sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Plasticofobia | Ciência às Seis online

DEPOIS DE CASA ROUBADA, TRANCAS NA PORTA!

 


“Não se é menos culpado por não fazer o que se deve fazer do que que fazer o que se não deve fazer" (Marco Aurélio, imperador romano).

Mal acabei de escrever, aqui, o último texto sobre o corona vírus saem-me as intenções furadas em deixar o teclado do computador dormir a sesta descansado! Mas isso pouco me preocupa porque, inspirado em D.H.Laurence, “gosto de escrever quando estou despeitado”, mesmo que possa enfastiar generosos leitores da minha prosa.


A mim o que me espanta, mas espanta mesmo,  é ver a União Europeia, segundo a RTP, só agora ponderar em fechar as fronteiras para evitar uma maior propagação de novas variantes do corona vírus.  Ou seja, é caso para eu citar mais 

um aforisma tão a meu gosto e hábito: “Depois de casa roupada, trancas na porta”.

Desta forma, as fronteiras portuguesas vão deixar de ser um ver se atavias a dar guarida a falsos “refugiados" de países do continente africano em que nem sequer existe guerra desconhecendo-se as suas intenções, em serem ou não recrutadores de novos homens de uma legião a invadir e a destruir  a civilização em prol de uma hegemonia seja ela religiosa, económica ou outra qualquer. Reporto-me ao "jihadismo"  de grupos sionistas violentos.  


O mundo actual está longe de ser um paraíso de Éden com abundância de tudo e um deus a guardar a árvore da vida dos humanos!


Espanta-me, por exemplo, que a viatura que transportava milhares de vacinas contra o corona vírus se tenha despistado, naturalmente, por excesso de velocidade, sem  cuidado  pelas vidas que por ela esperavam com esperança de não serem vitimadas por esta pandemia.


Espanta-me que a decisão para o fecho das escolas, do 1.º ciclo do básico ao ensino universitário, só depois de uma previsível  mortandade  dos que são o futuro do seu património cultural humano, tenha sido determinado, para que não sejam os dedos do nosso futuro de gente letrada  que se esvazie ficando apenas o balão dos anéis da nossa vaidade.


Espanta-me que eu ainda me espante com um governo nacional que navega com terra à vista sem bússola magnética para se orientar não perdendo o norte das decisões justas!


Espanta-me que Marcelo Rebelo de Sousa numa reunião de com alunos do liceu de Pedro Nunes, onde tinha sido aluno, hoje escola secundária com o mesmo nome, tenha respondido a perguntas que lhe foram feitas de forma um tanto ou quanto evasiva dando uma no cravo e outra na ferradura.


“Last but not least”, talvez, em reminiscência do seu passado de analista político, o recandidato à Presidência da República não resistiu a preconizar a percentagem de votos que lhe poderão calhar em rifa nas eleições do próximo Domingo,  havendo a necessidade de obrigar a novas eleições para a Presidência da República com o perigo de esse facto representa para novos contágios, pela aglomeração de pessoas nas mesas de voto vítimas  da nova estripe de corona vírus. Haja dó!


Coragem portugueses: ajoelhem-se no altar da incompetência esperançados que a sorte de uma espécie de roleta russa nos proteja de um destino padrasto! Felizmente, como no ensina a “vox populi”, “não há sorte que sempre dure nem azar que sempre perdure?”


Das decisões do governo de António Costa, com diria Eça, “não me ficou a impressão de uma ideia, mas só a lembrança de várias atitudes” sem pés nem cabeça ou a cargo de cabeças teimosas e sem nexo! Já não há paciência, mesmo de Job, que tanto ature!


E não me peçam para eu ser tolerante porque para ser tolerante, como defendeu Umberto Eco, é preciso definir os limites da tolerância. Temo que a tolerância tenha atingido limites que ultrapassados possam provocar danos irreparáveis ao necessário respeito a princípios democráticos!

DON DE LILLO E O SILÊNCIO

Minha recensão do último romance de Don deLillo publicada no I de ontem:

No meu curso de Termodinâmica, quando introduzo a escala Kelvin (que começa no zero absoluto, 0 K = -273,15 graus Celsius), costumo referir o romance Zero K (Sextante, 2016) do escritor norte-americano Don DeLillo (nascido em 1936). É um livro sobre a possibilidade de resistir à morte através da criopreservação, a preservação do corpo humano perto do zero absoluto. A esperança de alguns é que os avanços da biomedicina permitam um dia reanimar corpos apanhados por doenças que hoje são fatais. É um livro de um tempo em que tentamos contrariar os nossos medos com esperanças alimentadas pela ciência e pela tecnologia.


A ciência e a tecnologia estão presentes neste e noutros romances de DeLillo por estarem omnipresentes na nossa vida. Sendo um escritor moderno – para alguns pós-moderno (o próprio autointitula-se “moderno, na tradição de James Joyce e William Faulkner”) – incorpora nas suas obras elementos científico-tecnológicos que moldam a nossa modernidade. Por exemplo, em The End Zone (1972, não traduzido) fala da guerra nuclear. Em Ratner’s Star (1976, idem) há um matemático que tenta captar uma mensagem extraterrestre. Em Cosmópolis (Relógio d’Água, 2003) uma limousine cheia de ecrãs de televisão e de computador circula pelas ruas de Nova Iorque. Em Ruído Branco (Sextante, 2009), o autor reflecte sobre a química no mundo de hoje, ao descrever um acidente com um produto químico não especificado. O romance Submundo (Sextante, 2010) aborda o problema dos resíduos civilizacionais.


A morte, os desastres e o fim do mundo, por vezes associados à tecnologia, estão entre os temas de eleição de DeLillo. Em Mao II (Sextante, 2009) fala do terrorismo internacional. Em Libra (Sextante, 2013) trata, ainda que com ficção à mistura, do assassinato de John Kennedy. Em O Homem em Queda (Sextante, 2007) aborda o atentado das torres gémeas de 11 de Setembro. O título Ponto Ómega (Sextante 2011) remete para o fim do mundo do teólogo francês Teilhard de Chardin. O medo está por todo o lado na sua literatura: Em Ruído Branco há mesmo uma droga fictícia, o Dylar, que é um tratamento experimental contra o medo da morte.


O medo é individual e colectivo. É muito nítido, para os leitores de DeLillo, que o indivíduo é facilmente levado pelas multidões. A linguagem, que liga os indivíduos para formarem multidões, é uma preocupação central do autor. Num estilo muito próprio, o romancista – também dramaturgo e ensaísta – fala não só da comunicação no mundo moderno, mas também da impossibilidade de comunicação quando o ruído prevalece.


O último romance de DeLillo, O Silêncio, publicado em Nova Iorque em Outubro passado e quase ao mesmo tempo em Portugal, é uma síntese de temas de outras obras do autor – estão lá a ciência e a tecnologia, a morte, o fim do mundo, e o medo. A comunicação e a incomunicação na nossa sociedade também lá estão. De facto, O Silêncio, ao descrever uma catástrofe à escala global, foi de certo modo premonitório da crise que hoje vivemos. É curioso que, num romance entregue semanas antes da eclosão da pandemia, se fale do confinamento: “E não é estranho que certos indivíduos pareçam aceitar resignadamente o confinamento, a cessação do fluxo? Será uma coisa por que sempre ansiaram, subliminarmente, subatomicamente?”


O romance, o 18.º do aclamado autor e o 13.º publicado entre nós, é curto. A acção situa-se em 2022. Os principais personagens são cinco e a história conta-se em poucas linhas: Um casal, Jim e Tessa, regressa de avião de Paris a Nova Iorque, esperando chegar a tempo de assistir ao Super Bowl, a final de futebol americano e um grande espectáculo televisivo, no apartamento de um casal amigo, Max e Diane. A anfitriã, professora de Física já reformada, tinha convidado Martin, um seu ex-aluno, também professor dessa disciplina, a juntar-se ao party doméstico. No Super Bowl todos os americanos estão em casa, pendurados na televisão, com abundância de comidas e bebidas. O entretenimento é não só o jogo, mas também o show no intervalo precedido de muitos anúncios (lembro-me de um dia ter ficado acordado até altas horas para ver a Lady Gaga, embora não saiba nada de futebol americano). O jogo está prestes a começar…


Mas, de repente, dá-se um evento inesperado: um apagão geral, que faz parar todo o sistema de comunicações. O avião onde viajavam Jim e Tessa, perto do aeroporto, é forçado a uma aterragem de emergência. Ao mesmo tempo, a televisão vai abaixo no apartamento de Max e Diane. A Internet e os telemóveis deixam de funcionar. Não era apenas uma avaria num edifício, mas em toda a cidade e quiçá no planeta. O autor não explica o que aconteceu. Mas é uma espécie de fim do mundo. É como se o mundo subitamente se calasse, ficando em suspenso.


Jim e Tessa conseguem chegar a casa dos seus amigos, embora exaustos e desorientados, após se terem salvo na queda do avião. Ainda passam por um hospital com longas filas de espera para tratar um lanho na cabeça dele (para aliviarem a tensão, fazem rapidamente sexo numa casa de banho do hospital). Estando a televisão calada, resta a conversa no pequeno grupo, desligado das massas. Se o mundo se calou, aquelas pessoas não se calam. O silêncio do mundo é a oportunidade para elas falarem, em diálogo e em monólogo. Aquelas pessoas exteriorizam pela linguagem os seus medos. O que poderá ter acontecido? O que vai acontecer?


O livro interessou-me, em particular, pelo interesse de DeLillo pela física. Será que o cataclismo veio do espaço? Martin, uma voz do autor, está obcecado por Einstein: andou a ler O Manuscrito da Teoria da Relatividade de 1912, um resumo da teoria da relatividade restrita que Einstein escreveu nesse ano. Começa, por isso, por falar dessas rupturas do espaço-tempo que são os buracos negros. Refere um telescópio no centro-norte do Chile que tem por objectivo mapear todo o céu visível que está hoje em construção para ser inaugurado em 2022. Mas tudo isso são mistérios.


O professor de Física declara mais à frente: “Ninguém lhe quer chamar Terceira Guerra Mundial, mas é disso que se trata”. O livro abre precisamente com uma frase de Einstein sobre essa guerra: “Não sei com que armas se irá travar a Terceira Guerra Mundial, mas sei que a Quarta Guerra Mundial se irá travar com paus e pedras”. Há muitas frases apócrifas de Einstein a circular na Net. O meu “polígrafo” é o livro The Ultimate Quotable Einstein (Princeton University Press, 2011): Uma frase semelhante foi, de facto, dita por Einstein numa entrevista que deu perto do fim da vida, mas o dito já circulava nessa época da guerra fria.


A tradução de Paulo Faria, que já tinha traduzido seis outros romances de DeLillo, pareceu-me bem feita, embora tenha falhas em termos científicos. Por exemplo diz-se “teoria da relatividade restrita” e não “teoria especial da relatividade”. Diz-se “teorema da adição das velocidades” e não “teorema adicional das velocidades”. Quase no fim, onde está “Teoria Especial, datada de 2012”, fiquei sem perceber se há um erro do autor, pois essa teoria é, de facto, de 1905.


Mas o livro não é sobre a ciência, mas sobre o medo. Neste aparente fim do mundo, as pessoas falam de religião (Einstein é mais uma vez citado, por ter referido a “figura luminosa” de Jesus). Falam de experiências que tiveram, como uma visita às igrejas e palazzi de Roma. E pensam em experiências que não tiveram, como é patente num flirt entre a professora e o ex-aluno.


Terá o apagão uma origem terrestre, por exemplo uma sabotagem da Internet? O normal para um americano é culpar os chineses. Diz Martin: “Pode ser que um algoritmo tenha tomado as rédeas. Os Chineses. Os Chineses veem o Super Bowl. Jogam futebol americano. Os Beijing Barbarians. Juro que não estou a gozar. Quem faz figura de urso somos nós, eles desencadearam um apocalipse selectivo da Internet. Estão a ver o jogo e nós não.” Seja lá o que for as pessoas sentem-se órfãs da ciência e da tecnologia. Diz Diane, em diálogo com Martin: “Todas as pessoas de olhos pregados no ecrã ou sentadas como nós, perplexas, abandonadas pela ciência, pela tecnologia, pelo bom senso”.


Uma funcionária do hospital que atende Jim e Tessa expressa a vox populi: “Uma coisa vos digo. Seja lá o que for que se passa, esmagou a nossa tecnologia. O mundo em si parece-me desactualizado, perdido no espaço. Onde está o voto de confiança na fiabilidade dos nossos dispositivos seguros, das nossas capacidades de encriptação, dos nossos tweets, trolls e bots?“ E dá conta do seu medo: ”Gosto muito deste meu cubículo, mas não quero morrer aqui.”


Por sua vez, Tessa profere um monólogo filosófico: “Então e se nós não formos o que pensamos ser? E se o mundo é aquele que conhecemos e estiver a ser completamente reorganizado no preciso momento em que estamos aqui parados, a olhar, ou sentados, a conversar?”. E, noutro passo, perguntando sempre: “O que nos está a acontecer? Quem nos está a fazer isto? Os nossos cérebros terão sido remasterizados digitalmente? Seremos uma experiência que, quis o acaso, está a correr muito mal, um esquema posto em marcha por forças fora do alcance da nossa compreensão? Não é a primeira vez que alguém faz estas perguntas. Os cientistas disseram coisas, escreveram coisas, os físicos, os filósofos.”


Martin remata no fim: “O mundo é tudo. O indivíduo não é nada. Será que todos entendemos isto?”



quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

PARA GRANDES MALES, GRANDES REMÉDIOS


Em homenagem a um académico, professor jubilado da Faculdade de Medicina de Coimbra, e cidadão de convicções fortes, como soe dizer-se, de antes quebrar que torcer, acabo de publicar este comentário ao seu último texto - intitulado "Por quem os sinos dobram"- sobre a hora de verdadeira desgraça nacional que se vive neste torrão natal: 
 

"Estimado Senhor Professor Diniz Freitas:

 A minha gratidão pela luta hercúlea que tem levado a efeito contra um vírus letal que se acantonou, até agora, num "bunker" inexpugnável em que as fracas forças políticas nacionais se deixam ir atrás dos acontecimentos em vez de de se lhes antecipar promovendo uma espécie de guerra de Solnado que avisa o vírus sobre as medidas que irão ser tomadas só lhes faltando pedir, reverentemente, autorização depois de consultar com a lupa de SherloK Holmes os pontos e as vírgulas da Constituição Portuguesa que não foi elaborada, ao que me atrevo a pensar, por uma espécie de autor de horóscopo de jornal que se tivesse antecipado aos acontecimentos!

 Bem sei, por formação cívica, ser muito criticável fazer queixinhas do tipo de menino de escola primária. É bem certo! Mas ter contemplações perante energúmenos que fazem das nossas ruas locais de passeio dominical de contaminação do seu semelhante exige que cada um de nós ajude as forças de segurança pública em situação de calamidade nacional denunciando, embora  situação execrável em condição normal,  quem não usa máscara na rua como ainda hoje vi de passagem na televisão portuguesa. 

Suponhamos, por hipótese, vermos um indivíduo de isqueiro na mão a incendiar uma mata? Para não nos tornarmos denunciantes não deveremos denunciá-lo chamando pelos bombeiros? Situações anormais devem exigir medidas anormais sem perder temo a discutir articulados legais, ainda que constitucionais, ponto por ponto, vírgula por vírgula, enquanto o fogo devora a floresta que é este país a que ainda chamamos Portugal  com os seus nacionais dentro das suas fronteiras históricas? Esta, a questão!"

UMA REFLEXÃO EM TORNO DO AFECTO

Texto do Professor A. Galopim de Carvalho, que, muito agradecemos.


O afecto, palavra que fomos buscar ao latim “affectus”, afigura-se-me como um sentimento marcado por uma natural, espontânea e notada dose de ternura na relação com o outro, que tanto pode ser uma pessoa, um animal ou, mesmo, um objecto.

No seu último livro “Sentir & Saber”, editado em Novembro do passado ano, António Damásio, de que ainda só li algumas passagens, numa entrevista que deu a José Cabrita da Silva, do jornal I (mas que irei ler com toda a atenção, como fiz com alguns dos seus anteriores livros), veio reforçar uma convicção muito enraizada em mim, segundo a qual o afecto é fundamental em todos os domínios da nossa vida em sociedade.

Damásio diz que as “capacidades afectivas são fundamentais porque são as primeiras”. São, diz ele, “os alicerces da nossa mente, daquilo que é o nosso ser”. E acrescenta que “é sobre essas capacidades que se vão colocar as capacidades cognitivas”.

“Esse Penso, logo existo, de Descartes, - continua o autor a dizer - é profundamente erróneo, porque vem de uma ideia de que aquilo que é o ser humano e aquilo que é mais valorizável no ser humano é o pensamento, mas um pensamento concebido no nível cognitivo puro”. 

Contrapõe a seguir, dizendo que “o fundamental, o alicerce de tudo isto, é aquilo que tem a ver com o nosso próprio corpo, com a vida que está a manifestar-se no nosso próprio corpo, e cujo estado (bom ou mau) é transmitido através do sentimento. Para Damásio, “as capacidades afetivas têm sido sistematicamente menosprezadas pela nossa cultura, pelo melhor da nossa cultura, não apenas hoje, mas na cultura filosófica tradicional”.

Há 25 anos, em O Erro de Descartes, já o autor denunciava “a sobrevalorização das capacidades cognitivas puras, em detrimento das capacidades afectivas”. Para o autor de “Sentir & Saber”, o fundamental é que se perceba que aquilo que é ser humano não é redutível aos aspetos cognitivos da mente. Pelo contrário. É preciso alicerçar essa mente no que é fisiológico, naquilo que é a vida, naquilo que é o corpo. Não é dizer que somos só corpo, isso seria um disparate. O que não se pode é tentar perceber o que é o ser humano sem perceber o corpo, a fisiologia, e a expressão dessa fisiologia nos sentimentos.

Para este neurocientista “aquilo que é a nossa vida, aquilo que é a nossa história e a nossa identidade, não é puramente cognitivo. É cognitivo misturado com o afecto. A vários níveis”. Estas sábias palavras de quem há, décadas, estuda a anatomia do cérebro e a sua relação com os fenómenos da consciência, vêm ao encontro de uma convicção muito enraizada em mim e que posso expressar, servindo-me, em parte, das suas palavras, dizendo que aquilo que foi e ainda é fundamental no meu trabalho e no meu pensamento tem a ver com a mistura do que é afectivo com o que é puramente racional.

Tenho plena consciência de todos os êxitos no muito trabalho que desenvolvi, para além do empenho e da persistência que neles coloquei, foram ditados, sobretudo, pela afectividade que sempre caracterizaram o meu relacionamento com as pessoas, quaisquer que sejam as suas posições no tecido social, dos Presidentes da República ao mais humilde dos cidadãos, dos ministros aos contínuos dos ministérios, dos patrões aos assalariados, dos generais e almirantes aos soldados e marinheiros.

Na árdua e prolongada luta que travei pela salvaguarda da jazida com pegadas de dinossáurios de Pego Longo (Carenque), tive oportunidade de me relacionar intensamente com a comunicação social escrita, falada e televisionada. Nesse relacionamento fiz tantos apoiantes e amigos quantos os media com quem privei, em número de algumas dezenas, entre os seniores mais prestigiados e influentes e os mais simples e apagados estagiários que, com o passar dos anos, se fizeram respeitados profissionais.

Percorri os corredores do Poder e, sem nunca me afastar das causas que abracei e pelas quais me bati e dei a cara, fiz amigos e estabeleci relações de muita simpatia com alguns ministros e, o que sempre foi muito importante, com os chefes de gabinete e com as respectivas senhoras secretárias. Outro tanto aconteceu no universo da Assembleia da República, independentemente das filiações partidárias, dos líderes das diferentes bancadas parlamentares aos deputados de todos os partidos. Tem sido assim nas muitas Câmaras Municipais, à margem das respectivas cores políticas, com as quais iniciei e tenho mantido estreita cooperação, sempre a título gracioso, nunca remunerado (pro bono), condição essencial que sempre garantiu e garante a minha não dependência desse outro poder e me não inibe de exercer livremente o meu juízo crítico e de procurar levar a bom termo os projectos em que me tenho envolvido. Criar pontes de afecto com presidentes ou directores e funcionários, dos mais categorizados aos mais humildes, nas mais variadas instituições públicas e privadas com as quais tive de me relacionar, profissionalmente ou apenas como cidadão, agilizou grandemente todo o trabalho que desenvolvi numa fase da minha vida em que estive ligado ao Museu Nacional de História Natural.

Devo dizer, em abono da verdade, que sem o suporte institucional deste museu e sem o apoio de alguns dos seus funcionários eu não teria tido nem a voz nem a visibilidade que os “media” me deram. Nas duas décadas em que tive responsabilidades na Universidade de Lisboa e, em particular, no Museu Nacional de História Natural, de que fui director, beneficiei, da estima e do afecto dos quatro reitores que nos tutelaram nesses anos, nomeadamente os Profs. Rosado Fernandes, Meira Soares, Barata Moura e Sampaio da Nóvoa. Na Faculdade de Ciências, onde exerci a docência entre 1961 e 2001, ano em que me jubilei, a vida correu-me bem. Pode dizer-se que tive uma carreira sem dificuldades de maior, que me permitiu viver em paz comigo, com os colegas e com a instituição, num ambiente de grande afectividade e simpatia.

Foi prova deste viver a numerosa assistência, nunca vista (cerca de 800 pessoas, entre amigos, colegas, alunos e ex-alunos), à minha última lição, “Geologia e Cidadania”, em 30 de Maio de 2001, no grande auditório da Faculdade. Afectividade influenciou, certamente, as muitas distinções e honrarias de que fui e ainda sou alvo. É verdade que, praticamente, tudo o que experimentei a fazer ou fiz, foi feito com amor, algumas vezes com paixão. Foi assim em criança, em que, brincando, fui aprendiz atento de muitas artes. 

Como estudante, só fui bom aluno com os professores com quem estabeleci relações de afecto. Com os outros fui sofrível ou, mesmo, mau. Como professor que fui durante quatro décadas pude confirmar que a relação de afecto entre o aluno e o professor constitui uma componente fundamental para o sucesso escolar. Como divulgador de conhecimento que também fui durante esse mesmo período, mais os vinte anos que se seguiram à jubilação, diz quem me ouve ou lê, que as minhas palavras tocam a afectividade e que, muitas vezes, têm sabor de poemas.

E eu sei que é verdade, posto que, ainda hoje, as minhas madrugadas são trocas de afectos com os meus quase 19 000 leitores, aqui no Facebook, nos bloques em que participo e nos livros que, entretanto, escrevi.
A. Galopim de Carvalho

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Sobre o (polémico) cânone literário - 2

Na mesma linha de pensamento de Célia Mafalda Oliveira, Presidente da Associação de Professores de Latim e Grego de quem, em tempos recentes, republicámos um texto (ver aqui), Margarida Miranda,  professora de Estudos Clássicos, interroga o afastamento que tem sido feito da cultura humanista de matriz ocidental no currículo das universidades europeias e americanas. Tudo em nome do "politicamente correcto", que nada tem a ver com a liberdade de expressão, intimamente associada, em ambientes democráticos, à responsabilidade ética. Em vez de integrarmos no currículo escolar o conhecimento que tem valor, independentemente da sua origem, excluímos uma parte, aquela que formou, em grande medida, o nosso modo de pensar. Vale a pena ler, na íntegra, o segundo texto a que aludimos, cujo título é "No princípio era Homero…" (ver aqui).
Maria Helena Damião e Isaltina Martins
"O assalto aos estudos humanísticos e a politização do ensino superior O desmantelamento do curriculum em nome de agendas políticas prejudica as próprias democracias, que deixam de ver respeitadas quer a liberdade cultural e artística, quer a independência das instituições de ensino superior.  

The Wall Street Journal informou recentemente que uma escola secundária pública no Massachusetts tinha retirado Homero do currículo, dando ocasião a que uma professora, Heather Levine, exprimisse a sua satisfação: “Muito orgulho em dizer que a Odisseia foi retirada do currículo este ano!”. 
Homero é um dos maiores monumenta do nosso passado. Não há área da criação humana, desde a poesia à retórica, desde a música à religião e às artes, desde a geografia à filosofia política, que não tenha recebido inspiração inicial dos heróis homéricos. No princípio era Homero… A tristemente célebre professora Levine não é caso isolado. Como reconhece a autora da peça no WSJ, está há muito em marcha um programa para substituir o que se lê na escola. 
O que acontece é que as redes sociais, mais propícias à retórica da emoção do que à da razão, intensificaram aleatoriamente o potencial daquele programa. Foi o que aconteceu com o movimento #Disrupttexts, que entrou no Twitter em janeiro de 2020 para “reconstruir o cânone literário numa perspectiva de crítica literária antirracista e anti discriminatória” e “criar um curriculum mais inclusivo…” ou seja, para combater o cânone literário tradicional, tido como instrumento de repressão. 
Se o cânone, que o próprio Harold Bloom defendeu, pretendia transmitir às gerações o melhor do que já foi pensado, escrito e representado, para os arautos da “revolução permanente” imposta pelo marxismo cultural, qualquer juízo de valor (implícito na escolha de ‘o melhor’) é visto como suspeito – a menos que resulte na acusação da cultura ocidental, branca, europeia, cristã e machista. Estabelecer um cânone fere os princípios democráticos. 
Assim, o cânone dito inclusivo exprime-se no repúdio de tudo quanto as humanidades tradicionalmente defenderam; projecta-se em programas voltados para a Pop Culture, em detrimento da impopularmente chamada alta cultura. Pretende, aliás, apagar a distinção qualitativa entre alta cultura e Pop Culture. Termos como humanismo e busca desinteressada da verdade afiguram-se esvaziados de sentido. 
Em lugar de Homero ou Virgílio, os estudantes de Pop Culture ocupar-se-iam da análise de videoclips da Madonna. E por fim, abandonar-se-ia o estudo das grandes obras da tradição ocidental para dar atenção a materiais secundários, de importância intelectual duvidosa – desde que ao serviço de certos objectivos políticos. O fenómeno não é novo: Roger Kimball descreveu-o em 1990 num livro famoso sobre Radicais nas Universidades (Tenured radicals: how politics has corrupted our higher education. Harper Collins Publishers) em que mostrou, com muita propriedade, como já então o debate académico reduzia todas as dimensões do homem e da cultura às “relações de poder” e ao “conflito de interesses”, ou seja, à política (...).
Ninguém nega que Literatura e Filosofia tratem de política; mas podemos reduzir a sua essência à política? Só uma visão politizada da educação e uma visão da universidade como palco de acção político-partidária permitem que o curriculum seja redefinido de acordo com as especificidades dos interesses de “raça, classe e género” – a nova versão do marxismo intelectual ou ecletismo de esquerda. Enquanto novos intelectuais denunciam a “hegemonia” da cultura ocidental, acusada de sexista, racista, reacionária e passivamente reverente, vemos a Escola abraçar ideologias intelectuais da moda, e a educação superior submeter-se a imperativos políticos. Diante do triunfo de radicalismos feministas, com a sua obsessão pela dominação masculina e pelo ‘género’ como categoria fundamental de análise literária, não é a Literatura que soçobra? 
A ideia de que o curriculum deva ser alterado de acordo com qualquer propósito partidário é uma perversão do ideal da universidade”, escreveu o filósofo de Berkeley John Searle, um dos maiores filósofos contemporâneos (The New York Review, 1991). “O objectivo de converter o curriculum em instrumento de transformação social (de esquerda, de direita, de centro ou o que seja) é o exacto oposto do ensino superior”. 
Dir-se-ia que, para a agenda política das Universidades, ensinar não é transmitir conhecimento, mas apenas gerar insatisfação. De facto, quanto mais cresce a politização das humanidades, mais cresce a ignorância do legado humanista. Mas os perdedores serão, em primeiro lugar, os alunos. O desmantelamento do curriculum em nome de agendas políticas é uma medida tirânica que os priva do melhor que foi pensado e dito. Com o tempo, ficarão as Universidades a perder, pois os alunos hão-de um dia descobrir que estas nada lhes ofereceram a não ser “treinamento ideológico, cultura pop e jogos herméticos de palavras” (Kimball, p. 31). E em última instância perdem as democracias, que deixam de ver garantida não só a liberdade da actividade cultural e artística, como até a própria independência das instituições de ensino superior. 
Veja-se o cancelamento neo-inquisitorial de contas de Twitter, Facebook, Youtube (a nova praça pública), de utilizadores dissidentes do mainstream. Esse atentado à liberdade de expressão não será já um fruto maduro do treinamento ideológico operado pelas Universidades?"

APROVEITAR O CONFINAMENTO?

 


Publicamos com muito gosto um texto acabado de receber de Eugénio Lisboa
, ensaísta e poeta que tem colaborado neste blogue, onde faz o elogio do seu gato (na foto o autor com um seu felino anterior ao actual):

Pascal sabia Física, sabia Matemática, deixou um notável livro de pensamentos e um polémico e saboroso livro de cartas provinciais, além de se deixar arrastar para congeminações teológicas (ninguém é perfeito: ninguém foi intelectualmente maior do que Newton, o que o não impediu de desperdiçar tempo com a alquimia e com a Bíblia).   Foi também Pascal quem disse, por exemplo, esta coisa preciosa, que parece ter sido escrita para benefício dos que atravessam este período sombrio e altamente mortífero: “É preciso fazer um bom uso das doenças”, o que pode ser entendido, de modo mais lato, como devendo aproveitar-se, positivamente, mesmo situações muito negativas. Quando estamos doentes – ou, como agora, confinados, o que é uma espécie de “doença” – temos, em muitos casos, bastante tempo à nossa disposição, para meditarmos, lermos, escrevermos, ouvirmos música (os que dela gostem) e até para convivermos com amigos e familiares, pela internet ou pelo telefone.


Mas será mesmo assim? Poderemos aproveitar, assim tão completamente, esse tempo “disponível”? A minha experiência pessoal (pode ser que seja muito particular, mas é a minha), de pessoa com idade avantajada e tendo em casa, como única companhia, a minha gatinha Ísis, fez-me questionar muito seriamente o mito da produtividade do confinamento. Tanto que nem sequer sei se terminarei este texto que comecei agora a escrever. Eu explico (se conseguir).


Ter-se um gato, como companhia, o dia inteiro, é um presente dos deuses. O grande Dickens sabia isso, quando afirmava que “there is no greater gift than the love of a cat”. O gato é um animal bonito, elegantíssimo, inteligente e extremamente inventivo. Está sempre a ter ideias, embora muitas delas francamente turbulentas e algo destrutivas. E, ao contrário do que dizem os ignorantes (que nunca tiveram gatos ou os tiveram e não lhes prestaram a devida atenção), o gato, se bem tratado e acarinhado, torna-se não só nosso amigo, como se torna até um amigo fiel e assíduo, sendo de opinião que é mal empregado todo o tempo que lhe não dediquemos, embora ele necessite de algum tempo para retiro, meditação e soneca. De facto, ele só não está connosco, quando DECIDE que tem, ELE, de fazer coisas mais importantes, como, por exemplo, partir um prato ou um copo ou um bonito objecto de arte que seja frágil e esteja mesmo a pedi-las. Ou, como já dissemos, dormir. Um gato pode ser muito nosso amigo, mas recusará terminantemente ser nosso escravo: o seu orgulho felino nunca lhe permitiria esse abaixamento, que ele vê, com desprezo, praticado pelo cão, nunca elevado ao estatuto de deus, pelos egípcios. Mas não lhe passa pela cabeça que os humanos tenham o mesmo comportamento orgulhoso. Quando lhe apetece – ao gato – saltar-nos para o colo ou para as costas, dificilmente aceita que recusemos. Ele SABE quando quer estar sozinho, mas não aceita que nós queiramos estar sozinhos, quando a ELE lhe APETECE estar connosco. Isto pode parecer estranho a um humano, mas o gato percebe-o perfeitamente. O homem foi feito para servir o gato e não o gato para servir o homem: um deus manda e não é mandado! Isto está inscrito no ADN dos felinos de salão.


Agora, um exemplo: a minha gatinha, de pelo preto e branco, cores distribuídas pelo seu corpo, segundo padrões que deixavam embevecidos os contemporâneos da Rainha Vitória, não se importa nada que eu oiça música, mostrando até um interesse cativante por um quinteto de Mozart ou por uma qualquer peça de Haydn, de Beethoven (desde que não seja o primeiro andamento da quinta sinfonia, nunca percebi porquê, até porque aguenta perfeitamente a nona, mesmo com o estardalhaço dos corais), de Schubert ou de Chopin. Nunca experimentei Wagner, por temer o pior (já me partiu um número suficiente de objectos que eu muito estimava). Também tolera, moderadamente, que eu leia, desde que, de vez em quando, interrompa a leitura, para lhe dizer quanto gosto dela e quanto ela é, para mim, mais importante do que Os Irmãos Karamazov. Mas há uma coisa que ela, decididamente, não suporta: é que eu ESCREVA! Aí, perde completamente os pedais. Quando me sento num sofá e abro um bloco com linhas, em cima do tabuleiro colocado em cima das minhas pernas e me preparo para uma boa tarde de escrita, ela, esteja em que ponto da casa estiver, apercebe-se misteriosamente do meu acto sacrílego – ESCREVER! – e surge na sala em que me encontro, a correr em quinta velocidade, salta para cima do tabuleiro, deita-se, em cheio, em cima do que estou a escrever e olha-me com ar desafiante, de quem diz: “Esquece o que estavas para aí a rabiscar. Vim para ficar!”


Agora, pergunto: que fazer, numa situação destas? A resposta imediata do ignoramus seria correr com o gato e retomar a escrita. Mas, quem todo o dia ouve o seu afectuoso gato recordar-lhe que, no tempo dos faraós, ELE tinha o estatuto de um deus e como tal era venerado, só lhe resta vergar-se e ajudá-lo a recuperar a eminência perdida. Sim, porque os apelos do bichano são tão pungentes que, diante deles, pergunta-se: QUE FAZER? (assim perguntava Lenine, num livro célebre, mas com assunto de bem menor importância do que o estatuto do gato!) Fica-se dilacerantemente perplexo. Sim, que vale um poema (mesmo sublime e longo), um romance, um ensaio ou um verbete de um diário, comparados com o amor de um gato? Se Camões gostasse de gatos e tivesse um gato, quando naufragou, na foz do Mecom, que acham Vocês que ele salvaria: o gato ou os Lusíadas? Qualquer genuíno amante de gatos conhece a resposta. Por mim, sacrifico sempre a escrita ao afecto de um gato. Não troco esse afecto por nenhum pífio triunfo literário. Posso mesmo afirmar, com orgulho, que os meus três últimos felinos – Jim, Secotine e Ísis – contribuíram decisivamente para diminuir a dimensão da minha bibliografia activa. Mas que importância tem isso?  Que vale a mais aparatosa bibliografia, em face do elegante esplendor de um gato?


P. S. confirmativo: escrever o pequeno texto acima consumiu-me, devido à presença da Ísis, o triplo do tempo que me levaria a fazê-lo, se ela não estivesse presente.


Eugénio Lisboa

Educar para quê?

Face à desorientação que se constitui (mais uma vez) como matriz do pensamento educativo, precisamos de voltar a perguntas básicas, mas absolutamente essenciais. E precisamos de recuperar respostas sábias, respostas que vão além da "narrativa", da "retórica" instituída que fecha a discussão. Precisamos (mais uma vez) de perguntar, por exemplo, educar para quê? 

Tão preocupado como eu com essa desorientação, alguém, que está a entrar no estudo da educação escolar, mandou-me um recorte do filme "Iris", sobre a vida e obra da escritora e, também, filósofa irlandesa Jean Iris Murdoch. 

"A educação não nos faz felizes. Nem a liberdade. Não ficamos felizes apenas por sermos livres, se o formos... ou porque tivemos uma educação, se a tivermos. 

Mas porque a educação pode ser o meio através do qual compreendemos que somos felizes. Abre-nos os ouvidos, os olhos. Diz-nos onde os prazeres se ocultam. 

Convence-nos de que existe apenas uma liberdade... verdadeiramente importante. A intelectual. 

E dá-nos a segurança, a confiança para podermos trilhar o caminho que a nossa mente educada nos oferece."

António Leonardo - Primórdios da Química Forense em Portugal

PORTUGAL, PAÍS COM LEIS POR CUMPRIR EM HORA DE VERDADEIRA CALAMIDADE PÚBLICA


 “Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais do que uma vida ou a alegria em tê-la” (Jorge Sena).

Contava-se em tempos, haver uma povoação com uma ponte sobre um rio que tinha um cartaz a dizer: “Cuidado não se debruce porque é muito perigoso!” Por o fruto proibido ser o mais apetecível, algumas pessoas que por lá passavam debruçavam-se, caiam ao rio e morriam!

Preocupado com a situação, o regedor teve uma ideia peregrina. Em substituição do cartaz anterior colocou um outro com os seguintes dizeres: “Embora perigoso, podem debruçar-se!” Remédio santo, nunca mais ninguém se debruçou sobre a ponte!

Esta história, verídica ou não, define bem a falta de civismo do povo em obedecer  a determinações superiores. A falta de civismo chegou a ponto de, segundo um autarca de Barcelos, haver pessoas que alugam cães só para sair à rua! Desde que foi exigido um confinamento mais rigoroso, assistiu-se, dias atrás em dia de sol, a milhares de pessoas a passear nas ruas e nas praias, tendo ele efeitos quase nulos por só ter “diminuído em 10 % a circulação das pessoas” (“Executive Digest”). Todos os dias aparecem confinamentos sem efeitos positivos porque impostos a desoras e não cumpridos na hora!

Moral da história: não basta proibir. É imprescindível criar condições para que a lei seja cumprida. Tanto assim é que leis contra a corrupção, por si só, não diminuem a corrupção, por os corruptos verem as leis a não serem cumpridas sem nada acontecer por acabarem, por  vezes, os delitos  por prescrever. Nesta situação, é a economia do país a ser atingida e os pobres dos contribuintes a sofrerem as consequências. Mas na pandemia do coronavírus, é bem mais grave por serem um sem número de vidas humanas que estão em risco de vida!

A solução não me parece serem as autoridades apenas dispersarem as reuniões, à porta fechada ou na rua, para os seus participantes voltarem a reunir-se em outros locais. Mas as forças da ordem, por exemplo, Polícia e GNR, exigirem a identificação dessas pessoas para que as provas se processem na hora e “in loco”; e sejam tanto maiores as penalizações consoante haja reincidências ou não!

E nada de desculpas, a exemplo do não adiamento de eleições para a Presidência da República defendido por Marcelo Rebelo de Sousa por atentar contra a Constituição Portuguesa.  O estado de calamidade que o país vive exige medidas de excepção numa altura denunciada premonitoriamente por Ortega Y Gasset: “Num mundo que se sente perdido na sua própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais técnica do que nunca, afinal de contas, o mundo actual vai, como o mais infeliz que tenha havido, puramente à deriva”.

“Post scriptum”: Na Roma antiga dizia-se “panem et circenses” (pão e jogos de circo), em Portugal coetâneo assiste-se às televisões a ocuparem mais tempo com os  jogos de futebol, seus resultados e previsões, transferências de jogadores, etc., do que ao momento de verdadeira tragédia de vidas por colapso dos cuidados de saúde motivados por carências económicas ou procrastinação de medidas a tomar atempadamente. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Discurso do Presidente da Uganda ao seu Povo

Subscrito pelo meu amigo Sousa Costa, li este texto que partilho com os políticos portugueses na esperança que o leiam e dele tirem as ilações devidas que os ponham a coberto das asneiras por si cometidas neste pedaço de terra que se chama Portugal.

"ESTE É O MELHOR E MAIS INTELIGENTE DISCURSO PÚBLICO

JÁ FEITO DURANTE O COVID-19.
DISCURSO DO PRESIDENTE DO UGANDA À SUA NAÇÃO*.
O presidente da Uganda, KAGUTA MUSEVENI, alerta contra as pessoas adotam comportamentos de risco durante este período do COVID-19: "Deus tem muito trabalho, ele tem o mundo inteiro para cuidar. Ele não pode simplesmente estar aqui no Uganda, a cuidar de idiotas.
Abaixo está sua declaração.
Numa situação de guerra, ninguém pede a ninguém para ficar dentro de casa. Você fica dentro de casa por opção. De fato, se você tiver um porão, fica escondido lá enquanto as hostilidades persistirem. Durante uma guerra, você não insiste na sua liberdade. Você voluntariamente desiste dela em troca da sua sobrevivência.
Durante uma guerra, você não se queixa de fome. Você sente fome e reza para que viva de novo para comer.
Durante uma guerra, você não discute sobre abrir as portas do seu negócio. Você fecha a sua loja (se tiver tempo) e corre pela sua vida.
Você reza para sobreviver à guerra para poder voltar ao seu negócio (isto, se não tiver sido saqueado ou destruído por um morteiro).
Durante uma guerra, você fica grato por estar mais outro dia na terra dos vivos.
Durante uma guerra, você não se preocupa com o facto dos seus filhos que não irem à escola. Você reza para que o governo não os aliste à força como soldados para serem treinados nas dependências da escola, agora transformadas em depósito militar.
O mundo está atualmente em estado de guerra.
Uma guerra sem armas e balas.
Uma guerra sem soldados humanos.
Uma guerra sem fronteiras.
Uma guerra sem acordos de cessar-fogo.
Uma guerra sem um teatro de guerra.
Uma guerra sem zonas sagradas.
O exército nesta guerra não tem piedade, ataca indiscriminadamente - não respeita crianças, mulheres ou locais de culto.
Este exército não está interessado em espólios de guerra
.Não tem intenção de mudança de regime.
Não está preocupado com os ricos recursos minerais .
Nem sequer se interessa por hegemonia religiosa, étnica ou ideológica.
A sua ambição não tem nada a ver com superioridade racial.
É um exército invisível, sem bases e impiedosamente eficaz.
A sua única agenda é uma colheita de morte.

Só ficará saciado depois de transformar o mundo num grande campo de morte.
A sua capacidade de atingir o seu objetivo não está em dúvida.
Sem máquinas terrestres, anfíbias ou aéreas, possui bases em quase todos os países do mundo.O seu movimento não é governado por nenhuma convenção ou protocolo de guerra.
Em suma, é uma lei em si mesma.
É o coronavírus.
Também conhecido como COVID-19.
Felizmente, este exército tem uma fraqueza e pode ser derrotado.
Requer apenas a nossa ação coletiva, disciplina e tolerância.
O COVID-19 não pode sobreviver ao distanciamento social e físico
Ele só prospera quando você o confronta.
Adora ser confrontado.
Capitula diante do distanciamento social e físico coletivo.
Ele curva-se diante de uma boa higiene pessoal.
Fica desamparado quando você toma o seu destino com as suas próprias mãos, mantendo-as higienizadas o máximo tempo possível.
Não é hora de chorar por pão com manteiga como crianças mimadas.
Temos de achatar a curva do COVID-19.
Vamos exercitar a paciência.
Sejamos guardadores dos nossos irmãos.
Se assim fizermos, em pouco tempo, recuperaremos a nossa liberdade, empresas e a socialização
No meio da EMERGÊNCIA, pratiquemos a urgência do serviço e a urgência do amor pelos outros.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

DEIXAR VIVER E DEIXAR MORRER


Acabo de ler no "Observador", em notícia de hoje, este testemunho de João Gouveia, presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional de Medicina Intensiva : "Temos de escolher doentes a partir da próxima semana".

Assumam a vossa responsabilidade senhores  políticos vacinando rapidamente a população sem excepção para que só não seja, ao que se diz, a candidata à Presidência da República  Ana Gomes a estar vacinada por  ter mandado vir a sua vacina de França sem ser no bico de uma cegonha! E o resto dos políticos (se é que ainda haja algum por vacinar?), quantos estão já vacinados? Entretanto, os pobres e deserdados vivem  numa espécie de tômbola à espera  de morrerem  por não estarem vacinados.

Com este título publiquei, aqui no "De Rerum Natura",o meu post que ora republico com o título supracitado (09/11/2020):

"A consciência é a memória inserida no tempo" (Fernando Pessoa).

Extraordinário testemunho do médico Dr. Manuel Damas (09/11/2020) que confronta a consciência cívica, o desempenho profissional e a ética médica da sua profissão com a decisão do Governo Socialista em poder vir tirar a vida a doentes em cuidados intensivos de tratamento ao corona vírus, pouco tempos depois deter sido rejeitada a eutanásia em Portugal!

Suponhamos, por exemplo, o critério de idade desta medida em que, por exemplo, doentes com 65 anos ou mais de idade ,“in extremis”, poderão ser desligados da máquina que os mantém com vida, apesar de “em todas as lágrimas haver uma esperança” (Simon Beauvoir).

Suponhamos, ainda, estarem dois doentes nesta situação: um com 65 anos de idade feitos na véspera da tomada da decisão que tem uma vida de doação de mérito à sociedade e outro com 64 anos com várias penas de prisão por crimes hediondos cometidos. Qual deles deveria ser sacrificado?

Suponhamos, finalmente, que no dia fatídico dessa decisão, posta em mãos médicas, que fizeram o juramento de Hipócrates, um dos doentes tem 65 anos de idade feitos nesse dia e o outro que cumprirá o requisito que o salvará no dia seguinte, a qual deles deveria ser aplicada essa medida que só pode ser gerada em cabeças sem vestígios de consciência de um governo que cumpriria esta norma com a consciência tranquila de um alibi que salvaguardasse a sua inoperância em agir com o à-vontade dos doentes serem títeres de governantes que possam tomar medidas destas com a esperança do beneplácito de portugueses quais ferrenhos adeptos de clubes de futebol que neles continuariam a votar, quer sejam bem ou mal geridos.

A confissão de António Costa, na televisão, de ter havido erros, por parte do Governo a que preside, no combate ao corona vírus não pode deixar morrer solteira a sua culpa e muito menos isentar os governantes das mortes, entretanto, havidas.

E isto já para não falar na manutenção da ministra e directora-geral da Saúde numa evidente manifestação de não estarem à altura da ocasião gerada pelo pandemónio do corona vírus. Pertenci ao número de pessoas a pedir inicial e publicamente as respectivas demissões num país em que as vozes dos cidadãos não chegam ao céu de quem nos governa.

Assim vai um país, sem rumo e sem destino, que passou do punho cerrado sinistro a punho dextro e desmaiou para rosa o vermelho do símbolo dos países comunistas. É, portanto, hora de tomar medidas sérias pensadas e moralizadoras numa altura em que estão à porta as eleições presidenciais e as eleições autárquicas estão perto! Saibam os seus votantes reflectir na hora de votar não tornando o voto num determinado partido num hábito difícil de deixar como fumar, ainda que sabendo o mal que faz à saúde! Em evocação do título de um filme norte-americano: “Este país não é para velhos!

"Post scriptum”: Já chega a ADSE ter retirado a familiares de beneficiários seus o respectivo usufruto não permitindo acumular com reformas de miséria. Algumas não chegam, apesar de para elas, terem sido feitos ou não descontos, isto é, tratando igualmente duas situações diferentes, a metade do salário mínimo nacional.

sábado, 16 de janeiro de 2021

FRONTEIRAS DA CIÊNCIA


Meu artigo no livro Geografias e Poéticas da Fronteira (Iberografias 39) publicado pela Âncora e  pelo Centro de Estudos Ibéricos da Guarda:

O conceito de fronteira começa por se referir a delimitações de países, mas tem óbvias extensões: fala-se, por exemplo, de fronteiras como limites da descoberta humana em terra, no mar, ou no espaço. Quando os alpinistas Edmund Hillary e Tenzing Norgay chegaram ao cume do Evereste em 1953, quando os exploradores submarinos Jacques Piccard e Don Walsh chegaram ao sítio mais profundo dos mares, na Fossa das Marianas, no Pacífico, em 1960, ou quando os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin chegaram à Lua em 1969, o ser humano chegou a novas fronteiras. Quando, em 2013, a sonda da NASA Voyager 1, lançada em 1997, saiu da heliosfera, cerca de 100 vezes mais longe do Sol do que a Terra, tornando-se o primeiro engenho humano a aventurar-se no espaço interestelar, alargaram-se as fronteiras do espaço alcançado por um artefacto tecnológico.

As fronteiras entre os países aproveitam por vezes configurações naturais, mas, outras vezes, não passam de convenções desenhadas a régua e esquadro. Quando são naturais, assumem muitas vezes a forma matemática de fractal, um conceito introduzido nos anos 80 do século passado pelo matemático francês Benoît Mandelbrot no seu artigo de 1967 “Quanto mede a costa da Grã-Bretanha?” A resposta depende do tamanho da régua: aumenta para infinito à medida que a régua diminui para zero. As fronteiras fractais são muito entrecortadas, têm reentrâncias de vários tamanhos. As linhas onde a terra acaba e o mar começa exibem uma simetria de suto-semelhança: parte do rendilhado da costa é semelhante ao todo. Já a fronteira entre a Terra e o espaço é bastante mais simples: fala-se de “linha de Karman” para designar o limite a uma altitude de 100 quilómetros onde a atmosfera é tão pouco densa que podemos dizer que a Terra acaba e o espaço começa (de facto, não é uma linha, mas uma superfície). Deixamos de estar no domínio da legislação terrestre para entrar no domínio da legislação espacial.

Podemos falar não apenas de fronteiras do sistema solar, atravessadas pela Voyager 1, mas também de fronteiras da nossa Galáxia e do nosso grupo de galáxias. Podemos até, indo muito mais longe, o mais longe que se pode ir, falar da fronteira do Universo observável, que é uma esfera com cerca de 42 mil milhões de anos-luz centrada na Terra (porque somos nós os observadores, mas a Terra não tem nenhum papel especial no cosmos, pois qualquer outro observador noutra estrela teria, ao olhar em seu redor, o mesmo limite). A luz está a viajar desde há cerca de 14 mil milhões de anos desde o início do Universo (o Big bang), pelo que já percorreu 14 mil milhões de anos-luz, mas, como o Universo está em expansão, a esfera do observável é bem maior. Acreditamos que o Universo se estende para além do observável, mas não sabemos se é finito ou infinito. Mas, mesmo que seja finito, tal não significa que tenha fronteiras: basta pensar numa superfície esférica, que é finita, mas onde um percurso pode ser ilimitado.

O conceito de fronteira vai, contudo, mais além do que o dos limites geográficos, astronómicos ou cosmológicos. Quando falamos de fronteiras da ciência, estamos a falar dos limites que separam o que se sabe do que não se sabe. Trata-se neste caso de fronteiras imateriais e não materiais, portanto de uma ampliação metafórica do conceito original. As fronteiras da ciência são móveis, pela própria definição de ciência como processo de descoberta do mundo. As fronteiras da ciência estão a avançar desde que a ciência começou. Hoje sabemos mais do que ontem. E é legítima a esperança de que este processo continue, de modo a que amanhã venhamos a saber mais do que hoje. Garcia de Orta escreveu de forma lapidar no seu livro Colóquio dos Simples (Goa, 1563): “O que não sabemos hoje amanhã saberemos.” A ciência alimenta-se desta atitude optimista de que há e haverá mais para descobrir.

O conhecimento científico está, portanto, em expansão, tal como o Universo que ele procura descrever, graças à extraordinária capacidade do cérebro humano. Uma ponte poética entre o cérebro e o espaço foi estabelecida pela americana Emily Dickinson: “O Cérebro – é mais amplo do que o Céu –/ Pois – colocai-os lado a lado –/ Um o outro irá conter/ Facilmente – e a Vós – também_–.“ Muitas dúvidas que hoje persistem vão ser resolvidas pela criatividade humana. Novos territórios vão ser explorados pois, após a resposta a uma dúvida, costumam logo surgir outras interrogações. Tudo indica que o conhecimento científico é ilimitado… Esta ideia de ciência como um empreendimento sem limites transparece do título do relatório que o engenheiro e administrador americano Vannevar Bush enviou em 1945 ao presidente Franklin Roosevelt: Science, The Endless Frontier, em que pedia uma expansão do apoio público à ciência.

Além do problema dos limites do conhecimento científico propriamente dito, há o “problema da demarcação” da ciência, que consiste em distinguir entre o que é e o que não é científico, uma questão do foro da filosofia da ciência. Há muitas questões para além da ciência, como por exemplo, para além das da filosofia, as da ética e as da arte. A acção humana, embora possa e deva basear-se no conhecimento científico, não pode limitar-se à ciência. E a arte, embora possa contactar fertilmente com a ciência, também é uma dimensão humana não científica. Há outras formas de conhecimento para além da ciência e também elas parecem ser ilimitadas.

 

MINHA ENTREVISTA AO PORTAL SAPO

 https://www.sapo.pt/noticias/atualidade/artigos/carlos-fiolhais-nao-e-possivel-compreender-tudo-o-que-se-passou-em-portugal-se-ficarmos-confinados-as-nossas-fronteiras

A MINHA CONFERÊNCIA NA SOCIEDADE DE ESTUDOS DE MOÇAMBIQUE: "EDUCAÇÃO FÍSICA - CIÊNCIA AO SERVIÇO DA SAÚDE PÚBLICA".

 


A Sociedade de Estudos de Moçambique, “Palmas de Ouro da Academia de Ciências de Lisboa”,  foi “ex-libris” científico, literário e cultural desta ex-Província Ultramarina de Portugal.

Foi, extinta depois de 25  de Abril, ligando-me a ela recordações saudosas e honrosas por aí ter proferido duas conferências e  desempenhado  os cargos de  presidente da Secção de Ciências e bibliotecário.

A Sociedade de Estudos de Moçambique foi criada em 1930 tendo o seu sócio fundador e primeiro presidente, engenheiro António Joaquim de Freitas, referido como objectivo da sua criação “estabelecer um convívio intelectual necessário às pessoas que vivem pelo cérebro”.

Uma dessas minhas conferências supra mencionadas,  sob o título de “Educação Física – Ciência ao Serviço da Saúde Pública”,   foi publicada, em edição da Sociedade de Estudos, tendo merecido do jornal “Diário” (Lourenço Marques, 18/12/73) a notícia que transcrevo:

“Editada pela Sociedade de Estudos de Moçambique, acaba de sair do prelo mais uma obra do Dr. Rui Baptista tratando da problemática da Educação Física.

Trata-se de um opúsculo contendo o texto da conferência por si proferida, em 16 de Agosto de 1971,  na sede daquele organismo .

Rui Baptista é um batalhador insatisfeito pela causa da sua dama – a Educação Física -, batendo-se pelos seus problemas em todos os sectores, sem evitar a polémica que pretende ser construtiva.

Esta obra vem dar mais uma achega e um importante suporte da vida moçambicana, mormente nos dias que correm – a Educação Física. Trata-se de mais um marco a merecer o caminho que o autor vem construindo na estrada nem sempre fácil mas que achou por bem escolher”.

As duas fotografias que ora publico, uma refere-se ao decurso da minha conferência, outra da respectiva assistência.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

FRANCIS, O MACHO QUE FALA



          “A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todos  os lados, diagnosticá-los incorrectamente e aplicar as piores soluções”                                                                                                                    (Groucho Marx).

INTRODUÇÃO: Pedindo desculpa aos leitores, mas por os ter mais apropriados alterei o nome e a imagem deste meu post, inicialmente, chamado "Os homúnculos da política portuguesa".

Década de 60 do século passado, era projectado nas telas dos cinemas nacionais o filme norte-americano “Francis, o macho que fala”. À época, pertencia à minha tertúlia de mesa de café um indivíduo, com pronunciado prognatismo (vulgo, queixada) que nós tratávamos por Francis por, para além  da queixada de burro, gostar  de falar difícil, com  a jactância da ignorância, sobre tudo e sobre nada.

Relembro esse facto por ouvir hoje  perorar, constantemente, na televisão portuguesa,  “iluminados” das mais variadas procedências, pagos a peso de ouro, ou por simples e vã vaidade, a debitarem opiniões sobre a actual pandemia como se a crise que vivemos,  e que aumenta letalmente, de dia para dia,  em  número de infectados e mortos pelo coronavírus, se tratasse de uma questão meramente política debatível, "ad nauseam",  à mesa de café, quiçá, por Aristóteles ter pontificado que “o homem é um animal político”. Mas não! Trata-se, na sua génese,  de uma verdadeira tragédia de atentados criminosos contra a Saúde Pública a exigir a intervenção dos tribunais e de forças policiais de que a televisão, em  hora de pesadelo, deu hoje o relato de uma festa de atrasados mentais, ou mesmo assassinos, com muita gente a bailar, a beber, a comer, em ambiente fechado realizada na Cidade Invicta.

Registei o facto relatado com  ligeireza por não ter sido completado com as medidas tomadas pelas forças da ordem pública contra estes irresponsáveis: limitaram-se, essas autoridades, porventura, a passarem multas simbólicas ou a “gentilmente” convidarem os participantes a darem por terminada a festança?

Como é consabido, em televisão os minutos contam por horas porque uma imagem  vale  por mil palavras. Seja como for, insisto na pergunta: o que sucedeu aos seus promotores? Ficaram os seus responsáveis directos em  prisão para servirem de exemplo a casos que se possam vir a repetir?

Em  tempo de guerra não se limpam  armas: há que pô-las ao serviço do bem público, tomando medidas “a priori” e não “a posteriori”. Acabe-se com personagens que são pagas  para aparecerem na televisão  como emplastros, a exemplo daquele “tiffosi” do futebol clube Porto,  que tudo faz  para aparecer nas fotos das respectivas comemorações!

Não será mais do que hora  nomear uma comissão de políticos dos vários partidos com lugar na assembleia do povo que se responsabilizem por uma tomada enérgica e rápida  de medidas efectivas e concertadas, em vez de andarem a discutir, como se fosse uma questão de “lesa pátria”,  se se deve ou não adiar as eleições num tempo em que as sondagens são favoráveis a Marcelo Rebelo de Sousa e ao Partido Socialista. Ou seja, interesses pessoais ou partidários não se devem sobrepor a exigências da grei na hora que passa!

A sobrevivência dos portugueses, através de uma vacinação em massa, não pode nem deve ser preterida pela discussão de prioridades da população a vacinar – a propósito, dias atrás li um notícia, cito de memória, que dava conta que na Polónia já estava vacinada 14.1  da população e em Portugal apenas  1.4 %! Esta forma de procrastinação impõe que se acabe com ela por não se perspectivar no horizonte um homem da estirpe do Marquês de Pombal que, aquando do Terramoto de 1755, tomou a peito  tratar dos vivos e enterrar os mortos. A continuar na senda actual a palavra de ordem parece ser enterrem-se os mortos e quando não houver lugar nos cemitérios palmos de terra suficientes lancem-se em valas comuns ou incinerem-se os seus cadáveres!

Por Deus, acabe-se com comunicações, ou simples “briefings”, de políticos a tentar, numa espécie de quadratura do círculo, como tal debalde,  explicar ao povo o inexplicável de não terem sido tomadas  medidas preventivas e atempadas que deveriam ter sido levadas a efeito durante as Festas do Avante,  o Natal e o Ano Novo. E não foram! Mas não se esqueçam de, pelo menos, tratar dos vivos vacinando-os a tempo e horas!

No meu salutar hábito de citar Eça, figura ímpar da nossa literatura que escreveu, em “As Farpas”, de parceria com a Ramalhal figura em combate contra os maus costumes políticos e sociais do século XIX, que a estupidez humana tinha cabeça de touro, aqui deixo,  mais uma citação: “Achais estas páginas cruéis? Pensais que não nos  dói tanto escrevê-las com  a vós  dói lê-las? Pensais que é com o espírito alegre , e a pena ao vento, que levantamos um por um , diante do público  os farrapos da vossa decadência?”

Excelentíssimos senhores governantes deste país: Lede e relede Eça para que a ignorância não vos tolde o raciocínio numa hora de grande e grave desesperança nacional que exige uma rija têmpera e honestidade dos que tomarão em mãos ávidas, em eleições que se avizinham, o leme do destino da grande e histórica nau lusitana. Mas, se é que existem, onde pairam eles? Será o Professor Adriano Moreira,  afastado da política activa pela sua idade avançada, o único sobrevivente sem continuidade?Temo bem que sim!


UM CAMINHO CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO HUMANISTA?

Entenda-se este texto não como um elogio acrítico a uma nova escola de iniciativa privada, mas como uma reflexão acerca da estrutura curricu...