sábado, 18 de fevereiro de 2023

Ainda que eu não tenha mais caminho

Ainda que eu não tenha mais caminho,

Podes dizer que me amas para ti.

Ainda que sempre esteja sozinho,

Podes dizer que me amas só a mim.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

O OLVIDO

O olvido. Inevitável. Absoluto.
Camilo Pessanha. 
Clepsidra 

O olvido é o que nos espera.
Inevitável, como é a morte.
Absoluto, como lisinha esfera.
Servindo, ao nada, de passaporte.

O olvido torna todos iguais:
iguais entre si e iguais ao nada.
Igualdade almejada pelos mais, 
pra quem a diferença era odiada.

O olvido, afinal, tudo alisa,
numa autêntica democracia:
no nada, já ninguém se encoleriza,

porque o nada a todos beneficia:
tanto vale aquele que foi a Pisa,
como aquele que não conseguiu Elisa!

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Thaisa Storchi Bergmann - Buracos Negros

NOVOS CASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Portugaliae Monumenta Neolatina” [texto latino, tradução e comentário]

- António Guimarães Pinto & Jorge A. R. Paiva, Pietro Andrea Mattioli. Defesa contra o português Amatho. Fixação do texto latino, introdução, tradução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2023) 382 p. DOI:  https://doi.org/10.14195/978-989-26-2287-3

[Em 1553, Amato Lusitano publicou, em Veneza, as suas celebradas In Dioscoridis enarrationes, nas quais algumas alusões e críticas, em tom urbano e comedido, esparzidas ao longo do texto e tendo em mira o notável médico e botânico Pietro Andrea Mattioli, suscitaram neste uma violenta reação, de que a mostra mais palpável é o livro Defesa contra Amatho Lusitano, objeto desta publicação, saído a lume em volume não-paginado, autónomo, também em Veneza, ex oficina Erasmiana Vincentij Valgrisij, & Balthassar Costantini, no ano de 1558.]

Série “Humanitas - Supplementum” [estudos]

- Fernando Rodrigues Junior, Rainer Guggenberger & Breno Battistin Sebastiani (Coords.), A produção dramática no Período Helenístico e sua influência na literatura Greco-Latina Posterior (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2023). 297 p.DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2394-8

[Os textos reunidos neste livro foram apresentados na Sexta Semana de Estudos sobre o Período Helenístico: a Produção Dramática no Período Helenístico e sua Influência na Literatura Greco-Latina Posterior, realizada na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, entre os dias 10 e 11 de março de 2020, e na Primeira Jornada de Estudos sobre o Período Helenístico: a Poesia Dramática, realizada na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre os dias 12 e 13 de abril de 2021. Ambos os eventos estão vinculados ao grupo de pesquisa Hellenistica, fundado em 2011 na Universidade de São Paulo com o objetivo de organizar periodicamente eventos voltados ao estudo da literatura do período helenístico, reunindo estudiosos brasileiros e estrangeiros que atuam nessa área.]

Depois do Mar

Depois do mar,

Do sol e do corpo.

Depois de ti,

O caminho, o arco-íris

Depois do rosto.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

DIA 16/2, 18H, LIVRARIA ALMEDINA ESTÁDIO: DE ANGELIS VEM A COIMBRA APRESENTAR O SEU «GALILEU EM PÁDUA»


 

Carlos Fiolhais, director da colecção «Ciência Aberta» apresentará o autor com a presença do editor. 

JOSÉ PACHECO PEREIRA

Por Eugénio Lisboa 
À medida que avançamos 
na vida, apercebemo-nos
de que a coragem mais rara 
é a coragem de pensar. 
Anatole France.
La Vie Littéraire

A Sociedade Portuguesa de Autores acaba de atribuir o Prémio VIDA E OBRA a José Pacheco Pereira. Dificilmente poderia ter escolhido melhor. José Pacheco Pereira situa-se naquela nobre linhagem de clercs que, como o Padre António Vieira, Alexandre Herculano, Raul Proença, António Sérgio ou Jaime Cortesão, souberam gerir a nobre missão de serem incómodos. 

A melhor maneira de ser incómodo é não ter medo de pensar e, depois, dizer sempre o que se pensa. Coisa raríssima, querer pensar: Huxley observava escarninhamente, que pensar é a excepção à regra de não pensar. 

Mas não chega pensar: quando o pensamento pode incomodar muita gente, há duas escolas de pensamento, uma mete a viola no saco ou diz o que não pensa, a outra diz mesmo o que pensa, venha a tempestade que vier.

No nosso milieu intelectual, abundam sobretudo os que fazem cálculos de interesses e futurologias de cargos e sinecuras. Antes de porem cá fora o que pensaram, calculam os custos e quase sempre concluem que são demasiado elevados. Os outros – um número muito reduzido – decidem que tem melhor estética ser destemido e que, além disso, como observava Shaw, ninguém se diverte tanto como a pessoa que diz o que pensa: é só ver o ar atabalhoado dos que assistem ao exercício. 

José Pacheco Pereira, armado de uma grande cultura (não só política) e de uma intrepidez à prova de bala, quando fala, escreve ou actua, deixa-nos sempre a grata impressão de pertencer a um único Partido: o da Inteireza do pensar e do “franc parler” que Stendhal tanto estimava. É pois parte integrante do melhor que o nosso património cultural tem para legar aos vindouros. Assim seja e bem haja. 

Eugénio Lisboa

E TUDO O VENTO LEVOU

A acção de ventos, águas, tornados,
terramotos e guerras assassinas, 
retaliações de deuses irados,
ou gula grande de carnificinas

de tiranos fabricados em coitos
nocturnos e sulfúricos, de bruxas,
todos eles, infernalmente afoitos,
ao som muito cheio de sacabuxas,

fizeram, da vida, eterna morte,
eterno sono, todo sem memória,
de leste a oeste, de sul a norte:

da História, não ficou qualquer história,
porque tudo, tudo se arrasou,
incluindo o que se registou.

Eugénio Lisboa

domingo, 12 de fevereiro de 2023

DA GRANDE VANTAGEM DE SER TOTALMENTE IGNORANTE

Por Eugénio Lisboa
Quando não tiveres nenhum
fundamento para argumentar,
insulta o teu adversário.
Cícero

O valor da educação tem sido absurdamente exagerado, para não dizer mitificado. A educação funciona ao contrário de certos venenos. Há venenos que, aplicados em pequenas doses, são benéficos para a nossa saúde. Mas, ministrados em grandes doses, são letais. 

Com a educação dá-se o inverso: administrada em doses razoavelmente grandes, é benéfica em várias frentes, mas administrada em doses residuais, é catastrófica. É melhor, para a sociedade, o indivíduo totalmente ignorante do que o indivíduo com um reduzido teor de conhecimento. O ignorante total conhece a humildade. O ignorante com um conhecimento residual, torna-se arrogante e malcriado. 

Costumo dizer que pior do que um ignorante, só um ignorante diplomado. O ignorante diplomado apoia-se somente no seu diploma e falta-lhe a ferramenta que o aguente, numa discussão ou debate. Furioso, recorre ao insulto, como recomendava, ironicamente, Marco Túlio Cícero. Não é bonito mas é humano. 

Infelizmente, ignorantes diplomados é o que mais abunda na nossa sociedade, mesmo entre os da assim proclamada “geração mais preparada de sempre”. É que anda por aí um perigoso equívoco: a referida geração poderá ser a mais diplomada, o que não faz dela necessariamente, a mais preparada. Basta passearmo-nos desenfastiadamente pelas redes sociais, para nos inteirarmos da iliteracia funcional que grassa por aí, quase sempre aliada ao contentismo parolo, à boçalidade mais desprotegida, à incapacidade de pensar com alguma higiene e à total impreparação para a escrita. 

E são estas pessoas, diplomadas mas não preparadas, que vão, um dia, governar este país, porque o “diploma” lhes dá esse direito e essa ambição. São estes diplomados, destituídos de conhecimentos sólidos, de uma mínima capacidade de pensar e armados até aos dentes com “slogans” e “clichés” mal digeridos, que vão “formar” as gerações futuras. 

Perguntava o grande cientista Thomas Henry Huxley, da família extraordinária dos Huxleys (junte-se-lhe Aldous Huxley e Julian Huxley): 
“Se uma pequenina quantidade de conhecimento é perigosa, onde é que se vai encontrar um homem com tanto conhecimento que o livre do perigo?” 
Boa pergunta, com efeito. A origem principal deste desastre deve ir procurar-se, não tanto, nos próprios “ignorantes diplomados”, como no sistema educativo congeminado pelos donos de novos dogmas da educação, tão falsos como destrutivos. Vende-se facilitismo, conforto e “alegria de viver”, em troca de verdadeiro conhecimento que, alegadamente, “faz doer”. 

Parafraseando James Northcote, eu concluiria, dizendo que o nosso sistema educativo está a transformar os seus “clientes”, não em fontes de saber, mas em cisternas de saber. 

Eugénio Lisboa

Parto, como um choupo parte no outono

Parto, como um choupo parte no outono,

Ao encontro da adumbrada nudez,

Onde posso olhar o íntimo do corpo

E adornar-me de esperança outra vez.   




sábado, 11 de fevereiro de 2023

GATOS: ALGUMAS OBSERVAÇÕES

Uma mãe-gata com o seu filhote 
é uma beleza da criação:
é puro Mozart, a escrever a mote 
o que vai ser uma linda canção! 

Um gato é um quinteto de Mozart, 
feito todo, com finura e delícia, 
recheado de engenho e arte
e não escondendo alguma malícia. 

O gato inventou o Leonardo,
para que este o pudesse pintar, 
mas, achando o quadro pouco galhardo,

mandou o Leonardo passear!
O gato tem padrão muito exigente,
o qual ele impõe, absolutamente! 

Eugénio Lisboa

É PRECISO DEIXAR DE ENGANAR OS ALUNOS

Em Dezembro passado, Daniel Arias Aranda, professor da Universidade de Granada, publicou uma carta ao estilo de "carta aberta" - primeiro, numa rede social e, depois, num jornal online (ver aqui e aqui) - com o título provocador: ‘Querido alumno universitario de grado: Te estamos engañando’. Dada a sua grande divulgação na comunidade universitária e fora dela, foi de novo entrevistado (ver aqui). Destaco, desta entrevista, as seguintes ideias:
A mudança a que temos assistido na universidade não pode ser atribuída a um único factor. No entanto, entre os factores mais relevantes estarão os seguintes: distracção nas aulas provocada pela generalização dos dispositivos electrónicos; constante mudança das leis educativas; burocratização do ensino, que influencia a frustração dos professores; descida de nível dos conhecimentos nos ciclos de escolaridade pré-universitários. 
No respeitante a este último é de notar que os alunos chegam à universidade e pensam que é mais do mesmo. Os professores tendem a moldar-se ao seu nível, até porque há exigências de êxito académico.

Também se deve ter em conta a crescente protecção por parte dos pais, de que o fenómeno dos grupos de whatsapp de mães é um exemplo. Nascidos no pós-guerra, não ensinam aos filhos o valor do esforço nem os formam para serem independentes, contribuindo para que se tornem adultos amargados e manipuláveis.

Face a este diagnóstico, que se me afigura bastante realista, há que perguntar: o que deveremos e poderemos fazer para deixar de enganar os alunos?

Estreia de As intermitências da morte - Bonifrates

Informação que nos foi facultada pela Direcção da Cooperativa Bonifrates 


É com todo o gosto que vos informamos da estreia da nossa nova produção, As intermitências da morte, baseada em romance de José Saramago, com adaptação teatral de João Maria André e encenação de João Paulo Janicas, no dia 14 de fevereiro, 3ª feira, pelas 21.30 horas, no Teatro-Estúdio Bonifrates (Casa Municipal da Cultura de Coimbra). 


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

ELOGIO DA ESTUPIDEZ, UM MAL AMADO CONDIMENTO DO ATREVIMENTO

A estupidez é uma vocação,
como é ser médico ou ser padre: 
o estúpido põe muita devoção 
na obtusidade e no seu cadre.  

Há, no estúpido, muita energia  
e uma grande vontade de fazer:  
ele insiste, com grande alegria,  
no que produz, mesmo sem perceber!  
 
A estupidez é uma forma de génio,  
porque é uma grande paciência:  
ela nunca abandona o proscénio  

e transforma a burrice em ciência! 
A estupidez, por nada, desiste  
e torna-se imortal porque insiste! 
 
Eugénio Lisboa  

NOTA: “A genialidade não é senão uma grande aptidão para a paciência”, disse-o Buffon e, depois dele, disseram-no Edison, Santos Dumont e muitos outros. A estupidez é, visto isso, uma das modalidades do génio. De aí o ter desejado consagrar-lhe este merecido elogio.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Uma flor chega para mudar o tempo

Uma flor chega para mudar o tempo

E entrar o sol na ternura do coração.

Uma flor chega para mudar o vento - 

Ter o ar do rosto, a candura da mão.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Descobre-te na avidez do sol vernal

I)

O teu sorriso honesto se espalha.

E o meu sol em todos os abismos

Da tua alma.

II)

Descobre-te na avidez do sol vernal.

Busca os atalhos de mel

Rumo à carícia, ao chão.

Rasga a chama, rasga a pele.

Ama com garra, diz 

Sim ao desabrochamento do coração

E descobre-te na obstinação,

Na avidez da mais ínfima raiz.

III)

Segura o coração.

As mãos do tempo

Iniciam agora

A reconstrução. 


O papel dos OCS na aproximação do público à Ciência | Repórter E2

PREFÁCIO À OBRA SELECTA DE MANUEL SÉRGIO

 


Prefácio ao 1.º volume da Obra Selecta de Manuel Sérgio, que vou lançar amanhã em Lisboa:

Manuel Sérgio (n. 1933) é o sábio construtor de uma ponte entre a Filosofia e a Educação Física, os seus dois domínios de formação, que pareciam estar nos antípodas um do outro. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1977), doutorou-se no Instituto Superior de Educação Física da antiga Universidade Técnica de Lisboa, hoje denominado Faculdade de Motricidade Humana (1986), onde também fez a agregação (1988) e exerceu docência. O feliz cruzamento interdisciplinar que concretizou entre nós passou precisamente por mudar a designação de «Educação Física» para «Ciência da Motricidade Humana». O nome primitivo assentava na premissa cartesiana da separação do corpo e do espírito, ao passo que o novo visava superar a dita divisão uma vez que a motricidade humana, se tem obviamente uma parte corporal, tem também uma outra, não menos relevante, que é eminentemente mental: as duas têm de estar bem articuladas para que o corpo se mova da melhor maneira, por exemplo na prática de uma modalidade desportiva. Mas Ciência da Motricidade Humana não se esgota no desporto: para além dele, engloba a dança, o circo, a ergonomia, a reabilitação, etc. Nada do que é o corpo humano em movimento lhe é estranho. Apesar da novidade do termo e de alguns dos seus conteúdos, mantém-se a máxima do poeta romano Juvenal, dos séculos I e II da era cristã: mens sana in corpore sano.

A carreira académica de Manuel Sérgio está longe de ser a tradicional, pelo menos a avaliar pelos padrões etários da obtenção dos graus académicos. Antes da Universidade propriamente dita, Sérgio andou na Universidade da Vida, a mais exigente de todas. Diz-se que a Universidade prepara para a vida, mas, no caso de Sérgio, foi a vida que o preparou para a Universidade. A sua experiência laboral permitiu-lhe ser um caso raro de self-made thinker, afinal a posição que melhor serve para arrostar modelos culturais arreigados. De origens humildes, entrou muito jovem para funcionário administrativo do Arsenal do Alfeite, pertencente ao Ministério da Marinha, e só anos volvidos se tornou professor de uma Escola Comercial e Industrial e de um colégio nas redondezas de Lisboa. As suas excepcionais qualidades pedagógicas começaram desde essa altura a ficar patentes. Em 1968, entrou profissionalmente no domínio do Desporto, ao iniciar funções de direcção do Centro de Documentação e Informação do Fundo de Fomento do Desporto (pertencente ao Ministério da Educação), que estava instalado no Instituto Nacional de Educação Física, em Lisboa. Uma reportagem da RTP, guardada nos seus arquivos, mas visualizável online, mostra o telegénico Manuel Sérgio, com 37 anos, a mostrar o referido Centro e a convidar treinadores, atletas e jornalistas a visitá-lo. Para além, claro, de alunos, pois aquela escola diplomava professores de Educação Física. Sérgio, imerso naquele repositório de informação cuja leitura decerto o ocupava, nunca mais largaria o desporto, pensando-se e repensando-o. Para Sérgio, o desporto tinha – e tem – de ser continuamente pensado.

Tendo entrado no conhecimento da área do desporto pelo mundo livresco (nunca foi desportista federado), Sérgio já tinha nessa altura experiência de autor. De facto, começou a sua produção literária em 1961, com o livro de poemas Chuva e a poesia haveria de o acompanhar sempre. Foi só em 1974 que publicou os seus primeiros livros sobre desporto, com a chancela da Direcção-Geral dos Desportos, organismo do Ministério da Educação: a sua obra pioneira de reflexão sobre o desporto começou por um título onde a inovação era desde logo manifesta: Para uma Nova Dimensão do Desporto (1974), que junta uma série de artigos que o autor tinha publicado em jornais como A República, O Século e Record (só sobreviveu este título). Um título saído no ano seguinte confirma a sergiana intenção de ruptura da anquilosada redoma em que estava instalado o desporto nacional: Para uma Renovação do Desporto Nacional (1975, com prefácio de Baptista Bastos). E vários títulos seguintes, saídos a bom ritmo, vão na mesma linha: Desporto e Democracia (1976), O Desporto como Prática Filosófica (1977) e A Prática e a Educação Física (1978). Em 1979 foi publicada uma sua notável antologia de textos desportivos da cultura portuguesa: Homo Ludicus (1979, em dois volumes, coorganizados com Noronha Feio). O primeiro volume incluía textos que iam de D. João I a Sílvio Lima, o professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra saneado em 1935 pelo Estado Novo, e o segundo desde o poeta Alexandre O’Neill ao jornalista desportivo Vítor Santos. Fazendo o balanço da produção sergiana no período que se seguiu à Revolução de 1974, desde Sílvio Lima que não se via entre nós um intelectual não só tão interessado pelo fenómeno desportivo como também com conclusões tão argutas sobre ele.

Nos anos de 1980 ficou ainda mais clara a ideia de Manuel Sérgio de que era previso ver a Educação Física e o Desporto por outro prisma: a Motricidade Humana ganhou carta de alforria. Os títulos dos livros da época dão uma boa indicação dos conteúdos, sendo interessante ver as tutelas que procurava ao escolher os prefaciadores: Heróis Olímpicos do Nosso Tempo (1980, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues), Filosofia das Actividades Corporais (1982, com prefácio de José Barata Moura), Ideário e Diário: um Filósofo Reflecte sobre o Desporto (1984, com prefácio de Vítor Santos), Para um Desporto do Futuro (1986), Para uma Epistemologia da Actividade Humana: Prolegómenos a uma Ciência da Motricidade Humana (com prefácio de Melo Barreiros, 1988), decorrente da sua tese de doutoramento, à qual foi buscar o título. Em 1989, decerto com o contributo dessa tese, a Instituto Superior de Educação Física (que era o novo nome desde 1975 do Instituto Nacional de Educação Física) passou a chamar-se Faculdade de Motricidade Humana. Manuel Sérgio deu aulas nas instituições com as três designações, que se foram sucedendo umas às outras. Teve como alunos alguns treinadores que se tornariam celebridades nacionais e internacionais, como José Mourinho.

Nos anos de 1990, a boa safra sergiana prosseguiu com A Pergunta Filosófica e o Desporto (1991), Alguns Olhares sobre o Corpo (1991), Motricidade Humana. Para um Paradigma Emergente (1994), Para uma Teoria Crítica do Desporto (1997), O Sentido e a Acção (1999) e Um Corte Epistemológico: Da Educação Física à Motricidade Humana (1999). «Corte Epistemológico» não será uma expressão exagerada, pois a visão do autor diferia radicalmente da antiga. Na nova escola de Motricidade Humana, não se tratava apenas de educar o «físico», mas de juntar saberes antes dispersos num novo ramo das Ciências Sociais e Humanas. O Desporto não é apenas uma actividade física, é também e principalmente uma actividade social e humana. Como Sérgio gosta de dizer: «Não há jogos, há pessoas que jogam».

Não seria preciso o continuado processo de reiteração das ideias sergianas, por elas entretanto terem vingado, mas as teses de filosofia do Desporto continuaram a ser reiteradas pelo autor: Algumas Teses sobre o Desporto (2001, com prefácio de Francisco Louçã), Para um Novo Paradigma do Saber e… do Ser (2005, com prefácio meu), Textos Insólitos (2008) e Filosofia do Futebol (2009). Filosofia do Futebol? Sim, um dia Manuel Sérgio disse ao seu aluno José Mourinho, futuro special one: «se quer saber alguma coisa de futebol leia livros sobre Ciências Humanas». Com Sérgio, o futebol passou a ser um legítimo tema intelectual. O professor da Faculdade de Motricidade Humana disserta sobre futebol como se este fosse a coisa mais importante do mundo: de facto, para muita gente é.

Seja-me permitida uma nota pessoal, pois conheci o autor há cerca de duas décadas. Ele é uma pessoa extremamente afável, um gentleman, com quem apetece prolongar a conversa. A sua inteligência transparece desde logo no sentido de humor que exibe. E a sua amabilidade, bem expressa nas relações que cultiva, vai a par com a sua inteligência.

Finalmente nos anos de 2010, quando Sérgio, entretanto aposentado, já era um nome consagradíssimo, surgiram Crítica da Razão Desportiva (2012), As Lições do Professor Manuel Sérgio: Motricidade Humana e Futebol (2013), Citius, Altius, Fortius: Olimpismo & Complexidade (2015, com prefácio de Roberto Carneiro), O Futebol e Eu (2015, com prefácio de José Mourinho), Futebol: Ciência e Consciência (2016),  Desporto em Palavras (2016),  Da Ciência à Transcendência: Epistemologia da Motricidade Humana (2019) e Uma Reformulação da Ética e Outros Escritos (2020). Com efeito, «transcendência» é palavra-chave na nova disciplina da Motricidade Humana: o movimento humano deve tender para a superação, para a elevação, para a transcendência. Manuel Sérgio dixit: «Não há educação do físico, mas de pessoas no movimento intencional da transcendência.» De certo modo, é o regresso ao antigo ideal olímpico, em que os atletas vitoriosos se aproximavam do estatuto dos deuses. 

Não tive a pretensão de ser exaustivo na enumeração dos títulos. Eles são mais. As últimas cinco décadas viram surgir um total de mais de quatro dezenas de livros de Manuel Sérgio, aos quais acrescem quase duas dezenas de prefácios para livros de outros (Sérgio é uma pessoa generosa!) e inúmeros artigos para revistas e jornais. Tem sido uma obra monumental, produzida ao mesmo tempo que o autor dava aulas em várias universidades do país e estrangeiro, em particular no Brasil, e fazia conferências convidadas, nas quais gostava de colocar uma pitada de humor («O Descartes não jogava no Benfica» é uma das suas frases mais engraçadas). Sobrou-lhe ainda tempo para ser, entre 1991 e 1995, deputado pelo Partido da Solidariedade Nacional, numa experiência política circunstancial que lhe trouxe notoriedade no grande público.

É, em suma, um autor com uma obra assaz considerável, que tem sido objecto de discussão por vários seguidores e que tem levado a merecido reconhecimento por prémios e distinções. Uma das maiores distinções será a criação da Cátedra Manuel Sérgio sobre «Desporto, Ética e Transcendência» na Universidade Católica. Mas outra é o nome da Escola Básica Professor Manuel Sérgio no Restelo, perto do estádio do seu Belenenses. Se a obra de Sérgio se encontra nas bibliotecas e, embora em pequena parte, nas livrarias, tornava-se mister uma sua súmula que condensasse o melhor da sua produção. O presente conjunto de Obras Selectas, cumpre a muito útil função de extrair o sumo das obras atrás elencadas assim como de alguns artigos em periódicos não compilados em livros e de o dar a beber a quem tiver sede. Uma equipa editorial assaz conhecedora, sob a experiente batuta de José Eduardo Franco, professor de Estudos Globais na Universidade Aberta, reuniu criteriosamente em quatro volumes o essencial do pensamento sergiano. O primeiro volume, coordenado por Gustavo Pires, professor na Faculdade de Motricidade Humana, trata A Ciência da Motricidade Humana. O segundo, coordenado por Gonçalo M. Tavares, um dos escritores mais originais da contemporaneidade e que, como professor na Universidade Nova de Lisboa, é um dos discípulos de Sérgio, intitula-se O Desporto Enquanto Projecto Ético e Político. O terceiro, Filosofia, Corporeidade, Desporto-Cultura, é da responsabilidade de Miguel Real, bem conhecido crítico literário, ensaísta e novelista. Por último, o quarto volume, Poesia Toda, reunindo a totalidade da sua produção poética, é da responsabilidade de Luísa Paolinelli, professora de Literatura Portuguesa na Universidade da Madeira.

Faltava um abrégé que permitisse a todos e quaisquer interessados – e os novos são muito bem-vindos – orientarem-se no corpo denso e fascinante do pensamento de Manuel Sérgio sobre o movimento do homem. Agora já não falta!

 

 

 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Duplas à Portuguesa

Duplas à Portuguesa: Marquês de Pombal e D. José I - O terramoto de 1755 e o atentado a D. José em 1758 bastariam para colocar a dupla na História..., mas toda a sua g

domingo, 5 de fevereiro de 2023

UM LIVRO QUE RECOMENDO SEM PESTANEJAR: "CRÓNICA DE ÁFRICA", de Manuel S. Fonseca

Por Eugénio Lisboa

Há livros que são interessantes. 
Há livros que são instrutivos.
Há livros que são importantes.
Há livros que nos deliciam, porque nos dão uma visão cândida da vida, numa escrita ágil, viva, culta, matreira, inovadora, mas despretensiosa e atraente.
Há livros que nos enriquecem e nos entretêm, ao mesmo tempo, e não têm vergonha de o fazer. Há livros que não gostam de ser chatos e por isso não são chatos.
Há livros que nos falam de lugares que muito bem conhecem e de que outros livros falam sem os conhecer, não sabendo portanto do que falam.
Há livros que, mal acabados de ler, nos apetece logo recomendar urbi et orbi.

Este livro que aqui vos trago – CRÓNICA DE ÁFRICA – é isto tudo e mais alguma coisa em que não reparei. 
É aquilo que um livro deve ser para ser um livro procurado, lido e recomendado.
É um daqueles livros que ensinam o gosto de ler, além de ensinarem um número prodigioso de outras coisas.
É um livro em que o autor diz que teve uma infância e adolescência felizes, em lugares onde é costume as pessoas mentirem, dizendo que foram ali muito infelizes, porque é isso que se DEVE dizer.
É um livro em que o autor consegue não ser reacionário e, ao mesmo tempo, não ser mentiroso.

É um autor a quem a vasta leitura e cultura não entupiram. Que gosta de dizer o que viu, o que fez e o que viveu, sem cuidar muito do que se espera que ele diga, para maior conforto de todos os hipocondríacos da literatura. 

E é o autor de um livro, tão divertido como a TORTILLA FLAT, obra por ele citada com o carinho que temos pelas coisas gostosas. Um autor que viveu com pretos, nos musseques de Luanda (como eu vivi com pretos, no Xipamanine, de Lourenço Marques), que brincou com pretos, de quem ficou amigo (como eu) e que até teve um pai (como eu), que não era racista nem colonialista.

Sim, porque houve gente desta em Angola e Moçambique, como houve muito capitalista, racista e colonialista que viveu confortavelmente em Lisboa, Leiria, Viseu ou Porto, sem nunca ter ido experimentar o cheirinho africano. 

Dizer estas coisas até não costuma render em nenhuma das frentes em que se colectam esses rendimentos. Mas eu gosto de as dizer, até porque nasci em Moçambique, onde deixei muitos amigos e o patrocínio de um prémio literário, e, sendo moçambicano, de nascimento, faço como eles, de quem costumávamos dizer que “o moçambicano não tem ronha”. Não ter ronha é não dizer hipocritamente que não existiram certas coisas que realmente existiram. 

Este livro de Manuel Fonseca é um livro de alguém que sabe não ser ingrato para com um continente onde teve uma infância e adolescência gostosas, onde viu coisas esplendorosas e coisas feiíssimas que o colonialismo produziu, sem esquecer, sendo embora discreto, as coisas igualmente feias que a independência trouxe. Porque trouxe, porque muito da elite independentista matou à toa e saqueou despudoradamente os cofres da nação (isto sou eu que digo e não o autor desta saborosa CRÓNICA DE ÁFRICA).

Recomendo, pois, este livro, porque é uma esbeltíssima narrativa, um documento precioso de um lugar e de uma época e porque, encarando a realidade com destemor, nada escondendo, não é um livro hipocondríaco nem hipocritamente autoflagelador. É um daqueles livros raros, dos quais, após a leitura, apetece dizer o que dizia Montherlant dos livros da grande Colette: “C’est ça!” 

Neste recomendável livro encontrei um único erro: quando Manuel Fonseca faz um comovente elogio ao seu Liceu Salvador Correia de Sá, considerando-o o melhor Liceu do mundo, vejo-me obrigado a corrigi-lo, visto que é do conhecimento universal que o melhor Liceu do mundo foi o Liceu que frequentei em Lourenço Marques – o Liceu desafortunadamente apelidado de Liceu Salazar. Mais: é também sabido que o segundo melhor, tenha ele sido qual fosse, ficou a grande distância do melhor. 

Perdoe-me o meu amigo, autor deste belíssimo livro, corrigir este lapso mínimo. Bairrismo com bairrismo se paga!

Eugénio Lisboa

A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)

Segundo texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos  doo Professor António Galopim de Carvalho (em continuação do anter...