sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
DEPOIS DE CASA ROUBADA, TRANCAS NA PORTA!
“Não se é menos culpado por não fazer o que se deve fazer do que que fazer o que se não deve fazer" (Marco Aurélio, imperador romano).
Mal acabei de escrever, aqui, o último texto sobre o corona vírus saem-me as intenções furadas em deixar o teclado
do computador dormir a sesta descansado! Mas isso pouco me
preocupa porque, inspirado em D.H.Laurence, “gosto de escrever quando estou
despeitado”, mesmo que possa enfastiar generosos leitores da minha prosa.
A mim o que me espanta, mas espanta mesmo, é ver a União Europeia, segundo a RTP, só agora ponderar em fechar as fronteiras para evitar uma maior propagação de novas variantes do corona vírus. Ou seja, é caso para eu citar mais
um aforisma
tão a meu gosto e hábito: “Depois de casa roupada, trancas na porta”.
Desta forma, as fronteiras
portuguesas vão deixar de ser um ver se atavias a dar guarida a falsos “refugiados" de países do continente africano em que nem sequer existe guerra desconhecendo-se as
suas intenções, em serem ou não recrutadores de novos homens de uma legião a
invadir e a destruir a civilização em
prol de uma hegemonia seja ela religiosa, económica ou outra qualquer. Reporto-me
ao "jihadismo" de grupos sionistas
violentos.
O mundo actual está
longe de ser um paraíso de Éden com
abundância de tudo e um deus a guardar a árvore da vida dos humanos!
Espanta-me, por exemplo,
que a viatura que transportava milhares de vacinas contra o corona vírus se
tenha despistado, naturalmente, por excesso de velocidade, sem cuidado pelas vidas que por ela esperavam com
esperança de não serem vitimadas por esta pandemia.
Espanta-me que a decisão
para o fecho das escolas, do 1.º ciclo do básico ao ensino universitário, só depois
de uma previsível mortandade dos que são o futuro do seu património cultural humano, tenha sido
determinado, para que não sejam os dedos
do nosso futuro de gente letrada que se
esvazie ficando apenas o balão dos anéis
da nossa vaidade.
Espanta-me que eu
ainda me espante com um governo nacional que navega com terra à vista sem bússola magnética para
se orientar não perdendo o norte das
decisões justas!
Espanta-me que Marcelo
Rebelo de Sousa numa reunião de com alunos do liceu de Pedro Nunes, onde tinha sido aluno, hoje
escola secundária com o mesmo nome, tenha respondido a perguntas que lhe foram
feitas de forma um tanto ou quanto evasiva dando uma no cravo e outra na
ferradura.
“Last but not least”,
talvez, em reminiscência do seu passado de analista político, o recandidato à
Presidência da República não resistiu a preconizar a percentagem de votos que lhe poderão calhar
em rifa nas eleições do próximo Domingo,
havendo a necessidade de obrigar a novas eleições para a Presidência da
República com o perigo de esse facto representa para novos contágios, pela
aglomeração de pessoas nas mesas de voto vítimas da nova estripe de corona vírus. Haja dó!
Coragem portugueses: ajoelhem-se
no altar da incompetência esperançados que a sorte de uma espécie de roleta
russa nos proteja de um destino padrasto!
Felizmente, como no ensina a “vox populi”, “não há sorte que sempre dure nem
azar que sempre perdure?”
Das decisões do
governo de António Costa, com diria Eça, “não me ficou a impressão de uma ideia,
mas só a lembrança de várias atitudes”
sem pés nem cabeça ou a cargo de cabeças teimosas e sem nexo! Já não há
paciência, mesmo de Job, que tanto ature!
E não me peçam para eu ser tolerante porque para ser tolerante, como defendeu Umberto Eco, é preciso definir os limites da tolerância. Temo que a tolerância tenha atingido limites que ultrapassados possam provocar danos irreparáveis ao necessário respeito a princípios democráticos!
DON DE LILLO E O SILÊNCIO
Minha recensão do último romance de Don deLillo publicada no I de ontem:
No meu curso de Termodinâmica,
quando introduzo a escala Kelvin (que começa no zero absoluto, 0 K = -273,15
graus Celsius), costumo referir o romance Zero K (Sextante, 2016) do
escritor norte-americano Don DeLillo (nascido em 1936). É um livro sobre a
possibilidade de resistir à morte através da criopreservação, a preservação do
corpo humano perto do zero absoluto. A esperança de alguns é que os avanços da
biomedicina permitam um dia reanimar corpos apanhados por doenças que hoje são fatais.
É um livro de um tempo em que tentamos contrariar os nossos medos com esperanças
alimentadas pela ciência e pela tecnologia.
A ciência e a tecnologia estão
presentes neste e noutros romances de DeLillo por estarem omnipresentes na
nossa vida. Sendo um escritor moderno – para alguns pós-moderno (o próprio
autointitula-se “moderno, na tradição de James Joyce e William Faulkner”) – incorpora
nas suas obras elementos científico-tecnológicos que moldam a nossa modernidade.
Por exemplo, em The End Zone (1972, não traduzido) fala da guerra
nuclear. Em Ratner’s Star (1976, idem) há um matemático que tenta captar
uma mensagem extraterrestre. Em Cosmópolis (Relógio d’Água, 2003) uma limousine cheia de ecrãs de televisão e
de computador circula pelas ruas de Nova Iorque. Em Ruído Branco
(Sextante, 2009), o autor reflecte sobre a química no mundo de hoje, ao
descrever um acidente com um produto químico não especificado. O romance Submundo
(Sextante, 2010) aborda o problema dos resíduos civilizacionais.
A morte, os desastres e o fim do
mundo, por vezes associados à tecnologia, estão entre os temas de eleição de
DeLillo. Em Mao II (Sextante, 2009) fala do terrorismo internacional. Em
Libra (Sextante, 2013) trata, ainda que com ficção à mistura, do
assassinato de John Kennedy. Em O Homem em Queda (Sextante, 2007) aborda
o atentado das torres gémeas de 11 de Setembro. O título Ponto Ómega (Sextante
2011) remete para o fim do mundo do teólogo francês Teilhard de Chardin. O medo
está por todo o lado na sua literatura: Em Ruído Branco há mesmo uma droga
fictícia, o Dylar, que é um tratamento experimental contra o medo da morte.
O medo é individual e colectivo.
É muito nítido, para os leitores de DeLillo, que o indivíduo é facilmente levado
pelas multidões. A linguagem, que liga os indivíduos para formarem multidões, é
uma preocupação central do autor. Num estilo muito próprio, o romancista –
também dramaturgo e ensaísta – fala não só da comunicação no mundo moderno, mas
também da impossibilidade de comunicação quando o ruído prevalece.
O último romance de DeLillo, O
Silêncio, publicado em Nova Iorque em Outubro passado e quase ao mesmo
tempo em Portugal, é uma síntese de temas de outras obras do autor – estão lá a
ciência e a tecnologia, a morte, o fim do mundo, e o medo. A comunicação e a
incomunicação na nossa sociedade também lá estão. De facto, O Silêncio,
ao descrever uma catástrofe à escala global, foi de certo modo premonitório da crise
que hoje vivemos. É curioso que, num romance entregue semanas antes da eclosão
da pandemia, se fale do confinamento: “E não é estranho que certos indivíduos
pareçam aceitar resignadamente o confinamento, a cessação do fluxo? Será uma
coisa por que sempre ansiaram, subliminarmente, subatomicamente?”
O romance, o 18.º do aclamado
autor e o 13.º publicado entre nós, é curto. A acção situa-se em 2022. Os principais
personagens são cinco e a história conta-se em poucas linhas: Um casal, Jim e
Tessa, regressa de avião de Paris a Nova Iorque, esperando chegar a tempo de
assistir ao Super Bowl, a final de futebol americano e um grande espectáculo
televisivo, no apartamento de um casal amigo, Max e Diane. A anfitriã,
professora de Física já reformada, tinha convidado Martin, um seu ex-aluno,
também professor dessa disciplina, a juntar-se ao party doméstico. No Super Bowl todos os americanos estão em casa, pendurados
na televisão, com abundância de comidas e bebidas. O entretenimento é não só o
jogo, mas também o show no intervalo precedido
de muitos anúncios (lembro-me de um dia ter ficado acordado até altas horas
para ver a Lady Gaga, embora não saiba nada de futebol americano). O jogo está
prestes a começar…
Mas, de repente, dá-se um evento
inesperado: um apagão geral, que faz parar todo o sistema de comunicações. O
avião onde viajavam Jim e Tessa, perto do aeroporto, é forçado a uma aterragem
de emergência. Ao mesmo tempo, a televisão vai abaixo no apartamento de Max e
Diane. A Internet e os telemóveis deixam de funcionar. Não era apenas uma
avaria num edifício, mas em toda a cidade e quiçá no planeta. O autor não
explica o que aconteceu. Mas é uma espécie de fim do mundo. É como se o mundo subitamente
se calasse, ficando em suspenso.
Jim e Tessa conseguem chegar a
casa dos seus amigos, embora exaustos e desorientados, após se terem salvo na
queda do avião. Ainda passam por um hospital com longas filas de espera para
tratar um lanho na cabeça dele (para aliviarem a tensão, fazem rapidamente sexo
numa casa de banho do hospital). Estando a televisão calada, resta a conversa
no pequeno grupo, desligado das massas. Se o mundo se calou, aquelas pessoas
não se calam. O silêncio do mundo é a oportunidade para elas falarem, em
diálogo e em monólogo. Aquelas pessoas exteriorizam pela linguagem os seus
medos. O que poderá ter acontecido? O que vai acontecer?
O livro interessou-me, em
particular, pelo interesse de DeLillo pela física. Será que o cataclismo veio
do espaço? Martin, uma voz do autor, está obcecado por Einstein: andou a ler O
Manuscrito da Teoria da Relatividade de 1912, um resumo da teoria da
relatividade restrita que Einstein escreveu nesse ano. Começa, por isso, por falar
dessas rupturas do espaço-tempo que são os buracos negros. Refere um telescópio
no centro-norte do Chile que tem por objectivo mapear todo o céu visível que
está hoje em construção para ser inaugurado em 2022. Mas tudo isso são
mistérios.
O professor de Física declara
mais à frente: “Ninguém lhe quer chamar Terceira Guerra Mundial, mas é disso
que se trata”. O livro abre precisamente com uma frase de Einstein sobre essa
guerra: “Não sei com que armas se irá travar a Terceira Guerra Mundial, mas sei
que a Quarta Guerra Mundial se irá travar com paus e pedras”. Há muitas frases apócrifas
de Einstein a circular na Net. O meu “polígrafo” é o livro The Ultimate Quotable
Einstein (Princeton University Press, 2011): Uma frase semelhante foi, de
facto, dita por Einstein numa entrevista que deu perto do fim da vida, mas o
dito já circulava nessa época da guerra fria.
A tradução de Paulo Faria, que já
tinha traduzido seis outros romances de DeLillo, pareceu-me bem feita, embora
tenha falhas em termos científicos. Por exemplo diz-se “teoria da relatividade
restrita” e não “teoria especial da relatividade”. Diz-se “teorema da adição
das velocidades” e não “teorema adicional das velocidades”. Quase no fim, onde
está “Teoria Especial, datada de 2012”, fiquei sem perceber se há um erro do
autor, pois essa teoria é, de facto, de 1905.
Mas o livro não é sobre a
ciência, mas sobre o medo. Neste aparente fim do mundo, as pessoas falam de religião
(Einstein é mais uma vez citado, por ter referido a “figura luminosa” de Jesus).
Falam de experiências que tiveram, como uma visita às igrejas e palazzi de Roma. E pensam em
experiências que não tiveram, como é patente num flirt entre a professora
e o ex-aluno.
Terá o apagão uma origem
terrestre, por exemplo uma sabotagem da Internet? O normal para um americano é
culpar os chineses. Diz Martin: “Pode ser que um algoritmo tenha tomado as
rédeas. Os Chineses. Os Chineses veem o Super Bowl. Jogam futebol americano. Os
Beijing Barbarians. Juro que não estou a gozar. Quem faz figura de urso somos
nós, eles desencadearam um apocalipse selectivo da Internet. Estão a ver o jogo
e nós não.” Seja lá o que for as pessoas sentem-se órfãs da ciência e da
tecnologia. Diz Diane, em diálogo com Martin: “Todas as pessoas de olhos
pregados no ecrã ou sentadas como nós, perplexas, abandonadas pela ciência,
pela tecnologia, pelo bom senso”.
Uma funcionária do hospital que
atende Jim e Tessa expressa a vox populi: “Uma coisa vos digo. Seja lá o
que for que se passa, esmagou a nossa tecnologia. O mundo em si parece-me desactualizado,
perdido no espaço. Onde está o voto de confiança na fiabilidade dos nossos dispositivos
seguros, das nossas capacidades de encriptação, dos nossos tweets, trolls e bots?“ E
dá conta do seu medo: ”Gosto muito deste meu cubículo, mas não quero morrer
aqui.”
Por sua vez, Tessa profere um
monólogo filosófico: “Então e se nós não formos o que pensamos ser? E se o mundo
é aquele que conhecemos e estiver a ser completamente reorganizado no preciso
momento em que estamos aqui parados, a olhar, ou sentados, a conversar?”. E,
noutro passo, perguntando sempre: “O que nos está a acontecer? Quem nos está a
fazer isto? Os nossos cérebros terão sido remasterizados digitalmente? Seremos
uma experiência que, quis o acaso, está a correr muito mal, um esquema posto em
marcha por forças fora do alcance da nossa compreensão? Não é a primeira vez
que alguém faz estas perguntas. Os cientistas disseram coisas, escreveram coisas,
os físicos, os filósofos.”
Martin remata no fim: “O mundo é
tudo. O indivíduo não é nada. Será que todos entendemos isto?”
quinta-feira, 21 de janeiro de 2021
PARA GRANDES MALES, GRANDES REMÉDIOS
"Estimado Senhor Professor Diniz Freitas:
A minha gratidão pela luta hercúlea que tem levado a efeito contra um vírus letal que se acantonou, até agora, num "bunker" inexpugnável em que as fracas forças políticas nacionais se deixam ir atrás dos acontecimentos em vez de de se lhes antecipar promovendo uma espécie de guerra de Solnado que avisa o vírus sobre as medidas que irão ser tomadas só lhes faltando pedir, reverentemente, autorização depois de consultar com a lupa de SherloK Holmes os pontos e as vírgulas da Constituição Portuguesa que não foi elaborada, ao que me atrevo a pensar, por uma espécie de autor de horóscopo de jornal que se tivesse antecipado aos acontecimentos!
Bem sei, por formação cívica, ser muito criticável fazer queixinhas do tipo de menino de escola primária. É bem certo! Mas ter contemplações perante energúmenos que fazem das nossas ruas locais de passeio dominical de contaminação do seu semelhante exige que cada um de nós ajude as forças de segurança pública em situação de calamidade nacional denunciando, embora situação execrável em condição normal, quem não usa máscara na rua como ainda hoje vi de passagem na televisão portuguesa.
Suponhamos, por hipótese, vermos um indivíduo de isqueiro na mão a incendiar uma mata? Para não nos tornarmos denunciantes não deveremos denunciá-lo chamando pelos bombeiros? Situações anormais devem exigir medidas anormais sem perder temo a discutir articulados legais, ainda que constitucionais, ponto por ponto, vírgula por vírgula, enquanto o fogo devora a floresta que é este país a que ainda chamamos Portugal com os seus nacionais dentro das suas fronteiras históricas? Esta, a questão!"
UMA REFLEXÃO EM TORNO DO AFECTO
quarta-feira, 20 de janeiro de 2021
Sobre o (polémico) cânone literário - 2
"O assalto aos estudos humanísticos e a politização do ensino superior O desmantelamento do curriculum em nome de agendas políticas prejudica as próprias democracias, que deixam de ver respeitadas quer a liberdade cultural e artística, quer a independência das instituições de ensino superior.The Wall Street Journal informou recentemente que uma escola secundária pública no Massachusetts tinha retirado Homero do currículo, dando ocasião a que uma professora, Heather Levine, exprimisse a sua satisfação: “Muito orgulho em dizer que a Odisseia foi retirada do currículo este ano!”.
Homero é um dos maiores monumenta do nosso passado. Não há área da criação humana, desde a poesia à retórica, desde a música à religião e às artes, desde a geografia à filosofia política, que não tenha recebido inspiração inicial dos heróis homéricos. No princípio era Homero… A tristemente célebre professora Levine não é caso isolado. Como reconhece a autora da peça no WSJ, está há muito em marcha um programa para substituir o que se lê na escola.
O que acontece é que as redes sociais, mais propícias à retórica da emoção do que à da razão, intensificaram aleatoriamente o potencial daquele programa. Foi o que aconteceu com o movimento #Disrupttexts, que entrou no Twitter em janeiro de 2020 para “reconstruir o cânone literário numa perspectiva de crítica literária antirracista e anti discriminatória” e “criar um curriculum mais inclusivo…” ou seja, para combater o cânone literário tradicional, tido como instrumento de repressão.
Se o cânone, que o próprio Harold Bloom defendeu, pretendia transmitir às gerações o melhor do que já foi pensado, escrito e representado, para os arautos da “revolução permanente” imposta pelo marxismo cultural, qualquer juízo de valor (implícito na escolha de ‘o melhor’) é visto como suspeito – a menos que resulte na acusação da cultura ocidental, branca, europeia, cristã e machista. Estabelecer um cânone fere os princípios democráticos.
Assim, o cânone dito inclusivo exprime-se no repúdio de tudo quanto as humanidades tradicionalmente defenderam; projecta-se em programas voltados para a Pop Culture, em detrimento da impopularmente chamada alta cultura. Pretende, aliás, apagar a distinção qualitativa entre alta cultura e Pop Culture. Termos como humanismo e busca desinteressada da verdade afiguram-se esvaziados de sentido.
Em lugar de Homero ou Virgílio, os estudantes de Pop Culture ocupar-se-iam da análise de videoclips da Madonna. E por fim, abandonar-se-ia o estudo das grandes obras da tradição ocidental para dar atenção a materiais secundários, de importância intelectual duvidosa – desde que ao serviço de certos objectivos políticos. O fenómeno não é novo: Roger Kimball descreveu-o em 1990 num livro famoso sobre Radicais nas Universidades (Tenured radicals: how politics has corrupted our higher education. Harper Collins Publishers) em que mostrou, com muita propriedade, como já então o debate académico reduzia todas as dimensões do homem e da cultura às “relações de poder” e ao “conflito de interesses”, ou seja, à política (...).
Ninguém nega que Literatura e Filosofia tratem de política; mas podemos reduzir a sua essência à política? Só uma visão politizada da educação e uma visão da universidade como palco de acção político-partidária permitem que o curriculum seja redefinido de acordo com as especificidades dos interesses de “raça, classe e género” – a nova versão do marxismo intelectual ou ecletismo de esquerda. Enquanto novos intelectuais denunciam a “hegemonia” da cultura ocidental, acusada de sexista, racista, reacionária e passivamente reverente, vemos a Escola abraçar ideologias intelectuais da moda, e a educação superior submeter-se a imperativos políticos. Diante do triunfo de radicalismos feministas, com a sua obsessão pela dominação masculina e pelo ‘género’ como categoria fundamental de análise literária, não é a Literatura que soçobra?
“A ideia de que o curriculum deva ser alterado de acordo com qualquer propósito partidário é uma perversão do ideal da universidade”, escreveu o filósofo de Berkeley John Searle, um dos maiores filósofos contemporâneos (The New York Review, 1991). “O objectivo de converter o curriculum em instrumento de transformação social (de esquerda, de direita, de centro ou o que seja) é o exacto oposto do ensino superior”.
Dir-se-ia que, para a agenda política das Universidades, ensinar não é transmitir conhecimento, mas apenas gerar insatisfação. De facto, quanto mais cresce a politização das humanidades, mais cresce a ignorância do legado humanista. Mas os perdedores serão, em primeiro lugar, os alunos. O desmantelamento do curriculum em nome de agendas políticas é uma medida tirânica que os priva do melhor que foi pensado e dito. Com o tempo, ficarão as Universidades a perder, pois os alunos hão-de um dia descobrir que estas nada lhes ofereceram a não ser “treinamento ideológico, cultura pop e jogos herméticos de palavras” (Kimball, p. 31). E em última instância perdem as democracias, que deixam de ver garantida não só a liberdade da actividade cultural e artística, como até a própria independência das instituições de ensino superior.
Veja-se o cancelamento neo-inquisitorial de contas de Twitter, Facebook, Youtube (a nova praça pública), de utilizadores dissidentes do mainstream. Esse atentado à liberdade de expressão não será já um fruto maduro do treinamento ideológico operado pelas Universidades?"
APROVEITAR O CONFINAMENTO?
Publicamos com muito gosto um texto acabado de receber de Eugénio Lisboa, ensaísta e poeta que tem colaborado neste blogue, onde faz o elogio do seu gato (na foto o autor com um seu felino anterior ao actual):
Pascal sabia
Física, sabia Matemática, deixou um notável livro de pensamentos e um polémico
e saboroso livro de cartas provinciais, além de se deixar arrastar para
congeminações teológicas (ninguém é perfeito: ninguém foi intelectualmente
maior do que Newton, o que o não impediu de desperdiçar tempo com a alquimia e
com a Bíblia). Foi também Pascal quem
disse, por exemplo, esta coisa preciosa, que parece ter sido escrita para
benefício dos que atravessam este período sombrio e altamente mortífero: “É
preciso fazer um bom uso das doenças”, o que pode ser entendido, de modo mais
lato, como devendo aproveitar-se, positivamente, mesmo situações muito
negativas. Quando estamos doentes – ou, como agora, confinados, o que é uma
espécie de “doença” – temos, em muitos casos, bastante tempo à nossa
disposição, para meditarmos, lermos, escrevermos, ouvirmos música (os que dela
gostem) e até para convivermos com amigos e familiares, pela internet ou pelo
telefone.
Mas será
mesmo assim? Poderemos aproveitar, assim tão completamente, esse tempo “disponível”?
A minha experiência pessoal (pode ser que seja muito particular, mas é a
minha), de pessoa com idade avantajada e tendo em casa, como única companhia, a
minha gatinha Ísis, fez-me questionar muito seriamente o mito da produtividade
do confinamento. Tanto que nem sequer sei se terminarei este texto que comecei
agora a escrever. Eu explico (se conseguir).
Ter-se um
gato, como companhia, o dia inteiro, é um presente dos deuses. O grande Dickens
sabia isso, quando afirmava que “there is no greater gift than the love of a
cat”. O gato é um animal bonito, elegantíssimo, inteligente e extremamente
inventivo. Está sempre a ter ideias, embora muitas delas francamente
turbulentas e algo destrutivas. E, ao contrário do que dizem os ignorantes (que
nunca tiveram gatos ou os tiveram e não lhes prestaram a devida atenção), o
gato, se bem tratado e acarinhado, torna-se não só nosso amigo, como se torna
até um amigo fiel e assíduo, sendo de opinião que é mal empregado todo o tempo
que lhe não dediquemos, embora ele necessite de algum tempo para retiro,
meditação e soneca. De facto, ele só não está connosco, quando DECIDE que tem,
ELE, de fazer coisas mais importantes, como, por exemplo, partir um prato ou um
copo ou um bonito objecto de arte que seja frágil e esteja mesmo a pedi-las.
Ou, como já dissemos, dormir. Um gato pode ser muito nosso amigo, mas recusará
terminantemente ser nosso escravo: o seu orgulho felino nunca lhe permitiria
esse abaixamento, que ele vê, com desprezo, praticado pelo cão, nunca elevado
ao estatuto de deus, pelos egípcios. Mas não lhe passa pela cabeça que os
humanos tenham o mesmo comportamento orgulhoso. Quando lhe apetece – ao gato –
saltar-nos para o colo ou para as costas, dificilmente aceita que recusemos.
Ele SABE quando quer estar sozinho, mas não aceita que nós queiramos estar
sozinhos, quando a ELE lhe APETECE estar connosco. Isto pode parecer estranho a
um humano, mas o gato percebe-o perfeitamente. O homem foi feito para servir o
gato e não o gato para servir o homem: um deus manda e não é mandado! Isto está
inscrito no ADN dos felinos de salão.
Agora, um
exemplo: a minha gatinha, de pelo preto e branco, cores distribuídas pelo seu
corpo, segundo padrões que deixavam embevecidos os contemporâneos da Rainha
Vitória, não se importa nada que eu oiça música, mostrando até um interesse
cativante por um quinteto de Mozart ou por uma qualquer peça de Haydn, de
Beethoven (desde que não seja o primeiro andamento da quinta sinfonia, nunca
percebi porquê, até porque aguenta perfeitamente a nona, mesmo com o
estardalhaço dos corais), de Schubert ou de Chopin. Nunca experimentei Wagner,
por temer o pior (já me partiu um número suficiente de objectos que eu muito
estimava). Também tolera, moderadamente, que eu leia, desde que, de vez em
quando, interrompa a leitura, para lhe dizer quanto gosto dela e quanto ela é,
para mim, mais importante do que Os
Irmãos Karamazov. Mas há uma coisa que ela, decididamente, não suporta: é
que eu ESCREVA! Aí, perde completamente os pedais. Quando me sento num sofá e
abro um bloco com linhas, em cima do tabuleiro colocado em cima das minhas
pernas e me preparo para uma boa tarde de escrita, ela, esteja em que ponto da
casa estiver, apercebe-se misteriosamente do meu acto sacrílego – ESCREVER! – e
surge na sala em que me encontro, a correr em quinta velocidade, salta para
cima do tabuleiro, deita-se, em cheio, em cima do que estou a escrever e
olha-me com ar desafiante, de quem diz: “Esquece o que estavas para aí a
rabiscar. Vim para ficar!”
Agora,
pergunto: que fazer, numa situação destas? A resposta imediata do ignoramus
seria correr com o gato e retomar a escrita. Mas, quem todo o dia ouve o seu
afectuoso gato recordar-lhe que, no tempo dos faraós, ELE tinha o estatuto de
um deus e como tal era venerado, só lhe resta vergar-se e ajudá-lo a recuperar
a eminência perdida. Sim, porque os apelos do bichano são tão pungentes que,
diante deles, pergunta-se: QUE FAZER? (assim perguntava Lenine, num livro
célebre, mas com assunto de bem menor importância do que o estatuto do gato!)
Fica-se dilacerantemente perplexo. Sim, que vale um poema (mesmo sublime e
longo), um romance, um ensaio ou um verbete de um diário, comparados com o amor
de um gato? Se Camões gostasse de gatos e tivesse um gato, quando naufragou, na
foz do Mecom, que acham Vocês que ele salvaria: o gato ou os Lusíadas? Qualquer genuíno amante de
gatos conhece a resposta. Por mim, sacrifico sempre a escrita ao afecto de um
gato. Não troco esse afecto por nenhum pífio triunfo literário. Posso mesmo
afirmar, com orgulho, que os meus três últimos felinos – Jim, Secotine e Ísis –
contribuíram decisivamente para diminuir a dimensão da minha bibliografia
activa. Mas que importância tem isso?
Que vale a mais aparatosa bibliografia, em face do elegante esplendor de
um gato?
P. S.
confirmativo: escrever o pequeno texto acima consumiu-me, devido à presença da
Ísis, o triplo do tempo que me levaria a fazê-lo, se ela não estivesse
presente.
Eugénio Lisboa
Educar para quê?
"A educação não nos faz felizes. Nem a liberdade. Não ficamos felizes apenas por sermos livres, se o formos... ou porque tivemos uma educação, se a tivermos.
Mas porque a educação pode ser o meio através do qual compreendemos que somos felizes. Abre-nos os ouvidos, os olhos. Diz-nos onde os prazeres se ocultam.
Convence-nos de que existe apenas uma liberdade... verdadeiramente importante. A intelectual.
E dá-nos a segurança, a confiança para podermos trilhar o caminho que a nossa mente educada nos oferece."
PORTUGAL, PAÍS COM LEIS POR CUMPRIR EM HORA DE VERDADEIRA CALAMIDADE PÚBLICA
“Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais do que uma vida ou a alegria em tê-la” (Jorge Sena).
Contava-se em tempos, haver
uma povoação com uma ponte sobre um rio que tinha um cartaz a dizer: “Cuidado
não se debruce porque é muito perigoso!” Por o fruto proibido ser o mais
apetecível, algumas pessoas que por lá passavam debruçavam-se, caiam ao rio e
morriam!
Preocupado com a situação, o
regedor teve uma ideia peregrina. Em substituição do cartaz anterior colocou um
outro com os seguintes dizeres: “Embora perigoso, podem debruçar-se!” Remédio
santo, nunca mais ninguém se debruçou sobre a ponte!
Esta história, verídica ou
não, define bem a falta de civismo do povo
em obedecer a determinações superiores.
A falta de civismo chegou a ponto de, segundo um autarca de Barcelos, haver
pessoas que alugam cães só para sair à rua! Desde que foi exigido um confinamento mais
rigoroso, assistiu-se, dias atrás em dia de sol, a milhares de pessoas a
passear nas ruas e nas praias, tendo ele efeitos quase nulos por só ter “diminuído
em 10 % a circulação das pessoas” (“Executive Digest”). Todos os dias aparecem confinamentos
sem efeitos positivos porque impostos a desoras e não cumpridos na hora!
Moral da história: não basta
proibir. É imprescindível criar condições para que a lei seja cumprida. Tanto
assim é que leis contra a corrupção, por si só, não diminuem a corrupção, por
os corruptos verem as leis a não serem cumpridas sem nada acontecer por acabarem, por vezes, os delitos por prescrever. Nesta situação, é a economia
do país a ser atingida e os pobres dos contribuintes a sofrerem as consequências.
Mas na pandemia do coronavírus, é bem mais grave por serem um sem número de vidas
humanas que estão em risco de vida!
A solução não me parece serem as autoridades apenas dispersarem as
reuniões, à porta fechada ou na rua, para os seus participantes voltarem a reunir-se em outros locais. Mas as
forças da ordem, por exemplo, Polícia e GNR, exigirem a identificação dessas pessoas para que as
provas se processem na hora e “in loco”; e sejam tanto maiores as
penalizações consoante haja reincidências ou não!
E nada de desculpas, a
exemplo do não adiamento de eleições para a Presidência da República defendido
por Marcelo Rebelo de Sousa por atentar contra a Constituição Portuguesa. O estado de calamidade que o país vive exige medidas
de excepção numa altura denunciada premonitoriamente por Ortega Y Gasset: “Num mundo
que se sente perdido na sua própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais
técnica do que nunca, afinal de contas, o mundo actual vai, como o mais infeliz
que tenha havido, puramente à deriva”.
“Post scriptum”: Na Roma antiga dizia-se “panem et circenses” (pão e jogos de circo), em Portugal coetâneo assiste-se às televisões a ocuparem mais tempo com os jogos de futebol, seus resultados e previsões, transferências de jogadores, etc., do que ao momento de verdadeira tragédia de vidas por colapso dos cuidados de saúde motivados por carências económicas ou procrastinação de medidas a tomar atempadamente.
terça-feira, 19 de janeiro de 2021
Discurso do Presidente da Uganda ao seu Povo
Subscrito pelo meu amigo Sousa Costa, li este texto que partilho com os políticos portugueses na esperança que o leiam e dele tirem as ilações devidas que os ponham a coberto das asneiras por si cometidas neste pedaço de terra que se chama Portugal.
"ESTE É O MELHOR E MAIS INTELIGENTE DISCURSO PÚBLICO
segunda-feira, 18 de janeiro de 2021
DEIXAR VIVER E DEIXAR MORRER
Acabo de ler no "Observador", em notícia de hoje, este testemunho de João Gouveia, presidente da Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional de Medicina Intensiva : "Temos de escolher doentes a partir da próxima semana".
Assumam a vossa responsabilidade senhores políticos vacinando rapidamente a população sem excepção para que só não seja, ao que se diz, a candidata à Presidência da República Ana Gomes a estar vacinada por ter mandado vir a sua vacina de França sem ser no bico de uma cegonha! E o resto dos políticos (se é que ainda haja algum por vacinar?), quantos estão já vacinados? Entretanto, os pobres e deserdados vivem numa espécie de tômbola à espera de morrerem por não estarem vacinados.
Com este título publiquei, aqui no "De Rerum Natura",o meu post que ora republico com o título supracitado (09/11/2020):
"A consciência é a memória inserida no tempo" (Fernando Pessoa).
Extraordinário testemunho do médico Dr. Manuel Damas (09/11/2020) que confronta a consciência cívica, o desempenho profissional e a ética médica da sua profissão com a decisão do Governo Socialista em poder vir tirar a vida a doentes em cuidados intensivos de tratamento ao corona vírus, pouco tempos depois deter sido rejeitada a eutanásia em Portugal!
Suponhamos, por exemplo, o critério de idade desta medida em que, por exemplo, doentes com 65 anos ou mais de idade ,“in extremis”, poderão ser desligados da máquina que os mantém com vida, apesar de “em todas as lágrimas haver uma esperança” (Simon Beauvoir).
Suponhamos, ainda, estarem dois doentes nesta situação: um com 65 anos de idade feitos na véspera da tomada da decisão que tem uma vida de doação de mérito à sociedade e outro com 64 anos com várias penas de prisão por crimes hediondos cometidos. Qual deles deveria ser sacrificado?
Suponhamos, finalmente, que no dia fatídico dessa decisão, posta em mãos médicas, que fizeram o juramento de Hipócrates, um dos doentes tem 65 anos de idade feitos nesse dia e o outro que cumprirá o requisito que o salvará no dia seguinte, a qual deles deveria ser aplicada essa medida que só pode ser gerada em cabeças sem vestígios de consciência de um governo que cumpriria esta norma com a consciência tranquila de um alibi que salvaguardasse a sua inoperância em agir com o à-vontade dos doentes serem títeres de governantes que possam tomar medidas destas com a esperança do beneplácito de portugueses quais ferrenhos adeptos de clubes de futebol que neles continuariam a votar, quer sejam bem ou mal geridos.
A confissão de António Costa, na televisão, de ter havido erros, por parte do Governo a que preside, no combate ao corona vírus não pode deixar morrer solteira a sua culpa e muito menos isentar os governantes das mortes, entretanto, havidas.
E isto já para não falar na manutenção da ministra e directora-geral da Saúde numa evidente manifestação de não estarem à altura da ocasião gerada pelo pandemónio do corona vírus. Pertenci ao número de pessoas a pedir inicial e publicamente as respectivas demissões num país em que as vozes dos cidadãos não chegam ao céu de quem nos governa.
Assim vai um país, sem rumo e sem destino, que passou do punho cerrado sinistro a punho dextro e desmaiou para rosa o vermelho do símbolo dos países comunistas. É, portanto, hora de tomar medidas sérias pensadas e moralizadoras numa altura em que estão à porta as eleições presidenciais e as eleições autárquicas estão perto! Saibam os seus votantes reflectir na hora de votar não tornando o voto num determinado partido num hábito difícil de deixar como fumar, ainda que sabendo o mal que faz à saúde! Em evocação do título de um filme norte-americano: “Este país não é para velhos!
"Post scriptum”: Já chega a ADSE ter retirado a familiares de beneficiários seus o respectivo usufruto não permitindo acumular com reformas de miséria. Algumas não chegam, apesar de para elas, terem sido feitos ou não descontos, isto é, tratando igualmente duas situações diferentes, a metade do salário mínimo nacional.
sábado, 16 de janeiro de 2021
FRONTEIRAS DA CIÊNCIA
Meu artigo no livro Geografias e Poéticas da Fronteira (Iberografias 39) publicado pela Âncora e pelo Centro de Estudos Ibéricos da Guarda:
O
conceito de fronteira começa por se referir a delimitações de países, mas tem óbvias
extensões: fala-se, por exemplo, de fronteiras como limites da descoberta
humana em terra, no mar, ou no espaço. Quando os alpinistas Edmund Hillary e
Tenzing Norgay chegaram ao cume do Evereste em 1953, quando os exploradores
submarinos Jacques Piccard e Don Walsh chegaram ao sítio mais profundo dos mares,
na Fossa das Marianas, no Pacífico, em 1960, ou quando os astronautas Neil Armstrong
e Buzz Aldrin chegaram à Lua em 1969, o ser humano chegou a novas fronteiras. Quando,
em 2013, a sonda da NASA Voyager 1, lançada em 1997, saiu da heliosfera,
cerca de 100 vezes mais longe do Sol do que a Terra, tornando-se o primeiro
engenho humano a aventurar-se no espaço interestelar, alargaram-se as
fronteiras do espaço alcançado por um artefacto tecnológico.
As
fronteiras entre os países aproveitam por vezes configurações naturais, mas,
outras vezes, não passam de convenções desenhadas a régua e esquadro. Quando
são naturais, assumem muitas vezes a forma matemática de fractal, um conceito
introduzido nos anos 80 do século passado pelo matemático francês Benoît Mandelbrot
no seu artigo de 1967 “Quanto mede a costa da Grã-Bretanha?” A resposta depende
do tamanho da régua: aumenta para infinito à medida que a régua diminui para
zero. As fronteiras fractais são muito entrecortadas, têm reentrâncias de
vários tamanhos. As linhas onde a terra acaba e o mar começa exibem uma
simetria de suto-semelhança: parte do rendilhado da costa é semelhante ao todo.
Já a fronteira entre a Terra e o espaço é bastante mais simples: fala-se de “linha
de Karman” para designar o limite a uma altitude de 100 quilómetros onde a
atmosfera é tão pouco densa que podemos dizer que a Terra acaba e o espaço
começa (de facto, não é uma linha, mas uma superfície). Deixamos de estar no domínio
da legislação terrestre para entrar no domínio da legislação espacial.
Podemos
falar não apenas de fronteiras do sistema solar, atravessadas pela Voyager
1, mas também de fronteiras da nossa Galáxia e do nosso grupo de galáxias.
Podemos até, indo muito mais longe, o mais longe que se pode ir, falar da
fronteira do Universo observável, que é uma esfera com cerca de 42 mil milhões
de anos-luz centrada na Terra (porque somos nós os observadores, mas a Terra
não tem nenhum papel especial no cosmos, pois qualquer outro observador noutra
estrela teria, ao olhar em seu redor, o mesmo limite). A luz está a
viajar desde há cerca de 14 mil milhões de anos desde o início do Universo (o Big
bang), pelo que já percorreu 14 mil milhões de anos-luz, mas, como o Universo
está em expansão, a esfera do observável é bem maior. Acreditamos que o
Universo se estende para além do observável, mas não sabemos se é finito ou
infinito. Mas, mesmo que seja finito, tal não significa que tenha fronteiras:
basta pensar numa superfície esférica, que é finita, mas onde um percurso pode
ser ilimitado.
O
conceito de fronteira vai, contudo, mais além do que o dos limites geográficos,
astronómicos ou cosmológicos. Quando falamos de fronteiras da ciência, estamos
a falar dos limites que separam o que se sabe do que não se sabe. Trata-se
neste caso de fronteiras imateriais e não materiais, portanto de uma ampliação
metafórica do conceito original. As fronteiras da ciência são móveis, pela
própria definição de ciência como processo de descoberta do mundo. As
fronteiras da ciência estão a avançar desde que a ciência começou. Hoje sabemos
mais do que ontem. E é legítima a esperança de que este processo continue, de
modo a que amanhã venhamos a saber mais do que hoje. Garcia de Orta escreveu de
forma lapidar no seu livro Colóquio dos Simples (Goa, 1563): “O que não sabemos
hoje amanhã saberemos.” A ciência alimenta-se desta atitude optimista de que há
e haverá mais para descobrir.
O
conhecimento científico está, portanto, em expansão, tal como o Universo que
ele procura descrever, graças à extraordinária capacidade do cérebro humano. Uma
ponte poética entre o cérebro e o espaço foi estabelecida pela americana Emily
Dickinson: “O Cérebro – é mais amplo do que o Céu –/ Pois – colocai-os lado a
lado –/ Um o outro irá conter/ Facilmente – e a Vós – também_–.“ Muitas dúvidas
que hoje persistem vão ser resolvidas pela criatividade humana. Novos territórios
vão ser explorados pois, após a resposta a uma dúvida, costumam logo surgir
outras interrogações. Tudo indica que o conhecimento científico é ilimitado… Esta
ideia de ciência como um empreendimento sem limites transparece do título do
relatório que o engenheiro e administrador americano Vannevar Bush enviou
em 1945 ao presidente Franklin Roosevelt: Science, The Endless Frontier, em
que pedia uma expansão do apoio público à ciência.
Além
do problema dos limites do conhecimento científico propriamente dito, há o
“problema da demarcação” da ciência, que consiste em distinguir entre o que é e
o que não é científico, uma questão do foro da filosofia da ciência. Há muitas
questões para além da ciência, como por exemplo, para além das da filosofia, as
da ética e as da arte. A acção humana, embora possa e deva basear-se no conhecimento
científico, não pode limitar-se à ciência. E a arte, embora possa contactar
fertilmente com a ciência, também é uma dimensão humana não científica. Há outras
formas de conhecimento para além da ciência e também elas parecem ser
ilimitadas.
A MINHA CONFERÊNCIA NA SOCIEDADE DE ESTUDOS DE MOÇAMBIQUE: "EDUCAÇÃO FÍSICA - CIÊNCIA AO SERVIÇO DA SAÚDE PÚBLICA".
A Sociedade de Estudos de Moçambique, “Palmas de Ouro da Academia de Ciências de Lisboa”, foi “ex-libris” científico, literário e cultural desta ex-Província Ultramarina de Portugal.
Foi, extinta
depois de 25 de Abril, ligando-me a ela recordações saudosas e honrosas por aí ter proferido duas conferências e desempenhado
os cargos de presidente da Secção
de Ciências e bibliotecário.
A Sociedade de Estudos de
Moçambique foi criada em 1930 tendo o seu sócio fundador e primeiro presidente,
engenheiro António Joaquim de Freitas, referido como objectivo da sua criação “estabelecer
um convívio intelectual necessário às pessoas que vivem pelo cérebro”.
Uma dessas minhas
conferências supra mencionadas, sob o
título de “Educação Física – Ciência ao Serviço da Saúde Pública”, foi
publicada, em edição da Sociedade de Estudos, tendo merecido do jornal “Diário” (Lourenço Marques, 18/12/73) a notícia
que transcrevo:
“Editada pela Sociedade de
Estudos de Moçambique, acaba de sair do prelo mais uma obra do Dr. Rui Baptista
tratando da problemática da Educação Física.
Trata-se de um opúsculo
contendo o texto da conferência por si proferida, em 16 de Agosto de 1971, na sede daquele organismo .
Rui Baptista é um batalhador
insatisfeito pela causa da sua dama – a Educação Física -, batendo-se pelos seus
problemas em todos os sectores, sem evitar a polémica que pretende ser
construtiva.
Esta obra vem dar mais uma
achega e um importante suporte da vida moçambicana, mormente nos dias que
correm – a Educação Física. Trata-se de mais um marco a merecer o caminho que o
autor vem construindo na estrada nem sempre fácil mas que achou por bem
escolher”.
As duas fotografias que ora publico, uma
refere-se ao decurso da minha conferência, outra da respectiva assistência.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2021
FRANCIS, O MACHO QUE FALA
“A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em todos os lados, diagnosticá-los incorrectamente e aplicar as piores soluções” (Groucho Marx).
Década de 60 do século passado, era projectado nas telas dos cinemas nacionais o filme norte-americano “Francis, o macho que fala”. À época, pertencia à minha tertúlia de mesa de café um indivíduo, com pronunciado prognatismo (vulgo, queixada) que nós tratávamos por Francis por, para além da queixada de burro, gostar de falar difícil, com a jactância da ignorância, sobre tudo e sobre nada.
Relembro esse facto por ouvir hoje perorar, constantemente, na televisão portuguesa, “iluminados” das mais variadas procedências, pagos a peso de ouro, ou por simples e vã vaidade, a debitarem opiniões sobre a actual pandemia como se a crise que vivemos, e que aumenta letalmente, de dia para dia, em número de infectados e mortos pelo coronavírus, se tratasse de uma questão meramente política debatível, "ad nauseam", à mesa de café, quiçá, por Aristóteles ter pontificado que “o homem é um animal político”. Mas não! Trata-se, na sua génese, de uma verdadeira tragédia de atentados criminosos contra a Saúde Pública a exigir a intervenção dos tribunais e de forças policiais de que a televisão, em hora de pesadelo, deu hoje o relato de uma festa de atrasados mentais, ou mesmo assassinos, com muita gente a bailar, a beber, a comer, em ambiente fechado realizada na Cidade Invicta.
Registei o facto relatado
com ligeireza por não ter sido
completado com as medidas tomadas pelas forças da ordem pública contra estes
irresponsáveis: limitaram-se, essas autoridades, porventura, a passarem multas
simbólicas ou a “gentilmente” convidarem os participantes a darem por terminada
a festança?
Como é consabido, em
televisão os minutos contam por horas porque uma imagem vale por mil palavras. Seja como for, insisto na
pergunta: o que sucedeu aos seus promotores? Ficaram os seus responsáveis directos
em prisão para servirem de
exemplo a casos que se possam vir a repetir?
Em tempo de guerra não se limpam armas: há que pô-las ao serviço do bem público,
tomando medidas “a priori” e não “a posteriori”. Acabe-se com personagens que são pagas para aparecerem na televisão como emplastros, a exemplo daquele “tiffosi”
do futebol clube Porto, que tudo faz para aparecer nas fotos das respectivas
comemorações!
Não será mais do que hora nomear uma comissão de
políticos dos vários partidos com lugar na assembleia do povo que se responsabilizem
por uma tomada enérgica e rápida de
medidas efectivas e concertadas, em vez de andarem a discutir, como se fosse
uma questão de “lesa pátria”, se se deve
ou não adiar as eleições num tempo em que as sondagens são favoráveis a Marcelo
Rebelo de Sousa e ao Partido Socialista. Ou seja, interesses pessoais ou partidários
não se devem sobrepor a exigências da grei na hora que passa!
A sobrevivência dos portugueses, através de
uma vacinação em massa, não pode nem deve ser preterida pela discussão de
prioridades da população a vacinar – a propósito, dias atrás li um notícia, cito
de memória, que dava conta que na Polónia já estava vacinada 14.1 da população e em Portugal apenas 1.4 %! Esta forma de procrastinação impõe que
se acabe com ela por não se perspectivar no horizonte um homem da estirpe do
Marquês de Pombal que, aquando do Terramoto de 1755, tomou a peito tratar dos vivos e enterrar os mortos. A
continuar na senda actual a palavra de ordem parece ser enterrem-se os mortos e
quando não houver lugar nos cemitérios palmos de terra suficientes lancem-se em
valas comuns ou incinerem-se os seus cadáveres!
Por Deus, acabe-se com comunicações,
ou simples “briefings”, de políticos a tentar, numa espécie de quadratura do
círculo, como tal debalde, explicar ao povo o inexplicável de não terem
sido tomadas medidas preventivas e atempadas
que deveriam ter sido levadas a efeito durante as Festas do Avante, o Natal e o Ano Novo. E não foram! Mas não se
esqueçam de, pelo menos, tratar dos vivos vacinando-os a tempo e horas!
No meu salutar hábito de citar Eça,
figura ímpar da nossa literatura que escreveu, em “As Farpas”, de parceria com
a Ramalhal figura em combate contra os maus costumes políticos e sociais do
século XIX, que a estupidez humana tinha cabeça de touro, aqui deixo, mais uma citação: “Achais estas páginas
cruéis? Pensais que não nos dói tanto
escrevê-las com a vós dói lê-las? Pensais que é com o espírito
alegre , e a pena ao vento, que levantamos um por um , diante do público os farrapos da vossa decadência?”
Excelentíssimos senhores governantes deste país: Lede e relede Eça para que a ignorância não vos tolde o raciocínio numa hora de grande e grave desesperança nacional que exige uma rija têmpera e honestidade dos que tomarão em mãos ávidas, em eleições que se avizinham, o leme do destino da grande e histórica nau lusitana. Mas, se é que existem, onde pairam eles? Será o Professor Adriano Moreira, afastado da política activa pela sua idade avançada, o único sobrevivente sem continuidade?Temo bem que sim!
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