vai evoluir e que impacto tem a IA? - Debatemos os desafios emergentes, as novas oportunidades e os perigos que espreitam num fu

O DEVER DA MEMÓRIA

 

Minha recensão no último «As Artes entre as Letras»

Os escritos memorialistas não abundam entre nós. Sobre o nosso século XX ocorre-me logo as Memórias de Rómulo de Carvalho (Fundação Gulbenkian, 2010), endereçado aos tetranetos: «Pois, queridos filhos dos netos dos meus netos, tão queridos quanto é certo que nunca teremos trato pessoal.» Fátima Campos Ferreira (FCF), a conhecida jornalista do programa Prós e Contras da RTP (18 anos no ar!), decidiu em boa hora legar um testemunho, para os seus «netos e bisnetos, e todos os que virão,» de «mais um episódio da incomensurável história da aventura humana.» O livro intitula-se O Infinito Está nos Olhos do Outro e subintitula-se Diz-lhes quem fomos - Uma história de família (Avenida da Liberdades Editores). A frase do título é de Bento de Jesus Caraça, tendo chegado à autora através do seu pai, funcionário superior das Alfândegas, que foi aluno do grande matemático e humanista. Este esclareceu, num dos seus escritos, o valor em cada geração da árvore humana: «Só figuram de folhas caídas, para uma geração, aquelas gerações anteriores, cujo ideal de vida se concentrou egoisticamente em si e que não cuidaram de construir para o futuro pela resolução, em bases largas, dos problemas que lhes estavam postos, numa elevada compreensão do seu significado humano.» Num outro, defendeu que a cultura deve «tender ao desenvolvimento do espírito de solidariedade humana. Não apenas a solidariedade de cada um com os da sua família, da sua aldeia ou da sua pátria – solidariedade do homem para com todos os homens do mundo.»

O livro de FCF, conforme esclarece o general Ramalho Eanes no prefácio, não é uma autobiografia, pois a autora interrompe a história na sua adolescência. É um retrato, naturalmente enternecido pela memória e pela gratidão, da sua família: os bisavós, avós, pais, tios, etc. Mas é também o retrato do país ao longo do século XX, visto do prisma da micro-história (a autora, para além do curso de Jornalismo, tem um de História feito na Universidade do Porto). O dever da memória foi transmitido pela mãe: «Diz-lhe quem fomos». De facto, é um imperativo deixar um registo escrito das experiências de vida (que são evidentemente únicas em cada pessoa) para que a história humana fique mais rica. Deixar memórias não é um acto de vaidade, mas sim de Humanidade. Graças a FCF ficamos a saber a história da sua família, das suas dificuldades em tempos de guerras, doenças e crises económicas, mas também da sua esperança em dias melhores. Acima de tudo, ficamos a saber da solidariedade – ou melhor, amor - que não só garante a coesão familiar como é sustentáculo dessa esperança.

Escreve a autora na introdução, com inexcedível afecto: «Recordo coisas simples. O rol de compras da mercearia, a forma cuidadosa como a minha mãe contava e guardava o dinheiro-. Os olhos de compaixão da minha avó ao saber que alguém sofra. Os lábios cerrados só meu pai em ocasiões misteriosas para mim, fui intuindo, vendo, e mais tarde perguntando.» Na parte I «Os meus mais velhos», são retratados os avós paternos, Luís (um nome recorrente na família) e Deolinda, e maternos, Álvaro e Francisca. Os primeiros são rurais do litoral minhoto, tendo o avô abandonado o seminário para casar ao arrepio da família. Os segundos, provenientes de Salvaterra de Magos e de Porto de Mós, tiveram em Lisboa uma vida mais urbana. Destaca-se como protagonista a avó Chica, que aos doze anos ficou, no pico da pneumónica, sem os pais e dois irmãos. «Alta, charmosa, vaidosa», fez-se à vida, com uma força inquebrantável. A lembrança da sua casa na Baixa Pombalina em Lisboa está bem expressa no livro. A parte II é dedicada aos pais. O pai de FCF (o mais novo de seis irmãos, que estudou Economia), conheceu a mãe (filha única, que fez o quinto ano e trabalhou na CGD) em Lisboa. FCF nasceu no Hospital do Ultramar em Lisboa, quando o seu pai já estava colocado na distante fronteira de Valença como aduaneiro. FCF foi com meses para lá, tendo no caminho sido baptizada em Fátima (onde os seus pais tinham casado). O pai era um bibliófilo que transmitiu aos seus dois filhos o amor pelos livros (é comovente o relato da paragem do funeral do pai na sua biblioteca), e a mãe, que deixou o emprego após o casamento (como era costume na época), era uma senhora elegantíssima, que alimentou uma relação muito especial com a filha. As partes III e IV são relatos de infância. Os anos de vida em Valença (a longínqua província, mas paredes meias com a alegria espanhola) foram para FCF de crescimento e deslumbramento com o mundo. Aos 15 anos o pai foi colocado na Alfândega no Porto, passou a morar na rua de Serralves e a filha mudou de um colégio religioso para o Liceu Garcia de Orta do Porto. Não adianto mais, pois o leitor os poderá encontrar na prosa clara e escorreita de FCF. Mas digo que se lê rapidamente, como um romance, com a vantagem de o relato estar documentado por fotografias de família.

Interessado pela ciência e tecnologia, procurei marcas do seu impacto social. E encontrei-as amiúde. Desde logo na introdução ao explicar aos netos a força misteriosa do amor: «apesar das máquinas e robôs, que já dominam e vão dominar cada vez mais o vosso mundo». Depois, recuando no tempo, e, à medida que se sucedem os eventos políticos (a Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, a Guerra Colonial, a Revolução do 25 de Abril), as descrições do rádio a válvulas na casa familiar (o «Aparelho»), dos transístores, dos espantosos primeiros satélites russos, a prodigiosa chegada do homem à Lua em 1969, tinha FCF dez anos e já havia televisão a preto e branco (as emissões regulares da RTP começaram no exacto dia do casamento dos pais, em 1957), e, mais perto de nós, dos computadores. No final, FCF confessa-se admirada com o poder da ciência, embor7a ciente da nossa ignorância: «Sabemos hoje em mais do que há dois ou três mil anos. Por exemplo, cada vez compreendemos mais as dinâmicas das energias. Há um sem fim de sistemas solares, há exoplanetas, e a sua descoberta intensificou o interesse na busca de vida extraterrestre. (…)  O mais provável é que tenhamos outras companhias neste Universo inesgotável.» Mas, neste canto do Universo, temos a companhia do Outro (grafo com maiúscula, como a autora) e vivemos abundantes e inesquecíveis provas de amor, consolidando assim a certeza da Humanidade.

 

NOVA ATLÂNTIDA

 A “Atlantís” disponibilizou o seu número mais recente (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Imprensa da Universidade de Coimbra

Atlantís - review

v. 51 (2023)

Sumário

https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/index

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[Recensão a] DOPICO CAÍNZOS, M.ª Dolores & VILLANUEVA ACUÑA, M., (eds.), Aut oppressi serviunt... La intervención de Roma en las comunidades indígenas PHILTÁTE: Studia et acta antiquae Callaeciae, v. 5, Universidade de Santiago de Compostela, Servizo de Publicacións da Deputación de Lugo, 2021. 447 pp. ISBN 978-84-8192-578-4

Ana María Suárez Piñeiro

[Recensão a] [PLATONE], Assioco.
Saggio introduttivo, edizione critica, traduzione e commento a cura di Andrea Beghini, Diotima. Studies in Greek Philology, 4, Baden-Baden: Academia Verlag 2020. 395 pp. ISBN: 978-38-9665-88-69

Laura Marongiu

[Recensão a] REIS, Maria Cecília G., Epicuro, Cartas e Máximas Principais, “Como um deus entre os homens”, Penguin/Companhia das Letras, São Paulo, 2020.
208 pp. ISBN: 978-85-8285-10-74

Celso Vieira

[Recensão a] CENTRONE, Bruno, La seconda polis: introduzione alle Leggi di Platone, Roma,Carocci, 2021.
348 pp. ISBN: ‎ 978-8829005413

Michele Lanza

 

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Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis

SER OU NÃO SER

À Isabel Ponce de Leão,
na morte de uma sua Amiga

Amigos que víramos anteontem
desapareceram, súbito, ontem.
Foram-se, mesmo sem qualquer aviso,
que o aviso deixou de ser preciso.

Ser ou não ser, eis aquela questão,
que um Príncipe louro não resolveu.
Mas tem aquele enigma solução
ou há que mandá-lo para museu?

Morrer ou é demasiado simples,
sem ter de usar Aristóteles,
ou não faz sentido mesmo nenhum.

Mas sendo o acabar tão comum,
por que será que tanto nos intriga,
produzindo dor que nada mitiga?

Eugénio Lisboa

OUT OF AFRICA

Em África, levantar cedo era
ver o mundo pela primeira vez,
era como se, antes, nada houvera,
com tudo a nascer, em grande avidez.

A África tinha um ar de começo,
de coisa inventada naquele momento:
uma luz formidável e sem preço,
um quase doloroso arroubamento!

Ali era que tudo se inventava:
juntar sal às mangas que comíamos
e, àquele jogo que ali se jogava,

aliar o sexo, que descobríamos!
Foi ali que se inventou o sol,
de que a Terra se tornou girassol.

Eugénio Lisboa

NOTA, para uso dos chicos espertos, OUT OF AFRICA é o título famoso do não menos famoso livro de Karen Blixen (Isaac Dinesen), no qual se baseou o filme que, entre nós passou, com o título de ÁFRICA MINHA.

terça-feira, 30 de maio de 2023

Alguém espera o poema

Alguém espera o poema

Para molestar o homem.

E o poema é como o chão

Onde todas as flores se somem.

A DIFÍCIL ARTE DE ADMIRAR

Por Eugénio Lisboa
Aquele que deseja a rosa deve respeitar o seu espinho
André Gide 

A admiração é algo de nobre, mas esconde compartimentos sombrios. Num deles, habitam, encafuados, a inveja e o ciúme, que precedem a frustração e o rancor. A admiração pode ser ou parecer que é motor de arranque para uma emulação construtiva. 

É, por exemplo, o caso do grito dado muito cedo por Victor Hugo: “Quero ser Chateaubriand ou nada!” Isso levou-o aos píncaros de ser Victor Hugo, o maior poeta da língua francesa. 

Mas o querer ser alguém que se admira pode implicar uma alquimia produtora de vinagre ou mesmo de veneno. Admirar está cheio de armadilhas. A pior é a do amor supostamente não correspondido.

O “Quero ser Chateaubriand ou nada” descamba, não raro, no ódio vesgo a Chateaubriand. Não foi o caso de Hugo, ou o de Barrès ou o de Montherlant, que terão tido esse sonho: porque, tinham eles próprios, génio de sobra. Mas foi, no século passado, nos anos trinta, quarenta, cinquenta, o caso do “Eu quero ser Régio”, anseio de tantos jovens que, depois, não se cansaram de denegri-lo, de persegui-lo, de odiá-lo… de invejá-lo, tanto mais e tanto mais zangadamente, quanto mais ele se mostrava insubornável e admiravelmente independente. 

Que os novos acrescentadores de poesia ou de ficção se crispassem e o farpeassem – merece uma certa compreensão e atenuante: os que lavram o mesmo território, tendem a não se verem com particular carinho uns aos outros. Wilde, com a finíssima perspicácia que o caracterizava, observou que os deuses, ao correrem nas suas carroças, fazem tanta poeira para os lados, que se não conseguem ver uns aos outros.

Claudel não via Gide, Gide não via Proust, Tolstoi não via Shakespeare e o sereno, ponderado e objectivo Martin du Gard não via Balzac (este, felizmente, viu Stendhal). 

Isto diz respeito aos que metem a mão na massa, isto é, aos criadores de arte. Mas que, por essa mesma altura, críticos, ensaístas encartados, professores, gente a quem compete outra objectividade, outra capacidade de perspectiva, gente que devia ver-se como verdadeiros guardiães do património, que gente desta sacudisse para o caixote do lixo uma grande e invulgar figura como o autor de MAS DEUS É GRANDE, de O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO, de A CHAGA DO LADO, de JACOB E O ANJO, de HISTÓRIAS DE MULHERES, de A VELHA CASA, de EM TORNO DA EXPRESSÃO ARTÍSTICA, de ENSAIOS DE INTERPRETAÇÃO CRÍTICA, que um autor de uma obra vasta e de invulgar quilate fosse assim levianamente descartado, como imprestável, pergunto: que país é este? Que clercs são estes? Somos assim tão ricos que possamos dar-nos ao luxo de desprezar pepitas destas? 

Dizia Malraux que “uma das mais altas qualidades de um homem que não é um animal é ser capaz de admirar”. Infelizmente, entre nós, a capacidade de admirar merece sério escrutínio: quem se admira, como se admira por que se admira e por que se deixa de admirar, para passar a desprezar e atacar. Observava um não muito conhecido escritor francês que “há no homem, quase sempre, duas vozes que falam simultaneamente: a admiração e a inveja”. À mínima suspeita de amor mal correspondido, a primeira torna-se na segunda, com particular rancor incluído…

Vi isso acontecer, em muitos casos, com o grande escritor de Vila do Conde e de Portalegre. Jovens escritores, ambiciosos e gulosos de glória, cedo concluíam que o sóbrio e muito ocupado escritor, professor, jornalista, colecionador de antiguidades e cuidadoso e muito requisitado epistológrafo, além de assíduo frequentador de salas de cinema, não tinha disponível, para eles e para a promoção deles, todo o tempo e energia a que se julgavam com direito: receita infalível para o amor se transformar em azedume de má catadura. 

Vi, quando, na casa do escritor, em Vila do Conde, passei a pente fino as cartas que religiosamente guardara, a adulação ali manuscrita pela mão de jovens e empertigados autores que, depois, se passaram, com armas e bagagens, par o outro lado: o do denegrimento. A admiração que visa ser escada de acesso a uma promoção do admirador não traz felicidade. Os poetas, às vezes, dizem-no melhor e de maneira mais curta: “O segredo da felicidade reside em admirar sem desejar” (Carl Sandburg, poeta americano). 

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 29 de maio de 2023

A NORMALIZAÇÃO DA QUEIXA (TAMBÉM) NO ENSINO SUPERIOR

Por Maria Helena Damião e Isaltina Martins

Extractos de um texto assinado por Raquel Varela, professora universitária, e publicado no facebook
(...) o que temia está a generalizar-se: a expropriação da autonomia do professor universitário, como antes do secundário. Os alunos a fazer queixa de professores, incluindo do conteúdo leccionado, e os directores a chamar professores a justificar-se (...). 
Um colega meu foi "acusado" pelo aluno de ensinar um antropólogo altamente complexo, o aluno escreveu ao director um resumo ridículo, dizendo que não sabia porque aquilo era ensinado, o director em vez de o mandar tomar um banho gelado aceitou e deu procedência ao email pedindo ao professor para se justificar!; noutro caso um colega meu usou a palavra "miúdas" na turma como só tinha mulheres, seguiu para queixa; e noutro a mãe fez queixa do professor demasiado exigente com o filho com mais de 20 anos, ao que esse meu colega respondeu que iria chamar a mãe, com mais de 70 anos, para responder! (...). 
(...) uma parte dos alunos e pais, minoritários felizmente, mas o suficiente para criarem problemas, se consideram não alunos mas "clientes" que querem receber um certificado o mais rápido e com a melhor nota possível. Essa é a noção que têm alguns de Universidade. 
Recordei-me com orgulho da primeira vez no ISCTE ainda como aluna, há mais de 20 anos que me entregaram um papel anónimo para preencher e "avaliar" os meus professores e eu, em voz alta, perante toda a turma, disse que não avaliava professores, muito menos de forma anónima (...) 
E se não regressa a democracia às universidades o caminho vai ser dramático. Sairão de lá alunos daqui a uns anos depois de ver 500 vídeos, não ler um livro, prontos para irem para o mercado de trabalho apertar botões e obedecer. 
O assédio contra os professores universitários, em tempos de transformação digital e ensino-máquina, está aí. Estão a retirar-nos a liberdade de ensino para "adaptar a Universidade ao mercado de trabalho". 
Não, o mais grave na Universidade não é o poder dos catedráticos, é a destruição em curso da autonomia de ensino (...). Certamente com gestores-directores, a dar procedência a queixas que não são mais do que assédio contra professores (...). 
Por "milagre" já se sabe os melhores professores, apaixonados por ensinar, críticos, exigentes, receberão mais queixas, os piores, que odeiam alunos, chegarão rapidamente ao topo da direcção onde exercerão o poder usando as queixas como arma."

Sobre a "nova" convivência no ensino superior deixámos várias notas, por exemplo, aqui e aqui

domingo, 28 de maio de 2023

UM DUPLO E FELIZ ANIVERSÁRIO

Coincidência captada na fotografia abaixo reproduzida (daqui): o nonagésimo terceiro aniversário do nosso companheiro de blogue, Eugénio Lisboa, e da Feira do Livro de Lisboa. Lateralmente, o Presidente da República e o editor da Guerra e Paz. Justificados sorrisos.

COMO AS MÁQUINAS "INTELIGENTES" REDOBRAM A URGÊNCIA DA EDUCAÇÃO

Texto pedido a Carlos Fernandes Maia
Professor de Filosofia e Ética

1. As máquinas 'inteligentes' recentemente apresentadas ao mundo, na sua promissora/assustadora capacidade “generativa”, só têm abertura e alcance em função dos parâmetros que os seus fabricantes determinam: são eles que determinam aquilo que elas podem "determinar"… E, até ao momento, o que eles conseguem determinar é o seu funcionamento instrumental. 

2. De entre essas máquinas, há umas que são elogiadas e recomendadas para uso escolar ao mesmo tempo que são temidas e proibidas nesse mesmo contexto. Há a dizer delas que uma coisa é o seu sistema que faz remissões sobre obras e teorias, que armazena o inimaginável, que compõe e recompõe, que escreve textos e cria imagens, que “dialoga” com humanos, etc. – admirável, sem dúvida, à luz do engenho tecnológico –; mas, outra coisa é pensar. 

3. Quando o psicólogo Jean Piaget definiu a filosofia como uma “tomada de posição raciocinada em relação à totalidade do real”, incluiu o compromisso da “tomada de posição” em saber, em aspiração, em vontade. Incluiu o raciocínio – que pode ser aberto, e daí surge o incriado – e a possibilidade, dado que o real inclui o existente mas também o possível. 

4. Os sistemas ditos de 'inteligência artificial' usam uma linguagem que, desavisadamente, parece humana, mas não o é porque ela não permite o querer, o aspirar, o ter vontade de encontrar a verdade, como o incentivo a modos humanos melhores ou, até, como construção utópica. 

5. A linguagem em que esses sistemas foram programados recorre a palavras que o ser humano inventou e alinha-as segundo regras da racionalidade técnica. A fé, a esperança, o medo, a coragem, a cobardia, a traição, a solidariedade, a fruição, a honra, a indiferença, o ódio, o asco à indignidade, a paixão e muitas outras particularidades humanas manifestam-se de forma muito diversa e, não raras vezes, subtil. 

6. Esta manifestação pode acontecer por meio de palavras mas pode, igualmente, dispensá-las, e podem as palavras ter um sentido contrário à intenção ou serem consonantes com ela. Não deixa, contudo, de parte a dignificação ou a depravação da pessoa e da espécie.

7. Não consigo imaginar uma máquina 'inteligente' a criar um novo movimento artístico, fruto da rebelião contra o instituído, nem a “dar a vida”, com dor extrema e saudade infinita, por alguém querido, ou por um ideal.

8. Que a máquina esteja preparada para destruir ou construir, e, até, para se destruir ou conservar isso não depende da sua decisão, mas da decisão do seu programador. E mesmo que este tudo faça para evitar uma catástrofe no sistema de comunicação, segurança, etc. não pode descartar um descontrolo.

9. Confiar cegamente na máquina, porque (já) a colocámos num patamar sobre-humano, transcendental, é descurar o (tão-só) humano que a programa. Depositar nela o conhecimento, descurando outros modos de o guardar, até com a preocupação de poupar papel, faz correr o risco de perder a cultura tantas vezes produzida com sofrimento, fome, solidão e morte.

10. As novas tecnologias, como todas as tecnologias que as precederam, contribuirão para o bem ou para o mal, conforme o paradigma com que sejam construídas e usadas. Como os pesticidas, a energia laser ou nuclear, a manipulação dos vírus ou a engenharia genética, a 'inteligência artificial' fará o que lhe 'ensinarem' e permitirem.

11. Entendo que a inteligência aberta só está ao alcance do Homem, que, por sua iniciativa e se for bem 'ensinado' – ou, melhor, educado –, é capaz de agir com propósito, de se aperfeiçoar nas faculdades que são próprias dessa inteligência. É com isso que, se somos educadores, nos devemos preocupar.

12. E, bem o sabemos, só uma educação abrangente, profunda e bem situada axiologicamente poderá encaminhar a humanidade para um destino que se possa dizer humano. 
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Nota: O primeiro texto de carácter académico do autor, integrado em livro de atas de um congresso realizado em Vila Real (29-31 de Maio de 1989) tinha como título Homens e/ou máquinas. Os problemas essenciais no que toca à Educação colocados à altura, continuam por resolver.

sábado, 27 de maio de 2023

POETA DA ÁGUA

À memória de Glória de Sant’Anna 
Bela poetisa, que viveu no norte de Moçambique, 
face à esplendorosa baía de Pemba


Eras discreta e boa ouvinte,
sabias ouvir a dor e o mar.
Era com um sossegado requinte,
que tu conseguias auscultar.

Eras curiosamente daltónica,
não distinguias o branco do preto.
Tua arte era suave, mas tónica,
dando ânimo aos que estavam num gueto.

O silêncio azul da tua água
continha em si vozes bem profundas,
capazes de acolher tanta mágoa!

Com tua água transparente,
afundas tanto ódio e tanto preconceito,
deixando o malfeitor desafeito!

Eugénio Lisboa

MIÚDOS AGARRADOS A UM ECRÃ E A ESCORREGAR PELA PAREDE

Em 2017, uma escola de Santa Maria da Feira (Escola EB 2/3 António Alves Amorim) proibiu o uso de telemóveis no seu recinto. Foi notícia na altura (ver, por exemplo, Uma escola portuguesa sem telemóveis), apareceu com alguma regularidade nas notícias e volta agora a ser destacada. Hoje, a Agência Lusa informa, no essencial, o seguinte (ver, por exemplo, aquiaqui):
Teria sido um professor a solicitar a restrição do uso de telemóveis.
Esse professor foi ouvido pela direcção.
O conselho pedagógico, os professores e o conselho geral (onde estão representados os encarregados de educação) estiveram a favor. Os miúdos acabaram por concordar.
Percebe-se aqui uma vontade partilhada... Mas também se percebe que medidas óbvias, razoáveis, comuns, afigurando-se "pedagogicamente" impopulares, requerem um escrutínio alargado.

Feitas as contas, a actual directora diz que a restrição foi "a melhor coisa" que aconteceu na escola:
- O recreio escolar readquiriu a animação característica desse espaço, os miúdos passaram a fazer o que os miúdos costumam fazer quando não usam telemóvel;
- Os miúdos dizem que gostam de fazer os que os miúdos costumam fazer quando não usam telemóvel;
- Sem usarem telemóvel, dizem os professores auscultados, desenvolvem capacidades de socialização e comunicação, desenvoltura argumentativa;
- Dizem também que o 'bullying' online diminui (nomeadamente, a difusão nas redes sociais de imagens e de vídeos captados nas aula, em situações de agressão, etc).
Nada de extraordinário! Medidas educativas tendem a traduzir-se em resultados educativos.

Destaco o comentário clarividente de uma professora de Matemática e Ciências:
"Venho de uma escola onde os miúdos, mal saíam das aulas, escorregavam pela parede abaixo com o telemóvel e ficavam ali agarrados àquilo. Não havia convívio como há aqui e por isso é que achei isto magnífico. Todas as escolas deviam seguir este exemplo (...) Estamos na era das comunicações, mas a nossa sociedade está a ficar doente por causa da falta de comunicação física, presencial. Acho esta medida importantíssima, pela saúde dos nossos filhos - principalmente a mental".

O tom que dei a este texto parece dar a entender que não valorizo por aí além a medida em causa. Na verdade, reconheço-lhe grande valor. Apenas sublinho que se trata de uma medida que, por isso mesmo, deveria ser a regra e não a excepção; deveria ser o normal e não o estranho.

Sobre a questão dos telemóveis em contexto escolar escrevi aquiaquiaquiaquiaquiaqui

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